A Rainha Descalça
Cápitulo 4
A ferraria da fam ília Carm ona ficava no térreo de um cortiço do beco de San Miguel. Era um edifício retangular de três andares erguido ao redor de um dim inuto pátio, no centro do qual se abria um poço de cuj as águas se beneficiavam a oficina e as fam ílias que viviam nos andares altos. No entanto, chegar até o poço se convertia am iúde em tarefa difícil, dado que tanto o pátio com o os corredores que o circundavam eram utilizados com o arm azém de carvão para a frágua ou de refugos de ferro que os ciganos recolhiam para trabalhar: um a m ultidão de pedaços retorcidos e enferruj ados am ontoados no pátio porque, à diferença dos payos sevilhanos que tinham de com prar em Vizcay a a m atéria-prim a para suas ferrarias, os do “ferro-velho”, os ciganos, não estavam subm etidos a ordenança algum a nem a vedores que controlassem a qualidade de seus produtos. Atrás do pátio do poço, seguindo um estreito corredor coberto pelo teto do prim eiro andar, chegava-se a um patiozinho de ventilação em que havia um banheiro e, j unto a este, um pequeno côm odo originariam ente destinado a tanque de roupa; essa peça Melchor Vega havia feito sua à sua volta das galés.
– Tu podes ficar aí. – O cigano indicou a Caridad o chão do patiozinho, entre o banheiro e a entrada para seu quarto. – Tens de continuar bebendo o rem édio até que sares; depois poderás ir-te – acrescentou entregando-lhe o odre. – Só faltaria que a velha María acreditasse que não cuidei de ti!
Melchor entrou em seu quarto e fechou a porta atrás de si. Caridad sentou-se no chão, com as costas apoiadas na parede, e arrum ou seus poucos pertences com cuidado: a trouxa à sua direita, o odre à esquerda, o chapéu de palha nas m ãos.
Os trem ores j á não a assediavam , e a febre havia passado. Recordava vagam ente os prim eiros m om entos de sua estada na choça da ciganaria: prim eiro lhe deram água, m as não lhe perm itiram saciar a sede que a queim ava. Puseram panos frios em sua testa até que a velha María se aj oelhou j unto ao colchão e a obrigou a tom ar a espessa beberagem de cevada fervida. Atrás dela, duas m ulheres rezavam em voz alta atropelando-se um a à outra, encom endando-se a um sem -fim de virgens e santos enquanto faziam cruzes no ar com as m ãos.
– Deixai as crendices para os payos! – ordenou-lhes a velha María.
Depois Caridad caiu num sopor inquieto e confuso que a transportou ao trabalho na veiga, ao látego, às orgias dos dias de festa, e apareceram -lhe todos os velhos deuses a que cantavam e suplicavam . Os tam bores iorubas ressoaram em sua cabeça a um ritm o frenético, tal com o haviam feito no barracão. Num sabá que em sonho lhe pareceu aterrador, com ela dançando no centro do barracão, voltou a ver os negros que batiam no couro dos tam bores, seus risos e seus gestos obscenos, os daqueles outros escravos que os acom panhavam com as claves ou as m aracas, seus rostos gritando frenéticos a um palm o do seu, todos à espera de que a santa baixasse e possuísse Caridad. E Oxum , seu orixá, afinal o fez e a possuiu, m as em seu sonho não o fez para acom panhá-la num a dança alegre e sensual, tal com o era a deusa, tal com o o havia feito em outras ocasiões, senão que a violentou em seus m ovim entos e em seus gestos até introduzi-la num inferno onde lutavam todos os deuses do universo.
Despertou de repente, sobressaltada, ensopada de suor, e topou com o silêncio da ciganaria na noite fechada.
– Moça – disse ao final a velha María –, não sei com que sonhaste, m as m e assusta im aginá-lo.
Então Caridad notou que a cigana, sentada a seu lado, m antinha sua m ão na dela. O contato daquela m ão áspera e rugosa a tranquilizou. Fazia tanto tem po que ninguém lhe tom ava a m ão para consolá-la… Marcelo… Era ela quem arrulhava o pequeno. Não. Não era isso. Talvez… talvez desde que a haviam roubado e afastado de sua m ãe, na África. Quase não conseguia recordar suas feições. Com o era? A velha devia ter pressentido seu desassossego e apertou-lhe a m ão. Caridad se deixou em balar pelo calor da cigana, pelo sentim ento que ela queria transm itir-lhe, m as continuava tentando evocar sua m ãe. Que haveria sido dela e de seus irm ãos? Com o eram a terra e a liberdade de sua infância? Recordava haver-se esforçado por delinear o rosto de sua m ãe na m ente…
Não chegou a consegui-lo.
À luz do entardecer que se infiltrava no patiozinho de ventilação, Caridad olhou ao redor, onde se acum ulava a suj eira e sentia o cheiro do lixo. Intuiu a presença de alguém e ficou nervosa: duas m ulheres que ocupavam toda a largura do corredor, paradas nele, observavam -na com curiosidade.
– Sim plesm ente canta bem ? – sussurrou um a surpresa Milagros para sua m ãe, sem desviar o olhar de Caridad.
