A Rainha Descalça
Cápitulo 30
Milagros se ergueu sobre a ponta dos pés descalços, com os braços arqueados sobre a cabeça, para pôr fim ao fandango. No entanto, o aplauso que ela esperava não chegou. Ela ofegava, suava, havia-se entregue com o nunca, m as as ovações e os vivas que j ulgava m erecer não passaram de um as sim ples palm as m isturadas a im pertinentes m urm úrios de desaprovação que foram subindo perigosam ente de tom . Observou as centenas de hom ens que se aglom eravam em pé, no patio, abaixo do tablado, sem com preender o porquê daquela apatia. Olhou para a cazuela, um a grande sacada fechada atrás do patio na qual se sentavam as m ulheres, que conversavam distraidam ente entre si. Levantou o olhar para as partes de cim a, a transbordar de público: ninguém parecia prestar-lhe atenção.
– Volta para Triana!
Milagros buscou com o olhar o mosquetero que havia gritado do patio.
– Não vales o preço de tua viagem !
– Aprende a dançar!
Virou o rosto para o outro lado, sem poder acreditar no que estava ouvindo.
– Esta é a grande cantora anunciada pelo cartaz da Puerta del Sol?
Sentiu bam bear as pernas.
– Com tonadilheiras com o tu, devem estar contentes os “chorizos” [ 15 ] do Teatro de la Cruz! –
Era um a m ulher que se esgoelava apontando para ela por cim a da balaustrada da cazuela.
Milagros acreditou que ia desabar e procurou Pedro com o olhar; ele lhe havia dito que assistiria ao espetáculo, m as ela não conseguia encontrá-lo. Nublou-se-lhe a visão. Os gritos aum entavam , e as lágrim as corriam por seu rosto. Um a m ão a segurou pelo cotovelo j usto quando estava pronta para deixar-se cair.
– Senhores – gritou Celeste, sacudindo Milagros para que ela recobrasse o ânim o –, j á lhes dissem os…! Senhores…!
A algazarra não cessava. Celeste interrogou com o olhar o alcaide de corte, que, j unto a dois aguazis e um escrivão, perm anecia sentado no m esm o tablado, num dos cantos, para cuidar da ordem no teatro. O alcaide suspirou porque sabia o que pretendia a prim eira-dam a. Anuiu. Não havia term inado de m exer a cabeça quando don José j á dava instruções aos m úsicos para que tocassem de novo a peça que acabava de afundar Milagros.
Celeste perm itiu que os acordes dos violinos soassem duas vezes antes de com eçar a cantar. O público m udou de atitude, os hom ens do patio se tranquilizaram .
– Tu, sim , és grande! – ressoou antes que com eçasse.
– Bela!
Celeste cantou a prim eira estrofe. Depois, quando lhe cabia iniciar a segunda, encarou os mosqueteros, enquanto a m úsica se repetia, à espera de sua decisão.
– Essa é a clem ência que vos pedim os durante a apresentação de um a nova artista?
Milagros, ainda segura pelo cotovelo por Celeste, recordou a entrada da tonadilha, um entreato m usical que não podia passar de m eia hora e que se executava entre o prim eiro e segundo atos da obra principal, em bora houvessem com entado com ela que o público ia m ais ao teatro pelas tonadilhas, pelos entrem ezes e pelos sainetes, os quais se sucediam entre o segundo e o terceiro ato, que pela obra principal. Haviam -lhe dito que m uitos espectadores até deixavam o teatro depois do sainete e desistiam do terceiro ato da com édia. Durante a apresentação, a própria Celeste, depois de apresentar Milagros e louvar algum as virtudes que haviam arrancado aplausos e assobios, havia-se dirigido ao público pedindo clem ência para com ela, para com a nova artista. “Tem som ente dezessete anos!”, gritou levantando exclam ações. Depois várias das artistas haviam cantado e dançado j untas para deixar o encerram ento para Milagros, solitária, a qual se havia lançado a isso com a confiança que lhe proporcionava a experiência de seus anos cantando para os sevilhanos. Contudo, em m om ento algum da atuação seu corpo chegou a acom panhar a m agnífica interpretação vocal. Haviam -na advertido.
– Alto lá! – havia-lhe gritado Celeste assim que a viu dançar nos ensaios. – Tu nos trarás a ruína e te encarcerarão se te apresentares assim diante das pessoas.
Quando perguntou, estranhando-o, explicaram -lhe que as autoridades não perm itiam aquelas danças tão extrem adam ente lascivas.
– A sensualidade – tentou instruí-la don José, apesar da dúvida que apareceu em seu sem blante diante do desem baraço da cigana –, deves m ostrá-la m ais… m ais… – procurou a palavra adequada para ela ao m esm o tem po que sacudia um a m ão no ar –, m ais rebuçada…
encoberta, dissim ulada… íntim a. É isso, sim : íntim a! Tuas danças têm de ser sensuais porque tu o és, porque sai naturalm ente de ti, nunca porque queiras excitar o público. Algo assim com o se tivesses necessidade de esconder os favores que Deus te concedeu e alim entar o recato para não pecar por grosseria. Entendes? Paixão contida. Com preendes?
Milagros respondeu que sim em bora ignorasse com o fazê-lo. Tam bém respondeu que sim quando lhe explicaram que aqueles mosqueteros e as m ulheres da cazuela, os nobres e os ricos dos cam arotes, e os padres e intelectuais da tertulia não só esperavam um a boa atuação: tam bém pretendiam o que ela agora presenciava da parte da prim eira-dam a. Mas em verdade ela não havia entendido nada; seus m ovim entos ao dançar haviam sido rígidos e toscos, ela m esm a o havia notado, e quanto ao que podiam esperar dela aqueles m adrilenses…
– Tu te queixas da inabilidade da m oça? – viu com o replicava Celeste com firm eza a um ferreiro conhecido por sua intransigência com as artistas e que havia tornado a queixar-se da atuação da cigana. – Diz-se por aí que a prim eira grade que forj aste não serviu nem para proteger a virtude de tua filha.
