A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 23 de 51

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A Rainha Descalça

III - A voz da liberdade

III

A VOZ DA LIBERDADE

Cápitulo 23

Deixaram Triana pela ponte de barcos e se internaram nas ruelas sevilhanas. Melchor se encam inhou para a casa de um velho escrivão público que j á não estava em atividade.

– Necessitam os de passaportes falsos para nos poderm os m over por Madri – ouviu Caridad que, sem dissim ulação, pedia o cigano ao velho.

– A negra tam bém ? – inquiriu este assinalando-a de trás de um a escrivaninha de m adeira m aciça abarrotada de livros, processos e papéis.

Melchor, que se havia sentado num a das cadeiras de cortesia diante da escrivaninha, virou o rosto para ela.

– Vens com igo, negra?

É claro que ela queria ir com ele!, m as… Melchor intuiu os pensam entos que passavam pela m ente de Caridad.

– Irem os a Madri para tentar a libertação de Ana. Minha filha aj eitará tudo – acrescentou convencido.

“Com o Ana vai aj eitar a m orte de José?”, perguntou-se Caridad. No entanto, aferrou-se àquela esperança. Se Melchor confiava em sua filha, quem era ela para obj etar?, razão por que anuiu.

– Sim – confirm ou então Melchor ao escrivão –, a negra tam bém . – O velho levou m eia m anhã para falsificar os docum entos que lhes deviam perm itir o deslocam ento até Madri.

Utilizando um a velha provisão do Tribunal de Sevilha, elevou Melchor ao grau de “castelhano velho” pelos m éritos de seus ancestrais nas guerras de Granada, nas quais alguns ciganos acom panharam os exércitos dos Reis Católicos com o ferreiros. Acrescentou um segundo docum ento: um passaporte que o autorizava a ir a Madri para tentar a liberdade de sua filha. A Caridad, que lhe m ostrou os papéis de m anum issão que lhe haviam entregado na em barcação, converteu-a em sua criada. Em bora não fosse cigana, tam bém necessitava de passaporte.

Enquanto ele com punha os docum entos, o casal esperava no saguão da casa. Caridad se havia apoiado na parede, esgotada, sem atrever-se a deixar que suas costas deslizassem pelos azulej os até ficar sentada no chão, poder esconder o rosto e tentar pôr ordem no que havia vivido aquela m anhã; Melchor pretendia fugir do sangue que m anchava sua casaca am arela e percorria de alto a baixo o pequeno espaço.

– É bom este hom em – com entou para si, sem buscar a atenção de sua ouvinte. – Ele m e deve m uitos favores. Sim , é bom . O m elhor! – acrescentou com um a risada. – Sabes, negra? Os escrivães públicos ganham a vida com as taxas que cobram pelos papéis dos j ulgam entos, tanto por folha, tanto por letra. Saem caras as m alditas letras! E com o cobram por rabiscar nos papéis, são m uitos os escrivães que prom ovem pleitos, desavenças e querelas entre as pessoas. Assim se fazem j ulgam entos e eles obtêm ganhos por escrever os papéis. Sem pre que passava por ele, Eulogio m e encarregava de organizar algum a altercação: denunciar um , roubar outro e esconder o butim na casa de um terceiro… num a ocasião m e indicou o dom icílio de um rufião que explorava os encantos de sua esposa. Magnífica fêm ea! – exclam ou depois de deter-se, levantar a cabeça e agitar o ar com o queixo. – Se houvesse sido m inha…

Interrom peu seu discurso e se voltou para Caridad, que m antinha a vista fixa em suas m ãos trêm ulas. A esposa do rufião nunca havia sido sua, m as Caridad… Ao surpreendê-la deitada com José, havia sentido com o se efetivam ente houvesse sido sua algum a vez e o Carm ona a tivesse roubado dele.

Caridad não desviava o olhar de suas m ãos. Pouco lhe im portavam os rolos de Melchor e do escrivão público. Só podia pensar na terrível cena que havia vivido. Se havia desenvolvido com tanta rapidez…! O aparecim ento de Melchor, sua própria vergonha ao sentir-se nua, a pelej a, a navalhada e o sangue. Milagros a havia seguido até a casa de seu pai sem deixar de perguntar pelas razões, enquanto ela balbuciava escusas, e depois… Agarrou as m ãos com força para evitar que trem essem .

Melchor reiniciou seu ir e vir ao longo do saguão, agora em silêncio.

Conseguiram os docum entos e um a carta de recom endação que o velho escrivão dirigiu a um com panheiro de profissão que exercia sua função em Madri.

– Creio que ainda vive – com entou. – E é de toda a confiança – acrescentou ao m esm o tem po que piscava para o cigano.

Os dois cúm plices se despediram com um sentido abraço.

Para não terem de atravessar Triana, saíram de Sevilha pela porta da Macarena e se dirigiram para o poente, para Portugal, pelo m esm o cam inho que quase um ano antes haviam tom ado Milagros, Caridad e a velha María. “Que haverá sido dela?”, pensou a antiga escrava assim que seu olhar abarcou o cam po aberto. Se a velha María houvesse estado ali, talvez não tivesse sucedido o que sucedeu: que Milagros, a quem tanto am ava, a houvesse rechaçado, a houvesse expulsado de sua presença aos gritos, batesse nela com violência. Caridad acariciou um dos seios, m as que dano podiam causar-lhe os punhos de sua am iga? Doía-lhe por dentro, no m ais íntim o e recôndito de seu corpo. Se pelo m enos María houvesse estado ali… No entanto, a velha havia desaparecido.

