A Rainha Descalça
VI - Queixa de galé
VI
Q UEIXA DE G ALÉ
Cápitulo 46
Oúnico plano que Melchor tinha em m ente era entrar em Triana pelo cam inho que provinha de Cam as e atravessar até chegar à entrada do beco de San Miguel. E foi esse plano o que ele executou após um a sem ana de viagem , por m ais dúvidas e inconvenientes que ao longo desses dias opusessem tanto Milagros com o o religioso, que, apesar disso, seguiram seus passos através do arrabalde sevilhano.
O sol de início de verão estava no alto e arrancou cintilações dos dourados da j aqueta verm elha do cigano. Parado na entrada do beco, diante dos outros e com Caridad a seu lado, Melchor acariciou o cabo da navalha que sobressaía de sua faixa enquanto alguns hom ens e m ulheres o olhavam surpresos e outros corriam para as ferrarias e para o cortiço para advertir de sua chegada.
Pouco depois cessava o bater dos m artelos sobre o ferro. Os ferreiros saíram às portas das forj as, as m ulheres assom aram às j anelas, e a criançada, contagiada pela tensão que percebia em seus m ais velhos, suspendeu suas brincadeiras.
Caridad reconheceu alguns hom ens e m ulheres e pouco a pouco, à m edida que se calavam os rum ores, chegou a ouvir o silêncio. Naquele beco havia com eçado tudo, e ali term inaria tudo, lam entou. De repente se sentiu forte, invencível, e se perguntou se era isso o que sentia Melchor, o que o levava a agir com o estava fazendo, desprezando o perigo. Havia chegado a hesitar diante das constantes queixas de Milagros e do frade ao longo do cam inho; suas advertências estavam tingidas de um tem or que tam bém ela com partilhava. Não falou, não confessou seus m edos, apoiou Melchor com seu silêncio, e agora, rendida ao destino que esperava a seu hom em , e provavelm ente tam bém a ela, diante de hom ens e m ulheres que m udavam em cólera seu inicial sem blante de surpresa, acreditou entender por fim o caráter do cigano. Ergueu-se e sentiu seus m úsculos tensos. Estranhando seu próprio aprum o, com partilhou o desafio de Melchor. Viveu o presente, o próprio instante, alheia por com pleto ao que pudesse suceder no seguinte.
– Cigano. – Melchor não se m exeu, m as ela soube que a escutava: – Eu te am o.
– E eu a ti, negra. Sentirei saudade dos teus cantos no inferno.
Caridad ia responder quando o que esperavam dos do beco se produziu: Rafael García, o Conde, e sua esposa, Rey es, a Trianeira, abriam cam inho lentam ente para eles, os dois envelhecidos, encurvados, seguidos por vários m em bros da fam ília dos Garcías e outros ciganos que se iam j untando. Caridad e Melchor aguardaram parados; Milagros, atrás, retrocedeu; procurava a Pedro com olhos inquietos. Não o via. Frei Joaquín tentava m anter firm e a Im aculada, que escorregava de suas m ãos suarentas. O aparecim ento do patriarca deu coragem aos dem ais. “Assassino!”, ouviu-se dentre eles. “Filho da puta!”, insultou alguém a Melchor.
“Seu cão!” Um grupo de m ulheres se aproxim ou de Milagros e cuspiu a seus pés ao grito de
“Ram eira!”. Um a velha tentou agarrá-la pelo cabelo, e ela se encostou a Frei Joaquín, que conseguiu espantar a agressora. Os im propérios, as am eaças e os gestos obscenos continuaram enquanto o Conde avançava para Melchor.
– Venho para m atar teu neto – soltou este acim a da gritaria antes que os outros chegassem até ele.
Ao ouvir as palavras frias, aceradas e pungentes de Melchor, Caridad cerrou os punhos. No entanto, a am eaça não am edrontou o patriarca, que, sabendo-se protegido, continuou andando com o rosto im passível e os olhos cravados em Melchor.
– Um condenado à m orte com o tu… – replicou Rafael García antes que os gritos das pessoas voltassem a atroar no beco.
– Matem o-lo!
Caridad se virou para Melchor quando j á alguns dos ciganos se dirigiam para eles entre m aldições e j uram entos. Com o pretendia enfrentar o beco inteiro?
– Melchor – sussurrou. Mas ele não se m exeu; perm anecia parado, tenso, desafiador.
Caridad estrem eceu diante de seu arroj o.
– Cigano! – exclam ou ela então com a voz m uito clara e potente. – Cantarei para ti no inferno!
Ainda não havia term inado a frase quando ele afastou com um tapa um hom em que j á os alcançava e se abalançou a Rafael García, a quem derrubou. O ataque surpreendeu os ciganos, que, atentos a Melchor, tardaram a reagir. Enredados no chão, Caridad rebuscou com frenesi a navalha que havia visto reluzir na faixa do patriarca. Mataria por seu hom em !
Melchor tam bém se viu surpreendido pela inesperada acom etida de Caridad. Tardou alguns segundos a em punhar sua navalha e pô-la diante de vários ciganos que o rodeavam . Tentou pensar, m anter-se frio, com o sabia que devia fazer diante das arm as que se lhe opunham , m as a gritaria que lhe chegava de trás de seus oponentes, onde estava Caridad, nublou seus sentidos e o levou a perder-se num sem -fim de navalhadas a torto e a direito para abrir cam inho até ela.
– Queres que m atem os tua negra agora m esm o?
