A Rainha Descalça
Cápitulo 9
Na ciganaria, Caridad se dedicou a torcer o tabaco e fazer charutos. Tom ás instalou-a no barraco de um casal j á velho, ásperos e m al-encarados am bos, que viviam sozinhos e aos quais sobrava algum espaço; tam bém lhe proporcionou todos os instrum entos necessários para seu trabalho, m as, acim a de tudo, foi quem a defendeu da agressividade com que a recebeu Ana assim que a viu chegar acom panhada de Milagros.
– Sobrinha! – gritou-lhe Tom ás interpondo-se entre as m ulheres e suj eitando-a pelos pulsos para im pedir que continuasse a bater em Caridad, que aceitava encolhida, tentando defender a cabeça, os gritos e os golpes da cigana. – Assim que regresse, Melchor decidirá o que se deve fazer com a negra. Enquanto isso… Enquanto isso – repetiu sacudindo-a para que o escutasse –, ela se dedicará ao tabaco; foi isso o que teu pai ordenou.
Ana, congestionada, conseguiu lançar um a cusparada no rosto de Caridad.
– Não penso vender um só dos charutos feitos por esta negra! – afirm ou soltando-se de Tom ás. – Que te apodreçam todos, e tu com eles!
– Mãe! – exclam ou Milagros ao vê-la fugir em direção a Triana.
A m oça se apressou atrás dela.
– Mãe. – Tentou detê-la. – Caridad não fez nada – insistiu a m oça puxando-a pela roupa. –
Não tem culpa de nada.
Ana a afastou com um tapa e continuou seu cam inho.
Milagros a contem plou afastar-se e depois voltou aonde j á se havia reunido um bom núm ero de ciganos. As lágrim as corriam -lhe pelas faces.
– Nem m ula com tacha, nem m ulher sem raça! – sentenciou o tio Tom ás. – Igual ao pai: um a Vega. Já lhe passará. – Milagros ergueu os olhos para ele. – Dá tem po ao tem po, m enina. A questão da negra não é um a questão de honra cigana: vai passar-lhe.
E, enquanto Caridad, encerrada na choça, se aplicava a escolher e tirar as nervuras grossas das folhas de tabaco, um edecê-las e secá-las devidam ente, cortá-las, torcê-las e rem atar a ponta dos charutos com fios, Milagros aprendia os rudim entos das poções e rem édios da curandeira seguindo-a aonde quer que fosse: para recolher ervas nos cam pos ou para visitar algum doente.
A velha María não consentia à m oça o m enor deslize ou desatenção, e a controlava e subm etia à sua vontade com sua sim ples presença. Depois, de noite, perm itia-lhe desfrutar de alguns m om entos de descanso que Milagros aproveitava para correr em busca de Caridad; então as duas se afastavam da ciganaria e se perdiam em conversas ou sim plesm ente em fum ar e olhar para o céu estrelado.
– Tu os roubas ao avô? – perguntou um a noite a m oça depois de dar um a forte puxada, as duas sentadas, j untas, na ribeira do Guadalquivir, perto do desconj untado em barcadouro de uns pescadores, ouvindo o m urm úrio das águas.
Caridad deteve no ar a m ão com que ia pegar o charuto que a outra lhe passava. Roubar?
– Sim ! – exclam ou Milagros diante da dúvida da am iga. – Sim , tu os roubas! Não acontece nada, não te preocupes, não o direi a ninguém .
– Eu não… Não os roubo!
– Então com o o explicas? Se o tabaco não é teu…
– É m inha fuma. Pertencem -m e.
– Pegue-o logo – insistiu a cigana aproxim ando-lhe o charuto. Caridad obedeceu. – Que é isso de tua fuma?
– Se eu os faço… posso fum ar, não? Além disso, estes não são de tabaco torcido, só uso as nervuras das folhas e os restos, tudo picado e envolto num a capa. Na veiga era assim . O senhor nos dava a fuma.
– Cachita, isto não é a veiga, e tu não tens senhores.
Caridad exalou um as longas volutas de fum aça azulada antes de falar.
