A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 43 de 51

Páginas do PDF

A Rainha Descalça

Cápitulo 43

No ano de 1754 se m ultiplicaram os m em oriais e os pedidos de indulto dirigidos às autoridades por parte dos ciganos detidos. Nunca haviam deixado de chegar súplicas. Nos povoados continuavam a tram itar os processos secretos, por m ais que o m arquês de la Ensenada houvesse determ inado anos antes que eles j á não eram pertinentes, e os conselhos exigiam os ciganos residentes em seus lim ites, com posta a m aioria deles de ferreiros de profissão, trabalho esse a que não se dedicavam os cristãos-velhos por considerá-lo vil.

Haviam transcorrido m ais de quatro anos desde a grande batida, e esse era o tem po de cárcere a que eram condenados os vagabundos. À falta de indicação do prazo de reclusão, os ciganos pretenderam equiparar-se a esses últim os. Não haviam com etido nenhum delito, afirm avam em suas súplicas, e j á estavam havia anos em trabalhos forçados.

O responsável pelo arsenal de Cartagena chegou até a apoiar a liberdade dos ciganos, e propôs que, se não fossem atendidos seus pedidos, se lhes assinalasse então um prazo de condenação.

Os rogos dos ciganos não produziram efeito. De fato, as autoridades ordenaram aos responsáveis pelos arsenais que deixassem de dar curso a suas instâncias, com o se se tratasse de um sim ples incôm odo. Deram -se, sim , alguns indultos particulares, pedidos com insistência e afinco por m ulheres que não cessavam em seu em penho por libertar seus parentes, m as tais decisões arbitrárias não conseguiam m ais que enfurecer a grande m aioria que continuava presa.

Enquanto isso, as condições de vida de hom ens e m ulheres pioravam . O arsenal de Cádiz, bem com o os de Cartagena e de El Ferrol, para onde havia sido transferida parte dos presos do prim eiro após um a penosa travessia m arítim a que acabou com a vida de m uitos deles, seguia carecendo de instalações para acolhê-los, e aqueles hom ens separados de suas fam ílias, estropiados, m ais m altratados que os escravos, desesperados diante de um a condenação por toda a vida, continuavam rebelando-se, am otinando-se e até fugindo. Poucas dessas evasões chegaram a bom term o, m as nem por isso os ciganos deixaram de tentá-lo, ainda carregados de correntes.

As m ulheres, encarceradas na Misericórdia de Saragoça e no depósito de Valência, sofriam , com o se tal fosse possível, ainda m ais. Elas não eram produtivas; ninguém havia conseguido fazê-las trabalhar, e o dinheiro do rei para m antê-las não chegava. Fom e e m iséria. Doenças.

Tentativas de fuga, algum as consum adas. Desobediência e insubm issão perm anentes. Se os hom ens eram acorrentados, as m ulheres eram m antidas quase nuas, a m aioria coberta com sim ples farrapos a ponto de quase não se encontrarem sacerdotes dispostos a pregar diante daquele rebanho de alm as perdidas. As autoridades afirm avam que, assim que lhes proporcionavam roupas, elas fugiam .

Fam ílias dispersas e casais separados por centenas de léguas de distância. As m eninas continuaram j unto de suas m ães, se as tinham , e o acaso as havia levado pelos m esm os cam inhos; as crianças sofreram as m aiores inj ustiças. Na grande batida, os m aiores de sete anos acom panharam seus pais, tios e irm ãos m ais velhos aos arsenais, m as os que inicialm ente estivessem no grupo das m ulheres cresceram em cativeiro. Já no depósito de Málaga, antes de serem transferidas para a Misericórdia de Saragoça, as ciganas tentaram esconder os rapazinhos que j á estavam em idade apta para o trabalho. Com o haviam requerido seus papéis, as autoridades dos depósitos não podiam saber sua idade exata, que suas m ães dim inuíam aproveitando seu parco desenvolvim ento, fruto da m á alim entação. Contudo, antes de sua partida, vinte e cinco garotos com m ais de onze anos foram separados à força de suas m ães para ser conduzidos aos arsenais. O m esm o sucedeu em Valência, onde se am ontoavam quase quinhentas m ulheres. Ali foram quarenta os rapazinhos separados violentam ente de suas m ães e fam iliares. Alguns chegaram a encontrar-se com seus pais e irm ãos, outros descobriram que os haviam levado para um arsenal diferente, ou que seus fam iliares haviam sido transferidos para outro – com o sucedeu com os de Cádiz, que foram levados para El Ferrol –, ou sim plesm ente que j á haviam falecido.

