A Rainha Descalça
Cápitulo 28
Caridad cum pria o prim eiro ano de condenação no cárcere real da Galé. Naquela m anhã, trabalhando sentadas no chão da galeria em que dorm iam , Frasquita desviou a atenção do lençol para fixá-la em Caridad. Frasquita, que tinha m ais de cinquenta nos, sentiu um a sacudidela de ternura à vista daquela m ulher absorta na peça de roupa e que com dedos ágeis costurava sem cessar. Ela m esm a havia tentado m ortificá-la quando a tinham m andado de volta à Galera após a sentença ditada pela Sala de Alcaides. Toda m anhã, na fila que se form ava diante do urinol, punha-se j usto diante de Caridad para que esta despej asse suas expelições. E Caridad o fazia, sem queixar-se, até que conseguiu abrandá-la com sua paciência. E, no dia em que Frasquita decidiu pôr fim à hum ilhação e ocupou um lugar diferente na fila, Caridad a cham ou para que o fizesse no lugar que havia ocupado dia após dia. Talvez com outra reclusa houvesse respondido irada, m as aquele rosto arredondado e negro com o o azeviche lhe sorriu sem a m enor ponta de rancor, escárnio ou desafio. Ela se pôs onde lhe indicava Caridad, urinou, e ela m esm a lançou o líquido pela j anela ao grito de “Água vai!”. Muitas das dem ais reclusas agradeceram sua decisão; afinal de contas, diziam em silêncio, todas eram iguais: m ulheres que com partilhavam a desgraça.
E no entanto… a Caridad não a viam infeliz; havia-lhe confessado isso fazia tem po, quando Frasquita teve de explicar-lhe a razão das queixas de algum as das m ulheres.
– Não lhes assinalaram nenhum prazo de reclusão em suas sentenças. Estão há anos encarceradas sem saber quando as porão em liberdade. – Caridad anuiu com o se isso fosse norm al; para quem havia sido escrava, não era tão estranho. – Mas, ainda que te fixem um prazo – continuou a outra –, se não tens nenhum hom em respeitável que se encarregue de ti e responda por ti, tam pouco te deixam livre.
Caridad levantou o olhar do trabalho.
– É verdade – interveio Herm inia, um a m ulher loura e m iúda que havia ensinado Caridad a costurar.
As outras duas trocaram um olhar ao ver que Caridad retom ava o trabalho com o se pretendesse consolar-se com ele.
– Tens alguém lá fora? – inquiriu Herm inia.
– Não… não creio – respondeu ao fim de alguns instantes.
Na vida só havia tido sua m ãe, uns irm ãos e um prim eiro crioulinho dos quais a haviam separado, depois Marcelo, Milagros e Melchor… Fazia um ano que não sabia nada dele. Às vezes seus deuses lhe diziam que ele estava vivo, que estava bem , m as as dúvidas seguiam assaltando-a.
De vez em quando sentia um frio no estôm ago, m as as lágrim as que corriam por suas faces levavam para o esquecim ento as recordações felizes. Afinal de contas, que podia esperar um a escrava negra? Com o havia podido ser tão ingênua para fantasiar um futuro ditoso?
– Estou bem aqui – m urm urou.
Sim . Aquela form a de vida era a sua, a que conhecia e lhe correspondia, a que lhe haviam ensinado os brancos a lategadas: dorm ir, levantar-se, assistir à m issa, desj ej uar, trabalhar, com er, rezar… Cum prir um as obrigações m arcadas, rotineiras. Não tinha m aiores preocupações. Às vezes até podia fum ar. Aos sábados, as reclusas podiam costurar para si m esm as e ganhavam algum dinheiro, um a m iséria, m as suficiente para que o porteiro ou a “demandera”, a que fazia as com pras fora da Galera, lhes proporcionasse algum tabaco.
Além disso, desde que Frasquita lançara sua própria urina pela j anela, a m aioria das dem ais reclusas parecia havê-la aceitado.
– Não te aproxim es de qualquer dessas m ulheres – advertiu-a um dia Frasquita, passeando pelo pátio central; com o bom tem po lhes perm itiam fazê-lo antes de deitar-se. Depois lhe apontou um a reclusa solitária, de rosto e olhar coléricos. – Isabel, por exem plo. Não é um a boa m ulher: m atou o filho recém -nascido.
– Em Cuba m uitas m ães m atam seus filhos. Não são m ás pessoas; fazem -no para salvá-los da escravidão.
Frasquita analisou as palavras. Depois falou com calm a, com o se nunca até então houvesse chegado a pensar no assunto.