– Então, não posso fum ar?
– Tu faz o que quiseres, m as, assim que deixares de trazer tua fuma, não voltarei a ver-te. –
Caridad ficou em silêncio. – É brincadeira, negra! – A cigana soltou um a gargalhada, abraçou a am iga e a sacudiu. – Com o queres que deixe de ver-te? Não poderia!
– Eu tam pouco… – Caridad hesitou.
– Quê? – incitou-a a m oça. – Quê? Di-lo logo, Cachita!
– Eu tam pouco poderia – conseguiu dizer em um a só lufada.
– Por todos os deuses, santos, virgens e m ártires do céu inteiro, j á era hora!
Milagros, ainda com o braço envolvendo as costas de Caridad, trouxe-a para si. A outra se deixou levar desaj eitadam ente.
– Já era hora! – repetiu a cigana dando-lhe um sonoro beij o no rosto. Depois tom ou seu braço e a obrigou a passá-lo por cim a de seus próprios om bros enquanto ela a segurava pela cintura. Caridad esqueceu até o charuto que m antinha entre os dedos, e Milagros não quis rom per o encantam ento e deixou passar o tem po, sentindo sua am iga apertar o abraço, am bas com o olhar nas águas do rio. Tam pouco quis que Caridad notasse o choro que ela continha a duras penas.
– Tua m ãe? – surpreendeu-a Caridad, no entanto, perguntando na noite, com a voz posta no rio.
– Sim – respondeu Milagros.
Ana não havia tornado a pôr os pés na ciganaria; ela não podia fazê-lo no beco.
– Sinto m uito – culpou-se a outra, e estreitou o abraço quando Milagros não conseguiu evitar o pranto.
Quão distantes ficavam aquelas m esm as lágrim as que ela havia vertido no dia em que a separaram de sua m ãe e dos seus enquanto a m antiveram à espera da em barcação na feitoria, m isturada com centenas de desgraçados iguais a ela; durante a travessia…?
Deteve suas recordações ao notar que o charuto a queim ava; puxou de novo. Em Cuba procurava o espírito de sua m ãe nas festas, quando a m ontava algum dos santos, m as aqui, na Espanha, só tentava recordar seu rosto.
Milagros e Caridad foram aprofundando seu carinho, m as aquelas escapadas noturnas term inaram logo.
– Menina – deteve-a a curandeira num a dessas noites, quando ela j á ia deixar a choça.
Milagros se voltou para o interior. – Escuta-m e: não te separes dos teus, dos ciganos.
Sim ilar m ensagem recebeu esse dia Caridad da parte de Tom ás.
– Negra – advertiu-a após entrar na choça, quando ela envolvia com cuidado o conteúdo de um charuto: – não deves afastar Milagros de seus irm ãos de sangue. Entendes a que m e refiro? –
Caridad parou o labor de seus longos dedos e anuiu sem levantar a cabeça.
A partir desse dia as duas passearam pela rua da ciganaria sem afastar-se, Caridad atrás da m oça, convertida em sua som bra, m isturando-se com os que, à porta de suas choças, conversavam , j ogavam , bebiam , fum avam ou, sobretudo, cantavam , um as vezes acom panhados pelas guitarras, outras ao sim ples som do bater de m ãos em qualquer obj eto, na m aior parte dos casos ao calor de sim ples bater de palm as. Caridad havia presenciado algum as das celebrações do Beco de San Miguel, m as na ciganaria era diferente: os cantos não se convertiam num a festa nem num a com petição. Eram sim plesm ente um a form a de vida, algo que se fazia com a m esm a naturalidade que com er ou dorm ir; cantava-se ou dançava-se e depois se voltava à conversa para voltar a cantar ou para levantar-se todos de suas cadeiras e ir anim ar e aplaudir duas garotas quase nuas que dançavam j á com certa graça.
Caridad tem eu que lhe pedissem que cantasse. Ninguém o propôs, nem sequer Tom ás.