– Canta, negra!

Um a senda solitária entre hortos e cam pos de cultivo. O cigano cam inhava adiante de Caridad com sua im ensa e descolorida casaca am arela pendendo dos om bros; nem sequer se havia virado para ela.

Cantar? Tinha m otivos para fazê-lo, para chorar sua tristeza e clam ar por sua desdita com a voz, com o faziam os escravos negros, m as…

– Não! – gritou ela. Era a prim eira vez que se negava a cantar para ele.

Depois de parar por um instante, Melchor deu dois passos.

– Tu m ataste o pai de Milagros! – explodiu Caridad a suas costas.

– Com o qual tu estavas deitada! – gritou por sua vez o cigano virando-se de súbito e acusando-a com o dedo.

A m ulher abriu as m ãos num gesto de incom preensão.

– Que…? E o que eu podia fazer? Morava com ele. Ele m e obrigava.

– Negar-te! – replicou Melchor. – Isso é o que terias de haver feito.

Caridad quis responder-lhe que o teria feito se houvesse sabido algo dele. Quis dizer-lhe que havia sido escrava durante dem asiados anos, um a obediente escrava negra, m as as palavras se lhe converteram num soluço.

Agora foi o cigano quem abriu as m ãos. Caridad estava plantada diante dele, a só alguns passos; seu j á gasto cam isão de flanela se m ovia ao ritm o de seu pranto.

Melchor hesitou. Aproxim ou-se.

– Negra – sussurrou.

Fez m enção de abraçá-la, m as ela deu um passo para trás.

– Tu o m ataste! – recrim inou-o de novo.

– Não é assim – replicou o outro. – Ele procurou a m orte. – Antes que Caridad interviesse, continuou: – Para um cigano há um a grande diferença.

Deu m eia-volta e retom ou o cam inho.

Ela o contem plou a afastar-se.

– E Milagros? – gritou.

Melchor trincou os dentes com força. Estava seguro de que a m enina o superaria. Assim que ele libertasse sua m ãe…

– O que vai ser de Milagros? – insistiu Caridad.

O cigano virou o rosto.

– Negra, tu vens ou não?

Ela o seguiu. Com Sevilha a suas costas, arrastou os pés descalços atrás dos passos do cigano deixando-se levar por um pranto seco e profundo, igual àquele que vertera quando a haviam separado de sua m ãe ou de seu pequeno Marcelo. Então foram os senhores brancos os que forçaram seu triste destino, m as agora… agora havia sido a própria Milagros que renegara sua am izade. As dúvidas sobre sua culpa a perseguiam : ela só havia obedecido a uns e a outros, com o sem pre fazia. Na dor reviveu os aplausos com que Milagros a recebera aquela prim eira vez em que vestira seu traj e verm elho. Os risos, o carinho, a am izade! Os padecim entos sofridos após a detenção dos ciganos. Tantos m om entos j untas…

Assim pensando e pensando, chegaram a um convento a cuj as portas Melchor a obrigou a esperar.

Saiu dele com dinheiro e um a boa m ula aparelhada com alforj es.

– Outros frades que, com o os de Santo Dom ingo de Portaceli – com entou o cigano de novo a cam inho –, não voltarão a confiar em m im quando virem que não lhes trago o tabaco que lhes prom eti.

Caridad recordou o episódio e o prior alto e de cabelo grisalho que não havia tido coragem suficiente para enfrentar uns ciganos que lhe traziam m enos sacos de tabaco do que haviam com binado. “Tudo por m inha culpa”, acusou-se.

– Mas a prim eira coisa é m inha filha – continuou o cigano –, e necessitam os deste dinheiro para m ultiplicá-lo e com prar vontades na corte. Seguro que seu Deus o entende assim , e, se seu Deus o entende, eles terão de entendê-lo tam bém , ou não?

Melchor falava sem esperar resposta enquanto cam inhavam . No entanto, quando paravam , caía na m elancolia que Caridad conhecia tão bem ; então falava só, em bora às vezes se virasse em busca de um a aprovação que ela não lhe dava.

– Estás de acordo, negra? – perguntou-lhe um a vez m ais. Caridad não respondeu; Melchor não lhe deu im portância e prosseguiu: – Tenho de conseguir que libertem m inha filha. Só Ana será capaz de pôr essa m enina no bom cam inho. Casar-se com um García! O neto do Conde! Já vais ver, negra, que tudo voltará a ser com o antes assim que Ana aparecer…

Caridad deixou de escutá-lo. “Tudo voltará a ser com o antes.” As lágrim as em baçaram a visão do cigano que puxava a m ula adiante dela.

– E se os frades não estiverem de acordo – dizia Melchor –, que m e procurem . Poderiam aliar-se aos Garcías, que tam bém estarão nisso. Com certeza, negra. A esta hora j á estará reunido o conselho de anciãos que decidirá nossa sentença de m orte. Talvez tu te salves, em bora eu duvide. Im agino o sorriso de satisfação de Rafael e da ram eira de sua esposa. Esconderão o cadáver do Carm ona para que a j ustiça do rei não intervenha e porão em ação a j ustiça cigana.