Os rapazinhos detidos na Real Casa da Misericórdia de Saragoça não constituíram exceção.

Naquele ano de 1754, cerca de um a trintena, Salvador entre eles, foi enviada aos arsenais; o cam po em que haviam dorm ido ao relento foi aproveitado para a plantação de trigo, de acordo com as instruções dadas pela condessa de Aranda ao saber da decisão.

Cerca de quinhentas ciganas presenciaram a partida dos garotos em m eio às fortes m edidas de segurança adotadas pelo regedor, que pediu reforços e dispôs os soldados entre uns e outras. As baionetas caladas, as arm as prestes a abrir fogo contra os j ovens. A atitude dos m ilitares am edrontou as esfarrapadas m ulheres, que, de m ãos dadas, chorando, buscavam apoio um as nas outras enquanto contem plavam em silêncio o lento cam inhar de um a fila de rapazinhos que pugnavam por m anter a inteireza. Todas se sentiam m ães ou irm ãs. Quase cinco anos de sofrim entos, de fom e e de m isérias; seus esforços, sua resistência, a luta de todas elas parecia desvanecer-se com a m archa de alguns rapazinhos cuj a única ofensa era haver nascido ciganos.

Ana Vega, na prim eira fila, com os olhos rasos de lágrim as cravados em Salvador, sentiu-o tal com o m uitas outras: aqueles j ovens haviam sim bolizado o futuro e a sobrevivência de sua raça, de seu povo; a única esperança que lhes restava nessa prisão sem sentido.

Um queixum e rom pido, longo e profundo se ergueu dentre a variegada m assa de m ulheres.

Houve as que trem eram , encolhidas. “Deblica barea!”, ouviu Ana Vega gritar ao pôr fim à prim eira copla.

Os rapazes firm aram o passo e ergueram a cabeça diante do louvor à sua m agnífica deusa; alguns deles levaram as m ãos aos olhos, rápida, furtivam ente, enquanto tom avam a porta da Misericórdia. A debla acom panhou seus passos e continuou a lacerar a alm a das ciganas, j á livres do acossam ento dos soldados, m as paradas, até m uito depois que as som bras de seus filhos se perdessem na distância.

Melchor com preendeu que de nada lhe adiantariam ali as am eaças com que havia conseguido que o vendedor de vinho das cercanias da praça de touros revelasse com o obtinha os cigarros que cham avam “da negra”. O hom em se opusera, m as a ponta da navalha de Melchor em seu rim o fizera m udar de opinião. Os cigarros eram distribuídos através dos trapeiros de Madri, que percorriam as ruas da Vila e Corte recolhendo trapos, papéis e todos os tipos de restos e refugos com que com erciavam . Desde havia m uito tem po, adem ais, os trapeiros tam bém tinham que recolher os m uitos anim ais que m orriam no interior da cidade e transportar os cadáveres até um m uladar nos arredores, para além da ponte de Toledo, onde os esfolavam para aproveitar o couro das cavalgaduras.

Melchor observou o lugar à noite: confundidos entre a fum aça das fogueiras em que ardiam os ossos e dem ais restos dos anim ais, cerca de um a centena de trapeiros dava conta dos cavalos m ortos nesse dia na praça de touros: uns os esfolavam , outros se esforçavam por m anter a distância os bandos de cães que pretendiam ficar com os despoj os. Ele havia perguntado a um deles, um suj eito coberto de sangue que tinha nas m ãos um grande faca de esfolar.

– Cigarros? Que cigarros? – respondeu-lhe grosseiram ente, sem sequer deter-se. – Aqui ninguém sabe disso. Não procures problem as, cigano.

