A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 21 de 51

Páginas do PDF

A Rainha Descalça

Cápitulo 21

Aparóquia de Santa Ana de Triana, no coração do arrabalde, era a que contava com m aior núm ero de “pessoas de com unhão” em Sevilha – m ais de dez m il –, e era atendida por três párocos, vinte e três presbíteros, um subdiácono, cinco clérigos m enores e dois tonsurados.

Apesar porém de tal núm ero em fiéis e sacerdotes, Santa Ana estrem eceu Milagros. A obra era um a m aciça construção gótica retangular e de três naves, a central m ais larga e alta que as dem ais, interrom pida no m eio pelo coro. Havia sido erigida no século XIII por ordem do rei Afonso X com o m ostra de gratidão à m ãe da Virgem Maria por haver-lhe curado m ilagrosam ente um olho.

Milagros a viu escura e repleta de retábulos dourados, estátuas ou pinturas de Cristos dolorosos e lacerados, santos, m ártires e virgens que a escrutavam e pareciam interrogá-la. A m oça tentou livrar-se daquela opressão quando sentiu que seus pés descalços pisavam um a superfície rugosa; olhou para o chão e saltou para o lado ao m esm o tem po que reprim ia um j uram ento que não passou de um bufo: ela se achava sobre um a das m uitas lápides sob as quais repousavam os restos dos benfeitores da igrej a. Encostou-se a Caridad, e as duas perm aneceram paradas. Um sacerdote apareceu sob o arco de Nossa Senhora da Antiga, na nave do Evangelho, atrás do qual se encontrava a sacristia. Fê-lo em silêncio, tentando não incom odar os fiéis, m aj oritariam ente m ulheres que durante nove dias seguidos rezavam e se encom endavam a Santa Ana, quer para alcançar a desej ada fecundidade, quer para proteger sua evidente gravidez; era sabido em Triana e em toda Sevilha que desde havia m uito tem po a santa m atrona intercedia pela concepção das m ulheres.

Milagros observou a alguns passos delas o sacerdote e Rey es cochichando; ela a assinalava vezes seguidas, e o padre a olhava com displicência. A Trianeira havia vindo para substituir a velha María em sua vida. “Onde está a velha teim osa?”, perguntou-se Milagros um a vez m ais, após j á tê-lo feito m ilhares de vezes durante aqueles dias. Sentia falta dela. Poderiam perdoar-se, por que não? Tentou tirar a velha de sua m ente quando o sacerdote lhe fez um autoritário gesto para que o seguisse: María não haveria gostado de que ela se achasse ali, entregando-se à Igrej a e preparando seu batism o; com certeza que não. Ao passar j unto a Rey es, a Trianeira fez m enção de afastar Caridad.

– Ela m e acom panha – disse Milagros puxando sua am iga para que não parasse j unto à cigana.

Após a fuga da velha María e até o regresso de seus pais, Cachita era a única pessoa que lhe restava daquelas com quem havia convivido, e a m oça a buscava m ais que nunca, até ao preço de deixar de encontrar-se com Pedro algum as vezes, em bora tam bém se houvesse visto obrigada a reconhecer que, desde que as duas fam ílias haviam com binado o casam ento, seu j ovem prom etido havia m udado de atitude, ao m enos sutilm ente: seguia sorrindo-lhe, conversando com ela e deixando cair os olhos naquele terno gesto que conseguia em ocioná-la, m as havia algo… algo diferente nele que ela não conseguia descobrir.

O sacerdote a esperava sob o arco da Virgem da Antiga.

– Ela m e acom panha – repetiu Milagros quando tam bém ele quis opor-se à passagem de Caridad.

O esgar de reproche com que o hom em de Deus recebeu suas palavras indicou à m oça que talvez ela se houvesse excedido na dureza de seu tom , m as ainda assim entrou na sacristia com Caridad. Com eçava a ficar cansada de que todo m undo lhe dissesse o que tinha que fazer; María não o fazia, só se queixava e resm ungava, m as Rey es… acom panhava-a aonde quer que ela fosse!

Na pousada de Bienvenido até lhe indicava as canções que devia interpretar. Tentou opor-se, m as as guitarras obedeciam à Trianeira e não lhe restava outra saída senão dobrar-se a elas.