Em pouco tem po todos os ciganos da Espanha se inteirarão de nossa sentença e qualquer deles poderá executá-la. Em bora nem todos os ciganos obedeçam aos Garcías e aos anciãos de Triana –

acrescentou ao fim de um bom tem po.

Atravessaram povoados sem deter-se. Com praram tabaco e com ida com o dinheiro dos frades e dorm iram ao relento, sem pre na direção do noroeste, para a fronteira de Portugal. Durante as noites, Melchor acendia algum dos charutos e o com partilhava com Caridad. Os dois tragavam com força até encher os pulm ões; am bos se deixavam levar pela prazerosa sensação de letargia que lhes produzia o tabaco. Melchor não voltou a pedir-lhe que cantasse, e ela tam pouco se decidiu a fazê-lo.

– Milagros o superará – ouviu Melchor afirm ar num a daquelas noites, de repente, rom pendo o silêncio. – Seu pai não era um bom cigano.

Caridad calou-se. Dia após dia, em silêncio, na m ais profunda intim idade, voltava a sentir os golpes de Milagros em seus peitos, e seus sonhos se viam turbados pelo rosto irado da j ovem enquanto a insultava e lhe cuspia a gritos seu rechaço.

Chegaram à serra de Aracena. Melchor evitou transitar pelas proxim idades de Jabugo e deu um a volta para chegar a Encinasola e dali a Barrancos, naquela terra de ninguém entre a Espanha e Portugal de que havia falado o ferreiro com quem haviam topado durante sua fuga pelo Andévalo.

O cigano foi am istosam ente recebido pelo proprietário do estabelecim ento que fornecia tabaco aos contrabandistas espanhóis.

– Nós te dávam os por m orto, Galeote – disse-lhe Méndez após um afetuoso cum prim ento. –

Os hom ens do Gordo contaram que teu ferim ento…

– Não era a m inha hora. Ainda tinha coisas que fazer por aqui – interrom peu-o Melchor.

– Nunca gostei do Gordo.

– Ele m e roubou dois sacos de tabaco nas praias de Manilva, depois ordenou que se assassinasse o neto de m eu prim o.

Méndez anuiu, pensativo.

Assim ficou sabendo Caridad da m orte do capitão da partida de contrabandistas que a havia enganado na praia e que tantos desgostos e problem as ocasionara. Percebeu que Melchor a olhava de soslaio quando Méndez lhe perguntou pela m ulher arm ada com um trabuco que havia enfrentado toda um a partida de hom ens e que disparou contra um contrabandista, dos dois grandes cães que acabaram a dentadas com a vida do Gordo, e de com o aquela m ulher havia fugido com o que todos j á consideravam o cadáver do Galeote.

– Ela te salvou a vida – afirm ou Méndez. – Deves estar agradecido.

Caridad apurou o ouvido. Melchor intuiu seu interesse e voltou a olhá-la de soslaio antes de responder:

– Vós, os payos, incluídas vossas m ulheres, tendes um a ideia errônea do agradecim ento.

Hospedaram -se nas instalações do vendedor de tabaco e, tal com o no mesón de Gaucín, Melchor tratou de deixar bem claro a quantos m ochileiros e contrabandistas apareceram no lugar que Caridad era sua e portanto intocável. Os três prim eiros dias Melchor passou reunido com Méndez.

– Não te afastes m uito, negra – indicou-lhe o cigano –, por aqui sem pre ronda gente ruim .

Caridad o levou a sério e peram bulou pela estrebaria e pelos arredores do estabelecim ento, olhando a paisagem que se estendia a seus pés e pensando em Milagros; espiando as pessoas que iam e vinham com seus sacos e m ochilas, e recordando-se de Milagros de novo; buscando refúgio para seu penar no tabaco que ali abundava e pensando nela… e em Melchor.

– Quem era a m ulher que te salvou do Gordo? – perguntou-lhe um a noite estando os dois deitados em colchões contíguos num côm odo grande que com partilhavam com outros contrabandistas. Não teve de baixar a voz; na outra extrem idade da peça, um m ochileiro desfrutava de um a das m uitas prostitutas que acorriam ao cheiro do dinheiro. Não era a prim eira vez que sucedia.

Durante alguns instantes só se ouviram os arquej os do casal.

– Alguém que m e aj udou – respondeu Melchor quando Caridad j á dava por inútil a pergunta.

– Não creio que voltasse a fazê-lo – acrescentou com um a ponta de tristeza que à m ulher não passou despercebida.

Os arquej os se converteram em uivos surdos antes de alcançarem o êxtase. Aquelas m ulheres desfrutavam com os hom ens, pensou Caridad, algo que a ela parecia vedado.

– Canta, negra – interrom peu-a o cigano.

Por acaso sabia o que ela estava pensando? Queria cantar. Necessitava cantar. Desej ava que tudo voltasse a ser com o antes.

Esperavam a chegada de um a partida de rapé francês, explicou-se Melchor quando Caridad lhe perguntou quanto tem po ficariam ali e por que não iam a Madri para tentar a libertação de Ana.

– Geralm ente entra pela Catalunha – continuou o cigano –, m as os da ronda do tabaco vigiam cada vez m ais e é com plicado. É m uito difícil e caro consegui-lo, m as obterem os bons ganhos.

