A Rainha Descalça
I - Magnífica deusa
I
MAG NÍFICA DEUSA
Cápitulo 1
Porto de Cádiz,
7 de janeiro de 1748
No m om ento em que ia pôr pé no cais de Cádiz, Caridad hesitou. Encontrava-se j usto no final da passarela da falua que os havia desem barcado d’ A Rainha, a nau da arm ada que havia acom panhado as seis em barcações m ercantes de registro com valiosas m ercadorias do outro lado do oceano. A m ulher ergueu os olhos para o sol de inverno que ilum inava o bulício e a azáfam a que se vivia no porto: um a das em barcações m ercantes que haviam navegado com eles desde Havana estava sendo descarregada. O sol se infiltrou pelas frestas de seu surrado chapéu de palha e a ofuscou. O escarcéu a sobressaltou, e ela se encolheu assustada, com o se os gritos fossem contra ela.
– Não fique aí parada, negra! – espetou-a o m arinheiro que a seguia ao m esm o tem po que se adiantava a ela sem contem plação.
Caridad cam baleou e esteve a ponto de cair na água. Outro hom em que ia atrás dela fez m enção de tam bém adiantar-se a ela, m as então a m ulher saltou desaj eitadam ente ao cais, se afastou e voltou a parar enquanto parte da m arinhagem continuava desem barcando entre risos, pilhérias e todo tipo de apostas im pudentes acerca de qual seria a fêm ea que os faria esquecer a longa travessia oceânica.
– Desfruta de tua liberdade, negra! – gritou outro hom em quando passou j unto a ela, ao m esm o tem po que se perm itia aplicar-lhe um a surda palm ada nas nádegas.
Alguns de seus com panheiros riram . Caridad nem sequer se m exeu, tinha o olhar fixo na longa e suj a coleta que, dançando nas costas do m arinheiro e roçando seu cam isão esfarrapado ao ritm o de um cam inhar instável, se afastava em direção à porta de Mar.
“Livre?”, conseguiu perguntar-se então. Que liberdade? Observou, para além do cais, as m uralhas, onde a porta de Mar dava acesso à cidade: grande parte dos m ais de quinhentos hom ens que com punham a tripulação d’ A Rainha se ia aglom erando diante da entrada, onde um exército de funcionários – alcaides, cabos e interventores – os revistava em busca de m ercadorias proibidas e os interrogava acerca da derrota das naus, para o caso de algum a delas se ter separado do com boio e de sua rota para contrabandear e burlar a fazenda real. Os hom ens esperavam im pacientes que se cum prissem os trâm ites rotineiros; os m ais afastados dos funcionários, am parados na m ultidão, exigiam aos gritos que os deixassem passar, m as os inspetores não cediam . A Rainha, m aj estosam ente fundeada no caño do Trocadero, havia transportado em seus porões m ais de dois m ilhões de pesos e quase outros tantos em m arcos de prata lavrada, além dos tesouros das Índias, e de Caridad e don José, seu senhor.
Maldito don José! Caridad havia cuidado dele durante a travessia. “Peste das naus”, disseram que ele tinha. “Morrerá”, asseguraram tam bém . E em verdade chegou sua hora após um a lenta agonia ao longo da qual seu corpo se foi consum indo dia a dia entre trem endas inchações, febres e hem orragias. Durante um m ês, senhor e escrava perm aneceram encerrados num pequeno cam arote de ar viciado e com um a só rede, a popa, que don José, após pagar com seu bom dinheiro, conseguiu que o capitão lhe construísse com tabuões, roubando espaço ao que era de uso com um dos oficiais. “Eleggua, faz que sua alm a não descanse j am ais, que vague errante”, havia desej ado Caridad percebendo no reduzido espaço a poderosa presença do Ser Suprem o, o Deus que rege o destino dos hom ens. E, com o se seu senhor a houvesse ouvido, suplicou-lhe com paixão com seus arrepiantes olhos biliosos ao m esm o tem po que estendia a m ão em busca do calor da vida que sabia se lhe escapava. Só com ele no cam arote, Caridad lhe negou esse consolo. Por acaso não havia estendido tam bém ela a m ão quando a separaram de seu pequeno Marcelo? E que havia feito então o senhor? Ordenar ao capataz da veiga que a segurasse e gritar ao escravo negro que levasse o pequeno.
