A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 45 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 45

– Enganei-m e de hom em .

A sentença de Melchor conseguiu que Caridad se encolhesse em si m esm a, m ais até do que vinha fazendo à m edida que escutava a cruel e longa história de Milagros. Os quatro se achavam ao redor da m esa: eles dois sentados em suas habituais cadeiras de assento de tiras de salgueiro, enquanto a cigana ocupava um tam borete que tinham disposto para as visitas que Martín lhes fazia sem pre que voltava de contrabandear pela zona; o frade perm anecia de pé, incom odado, procurando apoio aqui e ali, até que Melchor o traspassava com o olhar e ele quedava parado um tem po.

Caridad buscou um a ponta da ternura com que Melchor a havia olhado até esse m esm o dia, m as encontrou uns olhos contraídos e um as pupilas gélidas. Poucas foram as palavras que o cigano pronunciou ao longo do discurso de sua neta: um singelo “Obrigado” em direção ao frade quando se inteirou de que ele salvara a vida de Milagros, e breves perguntas sobre a filha que esta havia tido com o García. A m ais im portante, “Sabes algo de tua m ãe?”, foi respondida com um soluço por parte de Milagros. Caridad percebeu que seu hom em reprim ia suas em oções.

“Insulta!”, quis alentá-lo ainda sobressaltada com as palavras de Milagros, à vista da tensão que invadia o corpo de Melchor, que apoiava sobre a m esa os punhos crispados. “Maldiz a todos os deuses do universo!”, esteve a ponto de gritar quando conseguiu deixar de prestar atenção ao terrível relato das violações que saía da boca de Milagros e se voltou com a garganta fechada para o cigano: as veias de seu pescoço inchadas, palpitantes. “Vão rebentar, cigano”, angustiou-se ainda m ais. “Vão rebentar.”

Soube que não devia segui-lo quando, term inada a conversa, ele se levantou e se encam inhou para a porta da casa.

– Enganei-m e de hom em – disse antes de sair.

Ao eco daquelas palavras, Caridad contem plou o cigano saindo ao entardecer averm elhado que flutuava sobre os cum es, desafiando o m undo inteiro, num m om ento em que até o ar que respirava se havia convertido em seu inim igo. Mil pontadas vieram então recordar-lhe as cicatrizes de suas costas, aquelas que Melchor havia acariciado e beij ado. O látego estalou de novo em seus ouvidos. A escravidão, a veiga tabaqueira, o cárcere da Galera… Ela acreditava…

acreditava que havia deixado para trás definitivam ente tudo aquilo. Ingênua! Desfrutava da felicidade j unto ao cigano, em Barrancos, longe de tudo, “perto do céu”, sussurrou agradecida e cheia de expectativa quando Melchor lhe indicara a casa que havia alugado no alto do cerro. Sua estúpida! Sua néscia! Lutou com as lágrim as que lhe alagavam os olhos. Não queria chorar, nem render-se… Sentiu a m ão de Milagros sobre a sua.

– Cachita – soluçou a cigana, perdida em sua própria dor.

Caridad tardou a responder ao contato. Apertou os lábios com força, em bora nem assim conseguisse controlar seu trem or. Sentiu-se fraca, tonta. Havia ouvido a história de Milagros com o espírito dividido entre a dor da neta, a ira do avô e o pressentim ento de sua própria desdita, saltando freneticam ente de um ao outro segundo suas palavras, gestos e silêncios.

Milagros pressionou sua m ão em busca de um consolo que Caridad não estava certa de querer oferecer-lhe. Defrontou seu olhar ao dela, e as dúvidas se desvaneceram diante do rosto congestionado de sua am iga, os olhos inj etados, as lágrim as que corriam por suas faces.

Abandonou-se ao choro.

De um canto, angustiado, Frei Joaquín presenciou com o as duas m ulheres se levantavam desaj eitadam ente, e se abraçavam , e choravam , e tentavam olhar-se para balbuciar palavras atropeladas, ininteligíveis, antes de fundir-se de novo um a na outra.

Caiu a noite sem que Melchor houvesse regressado, e Caridad preparou o j antar: um a boa fogaça de pão branco, chacina, alhos, cebolas, azeite e polpa de m arm elo que Martín lhes havia trazido.

Falaram pouco. Frei Joaquín quis rom per o silêncio interessando-se pela vida de Caridad.

“Sobrevivi”, ofereceu ela com o única explicação.

– Que estará fazendo Melchor? – perguntou de novo o frade, passado um longo tem po de silêncio.

Caridad olhou o pedaço de cebola que segurava entre os dedos, com o se estranhara sua presença.

– Exigindo do diabo que lhe devolva seu espírito cigano.

A m istura de am argura e tristeza na resposta levou o frade a desistir de qualquer outra tentativa. Aquela não era a escrava recém -liberta que rendia o olhar diante dos brancos, nem que deixava cair um pedacinho de folha de tabaco na igrej a de São Jacinto enquanto cantarolava e se m exia para frente e para trás aj oelhada diante da Candelária. Era um a m ulher curtida em experiências que ela não desej ava contar-lhes, diferente da que havia conhecido em Triana.

