A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 6 de 51

Páginas do PDF

A Rainha Descalça

Cápitulo 6

Milagros tinha saudade de Caridad. Poucos dias depois da corrida de gansos, o avô havia recebido a visita de um galeote que rem ara com ele durante alguns anos. O hom em , com o todos os condenados que conseguiam sobreviver à trem enda tortura das galés, apresentou-se tão consum ido com o Melchor e, com o todos os que sobreviviam , conhecia os portos e as pessoas do m ar, aquelas da m esm a condição deles: traficantes, contrabandistas e todo tipo de delinquentes.

Bernardo, assim se cham ava o galeote, inform ou ao avô da chegada de um im portante carregam ento de tabaco da Virginia ao porto de Gibraltar, um rochedo na costa espanhola que se achava sob dom ínio inglês. Dali, com o era usual, em em barcações com bandeira inglesa, veneziana, genovesa, ragusana ou portuguesa, de noite, quando o vento soprava com força, para evitarem ser descobertos pelos faluchos de vigilância espanhóis, o tabaco e outras m ercadorias, tecidos ou especiarias eram desem barcados em diferentes pontos da costa, que se estendia entre o rochedo e Málaga. Bernardo j á havia apalavrado um bom carregam ento de tabaco da Virginia, só necessitava de fundos com que pagá-lo e m ochileiros para encarregar-se dele nas praias.

– Dentro de alguns dias irem os em busca de um a partida de tabaco – havia anunciado Melchor a Caridad após fechar acordo com Bernardo no mesón da Joaquina, em torno de um a j arra de bom vinho.

Caridad, que se achava no quarto do cigano, sentada diante de um instável tabuleiro sobre o qual continuava elaborando charutos com o tabaco louro que o frade guardava, lim itou-se a anuir sem deixar de rodar a m ão por cim a daquele em que estava envolvida.

Quem , sim , se surpreendeu foi Milagros, que gostava de ver com o trabalhava sua am iga as folhas de tabaco.

– Leva Cachita? – perguntou ao avô.

– Foi o que eu disse. Quero contar com o m elhor tabaco, e ela sabe reconhecê-lo – respondeu-lhe este no j argão cigano.

– Não… não será perigoso?

– Sim , m enina. Sem pre é – afirm ou o cigano j á da porta, pronto para ir-se de um côm odo em que não cabiam três pessoas.

Os dois se olharam . “Por acaso não o sabias?”, pareceu perguntar-lhe Melchor à neta, que escondeu os olhos envergonhada, consciente do que em seguida lhe diriam os penetrantes olhos do avô: “Quando m e perguntaste isso?”

Melchor não tinha problem as para conseguir m ochileiros e transportadores: os Vegas e seus parentes da ciganaria do horto da Cartuxa sem pre estavam dispostos a acom panhá-lo; eram ciganos duros, tem erários e, acim a de tudo, fiéis. Tam pouco os teve com o dinheiro: Frei Joaquín o conseguiu de im ediato. O que m ais atrasou sua partida, com o costum ava suceder, foram as cavalgaduras: necessitava de anim ais castrados, silenciosos, dóceis e que não relinchassem de noite ao cheiro de um a égua. Mas a fam ília dos Vegas se ocupou disso, e em poucos dias, em algum as correrias pelos cam pos dos arredores de Sevilha, conseguiram os suficientes.

– Cuida-te, Cachita – despediu-se Milagros na hora de partir, as duas na ciganaria do Horto da Cartuxa, algo afastadas de hom ens e cavalos.

Caridad se m ovia incom odam ente sob a longa capa, m asculina e escura, com que Melchor a havia vestido para esconder suas roupas verm elhas. Havia trocado seu chapéu de palha por um cham bergo preto de copa cam panada e aba larga e caída. De seu pescoço pendia um ím ã am arrado com um a corda. Milagros estendeu o braço e sopesou a pedra. Os ciganos acreditavam em seus poderes: contrabandistas, traficantes e ladrões de cavalgaduras afirm avam que, se aparecessem as patrulhas de soldados, aqueles ím ãs originariam fortes tem pestades de poeira e areia que os ocultariam . O que ignorava a cigana era que os escravos cubanos tam bém acreditavam nos poderes do ím ã: “Cristo desceu à Terra com o ím ã”, asseguravam . Caridad teria de batizá-lo e dar-lhe nom e, com o era costum e em sua terra.

Milagros sorriu; Caridad respondeu com um esgar no rosto suarento devido ao im placável calor estival de Sevilha. Em Cuba tam bém fazia calor, m as lá nunca usava tanta roupa.

– Não te separes do avô – aconselhou-a a cigana antes de aproxim ar-se dela e dar-lhe um beij o no rosto.

Caridad se m ostrou aturdida diante da repentina m ostra de afeto da m oça; no entanto, seus lábios grossos e carnosos se alargaram até transform ar aquele inicial sorriso forçado em outro de sincero agradecim ento.