As pessoas explodiram em gargalhadas.
– Estás pondo em dúvida…? – tentou revoltar-se o hom em .
– Pergunta-o ao aj udante do padeiro! – adiantou-se-lhe alguém do m esm o patio –, ele saberá dizer-te onde ficou a grade e onde ficou a virtude da m enina.
Novas risadas acom panharam o garboso deslocam ento de Celeste ao longo do palco. A um sinal de don José, a m úsica aum entou de volum e quando o ferreiro tentou abrir passagem a em purrões e cotoveladas entre os mosqueteros am ontoados no patio em busca daquele que havia insultado sua filha. Um dos aguazis apareceu para evitar que a coisa tivesse m aiores consequências. Milagros ficou sozinha no centro do palco, com o olhar entre o ferreiro e Celeste, agora num a das pontas. Não se atrevia a virar as costas para o público, nem a andar para trás a fim de retirar-se. Perm anecia im óvel com o um a estátua num teatro transbordante no prim eiro dia de com édias da tem porada.
Celeste, no canto, retom ou a canção. As pessoas com eçaram a fazer coro à toada, ela voltou a calar-se e apontou para um hom em obeso, zam beta e distraído, de faces acesas e suarentas.
– Com o podem os nós, os artistas, querer generosidade dos que a esgotam consigo m esm os?
Antes que as pessoas rebentassem em gargalhadas, ela cantou de novo e correu para onde se achava Milagros.
– Solta-te – a anim ou entre um a estrofe e outra –, podes fazê-lo.
Por um instante Milagros recordou-se da velha María e de Sagrario, a que lhe dera entrada na pousada sevilhana de Bienvenido. Então se havia superado e acabara por triunfar. Era um a cigana! Respirou fundo e cantou com Celeste, até que esta lhe deu um pequeno em purrão para o público, anim ando-a.
Milhares de olhos pousaram nela.
– Que estais olhando? – soltou Milagros em direção ao patio. Esteve tentada a requebrar o corpo com voluptuosidade, m as em vez disso cruzou os braços adiante dos peitos com sim ulado recato. – Por acaso vossas m ulheres não vos satisfazem ? – O alcaide de corte teve um sobressalto.
– Ou quem sabe não sois vós que não satisfazeis a elas?
A insinuação lhe granj eou os aplausos e os vivas da cazuela das m ulheres. Milagros fingiu perturbação diante da enfiada de frases obscenas que surgiam de boca daquelas m ulheres.
– E agora – gritou para fazer-se ouvir pelos mosqueteros –, onde ficou vossa m asculinidade?
Após a incitação, m uitos deles se voltaram para a cazuela para discutir com as m ulheres. O alcaide de corte se pôs em pé e ordenou a don José que term inasse a apresentação. Um dos aguazis se plantou na beira do tablado, e o outro, atrás do alcaide, sussurrou ao escrivão:
– Não anote, senhor, estas últim as palavras. – O escrivão levantou a cabeça, estranhando. –
Eu a conheço. É j ovem . Não é m á garota, só é nova. Dem os-lhe um a oportunidade. O senhor j á sabe que o corregedor…
O funcionário entendeu e parou de escrever.
Nobres, ricos e religiosos se divertiram com a pelej a e a troca de acusações entre mosqueteros e m ulheres. Pouco a pouco, com a falta de m úsica, os ânim os se foram serenando e o público voltou a centrar sua atenção nas duas m ulheres que perm aneciam paradas no palco.
– Meu esposo não saberia o que fazer contigo, cigana! – ressoou no teatro.
– O m eu se acovardaria!
Retornaram os risos e alguns aplausos que foram crescendo quando a m aioria dos mosqueteros, com prazida com a festa e o escarcéu, se j untou a eles.
– Bela! – galanteou a Milagros alguém do patio.
No dom ingo da ressurreição de 1752, data de início da tem porada teatral, a partir das três da tarde, Pedro García assistia à apresentação inaugural de sua esposa m isturado entre os mosqueteros, calado, sem dar sinal de si, reprim indo a ira diante dos apupos. Depois foi atrás dela. Um par de soldados de guarda lhe im pediu o acesso pela entrada da rua del Lobo.
– Nem esposos nem ninguém – disse-lhe um deles.
– Tam pouco podes ficar aí parado esperando; é proibido que as pessoas se reúnam à saída dos artistas – soltou-lhe o outro depois.
Pedro esperou além da esquina, j unto a um grupo de curiosos. Viu sair a liteira de Celeste e sorriu enquanto os m uitos adm iradores da prim eira-dam a se am ontoavam ao redor dela e dificultavam sua passagem . Ele a possuiria dentro de tão som ente um a hora. Já haviam m arcado um encontro, com o tantos outros que haviam tido desde a sua chegada a Madri. As pessoas seguiram assediando as dem ais artistas, e ao final, quando as ruas com eçavam a ficar vazias, apareceu Milagros.
A cigana pareceu surpreender-se com a luz solar que ainda ilum inava. Hesitou. Passeou um olhar cansado ao longo da rua del Lobo até reconhecer seu esposo, para o qual se encam inhou com andar resignado e rosto inexpressivo.
– Anim a-te! – recebeu-a Pedro. – É a prim eira vez.