Adm itiam -na, com certos receios, certam ente, m as o faziam : era a negra do avô Melchor; ele decidiria ao voltar. Por seu lado, Milagros costum ava andar entristecida; tinha saudade dos pais, do avô e das am igas do beco. Contudo, o que m ais a atorm entava era a luta interna que travava.
Havia chegado a pôr Alej andro num pedestal para desculpar um a m orte que sabia originada por um capricho seu e, no entanto, seguia pensando em Pedro García dia e noite… Que estaria fazendo? Onde andaria? E o m ais im portante: qual de suas am igas se haveria lançado atrás de seus favores? Alej andro estava atento a ela e conhecia seus desej os, os fantasm as sabiam tudo, havia-lhe dito Caridad, m as tanto a carcom ia im aginar Pedro García adulado pelas outras m oças que afastava tais sensações e aproveitava qualquer m andado externo da velha María para rondar com dissim ulação o beco de San Miguel.
Viu m uitos ciganos, tam bém suas am igas. Um dia teve de esconder-se apressadam ente num portão com o coração batendo com força diante da presença de sua m ãe. Saía para vender tabaco, certam ente. “Deveria estar com ela, acom panhá-la”, pensou ao contem plar seu andar resoluto e indolente. Secou um a lágrim a. Num a ocasião viu Pedro, m as não se atreveu a ir a seu encontro. Voltou a vê-lo outro dia: cam inhava j unto a um de seus tios em direção à ponte de barcos, tão guapo e elegante com o sem pre. Milagros se havia recrim inado m il vezes não o ter abordado naquele outro dia. A condenação do conselho de anciãos, repetiu-se, era o perm anecer j unto à curandeira sem poder entrar no beco. Mas por acaso não a m andava a velha María fazer com pras em Triana com toda a liberdade? Correu por um a rua paralela para aquela pela qual estava andando o cigano, circundou um a quadra de casas e antes de virar a esquina tom ou ar, alisou a saia e o cabelo. Estava bonita? Quase deu de cara com eles.
– Tu não terias de estar na ciganaria, com a curandeira? – espetou-a o tio de Pedro assim que a viu.
Milagros hesitou.
– Vai-te daqui!
– Eu…
Queria olhar para Pedro, m as os olhos do tio deste a m antinham acorrentada!
– Não m e ouviste? Fora!
Baixou a cabeça e os deixou para trás. Ouviu que falavam ao reiniciar a m archa. Teria gostado de que Pedro se houvesse dado ao trabalho de olhá-la.
– Tendes de fazê-lo!
O grito da velha María ressoou no interior da m orada. José Carm ona e Ana Vega evitaram olhar-se por cim a da m esa à que os três se haviam sentado quando um a m anhã a curandeira apareceu de im proviso em sua casa.
Nenhum dos esposos havia ousado interrom per as palavras da velha María.
– A m enina está m al – advertiu-os. – Não com e. Não quer com er – acrescentou com a im agem na m ente dos pôm ulos salientes da cigana e o nariz cada vez m ais afilado desde seu frustrado encontro com Pedro. – É só um a m oça que com eteu um erro. Por acaso vós não com etestes nenhum ? Ela não podia prever as consequências. Sente-se sozinha, abandonada. Já nem sequer encontra consolo na negra. É vossa filha! Consom e-se dia a dia a olhos vistos, e eu não tenho rem édio para as doenças da alm a.
Ana m exeu com as m ãos, e José esfregou repetidam ente boca e queixo quando a curandeira se referiu a eles.
– Vossos problem as não devem afetar a m enina; ela não tem culpa do que sucede entre vós.
José fez m enção de intervir.
– Não m e interessa – adiantou-se-lhe a cigana. – Não pretendo resolver vossas desavenças, nem sequer aconselhar-vos. Não é m inha intenção fuçar os m otivos que vos levaram a esta situação; só desej o saber: não am ais vossa filha?
E após aquela reunião, num am eno anoitecer de fins de setem bro, Ana e José Carm ona apareceram na ciganaria. Caridad os viu antes de Milagros.
– Teus pais – sussurrou à cigana apesar da distância a que ainda se achavam eles.
