A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 19 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 19

Não tinham com ida. As duas m oedas que lhes dera Santiago lhes duraram outros tantos dias.

Tam pouco podiam recorrer aos dem ais ciganos: todos estavam com o elas; poucos dispunham de dinheiro, e havia m uitas bocas que alim entar em suas próprias fam ílias. As negociações com os ferreiros sevilhanos se estendiam , e as fráguas do beco continuavam trabalhando com pequenos foles portáteis de pele de carneiro. As autoridades, no entanto, haviam decidido proporcionar carvão aos ciganos, e estes trabalhavam o ferro m artelando-o sobre sim ples pedras que term inavam partindo-se. Tam bém estavam am edrontados: a am eaça de serem detidos e voltarem para Málaga ou para La Carraca dissuadia hom ens e m ulheres de furtos

– ainda que houvesse quem ainda se arriscava – e do restante de seus astuciosos procedim entos para obter recursos. Ciganas e crianças se lim itavam a j untar-se ao exército de m endigos que povoavam as ruas de Sevilha à espera de um a m ísera m oeda das que a Igrej a distribuía. Mas para conseguir um a delas – salvo na estreita rua de los Pobres, na qual os m onges cartuxos conseguiam que entrassem nela em fila única para deixá-la pelo outro lado com sua esm ola –, havia que pelej ar não só com os verdadeiram ente desesperançados, m as com um a m ultidão de artesãos, pedreiros e lavradores que preferiam viver da caridade da generosa cidade a suar com seu trabalho. Sevilha era um fervedouro de pessoas voluntariam ente desocupadas. Mesm o o procedim ento até então m ais seguro, roubar pó de tabaco, havia fracassado.

Na velha fábrica de tabaco de San Pedro, em frente à igrej a de m esm o nom e, trabalhavam m ais de m il pessoas em turnos diurnos e noturnos. Era a m aior indústria m anufatureira sevilhana e um a das m ais im portantes de todo o reino: contava com estrebaria para duzentos cavalos destinados ao funcionam ento dos m oinhos, cárcere próprio, capela e todos os espaços necessários para a elaboração do tabaco: recepção e arm azenam ento dos atados de tabaco em ram o,

“desm anoj ado”, estendido nos terraços, nova arm azenagem um a vez seco, trituração nos m oinhos, passagem pelas peneiras, lavagem , nova secagem e um a últim a trituração com m oinhos de pedra m uito fina. No entanto, desde o século XVII, a fábrica viera crescendo desordenadam ente com a dem anda cada vez m aior de tabaco, a qual em cinquenta anos havia chegado a m ultiplicar-se por seis quanto ao consum o de pó e por quinze quanto ao de charutos, de m odo que a fábrica se havia convertido num verdadeiro bairro no interior da cidade, com posto por um a com plexa rede de corredores e ruelas estreitas e espaços pouco úteis, razão por que se havia iniciado a construção de um a nova fábrica extram uros, j unto à porta de Jerez, capaz de atender ao increm ento da dem anda de charutos, m as as obras, iniciadas fazia vinte anos, não haviam conseguido ainda superar a base. Enquanto isso, a fábrica de San Pedro tinha de continuar trabalhando e, sobretudo, controlando os roubos e as fraudes. Seus procedim entos de segurança eram rotineiros m as eficazes: na saída do trabalho, em fila, um a um , todos os operários eram m inuciosam ente exam inados pelos porteiros em busca de tabaco. Além disso, o superintendente designava um ou m ais operários que escolhiam alguns dos que j á haviam sido exam inados, para um segundo controle. Se encontrassem tabaco com um trabalhador, o porteiro que não o havia achado na prim eira revista era despedido e substituído por quem o houvesse feito, e o em prego de porteiro, com um a boa rem uneração, era am bicionado por todos os trabalhadores.

Sobre os ciganos recém -liberados recaía a m aioria das segundas revistas. E quis a necessidade de obter dinheiro para alim entar a fam ília que um deles não tivesse tom ado todas as precauções necessárias ao confeccionar o envoltório de tripa de porco que, a transbordar de pó de tabaco, ele havia introduzido no ânus. “Tira a roupa. Vem . Senta-te. Agora de pé. Os sapatos, tam bém os sapatos. Abaixa-te para que eu te vej a o cabelo. Abaixa m ais. Ou m elhor, aj oelha-te.” E o com prim ido em butido de tabaco em pó, m ovim ento vai m ovim ento vem , term inou por rasgar-se. O cigano uivou de dor, dobrou-se ao m eio com as m ãos agarradas ao estôm ago, e o vigilante se viu surpreendido por um a caganeira de pó de tabaco que deslizou pelas coxas nuas do ladrão.

Tem po depois, o cigano foi condenado à m orte, com o desde então sucedeu com todos os que roubaram tabaco com o m étodo do em butido.

A notícia do cigano e do em butido chegou aos ouvidos de Milagros no m esm o dia em que ela havia resolvido ir solicitar o favor da condessa de Fuenteviej a. A cam inho do palácio, recordou-se do avô, que j á havia prognosticado que m ais cedo ou m ais tarde aquilo sucederia. Onde estaria? Estaria vivo ao m enos? Surpreendeu-se a si m esm a sorrindo à recordação de suas cautelas com respeito ao tabaco que saía do cu dos ciganos. Desde sua chegada a Triana não havia tido oportunidade de sorrir; tudo eram m ás notícias, tudo eram problem as. Am iúde, desde que haviam trocado olhares durante o conselho de anciãos, tinha expectativas com respeito a Pedro García. Para vê-lo, espiava a furtadelas o beco da j anela de sua casa e até havia conseguido um j eito de cruzar com ele, m as o j ovem não parecia reparar em sua presença. No entanto, tam pouco sorria quando se im aginava passeando ou conversando com ele; só… só sentia um perturbador e inquietante vazio no ventre que desaparecia assim que María a despertava de seu devaneio com algum a de suas queixas.