– Isabel diz algo parecido: o pai não quis assum i-lo, ela não podia sustentá-lo, e na inclusa [
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Apesar de tudo, Caridad evitou Isabel e a outras duas m ulheres presas que haviam feito o m esm o. Não pôde fazê-lo, no entanto, com um a prostituta com respeito à qual tam bém a havia prevenido Frasquita. Coincidiu que um a m anhã a m ulher se achava atrás dela na m issa, rodeada por outras ram eiras com que form ava um grupo tem ido no interior da Galera. Caridad as ouvia cochichar sem recato até que o sacerdote lhes cham ava a atenção aos gritos; então riam baixo e, transcorridos alguns instantes, retom avam suas intrigas. Quem era aquela Madalena à qual serm ão após serm ão o religioso as cham ava a im itar?, pensava Caridad. Em Cuba não falavam dela.
– Pecadoras!
O uivo ressoou na pequena capela em que se am ontoava a forçada freguesia. Assustada diante dos gritos com que o sacerdote lhes exigia penitência, arrependim ento, contrição e m il outros sacrifícios, Caridad se sobressaltou ao notar que alguém punha um a m ão em seu om bro. Não se atreveu a olhar para trás.
– Dizem que te condenaram por ser puta – ouviu.
Tem eu que o religioso reparasse nela e gritasse com ela. Não respondeu. A outra a sacudiu.
– Negra, eu estou falando contigo.
Frasquita não estava com ela. Nessa m anhã se havia atrasado e havia ficado num a das filas do fundo da capela. Caridad baixou o olhar, tem erosa, lam entando não haver esperado a quem podia protegê-la.
– Deixa-a em paz – saiu em sua defesa a reclusa que estava a seu lado.
– Tu não te m etas onde não és cham ada, sua cadela.
Outra das prostitutas em purrou com força a que havia intervindo. A m ulher saiu voando contra as que a precediam , as quais por sua vez cam balearam .
O padre suspendeu seu serm ão diante do alvoroço; o porteiro abriu cam inho entre as m ulheres em direção a elas.
– As putas negras exóticas com o tu são as que nos roubam os clientes – ouviu Caridad acusá-
la aquela que a havia segurado pelo om bro, indiferente ao bastão com que o porteiro ia abrindo passagem entre as reclusas. – Diz-m e quanto te pagam para ir para a cam a com eles.
– Herm inia, vem com igo! – ordenou o hom em ao chegar.
– Eu não…
– Silêncio! – gritou o padre do altar.
O bastão assinalando-a foi suficiente para que Herm inia cedesse e se dispusesse a acom panhá-
lo. Caridad lhe dirigiu um olhar de agradecim ento. Aquela m ulher havia tentado defendê-la, e ela se sentiu em dívida com ela.
– Eu não roubo – disse Caridad à prostituta. – Nunca m e pagaram nada!
Sua surpresa aum entou ao virar-se e ver um a m ulher dócil que abria as m ãos para o porteiro num gesto de inocência.
– Negra, acom panha-m e tu tam bém – ouviu ordenar-lhe este.
– Sua negra im becil.
O insulto da prostituta a suas costas se confundiu com as palavras do sacerdote, que continuava com a m issa.
Foi assim que Caridad ficou íntim a de Herm inia: com partilhando com ela um a sem ana a pão e água com o castigo.
– Quem é Madalena? – perguntou um dia à sua nova am iga.
– Qual das duas?
Caridad m ostrou estranheza.
– Aqui tem os duas Madalenas que nos trazem am arguras – explicou a outra.
– A da m issa, essa de que sem pre fala o sacerdote.
– Ah! Essa! – riu Herm inia. – Um a puta. Dizem que foi am ante de Jesus Cristo.
– Jesus!
– Ele m esm o. Pelo visto term inou arrependendo-se e a fizeram santa. Por isso a dão com o exem plo dia sim dia tam bém . Não vos falavam dela em Cuba?
– Não. Ali não nos pediam que nos arrependêssem os de nada, só nos diziam que devíam os obedecer e trabalhar duro porque assim queria o Senhor. – Caridad deixou transcorrer alguns instantes. – E a segunda Madalena? – perguntou por fim .
Herm inia resfolegou antes de responder.
– Essa é pior que a prim eira! Soror Madalena de São Jerônim o – arrastou as palavras com repulsa –, um a m onj a de Valladolid que criou as galés para m ulheres há m ais de cem anos. Desde então todos os reis seguiram suas instruções com fervor: castigos iguais aos dos hom ens e disciplina severa até conseguirem dobrar-nos; hum ilhação, crueldade se for preciso; trabalho duro para pagarm os nosso sustento. Tu te deste conta de que não podem os ver a rua de tão altas que são as j anelas? – Caridad anuiu. – Ideia da tal Madalena: isolar-nos das boas pessoas. E, j unto a tudo isso, m issas e serm ões para que nos convertam os e sej am os úteis com o boas criadas… Esse é nosso destino se algum dia sairm os daqui: servir. Deus nos guarde das Madalenas!
