A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 37 de 51

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A Rainha Descalça

V - A voz quebrada

V

A VOZ Q UEBRADA

Cápitulo 37

Em quantas outras ocasiões a vendeu Pedro ao longo de quase um ano? Bastantes, m ais cinco, sete talvez? O cigano, consciente de que aquela situação explodiria a qualquer m om ento, de que os ricos m adrilenses prescindiriam da Descalça assim que corressem os rum ores em seus círculos de am izade e desfrutar dela j á não constituísse um triunfo de que se vangloriar diante dos dem ais, vendeu-a ao que lhe ofereceu o m elhor preço.

María. A cigana procurou refúgio em sua filha, era tudo quanto ela tinha. Abraçava-se à m enina reprim indo o pranto, sussurrando-lhe com voz quebrada canções ao ouvido, acariciando seu cabelo até que a pequena adorm ecia, e ela a em balava por horas e horas.

Aprendeu a receber seus risos com fingida alegria e a participar de suas brincadeiras com ânim o, ainda que naquele dia ainda sentisse o asqueroso roçar da suj a m ão de um indesej ável em sua entreperna, em seus m am ilos… ou em seus lábios. Ao final, a m aioria dos nobres a penetrava com violência, cegos, gritando, m ordendo e arranhando-a. Era com o se a espancassem . Mas quando tentavam convencê-la, certos de que suas carícias ou suas palavras de am or podiam dobrar sua vontade com o se eles fossem deuses, ela se sentia ainda pior. Canalhas convencidos!

Aquelas eram as recordações que Milagros trazia consigo; só a m ãozinha escura de María correndo desaj eitadam ente por seu rosto conseguia atenuar suas am argas sensações. Milagros m ordiscava seus dedinhos enquanto a pequena, rindo, pressionava um de seus olhos com os da outra m ão. E ela procurava sem parar o contato da pele suave de sua filha, bálsam o com o nenhum para a tristeza e a hum ilhação que a oprim iam .

“Juro que m orrerás em vida.” Term inava o outono quando a am eaça de Pedro rebentou em sua cabeça depois que à sua volta do Príncipe ela cham ara diversas vezes sua filha e não a vira correr para ela.

– E a m enina? – inquiriu com receio a Bartola.

– Com o pai – respondeu a García.

– Quando a trará?

A outra não respondeu.

Ao anoitecer, Pedro apareceu, sozinho.

– María não deve m orar com um a puta – respondeu-lhe grosseiram ente. – É um m au exem plo para um a m enina tão pequena.

– Que…? Que queres dizer? Não sou nenhum a puta; tu bem o sabes. Onde está María? Para onde a levaste?

– Com um a fam ília tem ente a Deus. Ali ela estará bem .

O cigano contem plou sua esposa: ela beirava o desespero e parecia querer quebrar os dedos uns contra os outros retorcendo-os entre si, cravando-se as unhas.

– Eu te suplico, não m e faças isso – im plorou Milagros.

– Sua puta.

Ela caiu de j oelhos.

– Não m e tires m inha filha – soluçou. – Não o faças…

Pedro a contem plou por alguns instantes.

– Não m ereces outra coisa – disse ele, interrom pendo suas súplicas antes de dar m eia-volta.

Milagros se agarrou à sua perna e gritou, dilacerada.

– Farei o que desej ares – prom eteu –, m as não m e separes de m inha m enina.

– Por acaso não fazes j á o que quero?

Pedro lutou por livrar-se de sua esposa, m as, com o não o conseguiu, agarrou-a pelo cabelo e puxou-a para trás até que pouco a pouco, com o pescoço torcido, Milagros foi soltando a perna.

Depois correu atrás dele; Pedro a esbofeteou no patam ar da escada até que ela entrou.

Na m anhã seguinte, dois chisperos m al-encarados do bairro do Barquillo esperavam na rua del Am or de Dios e escoltaram a liteira que fora buscar Milagros para levá-la ao teatro. Depois peram bularam pela rua del Lobo e pela del Príncipe até que term inou o ensaio. De tarde, durante a apresentação, havia outros dois tão rudes com o os prim eiros; Pedro dispunha de suficiente dinheiro para contratar um exército de chisperos.

Milagros tentou encontrar María. Não sabia onde se encontrava, m as se localizasse Pedro e o seguisse… Ele se m ovia pelo Barquillo, ela tinha entendido. Um a noite esperou até ouvir o rítm ico respirar da García no quarto contíguo e tentou tom ar a escada tenteando as paredes com as m ãos. Bartola abriu um olho ao rangido da porta, m as deu m eia-volta em seu colchão, sem preocupar-se. Milagros não conseguiu superar o patam ar; na escuridão tropeçou e caiu sobre um chispero que dorm itava nele.