O consum o de rapé, o grosso tabaco em pó elaborado na França, era proibido na Espanha; só se perm itia cheirar o finíssim o pó espanhol, da cor do ouro e perfum ado com água de flor de laranj eira na fábrica de tabaco de Sevilha, m elhor que qualquer rapé no dizer de m uitos. Em bora existissem outros tipos de pó, com o o de palillos, o de barro, o vinagrillo ou o cucarachero, o da cor do ouro era o m elhor. No entanto, o gosto por tudo o que era francês, incluído o rapé, im punha-se até contra as ordens da Coroa, e os prim eiros em descum pri-las não eram outros que os próprios cortesãos. O rei havia determ inado severíssim as penas para quem delinquisse com rapé: os nobres e fidalgos podiam ser castigados com fortes m ultas e quatro anos de desterro na prim eira vez que fossem condenados; o dobro da m ulta e quatro anos de presídio na África na segunda ocasião, e desterro perpétuo e perda de todos os seus bens na terceira. Os dem ais, o povo sim ples, eram condenados a m ultas, açoites, galés e até à m orte.

Mas a elegância de cheirar rapé em lugar de pó espanhol, unida ao risco e à atração pelo proibido, levou a que na m aioria dos salões da corte e da nobreza se continuasse cheirando.

Com o ia um j anota hum ilhar-se utilizando pó espanhol por m ais que sua qualidade estivesse reconhecida em toda a Europa? E o consum o de rapé se achava tão no auge na própria corte que as autoridades chegaram , ingenuam ente, a perm itir as denúncias secretas: o denunciante tinha direito a receber a m ulta que se im pusesse ao acusado, e o j uiz devia entregá-la em suas m ãos e preservar sua identidade; m as a Espanha não era país para guardar segredos, e o rapé continuou a ser obj eto de contrabando e a ser cheirado.

Méndez lhe havia prom etido um a boa variedade: pó escuro e grosso com o o serrín, elaborado na França m ediante técnicas que cada fábrica m antinha em segredo. As folhas de tabaco m ais carnosas e grossas se m esclavam a alguns elem entos quím icos (nitratos, potassas ou sais) e a elem entos naturais (vinho, aguardente, rum , suco de lim ão, m elaço, passas, am êndoas, figos…).

O tabaco e as m isturas de cada fábrica m olhavam -se, coziam -se, deixavam -se ferm entar durante seis m eses, prensavam -se em rolos e voltavam a ficar am adurecendo outros seis ou oito m eses.

Os aristocratas franceses raspavam pessoalm ente os rolos ou carottes com pequenos raspadores, m as isso na Espanha não se usava, razão por que o rapé j á vinha preparado e pronto para enegrecer as narinas, as barbas e os bigodes dos que o consum iam , até o ponto de que na corte j á não se usavam lenços brancos, m as cinza para dissim ular a coriza ocasionada pelos constantes espirros.

– Nós o levarem os para Madri? – perguntou Caridad.

– Levarem os. Ali o venderem os.

Melchor hesitou, m as afinal decidiu esconder dela as penas que podiam im por-lhes se os detivessem em posse de um a partida de rapé. Estavam os dois sentados ao sol, num a grande rocha da qual se divisava todo o vale do rio Múrtiga, deixando transcorrer as horas com indolência.

– Quanto tem po devem os esperar?

– Não sei. Ele tem de chegar da França, prim eiro em algum a em barcação e depois até aqui.

Caridad estalou a língua em sinal de fastio: quanto antes chegassem a Madri, antes libertariam Ana, e ela, a m ãe de Milagros, poderia aj eitar as coisas. Melchor interpretou m al o estalido.

– Sabes de um a coisa, negra? – disse então. – Creio que poderíam os tirar algum proveito da nossa espera.

Ao despontar a alva do dia seguinte, com as prim eiras luzes, carregando os sacos às costas com o sim ples m ochileiros, Caridad e Melchor cruzaram a fronteira e se internaram em terras espanholas. Méndez inform ou o cigano de que os padres de Galaroza necessitavam de tabaco.

– A partir de agora, negra – advertiu-a Melchor assim que com eçou a descida de Barrancos por um a abrupta e escondida trilha de cabras –, silêncio, olhe bem onde pisas e… nem pense em cantar.

Ela não pôde reprim ir um risinho nervoso. A ideia de contrabandear com Melchor a em ocionava.

Foram talvez os dias m ais m aravilhosos da vida de Caridad. Dias m ágicos e íntim os: os dois cam inhando em silêncio por veredas solitárias, entre árvores e cam pos de cultivo, ouvindo-se respirar um ao outro, roçando-se, escondidos ao som de algum a cavalgadura que se aproxim ava.

Depois se sorriam ao verificar que não se tratava da ronda do tabaco. Melchor lhe falou dos cam inhos, do tabaco, do contrabando e de sua gente, explicando-lhe as coisas com m ais detalhe do que j am ais havia feito com ninguém . Caridad escutava m aravilhada; de vez em quando parava para recolher algum as ervas com a intenção de secá-las na volta: alecrim , poej o… m uitas outras ela não conhecia, m as era tal seu arom a que ela tam bém as colheu. Melchor a deixava fazer; soltava o saco e se sentava para observá-la, atraído por seus m ovim entos, seu corpo, sua voluptuosidade; foi ficando para trás o receio pela m orte do Carm ona.