Pouco havia custado a Frei Joaquín com preender as preocupações de Caridad: sua chegada havia rom pido a felicidade duram ente conseguida que ela havia alcançado. Virou-se para Milagros, perguntando-se se tam bém ela o notava: a cigana m astigava a carne salgada e seca com apatia, com o se a obrigassem a com er. Não havia feito com entário algum acerca da convivência de Caridad e Melchor. A casa só contava com um quarto, e nele havia um único colchão. Aqui e ali, os poucos pertences de um e de outro se viam m isturados: um a brilhante j aquetinha verm elha com debruns e botões dourados que Melchor havia esquecido, j unto a um xale de lã que sem dúvida pertencia a Caridad. Um único obj eto se destacava entre a cotidianidade dos dem ais: um brinquedo m ecânico num guarda-com ida de pedra. Num erosas vezes ao longo da tarde, Frei Joaquín havia olhado para o brinquedo assim que Melchor desviava os olhos para ele com as alusões que saíam da boca de Milagros. “Funcionará ainda?”, perguntava-se tentando afastar de si os receios que percebia na atitude do cigano. Frei Joaquín sabia que não havia sido bem recebido. Melchor nunca o aceitaria; era frade e adem ais payo, com o o havia advertido em Triana, m as por acaso não vivia ele com um a negra? Mas Melchor j am ais consentiria em que sua neta, um a Vega, dos Vegas da ciganaria do Horto da Cartuxa trianeira, se relacionasse com ele.

O que Frei Joaquín ignorava era o que a cigana opinava.

– Necessito descansar – m urm urou Milagros.

Frei Joaquín a viu apontar para o colchão do quarto contíguo, pedindo perm issão a Caridad, que consentiu com a cabeça.

Caridad deixou a casa assim que ouviu a respiração pausada de Milagros. Frei Joaquín errou ao crer que saía em busca de Melchor. A m ulher se dirigiu ao estabelecim ento de Méndez, pediu que o cham assem , e lhe pediu encarecidam ente que encontrasse Martín essa m esm a noite.

– Sim , esta m esm a noite – insistiu –, que partam em sua busca todos os m ochileiros de que possas dispor. O povoado inteiro de Barrancos, se for preciso! Tens nosso dinheiro posto no tabaco – recordou-lhe Caridad –, paga quanto te pedirem para encontrá-lo.

Depois voltou com o frade e se sentou diante dele, atenta ao m enor som que pudesse vir do exterior. Nada sucedeu, e com as prim eiras luzes da m anhã ela se espreguiçou e com eçou a preparar um a trouxa com seus pertences e algum a com ida.

– Que estás fazendo? – perguntou Frei Joaquín.

– Ainda não se deu conta, padre? – respondeu de costas, escondendo-lhe as lágrim as. –

Voltarem os a Triana.

Um a sim ples troca de olhares bastou a Melchor e a Caridad para se dizerem quanto necessitavam dizer-se. “Tenho de fazê-lo, negra”, explicou o do cigano. “Vou contigo”, respondeu o dela.

Nenhum dos dois discutiu a decisão do outro.

– Em m archa – ordenou depois Melchor, dirigindo-se a Milagros e ao frade, am bos de novo sentados à m esa à espera de seu regresso.

Melchor vestiu sua j aquetinha verm elha lentam ente; não necessitava de m ais nada. Caridad pôs a trouxa às costas e se preparou para segui-lo. Milagros não tinha nada, e o frade se sentiu grotesco ao pegar a im agem da Virgem .

– E…? – perguntou Frei Joaquín apontando para aquele obj eto que se destacava solitário no guarda-com ida: o brinquedo m ecânico.

Caridad franziu os lábios. “Vão m atar Melchor!”, teria podido responder-lhe. “Talvez a m im tam bém . Esta é nossa casa e é aqui que ele deve ficar”, teria acrescentado. “É o lugar dele.” Deu m eia-volta e dirigiu-se para a porta.

Caridad e Melchor abriam a m archa, com Milagros atrás deles e Frei Joaquín algo atrasado, com o se não fizesse parte do grupo, todos em silêncio, os prim eiros escolhendo as m esm as sendas que tantas outras vezes haviam percorrido com o tabaco às costas, pisando ali onde se haviam escondido do que suspeitavam fosse um a ronda, cruzando o rio pelo m esm o lugar onde se haviam entregado um ao outro pela prim eira vez.

A cigana, à diferença de Caridad, que j á havia aceitado o destino que m arcava seu hom em , cam inhava m ergulhada nas dúvidas: nem ela nem seu avô se haviam recrim inado pelo que ocorrera em Triana. Não haviam falado da m orte de seu pai, nem do casam ento com Pedro García. Haviam -se lim itado a abraçar-se com o se o gesto por si só j á deixasse para trás todos os desgostos vividos. Com o pretendia o avô recuperar María?, perguntava-se sem parar Milagros.

“Enganei-m e de hom em ”, havia dito ele. Parecia que a única coisa que lhe interessava era vingar-se de Pedro, dos Garcías… Ele sozinho?

Dim inuiu o passo até que Frei Joaquín, que não fazia m ais que perguntar-se se havia feito bem em ir a Barrancos, a alcançou.

– Que será que ele pretende fazer? – inquiriu Milagros ao m esm o tem po que assinalava com o queixo para as costas de seu avô.

– Ignoro-o com pletam ente.

– Mas… não vai entrar no beco, assim , sozinho, sem aj uda. Que vai fazer?

– Não sei, Milagros, m as tem o que sim , que essa é sua ideia.

– Vão m atá-lo. E m inha m enina? Que será dela?

– Melchor! – O grito do frade interrom peu Milagros. O cigano virou o rosto sem parar. –

Que planos tens?