Milagros ficou im óvel; alguns dos rapazes com quem estava conversando se calaram e seguiram seu olhar, cravado em Ana e José, que se aproxim avam pela rua, entre choças e chamizos, saudando a quantos perm aneciam sentados à sua porta passando o tem po. A m ãe aproveitou que José se deteve com um conhecido, adiantou-se e abriu os braços a um par de passos de Milagros, que não necessitou m ais e se lançou a eles. Caridad sentiu um nó na garganta, os rapazes respiraram , e até houve quem , das choças, aplaudiu.
José se aproxim ou delas. Milagros hesitou diante da chegada de seu pai, m as o em purrão que lhe deu Ana pelas costas a anim ou a andar para ele.
– Perdão, pai – sussurrou.
Ele a olhou de alto a baixo, com o se não a reconhecesse. Pôs a m ão no queixo, com gravidade sim ulada, e voltou a escrutar a filha.
– Pai, eu…
– Que é isso aí? – gritou ele.
Milagros se virou aterrada para onde ele apontava. Não havia nada de anorm al, nada de inusual.
– Não… o quê? A que se refere?
Alguns ciganos m ostraram curiosidade. Um deles se levantou e fez m enção de aproxim ar-se do lugar que José assinalava.
– Refiro-m e a isso! Isso, não vês?
– Não! Quê?! – gritou a m oça buscando a aj uda da m ãe.
– Aquilo, m enina – disse-lhe esta indicando um a cadeira vazia à porta de um a das choças.
– Essa cadeira?
– Não – respondeu a m ãe. – A cadeira, não.
Apoiada na cadeira descansava um a velha guitarra. Milagros se voltou para o pai com um sorriso na boca.
– Não te perdoarei – disse ele – enquanto não conseguires que todos os ciganos deste horto se rendam a teu encanto.
– Vam os lá! – aceitou Milagros ao m esm o tem po que se erguia altiva.
– Senhores! – uivou então José Carm ona. – Minha filha vai dançar! Preparem -se os senhores para contem plar a m ais bela das ciganas!
– Há vinho? – ouviu-se de um a das choças.
A velha María, que havia presenciado o ocorrido e arrastava j á um desconj untado tam borete até o lugar onde se encontrava a guitarra, soltou um a gargalhada.
– Vinho? – explodiu Ana. – Quando vires m inha m enina dançar, roubarás toda a uva da veiga de Triana para oferecer-lhe.
Essa noite, com Caridad presente, olhando de atrás dos ciganos, tentando reter um as pernas que ansiavam ir ao som da m úsica e a alegria que via transbordar de Milagros, José Carm ona não teve outra saída senão cum prir sua palavra e perdoar a filha.
Após a festa, a vida seguiu transcorrendo na ciganaria do horto da Cartuxa de Triana. Ana consentiu em vender os charutos feitos por Caridad, num a espécie de trégua após o ataque de cólera com que a havia recebido; isso a obrigava a ir com frequência ver a filha. Caridad, por seu lado, viu aum entar seu trabalho quando Frei Joaquín apareceu com um par de sacos de couro do tabaco descarregado nas praias de Manilva.
– Tu m e deves isso – lim itou-se a dizer a Tom ás. O cigano fez m enção de retrucar, m as Frei Joaquín não o perm itiu: – Deixem os as coisas com o estão, Tom ás. Eu sem pre confiei em vós; Melchor nunca m e faltou, e quero pensar que tivestes algum problem a que sei que nunca m e revelareis. Tenho de recuperar o dinheiro da com unidade, entendes? E os charutos que Caridad faz aum entam o valor do tabaco.
Depois foi vê-la.
– A Candelária está há m uito tem po esperando tuas visitas – espetou-a assim que entrou na choça.
Caridad se levantou da cadeira em que trabalhava, j untou as m ãos diante de si e baixou o olhar ao chão. O dom inicano olhou de soslaio para os dois velhos com que ela com partilhava a habitação. Estranhou-o ver Caridad com suas velhas roupas de escrava. Recordava-a vestida de verm elho, aj oelhada diante da Virgem , m ovendo-se ritm icam ente de frente para trás quando pensava que ninguém a observava. Sabia, por irm ãos que haviam vivido em Cuba, do sincretism o entre as religiões africanas e a católica, bem com o da tolerância da própria Igrej a.