– E fá-la calar-se! – acrescentou na esplanada diante da casa-grande, onde os escravos se haviam reunido para saber quem seria seu novo senhor e que sorte os aguardava a partir de então. – Não suporto…
Don José calou-se de repente. O assom bro dos escravos era evidente em seus rostos. Caridad havia conseguido safar-se do capataz com um inconsciente bofetão e fez m enção de correr para seu filho, m as logo se deu conta de sua im prudência e se deteve. Durante uns instantes só se ouviram os agudos e desesperados gritos de Marcelo.
– Quer que a açoite, don José? – perguntou o capataz enquanto voltava a agarrar Caridad com um braço.
– Não – decidiu este após pensar. – Não quero levá-la m achucada para a Espanha.
E aquele negro grande, cham ado Cecilio, a soltou e arrastou o m enino para a cabana após um severo gesto do capataz. Caridad caiu de j oelhos, e seu choro se m isturou com o do m enino. Essa foi a últim a vez que viu seu filho. Não a deixaram despedir-se dele, não lhe perm itiram …
– Caridad! Que fazes aí parada, m ulher?
Ao ouvir seu nom e, voltou à realidade e entre o bulício reconheceu a voz de don Dam ián, o velho capelão d’ A Rainha, que tam bém havia desem barcado. De im ediato deixou cair sua trouxa, se descobriu, baixou o olhar e o fixou no surrado chapéu de palha, que ela com eçou a apertar entre as m ãos.
– Não podes ficar no cais – continuou o sacerdote ao m esm o tem po que se aproxim ava dela e a segurava pelo braço. O contato durou um instante; o religioso o rom peu aturdido. – Vam os –
instou-a com certo nervosism o –, acom panha-m e.
Percorreram a distância que os separava da porta de Mar: don Dam ián carregando um pequeno baú, Caridad com sua trouxa e o chapéu nas m ãos, sem afastar o olhar das sandálias do capelão.
– Deem passagem a um hom em de Deus – exigiu o sacerdote aos m arinheiros que se apinhavam diante da porta.
Pouco a pouco a m ultidão foi afastando-se para dar passagem . Caridad o seguia, arrastando os pés descalços, negra com o o ébano, cabisbaixa. O sim ples cam isão longo e cinzento que lhe servia de roupa, de pano grosso e tosco, não conseguia ocultar a m ulher forte e bem -form ada, tão alta com o alguns dos m arinheiros que levantaram o olhar para reparar em seu duro cabelo negro encarapinhado, enquanto outros o perdiam em seus peitos, grandes e firm es, ou em suas voluptuosas cadeiras. O capelão, sem deixar de andar, lim itou-se a levantar a m ão quando ouviu assobios, com entários desavergonhados e um que outro convite atrevido.
– Sou o padre Dam ián García – apresentou-se o sacerdote estendendo seus papéis a um dos alcaides um a vez superada a m arinhagem –, capelão da nau de guerra A Rainha, da arm ada de sua m aj estade.
O alcaide exam inou os docum entos.
– Vossa Reverendíssim a m e perm itiria inspecionar o baú?
– Bens pessoais… – respondeu o sacerdote enquanto o abria –, as m ercadorias se acham devidam ente registradas nos docum entos.
O alcaide anuiu enquanto rem exia no interior do baú.
– Algum contratem po na viagem ? – perguntou o oficial sem olhar para ele, sopesando um a barrinha de tabaco. – Algum recontro com naus inim igas ou alheias à frota?
– Nenhum . Tudo com o estava previsto.
O alcaide anuiu.
– Sua escrava? – inquiriu apontando para Caridad depois de dar por finalizada a inspeção. –
Não consta nos papéis.
– Ela? Não. É um a m ulher livre.