Ferm ín e Roque j á não faziam parte do grupo, Sagrario tam pouco. Todos haviam sido substituídos por m em bros da fam ília García, e só os Garcias participavam . A Trianeira até havia proibido que Caridad acom panhasse as canções e as danças. “Que saberá um a negra de bater palm as para fandangos ou seguidilhas?”, alfinetou a Milagros. E, durante o tem po que durava o espetáculo, Caridad perm anecia em pé, parada, com o se estivesse gem inada à parede da cozinha da pousada, sem sequer um m au charuto para levar à boca. Rey es se encarregava de todo o dinheiro que obtinham para entregá-lo a Rafael, o patriarca, e, à diferença do costum e da velha María, o Conde não parecia disposto a prem iar Caridad com papantes.

O único m om ento em que Milagros conseguia escapar do controle da Trianeira era de noite, quando ela dorm ia. Inocencio se havia negado a que o fizesse no cortiço dos Garcías até a realização do casam ento, e Caridad e ela continuavam na velha e desolada habitação em que havia transcorrido sua infância. Contudo, a Trianeira lhes havia enviado um a velha tia viúva para que controlasse Milagros. Bartola cham ava-se a m ulher…

– Quais são os m andam entos da Santa Madre Igrej a?

A pergunta conseguiu que Milagros voltasse à realidade: as duas se achavam de pé no interior da sacristia, diante de um a m esa de m adeira trabalhada atrás da qual o sacerdote, j á sentado, a interrogava com expressão dura. Não as convidou a sentar-se nas cadeiras de cortesia. A m oça não tinha nem ideia daqueles m andam entos. Ia reconhecer sua ignorância, m as recordou-se do conselho que um dia, quando era ainda m uito m enina, lhe dera o avô: “És cigana. Nunca digas a verdade aos payos. ” Sorriu.

– Eu os sei… eu os sei… – respondeu então. – Eu os tenho aqui, na ponta da língua –

acrescentou tocando-a. O sacerdote esperou alguns instantes, os dedos das m ãos cruzados sobre a m esa. – Mas não querem sair esses…

– E as orações? – interrom peu-a o religioso antes que a m oça dissesse algum a inconveniência.

– Que orações conheces?

– Todas – respondeu ela com segurança.

– Diga-m e o pai-nosso.

– Vossa Paternidade m e perguntou se as conheço, não se as sei.

O sacerdote não m udou de sem blante. Sabia do caráter dos ciganos. Em m á hora o haviam encarregado de ocupar-se daquela cigana descarada, m as o prim eiro pároco parecia ter m uito interesse em batizá-la e em atrair a com unidade cigana para a Igrej a, e ele não era m ais que um sim ples presbítero sem paróquia e com poucos ganhos. A falta de reação por parte do religioso deu coragem a Milagros, que chegou a esta conclusão: os padres queriam que ela se batizasse.

– Quais são as três pessoas que form am a Santíssim a Trindade? – insistiu o hom em .

– Melchior, Gaspar e Baltazar – exclam ou Milagros contendo um a risada. Havia ouvido essa expressão da boca de seu avô, na ciganaria, quando pretendia zom bar do tio Tom ás. Todos se punham a rir.

Nesta ocasião até Caridad, que perm anecia um passo atrás de Milagros, parada com seu traj e de escrava e o chapéu de palha nas m ãos, teve um sobressalto. O sacerdote se surpreendeu diante daquela reação.

– Tu sabes? – perguntou-lhe.

– Sim … padre – respondeu Caridad.

O religioso tentou com gestos fazer que ela as enum erasse, m as Caridad j á havia baixado o olhar e o m antinha no chão.

– Quem são? – term inou inquirindo.

– O Pai, o Filho e o Espírito Santo – recitou ela.

Milagros se voltou para sua am iga e nessa postura ouviu as seguintes perguntas, todas dirigidas a Caridad.

– És batizada?

– Sim , padre.

– Sabes o Credo, as dem ais orações e os m andam entos?

– Sim , padre.

– Pois ensina-o a ela! – explodiu o hom em apontando para Milagros. – Não querias estar acom panhada? Com o sacerdote, quando um a pessoa adulta… ou que o pareça – acrescentou com sarcasm o – desej a receber o santo sacram ento do batism o, tenho obrigação de conhecê-la e de atestar que rege sua vida pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Escuta: a prim eira se lim ita ao que deve crer todo bom cristão, e isso está contido no Credo. A segunda se refere a com o deve agir, para o que necessita conhecer os m andam entos de Deus e os da Santa Igrej a; e, por últim o, a terceira: o que pode esperar de Deus, e isso se encontra no pai-nosso e nas dem ais orações. Não voltes aqui sem ter aprendido tudo isso – acrescentou abandonando a ideia de instruir a cigana no catecism o do padre Eusebio. Conform ar-se-ia se aquela desavergonhada fosse capaz de recitar o Credo!