– Gosto de te ver sorrir – afirm ou Milagros, e beij ou-a na outra face. – Não é habitual em ti.

Caridad a prem iou alargando os lábios. Era verdade, reconheceu para si: havia dem orado a abrir-se com a am iga, m as pouco a pouco sua vida se arraigava entre os ciganos, e, à m edida que desapareciam ansiedade e preocupações, foi confiando-se a ela. Contudo, o verdadeiro causador da m udança não era outro senão Melchor. O cigano a havia encarregado de trabalhar com o tabaco. “Já não é necessário que acom panhes a m enina e sua m ãe para vendê-lo pelas ruas”, disse-lhe diante do em penho de Milagros em ensiná-la a fazer algo para contribuir para seu sustento. “Prefiro que sej as tu quem elabore o que elas vendam .” E Caridad se sentiu útil e agradecida.

– Cuida-te tu tam bém – aconselhou à am iga. – Não brigues com tua m ãe.

Milagros ia replicar, m as o grito de seu avô o im pediu.

– Venha, negra, que j á nos vam os!

Nesta ocasião foi ela que beij ou Milagros.

Após a partida de Caridad, a m oça se sentia só. Desde o anúncio de seu com prom isso m atrim onial, Caridad se havia convertido na pessoa que escutava pacientem ente suas queixas.

Não foi capaz de seguir seu conselho.

– Não m e casarei com Alej andro – assegurava à m ãe, dia sim , dia não.

– Fá-lo-ás – respondia-lhe esta sem sequer olhá-la.

– Por que Alej andro? – insistia em outras ocasiões –, por que não…?

– Porque teu pai assim decidiu – repetia a m ãe em tom cansado.

– Antes fugirei! – chegou a am eaçar um a m anhã.

Nesse dia, Ana se voltou para a filha. Milagros pressentiu com que ia deparar: traços contraídos, sérios, gélidos. Assim foi.

– Teu pai em penhou sua palavra – resm ungou a m ãe. – Evite m uito que ele te ouça dizer isso; seria capaz de acorrentar-te até o dia do casam ento.

O tem po transcorria com lentidão; m ãe e filha irritadas, em perm anente discussão.

Milagros nem sequer encontrou refúgio entre suas am igas do beco de San Miguel, m uitas delas tam bém prestes a casar-se. Com o ia reconhecer diante de Rosario, María, Dolores ou qualquer outra que não gostava do hom em que lhe haviam dado? Tam pouco o faziam elas, e isso apesar de a m aioria, antes de conhecer seu destino, não ter contido suas críticas para esses j ovens que depois lhes cabiam em sorte. Milagros não estava isenta de culpa. Quantas vezes teria chegado a escarnecer de Alej andro? Agora todas se tratavam com hipocrisia, com certa distância, com o se de repente lhes houvessem cerceado a inocência. Não se tratava da natureza ou de sua idade, m as sim plesm ente da decisão de seus pais; um a palavra, um sim ples com prom isso selado a suas costas, e o que era válido na noite anterior carecia de im portância ao nascer do sol.

Milagros sentia falta da espontaneidade daquelas conversas entre m oças, dos cochichos, dos risos, dos olhares cúm plices, dos sonhos… Até das disputas. A últim a discussão havia acontecido na noite em que dançara com Pedro García. A m aioria de suas am igas lhe caiu em cim a quando m anifestou sua intenção de fazê-lo. Ela era um a Vega, neta de Melchor, o Galeote, j am ais chegaria a conseguir aquele rapaz, todas o sabiam , portanto… para que m eter-se nisso? Mas Milagros não lhes fez caso e lançou-se a dançar, até que sua m ãe interveio e esbofeteou o rapaz.

Qual das ciganinhas do beco não suspirava por Pedro García, o neto do Conde? Todas o faziam !

E no entanto agora, depois de seu com prom isso, seria um a grave afronta aos Vargas que Milagros alentasse a Pedro García. Alej andro teria de sair em sua defesa e atrás dele seu pai e seus tios; os Garcías fariam o m esm o, e os hom ens sacariam suas navalhas… Mas Milagros não conseguia deixar de olhar a furtadelas para o rapaz em cada ocasião em que este cam inhava pelo Beco de San Miguel, indolente, m ovendo-se devagar, com o o faziam os ciganos de raça, altivo, soberbo, arrogante. Então sentia saudade de Caridad, a quem podia falar com liberdade de seus anelos e desgraças. Contavam que o j ovem havia herdado a m ilenar sabedoria cigana para trabalhar o ferro; que sentia quando tinha de iniciar cada um de seus processos, que sabia, que percebia instintivam ente quando estava preparado o ferro para ser forj ado, tem perado, soldado… Tanto que até os velhos o consultavam às vezes. E, no entanto, ela estava atada a Alej andro. Até Frei Joaquín lhe havia desej ado o m elhor diante seu com prom isso! O frade sentira um calafrio quando Ana lhe com entara nas im ediações de São Jacinto. “Já?”, escapou-lhe. E Milagros, j unto à sua m ãe, ouviu cabisbaixa aquela voz clara e nítida com que entoava suas pregações brotar algo entrecortada na hora de desej ar-lhe parabéns.