– Isso m e disse teu pai – respondeu-lhe Ana com um sim pático gesto de incom preensão que se m udou em seriedade à lem brança dos gritos e trej eitos de José. “Diz que canta bem ! Só nos faltava um a negra!”, havia uivado após arrastar a esposa para o interior da ferraria. “Tu brigas com a Trianeira, esbofeteias seu neto, e teu pai nos traz um a negra. Instalou-a no patiozinho de ventilação! Que pretende?! Um a boca m ais para alim entar? Quero essa negra fora desta casa…” Mas Ana interrom peu sua lenga-lenga com o sem pre que o esposo destilava ira ao queixar-se do sogro: “Se m eu pai diz que canta bem , é porque canta bem , entendes? Aliás, ele paga sua própria com ida e, se quer pagar a com ida de um a negra que canta bem , ele o fará.”
– E para que a quer o avô? – inquiriu Milagros em voz baixa.
– Não tenho nem ideia.
Deixaram de m urm urar, e as duas, com o se se houvessem posto de acordo, concentraram -se em Caridad, que havia baixado o olhar e perm anecia sentada no chão. Mãe e filha contem plaram o velho vestido de flanela cinza descolorida que ela usava, o chapéu de palha que segurava nas m ãos e a trouxa e o odre a cada um de seus lados.
– Quem és? – perguntou Ana.
– Caridad – respondeu ela de cabeça baixa.
Os ciganos j am ais haviam deixado de olhar para alguém diretam ente nos olhos, por em inente ou distinto que fosse seu interlocutor. Aguentavam o olhar dos nobres ali onde nem seus m ais íntim os colaboradores se atreviam a fazê-lo; escutavam os j uízes dar suas sentenças sem pre erguidos, altivos, e dirigiam -se a todos eles com desem baraço. Por acaso não era um cigano, só por haver nascido cigano, m ais nobre que o m elhor dos payos? As duas esperaram durante alguns instantes que Caridad erguesse os olhos. “Que fazem os?”, perguntou Milagros à sua m ãe com o olhar diante da insistente tim idez daquela m ulher.
Ana deu de om bros.
Ao final foi a m oça quem se decidiu. Caridad parecia um anim al assustado e indefeso e, afinal de contas, “Se o avô a trouxe…”, pensou. Aproxim ou-se dela, afastou o odre, sentou-se a seu lado, inclinou o torso e pôs a cabeça de lado para tentar ver seu rosto. Os segundos correram com lentidão até que Caridad se atreveu a voltar-se para ela.
– Caridad – m ussitou então a m oça com voz doce –, diz m eu avô que cantas m uito bem .
Ana sorriu, abriu as m ãos e foi-se deixando-as ali sentadas.
Prim eiro foram olhares furtivos enquanto Caridad respondia com parcim ônia às ingênuas perguntas da m oça: que fazes em Triana?, quem te trouxe até aqui?, de onde és? À m edida que avançava a tarde, Milagros sentiu que Caridad cravava os olhinhos nela. Buscou algum fulgor em seu olhar, algum resplendor, ao m enos o reflexo da um idade de um as lágrim as, m as não encontrou nada. E no entanto… De repente foi com o se Caridad houvesse encontrado por fim a quem confiar-se, e, à m edida que lhe contava sua vida, a m oça sentiu em si m esm a a dor que se desprendia de suas explicações.
– Bela? – replicou Caridad com tristeza quando Milagros lhe pediu que lhe falasse daquela Cuba que tão bela diziam que era. – Não existe nada belo para um a escrava.
– Mas… – quis insistir a cigana. Calou-se no entanto diante do olhar de Caridad. – Tinhas fam ília? – perguntou tentando m udar de assunto.
– Marcelo.
– Marcelo? Quem é Marcelo? Não tinhas ninguém m ais?
– Não, ninguém m ais. Só Marcelo.
– Quem é?
– Meu filho.
– Então… sim , tens filhos… E teu hom em ?
Caridad m eneou a cabeça quase im perceptivelm ente, com o se a ingenuidade da m oça a superasse; por acaso não sabia o que era a escravidão?
– Não tenho hom em nem esposo – esclareceu, esgotada. – Nós, os escravos, não tem os nada, Milagros. Separaram -m e de m inha m ãe quando eu era m uito m enina, e depois m e separaram de m eus filhos; a um o senhor o vendeu.
– E Marcelo? – atreveu-se a perguntar Milagros ao fim de um tem po de silêncio –, onde está?
Não te separaram dele?
– Ficou em Cuba. – “Ele, sim , a via bela”, pensou.
Caridad esboçou um sorriso e perdeu-se em suas recordações.
– Não te separaram dele? – repetiu Milagros por fim .
– Não. Marcelo não era útil aos brancos.
A cigana hesitou. Não se atreveu a insistir.
– Sente saudade dele? – perguntou em vez disso.
Um a lágrim a percorreu a face de Caridad antes que ela conseguisse anuir. Milagros se abraçou a ela e sentiu que chorava; um estranho pranto: surdo, silencioso, oculto.
No dia seguinte pela m anhã, Melchor topou com Caridad ao sair do quarto.
– Por todos os diabos! – m aldisse. A negra! Tinha-a esquecido.
Caridad baixou a cabeça diante do hom em da j aqueta de seda azul-celeste orlada de prata.
Clareava, os m artelos ainda não haviam com eçado a soar, em bora j á se ouvissem os afazeres de gente ao redor do pátio em que se achava o poço, para além do corredor coberto. Fazia m uito tem po que Caridad não havia caído no sono com o nessa noite, e isso apesar da quantidade de pessoas que haviam passado sobre ela para chegar ao banheiro. As palavras que havia ouvido de boca da m oça cigana a tranquilizaram : ela lhe havia prom etido que a aj udaria a atravessar a ponte.