– Não o parece – afirm ou o alcaide plantando-se diante de Caridad, que apertou ainda m ais sua trouxa e seu chapéu de palha. – Olha-m e, negra! – resm ungou o oficial. – Que escondes?
Alguns dos outros oficiais que inspecionavam a m arinhagem pararam seu trabalho e se voltaram para o alcaide e a m ulher que perm anecia cabisbaixa diante ele. Os m arinheiros que lhes haviam aberto espaço se aproxim aram .
– Nada. Não esconde nada – protestou don Dam ián.
– Ora, padre. Todos aqueles que não se atrevem a olhar para o rosto de um alcaide ocultam algo.
– Que vai a ocultar esta desgraçada? – insistiu o sacerdote. – Caridad, dá-lhe teus papéis.
A m ulher rem exeu na trouxa em busca dos docum entos que lhe havia entregado o escrivão da em barcação enquanto don Dam ián continuava falando.
– Em barcou em Havana j unto com seu senhor, don José Fidalgo, que pretendia regressar à sua terra antes de m orrer e que faleceu durante a travessia, Deus o tenha em sua glória.
Caridad entregou seus docum entos, am assados, ao alcaide.
– Antes de falecer – prosseguiu don Dam ián–, com o é usual nos navios de sua m aj estade, don José fez testam ento e ordenou a libertação de sua escrava Caridad. Aí está a escritura de m anum issão dada pelo escrivão da capitânia.
“Caridad Fidalgo” – havia escrito o escrivão tom ando o sobrenom e do senhor m orto –,
“tam bém conhecida com o Cachita; escrava negra da cor do ébano toda ela, sã e de forte constituição, de cabelo negro encarapinhado e de aproxim adam ente vinte e cinco anos de idade.”
– Que levas nessa bolsa? – perguntou o alcaide após ler os docum entos que asseguravam a liberdade de Caridad.
A m ulher abriu a trouxa e lhe m ostrou. Um a velha m anta e um casaco de flanela… Tudo quanto possuía, a roupa que o senhor lhe dera nas últim as tem poradas: o casaco, no inverno anterior; a m anta, dois invernos atrás. Escondidos entre as peças de roupa, levava vários charutos que havia conseguido racionar na em barcação depois de roubá-los de don José. “E se os descobrem ?”, tem eu. O alcaide fez um gesto de inspecionar a trouxa, m as, ao ver as roupas velhas, fechou a cara.
– Olha-m e, negra – exigiu.
O trem or que percorreu o corpo de Caridad se fez patente para quantos presenciavam a cena.
Nunca havia olhado para um hom em branco quando se dirigia a ela.
– Está assustada – intercedeu don Dam ián.
– Eu disse que m e olhe.
– Fá-lo – pediu-lhe o capelão.
Caridad ergueu o rosto, arredondado, de lábios grossos e carnosos, nariz chato e pequenos olhos pardos que tentaram olhar para além do alcaide, para a cidade.
O hom em franziu o cenho e buscou infrutiferam ente o fugidio olhar da m ulher.
– O seguinte! – cedeu de repente, rom pendo a tensão e originando um a avalanche de m arinheiros.
Don Dam ián, com Caridad colada a suas costas, cruzou a porta de Mar, um passadiço ladeado por duas torres am eadas, e se internou na cidade. Atrás, no Trocadero, ficavam A Rainha, a nau de duas pontes e m ais de setenta canhões em que haviam navegado desde Havana, e as seis em barcações m ercantes que ela havia escoltado com seus porões repletos de produtos das Índias: açúcar, tabaco, cacau, gengibre, salsaparrilha, anil, cochonilha, seda, pérolas, tartaruga… prata.
A viagem havia sido um sucesso, e Cádiz os havia recebido com repique de sinos. A Espanha se achava em guerra com a Inglaterra; as Frotas das Índias, que até fazia alguns anos cruzavam o oceano fortem ente escoltadas por navios da arm ada real, haviam deixado de operar, assim que o com ércio se desenvolveu com as naus de registro, em barcações m ercantes particulares que conseguiam perm issão real para a travessia. Por isso a chegada das m ercadorias e do tesouro, tão necessário para os cofres da fazenda espanhola, havia despertado na cidade um am biente festivo que se vivia em todas as suas partes.