Ela franziu a boca com o única resposta.
– Am anhã o farás m elhor.
– O alcaide m e cham ou a atenção pela insolência.
– Não lhe faças caso – anim ou-a ele.
– Don José tam bém o fez.
– Maldito velho!
– Abraça-m e – im plorou ela abrindo tim idam ente os braços.
Pedro anuiu levem ente, aproxim ou-se e estreitou-a com força.
– Milagros – gritou alguém que passava a seu lado –, eu, sim , saberia o que fazer contigo!
Um coro de risos acom panhou a insolência ao m esm o tem po que Milagros estreitava seu abraço para im pedir que Pedro se abalançasse a ele.
– Deixa-os – pediu-lhe ao m esm o tem po que lhe acariciava o rosto para que se centrasse nela e não no grupo de hom ens de que havia surgido a ofensa. – Não arranj em os problem as. Vam os para casa, por favor.
Ela m esm a o em purrou com delicadeza e continuou fazendo-o ao longo da quadra que os separava da rua de las Huertas; dali até sua casa faltavam tão som ente alguns passos, que Milagros aproveitou para buscar o contato de seu esposo. Necessitava de seu carinho. Os nervos, o teatro a transbordar de gente m al-encarada, as pressas, os gritos, o alcaide, a cidade grande…
Ela só dispunha de duas horas antes de reunir-se com Marina e outras artistas para estudar a nova obra, duas horas em que desej ava estar com os seus e até… por que não? Tinha tem po. O
suficiente para esquecer tudo e sentir dentro de si a força de seu hom em , seu vigor, seu em puxo.
Aquele anelo que com o que coçava em suas costas se viu interrom pido por Bartola e pela m enina, com as quais toparam assim que dobraram a esquina da rua del Am or de Dios. A velha cigana vigiava María enquanto esta brincava. Pedro pegou a pequena e a ergueu acim a da cabeça, onde a sacudiu por um bom tem po diante do terno olhar de sua m ãe. Seu hom em parecia contente, talvez houvesse sido um acerto vir para Madri. Depois, entre risos, Pedro entregou a m enina à m ãe.
– Tenho de ir – anunciou-lhe.
– Mas… Eu… Pensava… Sobe conosco, por favor.
– Mulher – interrom peu-a ele–, tenho negócios para tratar.
– Que negó…?
As feições de seu esposo ficaram tensas em um só instante, e Milagros calou-se.
– Cuida da m enina – disse ele ao m odo de despedida.
“Que negócios?”, perguntou Milagros com o olhar fixo nas costas que se afastavam . Com o podia Pedro fazer negócios se não tinham dinheiro?
Pedro García suspirou pelo prazer que lhe produziam as pontas dos dedos que deslizavam por suas costas. Nu, satisfeito após a cópula, perm anecia deitado de bruços na cam a de Celeste.
– Eu não o haveria feito por nenhum a outra artista – sussurrou nesse m om ento a prim eira-dam a, alisando o cabelo louro –, em bora na verdade tam pouco o tenha feito por ela, m as por ti.
Não quero que a despeçam .
– Mulher – interrom peu-a o cigano –, aj udaste Milagros para poder seguir desfrutando com igo. Na verdade, tu o fizeste por ti.
Ela, sentada a seu lado, deu-lhe um sonoro tapa nas nádegas.
– Convencido! – recrim inou-o antes de voltar a correr os dedos por sua coluna. – Disponho de quantos hom ens eu puder desej ar.
– E algum deles te proporcionou o m esm o prazer?
Celeste não respondeu.
– Afinal, tua ciganinha se saiu bem … – com entou em contrapartida.
– É esperta. Aprenderá. Sabe provocar, excitar o desej o.
– Já vi, m as tem de fazer tudo com cuidado, para que o alcaide ou os censores não a denunciem .
– Não é essa diversão que se quer? – inquiriu Pedro antes de em itir um prolongado gem ido quando ela com eçou a acariciar-lhe a nuca.
Celeste, tam bém nua, sentou-se a cavalo sobre as costas do cigano para continuar m assageando om bros e pescoço.
– Essa é a diversão que se quer no teatro, nas festas e até nas igrej as quando as nobres senhoras ou as donzelas flertam com seus am antes enquanto sim ulam ouvir a m issa; é a história da hum anidade. As com édias são m alvistas pelos padres… em bora m uitos deles vão vê-las. O rei e seus conselheiros as perm item porque consideram que assim o povo se diverte, e, se se diverte e está alegre e em paz, teria m uito que perder se se rebelasse contra a autoridade. Entendes? – perguntou ao m esm o tem po que pressionava seus om bros. O cigano anuiu num m urm úrio. – É só m ais um a form a de trazer na coleira seus súditos. Mas não devem os exceder-nos: há que encontrar o ponto de equilíbrio entre o que as autoridades pedem e o que os religiosos e os censores estão dispostos a perm itir. Todas as obras, incluídos sainetes, entrem ezes e tonadilhas, têm prim eiro de obter licença do j uiz eclesiástico da vila. Depois passam para a Sala de Alcaides, onde as voltam a censurar. E, depois ainda, o alcaide do teatro controla a interpretação sobre o tablado. Só o interesse das autoridades por divertir o povo e o m uito dinheiro que se obtém dos teatros com destino aos hospitais nos perm item certas licenças que em outro caso j am ais poderíam os perm itir-nos nesta Espanha de inquisidores, padres, frades, m onj as e beatas. O m ais im portante para um a artista é saber qual é esse ponto de equilíbrio: se fazes pouco, apupam -te e insultam -te; se te excedes, cortam -te as asas. Entendeste, m eu bichinho?
