A Rainha Descalça
Cápitulo 34
Ela podia ir-se, perseguir o rastro dourado que a lua cheia dessa noite prim averil deixava sobre a eira e os trigais que se estendiam por trás da casa. Com o povoado m ergulhado no m ais absoluto dos silêncios, aquele resplendor m ágico a convidou a abandonar o quartucho anexo ao horto que lhe haviam cedido, e Caridad cam inhou para a lua com o olhar perdido nos terrenos planos que se estendiam diante dela. Um a som bra nos cam pos, às vezes parada, acovardada diante da im ensidão, outras andando sem rum o, com o se pretendesse encontrar um cam inho que a levasse… aonde?
O recebim ento m eses atrás em sua nova casa havia sido diverso. Os tios de Herm inia calaram sua surpresa. Dem asiado negra, gritavam seus olhos. Antón a contem plou com um a ponta de lascívia que Herm inia atalhou interpondo-se prontam ente entre os dois; Caridad não com preendeu de todo aquela súbita reação. As crianças não tardaram a m udar seus receios em curiosidade, e Rosario a acolheu com um esgar de desgosto.
– Ela está sã? – soltou para Herm inia. – Estás certa de que não transm itirá nenhum a doença de negros a Cristóbal?
O tem or da am a-seca a desterrou para o horto, para um galpão cheio de petrechos de lavoura, anexo à casa, que lhe recordou aquele onde a haviam confinado os bons cristãos a que se dirigira Frei Joaquín em busca de asilo durante a batida. Jugos e alviões substituíam as redes e canas de pesca.
Cristóbal, o filho do fiscal… com o ia ela contagiá-lo com qualquer coisa? O pequeno tinha m ais sem elhanças com o casulo de um a borboleta que com o filho de Rosario de m esm a idade a quem a m ãe substituía parte de seu leite por “sopa borracha” – pão m olhado em vinho – e que, quando não estava no chão, andava livre de m ão em m ão. Cada m anhã, depois de banhar Cristóbal em água fria e passar-lhe farinha entre as pernas, Rosario o enfaixava com um pano branco dos pés aos om bros, com os bracinhos bem colados a am bos os lados para não lhe causar deform idades com o tecido cingido. Desse m odo, com o um casulozinho branco de que só sobressaía a cabeça, o pequeno passava as horas deitado num rústico berço de m adeira do qual Rosario som ente o levantava para que se agarrasse a um de seus m am ilos. Um a vez saciada sua fom e, Cristóbal adorm ecia, m as a m aior parte do dia transcorria entre os berros do m enino, oprim ido, incapaz de m exer-se, irritado com a urina e os excrem entos grudados em sua pele e dos quais não o livravam senão a contragosto, porque o trabalho de enfaixá-lo de novo se convertia num estorvo que atrasava sua higiene. Caridad se com padecia de Cristóbal. Ela o com parou às dem ais crianças que corriam pela casa, com os ciganinhos que havia visto peram bular nos pátios dos cortiços de Triana e até com os crioulinhos que nasciam nos barracões de Cuba; a estes os alim entavam suas m ães durante dois ou três m eses, e depois eles ficavam aos cuidados das escravas velhas que j á não rendiam na veiga. Livres sem pre, nus.
– Todas as am as-secas e am as de leite, e até as próprias senhoras, enfaixam as crianças – explicou-lhe um dia Herm inia. – Sem pre se fez assim .
– Mas… não é natural!
Herm inia deu de om bros.
– Eu sei – afirm ou. – A ninguém ocorre a ideia de enfaixar um cordeiro ou um leitão para que cresça m elhor e m ais sadio. Há am as que chegaram a quebrar-lhes um braço, um a perna, até um a costela… Muitas crianças acabam disform es ou aleij adas.
– Então, por que o fazem ? – perguntou Caridad, horrorizada.
