A Rainha Descalça
Cápitulo 24
Havia cinco dias que estava encerrada ali. Nada podia fazer no quartucho infecto que com partilhava com um pedreiro, com a irm ã do pedreiro, que assegurava dedicar-se a lavar roupa no Manzanares, e um terceiro hóspede, sem dúvida dedicado a atividades turvas por m ais que o hom em afirm asse, com igual em penho que a lavadeira, que era talhador.
– Vou em busca do escrivão. Não saias da pousada – havia-lhe sussurrado Melchor na prim eira m anhã, quando os dem ais hóspedes ainda estavam espreguiçando-se. – Não fales com ninguém nem lhes contes de m im e m uito m enos do rapé.
Fez m enção de ir-se, m as se deteve. Apalpou a em punhadura de sua navalha e lançou um olhar assassino para os dem ais, lavadeira incluída, os três atentos a eles. Então se virou e beij ou Caridad na boca.
– Entendeste, negra? Talvez eu m e atrase, m as voltarei, não tenhas dúvida. Espera-m e e fica na cam a, para que a am iga de Pelay o não a venda com o “m eia com lim po”.
“Meia com lim po” – Caridad ignorava o significado, e Melchor tam pouco o explicou antes de descer escada abaixo – era um a expressão cunhada na Madri dos suplicantes, dos m endigos e folgazões, m alfeitores e todo tipo de pessoas que, sem recursos econôm icos, peram bulavam pela cidade grande, uns à espera de algum a m ercê real – um a renda, um em prego na adm inistração, o resultado de um pleito –, outros atentos ao ocasional negócio que os havia de enriquecer naquela m agnífica corte, e os dem ais atentos ao rateio e à venda de coisas usadas, quando não ao roubo.
Muitos deles, chegada a noite, iam a algum as casas onde por dois quartos lhes alugavam um a cam a que tinham de com partilhar com um com panheiro, desde que este fosse lim po, quer dizer, desde que não tivesse piolhos, sarna ou tinha.
Madri era incapaz de absorver a incessante im igração. Encerrada na cerca que a rodeava, para além da qual era proibida a construção, dois terços da propriedade de sua superfície eram divididos entre a Coroa e a Igrej a; o terço restante, além do que aquelas duas instituções decidiam arrendar, tinha de ser disputado pelos cerca de cento e cinquenta m il habitantes que se acum ulavam na Vila e Corte em m eados de século; além disso, tinham de fazê-lo com respeito a casas m alcom postas, de côm odos m inúsculos, escuras e carentes de qualquer conforto, fruto tudo isso da construção de “casas à m alícia”, ardil que durante os séculos anteriores haviam utilizado os m adrilenses para burlar a “regalia de aposento” pela qual eram obrigados a ceder gratuitam ente ao rei parte de suas m oradas para o uso dos m em bros da corte. Dessa form a, e apesar das pragm áticas reais acerca da qualidade nas construções que deviam ornar a capital do reino, m ais da m etade das dez m il casas que se erguiam em Madri no século anterior era de um só andar, im próprias portanto para acolher os m inistros e criados da Coroa. Já no século XVIII, com a total conversão da regalia de aposento em contribuições econôm icas, o casario de Madri foi reform ando-se e as edificações de um só andar foram reconstruídas ou sim plesm ente elevadas para acolher a im igração que não cessava de chegar à capital.
Em razão dessa necessidade nasceram as pousadas secretas, com o a que aloj ava Melchor e Caridad. Em bora a cidade dispusesse de suficientes mesones e bares, não abundavam as pousadas públicas, que além de ser caras eram constantem ente vigiadas e fiscalizadas pelos alcaides de corte e pelos aguazis durante suas rondas. Por isso surgiram as pousadas secretas, e, em bora ninguém soubesse com certeza quantas eram , sabia-se, sim , que todas se assem elhavam ao suj o e desordenado quartucho do sótão onde Caridad deixava transcorrer as horas sem um charuto para levar à boca e com que aplacar a fom e que a inconsistente olla podrida com que Alfonsa pretendia alim entar seus hóspedes não conseguia saciar, olla em que os grãos-de-bico, os nabos, as cebolas e as cabeças de alho pareciam não haver deixado lugar ao porco, ao carneiro, ao terneiro ou à galinha.
Fazia cinco dias que Melchor havia saído da pousada, e Caridad vivia sufocada pela angústia.