“Caridad, necessito de ti”, sussurrou a m oça com seus botões.

Não estava atenta! Para além do grupo de m oças, entretida com a condessa, Ana a traspassou com o olhar. Que estava fazendo? Por que hesitava? “Está distraída!”, pensou a m ãe quando Milagros soltou a delicada e branca m ão que lhe havia estendido a filha da condessa e sim ulou um ataque de tosse. Milagros não conseguia recordar o que é que lhe havia augurado a últim a ocasião em que lhe lera a sorte. A condessinha e as duas am igas que rodeavam a cigana se afastaram com um esgar de aversão diante da expectoração com que a m oça tentava ganhar tem po.

– Estás bem , m inha filha? – acudiu a m ãe em sua aj uda. Só Milagros reparou na dureza de seu tom . – Perdoe, Excelência – desculpou-se com a condessa dirigindo-se ao grupo de m oças –, a m enina tosse m uito ultim am ente. Vam os ver, m inha linda – acrescentou após substituir a filha e pegar sem contem plações a m ão da j ovem .

O frufru da estufada saia de seda da condessa se ouviu com nitidez no grande salão quando decidiu aproxim ar-se com curiosidade, as duas am igas da condessinha fecharam o círculo e Milagros se afastou alguns passos. Dali, obrigando-se a tossir de vez em quando, ouviu a m ãe em baucar com habilidade a condessinha e suas duas am igas.

Hom ens? Príncipes seriam os que se casariam com elas! Dinheiro? Com o ia faltar? Filhos e felicidade. Algum problem a, algum a doença, por que não?, m as nada que não conseguissem superar com devoção e com a aj uda de Jesus Cristo e Nossa Senhora. Com a m ão na boca e a cantilena de sua m ãe nos ouvidos, Milagros desviou a atenção para a cam areira da condessa, parada j unto às portas de acesso ao salão, controlando para que nenhum a cigana furtasse nenhum obj eto; m ais tarde, nas cozinhas, tam bém teriam de ler-lhe a m ão. Depois voltou o olhar para o grupo de m ulheres: sua m ãe, descalça, de tez escura, quase negra, ataviada com suas roupas coloridas e seus avelórios de prata na cintura; grandes argolas pendendo das orelhas e colares e pulseiras tilintando à m edida que gesticulava e afirm ava com paixão o futuro daquelas m ulheres brancas com o leite, ataviadas com vestidos de seda de saia estufada, todas elas adornadas com um a infinidade de bordados, laços, babados, fitas… Quanto luxo havia naquelas vestiduras, nos m óveis e j arros, nos espelhos e relógios, nas cadeiras de braços dourados, nos quadros, nos refulgentes obj etos de prata acom odados por todas as partes!

A condessa de Fuenteviej a era um a boa cliente de Ana Vega. Às vezes a m andava cham ar: gostava de ouvi-la ler a sorte, com prava tabaco dela e até algum a das cestas confeccionadas pelas ciganas do Horto da Cartuxa.

Milagros ouviu o risinho nervoso de um a das am igas da condessinha, ao qual im ediatam ente se som aram as com edidas e afetadas exclam ações de alegria das outras duas e uns delicados aplausos por parte da condessa. As linhas de sua m ão pareciam augurar-lhe um futuro prom issor, e Ana se espraiou neste: um bom m arido, rico, atraente, sadio, fiel. E por que não dizia o m esm o a ela, à sua filha? Por que a condenava a casar-se com um inábil, por m ais Vargas que fosse? A cam areira, j unto às im ensas portas, sobressaltou-se quando Milagros cerrou os punhos, franziu o cenho e bateu com o pé no chão.

– Estás m elhor? – perguntou-lhe sua m ãe com um a ponta de ironia.

A m oça lhe respondeu com um novo e sonoro ataque de tosse.

A tarde tornou-se-lhe insuportável. Ana Vega, sem se im portar com o tem po, desdobrou todos os seus ardis ciganos com as três m oças. Depois, quando estas desapareceram , satisfeitas, cochichando entre si, ocupou-se da condessa.

– Não – opôs-se quando a aristocrata sugeriu que Milagros esperasse na cozinha, onde a atenderiam . – Está m elhor aí, afastada, que não contagie os lacaios de Vossa Excelência.

O novo sarcasm o enfureceu Milagros, m as ela se segurou. Suportou a longa hora que sua m ãe esteve falando com a condessa; suportou a despedida e o pagam ento, e suportou as atenções que depois teve de prestar à cam areira e a alguns criados, que trocaram tabaco e leituras da sorte por algum as viandas surripiadas da despensa dos condes.