– Porque assim não têm de vigiá-las. E porque evitam acidentes. Se a am a sabe enfaixar, devolverá o m enino vivo a seus pais, as deform idades aparecerão ou não, m as em todo caso depois, com os anos, e ninguém poderá dizer que foi culpa dela. Se não a enfaixam , arriscam -se a ter de dizer a seus pais que a criança caiu e quebrou algum osso, ou que engoliu algum obj eto que causou sua asfixia, ou que ela quebrou a cabeça, ou…
Caridad calou-a com um esgar de desgosto.
O pequeno Cristóbal ocupou seus pensam entos em algum as dessas noites no cam po: ela não era m ais que um a escrava que gozava de liberdade por causa da “peste das naus” que dera fim à vida de seu senhor, ainda que se dissesse que essa m esm a desgraça, insaciável, viera querendo cobrar nela os sofrim entos que a frágil natureza de don José não lhe havia perm itido infligir-lhe.
E no entanto ela podia contem plar a sedutora lua dos cam pos castelhanos. Pelo contrário, Cristóbal, filho de um funcionário de alto nível, rico, perm anecia escravo no pano que o enfaixava. Às vezes ela se sentiu tentada a roubar o m enino e deixá-lo correr pelos cam pos…
Saberia m over-se? Recordou seu pequeno Marcelo: m esm o sendo escravo e com o olhar e a m ente perdidos, havia vivido em m aior liberdade que aquele pobre m enino.
– As m ães com dinheiro não querem am am entar seus filhos, e por isso os entregam a estranhos – explicou-lhe Herm inia. – Não desej am perder a form a, esse talhe esbelto pelo qual tanto lutam com as costelas, ou que seus peitos se lhes endureçam até rebentar de leite para com o tem po desabar, flácidos. Não querem ataduras que as im peçam de ir aos atos sociais, ao teatro, aos bailes ou às tertúlias. Mas acim a de tudo – acrescentou que isso lhe havia confessado Rosario um dia – têm m edo do choro de uns filhos que elas não sabem com o tranquilizar e da possibilidade de seus pequenos m orrerem em suas m ãos.
“Preferem , se isso tem de suceder, que lhes m ostrem seu cadáver!”, recordou Caridad o vilipêndio de Herm inia com os verdes olhos faiscando de raiva, talvez lam entando algum a experiência própria. Caridad não lhe perguntou sobre a sorte daquele filho de que lhe havia falado pelo cam inho e m enos ainda sobre a identidade de um pai que j á fazia tem po lhe custava pouco supor que fosse seu prim o Antón. Tratava-se de um acordo tácito de todos os m em bros daquela fam ília: Rosario não desej ava ficar grávida de novo, dado que isso im plicaria que o fiscal lhe retirasse o m enino e o dinheiro se perdesse; enquanto isso, Antón se aproxim ava com descaram ento de um a Herm inia tão incom odada quando se achava presente sua am iga quanto risonha e solícita quando não. Algum as noites Caridad havia apertado o passo para as eiras quando ouvia suas excitações. Então, à luz da lua, com os cochichos dos am antes m artelando em seus ouvidos, chorava Melchor e sentia saudade dele e das noites sob as estrelas em que o cigano a descobriu com o m ulher.
Nos m eses transcorridos desde a sua chegada, conheceu don Valerio, o pároco de Torrej ón.
Tam bém a Ferm ín, o velho sacristão que j á não podia ocupar-se do cultivo do tabaco. Don Valerio a escrutou de alto a baixo, com o faziam todos, ao m esm o tem po que ela tentava desfazer os receios do sacristão, que a crivava de perguntas com o se lhe doesse deixar suas plantas nas m ãos de um a negra desconhecida.
– Senhor – term inou interrom pendo-o Caridad com certa aspereza, j á cansada de perguntas –, eu sei cultivar e trabalhar o tabaco. Eu o fiz durante toda a m inha vida…
– Cuidado com tua soberba! – repreendeu-a don Valerio.
Herm inia se preparava para intervir, m as Caridad adiantou-se-lhe.