– Pagar? – Milagros havia soltado um a sonora gargalhada.
Caridad se encontrava bastante m elhor que no dia anterior e atreveu-se a olhar para Melchor; sua tez extrem adam ente m orena lhe perm itiu fazê-lo com certa espontaneidade, com o se se dirigisse a outro escravo da negrada. Devia ter uns cinquenta anos, calculou com parando-o com os negros daquela idade que havia conhecido em Cuba, e era m agro e m usculoso. Observou aquele rosto descarnado e percebeu nele as m arcas de anos de sofrim entos e m aus-tratos, as m esm as que nos escravos negros.
– Tom aste a poção da velha María? – inquiriu o cigano interrom pendo seus pensam entos; estranhou-lhe ver a m anta colorida com que se cobria e o colchão em que descansava, m as não era seu problem a de onde os havia obtido.
– Sim – respondeu ela.
– Continua fazendo-o – acrescentou Melchor antes de dar-lhe as costas para penetrar no estreito corredor e perder-se em direção à porta de saída do cortiço.
“Isso é tudo?”, perguntou-se então Caridad. Não iam fazê-la trabalhar ou penetrá-la? Aquele hom em , “o avô”, com o o havia cham ado em repetidas ocasiões Milagros, havia dito que ela cantava bem . Quantas vezes a teriam elogiado ao longo de sua vida? “Canto bem ”, disse-se Caridad com satisfação. “Ninguém te incom odará se o avô te protege”, havia-lhe assegurado tam bém a m oça. O calor dos raios de sol que se infiltravam no patiozinho de ventilação a confortou. Tinha um pequeno colchão, um a linda m anta colorida que Milagros lhe havia proporcionado e poderia cruzar a ponte! Fechou os olhos e perm itiu-se cair num prazeroso sopor.
A essa hora o beco de San Miguel estava ainda tranquilo. Melchor o percorreu e, quando chegou à altura das Mínim as, com o se houvesse abandonado o am paro cigano e saísse a território hostil, apalpou o pacote que levava no bolso interior da j aquetinha. Em verdade era bom pó de tabaco o que lhe havia entregado o tio Basilio. No dia anterior, assim que entrou em seu quarto, depois de deixar Caridad no patiozinho de ventilação, Melchor extraiu o pó da tripa de porco em que estava envolto, não sem um esgar de asco, depositou um a pitada no dorso da m ão direita e o aspirou com força: fino e m oído. Ele preferia o tabaco torcido, m as sabia reconhecer a qualidade de um bom tabaco em pó. Provavelm ente “m ato da Índia”, pensou, pó bruto que se trazia das Índias e que se lavava e repassava na fábrica de tabacos sevilhana.
Dispunha de boa quantidade. O tio Basilio ganharia um bom dinheiro… em bora pudesse ganhar ainda m ais se… rebuscou entre seus pertences. Estava seguro de que o tinha. Na últim a vez que traficara pó havia utilizado… Ali estava! Um frasco com alm agre, fina terra averm elhada. Já de noite, à luz de um a vela, com eçou a m isturar o pó de tabaco e a terra, com m uito cuidado, procurando não se exceder.
À vista de São Jacinto, Melchor voltou a apalpar com satisfação o pacote que levava escondido: havia conseguido que ganhasse peso e não parecia que sua qualidade houvesse dim inuído em dem asia.
– Bom -dia, padre – disse Melchor ao prim eiro frade que encontrou nas im ediações da igrej a em construção. – Procuro Frei Joaquín.
– Está lendo gram ática para os m eninos – respondeu o dom inicano quase sem virar-se, atento aos trabalhos de um dos carpinteiros. – Para que o queres?
“Para vender-lhe o tabaco em pó que um cigano roubou da fábrica m etendo-o no cu e de que seguram ente o senhor desfrutará m etendo-o pelo nariz”, pensou Melchor. Sorriu às costas do frade.
– Esperarei – m entiu.
O frade fez um distraído gesto de assentim ento com a m ão, ainda concentrado nas m adeiras que trasladavam para a obra.
Melchor se voltou para o antigo Hospital da Candelária, anexo à erm ida sobre a qual se levantava a nova igrej a, e que os pregadores utilizavam agora com o convento.
– Seu com panheiro que está aí fora – advertiu ao porteiro do convento, apontando para as obras – diz que o senhor se apresse. Parece que sua nova igrej a está a ponto de desabar.
Assim que o porteiro correu para o exterior sem pensar duas vezes, Melchor se infiltrou no pequeno convento. A cantilena das leituras em latim o guiou para um a sala em que se achava Frei Joaquín com cinco m eninos que repetiam com m onotonia as lições.
O religioso não m ostrou surpresa diante da irrupção de Melchor; os m eninos, sim . De suas cadeiras, com o olhar cravado no cigano, um deixou de recitar, outro balbuciou e os dem ais erraram em suas lições.
– Continuai, continuai. Mais alto! – ordenou-lhes o j ovem frade encam inhando-se para Melchor. – Pergunto-m e com o fizeste para chegar até aqui – sussurrou um a vez a seu lado, entre a algaravia das crianças.
– Logo o saberá.
– Isso é o que tem o. – O frade m eneou a cabeça.
– Tenho um a boa quantidade de pó. De qualidade. A bom preço.
– De acordo. Estam os com pouco tabaco, e os irm ãos ficam m uito nervosos se não têm suficiente. Encontram o-nos no lugar de sem pre, ao m eio-dia. – O cigano anuiu. – Melchor, por que não esperaste? Por que interrom peste…?