– Estás m elhor? – zom bou a m ãe j á na rua, de volta a Triana, com o sol de verão ainda destacando as cores de suas roupas. Milagros bufou. – Creio que sim – acrescentou Ana sem dar-se por entendida da insolência –, porque am anhã de noite cantarem os e dançarem os para os condes. Convidaram uns viaj antes… ingleses, sei lá… franceses ou alem ães, vá-se saber de onde!

O fato é que querem que se divirtam .

Milagros voltou a bufar, desta vez com m ais força e com um a ponta de displicência. A m ãe continuou sem fazer-lhe caso, e andaram o restante do cam inho em silêncio.

Pediu-lhe um sorriso. Não o fez pelos condes de Fuenteviej a ou pela dezena de convidados que haviam trazido consigo e que perm aneciam expectantes no j ardim que descia até o rio, num a das casas principais de Triana onde o aristocrata havia decidido realizar a festa. Ana sorriu para a filha depois de arquear os braços acim a da cabeça e m exer as cadeiras assim que ouviu o prim eiro toque da guitarra, ainda sem iniciar a dança, preparando-se para lançar-se a ela um a vez que os hom ens estivessem preparados. Milagros aguentou o envite sem pestanej ar, diante dela, parada, com os braços caídos.

– Bela! – galanteou um cigano a m ãe.

“Vam os!”, pareceu dizer-lhe a m ãe à filha através de um carinhoso esgar dos lábios. Milagros franziu os seus, fazendo-se rogar. Outra guitarra afinou suas cordas. Um a cigana fez soar as castanholas. “Adiante!”, anim ou Ana à filha, erguendo de novo os braços.

– Belas! – ouviu-se entre as pessoas.

– Linda! – gritou a m ãe à filha.

As guitarras com eçaram a soar em uníssono. Repicaram vários pares de castanholas, e Ana se ergueu diante de Milagros, batendo palm as.

– Vam os, filha! – anim ou-a.

As duas com eçaram ao m esm o tem po, giraram volteando as saias no ar, e, quando voltaram a defrontar-se, os olhos de Milagros faiscavam e seus dentes reluziam num am plo sorriso.

– Dance, m ãe! – gritou a m oça. – Esse corpo! Essas cadeiras! Não as vej o m exer-se!

Os Carm onas, que haviam ido à festa, apoiaram as palavras da m oça. Os convidados dos condes, franceses ou ingleses, pouco im portava, ficaram boquiabertos quando Ana aceitou o desafio de sua filha e requebrou com voluptuosidade a cintura. Milagros riu e im itou-a. Na noite, com as águas do Guadalquivir trem eluzindo em prata, à luz das tochas dispostas no j ardim trianeiro, entre m adressilvas e j alapas-verdadeiras, laranj eiras e lim oeiros, as guitarras tentaram adaptar seu ritm o ao frenesim que as m ulheres im punham ; as palm as ressoaram com ím peto, e os bailaores se viram ultrapassados pela sensualidade e pelo atrevim ento com que m ãe e filha dançaram a sarabanda.

Ao final, suarentas am bas, Ana e Milagros fundiram -se num abraço. Fizeram -no em silêncio, sabendo que se tratava de m era trégua, de que a dança e a m úsica se abriam a outro m undo, aquele universo onde os ciganos se refugiavam de seus problem as.

Um lacaio do conde desfez o abraço.

– Suas Excelências desej am felicitá-las.

Mãe e filha se dirigiram para as cadeiras das quais os condes e seus convidados haviam presenciado a dança enquanto as guitarras j á rasgavam preparando a seguinte. Honrando-as com o a iguais, don Alfonso, o conde, levantou-se de seu assento e recebeu-as com corteses palm as, secundado pelos outros convidados.

– Extraordinário! – exclam ou don Alfonso quando as m ulheres chegaram até ele.

Com o que saídos do nada, José Carm ona, Alej andro Vargas e alguns outros m em bros de am bas as fam ílias se haviam posto às costas delas. Antes de iniciar as apresentações, o conde entregou um as m oedas à cigana, que as sopesou com satisfação. Ana e Milagros tinham o cabelo revolto, arquej avam , e o suor que encharcava seus corpos brilhava à trem eluzente luz das tochas.

– Don Michael Block, viaj ante e estudioso da Inglaterra – apresentou o conde um hom em alto, em pertigado e com o rosto trem endam ente rosado ali onde não aparecia a cuidada barba grisalha.

O inglês, incapaz de desviar o olhar dos úm idos e esplendorosos peitos da m ulher, que subiam e desciam ao ritm o de um a respiração ainda entrecortada, balbuciou algum as palavras e ofereceu a m ão à cigana. O cum prim ento se estendeu m ais que o estritam ente necessário. Ana percebeu que os Carm onas, a suas costas, se rem exiam inquietos; o conde tam bém .