– Teu esposo ordenou que, se for necessário, te m atem os – am eaçou-a o j ovem m al-encarado quando am bos conseguiram levantar-se. – Não m e tornes a coisa difícil, m ulher.

Em purrou-a para o interior da habitação. Desesperada, Milagros chegou a oferecer seu corpo ao chispero de turno para que a aj udasse a encontrar sua m enina. O hom em , cínico, sopesou um de seus peitos.

– Tu não entendes – arguiu enquanto o apertava entre os dedos: – não existe m ulher que m e tente o bastante para eu correr esse risco. Teu esposo é m uito destro com a navalha; j á o dem onstrou em diversas ocasiões.

No dia seguinte chegou a aj oelhar-se aos pés de Bartola e suplicou, com o rosto sulcado pelas lágrim as. A única coisa que obteve foram insultos e recrim inações:

– Nada disso te estaria acontecendo se não te tivesses entregado ao m arquês, sua puta.

Prostituída a espancam entos, privada de sua filha, controlada aonde quer que fosse ou onde quer que estivesse, Milagros se transform ou num a m ulher vazia, derrotada, silenciosa, alheia a tudo, de olhos afundados em órbitas profundas que Bartola nem sequer conseguia dissim ular quando ela tinha de ir para o teatro.

– Mantenha-a bela e desej ável, tia – exigiu-lhe Pedro quando se inteirou de que Milagros estava rej eitando a com ida. – Alim ente-a à força se necessário; veste-a bem ; obriga-a a aprender as canções. Ela tem de continuar deslum brando as pessoas.

Mas a cigana García perdia as esperanças. Cada vez que Pedro vendia a esposa a algum daqueles nobres, devolvia-lhe uns despoj os hum anos. Mordidas, arranhões, roxos… e sangue; sangue em seus m am ilos, em sua vagina e até em seu ânus. Bartola não gastava nada em beberagens ou rem édios; lim itava-se a lavar e a tentar esconder as feridas de um a m ulher transtornada. Odiava a ideia de tratar um a Vega, m as tam pouco desej ava enfrentar Pedro, e dia após dia Milagros voltava ao Príncipe, onde acabou pensando que poderia encontrar refúgio e consolo; então se esforçava por obter o caloroso aplauso de seu público, os afagos que brotavam espontaneam ente do patio ou os que lhe dirigiam os hom ens que se aglom eravam na rua del Lobo à sua passagem no interior da liteira.

No entanto, quando do tablado erguia os olhos para os cam arotes e via cintilar as j oias e os enfeites dos nobres, distraía-se e pensava que algum deles a havia forçado e que talvez nesse m esm o m om ento estivesse alardeando o fato de havê-la possuído. E a voz lhe fraquej ava até que voltava a pensar no público do patio e da cazuela. Provavelm ente m uitos não chegavam a percebê-lo, m as ela, sim , e tam bém Celeste, e Marina, e os dem ais artistas que aguardavam sua vez para entrar em cena tanto com o a oportunidade de vingar-se daquela cigana, tida por eles por soberba e egoísta, que os havia excluído dos saraus realizados pelos poderosos.

Um a tarde, enquanto as afetadas vozes dos dem ais artistas declam avam os versos com postos por Calderón para El Tuzaní de la Alpujarra, j unto ao cam arim , Milagros encontrou um j arro que ainda continha algum vinho. Percorreu com o olhar o espaço que se abria entre o cam arim e o cenário atrás do qual se m ovia Celeste em seu papel de doña Isabel. A presença do ponto, que pelo lado do cam arim perseguia a prim eira-dam a para recordar-lhe os versos, não a preocupou: o hom em parecia bastante ocupado. No entanto, foram as corridas do ponto atrás da cortina, lanterna e livreto na m ão, o que a im pediu de aperceber-se da presença de um instrum entista de viola de gam ba que perm anecia j unto às cortinas que escondiam a orquestra.

– Bebeu com desespero… do próprio j arro – contou depois o m úsico a quem quer que quisesse ouvi-lo. – Esteve a ponto de cair de costas de tanto que torceu o pescoço para tom ar até a últim a gota.

Que im portava a Milagros quem era que, a partir de então, lhe deixava todo dia um j arro de vinho no cam arim ? Talvez o próprio don José, pensou, porque ela m esm a sentia que cantava m elhor e se m ovia com m aior desenvoltura no tablado, despreocupada com os cam arins e com os hom ens que os ocupavam . “Esquecer”, repetia-se a cigana a cada gole, até que o rosto de sua m enina se esfum ava em álcool.