Celeste se inclinou sobre as costas do cigano até chegar a m ordiscar sua nuca. Depois se deitou sobre ele.
– Por m ais que teu aguazil estej a vigiando na rua, não creio que m eu m arido dem ore a regressar. Faz-m e chegar ao céu de novo – disse-lhe ao ouvido –, e eu ensinarei tua ciganinha.
“O que m enos m e interessa é que ela aprenda”, Pedro haveria gostado de replicar-lhe enquanto sentia que ela pugnava por passar os braços por debaixo de seu corpo. “Talvez assim nos dessem perm issão para regressar a Triana.”
– Que estás m urm urando? – perguntou Celeste.
O cigano com preendeu que seus desej os haviam ido além de um m ero pensam ento. Com esforço, girou, virou-se para Celeste e acom odou-se sobre um cotovelo a seu lado.
– Digo – respondeu, desviando o olhar dos grandes peitos da artista – que o único céu que existe está entre tuas pernas.
Ela sorriu, ronronou com o um a gata, agarrou-o pelo pescoço e trouxe-o para si.
Não havia transcorrido m eia hora e Pedro García j á deixava a casa de Celeste na rua de las Huertas. Blas, o aguazil, que j á esperava diante da porta antes até que ele chegasse após deixar Milagros, aproxim ou-se dele.
– Dem oraste dem ais – reprochou-o. – Tenho de dar continuidade à m inha ronda.
– Tua prim eira-dam a é um a ram eira insaciável.
O cigano se apressou a rem exer em sua bolsa para conter a raiva m ostrada pelo rosto do funcionário, com o sem pre sucedia quando ele se referia a Celeste com grosseria. Divertia-o provocá-lo. “Com o é possível que esse tonto”, pensou na prim eira vez, “fique a pé na rua vigiando com o fornico com o obj eto de seus anelos e depois se zangue se falo m al dela?” Tirou um par de quartos da bolsa e os entregou a ele. Celeste lhe dava m ais dinheiro: era a única artista da com panhia que dispunha de dinheiro, porque os dem ais viviam na m iséria, com o sucedia a Milagros e a ele m esm o. “O aguazil tem de receber por seu trabalho… e por seu silêncio”, havia-lhe exigido Pedro, m as ele ficava com a m aior parte. Em bora até aquele m om ento ele não lhe houvesse proporcionado m ulher algum a com que com prazer-se, Blas se conform ava com o par de quartos; havê-lo-ia feito só para achar-se perto de Celeste. “Esta deve ser a razão pela qual se zanga”, concluiu o cigano após os prim eiros dias. Blas a adorava, adm itia seus caprichos com o se se tratasse de um a deusa, m as não consentia em que outro a m enosprezasse por seus caprichos.
– Se voltares a falar assim de Celeste… – com eçou a am eaçá-lo o aguazil antes que o outro o interrom pesse.
– Quê? A ela eu tam bém o digo. Ram eira insaciável. – Pedro arrastou as palavras. – Minha putinha. Mil coisas sim ilares eu lhe sussurro ao ouvido quando a tenho debaixo de m im …
Não teve oportunidade de finalizar a frase. Blas ficou verm elho e, sem despedir-se, foi-se em bora rua acim a. O forte bater da vara nas paredes se foi perdendo na distância para dar passagem ao toque de oração dos sinos das igrej as de Madri. Pedro resm ungou. Depois do repicar dos sinos, surgiria das casas a cantilena do rosário: todos os piedosos cidadãos rezando sim ultaneam ente antes de deitar-se, com o m andavam os bons costum es. Ele estava com fom e.
Celeste se preocupava exclusivam ente com seu próprio prazer; dizia que a panela ela só com partilhava com seu m arido, j á que, dado que lhe punha chifres, ao m enos o alim entava.
“Bom consolo”, riu Pedro enquanto entrava na rua de las Huertas em busca de um mesón onde tom ar vinho e j antar algo, talvez até acom panhado pelo m arido dela. Ele o conhecia: trabalhava na com panhia com o terceiro-galã e j á havia topado com ele em outras ocasiões desde que haviam chegado a Madri fazia pouco m ais de um m ês; ao hom em não parecia im portar dem asiado a panela com que sua esposa pretendia restituir-lhe a honra m aculada.
Antes de chegar à entrada da rua del León, Pedro desviou o olhar para a esquerda, onde desem bocava a rua del Am or de Dios, onde m orava com Milagros, a m enina e a velha Bartola em dois m íseros, úm idos e escuros côm odos no terceiro andar de um a antiga casa de prostituição, cuj o aluguel com ia a m aior parte do dinheiro que sua esposa recebia. A rua de las Huertas, a del León, a del Am or de Dios, a San Juan, a del Niño, a Francos e a Cantarranas, ruelas todas em que se apinhavam vetustos edifícios nos quais desde o século anterior haviam m orado atores, poetas e escritores.
– Cervantes habitou num quarto em piores condições! – replicou o porteiro do teatro que o havia acom panhado à sua nova residência, desde o Príncipe, quando Pedro protestara. – Lope de Vega, Quevedo, Góngora, todos eles viveram aqui e honraram estas ruas e seus edifícios. Vais querer com parar a vós, um bando de ciganos, com os m aiores das letras espanholas, que digo?, espanholas... universais.