Quanto a suas am igas, m uitas haviam regressado da prisão m alaguenha, todas suj as e sem enfeites, com suas roupas em farrapos e a tristeza instalada na alm a. Nenhum a ria. Não havia lugar para festas no beco nem para reuniões ou correrias de am igas; o único obj etivo que as m ovia j unto a suas m ães, irm ãs, tias e prim as era conseguir algum as m oedas.

A condessa não a recebeu. A velha María esperou na rua. Haviam decidido que Caridad não as acom panhasse, e Milagros teve problem as para entrar no palácio pela entrada dos criados.

– A filha de Ana Vega? Quem é Ana Vega? – perguntou-lhe um a desconhecida criada após olhá-la com displicência de alto a baixo.

Depois de m uito insistir, alguém teve a generosidade de reconhecer a cigana que lhes lia a sorte e lhe perm itiram entrar por um corredor que dava para as cozinhas. A condessa se estava arrum ando, disseram -lhe. Esperar? Levaria horas fazendo-o, nem sequer havia chegado o cabeleireiro!

Ali a deixaram , e Milagros se viu obrigada a afastar-se para perm itir o constante desfile de criados e provedores do conde que entravam e saíam . Seu estôm ago grunhia diante das cestas repletas de carnes, verduras ou legum es, frutas e doces que passavam a seu lado; pensou que elas poderiam com er todo um ano com aqueles m anj ares. Ao final, alguém deve ter-se queixado daquela suj a ciganinha descalça que estorvava a passagem , m as então outro deve ter-se lem brado dela e falou com um terceiro, que por sua vez o fez com algum m ordom o para que, finalm ente, com sem blante fechado, com o se fosse a um pequeno incôm odo que ele devia despachar com rapidez, aparecesse o secretário do conde. Foi um a conversa rápida e term inante, no m esm o corredor, ainda que ninguém tenha ousado então passar por ali. “Suas Excelências j á intercederam pelos ciganos”, afirm ou o secretário após ouvir um a nervosa Milagros que pugnava por m anter a firm eza em seu tom de voz. Por quem ? Não o sabia, teria de exam inar a correspondência e não estava disposto a fazê-lo, m as haviam sido vários, ele m esm o havia preparado as cartas, com entou com indiferença. “Mais dois? Seus pais? Por quê? Am igas da condessa?”, repetiu incrédulo.

– Am igas… não – retificou Milagros diante do ricto de desprezo com o que o hom em vestido de preto dos pés à cabeça recebeu tal afirm ação –, m as estiveram em seus salões privados, lendo a sorte a ela e à condessi… à Excelência de sua filha e às Excelências de suas am igas, e dançavam para os condes e seus convidados em Triana, e eles as prem iaram com dinheiro…

– E se de tantos privilégios desfrutaram da parte de Suas Excelências – disse o secretário interrom pendo o atropelado discurso da m oça – por que teus pais não foram libertados j unto com os dem ais ciganos?

Milagros hesitou, o hom em percebeu sua indecisão. Ela se m anteve em silêncio, e o hom em de preto voltou a insistir. “Que im porta?”, pensou a m oça.

– Não são casados pela Igrej a – soltou.

O secretário m eneou a cabeça sem esconder um esgar de satisfação por poder exim ir seus senhores das súplicas de outra detestável pedinchona.

– Moça, um a coisa é interceder por ciganos que cum prem as leis do reino, isso… isso não é m ais que um a diversão para Suas Excelências. – Hum ilhou-a fazendo revolutear a m ão com afetação. – Mas j am ais aj udarão os que infringem os preceitos de nossa santa m adre Igrej a.

Quando a velha María a viu deixar o palácio inflam ada de ira, revoltando-se entre a ânsia de chorar e explodir em insultos aos condes, m eneou a cabeça.

– Que esperavas, m enina? – resm ungou antes de chegar até ela.

Haviam pensado que aquela fosse sua últim a oportunidade. Dias antes, Inocencio, o patriarca dos Carm onas, havia resfolegado quando María e Milagros foram até ele em busca de aj uda.

– Aprecio teu pai – reconheceu diante da m oça –, é um bom hom em , m as restam m uitos detidos, e entre eles vários m em bros de nossa fam ília. Estam os lutando por sua liberdade, m as cada vez é m ais com plicado. As autoridades não fazem m ais que pôr travas. Parece… é com o se não quisessem perm itir m ais excarcerações. Apesar das recom endações que fizem os no conselho de anciãos, são m uitos os ciganos de toda a Espanha que estão reclam ando seus bens, e isso preocupa o rei, que não está disposto a pagar. É com o se sua consciência se houvesse tranquilizado o suficiente com os prim eiros libertados. Entende-m e – disse-lhe então adotando um a postura fria –, tem os pouco dinheiro para com prar vontades, e com o chefe da fam ília tenho de voltar-m e para os que têm verdadeiras possibilidades de sair. Teu pai é o que m enos tem . –

Acom panhou essas últim as palavras com um olhar ainda m ais frio para María, sugerindo que se carecia de possibilidades o era por haver-se casado com um a Vega que se havia negado a fazê-lo pela Igrej a.

