A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 51 de 51

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A Rainha Descalça

Nota do autor

A lirí ye crayí, nicobó a lirí es calés.

[A lei do rei destruiu a lei dos ciganos.]

El Crallis ha nicobado a lirí de los calés.

[O Carlos destruiu a lei dos ciganos.]

Em 1763, quatorze anos depois da grande batida e j á caído em desgraça o m arquês de la Ensenada, o rei Carlos III indultava os ciganos do delito de haver nascido com o tais. Nos diferentes arsenais perm aneciam detidos cerca de cento e cinquenta deles, que ainda levaram anos para ser libertados. Na Real Casa da Misericórdia de Saragoça perm aneceram só algum as velhas ciganas sem fam ília. As que não haviam fugido, m ais de duzentas e cinquenta, alcançaram a liberdade aproveitando a longa agonia do rei Fernando VI, com o que aquela instituição resolveu o problem a cigano e pôde dedicar-se a recuperar sua identidade.

Vinte anos depois, em 1783, o m esm o Carlos III prom ulgava um a pragm ática que pretendia obter a assim ilação dos ciganos. Nela se reiterava a proscrição do term o “cigano” – “os que se cham am e dizem ciganos não o são por origem nem por natureza” –, proibindo expressam ente seu uso, com o j á se havia ordenado em disposições anteriores, ainda que com parco sucesso.

Mas, além dessa reiteração, o rei estabelecia que os ciganos não provinham de “raiz infecta”, com o que vinha a conceder-lhes os m esm os direitos que ao restante da população. Apesar de continuarem proibidos seus traj es e seu j argão, perm itiu-se-lhes escolher aqueles trabalhos ou ofícios que eles m esm os j ulgassem convenientes – com algum as exceções, com o o de dono de pousada em lugar despovoado; suspendeu-se a proibição de eles se deslocarem pelo reino, e autorizaram -nos a viver em qualquer povoado, salvo na Corte e nos Reais Sítios, onde, apesar de tudo, continuaram a fazê-lo, com o bem se havia preocupado em m anifestar o m inistro Cam pom anes ao lam entar o fracasso das tentativas de bani-los de Madri.

O espírito ilustrado que m oveu a pragm ática de 1783 contou com inform es de diversas salas de j ustiça, algum as das quais assinalavam a constante discrim inação, as vexações e o trato inj usto de que haviam sido obj eto os ciganos por parte dos cidadãos, principalm ente dos oficiais de j ustiça e dos religiosos, devido a seu m odo de vida e ao fato de viverem afastados da sociedade.

Basta recordar o parágrafo com que Cervantes inicia sua novela A Ciganinha: Parece que os ciganos e ciganas som ente nasceram no m undo para ser ladrões; nascem de pais ladrões, criam -se com ladrões, estudam para ladrões e, finalm ente, acabam por ser ladrões rem atados a todo o transe; e a vontade de furtar e o furtar são neles com o acidentes inseparáveis, que não se tiram senão com a m orte.

No dizer dos inform es das salas de j ustiça, os ciganos preferiam viver na solidão e no isolam ento a fazê-lo j unto dos que os m altratavam .

Ainda levando-o em consideração, o fato é que a sociedade cigana é etnocêntrica. Não existe tradição escrita nessa com unidade, m as são m uitos os autores que concordam quanto a um a série de valores que caracterizam esse povo: o orgulho da raça e certos princípios que regem sua vida;

“Li e curar, andiar sun tim uñó angelo ta rum ej í” (liberdade de agir, segundo seu próprio desej o e proveito); “Nada é de ninguém , e tudo é de todos”, atitudes de difícil conciliação com as norm as sociais habituais.

A partir disso se tornam com preensíveis as duas afirm ações com que se encabeça esta nota.

Parece que a equiparação j urídica entre payos e ciganos estabelecida pela pragm ática do rei Carlos III não agradou aos segundos. “O Carlos destruiu a lei dos ciganos.” Trata-se de vitim ism o? De rebeldia, quem sabe? Fique isto para os estudiosos.

A capacidade de adaptação, e não assim ilação, dos ciganos aos diversos am bientes é constantem ente m anifestada pelos estudiosos desta etnia. Em Sevilha, incluída Triana, existiam no século XVIII quase cinquenta confrarias de penitência, a m aioria com grande tradição, entre as quais a dos Negritos, denom inação essa que, provavelm ente utilizada correntem ente, não aparece em seus livros senão nos anos oitenta dessa m esm a centúria, posteriorm ente, portanto, à data em que term ina o rom ance. A Irm andade dos Ciganos, tão apreciada hoj e, não nasceu senão depois da grande batida, e não realizou sua prim eira saída senão na Sem ana Santa de 1757. Por essa m esm a data, os m issionários salientaram a grande devoção e penitência dos ciganos de Triana nas confissões gerais que se levaram a efeito.

Surpreende que na Espanha da Inquisição, das m issões e do fervor religioso os ciganos, acusados constantem ente de irreligiosidade, de im piedade e de irreverência, não tenham sofrido perseguição inquisitorial. Nem o Santo Ofício nem a Igrej a pareciam dar a eles im portância algum a. À diferença de outras com unidades igualm ente perseguidas ao longo dos tem pos, os ciganos foram capazes de resistir e se esquivar às dificuldades, quase brincando, zom bando das autoridades e de seus constantes esforços por reprim i-los.