E ali os deixou o hom em , que se foi entre gritos e trej eitos. Desde aquele dia, Milagros havia entrado na rotina das artistas: ensaios de m anhã, e as tardes dedicadas ao aprendizado dos papéis da obra principal, dos sainetes e das danças e canções das tonadilhas. A partir do início da tem porada, com o j á lhe havia anunciado don José, as m anhãs continuariam a ser dedicadas aos ensaios, dirigidos estes por Celeste com o prim eira-dam a e por Nicolás Espelho, aquele com o que havia pelej ado Celeste no dia de sua chegada a Madri, com o prim eiro galã. As tardes seriam dedicadas às representações, que deviam durar no m áxim o três horas, e as noites ao estudo.
Milagros quase não intervinha na peça principal nem no sainete que se sucedia num dos dois entreatos; a ela a haviam cham ado para cantar e dançar, m as para aliviar de trabalho as outras artistas lhe davam algum papel insignificante, e m udo: servir um as j arras de vinho, aparecer com o lavadeira ou com o vendedora am bulante… Em todo caso, e com o havia prognosticado Celeste antes de deixar irada o Coliseo del Príncipe, a obra com que se havia estreado a tem porada não perm aneceu m ais de dois dias em cartaz, razão por que, na m esm a noite de sua apresentação, Milagros teve de aprender o papel e as canções da tonadilha da obra que a ia substituir.
– A partir do início da tem porada de teatro – havia explicado Celeste a Pedro –, o trabalho dos artistas é frenético. A perm anência das obras em cartaz depende de quão disposto estej a o público a esquentar os assentos; algum as são representadas só um dia, outras, dois ou três, a m aioria fica cinco ou seis, e se superarem os dez podem considerar-se um im enso sucesso.
Enquanto isso, nós tem os de aprender ou decorar às pressas as novas obras, os entrem ezes, sainetes e tonadilhas.
– E com o as aprendeis? – interessou-se o cigano.
– Isso é m ais com plicado ainda. Porque, com o se ainda fosse pouco ter de aprendê-las, m uitas vezes não existe m ais que um exem plar da obra m anuscrito pelo autor e corrigido pelos diversos censores sobre o qual todos nós tem os de trabalhar. O m esm o ocorre com os sainetes e as tonadilhas. Nós nos reunim os… eles se reúnem , há até quem não saiba ler.
Pedro García entrou num a taberna ainda aberta da rua San Juan. Milagros era das que não sabiam ler, razão por que tinha de trabalhar m uito m ais horas que Celeste, que por outro lado tam pouco parecia preocupar-se em excesso com aprender seus papéis. “Para que existem os pontos?”, alegava. Até o início da tem porada, a sobrecarga de trabalho de sua esposa lhe havia proporcionado um a liberdade que agora…
– Cigano!
Pedro sacudiu os pensam entos com que havia entrado na taberna. Olhou ao redor. Guzm án, o m arido de Celeste, e outros dois m em bros da com panhia de artistas estavam sentados a um a m esa, atentos a ele.
– Paga um a rodada!
Pedro acom panhou seu sorriso com um m ovim ento de m ão para o taberneiro em sinal de assentim ento. Buscou assento entre os outros e, quando o hom em lhes serviu o vinho, ergueu sua j arra, olhou nos olhos de Guzm án e brindou irônico:
– Por tua esposa, a m aior!
“E que paga estes vinhos”, acrescentou para si o cigano enquanto entrechocavam os copos.
No entanto, ao m esm o tem po que saboreava aquele vinho aguado, viu-se obrigado a reconhecer que as coisas haviam m udado. Ainda que não precisam ente para m elhor: em Triana era ele quem satisfazia o capricho das m ulheres com o dinheiro que Milagros obtinha. Em Madri, no entanto, devia proporcionar prazer a um a m ulher que podia ter o dobro de sua idade para conseguir uns m íseros reais. Tudo… tudo por congraçar-se com os payos!
– Taberneiro! – gritou ao m esm o tem po que batia com violência a j arra na m esa e salpicava os dem ais. – Ou nos serves vinho de qualidade, ou te estripo aqui m esm o!
“A Descalça.” Esse foi o epíteto com o que os mosqueteros do Coliseo del Príncipe term inaram batizando Milagros. A cigana se negou a vestir os m esm os traj es que Celeste e as dem ais dam as da com panhia exibiam .
– Com o quereis que eu dance com isso? – alegou apontando e apalpando corpetes e crinolinas. – Fica difícil até respirar – disse a um a –, e nem é possível m over-se com essa saia…
estufada.
Aceitou, no entanto, substituir suas roupas sim ples pelas vestim entas das manolas m adrilenses: jubón am arelo aj ustado à cintura, sem barbatanas, m angas cingidas, saia branca com babados verdes, longa quase até os tornozelos, avental, lenço verde am arrado ao pescoço e touca recolhendo o cabelo. Do que ninguém conseguiu convencê-la foi que se calçasse. “Nasci descalça e m orrerei descalça”, afirm ava sem parar.
– Que im portância pode ter? – tentou pôr fim à discussão don José dirigindo-se ao alcaide. –
Por acaso j á não há um a m oldura na beira do tablado para que o público não possa ver os tornozelos das artistas? Depois, se não os vê, que im porta que estej a calçada ou descalça? Milagros perdeu em pouco tem po o respeito àquele im ponente teatro que havia chegado a travar seus m úsculos no dia da estreia, e o perdeu porque, exceção feita de censores e alcaides, ninguém parecia tê-lo. O público gritava e batia com os pés no chão. Ela inteirou-se da rivalidade entre os dois teatros de Madri: o del Príncipe e o de la Cruz, que não ficavam m uito longe um do outro. Existia um terceiro teatro, o de los Caños del Peral, onde se representavam com posições líricas. As pessoas que gostavam do Teatro del Príncipe se cham avam “polacos”, e os que ao contrário se inclinavam pelo de la Cruz se denom inavam “chorizos”. Não só se brigavam entre si, m as regularm ente iam ao teatro contrário para derrubar a peça que estava sendo representada e vaiar sem piedade atores e cantores.
