A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 2 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 2

O bairro sevilhano de Triana ficava do outro lado do rio Guadalquivir, fora das m uralhas da cidade. Com unicava-se com a cidade através de um a velha ponte m uçulm ana construída sobre dez barcaças ancoradas no leito do rio e unidas a duas grossas correntes de ferro e vários cabos estendidos de m argem a m argem . Aquele arrabalde, que havia sido batizado “guarda de Sevilha” pela função defensiva que sem pre havia tido, alcançou sua época de esplendor quando Sevilha m onopolizava o com ércio com as Índias; os problem as de navegação pelo rio aconselharam em inícios do século trasladar a Casa de Contratação a Cádiz e im plicaram um a considerável dim inuição de sua população e o abandono de num erosos edifícios. Seus dez m il habitantes se concentravam num a lim itada superfície de form a alongada na m argem direita do rio, que se frechava em seu outro lim ite pela Cava, o antigo fosso que em épocas de guerra constituía a prim eira defesa da cidade e que se inundava com as águas do Guadalquivir para converter o arrabalde num a ilha. Para além da Cava se viam alguns esporádicos conventos, erm idas, casas e a extensa e fértil veiga trianeira.

Um desses conventos, na Cava Nueva, era o de Nossa Senhora de la Salud, de m onj as m ínim as, um a hum ilde congregação de religiosas dedicada à contem plação e à oração através do silêncio e da vida quaresm al. Atrás das Mínim as, para a rua de San Jacinto, no pequeno beco sem saída de San Miguel, apinhavam -se treze cortiços em que por sua vez se am ontoavam cerca de vinte e cinco fam ílias. Vinte e um a delas eram ciganas, com postas por avós, filhos, tias, prim os, sobrinhas, netos e um que outro bisneto; as vinte e um a se dedicavam à forj a. Existiam outras ferrarias no arrabalde de Triana, a m aioria em m ãos ciganas, as m esm as m ãos que j á na Índia ou nas m ontanhas da Arm ênia, séculos antes de em igrar para a Europa, haviam convertido seu ofício em arte. No entanto, San Miguel era o centro nevrálgico da ferraria e da caldeiraria trianeiras. Ao beco se abriam os antigos cortiços construídos durante a época de esplendor do arrabalde no século XVI: alguns não eram m ais que sim ples ruelas sem saída de m íseras casinhas alinhadas e defrontadas de um ou dois andares; outros eram edifícios, am iúde intrincados, de dois e três andares dispostos ao redor de um pátio central, cuj os andares superiores se abriam para ele através de corredores altos e grades de ferro forj ado ou de m adeira. Todos, quase sem exceção, ofereciam hum ildes habitações de um ou no m áxim o dois quartos, em um dos quais, quando não estava no próprio pátio ou ruela com o serviço com um a todos os vizinhos do cortiço, havia um pequeno nicho para cozinhar com carvão. As pias para lavar e as latrinas, se as havia, estavam colocadas no pátio, à disposição de todos eles.

À diferença dos outros cortiços sevilhanos ocupados durante o dia só pelas m ulheres e pelas crianças que brincavam nos pátios, os dos ferreiros trianeiros o estavam durante toda a j ornada de trabalho, pois tinham instaladas suas fráguas no térreo. O constante repicar do m artelo sobre a bigorna escapava de cada um a das ferrarias e se unia na rua num a estranha algaravia m etálica; a fum aça do carvão das fráguas, que am iúde saía pelo pátio dos cortiços ou pelas m esm as portas daquelas m odestas oficinas sem cham iné, era visível de qualquer ponto de Triana. E ao longo do beco, envoltos na algaravia e na fum aça, hom ens, m ulheres e crianças iam e vinham , brincavam , riam , conversavam , gritavam ou discutiam . Contudo e apesar do tum ulto, m uitos deles em udeciam e se detinham com os sentim entos à flor da pele às portas dessas fráguas. Às vezes se distinguiam um pai que retinha o filho pelos om bros, ou um velho de olhos entrefechados, ou várias m ulheres que reprim iam um passo de dança ao ouvir os sons do m artinete: um canto triste acom panhado apenas pelo m onótono bater do m artelo a cuj o ritm o se com passava; um canto próprio que lhes havia seguido em todos os tem pos e lugares. Então, por obra dos

“quej íos” dos ferreiros, o m artelar se convertia num a m aravilhosa sinfonia capaz de arrepiar os pelos.

Naquele 2 de fevereiro de 1748, festa da Purificação de Nossa Senhora, os ciganos não trabalhavam em suas ferrarias. Poucos deles iriam à igrej a de São Jacinto e da Virgem da Candelária para benzer as velas com que ilum inavam seu lar, m as, apesar disso, tam pouco queriam problem as com os piedosos vizinhos de Triana e m enos ainda com sacerdotes, frades e inquisidores; tratava-se de um dia de folga obrigatório.

– Guarda a m oça dos desej os dos pay os [ 1 ] – advertiu um a voz rouca.

As palavras, em caló, a língua cigana, ressoaram no pátio que dava para o beco. Mãe e filha detiveram seus passos. Nenhum a delas m ostrou surpresa, em bora não soubessem de onde vinha a voz. Percorreram o pátio com o olhar até que Milagros distinguiu na penum bra de um a esquina o reflexo prateado da abotoadura da j aquetinha curta azul-celeste de seu avô. Achava-se de pé, erguido e parado, com o cenho franzido e o olhar perdido, com o era habitual nele; havia falado sem deixar de m order um pequeno charuto apagado. A m oça, de quatorze esplendorosos anos, sorriu-lhe e girou com graça; sua longa saia azul e sua anágua, seus lenços verdes revolutearam no ar entre o tilintar de vários colares que lhe pendiam do pescoço.

– Em Triana todos sabem que sou sua neta. – Riu. Os dentes brancos contrastaram com a tez escura, igual à de sua m ãe, igual à de seu avô. – Quem se atreveria?

– A luxúria é cega e ousada, m enina. São m uitos os que arriscariam a vida para ter-te. Eu só poderia vingar-te, e não haveria sangue suficiente com que rem ediar essa dor. Lem bra-o sem pre

– acrescentou dirigindo-se à m ãe.