Melchor nem sequer ouviu a am eaça. Então os ciganos que o rodeavam abriram um a passagem e ele se encontrou dando navalhadas no ar diante de um a Caridad que pugnava por safar-se dos braços de dois hom ens que a m antinham im obilizada. Deteve a últim a navalhada, de súbito, no m eio da traj etória.
– Continua! – exortou-o ela.
Alguém a esbofeteou. Melchor acreditou ouvir o silvar daquele braço no ar e sentiu o golpe, em si, com m aior ím peto que os que recebia do látego nas galés. Encolheu-se de dor.
– Continua, cigano! – gritou Caridad.
Ninguém a golpeou nesta ocasião. Melchor, transtornado diante da visão do filete de sangue que brotou da com issura dos lábios de Caridad e que percorria seu queixo, verm elho sobre negro, arrependeu-se de haver perm itido que ela o acom panhasse. Foram necessários m ais dois hom ens diante das violentas sacudidelas e gritos com que Caridad respondeu ao ver que outros se abalançavam a Melchor, indefenso e rendido, o desarm avam e, com o se se tratasse de um anim al a que levassem para o sacrifício, o tronco inclinado, o apresentavam , entre os vivas e aclam ações da ciganaria, diante de Rafael García, j á refeito do ataque.
– Sinto m uito, negra, perdoe-m e.
As desculpas de Melchor se perderam entre os soluços desta e as ordens com que o Conde recebeu seu inim igo.
– A puta! – gritou este apontando para Milagros. – Trazei-m e tam bém a puta!
As m ulheres que se encontravam j unto a Milagros se lançaram sobre ela e a atenazaram sem que ela opusesse resistência algum a, turbada a atenção em seu avô, frustradas suas esperanças ao ritm o de quatro sim ples gritos e outras tantas am eaças.
Frei Joaquín, carregando a im agem da Virgem , nada pôde fazer naquela ocasião e contem plou com o Milagros se deixava levar entre em purrões, gritos e cusparadas. De repente, hom ens e m ulheres fixaram a atenção no frade, que havia ficado sozinho na entrada do beco.
– Vá em bora, padre – urgiu com ele Rafael García –, este é um assunto entre ciganos.
Frei Joaquín se assustou diante do ódio e da ira que se refletia no sem blante de m uitos deles.
O tem or, no entanto, converteu-se em desassossego ao ver Milagros j unto a Melchor, cabisbaixa com o ele. Onde estavam as prom essas que ele havia feito à m oça?
– Não – replicou o frade. – Este é um assunto que com pete à j ustiça do rei, com o todos os que sucedem em suas terras, haj a ou não ciganos envolvidos.
Vários deles correram para ele.
– Sou um hom em de Deus! – conseguiu gritar Frei Joaquín.
– Parados!
A ordem de Rafael García deteve os hom ens. O patriarca entrefechou os olhos e buscou a opinião dos dem ais chefes de fam ília: os Cam achos, os Flores, os Rey es… Alguns m ostraram indiferença e deram de om bros, a m aioria negou com a cabeça. Era im provável que alguém do beco violasse a lei cigana e falasse de Melchor, de Milagros ou até de Caridad, pensou depois o Conde, e se o fizessem as autoridades não diriam um a palavra. Brigas de ciganos, seria sua conclusão. Mas a detenção de um religioso era diferente. Talvez um a das m ulheres ou algum a das crianças chegasse a revelá-lo, e então as consequências seriam terríveis para todos. Haviam trabalhado duro com a Igrej a; os j ovens iam aprender as orações, e o beco quase inteiro assistia à m issa sim ulando devoção. A confraria estava em m archa. Fazia m enos de um ano da aprovação por parte do arcebispo das regras da Irm andade dos Ciganos, e os problem as j á eram consideráveis. Não haviam conseguido estabelecer-se no convento do Espírito Santo de Triana e pretendiam fazê-lo no de Nossa Senhora do Povo. Não o conseguiriam se agostinianos sevilhanos se inteirassem daquilo. Necessitavam m anter boas relações com os que podiam encarcerá-los.
Não. Não podiam arriscar-se a ofender a Igrej a em um dos seus.
Rafael García fez um gesto para os hom ens, e estes se afastaram do religioso. No entanto, não pensava em fazer o m esm o com os Vegas…
– Solta-os – interrom peu seus pensam entos Frei Joaquín.
O Conde negou com a cabeça, teim oso, e então Rey es se aproxim ou e lhe falou ao ouvido.
– Ela – apontou para Milagros o patriarca depois de sua m ulher afastar-se – fica aqui com seu esposo, que é onde deve estar. Estou enganado, padre?
Frei Joaquín em palideceu e foi incapaz de responder.
– Não. Vej o que não m e engano. Quanto aos outros dois…
Rey es tinha razão: quem podia saber ou dem onstrar o assassinato de José Carm ona além dos ciganos? Ninguém o denunciou às autoridades, enterraram -no em vala com um , e o delito foi tratado na privacidade do conselho de anciãos. Em que podia intervir a j ustiça dos payos?
– Quanto a eles – repetiu com aprum o –, ficarão conosco até que os funcionários do rei de que fala Vossa Paternidade venham buscá-los. Com preenda-o – acrescentou, ufano, entre os sorrisos de alguns dos ciganos –, cuidam os de sua segurança. Poderiam fazer-lhe m al.
– Rafael García – am eaçou Frei Joaquín –, voltarei para buscá-los. Se algo lhes acontecer… – Hesitou, sabia que nada conseguiria sozinho, que necessitava de aj uda. – Se algo lhes acontecer, o peso da lei e da j ustiça divina cairá sobre ti. E sobre todos vós!