E não só com preendeu que, por m elhor que o fizesse, por m ais paixão que pusesse em seus cantos e danças, sem pre haveria algum chorizo dos de la Cruz que a increparia, m as descobriu que os m esm os artistas da com panhia tam pouco se esforçavam em seu trabalho. Um a sim ples cortina branca ao fundo do palco e outras duas laterais constituíam todo o cenário das peças diárias, em bora outras representações, com o as com édias de teatro ou os autos sacram entais, de preço m ais elevado para o público, gozassem de um a cenografia algo m ais elaborada. Entre as cortinas, apenas se dispunham um a m esa com cadeiras ao redor e um poço ou um a árvore com o cenário para am bientar a cena.
Quando não intervinha na peça principal, Milagros assistia ao espetáculo sentada num dos assentos da luneta. Com o um a espectadora entre outras, desagradava-lhe com o recitavam as obras seus colegas: pom posos e afetados em seus gestos e m ovim entos; m onótonos e até desagradáveis em suas vozes. Atrás do cenário se viam a som bra do ponto e o resplendor da luz da lâm pada que o aj udava a ler, que se deslocavam sem cessar de um a extrem idade à outra para soprar o texto que os atores esqueciam ou sim plesm ente ignoravam . Não era incom um que as palavras do ponto se ouvissem acim a da voz do ator que as repetia. Os espectadores suportavam o tédio de um repertório de pouca qualidade, quando não um a das infinitas reapresentações de obras do insigne Calderón, com uns atores que nem sequer se esforçavam por identificar-se com seus personagens: filósofos gregos vestido de chupa, calções e m eias
verdes; deusas m itológicas com tontillo [ 16 ] e chapéu em plum ado…
Eles se entediavam até que chegavam os entreatos e, com eles, os sainetes e as tonadilhas. Era então que desfrutavam tanto o público com o os artistas. Os sainetes eram obras curtas, populares, costum bristas, j ocosas; paródias das relações sociais e fam iliares. Neles, os atores encarnavam a si m esm os, a seus am igos, parentes ou conhecidos; a m aioria dos espectadores se sentia aludido, e, com seus gritos e seus risos, seus aplausos e assobios, levavam -nos com o nos braços ao longo da obra.
Quanto às tonadilhas… m eia Madri exibia j á, em sinal de adm iração por Milagros, am arradas ou costuradas em suas roupas, fitas verdes, a cor do lenço que ela sem pre levava no pescoço! O
conselho de don José estivera m artelando em seus ouvidos durante dias: “Paixão contida, paixão contida.” E Milagros havia pensado e pensado no assunto até que um a tarde, em pé no tablado, antes de com eçar a cantar, havia trocado um olhar com um hom em suj o e m alvestido, daqueles que gastavam os seis quartos de real que não tinham por um a entrada para o patio, provavelm ente antes de voltar a seu povoado das proxim idades de Madri – Fuencarral, Carabanchel, Vallecas, Getafe, Hortaleza ou qualquer outro –, onde alardearia de haver ido ao teatro para transform ar-se em obj eto de invej a e atenção por parte de seus vizinhos. O
agricultor, porque tinha de ser um agricultor, talvez de vinho de m oscatel de Fuencarral, contem plava-a em basbacado. Milagros deu alguns passos pelo tablado sem deixar de olhar para o hom em , que seguiu seu andar cigano com olhos desorbitados e de boca m eio aberta. Depois ela se plantou diante dele e lhe dedicou um a ponta de sorriso. O hom em , sem pre em basbacado, não foi capaz de reagir. A m úsica dos dois violinos que surgia de atrás de um a das cortinas laterais, onde se escondia a exígua orquestra com posta por eles, um violoncelo, um contrabaixo e dois oboés, repetia-se à espera da entrada de Milagros. No entanto, ela a atrasou por alguns instantes, os suficientes para passear o olhar pelo patio de mosqueteros e deparar com outros tantos rostos sim ilares ao do vinhateiro de Fuencarral. Alguém a anim ou a cantar, outros a galantearam aos gritos de “linda!”, “bela!”. Muitos lhe pediram que com eçasse. Por fim o fez, consciente de que aquelas pessoas a adoravam e a desej avam sem necessidade de exagerar sua voluptuosidade. De pele trigueira, tão diferente da palidez que se em penhavam em exibir as dam as à custa até de sua saúde; vestida de manola, com um as roupas que sim bolizavam a obstinada e silenciosa luta contra os costum es im portados da França; orgulhosa com o os m adrilenses, tão soberba com o um as pessoas que não tardaram a exaltá-la com o a representante do povo.
“Paixão contida.” Por fim o entendeu. Cantou e dançou sentindo-se bela, sem exibir-se, alçando-se acim a do teatro inteiro com o um a deusa que nada tivesse que dem onstrar.
Com preendeu que um suspiro, um a piscadela ou um a caída de olhos na direção da luneta ou do patio, o revoluteio de um a m ão no ar, um sim ples requebro de cintura ou o brilho das gotas de suor correndo para baixo desde o pescoço até os peitos eram capazes de excitar ainda m ais o desej o que o descaram ento ou a desvergonha.