– Sim , pai – respondeu esta.

Am bas esperaram um a palavra de despedida, um gesto, um sinal, m as o cigano, hierático em sua esquina, não acrescentou nada m ais. Ao final, Ana tom ou a filha pelo braço e deixaram a casa. Era um a m anhã fria. O céu estava fechado e am eaçava chuva, o que não parecia ser im pedim ento para que as pessoas de Triana se dirigissem à igrej a de São Jacinto para celebrar a bênção das candeias. Tam bém eram m uitos os sevilhanos que queriam j untar-se à cerim ônia e, com seus círios às costas, cruzavam a ponte ou venciam o Guadalquivir a bordo de algum dos m ais de vinte barcos dedicados a levar gente de um a m argem à outra. A m ultidão prom etia um dia proveitoso, pensou Ana antes de recordar os tem ores de seu pai. Virou o rosto para Milagros e viu-a andar erguida, arrogante, atenta a tudo e a todos. “Com o corresponde a um a cigana de raça”, reconheceu então, sem poder evitar um esgar de satisfação. Com o não iam reparar em sua m enina? Seu abundante cabelo castanho lhe caía pelas costas até m isturar-se com as longas franj as verdes do lenço que levava sobre os om bros. Aqui e ali, entre o cabelo, um a fita colorida ou um a pérola; grandes brincos de prata pendiam de suas orelhas, e colares de contas ou de prata saltavam sobre seus peitos j ovens, presos no am plo e atrevido decote da cam isa branca. A saia azul cingia-se a sua delicada cintura e chegava quase até o chão, sobre o qual apareciam e desapareciam seus pés descalços. Um hom em a olhou de soslaio. Milagros percebeu-o no m esm o instante, felina, e virou o rosto para ele; as cinzeladas feições da m oça se suavizaram , e suas bastas sobrancelhas pareceram arquear-se num sorriso. “Com eçam os o dia”, disse-se a m ãe.

– Leio-te a sorte, rapagão?

O hom em , forte, fez m enção de seguir seu cam inho, m as Milagros lhe sorriu abertam ente e se aproxim ou dele, tanto que seus peitos quase o roçaram .

– Vej o um a m ulher que te desej a – acrescentou a cigana, olhando-o fixam ente nos olhos.

Ana chegou à altura de sua filha a tem po de ouvir suas últim as palavras. Um a m ulher… Que m ais podia desej ar um indivíduo com o aquele, grande e sadio, m as evidentem ente só, que levava nas m ãos um a pequena vela? O hom em hesitou alguns segundos antes de fixar-se na outra cigana que se havia aproxim ado dele: m ais velha, m as tão atraente e altiva com o a m oça.

– Não queres saber m ais? – Milagros recuperou a atenção do hom em ao m esm o tem po que se aprofundava nuns olhos em que j á havia percebido interesse. Tentou pegar sua m ão. – Tu tam bém desej as essa m ulher, não é verdade?

A cigana notou que sua presa com eçava a ceder. Mãe e filha, em silêncio, coincidiram : trabalho fácil, concluíram am bas. Um caráter acanhado, tím ido – o hom em havia tentado esconder seu olhar – enfiado num corpanzil. Certam ente havia algum a m ulher, sem pre havia. Só tinham de anim á-lo, insistir em que vencesse essa vergonha que o reprim ia.

Milagros esteve brilhante, convincente: percorreu com o dedo as linhas da palm a da m ão do hom em com o se efetivam ente lhe anunciassem o futuro daquele ingênuo. Sua m ãe a contem plava entre sentir-se orgulhosa e divertir-se. Obtiveram um par de quartos de cobre por seus conselhos. Depois Ana tentou vender-lhe algum charuto de contrabando.

– Pela m etade do preço das tabacarias de Sevilha – ofereceu-lhe. – Se não queres charutos, tam bém tenho pó de tabaco, da m elhor qualidade, lim po, sem terra. – Tentou convencê-lo abrindo a m antilha com que se cobria para m ostrar-lhe a m ercadoria que levava escondida, m as o hom em se lim itou a esboçar um sorriso bobo, com o se m entalm ente j á estivesse cortej ando aquela a que nunca se havia atrevido a dirigir a palavra.

Durante todo o dia, m ãe e filha se m overam entre a m ultidão que se deslocava do Altozano, pelos arredores do castelo da Inquisição e da igrej a de São Jacinto, ainda em construção sobre a antiga erm ida da Candelária, lendo a sorte e vendendo tabaco, sem pre atentas aos oficiais de j ustiça e às ciganas que furtavam os desprevenidos, m uitas delas pertencentes à sua própria fam ília. Ela e sua filha não necessitavam correr esses riscos e não desej avam ver-se envolvidas em algum a das m uitas altercações que se produziam quando flagravam algum a: o tabaco j á lhes proporcionava ganhos suficientes.

Por isso tentaram separar-se das pessoas quando Frei Joaquín, da Ordem dos Pregadores, iniciou seu serm ão a céu aberto diante do que com o tem po seria o portal da futura igrej a. Nesse m om ento, os piedosos sevilhanos apinhados na esplanada não estavam para sortes ou tabaco; m uitos deles haviam ido a Triana para escutar outra das controvertidas pregações daquele j ovem dom inicano, filho de um a época em que a sensatez tentava abrir cam inho entre as trevas da ignorância. Do im provisado púlpito, fora do tem plo, ia além das ideias de Frei Benito Jerónim o Feij oo; Frei Joaquín, em voz alta, em castelhano e sem utilizar latinadas, censurava os atávicos preconceitos dos espanhóis e excitava as pessoas defendendo a virtude do trabalho, m esm o m ecânico ou artesanal, contra o m al-entendido conceito de honra que im pelia os espanhóis à folgança e ociosidade; excitava o orgulho nas m ulheres opondo-se à educação conventual e defendendo seu novo papel na sociedade e na fam ília; afirm ava seu direito à educação e à sua legítim a aspiração a um desenvolvim ento intelectual em benefício da civilidade do reino. A m ulher j á não era um a serva do hom em e tam pouco podia ser considerada um hom em im perfeito. Não era m aligna por natureza! O m atrim ônio devia fundam entar-se na igualdade e no respeito. Em nosso século, sustentava Frei Joaquín citando grandes pensadores, a alm a havia deixado de ter sexo: não era varão nem fêm ea. As pessoas se apinhavam para escutá-lo, e era então, Ana e Milagros o sabiam , que as ciganas aproveitavam o enlevo das pessoas para furtar de suas bolsas.