Haver-lhe-ia sucedido algo? Milagros e sua m ãe haviam ido desvanecendo-se em seus pensam entos à m edida que transcorriam os dias. Melchor, Melchor e Melchor. O cigano constituía sua única preocupação! Ele lhe dissera que não saísse da pousada, recordava-se ela vezes seguidas enquanto percorria o quartucho para lá e para cá, oprim ida entre aquelas paredes, nauseada pelo fedor que subia da rua. Não tinha m ais contato com o exterior que o bulício e o trânsito através de um a j anelinha no alto do sótão, m uito acim a de sua cabeça. Insultou aquela j anela inútil. Sentou-se na cam a. Ele lhe havia dito que ficasse nela… Ela sorriu com tristeza.
“Onde te m eteste, m aldito cigano?” Podia sair, m as não sabia aonde ir nem o que fazer. Não iria até os oficiais de j ustiça para denunciar o desaparecim ento de um cigano contrabandista. Além disso, Melchor tam bém lhe havia dito que não falasse dele com ninguém . Até o fulgor da falsa safira com que ele a presenteara e que ela apertava na m ão parecia haver-se apagado.
Ao longo desses dias, o pedreiro e a que se dizia sua irm ã haviam cessado com suas tentativas de obter dela algo além de um m onossílabo, m as Juan, o talhador, insistia em extrair algo e a interrogava vezes seguidas, persistente apesar do silêncio e do olhar baixo com que Caridad recebia suas perguntas.
– Onde está teu senhor? Que negócios o trouxeram a Madri?
O talhador surpreendeu Caridad regressando à pousada na m anhã do quinto dia quando j á os outros dois se haviam ido. Juan era um hom em de m eia-idade, alto, calvo, de rosto m arcado pela varíola e de dentes tão pretos com o as longas unhas que sobressaíam de seus dedos e que nesse m om ento contrastavam com o pão branco que ele segurava. Caridad não pôde im pedir que seus olhos se desviassem um breve instante para a fogaça: estava com fom e. O outro se apercebeu disso.
– Queres um pedaço?
Caridad hesitou. Que fazia ali o talhador?
– Com prei-a na Red de San Luis – disse o hom em ao m esm o tem po que a partia ao m eio e lhe oferecia um a das m etades. – Tu e eu poderíam os conseguir m uitas com o esta. Tom a –
insistiu –, não vou fazer-te nada.
Caridad não o fez. O talhador se aproxim ou dela.
– És um a m ulher desej ável. Restam poucas negras na Espanha, todas se foram branqueando.
Ela retrocedeu um par de passos até que suas costas deram contra a parede. Viu com o os olhos acesos do talhador, perfurando-a, se adiantaram à sua chegada.
– Tom a, pega o pão.
– Não quero.
– Tom a!
Caridad obedeceu e o pegou com a m ão livre da safira falsa.
– Assim é que eu gosto. Por que irias recusá-lo? Custou-m e m eu bom dinheiro. Com e.
Ela m ordiscou a m eia fogaça. O talhador a viu fazê-lo por alguns segundos antes de lançar a m ão a um de seus peitos. Não chegou a tocá-lo; Caridad o havia previsto e a afastou com um tapa. O talhador insistiu, e ela voltou a rechaçá-lo.
– Queres fazer-te de difícil para m im ? – resm ungou o hom em , ao m esm o tem po que, visivelm ente excitado, atirava o pão sobre um dos catres e esfregava as m ãos. Os dentes pretos se destacavam atrás de um sorriso im pudico.
O pão e a safira caíram no chão no m om ento em que Caridad estendeu os braços para repelir a investida do talhador. Após forcej ar, conseguiu detê-lo agarrando-o pelos pulsos. Sua própria reação a surpreendeu e a fez hesitar: era a prim eira vez que enfrentava um branco! O hom em aproveitou sua indecisão: soltou-se, gritou algo incom preensível e a esbofeteou. Não lhe doeu.