Não tinham pressa. O tem po era deles. Os cam inhos eram deles. O sol era deles, tam bém a lua que ilum inou aquela prim eira noite ao relento que com partilharam com o distante uivar dos lobos e o correr dos anim ais noturnos.

Quase um m ês, que se fez curto para eles, dem orou a chegar o rapé prom etido. Melchor e Caridad voltaram a fazer contrabando pela zona em várias ocasiões.

– Canta, negra – pediu-lhe o cigano.

Haviam pernoitado de volta a Barrancos, livres j á da carga de tabaco e do risco de que a ronda os prendesse com ela. A prim avera estava em plena eclosão, e ouvia-se o correr das águas do arroio j unto ao qual Melchor decidiu parar. Depois de com er algo de carne curtida, pão e alguns goles do vinho que levavam num odre de couro, o cigano deitou-se no chão, sobre um a velha m anta.

Caridad fum ava perto da m argem do arroio, a poucos passos. Virou-se para olhá-lo. Havia assentido em cantar sem pre que Melchor o pedia a partir de quando decidira fazê-lo dias depois de chegar a Barrancos. No entanto, assim que entoava os prim eiros lam entos, o cigano se perdia em seu próprio m undo, e sua presença se desvanecia. Caridad estava havia dias com partilhando sua vitalidade. Não queria que voltasse a engolfar-se naquele buraco que com tanta ânsia parecia reclam á-lo; desej ava senti-lo vivo.

Aproxim ou-se dele, sentou-se a seu lado e ofereceu-lhe o tabaco. O cigano o aceitou e lhe devolveu o charuto. O m urm úrio das águas do arroio se m isturou com os pensam entos de um e de outro. Pouco a pouco, sua respiração delatou o desej o.

– E se depois m udar tudo e j á não cantares igual?

Caridad não encontrava palavras com que responder. Mudaria, sem dúvida, m as era algo que anelava com todo o seu corpo.

– Tu te referes a que m eu canto j á não sej a triste? – perguntou.

– Sim .

– Quisera ser feliz. Um a m ulher… feliz.

Melchor se surpreendeu aproxim ando-se dela com um a ternura que j am ais havia tido com m ulher algum a, com delicadeza, com o tem eroso de quebrá-la. Caridad se entregou a seus beij os e carícias. Desfrutou e descobriu m il cantos em seu ser que pareciam querer responder com frenesi ao sim ples roçar da ponta de um dedo. Soube-se am ada. Melchor a am ou com carinho.

Melchor lhe falou com doçura. Ela chorou, e o cigano ficou im óvel até com preender que aquelas lágrim as não brotavam angustiadas, e lhe sussurrou ao ouvido coisas bonitas que ela j am ais havia escutado. Caridad arquej ou e chegou a uivar tal com o faziam os lobos na espessura das serras.

Depois, à luz da lua, nua, com a água do arroio lam bendo-lhe os j oelhos, insistiu até conseguir que Melchor se aproxim asse. Jogou-lhe água com um pontapé, tal com o fazia Marcelo com ela na veiga assim que pisavam um a sim ples poça. O cigano se queixou, e Caridad voltou a chutar água e a salpicá-lo. Melchor fez m enção de voltar a deitar-se, m as de súbito se virou e se abalançou a ela. Caridad lançou um grito e escapou rio acim a. Brincaram nus no arroio, correram e salpicaram -se com o poderiam fazer um as crianças. Exaustos, beberam e fum aram , olhando-se, conhecendo-se um ao outro, e voltaram a fazer am or e continuaram deitados até que o sol ficasse bem no alto.

– Já não cantas igual.

Reprochou-a no quarto da casa de Méndez. Haviam j untado seus colchões, m as, com o se estivessem de acordo sem tê-lo dito, não faziam am or ali onde contrabandistas e m ochileiros se deitavam com as prostitutas. Preferiam sair em busca do am paro do céu.

– Preferes que não o faça? – perguntou ela, interrom pendo seu canto.

Melchor m editou na resposta; ela lhe deu um carinhoso soco no om bro pelo atraso na resposta.

– Negra, nunca batas num cigano.

– Nós, as escravas negras, podem os bater em nossos ciganos – afirm ou categoricam ente.

E continuou a cantar.

Existia um a estrada que unia Madri a Lisboa através de Badaj oz. De Barrancos lhes haveria sido sim ples dirigir-se a Mérida por Jerez de los Caballeros, seguir até Truj illo, Talavera de la Reina, Móstoles, Alcorcón e entrar na capital pela porta de Segóvia; pouco m ais de setenta léguas era o que os separava de Madri, quase duas sem anas de cam inho. Em pregaram quase o m esm o tem po m ovendo-se apressados por sendas solitárias e desconhecidas para Melchor. A tranquilidade de que haviam desfrutado em Barrancos ficava para trás; tinham o rapé e necessitavam libertar Ana.

No entanto, um cigano vestido de am arelo, um a negra e um a m ula carregada com um grande pote de barro selado que cheirava a tabaco perfum ado não podiam circular pelos cam inhos principais.