“Ao m enos creem e vão às cerim ônias religiosas!”, havia ouvido em num erosas ocasiões, e era verdade: Caridad ia à igrej a, enquanto a m aioria dos ciganos não punha os pés nela. Que haveria sido de suas roupas verm elhas? Não quis perguntar-lhe.
– Trouxe m ais tabaco para que o trabalhes – anunciou-lhe, pelo contrário. – Por cada atado de cinquenta charutos que fizeres, um será para ti. – Caridad se surpreendeu olhando o frade, que lhe sorriu. – Um dos bons, dos torcidos, dos que fazes com folha, não dos restos.
– E para nós, que a acolhem os em casa, não há nada? – interveio o cigano velho.
– De acordo – aceitou o religioso após deixar transcorrer alguns segundos –, m as vós dois tereis de ir à m issa todo dom ingo, e nos dias de preceito, e rezar o rosário pelas alm as do purgatório, e…
– Já som os velhos para ir de um lado para outro – saltou a esposa. – A Vossa Paternidade não bastaria um a oraçãozinha nas noites?
– A m im , sim , ao de cim a, não – sorriu Frei Joaquín dando por encerrado o assunto. – Estás bem , Caridad? – Ela voltou a anuir. – Voltarei a ver-te por São Jacinto?
– Sim – afirm ou com um sorriso.
– Espero-o.
Faltava-lhe Milagros. Despediu-se e ainda não havia chegado a sair da choça quando ouviu os ciganos exigir de Caridad que os fizesse partícipes daqueles prom etidos charutos torcidos.
Estalou a língua; não lhe restava dúvida de que cederia. Perguntou pela choça da curandeira, e assinalaram -na. Sabia do ocorrido na olaria porque grande havia sido o alvoroço em Triana.
Rafael García se ocupou de que ninguém falasse diante das autoridades do assassinato do rapaz cigano nem do incêndio: aos ciganos ordenou-o através dos diversos patriarcas das fam ílias; aos payos que haviam presenciado ou intervindo na pelej a fez chegar algum as m ensagens intim idativas que foram suficientes: nenhum deles queria term inar fugindo na noite, arruinado, com o havia sucedido ao oleiro que disparara contra o rapaz cigano. Contudo, os rum ores se difundiram tão rápido com o ardeu a oficina do ceram ista, e a Frei Joaquín encolheu-se-lhe o estôm ago ao saber da intervenção de Milagros. Rezou por ela. Afinal conseguiu inteirar-se da decisão tom ada no conselho de anciãos em razão da intervenção daquela velha cigana e voltou a prostrar-se para agradecer à Candelária, a Santa Ana e a São Jacinto o benigno castigo a que a condenaram . As noites faziam -se-lhe eternas diante do tem or de que a expulsassem de Triana e ele não voltasse a vê-la!
“Por que não consegui pegar no sono durante estes dias?”, perguntou-se pela enésim a vez ao afastar a cortina e passar distraído sob o lintel da porta do barraco que lhe haviam indicado.
Milagros e a velha María se achavam inclinadas sobre um a m esa classificando ervas; as duas viraram o rosto para o recém -chegado. De repente a insônia j á não lhe im portava; toda preocupação se desvaneceu diante do m aravilhoso sorriso com que lhe instou ela.
– Com Deus sej ais – cum prim entou o religioso sem aproxim ar-se, com o se pretendesse não perturbar o trabalho que as m ulheres estavam realizando.
– Padre – respondeu a velha María após exam inar o frade por alguns segundos –, estou há m ais de cinquenta anos esperando que esse Deus de que o senhor fala se dignasse a vir a este chamizo para conceder-m e algum a graça que m e livre por fim da pobreza. Sonhei com as m il m aneiras com o podia suceder: rodeado de anj os ou através de algum dos santos. – A velha ergueu as m ãos e as fez revolutear no ar. – Envolto num a luz ofuscante… Enfim – acrescentou dando de om bros –, o fato é que nunca cheguei a pensar que o faria através de um frade que ficasse plantado na entrada com o um bobo com cara de pasm o.