Olhou-o nos olhos. Ele voltou a golpeá-la, e ela continuou a olhá-lo. A passividade da m ulher diante de sua violência excitou ainda m ais o talhador. Caridad pensou que ele voltaria a bater-lhe, m as em vez disso se abraçou a ela e com eçou a m order-lhe o pescoço e as orelhas. Ela tentou livrar-se dele, m as não conseguiu. O hom em , frenético, agarrava-a agora pelo cabelo encarapinhado e procurava sua boca, seus lábios…
De repente a soltou e se dobrou. Ela pôs a cabeça de lado, com o se quisesse ouvir com m aior atenção o surdo e longo queixum e que surgia diretam ente da garganta do talhador. Havia-o visto com sua am iga María, a m ulata com que fazia os coros, num dom ingo de festa no engenho açucareiro: María havia perm itido que o negro que a assediava se aproxim asse dela, a abraçasse, se excitasse e então lhe havia golpeado com o j oelho nos testículos. Aquele negro se havia dobrado e uivado tal com o o talhador, com as duas m ãos segurando a entreperna. Caridad respirava com agitação enquanto buscava a safira com o olhar. Abaixou-se e estendeu o braço para pegá-la; trem iam -lhe as m ãos. Não conseguia controlá-las. A sufocação parecia querer rebentar dentro dela. Pegou a pedra, tam bém o pão, a seu lado, e se levantou, confusa diante de um acúm ulo de sensações tão novas para ela.
– Vou m atá-la!
Fixou a atenção no talhador: estava-se recom pondo e quase conseguia m anter-se erguido. Ele o faria, ele a m ataria; suas feições contraídas o proclam avam ; a navalha que brilhou em um a de suas m ãos a aguilhoou com o se j á se preparasse para cravá-la. A dona da pousada era sua única possibilidade de salvação! Caridad correu escada abaixo. A porta da habitação estava fechada.
Ela a esm urrou, m as seus golpes se viram superados pelos gritos do talhador, que descia atrás dela.
– Sua puta! Vou cortar tua garganta!
Caridad se lançou pelo últim o lanço de escada. Chocou-se com duas m ulheres ao irrom per na rua de los Peligros, um a via estreita que não passava de cinco passos. As queixas das m ulheres se enredaram naquela algaravia que ela estivera ouvindo durante cinco dias e que agora explodia em toda a sua crueza. Olhou repetidam ente para am bos os lados da rua sem saber o que fazer.
Um a das m ulheres tentava recolher um sem -fim de grãos-de-bico que se haviam esparram ado pelo chão por causa do esbarrão; a outra a insultava. As pessoas perm aneciam atentas; m uitos dos transeuntes haviam parado e contem plavam a cena, tal com o o talhador, parado na porta do edifício. Poucos passos os separavam . Trocaram um olhar. Ali, em público, Caridad tentou serenar-se: ele não se atreveria a m atá-la. No sem blante resignado do hom em , que guardou a navalha e pôs a m ão no queixo, viu que ele havia chegado à m esm a conclusão. Caridad deixou escapar o ar com um bufido, com o se o houvesse estado retendo desde que com eçara a descer pela escada.
– Sua ladra! – reverberou então entre as construções. – O pão! Ela m e roubou o pão!
Caridad correu o olhar da m eia fogaça, ainda em sua m ão, para o talhador, que sorria.
– Agarrai a ladra!
O grito que ouviu a suas costas calou seu intento de negar a acusação. Alguém tentou agarrá-
la pelo braço. Soltou-se. A m ulher que recolhia grãos-de-bico a olhava, a que a insultava se abalançou a ela, tal com o o talhador. Caridad esquivou-se da m ulher e a em purrou contra o hom em , m om ento em que aproveitou para fugir e precipitar-se rua abaixo.
Os outros saíram em sua perseguição. Ela correu, cega. Chocou-se contra hom ens e m ulheres, esquivou-se de alguns e estapeou para livrar-se de outros que pretendiam detê-la. O barulho e os gritos dos que tentavam alcançá-la a esporeavam num a corrida inconsciente. Superou a entrada da rua de los Peligros e se encontrou num a am pla avenida. Ali esteve a ponto de ser atropelada por um a luxuosa carruagem puxada por duas m ulas aj aezadas. Da boleia, o cocheiro a insultou ao m esm o tem po que estalava o látego em sua direção. Caridad cam baleou. Circulavam m ais carruagens: coches, caleças e curiosas liteiras com um a m ula adiante e outra atrás. Caridad serpenteou entre elas até que encontrou um a entrada de rua e entrou nela correndo; era com o se a gritaria houvesse aderido a seus ouvidos, ela não estava consciente de que os gritos j á haviam ficado m uito para trás.
Havia cessado a perseguição. Não valia a pena incom odar-se por um a vulgar negra que havia roubado um pedaço de pão. O talhador, pois, encontrou-se no m eio da rua de Alcalá rodeado de todo tipo de carruagens, cocheiros e lacaios, os dos nobres ataviados com libré; outros, os que acom panhavam os que, sem pertencer à nobreza, gozavam de perm issão real para utilizar coches, sem ela. Os gritos com que havia estim ulado os que até esse m om ento ele cria que o acom panhavam se afogaram em sua garganta diante do olhar de desprezo da m aioria dos cocheiros e dos lacaios que acom panhavam a pé os coches de seus senhores. Ele, um suj o e vulgar rufião, tinha m ais que perder se se fizesse notar precisam ente ali, entre os grandes.