– Não é soberba – replicou ao sacerdote, suavizando não obstante seu tom de voz. – Cham a-se escravidão. Os brancos com o Vossas Excelências m e roubaram da África m enina e m e obrigaram a aprender a cultivar e trabalhar o tabaco. Tudo o que eu era ficou para trás por causa dessa planta: m inha fam ília, m eus filhos… tive dois; um ainda continua ali, eu pressinto –
acrescentou entrefechando os olhos por alguns instantes –, o outro foi vendido ainda m uito m enino a um engenho de propriedade da Igrej a…
– Tua atitude não é a de um a escrava – voltou a repreendê-la o religioso.
– Não, padre. É a de um a reclusa que pagou dois anos ao rei por deixar-se tratar com o um a escrava por aqueles que se cham am “bons cristãos”.
– Tens a língua m uito solta – insistiu don Valerio erguendo a voz.
Herm inia segurou Caridad pelo braço exigindo-lhe que não continuasse, m as agora foi o sacerdote quem não quis.
– Deixa-a – pediu-lhe. – Quero escutá-la.
Caridad, no entanto, não conseguiu livrar-se da repentina sensação daquele contato em seu braço e do suplicante olhar de sua am iga. Talvez fosse verdade, talvez tivesse a língua solta…
Muito havia m udado após dois anos de cárcere na Galera, ela o sabia, m as nesse m om ento decidiu calar-se.
– Lam ento havê-lo ofendido – optou por desculpar-se.
– É algo que terás de confessar.
Ela baixou o olhar.
Nessa m esm a tarde Herm inia a acom panhou ao tabacal. As vinhas cultivadas por Marcial se achavam onde o arroio Torote vertia suas águas no Henares e a paisagem plana se via rom pida por algum pequeno cerro, por oliveiras e videiras que vinham substituir os extensos trigais, tudo isso j á no térm ino de Alcalá de Henares, vizinha de Torrej ón, da qual esta se havia separado no século XVI. Um a depressão após as vinhas de Marcial servia de refúgio à plantação de tabaco, que assim perm anecia escondida.
Caridad a observou de cim a: desordenada, selvagem , pobre. Transcorria o m ês de j ulho quando ela chegou a Torrej ón, e Marcial, seguindo instruções do sacristão, estava colhendo; o hom em nem sequer se apercebeu de sua presença. Caridad o viu cortar as plantas pelo pé, com um facão, quase violentam ente, com o faziam os escravos quando cortavam a cana-de-açúcar.
Depois, com as folhas unidas ao caule, ia em pilhando-as um a a um a no chão, ao sol.
– Que achas? – perguntou-lhe Herm inia.
– Lá na veiga escolhíam os folha por folha, uns dias um as, outros dias outras, as preparadas, as que estavam no ponto exato de m adureza, até que a planta ficava com o um caule ereto e lim po.
Ao ouvir as vozes, Marcial se voltou para elas e lhes fez sinal de que descessem .
– Caridad diz que em Cuba as colhem folha por folha – anunciou Herm inia assim que chegou à altura onde estava o hom em .
Para surpresa de am bas, o hom em anuiu.
– Já ouvi isso, m as todas as pessoas que têm que ver com o tabaco asseguram que na Espanha sem pre se fez assim . O fato é que, com o todas as plantações são secretas, ninguém pode verificá-
lo, em bora don Valerio afirm e que nas dos m osteiros e conventos se segue este procedim ento.
Algum a coisa há de saber o hom em em se tratando de religiosos.
– Que diferença há entre…? – com eçou a perguntar Herm inia.
– As folhas de cim a recebem m ais sol que as de baixo – adiantou-se-lhe Caridad.
– Isso sucede com todas as plantas. – interveio Marcial, e acrescentou com um sorriso: –
Crescem para cim a. O problem a está em que colher folha por folha requer m uito trabalho… e conhecim entos.