Não teve tem po de finalizar a pergunta. O porteiro, o frade que vigiava as obras e dois outros religiosos irrom peram na peça.
– Que fazes tu aqui? – gritou o porteiro.
Melchor estendeu os braços com as palm as estendidas, com o se quisesse deter o tropel que vinha para cim a dele. Frei Joaquín o observou com curiosidade. Com o sairia dessa?
– Perm itam -m e que m e explique – solicitou o cigano com tranquilidade. Os religiosos pararam a um passo dele. – Tinha de contar a Frei Joaquín um pecado, um pecado m uito grande
– escusou-se. Frei Joaquín fechou os olhos e reprim iu um suspiro. – Um pecado desses que levam para o inferno diretam ente – continuou o cigano –, desses de que não nos salvam os nem com m il preces pelas alm as no purgatório.
– E não podias haver esperado? – interrom peu-o um dos frades.
Os cinco m eninos olhavam atônitos.
– Com um pecado tão grande? Um pecado assim não pode esperar – defendeu-se Melchor.
– Podias tê-lo dito na entrada…
– E m e teriam dado atenção?
Os frades se entreolharam .
– Bem – interveio o m ais velho –, e então? Já te confessaste?
– Eu? – Melchor sim ulou surpresa. – Eu não, em inência! Eu sou um bom cristão. O pecado é de um am igo. Sucede que está tosquiando uns burricos, entendem ?, e, com o o hom em está m uito preocupado, pediu-m e que eu visse se podia aproxim ar-m e daqui e confessar em seu nom e.
Um dos m eninos soltou um a gargalhada. Frei Joaquín fez um gesto de im potência para seus irm ãos antes que o frade que havia interpelado o cigano, com o rosto congestionado, explodisse.
– Fora! – gritou o frade m ais velho apontando a porta. – Que pensastes…?
– Ciganos!
– Infam es!
– Teriam de prender a todos vós! – ouviu a suas costas.
– Isto é pó cucarachero, [ 2 ] Melchor! – queixou-se Frei Joaquín assim que percebeu a cor verm elha do alm agre que o cigano havia m isturado com o tabaco. Estavam à m argem do Guadalquivir, perto do porto de cam aroneiros. – Tu m e disseste…
– Da m elhor qualidade, Frei Joaquín – respondeu Melchor –, recém -saído da fábrica…
– Mas se se reconhece o verm elho!
– Devem tê-lo secado de m odo ruim .
Melchor tentou dar um a olhada no tabaco que o frade segurava. Havia-se excedido tanto assim ? Talvez o j ovem estivesse aprendendo.
– Melchor…
– Juro por m inha neta! – O cigano cruzou os dedos polegar e indicador até form ar um a cruz que levou aos lábios e beij ou. – De prim eira qualidade.
– Não j ures em vão. E de Milagros tam bém tem os de falar – disse Frei Joaquín. – Noutro dia, o das candeias, ficou zom bando de m im enquanto eu pregava…
– Quer que a repreenda?
– Sabes que não.
O frade se perdeu na m em ória: a m oça lhe havia posto num com prom isso, é verdade; sabia que sua voz ficara trêm ula e que havia perdido o fio do discurso, é verdade tam bém , m as aquele rosto cinzelado e altivo, belo com o só ele, aquele corpo virgem …
– Frei Joaquín – tirou-o de seu devaneio o cigano. Havia arrastado as palavras, com o cenho franzido.
O religioso pigarreou.
– Isto é pó adulterado – repetiu para m udar de assunto.
– Não esqueça que é m inha neta – insistiu não obstante o cigano.
– Eu sei.
– Não gostaria de ficar m al com o senhor.
– Que queres dizer? Estás a m e am eaç…?
– Mataria por ela – exaltou-se Melchor. – O senhor é payo… e além disso frade. A segunda coisa poderia aj eitar-se, a prim eira não.
Defrontaram seus olhares. O religioso estava consciente de que seria capaz de deixar o hábito e j urar fidelidade à raça cigana a um só sinal de Milagros.
– Frei Joaquín… – interrom peu seus pensam entos Melchor, convicto do que passava pela cabeça do frade.
O religioso ergueu a m ão e obrigou Melchor a calar-se. O cigano era o verdadeiro problem a: nunca aceitaria essa relação, concluiu. Afastou seus desej os.
– Tudo isso não te dá direito de tentar vender-m e com o bom este tabaco – recrim inou-o.
– Eu j uro…!
– Não j ures em vão. Por que não m e dizes a verdade?
Melchor deu-se um tem po antes de responder. Passou um braço pelo om bro de Frei Joaquín e o em purrou alguns passos pela ribeira.
– Sabe de um a coisa? – Frei Joaquín anuiu com um m urm úrio ininteligível. – Eu o direi som ente ao senhor porque é um segredo: se um cigano diz a verdade… perde-a! Fica sem ela.
– Melchor! – exclam ou o outro ao m esm o tem po que se safava do abraço.
– Mas este pó é de prim eira qualidade.
Frei Joaquín estalou a língua, dando-se por vencido.
– Está bem . De qualquer m odo, não creio que os dem ais frades se apercebam de nada.
– Porque não é verm elho, Frei Joaquín. Vê? O senhor está enganado.
– Não insistas. Quanto queres?
Adulterado ou não, Melchor obteve um bom ganho pelo tabaco; o tio Basilio ficaria satisfeito.