– Michael – tentou interrom per o cum prim ento don Alfonso –, esta é Milagros, a filha de Ana Vega.

O viaj ante hesitou, m as não chegou a soltar a m ão da cigana. Ana fechou os olhos e negou im perceptivelm ente com a cabeça quando notou que José, seu esposo, dava um passo à frente.

– Don Michael – disse então conseguindo cham ar a atenção do inglês –, isso em que está em penhado j á tem dono.

– Quê? – conseguiu perguntar o viaj ante.

– O que eu lhe digo. – A cigana, com o polegar da m ão esquerda estendido, apontou para trás, certa de que José haveria sacado j á sua im ensa navalha.

O rosa dos pôm ulos do inglês m udou-se num branco pálido, e ele soltou a m ão.

– Milagros Carm ona! – apressou-se a anunciar então o conde.

A m oça sorriu ao viaj ante com indolência. Atrás dela, José Carm ona arqueou as sobrancelhas e m anteve a navalha à vista.

– A m enina do senhor de trás – disse então Ana, apontando de novo para José. O inglês seguiu a indicação da m ulher. – Sua filha, entende, don Michael? Fiiilha – repetiu devagar, m arcando as sílabas.

O inglês deve ter entendido, porque finalizou o cum prim ento com um a vertiginosa reverência para Milagros. Condes e convidados sorriram . Haviam -no advertido: “Michael, as ciganas dançam com o diabas obscenas, m as não se engane, no m om ento em que cessa a m úsica são tão castas com o a donzela m ais zelosa de sua virtude.” No entanto, apesar das advertências –

o conde o sabia, os convidados o sabiam , os ciganos tam bém –, aquelas m úsicas e aquelas danças às vezes alegres, às vezes tristes, m as sem pre sensuais, causavam nos espectadores efeitos que os faziam perder todo indício de sensatez; m uitas eram as brigas com payos que, excitados pela voluptuosidade das danças, haviam tentado exceder-se com as ciganas até chegar a ver aqueles punhais m uito m ais perto do que o havia feito o inglês.

Nesta ocasião, don Michael, prudentem ente separado de Milagros, e com as faces recuperando o rosado natural, rebuscou em sua bolsa e lhe entregou um par de reais de a ocho à m oça.

– Fique com Deus! – despediu-se José Carm ona em nom e de sua filha.

Assim que os condes e seus convidados se sentaram de novo, guitarras, pandeiros e castanholas voltaram a soar na noite.

– Queres um charuto?

Milagros se virou. Alej andro Vargas lhe estendia um . A cigana o escrutou de alto a baixo, sem acanham ento nenhum : devia de ter dezesseis anos e tinha a tez escura e o porte altivo dos Vargas, m as havia algo que falhava… Seus olhos? Devia ser isso. Não era capaz de sustentar o olhar com o o faria um cigano. E dançava m al, talvez porque fosse dem asiado grande. Atrás dele, algo afastada, verificou que sua m ãe a espiava.

– É um puro havano – insistiu Alej andro para safar-se do exam e.

– De onde o tiraste? – inquiriu a m oça fixando-se no charuto que Alej andro segurava.

– Meu pai com prou vários.

Milagros soltou um a gargalhada. Era um dos de Caridad! Reconheceu-o pelo fio de cor verde com que sua am iga havia rem atado a ponta por que se puxava.

– Que te dá tanta graça? – perguntou o rapaz.

Milagros não lhe fez o m enor caso. Franziu o cenho para sua m ãe, que agora a olhava sem dissim ulação, estranhando a gargalhada. “Haverá sido ela?”, perguntou-se a m oça. Não. Não podia ser. Sua m ãe não haveria ousado enganar os Vargas e vender-lhes por puro havano algo que não o era. Só podia haver sido…

– Com o o senhor é grande, vovô! – soltou com um sorriso nos lábios.

– Que dizes?

– Nada.

Alej andro m antinha o charuto estendido. Havia-o feito Caridad com suas m ãos! Talvez ela houvesse presenciado com o o fazia.

– Que venha esse charuto!

Milagros o ergueu à altura dos olhos e o m ostrou à m ãe de longe.

– Puro havano – afirm ou antes de contrair as feições num esgar engraçado.

– Sim – ouviu Alej andro dizer.

Ana m eneou a cabeça e deu um tapa no ar.

– Deve estar bom – aventurou a m oça para o cigano.

– Boníssim o.

“Certam ente”, pensou então. Fê-lo Cachita.”

– Fogo? – interrom peu ele suas reflexões.

Milagros não pôde reprim ir um suspiro de resignação.

– Fogo? É claro que quero fogo! Com o vou fum ar se não? Tu vês que eu tenha fogo?

Alej andro pegou com inabilidade a pederneira e o fuzil de um a bolsa.

– E a isca? – instou-lhe Milagros.

Alej andro m urm urava enquanto rem exia inutilm ente na bolsa.