Mas, se o cigano tinha de utilizar todo o seu instinto e am iúde deixar Caridad e a m ula resguardadas para ir às estalagens ou casas de cam po para perguntar pela rota, não sucedia o m esm o com Madri: havia estado nela em duas ocasiões ao longo de sua vida. “Conheço Madri”, assegurava. Além disso, a vila era com frequência obj eto de com entários dos contrabandistas, os quais trocavam todo tipo de experiências, endereços e contatos. Em Madri circulava m uito dinheiro: ali residia o rei rodeado e servido por um a nutrida corte; a nobreza da Espanha quase toda; em baixadores e com erciantes estrangeiros; m ilhares de clérigos; um verdadeiro exército de altos funcionários com recursos suficientes e m uita vontade de aparentar um alto berço de que careciam , e sobretudo um sem -fim de j anotas afrancesados cuj o único obj etivo parecia ser desfrutar dos prazeres da vida.

A m enos de m eia légua de Madri, pararam . Melchor tom ou um a boa m ostra do rapé e enterraram o pote num m atagal.

– Tu te lem brarás de onde…? – Caridad se m ostrou preocupada ao com preender que o cigano se propunha a deixar ali escondido pote.

– Negra – interrom peu-a ele com seriedade: – eu te asseguro que antes m e lem brarei de voltar a este lugar do que de com o se regressa a Triana.

– Mas e se alguém …? – insistiu Caridad.

– Sua agourenta! – voltou a interrom pê-la o cigano. – Não cham es o azar!

Adiante, num mesón, venderam a m ula.

– Já nos olharão bastante estando eu contigo, para ainda por cim a eu ir puxando este anim al

– zom bou carinhosam ente Melchor. – Além disso, não creio que possam os atravessar de noite com a m ula.

À vista da cidade, esconderam -se entre os hortos dos arredores. Melchor se sentou contra um a árvore e fechou os olhos.

– Acorda-m e quando anoitecer – disse-lhe após exagerar um bocej o.

Do outro lado da veiga do Manzanares, onde se encontravam , Caridad deixou correr o olhar pela Madri que se alçava diante deles. Seu ponto m ais alto era um palácio em construção a cuj os pés se entrevia um a grande cidade variegada em seu casario. Que lhes depararia esse lugar? Seus pensam entos regressaram a Milagros… e a Ana. Teria razão o cigano quando sustentava que Ana aj eitaria tudo?

Passaram -se duas horas até que o sol com eçou a pôr-se sobre Madri, colorindo suas construções e arrancando lam pej os averm elhados dos cam panários e das agulhas das torres que sobressaíam acim a deles.

À luz da lua cam inharam em direção à ponte de Toledo. De Portugal, com o vinham eles, deveriam haver atravessado pela de Segóvia, m as Melchor o descartou.

– Está m uito perto do que foi o alcácer dos reis e de m uitas casas de nobres e em inências da corte, e nesses lugares sem pre há m ais vigilância.

Atravessaram a ponte discretam ente, encurvados, rente à m ureta, tanto que em lugar de vencê-la em linha reta percorreram os balcõezinhos sem icirculares que se abriam sobre o Manzanares. Se tinha de haver vigilância, não estava presente, em bora o fato fosse que entre o rio e a porta de Toledo pela qual se entrava na cidade ainda se abria um a m ais que considerável extensão de hortos e cerrillos, quando não verdadeiros barrancos sobre os quais se elevavam as últim as construções de Madri.

Porque Madri não tinha arrabaldes e seu contorno estava perfeitam ente delim itado por aquelas últim as construções: era proibido construir para além da cerca que cingia a cidade, e a crescente população se am ontoava em seu interior. Melchor recordava bem aquela cerca. Não se tratava de um a m uralha larga com o a que rodeava Sevilha ou m uitas cidades e até povoados do reino, por m odestos que estes pudessem ser, m as de um sim ples tapum e de alvenaria. E o fato era que a cerca de Madri, interrom pida em m uitos de seus trechos pelas próprias fachadas dos últim os edifícios da cidade, só era respeitada pelos cidadãos em caso de epidem ias. Nesse caso, sim , fechavam -se os acessos à cidade, m as, enquanto não existisse tal perigo, a cerca oferecia inum eráveis brechas em sua extensão, brechas que, assim que se reparavam , apareciam em outra parte. Era tão sim ples abrir um a passagem neste tapum e com o contar com a cum plicidade de algum dos proprietários das casas cuj as fachadas se erguiam a m odo de cerca.

Melchor e Caridad atravessaram os hortos e chegaram à porta de Toledo: um par de sim ples vãos retangulares, fechados de noite, sem adorno algum e erguidos na cerca que fechava a rua de m esm o nom e. À direita, em lugar do tapum e, achava-se o m atadouro de vacas e carneiros, com várias portas que davam para o exterior e que perm itiam a entrada do gado diretam ente do cam po.

“Só é preciso esperar que apareça algum atravessador de contrabando que conheça um a form a de entrar”, recordava haver ouvido Melchor da boca de um contrabandista, num mesón. “Então te j untas a ele, pagas e entras.” “E se não aparecer nenhum ?”, perguntou outro. O prim eiro soltou um a gargalhada. “Em Madri! Há m ais trânsito noturno que de dia.” Postaram -se diante do m atadouro e esperaram escondidos j unto a um cercado que servia de palhal e secadouro de peles; Melchor recordava que lhe haviam assegurado que através das portas daquele m atadouro se introduzia furtivam ente m uita gente.