Aproxim aram -se quanto puderam do lugar de que Frei Joaquín se dirigia à m ultidão.

Acom panhavam -no os pouco m ais de vinte frades pregadores que viviam no convento de São Jacinto. Muitos deles levantavam de quando em quando o rosto para o céu plúm beo que, por sorte, resistia a descarregar a água; a chuva teria feito m alograr a celebração.

– Eu sou a luz do m undo! – gritava Frei Joaquín para fazer-se ouvir. – Foi isso o que nos anunciou Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é nossa luz!, um a luz presente em todas estas velas que portais e que devem ilum inar…

Milagros não ouvia o serm ão. Fixou o olhar no frade, que pouco depois descobriu a m ãe e a filha perto dele. Os vestidos coloridos das ciganas destacavam -se entre a m ultidão. Frei Joaquín hesitou; durante um instante suas palavras perderam fluência e seus gestos deixaram de captar a atenção dos fiéis. Milagros notou que se esforçava para não a olhar, sem consegui-lo; ao contrário, em algum m om ento não pôde evitar deter os olhos nela por um segundo a m ais.

Num a dessas ocasiões, a m oça lhe piscou o olho, e Frei Joaquín gaguej ou; em outra, Milagros lhe m ostrou a língua.

– Menina! – ralhou com ela sua m ãe após dar-lhe um a cotovelada. Ana fez um gesto de desculpa ao frade.

O serm ão, com o desej ava a m ultidão, alongou-se. Frei Joaquín, livre do assédio de Milagros, conseguiu brilhar um a vez m ais. Quando acabou, os fiéis acenderam suas velas na fogueira que os frades haviam preparado. As pessoas se dispersaram , e as duas m ulheres voltaram a seus bicos.

– Que pretendias? – inquiriu a m ãe.

– Eu gosto… – respondeu Milagros, fazendo um gesto faceiro com as m ãos –, gosto que se engane, que gaguej e, que se ruborize.

– Por quê? É um padre.

A m oça pareceu pensar um instante.

– Não sei – respondeu enquanto dava de om bros e dedicava um a sim pática careta à sua m ãe.

– Frei Joaquín respeita teu avô e portanto te respeitará a ti, m as não brinques com os hom ens… ainda que sej am religiosos – term inou advertindo-a a m ãe.

Com o era de esperar, o dia foi frutífero e Ana term inou com o estoque de tabaco de contrabando que ocultava entre suas roupas. Os sevilhanos com eçaram a cruzar a ponte ou a pegar os barcos de regresso à cidade. Ainda poderiam ter lido m ais algum as sortes, m as a cada vez m ais escassa m ultidão revelou a grande quantidade de ciganas, algum as velhas acabadas, outras j ovens, m uitos m eninos e m eninas esfarrapados e sem inus, que estavam fazendo o m esm o.

Ana e Milagros reconheceram as m ulheres do Beco de San Miguel, parentes dos ferreiros, m as tam bém m uitas daquelas que viviam nas m iseráveis choças localizadas j unto ao Horto da Cartuxa, j á na veiga de Triana, e que, para obter um a esm ola, acossavam com insistência os cidadãos, se interpunham em seu cam inho e lhes agarravam a roupa enquanto clam avam aos gritos a um Deus em que não criam e invocavam um a enfiada de m ártires e santos que tinham decorado.

– Creio que está bom por hoj e, Milagros – anunciou sua m ãe depois de afastar-se da corrida de um casal que fugia de um grupo de pedintes.

Um garoto de rosto suj o e olhos negros que perseguia os sevilhanos foi chocar-se contra ela invocando ainda as virtudes de Santa Rufina.

– Tom a – disse-lhe Ana entregando-lhe um quarto de cobre.

Em preenderam o regresso a casa ao m esm o tem po que a m ãe do ciganinho tirava dele a m oeda. O beco fervilhava. Havia sido um bom dia para todos; as festas religiosas enterneciam as pessoas. Grupos de hom ens conversavam na porta das casas bebendo vinho, fum ando e j ogando cartas. Um a m ulher se aproxim ou de seu m arido para m ostrar-lhe seus ganhos, e entabulou-se entre eles um a discussão quando ele tentou ficar com os ganhos. Milagros se despediu da m ãe e se j untou a um grupo de m oças. Ana tinha de fazer as contas do tabaco com seu pai. Procurou-o entre os hom ens. Não o encontrou.

– Pai? – gritou após entrar no pátio da casa em que viviam .

– Não está.

Ana se virou e deparou com José, seu esposo, sob a porta.

– Onde está?

José deu de om bros e abriu um a das m ãos; na outra levava um a j arra de vinho. Seus olhos faiscavam .

– Desapareceu pouco depois de vós. Deve ter ido à ciganaria do Horto da Cartuxa para ver seus parentes, com o sem pre.

Ana m eneou a cabeça. Estaria efetivam ente na ciganaria? Algum as vezes havia ido procurá-lo ali e não o havia encontrado. Voltaria essa noite ou o faria ao fim de alguns dias, com o tantas outras vezes? E em que estado?

Suspirou.

– Sem pre volta – alfinetou então José com sarcasm o.

Sua esposa se ergueu, endureceu a expressão e franziu o cenho.

– Não te m etas com ele – bram iu, am eaçadora. – Já te avisei m uitas vezes.

O hom em se lim itou a fechar a cara e lhe deu as costas.

Costum ava, sim ; José tinha razão, m as o que fazia durante suas escapadas quando não ia à ciganaria? Nunca o contava, e, assim que ela insistia, ele se refugiava naquele insondável m undo seu. Que diferença com relação ao pai de sua infância! Ana o recordava orgulhoso, altivo, indestrutível, um a figura em que sem pre encontrava refúgio. Depois, então ela contaria uns dez anos, detiveram -no os “guardas do tabaco”, os oficiais de j ustiça que vigiavam o contrabando.