– Pare! – deteve-o a m oça. – Nessa bolsinha j á terias de havê-la encontrado. Não te dás conta de que não tens isca? Tom a. Vai acendê-lo num a das tochas.

“És tu que vais dom ar a potrinha?”, pensou Milagros enquanto o via andar obedientem ente para um a das tochas. Fazia-o com o os ciganos, com lentidão, tão erguido quão grande era, m as não seria capaz de dom ar um burriquinho. Ela… Procurou a m ãe com o olhar: batia palm as atrás de um dos guitarristas, distraída, anim ando a dança. Ela queria um hom em !

Milagros não conseguiu livrar-se de Alej andro pelo restante da noite. Com partilharam o charuto. “Não tens outro para ti?”, queixou-se ela. Mas seu pai só lhe tinha dado um . E

beberam . Bom vinho, da grande quantidade que o conde havia trazido para anim ar a festa. A cigana voltou a dançar, um a alegre seguidilha cantada pelas m ulheres com voz viva. Fê-lo com outros j ovens, entre os quais um esforçado Alej andro.

– Nunca te ouvi cantar – disse-lhe este um a vez term inada a dança.

Milagros notou que a cabeça lhe dava voltas: o vinho, o tabaco, a festa…

– Será que não reparaste o suficiente – m entiu com a voz pastosa. – Esse é o interesse que tens por m im ?

O fato era que nunca se havia entregado a cantar apesar de seu pai incitá-la a fazê-lo; fazia-o em coro, dissim ulando sua perturbação por não o fazer bem , entre as vozes das dem ais m ulheres. “Não te preocupes”, tranquilizava-a a m ãe, “dança, apaixona com teu corpo, j á cantarás.”

Alej andro acusou aquela nova insolência.

– Eu… – balbuciou.

Milagros o viu baixar o olhar para o chão. Um cigano nunca escondia os olhos. A im agem de Caridad lhe veio à m ente. A tonteira se som ou à perturbação diante de quem estava cham ado a ser seu esposo.

– Esse queixo! – gritou. – Para cim a!

No entanto, Alej andro voltou a dirigir-se a ela com tim idez.

– Sim , tenho interesse em ti. É claro que sim . – Falava com o Caridad quando chegara ao beco, olhando para o chão. – Faria qualquer coisa por ti, o que fosse…

Milagros o observou, pensativa; qualquer coisa?

– Há um ceram ista em Triana… – soltou-lhe ela sem pensar.

* * *

Milagros havia falado disso com sua m ãe, exacerbada, excitada, depois de Frei Joaquín e ela m esm a terem conseguido fazer Caridad falar, à base de m il perguntas respondidas entre soluços, do que havia sucedido com o oleiro.

– Não é problem a dos ciganos – interrom peu-a Ana.

– Mas m ãe!

– Milagros, j á tem os m uitos problem as. As autoridades nos perseguem . Não nos m etas em m ais confusões! Sabes que estam os proibidos até de vestir-nos com o fazem os; poderiam deter-nos só por nossos traj es.

A m oça abriu as m ãos e m ostrou sua saia azul num gesto de incom preensão.

– Não – esclareceu-lhe Ana. – Aqui em Triana, em Sevilha, gozam os da proteção de alguns hom ens ilustres e com pram os o silêncio de alcaides e oficiais de j ustiça, m as fora de Sevilha nos detêm . E nos m andam para as galés só por serm os ciganos, por andarm os os cam inhos, por forj arm os caldeiras, repararm os arream entos ou ferrarm os cavalos e burros. Som os um a raça perseguida há m uitos anos; têm -nos por m eliantes tão só por serm os diferentes. Se Caridad fosse cigana… então não duvides! Mas não devem os procurar esses problem as. Teu pai nunca o consentiria…

– Papai odeia Caridad.

– É possível, m as isso não elim ina o fato de que não é cigana. Não é dos nossos. Sinto m uito por ela… Sinto verdadeiram ente – insistiu a m ãe diante do desespero da filha. – Milagros, sou um a m ulher e posso im aginar m elhor que tu o calvário pelo qual passou a negra, m as não podem os fazer nada, de verdade.

Frei Joaquín não lhe foi de m ais aj uda apesar de Milagros recordar a ira com que fora recebendo a história de Caridad quando esta a contou, na noite da corrida de gansos.

– E que queres que eu faça, Milagros? – escusou-se. – Denunciá-lo? Denunciar um honrado artesão que está há anos trabalhando em Triana em razão da palavra de um a m ulher negra recém -em ancipada, sem raiz algum a neste lugar? Quem testem unharia a seu favor? Eu sei –

acrescentou com rapidez para calar sua réplica –, tu o farias e eu acreditaria em ti, m as és cigana e eles, os oficiais de j ustiça e os j uízes, nem sequer adm itiriam teu testem unho. Todos os artesãos ficariam a seu lado. Seria a ruína de Caridad, Milagros. Não o suportaria, se se lançassem em cim a de você com o cães selvagens. Consola-a, sê sua am iga, aj uda-a em sua nova vida… e esquece este assunto.