– Sabes de algum novo desem barque de tabaco de contrabando? – interessou-se Frei Joaquín quando j á iam despedir-se.
– Não m e avisaram de nenhum . Deve havê-los, com o sem pre, m as m eus am igos não intervêm . Confio em que agora, a partir de m arço, com o bom tem po, com ece outra vez o trabalho.
– Mantém -m e inform ado.
Melchor sorriu.
– Naturalm ente, padre.
Após o fecham ento do proveitoso negócio, Melchor decidiu ir tom ar uns vinhos no mesón [ 3 ]
da Joaquina antes de dirigir-se à ciganaria para entregar o dinheiro ao tio Basilio. “Curioso esse frade!”, pensou enquanto cam inhava. Debaixo de seu hábito de pregador, por trás desse talento e dessa eloquência que as pessoas tanto louvam , escondia-se um j ovem alegre, ávido de vida e novas experiências. Melchor o havia com provado no ano anterior, quando Frei Joaquín se em penhara em acom panhá-lo a Portugal para receber um carregam ento de tabaco. De início o cigano hesitara, m as se viu obrigado a consentir: eram os padres que lhe financiavam as operações de contrabando, e, adem ais, quantos deles atuavam com o interm ediários e podiam encontrar-se carregados de tabaco nas fronteiras ou nos cam inhos? Todos os religiosos participavam do contrabando de tabaco, fosse diretam ente, fosse adquirindo o produto. Era tanto o gosto dos padres pelo tabaco, tanto seu consum o, que o Papa tivera de proibir que os religiosos aspirassem pó nas igrej as enquanto oficiavam . No entanto, os religiosos não estavam dispostos a pagar os altos preços que o rei estabelecia através da tabacaria; só a fazenda real podia com erciar o tabaco, razão por que a Igrej a se havia convertido no m aior defraudador do reino: participava do contrabando, com prava, financiava, escondia os contrabandos nos tem plos e até m antinha cultivos clandestinos atrás dos im penetráveis m uros de conventos e m osteiros.
Com aqueles pensam entos, sentado a um a m esa no mesón da Joaquina, Melchor esvaziou de um só gole seu prim eiro copo.
– Bom vinho! – lançou em voz alta para quem quisesse ouvi-lo.
Pediu outro, e um terceiro. Estava com o quarto quando por trás se aproxim ou dele um a m ulher que, insinuante, pôs a m ão em seu om bro. O cigano ergueu a cabeça e topou com um rosto que pretendia esconder seus verdadeiros traços atrás de uns enfeites antigos e descom postos. No entanto, os peitos generosos da m ulher tentavam escapar do decote. Melchor pediu um copo de vinho tam bém para ela ao m esm o tem po que cravava com força os dedos da m ão direita num a de suas nádegas. Ela se queixou com um a falsa e exagerada careta de recato, m as sentou-se, e as rodadas com eçaram a suceder-se.
Melchor ficou dois dias sem aparecer no beco de San Miguel.
– Podes ocupar-te da negra? – pediu Ana à filha quando viu que seu pai não voltava aquele m eio-dia. – Pelo visto o avô decidiu perder-se de novo. Verem os por quanto tem po desta vez.
– E o que faço com ela, digo-lhe que pode ir-se?
Ana suspirou.
– Não sei. Não sei o que pretendia… o que pretende teu avô – corrigiu-se.
– Ela está em penhada em atravessar a ponte de barcos.
Milagros havia voltado a passar grande parte da m anhã no patiozinho de ventilação. Foi para lá tão velozm ente quanto sua m ãe lhe perm itiu, com m il perguntas saltando-lhe na boca, todas as que se havia feito ao longo da noite diante do que Caridad lhe tinha contado. Sentia-se atraída por aquela m ulher negra, por sua m elódica form a de falar, pela profunda resignação que em anava de toda ela, tão diferentes do caráter altivo e orgulhoso dos ciganos.
– Para quê? – perguntou sua m ãe interrom pendo seus pensam entos.
Milagros se virou, confusa. Encontravam -se num dos dois pequenos côm odos que com punham o andar em que viviam , o prim eiro do cortiço. Ana preparava a com ida num fornilho de carvão instalado num nicho aberto na parede.
– Quê?
– Para que quer cruzar a ponte?
– Ah! Quer ir à Confraria dos Negritos.
– Já está recuperada das febres? – perguntou Ana.
– Creio que sim .
– Então, depois de alm oçar, leva-a.
A m oça anuiu. Ana esteve tentada a dizer-lhe que a deixasse em Sevilha, com os Negritos, m as retificou.
– E depois a voltas a trazer. Não quero que o avô vej a que sua negra j á não está aqui. Só m e faltava isso!
Ana estava irritada: havia discutido com José. Seu esposo lhe havia recrim inado com dureza a pelej a que havia m antido com a Trianeira, m as sobretudo lhe censurava que houvesse esbofeteado seu neto.
– Um a m ulher batendo num hom em . Onde j á se viu? Além disso, no neto do chefe do conselho de anciãos! – gritou-lhe. – Sabes quão rancorosa pode chegar a ser Rey es.