Eram só algum as libras de tabaco em folha, e era a prim eira vez que o flagravam ; deveria ter sido um a pena m enor, m as Melchor Vega era cigano e o haviam detido fora daquelas povoações em que o rei havia determ inado que deviam viver os de sua raça; vestia-se com o cigano, com roupas tão caras com o cham ativas, carregadas todas elas de m içangas de m etal ou prata; portava seu bordão, sua navalha, seus brincos nas orelhas, e, adem ais, várias testem unhas asseguraram que o haviam ouvido falar em caló. Tudo aquilo era proibido, m ais até que fraudar im postos à fazenda real. Dez anos de galés. Essa foi a condenação que se im pôs ao cigano.

Ana sentiu que se lhe com prim ia o estôm ago à lem brança do calvário que vivera com sua m ãe durante o j ulgam ento e, sobretudo, durante os quase quatro anos desde que se deu a prim eira sentença até que efetivam ente levaram seu pai ao Puerto de Santa María para em barcá-lo num a das galés reais. Sua m ãe não havia esm orecido no em penho um só dia, um a só hora, um só m inuto. Aquilo lhe custara a vida. Um edeceram -se-lhe os olhos, com o sem pre que revivia aqueles m om entos. Voltou a vê-la pedindo clem ência, hum ilhada, suplicando indulto a j uízes, funcionários e visitadores de cárceres. Im ploraram a intercessão de padres e frades, dezenas deles que lhes negavam até o cum prim ento. Em penharam o que não tinham … roubaram , burlaram e enganaram para pagar a escrivães e advogados. Deixaram de com er para poder levar um pão dorm ido à prisão em que seu pai esperava, com o tantos outros, que term inasse seu processo e lhe dessem destino. Havia quem , durante aquela terrível espera, am putasse a si m esm o um a m ão, até um braço, para não ir para as galés para enfrentar um a m orte lenta e certa, dolorosa e m iserável, destino da m aioria dos galeotes perm anentem ente acorrentados aos bancos das naus.

Mas Melchor Vega superou a tortura. Ana secou os olhos com a m anga da cam isa. Sim , havia sobrevivido. E um dia, quando j á ninguém o esperava, reapareceu em Triana, consum ido, esfarrapado, alquebrado, destroçado, arrastando os pés, m as com a altivez intacta. Nunca voltou a ser aquele pai que lhe rem exia o cabelo quando ela ia até ele após algum a altercação infantil.

Isso era o que fazia: rem exer-lhe o cabelo para depois olhá-la com ternura recordando-lhe em silêncio quem era ela, um a Vega, um a cigana! Era a única coisa que parecia im portar no m undo.

O m esm o orgulho de raça que Melchor havia tentado inculcar à sua neta Milagros. Pouco depois de seu regresso, quando a m enina tinha apenas alguns m eses de vida, seu pai esperava que Ana concebesse um varão. “Para quando o m enino?”, interessava-se sem pre. José, seu esposo, tam bém perguntava com insistência: “Já estás grávida?” Era com o se todo o Beco de San Miguel desej asse um varão. A m ãe de José, suas tias, suas prim as… até as m ulheres Vegas da ciganaria!

Todas a assediavam , m as não foi possível.

Ana virou o rosto para o lugar pelo qual José havia desaparecido depois de sua breve troca de palavras sobre Melchor. Ao contrário de seu pai, seu esposo não havia sido capaz de sobrepor-se ao que para ele constituía um fracasso, um escárnio, e o pouco carinho e respeito que haviam reinado num casam ento pactuado entre as duas fam ílias, os Vegas e os Carm onas, foram desaparecendo até serem substituídos por um rancor latente que se m ostrava na aspereza do trato que se dispensavam . Melchor verteu todo o seu carinho em Milagros e, um a vez resignado a não ter um varão, tam bém o fez José. Ana se converteu em testem unha do em bate dos dois hom ens, sem pre do lado de seu pai, a quem am ava e respeitava m ais que ao esposo.

Havia anoitecido, o que estaria fazendo Melchor?

O rasgado de um a guitarra a devolveu à realidade. A suas costas, no beco, ouviu o barulho do corre-corre das pessoas, do arrastar das cadeiras e dos bancos.

– Festa! – anunciou aos gritos a voz de um m enino.

Outra guitarra se j untou à prim eira procurando as notas. Logo se ouviu o repique oco de um as castanholas, e outras e outras, e até o de algum velho crótalo de m etal, preparando-se, sem ordem nem harm onia, com o se pretendessem despertar aqueles dedos que m ais tarde acom panhariam danças e canções. Mais guitarras. Um a m ulher lim pou a garanta; voz de velha, quebrada. Um a pandeireta. Ana pensou em seu pai e em quanto ele gostava dos bailes. “Sem pre volta”, tentou convencer-se então. Por acaso não era verdade? Ele tam bém era um Vega!

Quando saiu ao beco, os ciganos se haviam disposto em círculo ao redor de um fogo.

– Vam os lá! – anim ou um velho sentado num a cadeira diante da fogueira.

Todos os instrum entos se calaram . Um a só guitarra, nas m ãos de um j ovem de pele quase negra e coleta apertada, atacou os prim eiros com passos de um fandango.

O grum ete a quem havia convidado a fum ar a acom panhou. Atracaram num em barcadouro de Triana, passado o porto de cam aroneiros, para descarregar um as m ercadorias com destino ao arrabalde.

– Aqui desces tu, negra – ordenou-lhe o capitão da tartana.

O m enino sorriu para Caridad. Haviam fum ado um par de vezes m ais durante a travessia.

Devido ao efeito do tabaco, Caridad até havia chegado a responder com algum acanhado m onossílabo a todas as perguntas que lhe fizera o rapaz, rum ores que circulavam pelo porto sobre aquela terra distante. Cuba. Era verdadeira a riqueza de que se falava? Havia m uitos engenhos de açúcar? E escravos, eram tantos com o se dizia?

– Algum dia viaj arei num a dessas grandes em barcações – assegurava ele, deixando voar a im aginação. – E serei o capitão! Atravessarei o oceano e conhecerei Cuba.