No entanto, passou o tem po e nada indicava que alguém pretendesse passar essa noite pela cerca de Madri. “E se forem ainda m ais silenciosos que nós?”, pensou Melchor.

– Negra – disse então em voz alta, disposto a cham ar a atenção de quem quer que se m ovesse por aqueles lugares e indicando a Caridad com um dedo em seus lábios que perm anecesse em silêncio –, se não fosse porque te ouço respirar, eu duvidaria de que estivesses com igo. Que negra m ais calada és! Atrás dessas portas e do m atadouro, em toda esta área de Madri, estão os bairros do Rastro e Lavapiés. Boa gente a que vive aí, “m anolos” os cham am . Grande nom e!

Arrogantes e tem erários, sem pre prontos para pelej ar entre si a navalhadas por um a palavra m al dita ou por um olhar indiscreto para suas fêm eas. E que fêm eas! – Suspirou ao m esm o tem po que abria sua navalha procurando silenciar os estalidos da engrenagem ; havia ouvido barulhos suspeitos. Depois se aproxim ou de Caridad e lhe sussurrou: – Fica atenta e não te aproxim es dos que vêm . Que fêm eas! – repetiu quase aos gritos –, te digo eu, só lhes falta serem ciganas! A últim a vez que estive em Madri, depois que o rei m e honrou com a graça de rem ar em suas galés…

Os atacantes acreditaram que fossem pegar desprevenido o cigano. Melchor, com os sentidos alertas e em punhando a navalha, não queria m atar nenhum dos dois hom ens que ele intuiu que se aproxim avam ; necessitava deles.

– Vós…! – interrom peu o discurso de Melchor um dos salteadores.

Não conseguiu dizer m ais nada. Melchor se virou e assestou um a navalhada na m ão em que percebeu o brilho da lâm ina de um a faca, e, pouco antes que a arm a tocasse o chão, j á havia rodeado o hom em e apertava o fio da navalha contra sua garganta.

O cigano quis lançar um a am eaça de m orte, m as não lhe surgiram as palavras: resfolegava.

“Já não sou tão j ovem !”, resignou-se. E, com o se pretendesse discutir suas próprias sensações, apertou a navalha contra o pescoço de sua presa, que foi quem , afinal, gritou em seu lugar.

– Parado, Diego! – suplicou a seu com panheiro, surpreendido este a só um passo deles.

O tal Diego hesitou enquanto tentava acostum ar a visão à escuridão.

– Diego… por Nossa Senhora de Atocha… – repetiu o prim eiro.

Recuperado o fôlego, Melchor se viu capaz de falar.

– Leva-o a sério, Diego – aconselhou-o o cigano. – Não quero fazer-vos m al. Podem os term inar bem tudo isto. Só querem os entrar em Madri, com o vós.

* * *

Melchor se havia esquecido de com entar com Caridad que aquelas pessoas a que cham avam

“m anolos” não só eram ousadas, orgulhosas e indolentes, m as tam bém eram fiéis. Convertidos em paladinos das atávicas form as de vida espanhola, achavam -se em luta perm anente com o que consideravam a superficialidade e frivolidade da nobreza e das classes ricas afrancesadas. A honra que havia chegado a salpicar a história da Espanha com tantos e tantos episódios épicos e que agora era posta em dúvida pelas autoridades obrigava-os a cum prir seus com prom issos com o se com isso defendessem a identidade que pretendiam roubar-lhes.

– Palavra de honra! – ouviu Melchor da boca de am bos.

“Isso é o que diferencia os ‘m anolos’ dos ciganos”, disse-se Melchor, sorridente, enquanto com total confiança afrouxava a pressão sobre a garganta, fechava a navalha e a escondia de novo em sua faixa: a palavra que pudesse dar um cigano a um payo carecia de im portância.

Melchor até aj udou a enfaixar com um farrapo arrancado da cam isa de Pelay o – assim se cham ava o prim eiro assaltante – o ferim ento que este apresentava na m ão. Depois, Caridad e ele os seguiram até o m atadouro da porta de Toledo, onde após um a troca de senhas um hom em lhes abriu passagem . Melchor regateou no pagam ento que lhe exigiu o hom em do m atadouro.

– Não pretendo com prar-te um a das vacas – j ogou-lhe em rosto ao m esm o tem po que contava algum as m oedas.

Diego e Pelay o não pagaram com dinheiro; em vez disso, abriram o saco que levavam , rebuscaram em seu interior e lhe entregaram um a dim inuta pedra que cintilou averm elhada à luz da lanterna com que lhes havia recebido o m agarefe. Entre o dinheiro de um e a pedra dos outros, o hom em se deu por satisfeito e os acom panhou até a rua Arganzuela através de um estreito beco que cruzava entre as casas que confinavam com a parte posterior do m atadouro.

– Pedras falsas... É a isso que vos dedicais? – inquiriu Melchor j á na rua.

– É, sim – reconheceu Pelay o. – Bom negócio; ainda que falsas, vendem -se por m uito dinheiro.

Melchor o sabia, conhecia de sobra o preço dos avelórios. Excetuadas as pérolas, que não eram consideradas pedras preciosas, o rei havia proibido o uso e a com pra e venda de todas as que fossem falsas: diam antes, rubis, esm eraldas, topázios.