– Quanto ao prim eiro ponto, baterei em todos quantos ofenderem m inha filha, sej am netos da Trianeira ou do próprio rei da Espanha. Se não, cuida tu dela e fica atento. Quanto ao m ais, não sei o que m e vais contar a m im do caráter dos Garcías…
– Basta de Vegas e Garcías! Não quero voltar a ouvir falar disso. Tu te casaste com um Carm ona, e a nós não nos interessam suas disputas. Os Garcías m andam na ciganaria e são influentes diante dos payos. Não podem os perm itir que tom em aversão por nós… e m enos ainda pelas velhas rixas de um velho louco com o teu pai. Estou cansado de que m inha fam ília m e j ogue isso na cara!
Nesta ocasião, Ana m ordeu o lábio para não responder.
A eterna discussão! A cantilena de sem pre! Desde que seu pai havia voltado das galés fazia dez anos, as relações com seu esposo se haviam ido deteriorando. José Carm ona, o j ovem cigano entregue a seus encantos, havia sido capaz de prescindir do casam ento religioso para consegui-la.
“Jam ais m e dobrarei a esses cães que não m overam um dedo por m eu pai”, havia-se oposto ela porque trazia m arcados a fogo na m em ória o desprezo e a hum ilhação com que as haviam tratado. No entanto, esse m esm o hom em não havia podido suportar a presença de Melchor, a quem acusava de roubar-lhe o carinho de sua filha. Milagros via em seu avô o hom em indestrutível que havia sobrevivido às galés, ao contrabandista que enganava soldados e autoridades, o cigano livre e indolente, e José se sentia pouco rival: um sim ples ferreiro obrigado a trabalhar dia após dia sob as ordens do chefe dos Carm onas e que nem sequer podia gabar-se de ter um filho hom em .
José invej ava o carinho que avô e neta se professavam . A im ensa gratidão de Milagros quando Melchor a presenteava com um a pulseira, um avelório ou a m ais sim ples fita colorida para o cabelo, seu olhar extasiado enquanto escutava suas histórias… Com o transcurso dos anos José foi descarregando esse rancor e os ciúm es que o carcom iam em sua própria esposa, a quem culpava. “Por que não o dizes a ele?”, havia-lhe replicado um dia Ana. “Por acaso não te atreves?” Não teve tem po de arrepender-se de sua im pertinência. José lhe aplicou ao rosto um tapa.
E nesse m om ento, enquanto falava com sua filha da m ulher negra que seu pai havia tido a ideia de trazer, Ana cozinhava, naquele pequeno e incôm odo fornilho, alm oço para quatro: os três da fam ília m ais o j ovem Alej andro Vargas. Após reprim ir-se e calar quando seu esposo voltou a lançar-lhe em rosto as disputas entre os Vegas e os Garcías, surpreendeu-lhe quão fácil foi convencer José de que o problem a de Milagros residia em que j á não era um a m enina. A m ãe pensou que, se a prom etessem em casam ento, a m oça deixaria de lado sua inclinação por Pedro García, j á que estava segura de que os Garcías nunca pretenderiam um a Vega. O pai se disse que com um m arido se desvaneceria a união entre Milagros e seu avô, e apoiou a ideia: fazia tem po que os Vargas haviam m ostrado interesse em Milagros, razão por que José não perdeu tem po e no dia seguinte Alej andro estava convidado a alm oçar. “Por ora não se trata de nenhum com prom isso, só pretendo conhecer o j ovem um pouco m ais”, havia anunciado à sua esposa,
“seus pais consentiram .”
– Vai à casa do tio Inocencio para que te em preste um a cadeira – ordenou Ana à filha, interrom pendo uns pensam entos que vagavam entre a ponte de barcos que Caridad queria cruzar e a Confraria dos Negritos a que desej ava chegar.
– Um a cadeira? Para quem ? Quem …?
– Vai buscá-la – insistiu a m ãe; não queria adiantar-lhe a visita de Alej andro e iniciar antes de tem po a inexorável discussão com a filha.
Na hora do alm oço, Milagros im aginou a razão da presença de Alej andro e recebeu o convidado com antipatia: não gostava dele, era acanhado e dançava com inabilidade, em bora só Ana tenha parecido dar-se conta de sua grosseria. José se dirigia a ele com o se nenhum a das m ulheres existisse. Na terceira ocasião em que a m oça se m anifestou em tom brusco, Ana fechou a cara, m as Milagros aguentou a reprovação e a olhou com o cenho franzido. “Já sabe de quem gosto!”, dizia esse olhar. José Carm ona ria e batia na m esa com o se se tratasse da bigorna da ferraria. Alej andro tentava não ficar atrás, m as suas risadas ficavam entre a tim idez e o nervosism o. “É im possível”, negou quase im perceptivelm ente a m ãe para a filha. Milagros apertou os lábios. Pedro García. Pedro era o único que lhe interessava… E que tinha que ver ela com as antigas rixas do avô ou de sua m ãe?
– Jam ais, filha. Jam ais – advertiu-a entre dentes sua m ãe.
– Que dizes? – perguntou seu esposo.
– Nada. Só…
– Diz que não m e casarei com este… – Milagros m oveu a m ão em direção a Alej andro, boquiaberto o rapaz, com o se espantasse um inseto –, com ele – finalizou a frase para evitar o insulto que j á tinha na boca.
– Milagros! – gritou Ana.
– Farás o que se te ordene – declarou José com seriedade.
– O avô… – com eçou a dizer a m oça antes que sua m ãe a interrom pesse.
– O avô te perm itiria aproxim ar-te sequer de um García? – espetou-a sua m ãe.