Atracada a tartana, Caridad, tal com o havia sucedido em Cádiz, deteve-se e hesitou na estreitíssim a faixa de terreno que se abria entre a m argem do rio e a prim eira linha de edifícios de Triana, alguns deles com os alicerces à m ostra pela ação das águas do Guadalquivir, tal era sua proxim idade. Um dos carregadores lhe gritou que se afastasse para descarregar um grande saco. O grito cham ou a atenção do capitão, que m eneou a cabeça lá da borda. Seu olhar cruzou com o do grum ete, tam bém atento a Caridad; am bos conheciam seu destino.

– Tens cinco m inutos – concedeu a este.

O rapaz agradeceu a perm issão com um sorriso, saltou a terra e puxou Caridad.

– Corre. Segue-m e – urgiu-a. Estava consciente de que o capitão o deixaria em terra se não se apressasse.

Superaram a prim eira linha de edifícios e chegaram até a igrej a de Santa Ana; seguiram afastando-se do rio m ais duas quadras, o grum ete nervoso, puxando Caridad, esquivando-se das pessoas que os observavam estranhando, até se encontrarem diante da Cava.

– Essas são as Mínim as – indicou o rapaz apontando um a construção na m argem oposta da Cava.

Caridad olhou na direção que apontava o dedo do grum ete: um a construção baixa, caiada, com um a igrej a hum ilde; depois dirigiu o olhar para o antigo fosso defensivo que se interpunha em seu cam inho, afundado, repleto de lixo em m uitos pontos, precariam ente aplanado em outros.

– Tens alguns lugares para atravessar – acrescentou o rapaz im aginando o que passava pela cabeça de Caridad –, há um em São Jacinto, m as fica algo afastado. As pessoas atravessam por qualquer lugar, vês? – E apontou para algum as pessoas que desciam ou subiam pelos lados do fosso. – Tenho de voltar à em barcação – advertiu-a ao ver que Caridad não reagia. – Sorte, negra.

Caridad não disse nada.

– Sorte – repetiu antes de em preender a volta correndo m uito.

Um a vez sozinha, Caridad reparou no convento, o lugar indicado por don Dam ián.

Atravessou o fosso por um cam inhinho aberto entre os m ontes de lixo. Na veiga não havia lixo, m as em Havana, sim ; tinha tido oportunidade de vê-lo quando o senhor a havia levado à cidade para entregar as folhas de tabaco ao arm azém do porto. Com o podiam os brancos j ogar fora tantas coisas? Alcançou o convento e em purrou um a das portas. Fechada. Bateu. Esperou. Nada aconteceu. Voltou a bater, com tim idez, com o se não quisesse incom odar.

– Assim não, negra – disse-lhe um a m ulher que passava a seu lado e que, quase sem parar, puxou um a corrente que fez soar um a sineta.

Pouco depois se abriu um postigo gradeado num a das portas.

– A paz do Senhor estej a contigo – ouviu que dizia a porteira; pela voz, um a m ulher j á velha.

– Que é o que te traz à nossa casa?

Caridad tirou o chapéu de palha. Em bora não chegasse a ver a m onj a, baixou os olhos para o chão.

– Don Dam ián m e disse que viesse aqui – sussurrou.

– Não te entendo.

Caridad havia falado rápido, atropeladam ente, com o faziam os boçais cubanos ao dirigir-se aos brancos.

– Don Dam ián… – esforçou-se –, ele m e disse que viesse aqui.

– Quem é don Dam ián? – inquiriu a porteira depois de uns instantes de silêncio.

– Don Dam ián… o sacerdote da em barcação, d’ A Rainha.

– A rainha? Que dizes da rainha?! – exclam ou a m onj a.

– A Rainha, a em barcação de Cuba.

– Ah! Um a em barcação, não sua m aj estade. Pois… não sei. Don Dam ián, disseste? Espera um m om ento.

Quando o postigo voltou a abrir-se, a voz que surgiu dele era autoritária, firm e.

– Boa m ulher, o que te disse esse sacerdote que devias fazer aqui?

– Só m e disse que viesse.

A m onj a não voltou a falar senão depois de alguns segundos. E o fez com voz doce.

– Som os um a com unidade pobre. Dedicam o-nos à oração, à abstinência, à contem plação e à penitência, não à caridade. Que poderias fazer tu aqui?

Caridad não respondeu.

– De onde vens?

– De Cuba.

– És escrava? E teus senhores?

– Sou… sou livre. Além disso, sei rezar. – Don Dam ián a havia instado a que dissesse isso.

Caridad não chegou a ver o resignado sorriso da m onj a.

– Escuta – disse esta: – tens de ir à Confraria de Nossa Senhora dos Anj os, entendes?

Caridad perm aneceu em silêncio. “Para que don Dam ián m e fez vir aqui?”, perguntou-se.

– A Confraria dos Negritos – explicou a m onj a –, a tua. Eles te aj udarão… ou te aconselharão. Escuta: cam inha até a igrej a de Nossa Senhora dos Anj os, perto da Cruz do Cam po. Segue toda a Cava para o norte, para São Jacinto. Ali poderás atravessar a Cava, entra à direita e continua pela rua de Santo Dom ingo até chegar à ponte de barcos, cruza-a e depois…

Caridad deixou as Mínim as tentando reter na m ente o itinerário. “Dos Anj os.” Haviam -lhe dito que tinha de ir ali. “Dos Anj os.” Iriam aj udá-la. “Na Cruz do Cam po”, recitava em voz baixa.

Absorta em seus pensam entos, cam inhou alheia ao olhar das pessoas: um a negra voluptuosa, vestida com farrapos cinzentos e segurando um a pequena trouxa, e que não cessava de m urm urar. No Altozano, assom brada diante do m onum ental castelo de São Jorge no início da ponte, chocou-se com um a m ulher. Tentou desculpar-se, m as as palavras não surgiram ; a m ulher a insultou, e Caridad fixou os olhos em Sevilha, na outra m argem . Dezenas de carros e cavalgaduras cruzavam a ponte em um sentido ou no outro; a m adeira rangia sobre os barcos.

– Aonde pensas que vais, negra?

Sobressaltou-se diante do hom em que lhe im pedia a passagem .