– As m ulheres e os hom ens que não podem com prar as finas, e que são a grande m aioria das pessoas de Madri – prosseguiu Pelay o –, continuam gostando de exibi-las ainda que sej am falsas.

É um a m ercadoria m uito rendosa.

O cigano registrou o negócio enquanto Caridad perm anecia atenta ao entorno. A escuridão era quase absoluta: só algum as velas e candeias ilum inavam m esquinham ente o interior de casas que, contra a lua, exibiam um só andar, em bora, à diferença das choças da ciganaria, tivessem telhado de duas águas. Entre as som bras, no entanto, ele percebeu a presença de pessoas que se m oviam de um lado para outro e ouviu risos e conversas. Na rua, para além de onde se encontravam , um casal ilum inava seus passos com um farol. Mas o que m ais cham ou sua atenção foi o fedor que se respirava, e ele se perguntou a que se deveria. Então com preendeu que o que pisava com os pés descalços não era outra coisa que os excrem entos que se acum ulavam no chão de terra.

– Tem os de ir em bora – anunciou Pelay o. – Aonde vos dirigis vós?

Melchor conhecia um cigano aparentado com os Vegas que m orava em Madri: o Cascabelero, um m em bro da fam ília dos Costes que se havia casado com um a prim a Vega fazia m ais de vinte e cinco anos; vários dos Vegas da ciganaria do Horto da Cartuxa, ele incluído, haviam ido às grandes bodas com que se selara a aliança entre as duas fam ílias. Ainda assim , a dúvida lhe viera perseguindo desde que arquitetara seu plano ainda em Barrancos, quando Méndez lhe falara da partida de rapé que estava esperando. E se houvessem detido tam bém os ciganos de Madri e ele não encontrasse nenhum ? Disse-se que a capital era diferente: não era considerada oficialm ente lugar de residência autorizada de ciganos, razão por que ali não se haveria detido ninguém , com o havia sucedido em lugares sim ilares. Apesar disso e de ser proibido viver em Madri, as pragm áticas reais ordenando a expulsão dos ciganos m adrilenses se repetiam e se repetiam , tal era a obstinação destes em perm anecer na vila.

Certam ente haveria ciganos descendentes daquela prim a em Madri, m as desde a sua últim a visita, antes de ser condenado às galés, bem se podiam haver aparentado com outras fam ílias, inim igas dos Vegas. Teria que verificá-lo. Do que, sim , estava certo Melchor era que, enquanto não o fizesse, os ciganos de Madri não deviam saber da presença de Caridad; a sentença de m orte que com toda a certeza haveria sido determ inada pelo conselho de anciãos de Triana j á seria conhecida até ali. Milagros… sua m enina, havia cuspido a seus pés, e Ana estava encarcerada em Málaga. Não podia arriscar-se a perder tam bém a negra.

– Pelay o – disse o cigano –, eu vos com pro um a pedra dessas se nos acom panhardes a algum lugar de confiança em que possam os dorm ir. Sobretudo que sej a discreto.

Aceitaram . Seguiram todos j untos pela rua de Toledo e um pouco m ais adiante viraram à direita pela do Carneiro. Com os gritos dos anim ais que eram sacrificados durante a noite, chegaram ao cerrillo do Rastro, um m ontículo de terra que se erguia entre os edifícios, j unto ao m atadouro velho, e que se m antinha inculto para refrescar aquela área. Na noite, chapinharam na pequena corrente de sangue que descia do m atadouro pela rua de Curtidores e, sem pre em direção à direita, atravessaram Mesón de Paredes e Em baj adores. Ali se despediram de Diego, que se introduziu com as pedras falsas num a casa. Pelay o continuou com Melchor e Caridad até um a pousada secreta na rua de los Peligros. Segundo lhes disse, conhecia Alfonsa, a viúva que a dirigia, de m odo que não teriam problem as. Ela não daria parte aos aguazis, com o eram obrigados a fazer os donos de pousada com todos os hóspedes que recebiam .

Custou-lhes despertar Alfonsa.

– Por acaso esperavas o duque de Alba? – cravou-lhe Melchor diante do olhar torto que lhes dirigiu a dona da pousada depois de falar com Pelay o.

A m ulher ia responder, m as em udeceu à vista do dinheiro que lhe m ostrou o cigano. Pelay o se despediu. Alfonsa recebeu o seu, e Caridad e Melchor seguiram seus passos e subiram por um a escura escada, tão estreita com o em pinada, os três em fila roçando as paredes úm idas e descascadas, até chegar ao sótão: um quartucho im undo que teriam de dividir com outros três hóspedes que j á dorm iam . Alfonsa lhes apontou um catre.

– Não disponho de m ais nada – aduziu sem espírito algum de desculpar-se antes de virar as costas para descer para sua casa, no andar inferior.

– E agora? – perguntou Caridad.

– Agora espero que te encolhas num ladinho dessa cam a para que possam os dorm ir um pouco. Foi um dia duro.

– Quero dizer…

– Já sei o que queres dizer, negra – interrom peu-a Melchor ao m esm o tem po que a puxava e tentava saltar os utensílios dos outros hóspedes espalhados pelo chão. – Am anhã irei ver quem nos pode dar um a m ão.