– Afasta-te! – urgiu com ele aos gritos um cocheiro.
Um dos lacaios fez m enção de dirigir-se para ele. O talhador disfarçou e desapareceu por onde havia vindo.
Só o sufoco e a opressão que atenazavam seu peito conseguiram pôr fim à frenética corrida de Caridad. Parou, apoiou as m ãos nos j oelhos e com eçou a tossir. Superou um a ânsia de vôm ito entre um acesso de tossse e outro. Virou o rosto e só conseguiu ver algum as pessoas que espiavam antes de seguir cam inho, indiferentes. Ergueu-se e procurou o ar que lhe faltava.
Diante dela, no final de um a rua estreita, erguiam -se, um a de cada lado, duas torres coroadas por capitéis com cruzes. Na da esquerda se via tam bém um cam panário: um a igrej a. Pensou, antes de virar um a vez m ais o olhar para trás, que talvez pudesse refugiar-se nela. Ninguém a perseguia, m as ignorava onde se encontrava. Fechou os olhos com força e notou o bater acelerado de seu coração nas têm poras. Parecia-lhe que havia atravessado toda Madri. Havia-se afastado da pousada e não sabia com o regressar a ela. Não sabia onde ficava a pousada. Não sabia onde estava ela. Não sabia onde estava Melchor. Não sabia…
Bem diante de onde se encontrava, a poucos passos, viu um a grade de ferro que dava acesso a um grande pátio da parte traseira da igrej a. Estava aberta. Encam inhou-se para ela perguntando-se se a adm itiriam no tem plo. Era só um a negra descalça, suarenta e vestida com farrapos de escrava. Que responderia ao padre se ele a interrogasse? Que estava fugindo porque a acusavam de roubar pão? Um a fogaça que ainda tinha nas m ãos.
Um cheiro putrefato, m ais até que o das ruas de Madri transbordantes dos excrem entos que seus m oradores j ogavam pelas j anelas, golpeou seus sentidos quando ela transpôs a grade de ferro e chegou ao cem itério anexo à igrej a. Ninguém vigiava naquele m om ento as sepulturas. “Talvez eu estej a m ais segura aqui que na igrej a”, pensou ao m esm o tem po que se escondia entre um pequeno m onum ento funerário e um a parede de nichos. Conhecia a origem daquele fedor: era o que desprendiam os cadáveres em decom posição, com o os dos escravos fugidos, os cimarrones que às vezes encontravam entre os canaviais.
Mordeu o pão com o cheiro de m orto m isturado em sua saliva, com o se pudesse ser m astigado de tão denso que era, e se preparou para organizar os acontecim entos e pensar no que podia fazer a partir de então. Tinha tem po até o anoitecer, quando saíssem os fantasm as… e ali devia havê-los às centenas.
Não m uito longe do cem itério da paróquia de São Sebastião, onde cinco dias depois ia achar refúgio Caridad, estava a da Santa Cruz, cuj a torre de cento e quarenta e quatro pés de altura dom inava a pracinha de m esm o nom e. Era neste lugar que no sábado de Ram os, antes de proceder à sua inum ação no cem itério da igrej a, a confraria da Caridade expunha as caveiras daqueles que haviam sido condenados à m orte e degolados, após resgatá-las dos cam inhos em que se exibiam para intim idar os cidadãos. A paróquia de São Ginés se ocupava dos enforcados, e a de São Miguel, dos j ustiçados por garrote vil.
Na m esm a pracinha da Santa Cruz, sob seus pórticos, encontrava-se o m aior m ercado de m ão de obra dom éstica. Ali se postavam os criados sem trabalho e sobretudo as am as-secas e as am as de leite à espera de que fossem contratá-los. Madri necessitava de m uitas am as para a criação do cada vez m ais elevado núm ero de crianças expostas e abandonadas, m as sobretudo eram contratadas pelas m ulheres que não queriam dar de m am ar a seus filhos para não castigar seus peitos. As “vaidades da teta” cham avam -no os que propugnavam a lactância m aterna.
