A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 32 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 32

No 13 de setem bro de 1752, três anos depois de se haver perpetrado a grande prisão de ciganos, chegavam à Real Casa da Misericórdia de Saragoça quinhentas e cinquenta e um a ciganas e cento e m uitas crianças. Todas elas haviam sido em barcadas no porto de Málaga com destino ao de Tortosa, em Tarragona, na desem bocadura do rio Ebro, de onde subiram o rio em barcaças até Saragoça, sem pre guardadas por um regim ento de soldados.

Ana Vega apertou a m ão do pequeno Salvador à vista do casario da cidade e das torres que sobressaíam acim a dele. O m enino, de quase nove anos, respondeu ao aperto de sua tia com idêntica força, com o se fosse ele quem pretendesse infundir-lhe coragem . Ana deixou escapar um triste sorriso. Salvador pertencia à fam ília dos Vegas, e Ana o havia adotado fazia pouco m ais de um ano, após a m orte de sua m ãe na epidem ia de tabardilho que assolou Málaga. O tifo havia causado estragos entre a população da cidade costeira, e as ciganas encarceradas na rua del Arrebolado não se livraram da catástrofe. Os m ortos contaram -se aos m ilhares, m ais de seis m il dizia-se, tantos que o bispo proibiu o toque de sinos à saída do viático e nos enterros. Os sacerdotes distribuíam rações de carneiro nas casas dos doentes, m as nenhum a foi para as ciganas e seus filhos pequenos. Depois, passada a epidem ia, chegou a fom e de 1751, devido às m ás colheitas. Nenhum a das num erosas rogativas e procissões de penitência convocadas por frades e sacerdotes ao longo de toda a Andaluzia conseguiu pôr fim à terrível seca.

Ana soltou a m ão do m enino, acariciou com ternura sua cabeça raspada e o trouxe para si.

Saragoça se abria diante deles; o m ais de m eio m ilhar de ciganas contem plava a cidade em silêncio, cada vez m ais próxim a. A m aioria daquelas m ulheres, em aciadas, consum idas, enferm as, m uitas delas nuas, sem sequer um m au farrapo com que cobrir suas vergonhas, ignorava o que lhes depararia o destino a partir desse m om ento. Que outros torm entos pensava em oferecer-lhes Sua Maj estade Fernando VI?

O m arquês de la Ensenada tinha a resposta. O nobre não cedia em sua obsessão pelo exterm ínio da raça cigana. Muitos dos detidos em La Carraca haviam sido levados de Cádiz para o arsenal del Ferrol, na outra ponta da Espanha, ao norte. Quanto às ciganas, o m arquês teve de pugnar com a j unta que governava a Casa da Misericórdia para transferi-las para ali. A Misericórdia havia nascido com o estabelecim ento assistencial para os pobres e vagabundos que povoavam a capital do reino de Aragão. Eram privados de liberdade, obrigados a trabalhar para ser úteis à sociedade, e até em certos casos se adm itia o castigo corporal, m as ainda assim a j unta não queria ver sua obra convertida num cárcere para delinquentes. Desde sem pre Saragoça se havia considerado um a cidade extrem adam ente caritativa, virtude que não conseguia senão atrair um m aior núm ero de indigentes para suas ruas. O “pai dos órfãos” velava pelas crianças desprotegidas e, de vez em quando, organizava rondas com o “carro dos pobres”: um a diligência gradeada que percorria a cidade com a finalidade de deter os m endigos e vagabundos que vagabundeavam ou esm olavam , e que eram encerrados na Casa da Misericórdia. Com o iam adm itir essas quinhentas desesperançadas, além de outros duzentos ciganos aragoneses que perm aneciam detidos no cárcere do castelo de la Alj afería e que o m arquês tam bém pretendia destinar à instituição, quando j á tinha quase seiscentos m endigos que a lotavam ?

A pugna entre a j unta e Ensenada se inclinou a favor do m arquês: o Estado se encarregaria do sustento das ciganas. Igualm ente, construir-se-ia um a nova ala para seu aloj am ento, cuidar-se-ia de que estivessem sem pre separadas do restante dos internos, e o capitão-geral destinaria vinte soldados da guarda para sua vigilância.

A longa fila de m ulheres suj as e desnudas, escoltadas por soldados, suscitou tal expectativa que um a m ultidão se j untou à com itiva que se dirigiu até a porta del Portillo, diante do castelo, por onde entraram na cidade. Não m uito longe dessa entrada se achava o Cam po del Toro, ao qual se abria o horto da Casa da Misericórdia. Longas alas de tij olo e m adeira de um ou dois andares, com telhados de duas águas e j anelas sem grades dispostas sem ordem aparente, com punham o conj unto. Espalhadas entre elas, pátios e espaços livres, pequenas construções para serviços e, em um a de suas extrem idades, um a hum ilde igrej a de um a só nave, tam bém de tij olo e m adeira.

O regedor da Misericórdia m eneou a cabeça à vista das m ulheres e das crianças que transpunham a porta ladeadas pelos soldados. O sacerdote, a seu lado, benzeu-se diversas vezes diante dos corpos nus, dos rostos em aciados, da fom e destacando os ossos, dos peitos caídos m ostrando-se sem recato; braços, pernas e nádegas esquálidos.