Eram hom ens e m ulheres duros, curtidos na m iséria, que não hesitariam em enfrentá-los.

Melchor hesitou em oferecer-lhes dinheiro pela inform ação. Eles pura e sim plesm ente o roubariam , depois os esquartej ariam ali m esm o e os lançariam ao fogo… Talvez nem sequer se dessem a esse trabalho. Viu o trapeiro a que havia perguntado falar com outros e apontar para eles. Um grupo foi a seu encontro.

– Vai-te em bora, Martín – sussurrou ao m esm o tem po que lhe batia no flanco.

– Tio, estou há anos ouvindo-o suspirar nas noites por essa m ulher…

– Vós dois! – gritou então um dos trapeiros.

– Eu não perderia isso por nada deste m undo – term inou de dizer o j ovem .

– Eles têm tanto m edo de que os denunciem os com o de perder o negócio – conseguiu advertir Melchor antes de os cinco trapeiros, suj os e esfarrapados, cobertos de sangue, se plantarem a um passo deles, todos providos de facas e ferram entas.

– Por que esse interesse pelos cigarros? – inquiriu um enrugado e careca, m iúdo entre os dem ais.

– Meu interesse não é pelos cigarros, m as pela negra que os faz.

– Que tens tu com a negra? – interveio outro.

Melchor esboçou um sorriso.

– Eu a am o – confessou abertam ente.

Um dos trapeiros teve um sobressalto; outro pôs a cabeça de lado e fechou os olhos para perscrutá-lo na escuridão. Até Martín se virou para ele. A sinceridade com que Melchor proclam ou seu am or pareceu atenuar a tensão. Ouviu-se um riso, m ais alegre que cínico.

– Um cigano caduco e um a negra?

Melchor apertou os lábios e anuiu antes de responder:

– Vós a conheceis?

Eles negaram .

– Se a ouvísseis cantar, certam ente o entenderíeis.

A conversa cham ou a atenção de outros trapeiros; hom ens e m ulheres se aproxim aram do grupo.

– O cigano diz que am a a negra dos cigarros – explicou um deles aos dem ais.

– E ela… – foi um a m ulher quem fez a pergunta brevem ente suspensa –, ela corresponde? Ela te am a?

– Creio que sim . Sim – afirm ou rotundam ente depois de pensar por um instante.

– Acabem os com eles! – propôs o careca m iúdo. – Não podem os fiar-nos…

Dois hom ens avançaram resolutos na direção dos ciganos, com as grandes facas adiante, enquanto outros os cercavam .

– Gonzalo, vós! – um a m ulher, a cuj a perna se agarrava um a m enina nua, interrom peu o ataque –, não acabeis com a única coisa bonita que aconteceu dentro des… – abarcou com um m ovim ento da m ão o m uladar pestilento, a fum aça erguendo-se das fogueiras na noite, todo ele sem eado de cadáveres e despoj os –, desta im undície.

– O cigano ficará com o negócio – queixou-se um dos hom ens.

Melchor decidiu calar-se diante da am eaça das facas daqueles dois hom ens; sabia que sua sorte e a de Martín dependiam da sensibilidade de um grupo de m ulheres que provavelm ente fazia m uito tem po que nem sequer escutavam a palavra am or. “Negra”, pensou então, tenso,

“outra confusão em que estou m etido por tua causa. Devo m esm o am ar-te!” Percebeu o nervosism o em Martín; poderiam repelir os dois que tinham pela frente, m as os dem ais se abalançariam a eles sem piedade. Cheirava j á a m orte quando um a terceira m ulher interveio.

– E o que ele faria? Vender cigarros por toda a cidade, por cada canto dela? Isso só podem os fazer nós.

– Algum dia nos descobrirão e nos arrependerem os – opinou com desânim o a m ulher com a m enina, ao m esm o tem po que acariciava o rosto suj o da pequena. – Já se fala dem ais dos cigarros da negra. Da próxim a vez talvez venha a ronda em lugar do cigano; vedes com o é fácil ficar sabendo disso a que nos dedicam os. As penas são duras com relação ao tabaco, vós sabeis.