Sem dar-lhe oportunidade de réplica, o sacerdote se levantou da m esa e m oveu repetidam ente o dorso de am bas as m ãos com os dedos estendidos, com o se espantasse dois anim aizinhos incôm odos, indicando-lhes que deixassem a sacristia.

– Com o foi lá dentro? – interessou-se a Trianeira, que as esperava em um dos acessos à igrej a, onde havia aproveitado para pedir esm ola com discrição, augurando fertilidade a cada um a das j ovens fiéis que se encam inhavam para o interior.

– Já estou m eio batizada – respondeu Milagros com seriedade. – É verdade – insistiu diante da suspicácia que se m ostrou no rosto da velha cigana –, só falta a outra m etade.

Mas Rey es não era nenhum a paya insossa e não ficou atrás.

– Pois cuidado, m enina – respondeu apontado com um dedo que deslizou no ar de lado a lado para a altura da cintura da m oça –, que não te cortem de través, para batizar a m etade que falta, e o gracej o te escape por algum flanco.

* * *

A Milagros não entravam as orações nem aqueles m andam entos de Deus ou da Igrej a que Caridad pretendia ensinar-lhe e que esta recitava cansadam ente, tal com o fazia aos dom ingos nas m issas do engenho cubano. A velha Bartola, farta de repetições entrecortadas m atutinas, e sentada na desconj untada cadeira que, com o se se tratasse do m aior tesouro, havia trazido consigo do outro lado do beco e posto j unto à j anela na casa de Milagros, solucionou o problem a com um grito.

– Canta-as, m oça! Se as cantares, vão entrar-te.

A partir daquele dia, os apáticos balbucios se converteram em cantilenas, e Milagros com eçou a aprender orações e preceitos ao ritm o de fandangos, seguidilhas, sarabandas ou chaconas.

Foi precisam ente essa facilidade natural, esse dom que possuía a cigana para absorver m úsica e canções, o que lhe criou os m aiores problem as e desgostos quando chegou a hora de aprender os vilancicos que devia cantar em Santa Ana.

– Sabes ler partitura?

Antes que Milagros respondesse, o próprio m estre de capela deu um tapa no ar ao com preender o ridículo de sua pergunta.

– A única coisa que sei ler são as linhas da m ão – respondeu a j ovem –, e m e bastou um suspiro para ler m uitas desgraças na sua.

Milagros estava tensa. Os m em bros de um a capela de m úsica de Santa Ana lotada a j ulgavam , e não lhe havia sido difícil im aginar o que é que pensavam dela as crianças do coro, o tenor, os dem ais cantores e o organista; afora as crianças do coro, todos eram m úsicos profissionais. Que fazia um a cigana descalça e suj a cantando vilancicos em sua igrej a?, havia podido ver em seus rostos a m oça.

E o que pôde ver agora no do m aestro, calvo e barrigudo, foi um esgar de triunfo que term inou transform ando-se num grito atroador.

– Ler as linhas da m ão? Fora daqui! – O hom em lhe apontou a saída. – A igrej a não é lugar para sortilégios ciganos! E leva a tua negra! – acrescentou para Caridad, postada longe de todos eles.

A própria Trianeira, que as esperava enquanto voltava a pedir esm ola no lado de fora da igrej a, desta vez nada discretam ente, com o se o fato de que Milagros fosse para cantar vilancicos lhe concedesse um a espécie de perm issão, correu para contar ao esposo a expulsão da m oça.

– Se j á estivesse casada com Pedro, eu esbofetearia essa m enina cheia de caprichos – disse-lhe ao final.

– Já terás oportunidade de fazê-lo – lim itou-se a assegurar-lhe o outro, que se apressou a ir a Santa Ana antes de ser cham ado ao capítulo pelo pároco.

Regressou transtornado: tivera de pedir m il vezes perdão e hum ilhar-se diante de um sacerdote colérico. Já no beco, Rafael viu Milagros, que escutava em basbacada a Pedro com o se nada houvesse sucedido naquele dia radiante de inverno. Descartou a possibilidade de abordá-la então e buscou a aj uda de Inocencio, com o qual regressou ao lugar onde conversavam os j ovens ciganos.