Frei Joaquín tardou a reagir. O riso contido de Milagros fez com que ele se ruborizasse. Cara de pasm o! Ergueu-se e adotou um sem blante sério.
– Mulher – anunciou com um a voz m ais forte do que teria desej ado –, quero falar com a m oça.
– Se ela concordar…
Milagros se levantou sem pensar, aj eitou a saia e o cabelo e dirigiu-se para o pregador com um esgar zom beteiro no sem blante. Frei Joaquín lhe deu passagem .
– Padre – cham ou então a velha María –, e m inhas riquezas?
– Crer que Deus te visitará algum dia é a m aior riqueza a que ninguém pode aspirar neste m undo. Não pretendas outras.
A cigana deu um tapa no ar.
Milagros esperava o frade na rua.
– Para que quer falar com igo? – soltou-lhe com certo salam aleque, sem cessar, porém , a expressão de troça.
Para que queria falar com ela? Havia ido à ciganaria pelo tabaco e…
– De que te ris? – perguntou ele para escapar à resposta.
Milagros arqueou as sobrancelhas.
– Se se houvesse visto ali dentro…
– Não sej as im pertinente! – rem exeu-se o frade. Sem pre tinha que ficar com o um bobo diante daquela m oça? – Não te confundas… – tentou defender-se –, m inha expressão só era… por verte ali fazendo poções com ervas. Milagros…
– Frei Joaquín – interrom peu-o ela arrastando as palavras.
Mas o religioso j á havia encontrado a escusa para sua intem pestiva visita. Ergueu-se sério e andou pela rua com a m oça ao lado.
– Não gosto do que estás fazendo – recrim inou-a. – Por isso queria falar contigo. Sabes que a Inquisição vigia as bruxas…
– Ah! – soltou a m oça.
– Não o leves na brincadeira.
– Nem sou bruxa nem m e preparo para isso. A velha María não o é nem quer sê-lo, e tam pouco está de acordo com os feitiços para enganar os payos. O senhor sabe, os tesouros ocultos, os am avios não são m ais que arm adilhas para tirar dinheiro das incautas. Ela só se dedica a curar com ervas…
– É algo parecido. E quanto ao m au-olhado? – Milagros fechou o rosto. – Sabias que a Inquisição acaba de deter um a cigana por pôr m au-olhado no gado, aqui, em Triana?
– Anselm a? Sim , eu a conheço. Mas tam bém dizem dela que faz feitiços para retirar o leite das m ães payas e que a viram nua, m ontada num pedaço de pau, e sair voando pelas j anelas. – Milagros calou-se por alguns segundos para verificar a expressão do religioso. – Nua e voando m ontada num pedaço de pau! O senhor pode acreditar nisto? É tudo m entira. Não é bruxa. O
senhor sabe o que tem de acontecer para que um a cigana se converta em bruxa?
O frade, com o olhar na terra do cam inho pelo qual seguiam avançando, m eneou a cabeça.
– As bruxas se transform am durante a j uventude – explicou Milagros –, e todo m undo sabe que Anselm a Jim énez não foi um a das eleitas. Existem uns dem ônios da água e da terra que elegem um a j ovem cigana e, enquanto dorm e, fornicam com ela. Esse é o único m eio de converter-se num a verdadeira bruxa: depois de fornicar, a cigana adquire os poderes do dem ônio que se deitou com ela.
– Isso significa que tendes bruxas – redarguiu o religioso após deter seus passos repentinam ente.
Milagros franziu o cenho.
– Mas eu não o sou. Nenhum dem ônio fornicou com igo. E não é necessário que a j ovem trabalhe com ervas – adiantou-se com um trej eito à m enção do frade de intervir –, não tem nada que ver: qualquer j ovem pode ser a eleita.