– À igrej a dos Anj os – respondeu ela.

– Felicito-te – disse ele com sarcasm o. – Ali estão os negrinhos. Mas, para chegar aos teus, prim eiro terás de pagar-m e.

Caridad se surpreendeu olhando o cobrador de pedágio diretam ente nos olhos. Aturdida, corrigiu sua atitude, descobriu-se e baixou o olhar.

– Não… não tenho dinheiro – balbuciou.

– Nesse caso não há negrinhos. Vai-te daqui. Tenho m uito trabalho. – Fez m enção de dirigir-se a cobrar o pedágio a um m uleiro que esperava atrás de Caridad, m as, ao ver que esta continuava ali parada, virou-se de novo para ela. – Fora ou cham o os aguazis!

Depois de deixar a ponte é que, sim , se sentiu observada. Não tinha dinheiro para cruzar para Sevilha. Assim , o que podia fazer? O hom em da ponte não lhe havia dito com o conseguir dinheiro. A seus vinte e cinco anos, Caridad j am ais havia ganhado um a sim ples m oeda. O

m áxim o que havia chegado a conseguir, além da com ida, da roupa e do barracão para dorm ir, era a fuma, o tabaco que o senhor lhes dava para seu consum o pessoal. Com o podia ganhar dinheiro? Não sabia fazer nada que não fosse cuidar de tabaco…

Afastou-se das pessoas, retirou-se para o rio e sentou-se em sua m argem . Era livre, sim , m as de pouco lhe servia essa liberdade se nem sequer podia atravessar um a ponte. Sem pre lhe haviam dito o que tinha de fazer. Sem pre havia sabido o que tinha de fazer desde que o sol nascia até que se punha, dia após dia, ano após ano. Que ia fazer agora?

Foram m uitos os trianeiros que à sua passagem pela ribeira contem plaram a figura de um a negra sentada na m argem , im óvel, com o olhar perdido… no rio, em Sevilha ou talvez em suas recordações ou no incerto futuro que se lhe abria pela frente. Algum deles voltou a passar ao fim de um a hora, outros ao fim de duas, até de três ou quatro, e a m ulher negra continuava ali.

Ao anoitecer, Caridad sentiu fom e e sede. A últim a vez que havia com ido e bebido havia sido com o grum ete, que com partilhou com ela um pão duro e m ofado e um pouco de água. Decidiu fum ar para disfarçar sua penúria, com o faziam todos os escravos na veiga quando o cansaço ou a fom e os assaltavam . Talvez por isso o senhor fosse generoso com a fuma: quanto m ais fum avam , m enos com ida tinha de proporcionar-lhes. O tabaco substituía m uitos bens e até se trocava por novos escravos. O cheiro do charuto atraiu dois hom ens que andavam pela m argem . Disseram -lhe que queriam fum ar. Caridad obedeceu e lhes entregou seu charuto. Fum aram . Conversaram entre si passando o charuto de um para outro, am bos de pé. Caridad, ainda sentada, pediu-o para si estendendo o braço.

– Queres ter algo na boca, negra? – disse rindo um dos hom ens.

O outro soltou um a gargalhada e puxou o cabelo de Caridad para levantar-lhe a cabeça ao m esm o tem po que o prim eiro arriava os calções.

Caridad não opôs resistência e prestou-se à felação.

– Parece que ela gosta – disse, nervoso, aquele que a agarrava pelo cabelo. – Gosta, negra? –

perguntou-lhe enquanto pressionava a cabeça contra o pênis de seu com panheiro.

Depois a m ontaram um após o outro e a deixaram ali estirada.

Caridad recom pôs o vestido. Onde estaria o resto do charuto? Havia visto que um deles o atirava antes de a agarrarem pelo cabelo. Talvez não houvesse chegado à água. Arrastou-se entre a relva e os j uncos, apalpando o chão, atenta para o caso de o resto ainda estar aceso… E o estava! Pegou-o e, de bruços, tocando a água, aspirou com todas as suas forças.

Sentou-se de novo e perm itiu que seus pés se m olhassem na m argem . Fazia frio, m as nesse m om ento não o notava; não sentia nada. Devia gostar? Isso lhe havia perguntado um deles.

Quantas vezes lhe haviam perguntado o m esm o? O senhor j á o havia feito quando era som ente um a boçal, um a m enina recém -arrancada de sua terra. Então nem sequer chegou a entender o que lhe perguntava aquele hom em que a m anuseou e babou antes de rasgá-la. Depois, depois de m uitas vezes, após sua gravidez, substituiu-a por um a nova m enina, e então foram o capataz e os dem ais escravos da negrada os que lhe perguntavam entre arquej os. Um dia voltou a parir… a Marcelo. A dor que sentiu nessa ocasião, quando se lhe fendeu o ventre depois de horas de parto, indicou-lhe que nunca m ais teria outro filho. “Gosta?”, perguntavam -lhe aos dom ingos, no baile, quando algum escravo a pegava pelo braço e a levava para fora do barracão, ali onde outros casais fornicavam tam bém . Depois voltavam a cantar e a dançar desenfreadam ente, à espera de que algum de seus deuses os possuísse. Às vezes repetiam e voltavam a deixar o barracão. Não, não gostava, m as tam pouco sentia nada; haviam -lhe ido roubando os sentim entos, pedaço a pedaço, desde a prim eira noite em que o senhor a forçara.

Não haveria transcorrido um a hora quando um daqueles hom ens voltou e interrom peu seus pensam entos.

– Queres trabalhar em m inha oficina? – perguntou-lhe ilum inando-a com um a candeia. – Sou oleiro.

“Que é um oleiro?”, perguntou-se Caridad tentando vislum brá-lo na escuridão. Ela só queria…

– Tu m e darás dinheiro para atravessar a ponte? – inquiriu.

O hom em percebeu a dúvida em seu rosto.

– Vem com igo – ordenou-lhe.

Isso, sim , ela entendeu: um a ordem , com o quando algum negro a segurava pelo braço e a levava para fora do barracão. Seguiu-o em direção à Cava Viej a. Na altura do castelo da Inquisição, sem virar-se, o oleiro a interrogou:

– Fugiste?

– Sou livre.