Ao chegar à rua del Juego de Pelota, deixando para trás a igrej a de Nossa Senhora do Povo e a porta de Mar, don Dam ián se afastou das m ultidões de m arinheiros, soldados e m ercadores, e se deteve.
– Que Deus te acom panhe e te protej a, Caridad – desej ou-lhe voltando-se para ela após deixar o baú no chão.
A m ulher não respondeu. Havia enfiado o chapéu de palha até as orelhas, e o capelão foi incapaz de ver-lhe os olhos, m as os im aginou fixos no baú, ou em suas sandálias, ou…
– Tenho coisas que fazer, entendes? – tentou desculpar-se. – Procura algum trabalho. Esta é um a cidade m uito rica.
Don Dam ián acom panhou suas palavras estendendo a m ão direita, com a qual roçou o antebraço de Caridad; então foi ele quem baixou o olhar por um segundo. Ao erguê-lo, topou os pequenos olhos pardos de Caridad cravados nele, tal com o nas noites de travessia, quando após a m orte de seu senhor ele se havia encarregado da escrava e a havia escondido da m arinhagem por ordem do capitão. Revirou-se-lhe o estôm ago. “Não a toquei”, repetiu pela enésim a vez a si m esm o. Nunca lhe havia posto a m ão, m as Caridad o olhara com olhos inexpressivos e ele… Ele não pôde evitar m asturbar-se por baixo da roupa diante da visão daquela fêm ea esplendorosa.
Assim que faleceu don José, cum priu-se o rito do funeral: rezaram -se três responsos, e seu cadáver foi lançado pela borda da em barcação dentro de um saco e com duas bilhas d’água am arradas aos pés. Então o capitão ordenou que se desm ontasse aquele cam arote e que o escrivão assegurasse os bens do defunto. Don José era o único passageiro da capitânia; Caridad, a única m ulher a bordo.
– Reverendo – disse ao capelão depois de dar aquela ordem –, torno-o responsável por m anter a negra afastada da tripulação.
– Mas eu… – tentou opor-se don Dam ián.
– Em bora não sej a sua, pode aproveitar a com ida em barcada pelo senhor Fidalgo e alim entá-
la com ela – sentenciou o oficial após não fazer caso ao protesto.
Don Dam ián m anteve Caridad encerrada em seu dim inuto cam arote, onde só havia lugar para a rede que pendia de lado a lado e que durante o dia ele recolhia e enrolava. A m ulher dorm ia no chão, a seus pés, debaixo da rede. Nas prim eiras noites, o capelão se refugiou na leitura dos livros sagrados, m as pouco a pouco seu olhar foi seguindo os raios da candeia que, com o se tivessem vontade própria, pareciam desviar-se das folhas de seus pesados livros para em penhar-se em ilum inar a m ulher que j azia encolhida tão perto dele.
Lutou contra as fantasias que o assaltavam à vista das pernas de Caridad quando escapavam de sob a m anta com que se cobria, de seus peitos, subindo e baixando ao ritm o de sua respiração, de suas nádegas. E, no entanto, quase involuntariam ente, com eçou a m asturbar-se. Talvez fosse o ranger dos m adeiros de que pendia a rede, talvez a tensão que veio a acum ular-se em tão reduzido espaço, o fato é que Caridad abriu os olhos e toda a luz da candeia se centrou neles.
Don Dam ián sentiu que enrubescia e ficou parado um instante, m as seu desej o se m ultiplicou diante do olhar de Caridad, o m esm o olhar inexpressivo com que agora recebia suas palavras.
– Dá-m e ouvidos, Caridad – insistiu. – Procura trabalho.
Don Dam ián pegou o baú, deu-lhe as costas e retom ou seu cam inho.
“Por que m e sinto culpado?”, perguntou-se enquanto fazia um a parada para m udar o baú de m ão. Podia havê-la forçado, desculpou-se com o sem pre que lhe atenazava a culpa. Era som ente um a escrava. Talvez… talvez nem sequer lhe houvesse sido preciso recorrer à violência. Por acaso todas aquelas escravas negras não eram m ulheres dissolutas? Don José, seu senhor, havia-o reconhecido em confissão: ia para a cam a com todas elas.