Mas naquela pracinha se achava tam bém um a das tabacarias para a venda de tabaco a varej o que m aiores ganhos proporcionavam à fazenda real, j unto às de Antón Martín, Rastro e Puerta del Sol, do total de vinte e duas que se contavam em Madri. A venda de tabaco se com plem entava com duas tercenas: arm azéns do Estado que vendiam a atacado, nunca m enos de um quarteirão de tabaco em pó ou em folha, razão por que só os consum idores capazes de com prar tal quantidade, com o dispêndio que isso significava, iam a elas.
Na m esm a m anhã em que deixou Caridad na pousada, Melchor verificou que a da Santa Cruz, com a venda de tabaco em pó com o única atividade, parecia m ais um a botica destinada ao fornecim ento de m edicam entos e rem édios que os que com erciavam com o incipiente m as j á incontrolável tabaco de fum aça que consum iam as classes m ais hum ildes. No centro do balcão, à vista do público, tal com o estava organizada, via-se um a balança para pesar o pó de tabaco; nas estantes das paredes se alinhavam as vasilhas de barro vidrado ou de lata que o continham e im pediam que perdesse sua fragrância, com o sucedia se guardado em bolsinhas de papel, algo que estava term inantem ente proibido.
Ram ón Álvarez, o dono da tabacaria, fechou a cara diante do cigano, de sua desbotada casaca am arela, de suas argolas nas orelhas, dos m ilhares de rugas que sulcavam seu rosto trigueiro e daqueles olhos que pareciam esquadrinhar no interior das pessoas, m as de m á vontade se prestou a falar com ele diante da insistência de Carlos Puey o, o velho escrivão público que o acom panhava e com o qual j á havia levado a cabo alguns negócios tão escuros com o frutuosos. A esposa de Álvarez ficou cuidando da loj a enquanto Carlos e Melchor seguiam a apática subida do dono da tabacaria ao andar superior do estabelecim ento, onde ficava sua residência.
Contudo, qualquer indício de suspicácia em Ram ón Álvarez desapareceu assim que cheirou um a am ostra do rapé que lhe proporcionou Melchor. Seu rosto se ilum inou à sim ples m enção da quantidade de libras de que dispunha o cigano.
– Nunca te arrependerás de negociar com igo – recrim inou o escrivão ao dono da tabacaria por seu receio inicial.
Melchor fixou o olhar no velho escrivão: com essas m esm as palavras havia dado fim à sua reunião quando, após apresentar-se em seu escritório, haviam estado tratando, por recom endação de Eulogio, da situação de sua filha Ana no presídio de ciganos de Málaga. Falou-lhe da vasilha de rapé na hora de negociar as custas e o pagam ento de seus honorários e os do tratante que seria necessário para falar com as autoridades sobre a libertação da cigana. “São caros esses tratantes, m as eles se m ovem bem na corte e sabem a quem é preciso com prar”, sentenciou Carlos Puey o.
Nesse m om ento, naquele andar que escondia o fedor das ruas de Madri nos arom as do tabaco que durante anos se havia arm azenado no térreo, Melchor reconheceu no rosto do dono da tabacaria a m esm a cobiça que o escrivão m ostrara.
– Onde tens o rapé?
Idêntica pergunta lhe havia feito o outro. O cigano, com igual gravidade, repetiu a resposta:
– Não te interessa. Está em lugar tão seguro com o pode estar teu dinheiro para com prá-lo.
Ram ón Álvarez se m oveu com diligência: conhecia o m ercado, conhecia quem poderia estar interessado naquela m ercadoria proibida e, sobretudo, conhecia quem pudesse pagar seu elevado preço. Ele não era m ais que um dono de tabacaria, a soldo da Coroa, que recebia alguns reais ao dia, com o todos os que se achavam à frente de estabelecim entos com vendas elevadas. Existiam outros, aqueles que vendiam m enores quantidades ou os que, nos povoados e por não suportarem o negócio, o soldo e os gastos de um a tabacaria, eram obrigados pela Coroa a fornecer tabaco em barracas de artigos diversos e iam à décim a: dez por cento do total vendido.
Mas, por m ais que os donos de tabacaria gozassem de posição privilegiada, pois estavam livres de encargos e obrigações, de entregas, de bagagens ou de ser convocados ao exército; isentos do pagam ento de pedágios ou barcagens e não podiam ser agravados ou ofendidos, aqueles reais eram insuficientes para adequar sua vida à pom pa e luxo dos que gozavam de prerrogativas sim ilares. Madri era um a cidade cara, e um a partida de rapé da qualidade da de Melchor era um dos m elhores negócios que podiam chegar a fazer porque, além disso, não influía sobre as vendas de pó de tabaco espanhol.