A m oça nem sequer os viu chegar, m as Pedro, sim , e pelo andar e resfolegar de seu avô pôde prever o que se avizinhava; afastou-se alguns passos.

– Não libertarão teus pais – soltou o Conde a Milagros de supetão.

– Quê?… – balbuciou ela.

– Não os libertarão, Milagros – m entiu Inocencio para aj udar o Conde, que havia prom etido ao pároco que Milagros voltaria e se com portaria.

– Mas… por quê? Disseram que os processos j á haviam ido para Málaga e La Carraca.

– Sim ples assim : vão dizer que apareceu um a nova testem unha que desm ente todas as dem ais inform ações secretas – respondeu o Conde. – Não só era preciso estar casado pela Igrej a, tam bém se tratava de certificar que não se vivia com o ciganos, e com os Vegas no m eio, pouco lhes vai custar dem onstrá-lo.

Milagros pôs as m ãos no rosto. “Que fiz eu?”, perguntou-se desconsolada.

– Que lhes im porta que eu cante ou não cante na igrej a? – tentou defender-se.

– Não entendes, m oça. Para eles não há nada m ais im portante que recuperar para Deus as ovelhas desgarradas. E essas ovelhas desgarradas hoj e, depois de haverem expulsado os j udeus e os m ouriscos, som os nós: os ciganos. Há m uitos anos que não se cantam vilancicos em Santa Ana, e os padres concederam em recuperar essa tradição com um a cigana cantando-os! Que tu cantasses vilancicos na igrej a significava m ostrar publicam ente que haviam conseguido atrair-nos a seu seio. Até o arcebispo de Sevilha estava a par do proj eto! Mas agora…

Os dois patriarcas trocaram um olhar de cum plicidade assim que se aperceberam do trem or que assaltou o queixo de Milagros; a m oça estava à beira das lágrim as. Am bos fizeram m enção de ir-se.

– Não! – deteve-os ela. – Cantarei! Eu j uro! Que se pode fazer? Que posso…?

– Não o sabem os, m enina – respondeu Inocencio.

– Talvez se fosses pedir perdão… – indicou Rafael torcendo a boca em sinal de que ainda assim poucas possibilidades tinha.

E pediu perdão. Aos padres. Ao m aestro. A todos os m em bros da capela de m úsica, m eninos incluídos. Caridad a contem plou: em pé, cabisbaixa, apequenada diante deles, sem saber o que fazer com aquelas m ãos acostum adas a revolutear alegres ao redor, arranhando cada um a das palavras que Inocencio lhe havia recom endado que dissesse.

– Sinto m uito. Desculpai-m e. Não pretendia ofender a ninguém e m enos ainda a Jesus Cristo e à Virgem em sua própria casa. Eu vos rogo que m e perdoeis. Eu m e esforçarei por cantar.

A Trianeira havia deixado de perseguir os cidadãos em busca de esm ola e havia entrado na igrej a para divertir-se com a hum ilhação da m oça. “Já terás oportunidade”, havia-lhe assegurado seu esposo, e por Deus que teria oportunidade de dar-lhe a bofetada que ela m erecia.

Depois de vários m eninos do coro e alguns dos m úsicos de m ais idade aceitarem suas desculpas, um dos presbíteros a fez aj oelhar-se no chão diante do altar-m or e rezar para expiar sua falta. Ali, diante das dezesseis tábuas que com punham o retábulo que se aj ustava à cabeceira oitavada da igrej a, Milagros, durante as duas longas horas que duraram os ensaios da capela de m úsica, balbuciou a cantilena que tinha aprendido. O Natal se aproxim ava, e era preciso ter tudo preparado.

Apesar de suas desculpas, os dias seguintes, nos quais Rafael estabeleceu que j á não se cantasse na pousada para que Milagros se concentrasse em Santa Ana, constituíram um verdadeiro m artírio para um a m oça que, com a liberdade de seus pais na consciência, tinha de engolir em seco diante dos gritos do m aestro, que vezes seguidas parava os ensaios para culpá-la e insultá-la, clam ando ao céu pela desdita de ter de pugnar com um a inculta que nada sabia de solfej o, nem de canto, nem era capaz de substituir a m úsica de palm as e guitarras pela do órgão.