Mas Inocencio Carm ona tam bém as convenceu de que não fosse ela quem suplicasse por sua liberdade quando Milagros, depois de insistir diante do patriarca sem resultado algum , j urou que se apresentaria diante do assistente de Sevilha, do arcebispo ou do próprio rei se fosse necessário.

– Não o faças, m oça – aconselhou-a com sincera preocupação. – Não tens docum entos. Não constas com o detida na batida de j ulho, tam pouco com o presa em Málaga nem com o libertada.

Para eles és um a cigana fugitiva. A nova pragm ática real te obriga a apresentar-te às autoridades no prazo de trinta dias. E, dadas as circunstâncias de teus pais… não seria estranho que te encarcerassem . És batizada?

Milagros não respondeu. Não o era. Refletiu por alguns instantes.

– Pelo m enos estaria com m inha m ãe – sussurrou por fim .

Nem María nem Inocencio duvidaram da veracidade do sacrifício em que a m oça pensava.

– Tam pouco – decepcionou-a Inocencio. – Faz tem po que para Málaga j á não enviam nenhum a m ulher. Após as prim eiras expedições, as dem ais foram encarceradas aqui m esm o, em Sevilha. Encarcerar-te-iam longe dela. Milagros: em Triana, entre as dem ais ciganas, passas despercebida, és m ais um a, e pensarão que das libertadas, m as se com eteres algum erro, se te pegarem pelos cam inhos, vão deter-te e nem sequer conseguirás que te levem para j unto de tua m ãe.

Os Carm onas, sua fam ília, não as defendiam . Os condes tam pouco. Frei Joaquín havia desaparecido, e elas estavam de pés e m ãos atados. Se estivesse ali o avô… que faria o avô?

Certam ente ele libertaria sua filha, ainda que tivesse de incendiar Málaga inteira para consegui-lo.

Enquanto isso elas passavam fom e.

Regressavam Milagros e a velha María do palácio dos condes de Fuenteviej a. Cruzaram a Cava Nueva por San Jacinto e a m argearam em silêncio para dirigir-se ao beco de San Miguel.

María foi a prim eira a vê-la: negra com o o azeviche ao sol de fins de outono, com seu chapéu de palha enfiado até as sobrancelhas e as faldas do cam isão cinzento arregaçadas, rem exendo no lixo acum ulado no fosso que um dia servira de defesa do arrabalde. A velha parou, e Milagros seguiu seu olhar no m om ento em que um m endigo arrebatava das m ãos de Caridad algo que ela acabava de encontrar. Ela nem sequer fez m enção de brigar por seu tesouro; hum ilhou a cabeça, subm issa.

Então Milagros perm itiu que as lágrim as que ela não havia chorado à saída de palácio acorressem em tropel a seus olhos.

– Negra!… – A velha María tentou cham ar Caridad, m as em bargou-se-lhe a voz. Milagros se voltou para ela surpresa, os olhos alagados. A outra tentou tirar im portância ao fato com um gesto de m ão, pigarreou um par de vezes e gritou de novo, desta vez com voz firm e: – Negra, sai daí, para que não te confundam com um a m ula negra e te com am !

Ao ouvir a voz da curandeira, Caridad, no buraco, ergueu a cabeça e as olhou por baixo da aba do chapéu. Afundada no lixo até as panturrilhas, sorriu com tristeza.

Venderam o pouco que tinham , fitas coloridas, pulseiras, colares e brincos, por um a m iséria, m as essa não era a solução, e Milagros o sabia. Se ao m enos houvessem disposto do colar de pérolas e do m edalhão de ouro com que as havia presenteado Melchor… Mas aquelas j oias haviam ficado na ciganaria, à disposição da rapina dos soldados. Certam ente não foram obj eto de inventário e term inaram na bolsa de algum deles. À m edida que passavam os dias, na casa vazia de m óveis e utensílios, com a m anta, o surrado cobertor de Caridad e o tecido da barraca estendidos para dorm ir, Caridad olhava de soslaio, com pungida, a trouxa que descansava num canto. Em seu interior estavam o vestido verm elho e o ím ã que lhe dera Melchor, a única coisa que ela havia possuído na vida e que ela resistia a vender.

A fom e seguia atorm entando-as. O valor da últim a venda: um colar de contas e um a pulseirinha de prata de Milagros, não fora destinado a com ida, m as a um a nova saia, escura e rem endada, para a m oça. Só o velho cam isão de escrava de Caridad parecia resistir à passagem do tem po; as roupas das ciganas se esfiapavam e rasgavam . María decidiu que a m enina não podia sair m ostrando as coxas através de um a saia e de um a anágua esfarrapadas, nem aqueles peitos que j á pareciam querer rebentar um a cam isola que poucos m eses antes podia parecer folgada. O torso ela podia tapá-lo com o longo lenço franj ado da velha, m as as pernas, onde os ciganos se encontravam com o desej o, não. Necessitava de um a saia m esm o com o risco da fom e.