Com o se quisesse dem onstrá-lo, Caridad se havia separado deles e apalpava e cheirava as folhas das plantas que ainda estavam de pé. Arrancou pedacinhos e os m astigou. Marcial e Herm inia a deixaram fazer, enfeitiçados diante da transform ação produzida naquela m ulher que se deslocava entre as plantas, extasiada, alheia a tudo, tocando um a, lim pando outra, falando com elas…
Decidiram não m udar o sistem a de colheita nas poucas plantas que restavam . “Já não vale a pena”, afirm ou Caridad. Marcial confiou nela e lhe perm itiu escolher algum as para obter a sem ente para a safra do ano vindouro, e, com o carro transbordando, esperaram na vinha que chegasse a noite fechada para transportar o tabaco até o povoado. Com partilharam pão, vinho, queij o, alhos e cebolas e conversaram e fum aram , observando com deleite com o se estrelava o im enso céu que os cobria.
O secadouro de tabaco não era senão o sótão da sacristia da igrej a, ao qual um sonolento Ferm ín lhes deu passagem . À luz da candeia portada pelo sacristão, que perm aneceu além da porta de acesso ao sótão, Caridad entreviu grande quantidade de plantas am ontoadas sobre as quais j ogaram apressadam ente aquelas que eles traziam . Com o pretendiam obter bom tabaco com tal desídia? Ergueu-se no interior do sótão. Pegou um a das plantas e quis aproxim á-la da luz para…
– Que está fazendo, negra? – inquiriu o sacristão afastando a candeia.
– Eu…
– De noite não se pode trabalhar aqui – interrom peu-a o hom em –, é perigoso com velas ou candeias. Don Valerio só perm ite fazê-lo com luz natural.
Caridad esteve tentada a replicar-lhe que não parecia que com luz natural se trabalhasse em dem asia ali dentro, m as calou-se e na m anhã seguinte, cedo, se apresentou na sacristia. Discutiu com Ferm ín até que don Valerio subiu ao sótão para pôr ordem .
– Não dizias que j á não podias ocupar-te? – reprochou ao sacristão. – Deixa pois que sej a ela quem decida.
E Ferm ín a deixou fazer e decidir, m as nem por isso lhe tirou o olho de cim a, sentado num caixote e criticando baixo cada m ovim ento feito por Caridad.
– Sabe, Ferm ín? – disse Caridad enquanto cortava as folhas de um a das plantas. – Quando cheguei a Triana, conheci um a velha que se parecia bastante com o senhor: tudo lhe parecia m al.
– O sacristão grunhiu. – Mas era um a boa pessoa. – Caridad deixou transcorrer alguns instantes em silêncio. – O senhor é boa pessoa? – perguntou-lhe por fim , sem olhá-lo.
Nessa noite de prim avera, na eira, cheirando a tabaco, Caridad se surpreendeu recordando a velha María. Algum as vezes, na Galera, viera-lhe à m ente, de form a fugaz; agora ela acreditava poder senti-la a seu lado e chegou a ouvir suas m aldições rom per o silêncio.
– Por que disseste que aquela velha era um a boa pessoa? – perguntou-lhe o sacristão na m anhã seguinte, assim que a viu chegar ao am anhecer.
– Porque creio que o senhor tam bém o é – respondeu ela.
Ferm ín pensou por alguns instantes e reprim iu um sorriso, antes de entregar-lhe os paus de que ela havia sentido falta no dia anterior. À diferença do trabalho na veiga cubana, o sótão estava preparado para que pendurasse a planta inteira nuns ganchos cravados nas vigas de m adeira do
teto. “Em Cuba penduram os as mancuernas [ 18 ] em cujes – dissera-lhe –, que são uns paus longos nos quais as enfiam os para sua secagem .” De todas aquelas plantas e algum as m ais que Marcial havia trazido essa m esm a noite, Caridad pretendia escolher as m elhores folhas e tratá-las com o ela sabia, m as não tinha onde pendurá-las.
– Bons cujes – m entiu sopesando os toscos e longos paus que lhe entregara Ferm ín. – Agora terem os de encontrar um a m aneira de pendurá-los.
– Já sei com o. – O sacristão tentou acom panhar sua afirm ação com um a piscadela, m as sua tentativa parou no grosseiro esgar de um velho j á desaj eitado. Caridad o olhou com ternura e o prem iou com um sorriso.