– Um a cigana! – esgoelava-se apontando para ela –, um a suj a m endiga que o que m ais fez foi cantar vulgares rom ances para bêbados e prostitutas! Ladras todas as de sua laia!

Milagros, exposta ao escárnio diante de todos, aguentava sem sequer esconder as lágrim as que lhe corriam pelas faces e, quando voltava a soar a m úsica, esforçava-se de corpo e alm a.

Pressentia… tinha certeza de que o obj etivo do m aestro e dos dem ais era im pedir que ela cantasse no Natal e de que fariam o que quer que fosse para consegui-lo.

Suas suspeitas se confirm aram três dias antes do Natal. O m aestro apareceu no ensaio acom panhado dos três párocos de Santa Ana; outros presbíteros estavam postados j unto à sacristia. Nessa ocasião ele não a insultou, m as suas queixas e interrupções foram constantes, todas seguidas de desesperados olhares para os párocos tentando transm itir-lhes a im possibilidade de que aquilo ficasse bom .

– Nem sequer pretendo – lam entou-se o m aestro num a das ocasiões – que cante um a ária ao estilo italiano, em bora isso fosse o que m ereceria este grande tem plo. Escolhi um vilancico espanhol, clássico, com coplas e seguidilhas, m as nem assim !

Milagros viu os sacerdotes falar entre si e verificou aterrorizada que sua preocupação se estava convertendo, com os trej eitos do m aestro, na certeza de que haviam com etido um erro.

Não cantaria! Toda ela trem eu. Olhou para Caridad, parada no m esm o lugar. Observou horrorizada que o prim eiro pároco abria as m ãos num inequívoco gesto de desistência.

Iam em bora! Milagros acreditou desfalecer. O m aestro escondeu um sorriso ao m esm o tem po que fazia um a pequena reverência à passagem dos párocos. “Filho da puta!”, resm ungou a m oça.

O desm aio m udou-se em ira; cão filho da puta!

– Filho da…! – explodiu antes que outro grito a interrom pesse.

– Maestro! – Rey es, gorda com o era, atravessava a igrej a correndo. Parou para fazer um a desaj eitada genuflexão e o sinal da cruz diante do altar-m or, levantou-se e continuou fazendo sinais da cruz na testa e no peito até chegar ao lugar onde eles estavam . – Reverendos padres –

resfolegou abrindo os braços para im pedir que continuassem a andar –, sabem o que se diz entre a m inha gente?

O m aestro suspirou, os párocos perm aneceram im passíveis, com o se lhe concedessem a graça de expô-lo.

– Ao burro velho, a m aior carga e o pior aparelho – soltou a Trianeira.

Alguém da capela de m úsica riu, talvez um dos m eninos do coro.

– Sabem o que significa?

Milagros corria o olhar de uns para outros, incrédula.

– Conta-nos – voltou a conceder-lhe o prim eiro pároco com um olhar de aquiescência.

– Sim . Eu o direi, reverendo padre: significa que os velhos, esses – apontou para os cantores, todos atentos à cigana –, são os que têm de levar a m aior carga e o pior aparelho. Não a m enina.

Não o conseguirá com ela – acrescentou para o m aestro –; é um a sim ples cigana, com o Vossa Mercê não se cansa de repetir, um a pecadora que pretende ser batizada. Som os nós, os ciganos, que querem os vir a esta igrej a e ouvir cantar a um a das nossas para honrar o Menino Jesus no dia em que nasceu. Escute. Escutem todos. Ela os sabe. Sabe os vilancicos. Silêncio todos! –

atreveu-se a im por Rey es. Astuciosa, percebia que seu discurso havia agradado aos padres, agora… agora os tinha de deleitar o canto de Milagros. – Canta, m enina, canta com o tu sabes.

Milagros com eçou a cantar um vilancico, à sua m aneira, deixando de lado as com plexas instruções que lhe viera dando o m aestro. Sua voz se ergueu e ressoou no interior da igrej a vazia de fiéis. Os párocos se voltaram para a m oça. Atrás deles, na sacristia, um dos presbíteros se apoiou na parede e se deixou levar pelo vilancico de olhos fechados; outro, de m ais idade, acom panhou o ritm o dos cânticos com a m ão. Não a aplaudiram com o na pousada, ninguém gritou grosserias, m as, assim que deu fim ao vilancico, a m oça soube que os havia cativado.

– Escutou-a? – arrostou Rey es ao m aestro.

O hom em anuiu com a boca franzida, sem atrever-se a olhar para os padres.