– Continua sem agradar-m e, Milagros. Tu… tu és um a boa m oça…
– Não posso fazer outra coisa. Suponho que sabe a sentença do conselho de anciãos.
– Sim , sei – anuiu ele. – Mas poderíam os encontrar outra solução… Se tu quisesses…
– Monj a, quem sabe? Eu m e casaria? Conseguiria um bom dote de algum de seus piedosos fiéis? Sabe que nunca poderia casar-m e com um payo. Frei Joaquín, sou cigana.
E se o era, teve de aceitar a contragosto o religioso, perturbado diante do atrevim ento e da soberba com que Milagros se dirigia a ele. Transcorreram os segundos, os dois parados quase onde a rua da ciganaria se internava nos hortos, ela tentando adivinhar o que era que passava pela cabeça do frade, ele com o m artelar de suas últim as palavras: “nunca poderia casar-m e com um payo”. Algum as m ulheres que confeccionavam cestas à porta de suas choças e que até então só os haviam olhado de soslaio detiveram as hábeis m ãos e se fixaram na situação.
– Frei Joaquín – advertiu-o Milagros num sussurro –, as m ulheres estão reparando em nós.
– Sim , sim , claro – reagiu o religioso.
E em preenderam a volta.
– Frei Joaquín…
– Sim ? – perguntou ele diante do silêncio que se seguiu.
– O senhor crê que algum de seus fiéis estaria disposto a dar-m e um dote para casar-m e?
– Eu não disse… – Hesitou.
Que pretendia Milagros? A últim a coisa que lhe passaria pela cabeça seria buscar um esposo para ela; havia sabido da m orte de Alej andro, seu prom etido, e ainda lhe rem ordia o sentim ento de… alegria? “Com o posso alegrar-m e com a m orte de um rapaz?”, torturava-se e torturava-se no silêncio de suas noites.
– Encontrá-lo-íam os – afirm ou porém para com prazê-la, sem sequer querer nem im aginá-lo
–, poderíam os…
Mas a m oça o deixou com a palavra na boca e escapou correndo para a choça da velha María.
Antes que o frade com preendesse o que sucedia, Milagros havia regressado, correndo de novo, e se deteve diante dele, ofegante, oferecendo-lhe as roupas verm elhas de Caridad cuidadosam ente dobradas.
– Se é capaz de conseguir um dote… poderia conseguir que algum a de suas fiéis arrum asse as roupas de Cachita?
Frei Joaquín pegou as peças de roupa e riu, e o fez para não acariciar o rosto trigueiro da m oça ou seu cabelo adornado com fitas, para não a pegar pelos om bros e trazê-la a si, e beij á-la na boca, e…
– Com certeza, Milagros – afirm ou desterrando aqueles desej os.
Caridad trabalhava por tarefa. Os velhos com que vivia a tratavam com indiferença, com o se não fosse m ais que um obj eto, nem sequer incôm odo. Os dois dorm iam num a desconj untada cam a com pés de que a velha se orgulhava a todo m om ento; era seu bem m ais valioso, j á que naquele barraco havia pouco m ais que um a m esa, tam boretes e um rudim entar fogão para cozinhar. Indicaram -lhe um lugar no chão de terra para estender o colchão que lhe dera Tom ás, e não lhe davam de com er a não ser que este os abastecesse previam ente dos alim entos necessários. Até as velas a cuj a luz trabalhava Caridad de noite, Tom ás as tinha de proporcionar.
“Se faltar um a só folha de tabaco”, advertia m olestam ente o cigano aos velhos sem pre que ia à choça, “eu vos corto o pescoço.” No entanto, de quando em quando, Caridad atendia suas constantes e insistentes queixas e lhes dava algum dos charutos de sua fuma, e via que o com partilhavam com avidez, apesar de seus lam entos por ter de fum ar charutos feitos com as nervuras e os restos das folhas. Mas nem assim conseguiu Caridad conquistá-los, e apesar de os velhos crerem que todos os charutos que Caridad furtava para sua fuma fossem para eles; em verdade, os que fum ava com Milagros ela escondia, com o fazia na veiga para que os dem ais escravos não os roubassem .