Pelo m enos, tentava consolar-se a velha, não lhes cobravam aluguel. Nunca ninguém havia pretendido ganhar nada por aquelas casas de cortiço do beco de San Miguel. E isso não se devia à raça de seus habitantes: sim plesm ente não se sabia de quem eram realm ente. Um a situação que se repetia em toda Sevilha, onde o desleixo dos proprietários, em sua m aioria instituições de toda espécie – desde obras pias até colégios –, havia levado com o tem po ao esquecim ento de sua verdadeira titularidade.

No entanto, com o passar dos dias faltou pão. Milagros não sabia pedir esm ola, e María não o haveria perm itido. Caridad tam pouco sabia, m as o haveria feito se lhe houvessem pedido em lugar de continuar indo à Cava para rem exer no lixo. Por seu lado, a curandeira, que só era cham ada em casos de extrem a gravidade para exercer seu ofício, via-se incapaz de exigir um pagam ento que ela sabia não podiam fazer os ciganos.

Ao final, a velha se viu obrigada a aceitar a proposta que Milagros havia feito fazia j á algum tem po recordando as m oedas que de vez em quando obtinha com a fam ília dos Fernández.

– Cantarás – anunciou-lhe um a m anhã, após am anhecer e ver que não tinham nada que desj ej uar.

Milagros anuiu com um par de alegres palm adas no ar, com o se j á estivesse preparando-se para isso. Fazia tem po que não cantava, pois no beco j á não soavam as guitarras: ninguém tinha um a. Caridad resfolegou tranquilizada: pensava em sua trouxa, que continuava j ogada num canto. Era a últim a coisa que restava por vender, e seus esforços por conseguir restos de com ida na Cava se m ostravam de todo infrutíferos.

No entanto, nem um a nem a outra im aginavam a angústia que havia im plicado para a velha tom ar essa decisão: as noites sevilhanas eram extrem am ente perigosas, e m ais ainda para um a m oça com o Milagros e um a exuberante m ulher negra com o Caridad, que não buscavam senão exacerbar o desej o dos hom ens para que abrissem suas bolsas e soltassem um as m oedas. Quando a m oça havia cantado nos cam inhos, com os Fernández, longe de alcaides e oficiais de j ustiça, estavam protegidas por ciganos dispostos a esfaquear a quem ultrapassasse os lim ites, m as em Sevilha… Além disso, os ciganos estavam proibidos de dançar.

– Esperai-m e aqui – disse às outras duas. – E tu – acrescentou apontando para Caridad com o indicador atrofiado – deixa de ir ao lixo ou de fato te com erão.

Instintivam ente, Caridad levou a m ão ao braço e ocultou a dentada que lhe dera um m endigo quando decidira defender um pequeno osso com algo que parecia carne aderida a ele. Sua oposição, no entanto, ficou num ingênuo giro de quadril para dar-lhe as costas. O m endigo a m ordeu, Caridad soltou seu achado, e o outro term inou tendo sucesso.

A pousada se erguia num pequeno bairro extram uros diante da porta do Arenal, entre a Resolana, o rio Guadalquivir e o Baratillo, onde se estava construindo a praça de touros de Sevilha. A porta do Arenal, um a das treze que se abriam nas m uralhas da cidade, era a única que perm anecia aberta de noite. Após ela ficava a antiga m ancebia, onde, apesar da proibição, se continuava a exercer o ofício. Era um bairro hum ilde, de gente do porto, agricultores de passagem e todo tipo de rufiães, cuj os edifícios, bolorentos, m ostravam os danos ocasionados pelas reiteradas inundações que provocavam as enchentes do rio, contra as qual carecia de defesas. Não gostava de fazê-lo, m as María havia tido de pedir favores; deviam -lhe m uitos.

Bienvenido, o dono da pousada, tão velho, seco e encolhido com o ela, torceu a cara ao ouvir o pedido da velha ao m esm o tem po que sua esposa, um a m ulheraça com quem se havia casado em terceiras ou quartas núpcias – a curandeira j á havia perdido a conta –, deslizava silenciosa em direção à cozinha.

– Que lhe dás? – inquiriu a velha apontando para a m ulher num a vã tentativa de agradar a Bienvenido, que não fez o m enor caso à baj ulação.

– Sabes o que m e estás pedindo? – replicou em vez disso.

María respirou o ar viciado do lugar. Ainda de m anhã, m arinheiros desocupados e pessoas do porto bebiam entre prostitutas cansadas que tentavam estender a j ornada da noite anterior, talvez não tão proveitosa quanto haveriam querido.

– Bienvenido – respondeu por fim a cigana –, sei o que posso pedir-te.

O dono da pousada evitou o olhar de María; devia-lhe a vida.

– Um a cigana j ovem – m urm urou então –, e um a negra! Haverá brigas. Tu o sabes. Suponho que, com o sem pre, virão acom panhadas de ciganos. E m e…

– Naturalm ente que virem os com hom ens – interrom peu-o María pensando em quem poderiam ser –, e necessitarem os pelo m enos de um a guitarra e…

– María, por Deus!

– E por todos os santos! – calou-o ela. – Por esses m esm os santos a que te encom endavas quando tinhas febres. Por acaso vieram em tua aj uda?

– Eu te paguei.

– É verdade, m as j á te disse então: não era suficiente. Havias gastado tudo o que tinhas em m édicos, cirurgiães, m issas, preces e quem sabe que m ais tolices, lem bras-te? E tu consentiste. E

m e disseste que podia contar contigo.

– Agora eu te posso pagar…

– Não m e interessa teu dinheiro. Cum pre tua palavra.