Mas, excetuando as que haviam decidido atalhar com a m orte o triste e seguro destino de seus filhos, o grupo de prostitutas e um a que outra delinquente violenta e m al-encarada, a grande m aioria das cento e cinquenta encarceradas estava ali com o consequência de insignificantes erros decorrentes da ignorância ou da necessidade.
Conhecia a condenação de Frasquita: vida torpe, sentenciaram os alcaides.
– Detiveram -m e um a noite andando com um sapateiro – explicou a Caridad. – Boa pessoa…
Não fazíam os nada! Eu estava sentindo frio e fom e e só pretendia dorm ir em algum lugar coberto. Mas m e pegaram com um hom em .
Frasquita lhe assinalou m uitas outras que penavam na Galera seus atentados contra esse catálogo, tão extenso com o difuso, de faltas contra a m oral. Condenavam -nas por abandonadas, escandalosas, m al-entretidas, libertinas, relaxadas, luxuriosas, incontinentes, prej udiciais ao Estado… Um a enfiada de infelizes que à diferença dos hom ens não podiam ser destinadas ao exército ou às obras públicas e que portanto term inavam no cárcere para m ulheres.
Herm inia, a loura pequena que provinha de um povoado próxim o, não havia com etido outro delito que o de tentar vender pelas ruas de Madri um par de réstias de alhos. Necessitava daquele dinheiro, confessou a Caridad com resignação. Contavam -se bastantes vendedoras com o ela entre as presas: m ulheres que só pretendiam ganhar a vida com a revenda de cebolas e de todos os tipos de legum es ou hortaliças, algo que era proibido.
Caridad conheceu outras duas m ulheres. Um a sim ples briga sem m aiores consequências as havia levado para a Galera. Tam bém eram proibidos os insultos e as pelej as; frequentar os bares ou andar sozinhas de noite. Eram encarceradas por não terem dom icílio ou trabalho conhecidos; por serem pobres e não quererem prestar-se a servir; por serem m endigas…
Um sábado, o dia em que se distribuíam as tarefas da sem ana entre as presas – esfregar, lim par, acender ou apagar as candeias, servir a com ida –, a Caridad lhe coube entregar o pão duro. Em parelharam -na com um a j ovem cuj a louçania não tivera tem po ainda de m urchar.
Caridad havia reparado na m oça: parecia ainda m ais tím ida e desam parada que ela m esm a.
Esperavam as duas j unto à cesta do pão que o porteiro autorizasse a entrada das dem ais.
– Eu m e cham o Caridad – apresentou-se ela por cim a do alvoroço procedente da fila de m ulheres.
– Jacinta – respondeu a j ovem .
Caridad sorriu, e a outra se esforçou por fazê-lo. Com um m ovim ento de seu bastão, o porteiro deu início à distribuição.
– Por que estás aqui? – inquiriu Caridad ao m esm o tem po que ia entregando os pães dorm idos. Sentia curiosidade. Desej ava que a m oça lhe respondesse que por algo sem im portância, com o tantas outras. Não queria ter de considerá-la um a m ulher m á.
– Que estás esperando, m enina? – Um a das reclusas urgiu com Jacinta, que se havia distraído com o interesse de Caridad.
Não havia querido ir para a cam a com seu patrão. Isso lhe explicou Jacinta quando deixaram de servir o pão e recolhiam as cestas, as dem ais j á com endo. Caridad a interrogou com o olhar: parecia-lhe um estranho delito quando a m aioria estava condenada precisam ente pelo contrário.
– Cedi em outras ocasiões e fiquei grávida. A esposa de don Bernabé bateu-m e e insultou-m e, cham ou-m e de puta e m arrana e m uitas coisas m ais; depois m e obrigou a entregar o m enino à inclusa. – A explicação surgiu da boca da m oça com o se ela ainda não fosse capaz de entender o que é que havia sucedido. – Depois… Eu não queria ter outro m enino!
Sufocou um soluço. Caridad conhecia essa dor. Acariciou o braço da j ovem e a sentiu trem er.