– Nem hom ens nem m ulheres o querem – explicou-lhe Marina, um a loura m iúda que fazia de terceira-dam a e com a qual Milagros se havia aberto um a noite em que lhe confidenciou suas preocupações. – Necessitam de ídolos inacessíveis; têm de desculpar diante de si m esm os o fato de não poder conseguir-te. Se desces ao patio e te m isturas com eles, não lhes serves; serás igual a qualquer das m ulheres com que eles se relacionam . Se te m ostras soez, vão com parar-te a um a das m uitas prostitutas que se oferecem a eles nas ruas e perderás o interesse deles.
– E as m ulheres da cazuela? – inquiriu Milagros.
– Essas? É m uito sim ples: invej am tudo aquilo que possa atrair seus hom ens m ais que elas.
– Invej a? – estranhou a cigana.
– Invej a, sim . Um a com ichão que as levará a fazer tudo quanto estiver em suas m ãos para parecer-se contigo.
Milagros não só aprendeu a controlar sua sensualidade; tam bém soube proporcionar ao público o diálogo que ele esperava de um a boa artista. Desconcertava a orquestra, que, pouco a pouco, cega atrás da cortina lateral m as advertida pelas indicações do próprio don José, foi acostum ando-se ao ritm o e à desordem que a cigana originava. Milagros atuava de acordo com o texto das toadas que lhe cabia cantar e dançar.
– Onde está esse sargento? – perguntou num a ocasião, interrom pendo um a copla que chorava o infrutuoso galanteio do soldado com um a condessa. – Há algum sargento dos gloriosos exércitos do rei no patio?
Don José indicou à orquestra que sustentasse a m úsica, e um par de m ãos se levantou entre os mosqueteros.
– Não te preocupes – disse então a um dos m ilitares –, para que aspirar a um a dam a de nobre berço com todas as belas m ulheres que da cazuela anelam que lhes dem onstres com o usas tua…
espada?
O alcaide m eneou a cabeça ao m esm o tem po que don José, com gesto autoritário, ordenava aos m úsicos que atacassem o com passo seguinte para que Milagros com eçasse a cantar entre todos os tipos de propostas desonestas que surgiam da cazuela.
Cantou para as pessoas hum ildes. Falou com elas. Riu, gritou, chorou e sim ulou rasgar as vestes diante da desgraça dos m enos favorecidos. Ao ritm o de um a infinidade de toadas populares, apontou com coragem para os nobres e ricos dos cam arotes enquanto centenas de olhares seguiam seu dedo acusador para a vítim a escolhida, e os interrogou acerca de seus costum es e de seus luxos desm edidos. Entre risos, ironizou os cortej os das dam as e os frades e a m ultidão de m enoristas folgazães que povoavam as ruas de Madri buscando seu sustento na com panhia de m ulheres com recursos. Os assobios e vaias de patio e cazuela acom panharam seu desprezo pelos j anotas am aneirados que, im perturbáveis, com o se nada pudesse afetá-los, respondiam a suas zom barias com adem anes displicentes.
Nesses instantes, enquanto o público aplaudia, Milagros fechava os olhos; ao fazê-lo, o teatro inteiro se desvanecia e em sua m ente só apareciam im agens daqueles a quem haveria querido ver no m eio do público. “Cachita, María… olhai-m e agora”, chegava a sussurrar entre vivas e elogios. Um a estranha angústia a atenazava, no entanto, ao recordar sua m ãe e seu avô.
O sucesso trouxe m ais dinheiro. A Junta de Teatros decidiu dobrar-lhe o pagam ento e incluí-la entre os m em bros da com panhia que recebiam a partido. Don José estranhou a reação da cigana quando lhe com unicou esta decisão.
– Não estás contente?
Milagros reagiu e lhe agradeceu com um titubeio que não convenceu o diretor.
O sucesso afastou Pedro ainda m ais. Tam pouco era m uito dinheiro, m as era o suficiente para que seu esposo se lançasse com afã às ruas de Madri. “Onde está Pedro?”, perguntava na hora de alm oçar ou de j antar, quando regressava do teatro às habitações que tinha alugado. “Deveríam os esperá-lo.” Às vezes, Bartola torcia a cara e a olhava com o se a um a estranha. “Deve estar com suas coisas”, respondia-lhe com frequência.
– É um hom em – chegou a desculpá-lo Bartola. – Quem não está nunca em casa és tu. Que queres, que teu esposo te espere tricotando com o um a velha? Pois para de cantar e ocupa-te dele e de tua filha!
Então, naquela m ulher que defendia os desm andos de Pedro ao preço até das necessidades que chegavam a padecer quando o cigano dilapidava o dinheiro que ela ganhava, ela via os Garcías, Rey es, a Trianeira e o Conde, todos os de sua fam ília e a nunca dissim ulada anim adversão para com ela.
– Estávam os m elhor em Triana – ouvia a velha grunhir. – Tantos hom ens revoluteando ao teu redor com suas fitas verdes em sinal de… de… – Bartola gesticulou sem encontrar a palavra. –
Com o pensas que deve sentir-se teu esposo?
Milagros tentou averiguá-lo lutando contra o sono à espera de Pedro, quase sem pre de m adrugada. Na m aioria das noites ela caía exausta, m as nas poucas vezes em que conseguia vencer o cansaço, e o sopor a que a convidava o silêncio só rom pido pela com passada respiração de sua filha e pelo ronco da velha cigana, recebia a um hom em cam baleante, que fedia a álcool, a tabaco e às vezes a outros cheiros que só podiam enganar a quem , com o ela, estava disposta a não lhes prestar atenção.
Com o se sentia Pedro diante dos hom ens que m ostravam as fitas verdes em suas vestes? Logo ela o soube.
– Nenhum de teus adoradores te dá presentes?