O dono da pousada m eneou a cabeça antes de passear o olhar pelos clientes para evitar o de María. Que valia a palavra?, por acaso algum daqueles a cum pria?, parecia perguntar-lhe por sua vez.

– Som os velhos, Bienvenido – arguiu María. – Talvez am anhã esbarrem os um com o outro no inferno. – A velha deixou transcorrer alguns segundos em que buscou os olhos biliosos do dono da pousada. – É m elhor que haj am os saldado nossas dívidas aqui em cim a, não crês?

E ali, na pousada de Bienvenido, se encontravam as três, duas noites depois de María lhe haver referido o inferno: a velha apalpando no bolso de seu avental a navalha de cortar plantas, não havia deixado de fazê-lo desde que cruzaram a ponte de barcos e se internaram na noite sevilhana; Milagros com sua saia verde de cigana (María havia conseguido que lhe em prestassem um a anágua); e Caridad ataviada com o traj e verm elho que apertava seus grandes peitos e perm itia que se visse um a excitante linha negra na barriga, ali onde a cam isa não alcançava a saia. Acom panhavam -nas dois ciganos, Ferm ín e Roque, um Carm ona e o outro da fam ília Cam acho, que a velha havia conseguido convencer com argum entos sim ilares aos que utilizara com Bienvenido. Am bos sabiam tocar guitarra; am bos eram fortes e m al-encarados, e am bos iam arm ados com navalhas que María tam bém havia arrancado ao dono da pousada. Ainda assim , a velha não estava tranquila.

Sua desconfiança cresceu ao ver o espetáculo que as golpeou assim que entraram na pousada: m arinheiros, artesãos, trapaceiros, frades e j anotas se esprem iam nas pequenas m esas de m adeira tosca. Jogavam cartas ou dados; conversavam ; riam a gargalhadas com o se se desafiassem a fazê-

lo com cada vez m ais estrépito de um a m esa a outra; discutiam aos gritos ou sim plesm ente perm aneciam absortos com o olhar perdido em algum ponto indefinido. Com iam , fum avam ou faziam am bas as coisas ao m esm o tem po; negociavam trato carnal com as m ulheres que iam e vinham exibindo seus encantos, ou punham a m ão nas nádegas das filhas de Bienvenido que serviam as m esas, m as todos, sem exceção, bebiam .

Um calafrio percorreu a coluna da curandeira ao aperceber-se, entre o denso m anto de fum aça que flutuava no ar, dos trem ores que haviam assaltado a Milagros. A m oça, assustada, retrocedeu um passo para o um bral que acabavam de transpor. Chocou-se com Caridad, atônita.

“É um a loucura!”, resolveu de im ediato María. A velha se preparava para dizer a Milagros que, se não quisesse, não tinha por que… m as o estouro de gritos e gargalhadas provenientes das m esas próxim as a elas a im pediu de fazê-lo.

– Vem aqui, belezura!

– Quanto pedes por um a noite?

– A negra! Eu quero foder com a negra!

– Chupa-m e, m oça!

Ferm ín e Roque se adiantaram até ladear a Milagros e conseguiram calar parte dos gritos. Os dois hom ens acariciavam am eaçadores a em punhadura da navalha enfiada em suas faixas e furavam com o olhar a quem quer que se dirigisse à cigana. Protegidas, Milagros conseguiu recuperar a postura, e a velha, a respiração. Os dois ciganos, crescidos diante do perigo, desprezando a possibilidade de que lhes caíssem em cim a, com o se não os j ulgassem capazes de fazê-lo, desafiavam aqueles hom ens. María desviou a atenção da m oça e a centrou de novo no estabelecim ento até localizar Bienvenido j unto à cozinha, para além da porta de entrada, atento a uns gritos que não reconhecia com o habituais. O dono da pousada, encostado à parede, m eneou a cabeça. “Eu te adverti”, acreditou ler a velha em seus lábios. María não se m exeu, tinha os lábios firm em ente apertados. Depois, Bienvenido estendeu a m ão e as convidou a aproxim ar-se.

– Vam os – disse a curandeira sem virar-se.

– Vam os, m enina – ouviu da boca de um dos ciganos. – Não te preocupes, ninguém te tocará um fio de cabelo.

A firm eza daquelas palavras tranquilizou a velha. Em fila, saltando cadeiras, tonéis, bêbados e prostitutas, os cinco se dirigiram para o lugar onde Bienvenido havia levantado um a m esa para abrir-lhes algum espaço: María à frente, Milagros entre os dois ciganos e, fechando a m archa, com o se carecesse de qualquer im portância, Caridad. Tentaram acom odar-se no pequeno vão aberto por Bienvenido; apoiadas contra um a das paredes, a suas costas havia duas velhas guitarras.

– É isto o que há – adiantou-se o dono da pousada às queixas da velha.

Depois os deixou sozinhos, com o se o que pudesse acontecer doravante não fosse com ele.

Ferm ín pegou um a das guitarras. Roque fez m enção de im itá-lo, m as o prim eiro m eneou a cabeça.

– Um a será suficiente – disse-lhe. – Tu vigia, m as prim eiro traz-m e um a cadeira.

Roque se virou e, sem dizer palavra, ergueu pelo pescoço a um j ovem j anota vestido à francesa que conversava com outros dois iguais a ele. O afrancesado ia queixar-se, m as fechou a boca assim que viu o rosto contraído do cigano e sua m ão na navalha. Alguém soltou um a risada.