Assim que entravam , eram em purrados para a ala expressam ente construída para eles. Ana e Salvador, de m ãos dadas, entraram m isturados ao restante das m ulheres e das crianças. Um a sim ples olhadela bastou para que as ciganas se certificassem de que a ala não as com portava. O

lugar era lôbrego e estreito. O chão de terra estava úm ido por águas paradas, e o fedor m alsão que se exalava daquelas águas no calor de setem bro e num lugar carente de ventilação era insuportável.

As queixas com eçaram a elevar-se da boca das m ulheres.

– Não podem enfiar-nos aqui!

– Até os estábulos são m elhores!

– Adoecerem os!

Muitas das ciganas desviaram o olhar para Ana Vega. Salvador lhe apertou a m ão para infundir-lhe força e coragem .

– Não ficarem os – afirm ou ela. O m enino a prem iou com um sorriso esplendoroso. – Saiam os!

A cigana deu m eia-volta e encabeçou a saída. As ciganas que ainda estavam entrando, retrocederam ao topar com Ana Vega. Poucos m inutos depois estavam todas outra vez na esplanada que se abria diante da ala, queixando-se, gritando, m aldizendo sua sorte, desafiando uns soldados que interrogavam seu capitão. O oficial se voltou para o regedor, que de novo m eneou a cabeça: ele o sabia, previa aquele problem a. Não fazia nem dois m eses que a j unta de governo havia advertido o m arquês de la Ensenada da insalubridade da nova construção: as águas da Misericórdia não corriam e tornavam -se pútridas e insalubres na ala das ciganas. Não podia haver um com eço pior.

– Para dentro com elas! – ordenou então por cim a do alvoroço.

O rugido ainda não havia deixado de ressoar quando Ana Vega se lançou a socos e dentadas contra um sargento que estava a seu lado. O pequeno Salvador atacou outro soldado, que se livrou dele com um bofetão antes de enfrentar m uitas das ciganas que seguiram a Ana. Outras, incapazes de pelej ar, anim avam suas com panheiras. Após alguns instantes de desconcerto, os soldados retrocederam , reagruparam -se, e seus disparos para o alto conseguiram frear a ira das m ulheres.

A solução oferecida pela revolta satisfez o regedor: ele dem onstraria sua autoridade e resolveria o problem a do aloj am ento. Ana Vega e outras cinco m ulheres que foram identificadas com o revoltosas seriam açoitadas e depois im obilizadas no cepo por dois dias; as dem ais poderiam dorm ir fora da ala, ao relento, nos pátios e no horto, ao m enos enquanto durasse o calor que tornava pútridas as águas paradas. Ao fim e ao cabo, estavam j á em setem bro, a situação não podia prolongar-se dem asiadam ente.

Diante das m ulheres e de seus filhos, Ana apresentou as costas nuas ao porteiro; as om oplatas, a coluna e as clavículas que sobressaíam não conseguiam esconder as cicatrizes de m uitos outros castigos recebidos em Málaga. O látego silvou no ar, e a cigana trincou os dentes. Entre um açoite e outro, voltou o olhar para Salvador, na prim eira fila, com o sem pre. O pequeno, punhos e boca apertados, fechava os olhos cada vez que o couro feria as costas da cigana. Ana tentou dirigir-lhe um sorriso, para tranquilizá-lo, m as só conseguiu desenhar em seus lábios um esgar forçado.

As lágrim as que viu correr pelas faces do m enino lhe doeram m ais que qualquer lategada.

Salvador a havia tom ado com o substituta de sua m ãe m orta, e Ana se havia refugiado no m enino para verter nele sentim entos que todos pareciam querer roubar-lhe. Duas vezes chegara a renegar sua própria filha. Inteirou-se dos acontecim entos do beco de San Miguel: bem se ocupou a Trianeira de levá-la a saber deles. O casam ento de Milagros com o neto de Rafael García, aquele j ovem pendenciador a quem havia esbofeteado, engolfou-a na infelicidade. Sua m enina entregue a um García! Por outro lado, estranhou, preocupando-a, sua própria indiferença diante da notícia do assassinato de seu esposo, não sentir nada depois de tantos anos de vida em com um , m as ela concluiu que José não m erecia outro final: havia consentido naquele casam ento. E quanto à sentença de m orte contra seu pai…

– Tens algo que dizer?

A recordação da conversa com o soldado de Málaga interrom peu seus pensam entos.

– Estão esperando um a resposta? – perguntou ela por sua vez.

O hom em deu de om bros.

– O cigano m e disse que voltasse um a vez que houvesse falado contigo.

– Que diga à m inha filha que ela deixou de pertencer aos Vegas.

– Isso é tudo?

Ana fechou os olhos.

– Sim . Isso é tudo.

Algum tem po depois, Milagros insistiu através do Cam acho. “Diz-lhe que j á não a considero filha m inha”, afirm ou. Era verdade?, perguntava-se Ana m uitas noites. Verdadeiram ente eram esses os seus sentim entos? Às vezes, quando aflorava a raiva ao pensar em Milagros nos braços de um dos Garcías, o ódio de fam ília e o orgulho de raça cigana a levavam a responder que sim , que j á não era sua filha; m uitas outras vezes, porém , a m aioria, o que abria cam inho em seu íntim o não era senão um am or de m ãe infinito, indulgente, cego diante dos erros. Por que havia dito aquela barbaridade?, m artirizava-se então. A raiva e a pena se alternavam ou chegavam a entrem esclar-se na escuridão das longas noites de cativeiro, conseguindo sem pre, no entanto, que Ana tivesse de esconder de suas com panheiras o choro e os soluços que a assaltavam em tais m om entos.