Bartola não tardou a aperceber-se do estado em que Milagros regressava do Príncipe; tam bém os chisperos: os dois bons j arros de vinho sem água os obrigavam a segurá-la quando descia da liteira.

– E que queres que façam os? – defenderam -se diante de Pedro. – Dão-lhe de beber no teatro.

A velha García estava cansada daquela vida, e ainda m ais porque j á não estava ali a m enina.

Só as obrigações de Milagros no Príncipe os retinham em Madri. Sentia saudade de Triana.

Pedro j á quase só punha os pés na casa da rua del Am or de Dios quando ia buscar o dinheiro que Milagros ganhava no teatro.

– Já não há quem pague por ela! – confessou-lhe um dia o cigano ao m esm o tem po que separava um as m oedas para que elas pudessem seguir vivendo. – Ganha m ais cantando e dançando que se eu a prostituísse nas ruas… e m e é m ais côm odo – acrescentou com um esgar de cinism o.

– Pedro – arguiu Bartola –, vai fazer dois anos que estam os em Madri e ao longo deste últim o ganhaste m uito dinheiro com a Vega. Por que não volvem os j á para Triana?

O cigano pôs a m ão no queixo.

– E o que fazem os com ela? – perguntou.

– Vai durar pouco – respondeu a outra.

– Pois enquanto durar, eu a aproveitarei – sentenciou.

Bartola não pensou duas vezes: ela se ocuparia de que não durasse m uito. Um dia, à custa da com ida, com prou um quartilho de vinho e o deixou na cozinha. Outro levou aguardente. E

m istela. Tam pouco faltou o arom ático hipocrás à base de aguardente ou vinho, açúcar, cravo, gengibre, canela…

Tudo ao alcance de Milagros, tudo Milagros bebia.

– Néscios!

Milagros acreditou sentir que lhe rebentava o cérebro pelo brusco m ovim ento de cabeça que fez para a cortina atrás da qual se encontrava a orquestra. “Por que não tocam bem ?”, perguntou-se à espera de que se lhe aclarasse a vista e conseguisse focar aquela parte do tablado.

“Por acaso pretendem aborrecer-m e?”, pensou.

– Néscios! – gritou de novo aos m úsicos com desaj eitados trej eitos de m ãos e braços antes de virar-se de novo para seu público.

A m úsica voltou a soar no Coliseo del Príncipe a um a indicação da cigana, m as escapou-se-lhe e sua voz pastosa ficou para trás. “Não é esta peça! Ou sim ? Procuram a m inha ruína!” Voltou-se outra vez para a cortina quando os apupos j á se elevavam no teatro. Covardes! Por que se escondiam ?

– Repeti – ordenou.

Pareceu-lhe ouvir a m úsica e tentou cantar. A voz agarrou-se-lhe à garganta, seca, ardente. As palavras se travaram entre sua língua e os dentes, presas de um a saliva viscosa, incapazes de livrar-se dela e deslizar para além . Os gritos dos mosqueteros perfuraram sua cabeça. Onde estavam ? Podia ver um , dois no m áxim o, três j á se confundiam com as luzes, com os reflexos dourados dos cam arotes e com as j oias daqueles que a haviam violado. Riam -se. Por acaso não entendiam que era culpa da orquestra? Balbuciou a prim eira estrofe da toada com voz rouca e engrolada, tentando escutar a m úsica. Prestou atenção. Sim . Soava. Dançar; tinha de dançar.

Ergueu os braços desaj eitadam ente. Não respondiam . Ficou tonta e enj oada. Tam pouco podia controlar as pernas. Caiu de j oelhos diante do público. Algo a golpeou, m as não lhe im portou em absoluto. O teatro inteiro uivava contra ela. E os aplausos? Baixou a cabeça. Deixou cair os braços dos lados. “Onde está m inha m enina? Por que a roubaram de m im ?”, soluçou.

– Malnascidos, todos! – resm ungou quando outro obj eto, m acio, pegaj oso, se chocou com seu corpo. Verm elho, com o o sangue. Ela estava sangrando? Não sentia nada. Talvez estivesse m orrendo, talvez m orrer fosse sim ples assim . Ela o desej ava. Morrer para esquecer… Sentiu que a pegavam pelos cotovelos e a arrastavam para fora do tablado.

– Milagros García – conseguiu ouvir j á no cam arim , enquanto o alcaide de teatro a segurava pelo queixo brutam ente e lhe erguia a cabeça –, estás presa.