– Assim terás a bunda à m ostra, seu invertido! – alfinetou um dos da m esa ao lado.

Roque entregou a cadeira a seu com panheiro, que apoiou um pé nela e testou a guitarra sobre a coxa, buscando afiná-la e assenhorear-se dela. Ninguém na pousada parecia ter o m enor interesse em escutar m úsica. Só os desavergonhados olhares libidinosos para Milagros e Caridad e um que outro grosseiro davam sinal da presença dos ciganos na pousada, porque enquanto isso o alvoroço continuava em toda a sua intensidade. Quando Ferm ín lhe fez um gesto, a guitarra j á trastej ada, María reuniu forças para arrostar a Milagros. Havia evitado fazê-lo até então.

– Preparada?

A m oça anuiu, m as toda ela traía sua afirm ação: trem iam -lhe as m ãos, ela respirava com agitação e até sua tez escura se via pálida.

– Estás certa?

Milagros apertou com força as m ãos.

– Respira fundo – aconselhou-a a velha.

– Vam os lá, beleza – alentou-a Ferm ín ao m esm o tem po que com eçava com a guitarra. – Por seguidilhas.

A guitarra não soava! Não se ouvia entre o vozerio. María com eçou a bater palm as com as m ãos tensas e com um m ovim ento de queixo indicou a Caridad que fizesse o m esm o.

Milagros não se decidia. Em nada se parecia o local de Bienvenido com as hospedarias em que, protegida pelos Fernández, havia cantado diante de quatro paroquianos. Pigarreou repetidas vezes. Hesitava. Tinha de avançar até o dim inuto círculo que se abria diante dela e cantar, m as perm anecia im óvel ao lado de María. Ferm ín repetiu a entrada, e teve de fazê-lo um a vez m ais.

O titubeio conseguiu cham ar a atenção do público m ais próxim o. Milagros notou seus olhares sobre ela e sentiu-se ridícula diante de seus sorrisos.

– Vam os, m enina – voltou a anim á-la Ferm ín –, ou a guitarra se cansará.

– Nunca esqueças que és um a Vega – ouviu da boca de María, que a estim ulou com a m ensagem de sua m ãe.

Milagros avançou e com eçou a cantar. A velha fechou os olhos com desespero: a voz da m oça trem ia. Não conseguia. Ninguém podia ouvi-la. Carecia de ritm o… de alegria!

Os que antes haviam sorrido golpearam o ar a tapas. Alguém assobiou. Outros vaiaram .

– Assim é que ofegas quando te fodem , ciganinha?

Um coro de risadas acom panhou a exclam ação. As lágrim as se acum ularam nos olhos de Milagros. Ferm ín interrogou María com o olhar, e a velha anuiu com os dentes trincados. Tinha de com eçar! Podia fazê-lo! Mas quando voaram restos de legum es em direção à m oça, o cigano fez m enção de deixar de rasgar a guitarra. María observou as pessoas: bêbadas, excitadas.

– Dança, negra! – ordenou então.

Caridad parecia hipnotizada com o am biente e continuou a bater palm as com o um autôm ato.

– Dança, diacho de negra! – gritou a velha.

O aparecim ento de Caridad no círculo, com seus grandes peitos m ostrando-se apertados sob a cam isa verm elha, arrancou um coro de aplausos, vivas e todo tipo de gritos soezes. “Dança, diacho de negra!”, ressoava em seus ouvidos. Virou-se para Milagros: as lágrim as corriam por suas faces.

– Dança, Cachita – rogou-lhe esta antes de retirar-se e deixar-lhe livre o espaço.

Caridad fechou os olhos e o escândalo com eçou a infiltrar-se nela com o podiam fazê-lo os uivos dos escravos nos dom ingos de festa nos barracões, quando se alcançava o zênite e alguém era m ontado por um orixá. O som da guitarra cresceu a suas costas, m as ela encontrou seu ritm o naqueles gritos desconexos, no bater das pessoas nas m esas, na lascívia que flutuava no m eio da fum aça e que quase podia tocar-se. E com eçou a dançar com o se pretendesse que Oxum , a deusa do am or, sua deusa, acudisse a ela: m ostrando-se com desvergonha, golpeando o ar com seu púbis e suas cadeiras, volteando tronco e cabeça. Roque teve de aplicar-se a fundo. Em purrava a quantos se adiantavam para m anuseá-la, beij á-la ou abraçá-la, até que não lhe restou outra saída além de em punhar e m ostrar sua navalha a fim de evitar que se abalançassem a ela. No entanto, quanto m ais frenéticas estavam as pessoas, m ais Caridad dançava.

O público recebeu o fim da prim eira dança em pé: aplaudia, assobiava e exigia m ais vinho e aguardente. Caridad se viu obrigada a repetir. O suor a m ostrava brilhante e encharcava suas roupas verm elhas até chegar a contornar seus seios e seus m am ilos.

Após a terceira dança, Bienvenido foi até o círculo e com os dois braços levantados, cruzando-os no alto, anunciou o final do espetáculo. As pessoas sabiam com o procedia o velho dono da pousada e seus três filhos encarregados de cuidar da ordem , e entre m urm úrios e brincadeiras com eçaram a ocupar as m esas.

Caridad ofegava. Milagros perm anecia cabisbaixa.

– Vai receber – disse María a Caridad. – Depressa, fá-lo antes que se esqueçam .