Milagros se levantou com brusquidão e j ogou a cadeira no chão. Ficou de pé, sufocada, com o punho da m ão direita fechado, am eaçando a m ãe. Balbuciou um as palavras incom preensíveis, m as, quando estava a ponto de com eçar a gritar, topou com o olhar dos dois ciganos posto nela.
Grunhiu, deu m eia-volta e se foi.
– Já vês que se trata de um a potrinha que será preciso dom ar sem contem plação – ouviu que ria seu pai.
O que Milagros não chegou a ouvir, que se despediu dando um a batida de porta com o estúpido risinho de Alej andro a suas costas, foi a réplica de Ana.
– Rapaz, eu te arrancarei os olhos se algum dia puseres a m ão em cim a de m inha filha. – Os dois hom ens m udaram o sem blante. – Palavra de Vega – acrescentou levando aos lábios e beij ando os dedos dispostos em form a de cruz, tal com o fazia seu pai quando queria convencer alguém .
Caridad cam inhava tesa, com o olhar fixo no cobrador de pedágio que cobrava das pessoas na entrada da ponte de barcos: o m esm o hom em que um dia lhe havia im pedido a passagem .
– Vam os. – Milagros se havia dirigido a ela do corredor, na entrada do patiozinho de ventilação, com voz esganiçada.
Caridad obedeceu im ediatam ente. Enfiou o chapéu de palha e pegou a trouxa.
– Deixa-os! – instou-a a m oça ao observar que se em penhava em pôr em ordem o odre da velha María, j á vazio, a m anta colorida e o colchão. – Depois voltarem os.
E agora se aproxim ava de novo da transitada ponte, cam inhando atrás de um a m oça tão silenciosa com o resoluta.
– Vem com igo – adiantou-se Milagros, apontando para trás, quando observou que o cobrador de pedágio se dirigia para Caridad.
– Não é cigana – alegou o hom em .
– Isso salta aos olhos.
O hom em fez m enção de revoltar-se diante do descaram ento da ciganinha, m as se acovardou.
Conhecia-a: a neta de Melchor, o Galeote. Os ciganos sem pre se haviam negado a pagar o pedágio, com o ia um cigano pagar para cruzar um rio? Fazia m uitos anos que o arrendador dos direitos da ponte de barcos havia recebido a visita de vários deles, m al-encarados, arm ados de navalha e dispostos a resolver aquela questão à sua m aneira. Não houve lugar para discussões, porque em verdade pouco im portavam alguns esfarrapados que iam de Triana a Sevilha e vice-versa entre as três m il cavalgaduras que o faziam diariam ente.
– Que m e dizes? – insistiu Milagros.
Todos os ciganos eram perigosos, m as Melchor Vega o era m ais ainda. E a m oça era um a Vega.
– Adiante – cedeu.
Caridad deixou escapar o ar que inconscientem ente havia retido nos pulm ões e seguiu a m oça.
Alguns passos adiante, entre o bulício de burricos e m ulas, arrieiros, carregadores e m ercadores, Milagros se voltou e lhe sorriu com um gesto triunfal. Esqueceu a discussão com seus pais e m udou de atitude.
– Para que queres ir aos Negritos?
Caridad apertou o passo e num par deles se colocou a seu lado.
– As m onj as disseram que m e aj udariam .
– Monj as e padres, todos m entirosos – sentenciou a cigana.
Caridad a olhou estranhando-a.
– Não m e aj udarão?
– Não creio. Com o vão fazê-lo? Não podem nem aj udar-se entre si. Diz o avô que antes havia m uitos negros, m as que agora j á restam poucos e todo o dinheiro que conseguem o em pregam em besteiras: na igrej a e nas im agens. Antes até existia outra confraria de negros em Triana, m as ficou sem clientes e desapareceu.
Caridad voltou a ficar para trás com as decepcionantes palavras da m oça na m ente, enquanto esta, passada a ponte, se encam inhava resoluta para o sul para circundar a m uralha em direção ao bairro de San Roque.
Na altura da Torre do Ouro, a m oça se deteve e se virou de repente.
– Para que queres que te aj udem ?
Caridad abriu as m ãos diante de si, confusa.
– Que é o que achas que farão por ti? – insistiu a cigana.
– Não sei… As m onj as m e disseram … São negros, não?
– Sim . São – respondeu a m oça com resignação antes de retom ar o cam inho.
Se eram negros, aventurou Caridad de novo atrás dos passos da cigana sem afastar a vista das bonitas fitas coloridas que adornavam o cabelo da m oça e os coloridos lenços que usava am arrados nos pulsos, revoluteando no ar, aquele lugar tinha de ser algo parecido com os barracões, quando se reuniam nos dias de festa. Ali todos eram am igos, com panheiros na desdita ainda que não se conhecessem , ainda que nem sequer se entendessem : lucum is, m andingas, congos, ararás, carabalis… Que im portava o idiom a que falassem ? Ali cantavam , dançavam e desfrutavam , m as tam bém tentavam aj udar-se. Que outra coisa se podia fazer num a reunião de negros?
Milagros não quis acom panhá-la ao interior da igrej a.
– Expulsar-m e-iam a pontapés – anunciou.