– Com Caridad tive um filho – revelou-lhe –, talvez dois, m as não, não creio; o segundo, aquele garoto desaj eitado e bobo, era tão escuro com o ela.
– Arrepende-se? – perguntou-lhe o sacerdote.
– De ter filhos com as negras? – rem exeu-se o dono de veiga. – Padre, vendia os crioulinhos num trapiche próxim o, de propriedade dos padres. Eles nunca se preocuparam com m inha alm a pecadora na hora de com prá-los.
Don Dam ián se dirigia à catedral de Santa Cruz, do outro lado da estreita língua de terra em que se assentava a cidade am uralhada fechando a baía. Antes de entrar num a rua, virou o rosto e entreviu a figura de Caridad à passagem da m ultidão: havia-se afastado até dar com as costas num m uro onde perm anecia parada, alheia ao m undo.
“Vai arrum ar-se”, disse-se forçando o passo e entrando na rua. Cádiz era um a cidade rica em que podiam encontrar-se com erciantes e m ercadores de toda a Europa e onde o dinheiro corria aos m ontes. Era um a m ulher livre e portanto tinha de aprender a viver em liberdade e trabalhar.
Percorreu um longo trecho e, quando chegou a um ponto em que as obras da nova catedral, perto da de Santa Cruz, se divisavam com nitidez, parou. Em que ia a trabalhar aquela pobre desgraçada? Não sabia fazer nada, além de labutar num a plantação de tabaco, onde havia vivido desde os dez anos, quando, procedente do reino dos lucum is, no golfo da Guiné, os m ercadores de escravos ingleses a haviam com prado por cinco m íseras varas de tecido para revendê-la no ávido e necessitado m ercado cubano. Assim havia contado o próprio don José Fidalgo ao capelão quando este se interessou pela razão por que a havia escolhido para a viagem .
– É forte e desej ável – acrescentou o dono de veiga piscando-lhe um olho. – E ao que parece j á não é fértil, o que sem pre é um a vantagem um a vez fora da plantação. Depois de dar à luz aquele m enino tonto…
Don José lhe havia explicado tam bém que era viúvo e que tinha um filho graduado que havia estudado em Madri, aonde se dirigia para viver seus últim os dias. Em Cuba possuía um a rentável plantação de tabaco num a veiga perto de Havana que ele m esm o trabalhava com a aj uda de um a vintena de escravos. A solidão, a velhice e a pressão dos açucareiros por obter terras para aquela florescente indústria o haviam levado a vender sua propriedade e voltar à pátria, m as a peste o atacou aos vinte dias de navegação e se encarniçou com sanha em sua natureza débil e doentia. A febre, os edem as, a pele m anchada e as gengivas sangrantes levaram o m édico a desenganar o paciente.
Então, com o era obrigatório nas naus do rei, o capitão d’ A Rainha ordenou ao escrivão que fosse ao cam arote de don José para dar fé de suas últim as vontades.
– Concedo a liberdade à m inha escrava Caridad – sussurrou o enferm o depois de ordenar um par de doações piedosas e de dispor da totalidade de seus bens em favor daquele filho com que não se reencontraria.
A m ulher nem sequer chegou a curvar seus grossos lábios num a m enção de satisfação ao saber que estava livre, recordou o sacerdote parado na rua.
“Não falava!” Don Dam ián recordou seus esforços por ouvir Caridad entre as centenas de vozes que rezavam nas m issas dom inicais no convés, ou seus tím idos sussurros nas noites, antes de deitar-se, quando ele a obrigava a rezar. Em que ia trabalhar aquela m ulher? O capelão era consciente de que quase todos os escravos que obtinham a liberdade term inavam trabalhando para seus antigos senhores por um m ísero salário com que dificilm ente chegavam a cobrir necessidades que antes, com o escravos, tinham garantidas, ou então acabavam condenados a pedir esm ola nas ruas, brigando com m ilhares de m endigos. E estes haviam nascido na Espanha, conheciam a terra e sua gente, alguns eram espertos e inteligentes. Com o poderia m over-se Caridad num a cidade grande com o Cádiz?