Perderem os esposos e filhos. Eu quase preferiria que o cigano ficasse com o negócio.

– Não pretendo ficar com nada – interveio então Melchor. – Só quero encontrá-la.

Na cintilação do fogo das fogueiras nos rostos dos hom ens, Melchor os viu consultar-se com o olhar.

– Tem razão – ouviu da boca de um deles, atrás. – Outro dia, um mesonero da rua Toledo m e advertiu de que os aguazis da ronda andavam fazendo perguntas sobre os cigarros. Não tardarão a encontrar alguém que nos delate. Para que vam os m atar estes dois se am anhã igualm ente j á não terem os nada?

Am anhecia quando eles chegaram a Torrej ón de Ardoz. Servando, um dos m endigos que atuava com o interm ediário e que nessa m esm a noite foi fazer um as contas que iam vultosas devido à tourada, obstinou-se em defender o segredo que tão bons ganhos lhe trazia.

– Cigano – saltou um a das m ulheres, farta de discussões que atrasavam o trabalho com as cavalgaduras m ortas –, encontra tu sozinho a m aneira de levar-te até tua am ada.

Servando retrocedeu um par de passos assim que os trapeiros voltaram a seus afazeres e ficou a sós com Melchor e Martín.

– Com o a negra se cham a?

Isso foi a única coisa de que falaram com o m endigo j á a cam inho a Torrej ón. Melchor necessitava ouvi-lo, confirm ar seus pressentim entos.

– Queres encontrá-la e não sabes com o se cham a?

– Responde.

– Caridad.

Quando Servando lhes assinalou a pequena casa de adobe que confinava com os trigais, Melchor se arrependeu de não haver arrancado m ais inform ação do m endigo. Havia transcorrido m uito tem po. Continuaria sozinha? Poderia… poderia ter encontrado outro hom em . O tropel de fantásticas expectativas que haviam anim ado seus passos ao ouvir o nom e de Caridad cam baleou agora à vista daquela casinha que parecia refulgir à luz dos prim eiros raios de sol prim averis.

Am á-lo-ia? Talvez lhe guardasse rancor por havê-la abandonado na pousada secreta… Os três se achavam parados a certa distância da casa. Servando instou-lhes que prosseguissem , m as Martín o deteve com um autoritário gesto de m ão. Com o haveria sido sua vida durante esses anos?, perguntava-se Melchor, incapaz de controlar sua ansiedade. Que cam inhos a haviam levado até ali? Que…?

A porta da casinha se abriu, e Caridad apareceu nela, com a atenção fixa nos cam pos, saudando o dia.

– Canta, negra.

A voz lhe surgiu rouca, em bargada, fraca, inaudível!

Transcorreu um segundo, dois… Caridad virou lentam ente o rosto para onde estavam eles…

– Canta – repetiu Melchor.

– Parado – ordenou Martín a Servando num m urm úrio quando este fez m enção de seguir o cigano, que cam inhava erguido para um a Caridad em cuj o rosto negro e redondo j á apontavam , brilhantes, as lágrim as.

Melchor tam bém chorava. Lutou por não desatar a correr, por não gritar, por não uivar ao céu ou ao inferno; nada fez, no entanto, por conter o choro. Deteve seus passos ali onde poderia tocá-la com um sim ples estender de braço. Não se atreveu.

Parados um diante do outro, olharam -se. Ele m ostrou a palm a de um a m ão trigueira com os dedos estendidos. Ela esboçou um sorriso que logo voltou a confundir-se com os trem ores do pranto. Ele franziu os lábios. Caridad ergueu o olhar ao céu, por um só instante, depois tentou sorrir de novo, m as as lágrim as a im pediram de fazê-lo e ela devolveu a Melchor a visão de um rosto retesado pela voragem de sentim entos que rebentavam em seu interior. Ele, contudo, acreditou reconhecê-los: alegria, esperança, am or… e se aproxim ou.

– Cigano – balbuciou ela então.

Fundiram -se num abraço e calaram as m il palavras que se am ontoavam em suas gargantas com outros tantos beij os.