Às luzes do castelo, Caridad viu que o hom em assentia com a cabeça.

Tratava-se de um a pequena oficina, com habitação no andar superior, na rua de los Alfareros.

Entraram , e o hom em lhe indicou um colchão de palha num canto da oficina, j unto à lenha e o forno. Caridad se sentou nele.

– Am anhã com eçarás. Dorm e.

O calor dos rescaldos do forno em balou um a Caridad transida pela um idade do Guadalquivir, e ela dorm iu.

Desde a época m uçulm ana, Triana era conhecida por suas m anufaturas de barro cozido, sobretudo pelos azulej os vidrados de cavidade ou relevo, nos quais os m estres expertos afundavam um a corda no barro fresco e conseguiam desenhos m agníficos. No entanto, fazia algum tem po que aquela cerâm ica artesanal havia degenerado em peças repetitivas sem encanto, ao que se som aram a concorrência da louça de pederneira inglesa e a m udança de gosto das pessoas, que se inclinou para a porcelana oriental. No arrabalde, portanto, o ofício decaía.

No dia seguinte, ao am anhecer, Caridad com eçou a trabalhar j unto ao hom em da noite, um j ovenzinho que devia ser seu filho e um aprendiz que não lhe tirava o olho de cim a. Carregou lenha, transportou argila, varreu m il vezes e ocupou-se das cinzas do forno. Assim com eçaram a passar os dias. O oleiro – Caridad nunca viu sair um a m ulher do andar de cim a – visitava-a durante as noites.

“Tenho de atravessar a ponte para ir à igrej a dos Anj os, onde estão os negrinhos”, teria querido dizer-lhe num a delas, quando o hom em , depois de havê-la possuído, se preparava para ir-se. Em vez disso, lim itou-se a balbuciar:

– E m eu dinheiro?

– Dinheiro! Queres dinheiro? Com es m ais do que trabalhas e tens um lugar onde dorm ir –

respondeu-lhe o oleiro. – Que m ais poderia desej ar um a negra com o tu? Preferes ficar na rua pedindo esm ola com o a m aioria dos negros livres?

Naqueles dias, a escravidão j á quase havia desaparecido de Sevilha: a crise dem ográfica e econôm ica, a guerra de 1640 com Portugal, o grande provedor de escravos do m ercado sevilhano, a peste bubônica de que a cidade padeceu alguns anos depois, que se encarniçou nos negros escravos, j unto com as constantes e num erosas m anum issões que os piedosos sevilhanos vinham ordenando em seus testam entos, tiveram com o consequência um a significativa dim inuição da escravidão. Sevilha perdeu seus escravos ao ritm o da perda de seu poder econôm ico.

“Com es m ais do que trabalhas”, ressoava nos ouvidos de Caridad. A cantilena do capataz do senhor José na veiga lhe veio então à lem brança: “Não trabalhais o que com eis”, recrim inava-os antes de soltar o látego nas costas de algum deles. Pouco havia m udado sua vida, de que lhe servia ser livre?

Um a noite, o oleiro não desceu. Na seguinte tam pouco. Na terceira, sim , o fez, m as em lugar de ir para ela dirigiu-se à porta da oficina. Abriu-a e deu passagem a outro hom em , depois lhe indicou onde se encontrava Caridad. O oleiro esperou j unto à porta que o outro satisfizesse seus desej os, recebeu dele, e depois o despediu.

A partir daquela noite, Caridad deixou de trabalhar na oficina. O hom em a encerrou num quartucho do térreo, sem ventilação, e colocou um colchão e um urinol j unto a alguns trastes inservíveis.

– Se criares problem as, se gritares ou tentares escapar, eu te m atarei – am eaçou-a o oleiro na prim eira vez que lhe levou de com er. – Ninguém sentirá tua falta.

“É verdade”, lam entou-se Caridad enquanto escutava o hom em pôr a chave na porta: quem ia sentir falta dela? Sentou-se no colchão com a tigela de refogado de verduras nas m ãos. Nunca antes a haviam am eaçado de m orte; os senhores não m atavam seus escravos, valiam m uito dinheiro. Um escravo servia para toda a vida. Um a vez adestrados, com o havia sido Caridad em m enina, os negros alcançavam a velhice em suas veigas tabaqueiras, em seus trapiches ou em seus engenhos de açúcar. A lei proibia vender um escravo por m aior quantia do que havia custado, razão por que nenhum senhor, depois de haver-lhe ensinado um ofício, se desfazia dele; perderia dinheiro. Podiam m altratá-los ou forçá-los até a extenuação, m as o bom capataz era aquele que sabia onde se encontrava o lim ite da m orte. Eram os escravos que tiravam a vida; no am anhecer m enos pensado, a luz ia descobrindo a silhueta do corpo inerte de um negro pendurado num a árvore… ou talvez de vários deles que haviam decidido acom panhar-se na fuga definitiva. Então o senhor se encolerizava, com o quando algum a m ãe m atava seu recém -nascido para livrá-lo da escravidão ou com o quando um negro se m utilava para não trabalhar. No dom ingo seguinte, na m issa, o sacerdote do trapiche lhes gritava que aquilo era pecado, que iriam para o inferno, com o se pudesse existir um inferno pior que aquele. Morrer? “Talvez, sim ”, disse-se Caridad,

“talvez tenha chegado a hora de fugir deste m undo onde ninguém m e espera.” Nessa m esm a noite foram dois os hom ens que desfrutaram dela. Depois o oleiro voltou a fechar a porta, e Caridad ficou na m ais absoluta escuridão. Não pensou. Cantarolou durante o que restava da noite e, quando os prim eiros raios de luz se infiltraram entre as frestas das m adeiras do quartucho, rebuscou entre os trastes até encontrar um a velha corda. “Pode servir”, concluiu após puxá-la para verificar seu estado. Am arrou-a ao pescoço e subiu num a caixa desconj untada. Lançou a corda por cim a de um a viga de m adeira, sobre sua cabeça, esticou-a e deu um nó na outra extrem idade. Em algum as ocasiões havia invej ado aquelas figuras negras que pendiam das árvores rom pendo a paisagem da veiga cubana, livres j á de sofrim ento.