Com a aj uda de um anim ado Ferm ín, contagiado de sua paixão, Caridad escolheu um a por um a as folhas e as pendurou enfiadas aos pares naqueles paus nodosos; ela o fez em silêncio, com parando-os com os cujes que utilizavam na veiga, cuidadosam ente escolhidos nos m anguezais, pacientem ente trabalhados para que nem sequer transm itissem cheiro de m adeira às folhas. No entanto, para que tentar que aquele tabaco tosco não ganhasse cheiro de m adeira quando o incenso com que don Valerio tentava ocultar suas atividades se infiltrava por todas as frestas do teto que dava para o sótão? Ordenou as folhas por suas características, por seu arom a e textura, por sua um idade. Controlou a tem peratura e o am biente do lugar abrindo em m aior ou m enor m edida as j anelinhas, perm itindo ou im pedindo que corresse o ar segundo o m om ento. Ventilou e m oveu sem cessar as folhas ou as plantas inteiras que pendiam do teto para obter a m elhor secagem . Vigiou a presença de insetos ou parasitas. A tudo isso se dedicou com afinco até a nervura central das folhas estar com pletam ente seca. Então foi escolhendo-as dos cujes para am ontoá-las e am arrá-las um as às outras em pequenas pilhas a fim de que ferm entassem ; pouco sabia Ferm ín daquele procedim ento. Caridad calculou a tem peratura e a um idade do am biente, a água de que haviam disposto as plantas no tabacal, e foi aum entando o tam anho das pilhas, passando para a parte de cim a o tabaco que havia estado previam ente no interior e para a parte central o novo, atando e desatando constantem ente as pilhas, cheirando-as, tocando-as, m ascando as folhas, m udando-as de lugar, m ovendo-as m ais ou m enos perto das correntes de ar, salpicando as folhas com betum e: um preparado que previam ente havia obtido da ferm entação dos caules das plantas na água.
Durante essa tem porada, sua vida se lim itou a andar ao am anhecer os poucos passos de distância que separavam a casa dos tios de Herm inia da igrej a de São João. Regressava para alm oçar, o que fazia sozinha no pestilento e entulhado galpão do horto; Rosario não a queria andando pela casa, e Herm inia vivia cada dia m ais excitada com seu prim o Antón, razão por que a ela prestava pouca atenção. Caridad teria gostado de dizer-lhe isso, m as seus reproches se desvaneciam quando se recordava de que Herm inia a havia libertado da Galera. Devia-lhe gratidão. Obrigou-se pois a respeitar os sentim entos de sua am iga e deixou de procurá-la até com o olhar. Assim que acabava de com er o pedaço de pão e a tigela com grão-de-bico, feij ão ou fava, quase sem pre carente de carne, voltava à igrej a, que ela deixava j á confundida com as som bras, de noite.
Don Valerio fez correr o boato de que um a figura da corte – “Com o vou revelar seu nom e?”, revoltava-se o sacerdote quando o pressionavam – lhe havia pedido que se encarregasse daquela desgraçada inj ustam ente condenada ao cárcere de m ulheres. Para isso havia buscado a aj uda de Marcial e procurado a casa em que ela se aloj ava, e os docum entos oficiais de Caridad se encaixavam na história. Contudo, ele a obrigou a lim par a igrej a para desculpar sua presença nela, enquanto as sem pre dispostas fiéis m exericavam , perguntando-se quem seria aquele cortesão e que relação teria com a negra. Don Valerio tam pouco ficava à m argem desses falatórios: algum as acreditaram no padre; m uitas outras duvidaram , e todas quantas sabiam do tabaco entenderam pura e sim plesm ente. O fato é que pouco a pouco aquela m ulher negra, pacífica e solitária, que andava descalça e lentam ente de cá para lá, se foi convertendo em parte da paisagem , e até as crianças deixaram de persegui-la e im portuná-la, e Caridad saía sozinha para passear pelas sendas e pelos cam pos, pensando em Melchor, em Milagros, em Marcelo, em balada pela brisa da prim avera.
18 Mancuerna: pedaço de caule da planta do tabaco com duas folhas. [N. do T.]