Suspirou e passou a m ão repetidas vezes no queixo e no pouco cabelo que lhe restava. Depois deu m eia-volta, resfolegou ao levantar de novo o baú e, com ele às costas, se preparou para desfazer o cam inho andado. “Que fazer agora?”, perguntou-se. Podia… podia interm ediar para que trabalhasse na fábrica de tabaco, disso, sim , ele sabia. “É m uito boa com as folhas; trata-as com carinho e delicadeza, com o deve fazer-se, e sabe reconhecer as m elhores e torcer bons charutos”, havia-lhe dito don José, m as isso significaria pedir favores e que se soubesse que ele…
Não podia arriscar-se a que Caridad contasse o que acontecera na em barcação. Nos galpões da fábrica trabalhavam cerca de duzentas charuteiras que não paravam de cochichar e criticar enquanto faziam os pequenos charutos gaditanos.
Encontrou Caridad ainda colada ao m uro, parada, desam parada. Um grupo de pirralhos zom bava dela, diante da passividade das pessoas que continuavam entrando e saindo do porto.
Don Dam ián se aproxim ou j usto quando um dos garotos se preparava para atirar-lhe um a pedra.
– Parado! – gritou.
Um rapaz deteve seu braço; a j ovem se descobriu e baixou o olhar.
Caridad se afastou do grupo de sete passageiros que haviam em barcado na nau que ia rem ontar o rio Guadalquivir até Sevilha e, cansada, tentou acom odar-se entre o m onte de volum es dispostos a bordo. A nau era um a tartana de um só m astro e bom porte que havia arribado a Cádiz com um carregam ento do valioso óleo da veiga sevilhana.
Da baía de Cádiz navegaram em cabotagem até Sanlúcar de Barram eda, onde se encontra a desem bocadura do Guadalquivir. Diante das costas de Chipiona, j unto a outras tartanas e charangas, prepararam -se para esperar a pream ar e ventos propícios para superar a perigosa barra de Sanlúcar, os tem íveis baixios que haviam convertido a zona num cem itério de em barcações.
Só quando coincidiam todas as circunstâncias precisas para enfrentar a barra, os capitães se atreviam a isso. Depois rem ontariam o rio aproveitando o im pulso da m aré, que se deixava sentir até às cercanias de Sevilha.
– Deu-se o caso de naus que tiveram de esperar até cem dias para cruzar a barra – dizia um m arinheiro que conversava com um passageiro luxuosam ente ataviado, o qual de im ediato desviou um olhar preocupado para Sanlúcar e suas espetaculares m arism as, com o se suplicasse que não tivesse a m esm a sorte.
Caridad, sentada entre uns sacos, contra a borda da em barcação, deixou-se levar pelo cabeceio da tartana. O m ar m ostrava um a calm a tensa, a m esm a que a que se apreciava em todos os que se achavam na nau, igual à que im perava nas dem ais em barcações. Não era tão som ente a espera, era tam bém o tem or de um ataque por parte de ingleses ou corsários. O sol com eçou a declinar ao m esm o tem po que as águas adquiriam um a am eaçadora cor m etálica, e as inquietas conversas de tripulantes e passageiros decaíram até reduzir-se a sussurros. A crueza do inverno se desatou com o ocaso, e a um idade invadiu Caridad, aum entando a sensação de frio. Tinha fom e e estava cansada. Estava com o casaco, tão cinza e desbotado com o seu vestido, am bos de flanela grosseira, em contraste com os dem ais passageiros que haviam em barcado com ela e que exibiam a seu bel-prazer luxuosas roupas de cores vivas. Notou que lhe batiam os dentes e que estava com a pele arrepiada, de m odo que buscou a m anta na trouxa. Seus dedos roçaram um charuto, e ela o apalpou com delicadeza recordando seu arom a, seus efeitos. Necessitava dele, ansiava perder os sentidos, esquecer o cansaço, a fom e… e até sua liberdade.