No entanto, no dom ingo seguinte, convidado a pregar na paróquia de Santa Ana, Frei Joaquín falou em alto e bom som do púlpito, sabendo que m uitos dos que o escutavam se haviam aproveitado de Caridad. Procurou com o olhar o ceram ista que a havia prostituído.

Apontou am eaçador a torto e a direito. Gritou e gritou. Ergueu as m ãos para o céu com os dedos retesados e clam ou contra os rufiães e contra os que com etiam o pecado da carne, e ainda m ais se se com etia contra m ulheres indefesas! Com a cum plicidade dos párocos de Santa Ana que o haviam convidado a fazer o serm ão e diante um a freguesia encolhida e tem erosa, augurou para todos eles o fogo eterno. Depois os viu deixar a igrej a entre m urm úrios.

E que im portava!, resm ungou quando o tem plo ficou vazio e num silêncio só rom pido pelo som de seus próprios passos. Tudo se reduzia a um j ogo hipócrita! Em Sevilha se contavam às dezenas as graças para conseguir indulgências plenárias. Qualquer deles, só por visitar um a igrej a determ inada num dia concreto: a de Santo Antônio dos Portugueses, qualquer terça-feira, por exem plo, ganharia a indulgência plenária e ficaria livre de todo pecado, inocente e lim po com o se acabasse de nascer. Frei Joaquín não pôde reprim ir um riso sardônico que ressoou em Santa Ana. Que lhes im portava a eles o arrependim ento ou o propósito de em enda? Correriam para obter sua indulgência, para lim par sua alm a, e voltariam convencidos de haver eludido o diabo, prontos para com eter qualquer outra m á ação.

Milagros e Alej andro se achavam perto da almona [ 4 ]j unto à Inquisição; com eçava a assaltar-lhes o penetrante cheiro dos óleos e das potassas com que se fabricavam os sabões brancos de Triana quando, à luz das velas do castelo de São Jorge, a j ovem observou que seu prom etido cam inhava com um a m ão aferrada ao cabo do punhal que levava na cinta. A cigana tentou firm ar seu cam inhar instável com o um a rainha invulnerável j unto aos três ciganos que a acom panhavam : Alej andro, seu irm ão m ais novo e um de seus prim os Vargas, os quais tam bém brincavam com a em punhadura de suas arm as.

Haviam seguido bebendo, afastados da m úsica que soava para contentam ento de nobres e convidados, enquanto Milagros explicava àquele rapaz que estava disposto a fazer qualquer coisa por ela o que havia sucedido a Caridad à sua chegada a Triana. Fê-lo exaltada, com m aior repugnância ainda, se possível, que a que em anou de sua voz quando o contou à sua m ãe.

Alej andro conhecia Caridad, era im possível não reparar naquela m ulher negra que vivia no cortiço j unto com Melchor, o Galeote. “Filho da puta”, resm ungou vezes seguidas à m edida que a cigana se espraiava em explicações.

– Cão sarnento! – exclam ou ao inteirar-se de com o a havia am arrado. Milagros calou-se e tentou centrar o olhar nele. Alej andro, tam bém afetado pela bebida, acreditou perceber um a ponta de afeto naqueles olhos vidrosos. – Porco! – acrescentou então.

– Degenerado! – soltou Milagros entre dentes antes de continuar com sua explicação.

A cigana encontrou em Alej andro a com preensão que não havia obtido em sua m ãe nem em Frei Joaquín. Falava exaltada. Por seu lado, ele sentia que ela se aproxim ava cada vez m ais, que buscava seu apoio, que se entregava a ele. O vinho fez o restante.

– Merece a m orte – sentenciou Alej andro quando Milagros pôs fim à história.

A partir daí tudo se desenvolveu com rapidez.

– Vam os – instou-lhe o cigano.

– Aonde?

– Vingar tua am iga.

Alej andro puxava pela m oça. O sim ples contato com o braço de Milagros o encoraj ava. No saguão de saída da casa em que se realizava a festa, o cigano se encontrou com seu irm ão m ais novo e seu prim o.

– Tenho um acerto de contas por fazer – disse-lhes roçando a em punhadura de seu punhal com os dedos –, acom panhais-m e?

E am bos haviam assentido, fosse para fazer cum prir a lei cigana, fosse pela excitação provocada pela festa e pelo vinho. Depois, enquanto cam inhavam , Alej andro lhes falou de Caridad e do oleiro. Milagros nem sequer pensou nas advertências de sua m ãe.

O bairro estava deserto. Era noite fechada. A m oça assinalou a Alej andro um a das casas da rua com um quase inobservável gesto de queixo. Caridad havia consentido em indicá-la de longe, atem orizada.

– É esta – anunciou o cigano. – Vós vigiai.