– Deus é o m aior dos reis – clam ou. – Só desej o não m e converter num a alm a penada.

Saltou do caixote. A corda aguentou seu peso, m as não a viga de m adeira, que se quebrou e lhe caiu em cim a. O estrondo foi tal que o oleiro não tardou a apresentar-se no cárcere de Caridad. Acorrentou-a, e, a partir desse dia, Caridad deixou de com er e de beber, suplicando a m orte até quando o oleiro e seu filho a alim entavam à força.

As visitas de hom ens da rua se repetiram , geralm ente um , às vezes m ais, até que, num a ocasião, um velho que tentava m ontá-la com inabilidade se levantou e se afastou dela com agilidade assom brosa.

– Esta negra está ardendo! – gritou. – Está com febre. Pretendes que m e contagie algum a doença estranha!

O oleiro se aproxim ou de Caridad e pôs a m ão em sua testa suarenta.

– Vai-te – ordenou-lhe incitando-a com o pé nas costelas enquanto pelej ava por abrir e recuperar as correntes com que a m antinha presa –, agora m esm o, j á! – gritou após consegui-lo.

Sem esperar que se levantasse, pegou a trouxa de Caridad e a lançou à rua.

Era possível que houvesse ouvido um a canção? Não era m ais que um m urm úrio que se confundia com os barulhos da noite. Melchor apurou o ouvido. Ali estava outra vez!

– Yemayá asesú…

O cigano ficou parado na escuridão, no m eio da veiga de Triana, rodeado de hortos e vergéis.

O rum or das águas do Guadalquivir lhe chegava com nitidez, com o o silvar do vento entre a vegetação, m as…

– Asesú Yemayá.

Parecia um diálogo: um sussurro que o solista entoava para depois responder-se a si m esm o a m odo de coro. Virou-se na direção de que vinha a voz; alguns dos avelórios que pendiam de sua j aqueta tintilaram . A escuridão era quase absoluta, rom pida apenas pelas tochas do convento da Cartuxa, algo além de onde se encontrava.

– Yemayá oloddo.

Melchor se afastou do cam inho e se internou num laranj al. Pisou pedras e folhagens, tropeçou diversas vezes e até m aldisse a todos os santos aos gritos, e, no entanto, apesar de na noite haver ressoado com o um trovão, o triste cantarolar não cessou. Parou entre várias árvores.

Era ali, ali m esm o.

– Oloddo Yemayá. Oloddo…

Melchor entrefechou os olhos. Um a das pertinazes nuvens que haviam coberto Sevilha durante todo o dia perm itiu a passagem de um tênue vislum bre de lua. Então entreviu um a m ancha cinzenta no chão, diante dele, a apenas dois passos. Avançou e se acocorou até reconhecer um a m ulher tão negra com o a noite vestida com roupas cinza. Estava sentada com as costas contra a laranj eira, com o se buscasse refúgio na árvore. Tinha o olhar perdido, alheio à sua presença, e continuou cantarolando, em voz baixa, m onotonam ente, repetindo vezes seguidas o m esm o estribilho. Melchor verificou que, apesar do frio, tinha o rosto perolado de suor. Tiritava.

Sentou-se a seu lado. Não entendia o que dizia, m as aquela voz cansada, aquele tim bre, a m onotonia, a resignação que im pregnava sua voz deixavam transparecer um a dor im ensa.

Melchor fechou os olhos, rodeou os j oelhos com os braços e deixou-se transportar pela canção.

– Água.

O pedido de Caridad rom peu o silêncio da noite. Fazia um tem po que j á não se ouvia seu cantarolar; havia-se ido apagando com o um a brasa. Melchor abriu os olhos. A tristeza e a m elancolia da canção haviam conseguido trasladá-lo, um a vez m ais, ao banco da galé. Água.

Quantas vezes havia tido de pedir água ele m esm o? Acreditou sentir que os m úsculos de suas pernas, de seus braços e de suas costas se tensionavam com o quando o com itre aum entava o ritm o da voga em perseguição de algum a nau sarracena. O torturante apito do com itre aguilhoava seus sentidos enquanto arrancavam a chicotadas a pele de suas costas nuas para que rem asse com m ais e m ais força. O castigo podia durar horas. Ao final, com os m úsculos de todo o corpo a ponto de rebentar e com as bocas ressecadas, das fileiras de bancos só surgia um a súplica: água!

– Sei o que é a sede – m urm urou para si.

– Água – im plorou de novo Caridad.

– Vem com igo. – Melchor se levantou com dificuldade, entorpecido após quase um a hora sentado ao pé da laranj eira.

O cigano se esticou e tentou orientar-se para encontrar o cam inho da Cartuxa. Dirigia-se aos hortos do m osteiro, onde viviam m uitos dos ciganos de Triana, quando o cantarolar havia cham ado sua atenção.

– Vens ou não? – perguntou a Caridad.

Ela tentou levantar-se agarrando-se ao tronco da laranj eira. Estava com febre. Estava com fom e e frio. Mas sobretudo estava com sede, m uita sede. Conseguiu erguer-se quando Melchor j á se havia posto em m archa. Dar-lhe-ia água se o seguisse ou a enganaria com o haviam feito tantos outros ao longo dos dias que estava em Triana? Cam inhou atrás dele. A cabeça lhe dava voltas. Quase todos o haviam feito; quase todos se haviam aproveitado dela.

Um a série de luzes provenientes de um as choças am ontoadas no cam inho ilum inou a j aqueta de seda azul-celeste do cigano. Caridad fez um esforço por seguir seu passo. Melchor não se preocupava com ela. Andava lentam ente m as erguido, altivo, apoiando-se sem necessidade no bordão de duas pontas próprio do chefe de um a fam ília; às vezes se lhe ouvia falar à noite. A m ulher arrastava os pés descalços atrás dele. À m edida que se aproxim avam da ciganaria, a quinquilharia que adornava as vestiduras de Melchor e o debrum de prata de suas m eias refulgiram . Caridad percebeu um bom presságio naqueles brilhos: aquele hom em não a havia tocado. Iria lhe proporcionar sua água.

1 Pay o: para os ciganos, pessoa não cigana. O m esm o que “gadj ô”. [N. do T.]