Milhares de m oças com o Jacinta tinham idêntica sorte na grande capital; calculava-se que cerca de vinte por cento da população trabalhadora de Madri era com posta por criadas. As j ovens eram enviadas por suas fam ílias de todos os cantos da Espanha para servir nas casas ou nas oficinas. A grande m aioria delas sofria assédio dos senhores ou de seus filhos e não podia negar-se. Depois, se vinha a gravidez, algum as se atreviam a pleitear para conseguir um dote para casar-se se aquele que as havia deixado grávidas fosse casado ou fosse nobre ou para que ele cum prisse sua palavra de casam ento se fosse solteiro. As esposas e m ães acusavam as criadas de tentar seus hom ens para obter dinheiro ou posição, e isso foi do que culpou a Jacinta a esposa de don Bernabé após insultá-la e bater-lhe. Ela não era m ais que um a m enina vinda de um pequeno povoado asturiano que baixou o olhar para seus j ovens e túrgidos peitos quando a m ulher os assinalou com o causa da lascívia e do consequente erro de seu m arido. E chegou a sentir-se culpada, ali de pé, assediada, no salão de um a casa que se lhe afigurava um palácio em com paração com o m ísero barraco de que provinha. Que iam dizer seus pais? Que pensaria aquele parente asturiano que vivia em Madri e que a havia recom endado? E consentiu. Calou-se.
Um a noite pariu no Hospital dos Desam parados, na m esm a rua de Atocha. Ali acolhiam as crianças abandonadas de m ais de sete anos, am ontoavam -se em suas quarenta cam as as velhas desenganadas, as “m atracas”, cham avam -nas, que iam m orrer no único lugar que existia na capital para elas, e havia tam bém um quarto para que as desgraçadas com o Jacinta encontrassem aj uda para dar à luz. Eram m uitas as m ães que m orriam no parto; m uitos os filhos que tinham essa m esm a sorte. Jacinta o superou. A Congregação do Am or de Deus escondeu o fruto de seu ventre na inclusa, onde o m enino acabaria falecendo, e a m oça regressou para servir.
– Mas, se não quiseste ir para a cam a com teu senhor… – insistiu Caridad –, por que te encarceraram ?
– Don Bernabé decidiu fazê-lo. Disse que eu não queria servir na casa, que era um a criada ruim e que lhe desobedecia.
Assim se inteirou Caridad de que, j unto às delinquentes e às desesperadas, existia outro grupo de reclusas cuj o único delito havia sido o de nascer fêm ea subm etida ao hom em . Mulheres que, com o Jacinta, haviam sido encarceradas pela sim ples vontade de seu esposo, pai ou senhor.
Com o María, quase um a velha, presa por haver vendido um a cam isa sem o consentim ento de seu hom em ; Ana, que estava ali por haver abandonado o dom icílio conj ugal sem perm issão, e um a terceira cuj o único crim e havia sido travar am izade com um peixeiro. A m aioria daquelas m ulheres decentes que term inavam presas por querela de seus m aridos era enviada aos cárceres de San Nicolás e de Pinto, m as algum as term inavam na Galera. A única diferença entre elas e as que haviam com etido algum delito era que o hom em que solicitava sua reclusão era consultado pela Sala de Alcaides acerca da pena que devia im por-se à m ulher. Aquele hom em tam bém tinha de encarregar-se dos custos de sustento da reclusa enquanto ela perm anecesse encarcerada.
Algum as vezes, passado um tem po, perdoavam -lhes e elas saíam da prisão.
– Isso m e disse don Bernabé antes que m e enfiassem aqui dentro – term inou confessando Jacinta: – quando eu estivesse preparada para ele, ele m e perdoaria.
Caridad olhou de alto a baixo o corpo da m oça. Quanto tardaria a perder a beleza que tanto atraía seu senhor encerrada num lugar com o aquele?
No dia em que Herm inia lhe perguntou se tinha alguém fora do cárcere, Caridad, sabendo-se observada por suas com panheiras, continuou costurando a roupa do hospital em silêncio.
Aqueles dedos hábeis em acariciar as folhas de tabaco e depois torcê-lo com delicadeza se acostum aram com rapidez à costura. Estava bem ali dentro: sentia-se acom panhada por m uitas m ulheres com que falava e até ria; na m aioria, eram boas pessoas. Alim entavam -na, por parca e m á que fosse a com ida. Algum as reclusas se queixavam e até se rebelavam , algo que só lhes acarretava um severo castigo. Caridad tentava entender sua atitude: havia-as ouvido falar da fom e e da m iséria a que m uitas delas atribuíam sua prisão e não com preendia suas queixas. Ela recordava o funche e o sem piterno bacalhau com que dia após dia, durante anos, a haviam alim entado na veiga.
“E a liberdade…”, pensava Caridad. Essa liberdade cerceada de que tanto falavam um as e outras a ela só a havia levado a um as terras inóspitas e só lhe havia proporcionado a com panhia de um as pessoas estranhas que haviam term inado abandonando-a. Que haveria sido de Milagros?
Às vezes pensava na j ovem cigana, em bora cada vez a sentisse m ais longe. E Melchor… Sentiu que se lhe um edeciam os olhos e escondeu-o de suas com panheiras com um ataque sim ulado de tosse. Não, a liberdade não era algo de que ela sentisse saudade.
9 Inclusa: casa onde se recolhiam os bebês expostos ou abandonados. [N. do T.]