Im ediatam ente, sem pensar, esm urrou as portas da oficina. Os golpes atroaram .

– Oleiro! – gritou o cigano. – Abre, oleiro!

Os outros dois percorriam a rua de alto a baixo com um a tranquilidade que apaixonou Milagros. Eram ciganos! Alej andro voltou a esm urrar as portas. O basculante de um a casa fronteira abriu-se e a pálida luz de um a vela apareceu nele. O irm ão m enor de Alej andro inclinou a cabeça para a luz, com o se o surpreendesse tal curiosidade. “Não deve ter nem quinze anos”, pensou Milagros. O basculante se fechou com um a batida seca.

– Oleiro, abre!

Milagros voltou a atenção para Alej andro, e desconcertou-a notar que se arrepiava diante de sua ousadia; um calafrio que percorreu suas costas com eçou a livrá-la da em briaguez.

– Quem é? Que queres a esta hora?

A voz procedia de um a das j anelas do andar superior.

– Abre!

Milagros perm anecia enfeitiçada.

– Não incom odes m ais ou cham arei a ronda!

– Antes que ela chegue, j á terei ateado fogo à tua casa – am eaçou o rapaz. – Abre!

– Aj udem -m e! Socorro! Aguazis! Socorro! – gritou o oleiro.

Alej andro voltou a bater na porta alheio aos gritos de socorro que se confundiam com suas batidas na noite. De repente, Milagros reagiu: onde se haviam m etido? Percorreu a rua com o olhar. De um a oficina próxim a saía um hom em em cam isão de dorm ir em punhando um velho trabuco. Abriu-se um par de portas. O oleiro seguia gritando, e Alej andro batendo nas portas.

– Alej andro… – conseguiu dizer Milagros com voz titubeante.

Ele não chegou a ouvi-la.

– São só uns ciganinhos! – gritou então o do cam isão de dorm ir.

– Alej andro – repetiu Milagros.

– São quatro m endigos!

O irm ão e o prim o Vargas com eçaram a retroceder diante dos hom ens que saíam das casas vizinhas, todos arm ados: trabucos, paus, m achados, facas… Um deles soltou um a gargalhada diante do m edo que apareceu no rosto dos rapazes.

– Alej andro! – gritou Milagros j usto no m om ento em que se abria a porta da oficina.

Tudo sucedeu com rapidez. Milagros só o entreviu, o suficiente no entanto para reconhecer o hom em a que havia tentado vender charutos em San Roque no dia dos gansos. Achava-se para lá do vão da porta, vestido com uns calções surrados e o peito descoberto; atrás dele estava seu filho com um a velha espada na m ão. O hom em segurava um trabuco cuj a am eaçadora boca redonda pareceu im ensa à cigana. Então Alej andro sacou a arm a da cinta, e, quando fez m enção de lançar-se contra o oleiro, este disparou. Um a infinidade de dispersos proj éteis de chum bo destroçou a cabeça e o pescoço do rapaz, que saiu voando pelo im pacto.

Os hom ens da rua ficaram paralisados. Os ciganos, boquiabertos, balbuciantes, viravam a cabeça incessantem ente do corpo desfigurado que j azia na terra para os oleiros que haviam acudido em aj uda de seu com panheiro. Milagros, desconcertada, olhava as m ãos e as roupas, salpicadas de sangue e de restos de Alej andro.

– Matastes um Vargas – conseguiu articular o m ais velho dos ciganos.

Os hom ens se olharam , com o que sopesando aquela am eaça. No interior da oficina, o oleiro tentava recarregar o trabuco com m ãos trêm ulas.

– Acabem os com eles! – propôs um dos artesãos.

– Sim . Assim ninguém ficará sabendo! – acrescentou outro.

Os Vargas m antinham seus punhais estendidos, rodeando j á a Milagros, j unto ao cadáver de Alej andro, diante dos hom ens postados em sem icírculo ao redor. Dois deles negaram com a cabeça.

– São só rapazes. Com o vam os…?

– Correi!

O m ais velho dos dois ciganos aproveitou a indecisão: agarrou Milagros e obrigou-a a correr j usto para aquele que havia m anifestado hesitação, e o irm ão de Alej andro se j untou à corrida.

Chocaram -se com o oleiro, que caiu ao chão, e saltaram por cim a dele antes até de que houvesse dado fim a suas palavras. Um hom em apontou seu trabuco para as costas dos rapazes, m as o que estava a seu lado em purrou a arm a para o alto.

– Pretendes ferir algum dos nossos? – perguntou diante da proxim idade dos dem ais curiosos que com eçavam a parecer.

Quando voltaram a olhar, os ciganos se perdiam j á na escuridão da noite. Em silêncio, voltaram a cabeça para o cadáver que j azia num a poça de sangue diante da porta da oficina.

“Matam os um Vargas”, pareciam dizer-se.

4 Almona: lugar onde se pescam sáveis. [N. do T.]