Enrolou-se na m anta. Livre? Don Dam ián a havia subido àquela em barcação, a prim eira que havia encontrado preparada para partir do porto de Cádiz.
– Vai para Sevilha – disse-lhe depois de acertar o preço com o capitão e pagá-lo de seu bolso
–, para Triana. Um a vez ali, procure o convento das Mínim as e diga que está ali de m inha parte.
Caridad haveria gostado de ter a coragem de perguntar-lhe o que era Triana ou com o encontraria aquele convento, m as ele quase a em purrou para que em barcasse, nervoso, olhando para um lado e para outro, com o se tem esse que alguém os visse j untos.
Cheirou o charuto, e sua fragrância a transportou a Cuba. Ela só sabia onde estavam sua cabana, e a plantação, e o trapiche a que ia todo dom ingo com os dem ais escravos para ouvir m issa e depois cantar e dançar até a extenuação. Da cabana à plantação e da plantação à cabana, um dia após outro, um m ês após outro, um ano após outro. Com o ia encontrar um convento?
Encolheu-se contra a borda e pressionou as costas contra a m adeira em busca do contato com um a realidade que havia desaparecido. Quem eram aqueles estranhos? E Marcelo? Que haveria sido dele? Com o estaria sua am iga María, a m ulata com quem fazia os coros? E os dem ais? Que fazia de noite num a em barcação estranha, num país desconhecido, a cam inho a um a cidade que nem sequer sabia que existia? Triana? Nunca havia ousado perguntar nada aos brancos. Ela sem pre sabia o que tinha de fazer! Não necessitava perguntar.
À lem brança de Marcelo, um edeceram -se-lhe os olhos. Tenteou em sua trouxa em busca da pederneira, do fuzil e da isca para fazer fogo. Perm itiriam que fum asse? Na veiga podia fazê-lo, era algo habitual. Havia chorado Marcelo durante a travessia. Até… até havia sentido a tentação de lançar-se ao m ar para pôr fim àquele constante sofrim ento. “Afasta-te daí, negra! Queres cair na água?”, advertiu-lhe um dos m arinheiros. E ela obedeceu e se separou da borda.
Haveria tido coragem para j ogar-se se não houvesse aparecido aquele m arinheiro? Não quis pensar no assunto um a vez m ais; em lugar disso, observou os hom ens da tartana: via-os nervosos. A pream ar havia com eçado, m as os ventos não a acom panhavam . Alguns fum avam .
Bateu com destreza o fuzil sobre a pederneira, e a isca não tardou a acender-se. Onde encontraria as árvores com cuj a casca e fungos fabricava a isca? Acendeu o charuto, aspirou profundam ente e pensou que tam pouco sabia onde poderia conseguir tabaco. A prim eira puxada tranquilizou sua m ente. As duas seguintes conseguiram que seus m úsculos se relaxassem , e caiu num a tênue tonteira.
– Negra, convidas-m e a fum ar?
Um grum ete se havia acocorado diante dela, tinha o rosto suj o m as vivaz e agradável. Por alguns instantes Caridad se deixou em balar pelo sorriso com que o rapaz esperava sua resposta e só viu seus dentes brancos, iguais aos de Marcelo quando se lançava em seus braços. Havia tido outro filho, um m ulato nascido do senhor, m as don José o vendeu assim que deixou de necessitar dos cuidados do par de velhas que se ocupavam dos filhos das escravas enquanto estas trabalhavam . Todos seguiam o m esm o cam inho: o senhor não queria m anter negrinhos.
Marcelo, seu segundo filho, concebido com um negro do trapiche, havia sido diferente: um parto difícil; um m enino com problem as. “Ninguém o com prará”, afirm ou o senhor quando, j á criado, se m anifestaram sua falta de habilidade e suas deficiências. Consentiu-se que ficasse na fazenda com o se fosse um sim ples cão, um a galinha ou algum dos porcos que criavam atrás da cabana. “Morrerá”, auguravam todos. Mas Caridad não perm itiu que isso sucedesse, m uitas foram as pauladas e chicotadas que levou quando a descobriam alim entando-o. “Nós te dam os de com er para que trabalhes, não para que cries um im becil”, repetia-lhe o capataz.