Ele o perguntou um a noite, os dois deitados no colchão, nus, depois de havê-la levado um a vez m ais ao êxtase. O prazer, a satisfação, aquela ponta de esperança de recuperá-lo para si que sentia nas ocasiões em que ele a possuía, desvaneceram -se antes até que houvesse finalizado sua pergunta. Dinheiro. Era isso a única coisa que pretendia! Toda Madri estava apaixonada por ela, ele o sabia, os hom ens o proclam avam no teatro e nas ruas quando se abalançavam a sua liteira.
Mandavam -lhe bilhetes aos cam arins, papéis que, com o ela não sabia ler, eram lidos por Marina: propostas e todos os tipos de prom essas da parte de nobres e ricos. Com o passar dos dias, decidiu rasgá-los diretam ente e devolver os presentes. É claro que lhe davam presentes, m as ela sabia que, se os aceitasse, Pedro os converteria em m ais noites de solidão. As artistas tinham adquirido a fam a de frívolas e prom íscuas; a grande m aioria delas o era. “A Esquiva”, m udaram alguns o epíteto de Milagros. Madri inteira a desej ava, e o único hom em a que ela se entregava sem vacilar só queria seu dinheiro.
– Tentam fazê-lo – respondeu Milagros.
– E? – perguntou ele diante de seu silêncio.
– Tem certeza de que nunca deixarei que se ponha em dúvida tua honra e tua m asculinidade aceitando presentes de outros hom ens – respondeu ela após alguns instantes de vacilação.
– E que m e dizes dos saraus ou dos espetáculos privados que a com panhia dá? Pagam bem por eles, por que não os fazes tu?
Os saraus ela podia im aginá-los, m as com o se havia inteirado Pedro dos espetáculos privados dados pelas com panhias nos salões e teatrinhos das grandes m ansões?
– Aqui… – respondeu –, aqui não está tua fam ília para defender-m e. Em Sevilha m inha honra está a salvo; teus prim os e tua avó bem se ocupavam disso. Madri não é com o os mesones ou os palácios andaluzes. Eu o sei porque m e contam . Quem se pode opor aos desej os de um grande da Espanha? Queres que tua esposa estej a na boca de todo m undo, com o Marina ou Celeste?
O ronco de Bartola assolou o am biente durante um bom tem po enquanto ela continha a respiração à espera de sua réplica. Não a houve. Pouco depois, Pedro m urm urou algo ininteligível, deu-lhe as costas e se preparou para dorm ir.
Algo m udou naquela noite para Milagros. Seu corpo, usualm ente extenuado após alcançar o êxtase, perm anecia agora tenso, os m úsculos travados, toda ela inquieta. Não conseguiu pegar no sono. As lágrim as não tardaram a aparecer. Havia chorado, m uitas vezes, m as nunca com o nessa noite em que com preendeu que seu m arido não a am ava. Ela, que havia pensado que em Madri estava a salvação de seu casam ento, apercebia-se de que a cidade grande era pior que Triana. Ali, Pedro conversava com outros ciganos no beco e se m ovia por ruas e lugares conhecidos, enquanto aqui… Milagros sabia que havia ciganos de sua fam ília. O próprio Pedro encontrou seus parentes Garcías; havia-o contado a ela com as feições contraídas pela ira. Um deles havia m orrido por causa do espancam ento pelas m ãos dos m em bros de um a irm andade em decorrência dos insultos à Virgem na rua del Alm irante. O restante da fam ília, hom ens e m ulheres, perm anecia encarcerado nas m asm orras da Inquisição por delitos contra a fé.
– Tudo foi coisa de… – hesitou por um instante. Milagros interpretou m al seu silêncio; acreditou que Pedro não quisesse acusar seu avô quando o que não desej ava era que ela soubesse que havia outros Vegas na capital. – Foi tudo culpa do Galeote. Eu te j uro que algum dia o encontrarem os e o m atarem os ali m esm o.
Ela não disse nada. Fazia dois anos que Melchor havia escapado dos Garcías. “Não se deixe pegar, avô”, anelou. Entre gritos, Pedro lhe deu a entender que Melchor j á não estava em Madri; eram m uitos os ciganos que tinham percorrido a cidade inteira procurando-o. Sim , a vida de Melchor corria perigo. Ela se consolava pensando que isso agradava ao avô. No entanto, que dizer dela? Tudo lhe havia saído m al: não tinha ninguém a quem buscar. Um pai m orto, um a m ãe na prisão que além disso a havia renegado, um avô perseguido. Cachita e a velha María, desaparecidas. Até a pequena que levava o nom e da curandeira parecia haver tom ado m ais carinho por Bartola! Com o não ia ser assim se ela, Milagros, nunca estava com ela? E
quanto a Pedro… Ele não a am ava: só pensava no dinheiro que podia obter dela para divertir-se com outras m ulheres, reconheceu para si pela prim eira vez.
No dia seguinte, no Príncipe, Milagros ergueu um dos braços para o céu. Com o outro levantou a saia um palm o e m eio acim a dos tornozelos e com eçou a girar com graça, requebrando as cadeiras ao m esm o tem po que esvaziava os pulm ões num final que se confundiu com o estrépito do público. Era o que lhe restava: cantar e dançar; refugiar-se naquela arte com o em Triana, quando se concedia um a trégua nas discussões com sua m ãe e dançava com ela.
Os que a viram , esses aplaudiram com m ais força na crença de que as lágrim as que corriam por suas faces eram de felicidade.
15 Chorizo: aqui, m em bro de um dos grupos em que se dividiam os am antes do teatro na Madri do século XVIII. [N. do T.]
16 Tontillo: espécie de crinolina com barbatanas. [N. do T.]