Um a com unidade que, por outro lado, contribuiu com o nenhum a para legar um a arte, o flam enco, hoj e declarado pela Unesco Patrim ônio Im aterial da Hum anidade. Não o posso fazer eu nem é este o lugar para aprofundar se o povo cigano trouxe consigo ou não para a Europa sua própria m úsica, a zíngara, ou se esta era originária das planícies húngaras; em todo caso, os ciganos alcançaram o virtuosism o em sua execução, com o sucederia na Espanha com um a m úsica que no século XVIII, período em que se desenrola o rom ance, é qualificada pelos estudiosos de

“pré-flam enca”. A partir dela se configuraria um cante que desde o final do século XIX, com uns palos e um a estrutura definida, passará a conhecer-se com o flam enco.

Tam bém parecem estar de acordo os estudiosos em que esses cantes foram provavelm ente resultado da fusão, nas m ãos dos ciganos, de sua própria m úsica com a m úsica tradicional espanhola, a dos m ouriscos e a dos negros, fossem estes escravos ou libertos, a cham ada m úsica de ida e volta.

Três povos perseguidos e subj ugados, escravizados uns, explorados e estranhados outros, desprezados todos: m ouriscos, negros e ciganos. Que sentim entos podiam nascer da fusão de suas m úsicas, cantes e danças? Só aqueles que alcançam seu zênite quando a boca sabe a sangue.

Triana, em concorrência com outros lugares da Andaluzia, é considerada o berço do flam enco. O beco de San Miguel, onde se apinhavam as ferrarias das fam ílias ciganas, desapareceu no com eço do século XIX.

Talvez o cante convencionalm ente reconhecido com o tal nasça nos albores do século XX, m as isso não deve tirar profundidade e am argura, “jondura”, aos cantes ciganos do XVIII. O

Bachiller Revoltoso, testem unha da vida trianeira de m etade desse século, escreve: Um a neta de Balthasar Montes, o cigano m ais velho de Triana, vai obsequiada às casas principais de Sevilha para representar suas danças, e acom panham -na com guitarra e tam boril dois hom ens, e outro lhe canta quando dança, e se inicia o dito canto com um longo alento a que cham am queixa de galé, porque um forçado cigano as dava quando ia ao rem o e deste passou a outros bancos e destes a outras galés.

À im aginação do leitor, à sua sensibilidade, deve deixar-se a visão desse cigano que, com a liberdade com o o m aior de seus tesouros, cantava para queixar-se de viver acorrentado aos rem os de um a galé de que poucos saíam com vida; longo alento que, no dizer do autor contem porâneo, se reproduziu depois nos salões dos nobres e autoridades.

Tam bém é o m esm o Bachiller Revoltoso quem nos conta com o a um cigano que trabalhava na fábrica de tabacos se lhe rom peu no interior do intestino a tripa – o tarugo – em que guardava o pó de tabaco que pretendia roubar. O contrabando de tabaco, produto que era m onopólio, ou tabacaria, da fazenda real constituiu na época – e continuou a sê-lo – um a das atividades m ais lucrativas, e o povo português de Barrancos foi um de seus principais núcleos.

Os estudiosos são unânim es em incluir os religiosos nessas práticas.

O século XVIII, por outro lado, trouxe um a im portante m udança para a cidade de Madri. O

advento da nova dinastia dos Bourbons trouxe para a corte novos gostos e costum es. A Ilustração prom oveu a criação de Reais Academ ias, sociedades econôm icas, fábricas e oficinas estatais e um a série de m elhoram entos urbanísticos que alcançaram seu esplendor no reinado de Carlos III, considerado o m elhor governante pelo im pulso e pelas reform as que prom oveu na Vila e Corte.

Um a dessas prom oções foi a levada a efeito por Felipe V sobre o que originariam ente havia sido o Corral de Com edias de la Pacheca para convertê-lo no Coliseo del Príncipe, que passou a ser o Teatro Español após a reconstrução daquele depois de dois vorazes incêndios; localiza-se na buliçosa e concorrida praça de Santa Ana, situada esta, por sua vez, no solar do antigo convento das carm elitas descalças.

Enquanto em Sevilha eram proibidas as peças de teatro, em Madri eram representadas diariam ente nos teatros del Príncipe e de la Cruz. Muitos estudiosos concordam no afirm ar que as pessoas iam a eles não pelas obras dram áticas, m as pelos sainetes e pelas tonadilhas, que tinham vindo a substituir os clássicos entrem eses barrocos com o representações autônom as e breves nos entreatos das obras principais.

A tonadilha cênica chegou a tornar-se independente do sainete ao longo do século XVIII, época em que alcançou seu m áxim o desenvolvim ento, até term inar caindo no esquecim ento e desaparecer por com pleto durante a prim eira m etade do século seguinte.

As tonadilhas eram obras breves, em sua m aior parte cantadas e dançadas, com tem ática costum brista ou satírica, através das quais eram louvados os personagens populares e criticadas as classes altas e afrancesadas. Um a de suas características m ais significativas era a interação da tonadilheira com o público, o que convertia o engenho, o desem baraço, a ironia e, naturalm ente, a sensualidade em m éritos tão im portantes com o a voz ou o donaire na dança.

As pessoas de Madri, os hum ildes, exaltaram m uitas dessas tonadilheiras que cantavam para eles. Manolos e chisperos são figuras representativas dessa sim patia tão característica do m adrilense, que se orgulha de sê-lo.

Meu agradecim ento, com o sem pre, à m inha esposa, Carm en, e à m inha editora, Ana Liarás, a todos quantos aj udam e colaboram para o bom fim deste rom ance e, acim a de tudo, ao leitor que lhe dá sentido.

Barcelona, junho de 2012

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