– Negra, convidas-m e a fum ar? – insistiu o grum ete.
“Por que não?”, perguntou-se Caridad. Era o m esm o sorriso de seu Marcelo. Ofereceu-lhe o charuto.
– Excelente! De onde tiraste esta m aravilha? – exclam ou o rapaz depois de prová-lo e tossir. –
De Cuba?
– Sim – ouviu-se dizer Caridad enquanto voltava a pegar o charuto e o levava aos lábios.
– Com o te cham as?
– Caridad – respondeu ela em m eio a um a baforada de fum aça.
– Gosto de teu chapéu.
O rapaz se m ovia inquieto sobre as pernas. Esperava outra tragada, que afinal chegou.
– Puxa!
O grito do capitão da tartana rom peu a quietude. Das dem ais naus se ouviram exclam ações sim ilares. Soprava vento do sul, idôneo para enfrentar a barra. O grum ete lhe devolveu o charuto e correu para unir-se aos outros m arinheiros.
– Obrigado, negra – disse-lhe apressadam ente.
À diferença dos dem ais passageiros, Caridad não presenciou a difícil m anobra náutica que requeria três m udanças de rum o no estreito canal. Ao longo da desem bocadura do Guadalquivir, em terra ou nas barcaças que se achavam am arradas em suas m argens, acenderam -se sinais lum inosos para guiar as em barcações. Tam pouco viveu a tensão com que todos enfrentaram a travessia: se o vento am ainava e ficavam no m eio de cam inho, existiam m uitas possibilidades de encalhar. Perm aneceu sentada contra a borda, fum ando, desfrutando de prazerosas cosquinhas em todos os seus m úsculos e deixando que o tabaco nublasse seus sentidos. No m om ento em que a tartana se introduziu no tem ível Canal dos Ingleses, com a torre de São Jacinto ilum inando seu rum o a bom bordo, Caridad com eçou a cantarolar ao com passo da lem brança de suas festas dom inicais, quando, depois de celebrar a m issa no engenho de açúcar m ais próxim o que dispunha de sacerdote, os escravos das diversas negradas se reuniam no barracão da fazenda a que haviam ido com seus senhores. Ali os brancos lhes perm itiam cantar e dançar, com o se fossem crianças que necessitassem espairecer e esquecer a dureza de seus trabalhos. Mas a cada som e a cada passo de dança, quando falavam os tam bores batás – a m ãe de todos eles, o grande tam bor iyá, o itótele, ou o m enor, o okónkolo –, os negros rendiam culto a seus deuses, disfarçados de virgens e santos cristãos, e recordavam com nostalgia suas origens na África.
Continuou cantarolando, alheia às im periosas ordens do capitão e ao corre-corre e azáfam a da tripulação, e o fez tal com o quando fazia dorm ir a Marcelo. Acreditou voltar a tocar seu cabelo, a escutar sua respiração, a cheirá-lo… Lançou um beij o ao ar. O m enino havia sobrevivido. Continuou recebendo gritos e bofetadas do senhor e do capataz, m as ganhou o afeto da negrada da fazenda. Sem pre sorria! E era doce e carinhoso com todos. Marcelo não entendia de escravos nem de senhores. Vivia livre e às vezes olhava nos olhos dos escravos com o se com preendesse sua dor e os anim asse a libertar-se de suas correntes. Alguns sorriam para Marcelo com tristeza, outros choravam diante de sua inocência.
Caridad puxou com força o charuto. Estaria bem -cuidado, não tinha dúvida. María, a dos coros, se ocuparia dele. E Cecilio tam bém , ainda que se houvesse visto obrigado a separá-lo dela…
Todos aqueles escravos que haviam sido vendidos j unto às terras cuidariam dele. E seu m enino seria feliz, ela o pressentia. Mas o senhor… “Oxalá sua alm a vague sem descanso eternam ente, don José”, desej ou Caridad.