Um sacerdote branco e um negro j á velho que se apresentou orgulhoso com o o irm ão m ais antigo da confraria, tam bém ao cuidado da pequena capela dos Anj os, exam inaram -na de alto a baixo sem esconder um esgar de aversão por suas suj as roupas de escrava, tão fora de lugar na pom pa que pretendiam para seu tem plo. Que queria?, havia-lhe perguntado o irm ão m ais velho com displicência. À trem eluzente luz das velas da capela, Caridad am assou o chapéu de palha entre as m ãos e arrostou ao negro com o a um igual, m as tanto seu espírito com o sua voz se foram esm orecendo diante da crueldade do exam e a que foi subm etida. As m onj as?, continuou o irm ão m ais velho, chegando quase a levantar a voz. Que tinham que ver ali as m onj as de Triana? Que sabia fazer? Nada? Não. O tabaco não. Em Sevilha só os hom ens trabalhavam na fábrica de tabaco. Em Cádiz, sim . Na fábrica de Cádiz, sim , trabalhavam as m ulheres, m as estavam em Sevilha. Sabia fazer algo m ais? Não? Nesse caso… A confraria? Tinha dinheiro para entrar na confraria? Não sabia que era preciso pagar? Sim . Naturalm ente. Era preciso pagar para pertencer à confraria. Tinha dinheiro? Não. É claro. Era livre ou escrava? Porque se era escrava tinha de trazer a autorização de seu senhor…
– Livre – conseguiu afirm ar Caridad ao m esm o tem po que cravava os olhos nos do negro. –
Sou livre – repetiu arrastando as palavras, tentando infrutiferam ente encontrar naqueles olhos a com preensão de um irm ão de sangue.
– Então, m inha filha… – Caridad baixou o olhar diante da intervenção do sacerdote, que até esse m om ento havia perm anecido em silêncio. – Que é que pretendes de nós?
Que pretendia?
Um a lágrim a correu por sua face.
Saiu correndo da igrej a.
Milagros a viu atravessar a rua Ancha de San Roque e internar-se no descam pado que se abria atrás da paróquia em direção ao Arroio do Tagarete. Caridad corria ofuscada, enceguecida pelas lágrim as. A cigana m eneou a cabeça ao m esm o tem po que sentia um a pontada no estôm ago.
“Filhos da puta!”, resm ungou. Apressou-se atrás dela. Alguns passos adiante teve de deter-se para recolher o chapéu de palha de Caridad. Encontrou-a na m argem do Tagarete, onde havia caído de j oelhos, alheia à fetidez do arroio, que recebia as águas fecais de toda a zona: chorava em silêncio, com o na tarde anterior, com o se não tivesse direito a isso. Nesta ocasião tapava o rosto com as m ãos e se balançava de frente para trás enquanto cantarolava entrecortadam ente um a triste e m onótona m elodia. Milagros afugentou uns m eninos andraj osos que a espiavam . Depois aproxim ou a m ão do cabelo negro encarapinhado de Caridad, m as não se atreveu a tocá-lo. Um trem endo calafrio percorreu todo o seu corpo. Aquela m elodia… Ainda com o braço estendido, observou com o se lhe arrepiavam os pelos diante da profundidade daquela voz. Sentiu que as lágrim as se lhe acum ulavam nos olhos. Aj oelhou-se j unto dela, abraçou-a sem j eito e acom panhou-a em seu pranto.
– Vovô.
Estava havia m ais de um dia atenta, esperando que Melchor regressasse ao beco. Havia ido até a ciganaria da Cartuxa para ver se o encontrava ali, m as não lhe disseram nada. Regressou e postou-se à porta do cortiço; queria falar com ele antes que ninguém . Melchor sorriu e m eneou a cabeça ao sim ples tom de voz da neta.
– Que é que queres desta vez, m inha m enina? – perguntou-lhe ao m esm o tem po que a segurava pelo om bro e a afastava do edifício, para longe dos Carm onas que se m oviam por ali.
– Que vai fazer com Caridad… com a negra? – esclareceu diante da expressão de ignorância do cigano.
– Eu? Estou cansado de dizer que não é m inha. Não sei… que faça o que quiser.
– Poderia ficar conosco?
– Com teu pai?
– Não. Com o senhor.
Melchor apertou Milagros contra si. Andaram alguns passos em silêncio.
– Tu queres que fique? – perguntou o cigano por fim .
– Sim .
– E ela? Quer ficar?
– Caridad não sabe o que quer. Não tem para onde ir, não conhece ninguém , não tem dinheiro… Os Negritos…
– Pediram -lhe dinheiro – adiantou-se-lhe ele.
– Sim – confirm ou Milagros. – Prom eti-lhe que falaria com o senhor.
– Por que queres que fique?
A m oça dem orou uns instantes para responder.
– Está sofrendo.
– Muita gente sofre hoj e em dia.
– Sim , m as ela é diferente. É… é m ais velha que eu e no entanto parece um a m enina que não sabe nem entende nada. Quando fala… quando chora ou quando canta, ela o faz com um sentim ento… O senhor m esm o diz que canta bem . Era escrava, sabia?
– Im aginava – anuiu Melchor.
– Todo o m undo a tratou m al, avô. Separaram -na de sua m ãe e de seus filhos. A um deles o venderam ! Depois…
– E de que viverá? – interrom peu-a Melchor.
Milagros perm aneceu em silêncio. Andaram alguns passos, o cigano apertando o om bro da neta.
– Terá de aprender a fazer algo – cedeu por fim .
– Eu ensinarei! – explodiu em alegria a m oça, girando para o avô para abraçá-lo. – Dê-m e um tem po.
2 Pó (de tabaco) cucarachero: precisam ente o m isturado com alm agre, e portanto de m á qualidade. [N. do T.]
3 Mesón: casa de bebidas e refeições e, ao m esm o tem po, estalagem . [N. do T.]