Com o transcurso do tem po, Caridad com eçou a sentir nostalgia das noites do Beco de San Miguel, quando Melchor lhe pedia que cantasse e depois dorm ia a suas costas, tranquilo, confiante, e ela podia trabalhar e fum ar ao m esm o tem po, notando com o a fum aça irrom pia em seus sentidos e a transportava a um estado de placidez em que não existia o tem po. Era então que o labor de seus longos dedos enquanto cortava, m anej ava e torcia as folhas se confundia com o rum or de seus cantos, com os arom as e suas recordações, com a respiração do cigano… e com aquela liberdade de que lhe havia falado Milagros e que agora parecia esfum ar-se num a choça estranha.
“Onde estará Melchor?”, pensava no silêncio das noites.
Um a entusiasm ada e suarenta Milagros, num descanso durante a festa em que seu pai havia tido de perdoar-lhe, havia-lhe falado dele.
– Tenho notícias do vovô – com entou. – Chegou um cigano de Antequera que se dedica à ferraria am bulante. Necessitava que lhe falsificassem um a nova cédula ou algo assim , não sei bem … Bem , a questão é que topou com vovô enquanto trabalhava na zona de Osuna e estiveram alguns dias j untos; diz que ele está bem .
Caridad fez a m esm a pergunta com que Milagros prorrom peu diante de sua m ãe depois de esta lhe contar do ferreiro am bulante: “Nenhum recado?” A m oça, por seu lado, utilizou com Caridad a irônica resposta que lhe dera sua m ãe: “Do avô?” Desde então Caridad não sabia dele. Sabia, sim , de seu obj etivo, havia falado dele com Milagros: m atar o Gordo. “Já o verás! Não conheces o avô; não há hom em neste m undo que possa roubá-lo e sair-se bem !”, acrescentou com orgulho. Essa predição de Milagros perseguia Caridad. Ela havia visto os hom ens do Gordo, seus lugar-tenentes, seu exército de contrabandistas, com o ia Melchor enfrentar a todos eles? Não o disse à m oça, m as toda noite recordava a j aquetinha de seda azul-celeste, brilhava diante dela com o se ela pudesse tocá-la com um sim ples estender da m ão! Esse m esm o azul que a havia guiado até a ciganaria quando Eleggua decidira perm itir-lhe viver, a j aquetinha que o cigano pendurava num prego enferruj ado antes de deitar-se de noite e na qual ela pousava o olhar de vez em quando. Caridad desfrutava m elancolicam ente da lem brança de sua insolência e de seu andar lento e arrogante. Eram de outra raça, com o nunca se cansavam de repetir; porventura não o havia dem onstrado Melchor no mesón de Gaucín ao desafiar ao m ochileiro? E o havia feito por ela! Ainda assim , com o poderia o avô vencer o exército do Gordo? Se ela houvesse… Não sabia que pretendiam roubar-lhe o tabaco! Contudo, que poderia haver feito diante de um branco?
Foi a São Jacinto, aj oelhou-se diante da Virgem da Candelária e suplicou a Oiá por Melchor Vega. “Deusa m inha”, m urm urava, seus dedos esm igalhando parte de um a folha de tabaco sobre o chão com o oferenda, “que não lhe suceda nada de m au. Devolve-m o, por favor.” Nesse dia voltou à ciganaria com três bons charutos que lhe dera Frei Joaquín em pagam ento de seu trabalho.
– Vende-os, Cachita – propôs-lhe Milagros. – Ganharás um bom dinheiro por eles.
– Não – m urm urou Caridad. – Estes fum arem os tu e eu.
– Mas te pagariam m uito… – replicou a cigana quando a outra j á preparava a pederneira e a isca.
Caridad deteve as m ãos experientes e fixou o olhar em Milagros.
– Eu não entendo de dinheiro – arguiu.
– E de que…?
Interrom peu sua pergunta; os olhinhos de Caridad, a necessidade de afeto que revelava toda ela lhe respondia em silêncio. Milagros lhe sorriu com ternura.
– Sej a, então – sentenciou.