O ingênuo olhar com que lhe respondeu Caridad enfureceu ainda m ais a velha, que havia presenciado as danças resm ungando insultos.

– Acom panhai a negra! – ordenou rudem ente a Roque e a Ferm ín.

Bienvenido perm aneceu com elas duas enquanto os outros passeavam entre as m esas.

Caridad passava com tim idez o chapéu de um dos hom ens enquanto os ciganos tentavam suprir a candura da m ulher franzindo o cenho e am eaçando em silêncio a todo aquele que tacanheava. Caíram m oedas, m as tam bém propostas grosseiras e um que outro fugaz m anuseio que Caridad tentava evitar e de que os ciganos, seguros de um a m aior generosidade, sim ulavam não se aperceber e consentiam ao m enos por um segundo. Afinal de contas, Caridad não era um a m ulher cigana.

– Não dizias que cantava com o os anj os? – perguntou Bienvenido a María, os dois contando de longe o dinheiro que caía no chapéu.

– Cantará. Garanto pelo fato de que ainda não estam os apodrecendo no inferno que o fará.

Eu te asseguro – respondeu a velha elevando o tom de voz e sem voltar-se para Milagros, para quem realm ente se dirigia sua afirm ação.

Ferm ín e Roque ficaram satisfeitos com a parte que lhes entregou María, tanto que no dia seguinte foram vários os hom ens e as m ulheres que desfilaram pelo dom icílio de Milagros pretendendo fazer parte do grupo. A velha os m andou em bora a todos. Ia fazer o m esm o com um a m ulher da fam ília Berm údez que apareceu com um bebê nos braços e dois pequenos quase nus agarrados à barra de sua saia, acabada e desbotada com o as de todas as das ciganas que haviam voltado de Málaga, m as antes virou o rosto para o interior do côm odo: Milagros continuava deitada e escondida debaixo da m anta. Assim passava o dia inteiro, soluçando de quando em quando. Caridad, sentada num canto com sua trouxa, fum ava um papante dos quatro com que a velha havia decidido prem iá-la quando por fim pôde ir com prar provisões: com ida e um a vela. Diziam que os papantes eram feitos com folha cubana, e assim devia ser, haj a vista a satisfação que m ostrava Caridad enquanto lançava grandes baforadas, alheia a tudo quanto sucedia ao redor. María apertou os lábios, refletiu por alguns instantes, anuiu para si de form a im perceptível e arrostou de novo a Berm údez, a quem flagrou tentando m anter quietos os ciganinhos; j á a tinha visto, conhecia-a.

– Rosa…? Sagrario? – tentou recordar a curandeira.

– Sagrario – respondeu a outra.

– Volta ao anoitecer.

O agradecim ento da cigana se m anifestou num am plo sorriso.

– Mas… – María apontou para as crianças – sozinha.

– Não te preocupes. A fam ília se ocupará delas.

O restante do dia transcorreu com a m esm a apatia com que soava o m artelar dos ferreiros, ainda sem ferram entas. Caridad e a velha com eram sentadas no chão.

– Deixa-a – disse-lhe María diante dos constantes olhares que Caridad dirigia ao vulto deitado a dois passos delas.

Que podia dizer à m oça se se levantasse e com partilhassem a com ida? O regresso na noite anterior havia sido taciturno; só Ferm ín e Roque se perm itiram algum a pilhéria entre si.

Cansadas, as três se haviam deitado sem m encionar o sucedido na pousada de Bienvenido. Seria ela capaz de cantar esta noite? Tinha de fazê-lo, não podiam depender de Caridad; não era cigana, qualquer pessoa podia tentá-la e ela as deixaria na m ão. A velha observou a negra: com ia e fum ava entre bocados. Seus pensam entos… onde? Melchor? Estaria pensando em Melchor?

Havia chorado por ele. Seria possível que houvesse algo entre eles dois? O que, sim , teve por certo a velha foi que, ao ritm o com que os estava fum ando, Caridad logo daria cabo dos quatro papantes. Pediu-lhe o charuto.

– Continuas pensando naquele cigano? – perguntou então.

Caridad anuiu. Havia algo naquela velha que a im pelia a dizer-lhe a verdade, a confiar nela.

– Não sei se haveria gostado de ver-m e dançar na pousada – com entou com o única resposta.

A curandeira a observou fixam ente. Aquela j ovem estava apaixonada, não lhe restava a m enor dúvida.

– Sabes de um a coisa, negra? Melchor saberia que o fizeste por sua neta.

A negra am ava Milagros, pensou María após soltar um a baforada, m as não era cigana, e esse era m otivo suficiente para desconfiar. As duas fortes puxadas que deu no charuto vieram a nublar-lhe a m ente. Sim , a m enina cantaria e dançaria aquela noite, disse-se ao m esm o tem po que passava o charuto a Caridad, e surpreenderia com sua voz e seus requebros a todos aqueles bêbados. Tinha de fazê-lo! E o faria, para isso havia adm itido Sagrario com elas: a Berm údez cantava e dançava com o as m elhores. María a havia ouvido e contem plado em algum as das festas que tanto se sucediam antes da detenção.

Depois do alm oço, Caridad e a velha cigana folgazaram à espera de que caísse a noite dirigindo, de quando em quando, o olhar para Milagros, María im pedindo que a outra se aproxim asse da m oça para consolá-la, nem sequer com sua presença. Já não a ouviam soluçar.