– Pois a partir de agora carregue o senhor os burros velhos!

Milagros, incapaz de m over um só m úsculo para verificá-lo, perguntou-se se algum deles sorriria agora.

– Que sej am os burros velhos que se adaptem ao ritm o da m enina, a seu tom , a seu solfej o ou com o quer que o senhor queira cham ar a todas essas m inudências; ela não é m ais que um a cigana ignorante, a burra j ovem .

Durante alguns instantes tanto Rey es com o Milagros acreditaram ouvir até com o m editavam os sacerdotes.

– Assim sej a – sentenciou o prim eiro pároco após trocar um olhar com os dem ais. – Maestro, a m oça cantará à sua m aneira, tal com o acaba de fazê-lo, e que os dem ais se adaptem a ela.

E ali estava Milagros na m anhã do dia de Natal do ano de 1749, vestida com um m anto preto, em prestado pelos padres, de pano grosseiro com m angas que lhe cobria da cabeça aos pés, descalços. No dia anterior havia sido batizada após dem onstrar que sabia m urm urar as orações e os m andam entos. Não lhe exigiram m aiores conhecim entos e, com o adulta que era, a aspergiram em lugar de subm ergi-la na pia batism al na presença de seus padrinhos: Inocencio e Rey es.

Agora a m oça olhava de soslaio, nervosa, para a m ultidão que pouco a pouco se ia acum ulando no interior de Santa Ana, todos lim pos, todos com suas m elhores galas; os hom ens de rigoroso negro, à espanhola, j á que se contavam no arrabalde poucos afrancesados que se vestissem à m ilitar; as m ulheres, sóbrias, cobertas com m antilhas pretas ou brancas, rosários de nácar e prata, alguns de ouro, e um a infinidade de leques que revoluteavam com o constante m ovim ento de m ãos enluvadas. Milagros tentava im aginar-se na pousada, onde com a aj uda da velha María e de Sagrario havia conseguido dom inar o trem or das m ãos e a opressão no peito que quase não lhe perm itia respirar, m as o am biente da igrej a em nada se parecia com o alvoroço dos copos de vinho ou aguardente correndo de m esa em m esa e os hom ens abalançando-se às prostitutas. Toda Triana havia m arcado encontro na igrej a, toda Triana estava esperando os vilancicos que a cigana ia cantar recuperando um a tradição perdida fazia m uitos anos.

Fixou a atenção no m estre de capela, barrigudo e calvo. Exibiu uns óculos que ela não conhecia dos ensaios e que lhe davam um aspecto grave que contrastava com suas frenéticas idas e vindas para organizar e reorganizar o coro. Não se dignou a olhar para Milagros através daqueles novos óculos. Entre o rum or das pessoas que esperavam o início da m issa e o som das centenas de leques e das contas dos rosários entrechocando-se, a m oça acrescentou ao nervosism o que j á sentia o tem or de que o m aestro pudesse lançar-lhe algum a arm adilha. Os últim os ensaios, acom odados à sua form a de cantar, haviam sido m agníficos, ao m enos isso havia parecido à cigana, m as quem lhe assegurava que o m aestro, ferido em seu orgulho, não se vingaria no dia em que toda Triana estava atenta a ela? Os padres se zangariam , e a liberdade de seus pais voltaria a ficar suspensa.

O que ignorava a m oça era que outros haviam pensado o m esm o depois de Rey es contar seu enfrentam ento público com o m estre de capela. A Rafael e Inocencio bastou um olhar para se entenderem , e na m esm a m anhã de Natal, ao am anhecer, três ciganos, dois Garcías e um Carm ona, esperavam o m aestro na porta de sua casa. Poucas palavras foram precisas para que o hom em com preendesse que devia fazer daquele dia o m ais esplendoroso de sua vida.

A esta altura j á havia com eçado a m issa, solenem ente concelebrada pelos párocos titulares de Santa Ana, os três ataviados com luxuosas casulas bordadas com fio de ouro; os dem ais diáconos seguiam a cerim ônia lá do m esm o altar-m or ou do coro, quase ao final da nave principal.

Milagros observou as filas de fiéis m ais próxim as da cabeceira, nas quais se encontravam as fam ílias dos pró-hom ens de Triana. Em um a das extrem idades da prim eira, reconheceu a Rafael e Inocencio com suas esposas, hum ildes em suas vestiduras e em sua atitude, com o se nesta ocasião houvessem deixado a soberba cigana em casa. Os dem ais, Caridad incluída, deviam achar-se ao fundo do tem plo, supondo que houvessem conseguido entrar nele, dado que Santa Ana não era capaz de acolher todos os seus fiéis.

Soou a m úsica e se elevaram os cantos litúrgicos; um a m úsica e alguns cânticos ao estilo italiano que, desde a chegada dos Bourbons ao trono da Espanha, buscavam m ais o deleite dos fiéis que elevar neles a paixão espiritual com o até então pretendiam os com positores com o uso do contraponto; a razão contra o ouvido, tal era a discussão em voga entre os m aestros de capela das grandes catedrais. Milagros encontrou a tranquilidade de que necessitava na leve m elodia.

Em pé, parada ao lado dos m úsicos, era com o se lhe falassem a ela antes que a qualquer outro; suas notas lhe chegavam nítidas, lim pas de cochichos, barulhos ou rum ores. Fechou os olhos, escondida no m anto negro que a cobria dos pés à cabeça, e se deixou levar pela m aravilhosa polifonia das vozes do coro de m eninos até ver-se envolta num delírio m usical em que, pela prim eira vez desde havia m uito tem po, ela não era a protagonista.

Depois, de form a repentina, term inou o m aravilhoso coro que enchia a igrej a e deu passagem às palavras dos oficiantes. Milagros respondeu ao grosseiro contraste daquela voz rude, m as pretensam ente m elosa abrindo os olhos, um edecidos por um as lágrim as que ela nem sequer havia sentido brotar. Olhou ao redor com a visão nublada, sem fazer nada por corrigi-lo, com o se quisesse prolongar o m om ento que acabava de viver. Então percebeu sua presença; percebeu-a tal com o havia uns m om entos havia vibrado ao som dos violinos. Por m ais que seus olhos lhe m ostrassem um a m ancha borrada entre Rafael e Inocencio, sabia que era ele. Por fim os secou com o braço, e o sorriso de seu pai tirou im portância a seu aspecto abatido, à ferida ressecada que lhe cruzava um a das faces para chegar até a testa, ao olho trem endam ente inchado e roxo ou às im provisadas e absurdas roupas com que era evidente que o haviam vestido para ir à igrej a.

Milagros quis correr para ele, m as um gesto de sua parte a im pediu de fazê-lo. “Canta”, silabou ele com os lábios. “E m am ãe?”, perguntou ela da m esm a form a ao m esm o tem po que percorria os presentes sem encontrá-la. “Canta”, repetiu ele quando seus olhares voltaram a encontrar-se.

“E m am ãe?” A expressão com que seu pai recebeu a nova pergunta a deixou gelada. De repente Milagros se deu conta: o m aestro a olhava incrédulo, os da capela tam bém e até os sacerdotes diante do altar-m or; os cantores… A igrej a inteira estava esperando por ela! Não havia entrado no m om ento em que devia fazê-lo. Trem eu.

– Canta, m inha m enina – anim ou-a seu pai antes que fossem os m urm úrios das pessoas o que rom pesse o silêncio.

Milagros, enfeitiçada pelo im enso am or em que se viu envolta por aquelas três palavras, deu um passo adiante. O m aestro voltou a dar entrada aos m úsicos. A prim eira nota surgiu quebrada e tím ida da garganta da cigana. A segunda se encheu diante do pranto com que seu pai recebeu aquela voz que ele acreditava não voltaria a ouvir nunca m ais. Cantou ao m enino recém -nascido.

O estribilho que os m eninos do coro atacaram lhe perm itiu correr o olhar entre os fiéis e os reconheceu entregues a ela. Depois, quando o coro cessou, estendeu as m ãos e se ergueu com o se quisesse que sua voz partisse das m esm as nervuras dos arcos do teto abobadado de Santa Ana para continuar cantando o m ilagre do nascim ento de Jesus.

O pároco teve de pigarrear duas vezes antes de continuar com a m issa quando Milagros pôs fim ao vilancico, m as ela só prestava atenção a seu pai, que se esforçava por conter as lágrim as e m anter-se altivo.

Ao fundo da igrej a, esprem ida entre dois hom ens, tam anha era a m ultidão, Caridad, com os pelos arrepiados, perguntava-se o que havia sido da velha María e de Melchor. Ainda que fosse num a igrej a, estava convicta de que teriam gostado de escutar Milagros.