Milagros perm anecia parada sob as m antas e a fazenda da barraca até que em determ inado m om ento, repentinam ente, se m exia debaixo delas. Tratava-se de bruscas sacudidelas, com o se pretendesse cham ar a atenção, tal com o um a m enina aborrecida e caprichosa, com preendeu a velha, que sorriu ao im aginá-la desej ando saber o que sucedia no pertinaz silêncio que rodeava seu refúgio. Devia estar com fom e e sede, m as era teim osa com o sua m ãe… e com o seu avô.

Um a Vega que não cederia! Esta noite o dem onstrarás, prom eteu-lhe enquanto contem plava com o voltava a estrem ecer debaixo das cobertas.

* * *

Sagrario e os dois ciganos chegaram j untos. María os fez esperar no um bral.

– Vam os, Milagros!

A m oça lhe respondeu com um violento pontapé debaixo das cobertas. María havia tido m uito tem po para pensar em com o enfrentar aquela previsível situação: só o orgulho ferido, o m edo de um a vergonha m aior a levaria a obedecer. Aproxim ou-se com a intenção de descobri-la, m as Milagros se aferrou à m anta. Ainda assim , a velha o conseguiu em parte.

– Olhai-a! – disse aos da porta, ainda puxando a m anta que a m oça agarrava. – Menina, queres que todos os ciganos saibam de tua covardia? Chegaria até os ouvidos de tua m ãe!

– Deixa m inha m ãe em paz! – gritou Milagros.

– Menina – insistiu María com voz firm e; a m anta com que se cobria a m oça estava esticada em um a de suas m ãos –, não há um só Vega em Triana. Neste m om ento eu sou a velha da fam ília e tu não és m ais que um a j ovem cigana que não depende de nenhum hom em ; deves obedecer-m e. Se não te levantares, direi a Ferm ín e a Roque que te levem nos braços, entendeste-m e? Sabes que o farei e sabes que eles m e obedecerão. E te passearão pelo beco com o a um a m enina m alcriada.

– Não o farão. Eu sou um a Carm o…!

Milagros não chegou a term inar a frase. Ao ouvi-la, María havia aberto a m ão e deixado cair a m anta com um desprezo que a m oça não chegou a ver, m as sim a perceber em toda a sua intensidade. Estivera a ponto de renegar sua condição de Vega? Antes que a velha desse m eia-volta, Milagros j á se havia posto de pé.

E cantou. Fê-lo com o socorro de Sagrario, que com voz potente e alegre, aj udada pelos efeitos de um copo de vinho tinto que a velha María obrigou a m oça a beber assim que entraram na pousada, se ocupou de encobrir seus tem ores e vergonhas. Tam bém Caridad voltou a dançar, e excitou outra vez um público um pouco m ais num eroso que o da noite anterior.

Havia corrido a notícia. Mas não tanto com o o fez a partir da terceira noite, quando Sagrario, depois de haver dançado com Milagros, se afastou do círculo em que se m oviam e apresentou a m oça com um a reverência exagerada. Havia-o com binado com a velha. Milagros se encontrou sozinha, entre os aplausos que ainda não haviam cessado. Ofegava, resplandecia… e sorria!, percebeu María com o coração apertado. Então a m oça ergueu a m ão, da qual j á pendiam algum as fitas coloridas, tal com o em seu cabelo, e pediu silêncio. A curandeira notou que um calafrio percorria seus m em bros entorpecidos. Fazia quanto tem po que não sentia aquele prazer?

Ferm ín, com o pé na cadeira e a guitarra sobre a coxa esquerda, trocou um olhar de triunfo com a velha. A assistência se m ostrava resistente a calar; alguém com eçou a tanger um copo com um a faca, e os psius pedindo silêncio se sucederam .

Milagros aguentou os olhares sobre ela.

– Vam os, beleza! – anim aram -na de um a das m esas.

– Canta, cigana!

– Canta, Milagros – estim ulou-a Caridad. – Canta com o só tu sabes fazê-lo.

E partiu a palo seco, antes que Ferm ín o fizesse com a guitarra.

– “Eu sei cantar o conto de um a cigana…” – sua voz, viva, de tim bre brilhante, encheu a pousada inteira; um a seguidilha cigana, reconheceram im ediatam ente Ferm ín e os dem ais, m as lhe perm itiram finalizar a estrofe sem acom panham ento, deleitados com o cante – “que enam orou a um m ancebo de estirpe clara.”

Quando Milagros ia atacar a segunda estrofe, as pessoas receberam com aplausos e galanteios para a m oça a entrada da guitarra e as palm as das m ulheres. María o fazia chorando, Caridad m ordendo com força um de seus papantes. Milagros continuou cantando, segura, firm e, j ovem , bela, com o um a deusa que desfrutasse sabendo-se adorada.

Sevilha: escola do cante; universidade da m úsica; oficina onde se fundem os estilos antes de se oferecerem ao m undo. Caridad podia excitar os hom ens com suas danças provocantes, as ciganas tam bém o conseguiam com suas sarabandas sacrílegas segundo padres e beatos, m as ninguém , nenhum daqueles hom ens ou m ulheres, prostitutas ou bandidos, lavadeiras ou artesãos, frades ou criadas, podia perm anecer alheio ao m aravilhoso feitiço de um a canção que encurralava os sentim entos.

E chegou o delírio: vivas, aclam ações e aplausos. Mil prom essas de am or eterno para Milagros se converteram no encerram ento da apresentação da m oça.