Enquanto o dono da tabacaria se dedicava a conseguir o dinheiro – “Esta m esm a noite disporei dele e fecham os o trato”, com prom eteu-se diante da possibilidade de que lhe escapasse o negócio –, Melchor se preparou para ir em busca de seus parentes.
A rua de la Com adre de Granada. Sem pre se recordaria desse nom e. Chocante; por que um a rua da capital se cham ava de form a tão estranha? Ali vivia o Cascabelero com sua fam ília, com o m uitos outros ciganos, e, se j á não o fizessem , certam ente obteria notícias. Perguntou para chegar. “Para baixo. Bastante perto”, indicaram -lhe. A rua de la Com adre pertencia à Madri hum ilde dos j ornaleiros. De am bos os lados do que não era m ais que um sim ples cam inho de terra que ia parar no barranco de Em baj adores, abriam -se com m onotonia dezenas de casas baixas e m iseráveis, de estreitas fachadas e com pequenos hortos atrás, quando não algum as outras construções que se acrescentavam às prim eiras, com os quais com partilhavam côm odos e saída. Melchor se dava conta de que ia descobrir sua presença em Madri, m as o fato era que não podia enfrentar aquela operação sozinho. Podiam roubá-lo, pura e sim plesm ente, ficar com o pote e m atá-lo.
– Continua acim a – indicou-lhe um a m ulher depois de ele percorrer a rua duas vezes sem encontrar a habitação –, e, um a vez que passes pela rua de la Esperancilla, é a segunda ou terceira casa…
E, ainda que não o roubassem , com o ia transportar o pote até Madri e m over-se com ele?
Podia contar com a aj uda de Caridad, m as não queria envolvê-la; preferia correr o risco de ser traído. Tinham de ser outros, e ninguém m elhor que alguém aparentado com ele, por pouco que fosse o sangue Vega que corresse em suas veias.
Qualquer ponta de dúvida se desvaneceu com a insondável troca de olhares que se produziu entre Melchor e o Cascabelero, am bos seguros pelos antebraços, apertando, transm itindo-se afeto, prom etendo-se lealdade. Ao m ero contato com seu parente, convertido em patriarca dos seus com o o dem onstrava o respeitoso silêncio de todos quantos rodeavam a dupla, Melchor soube que ele estava inteirado de sua sentença de m orte.
– E a tia Rosa? – interessou-se Melchor depois de eles se dizerem tudo com os olhos.
– Faleceu – respondeu o Cascabelero.
– Era um a boa cigana.
– Era, sim .
Melchor cum prim entou um por um os m em bros da extensa fam ília do Cascabelero. Sua irm ã, viúva. Zoilo, o filho m ais velho, picador de touros, apresentou-o com orgulho seu pai antes de indicar-lhe sua nora e seus netos. Duas filhas com seus respectivos m aridos, um a delas com um bebê nos braços e outros pequenos escondidos atrás de suas pernas, e o quarto, Martín, um rapaz que recebeu seu cum prim ento com expressão de adm iração.
– O senhor é o Galeote?
– Ultim am ente tem os falado bastante de ti – disse-lhe o Cascabelero enquanto Melchor assentia à pergunta e lhe palm eava o rosto.
Cerca de vinte pessoas se am ontoavam naquela pequena casa da rua de la Com adre.
Enquanto as m ulheres preparavam a com ida, Melchor, o patriarca e os dem ais hom ens se acom odaram no pequeno horto traseiro, sob um telheiro, uns em cadeiras desconj untadas, outros sobre sim ples caixotes.
– Que idade tens? – perguntou Melchor a Martín, o rapaz que apareceu pela cortininha que a m odo de porta dava acesso ao horto.
– Vou fazer quinze anos.
Melchor buscou o consentim ento do Cascabelero.
– Já és um cigano com pleto – disse-lhe ao ver que seu pai assentia –, vem conosco.
Essa m esm a tarde, no tabelionato, Carlos Puey o lhe confirm ou que o dono da tabacaria j á dispunha do dinheiro para com prar o rapé.
– Teria sido capaz de vender a esposa e a filha para consegui-lo para esta m esm a noite –
afirm ou o escrivão diante do gesto de surpresa com que o cigano recebeu a notícia. – Pela esposa pouco lhe teriam dado – brincou. – A filha, no entanto, tem lá seus encantos.
Com binaram a venda a partir das onze da noite, hora até a qual tinha de estar aberta a tabacaria.
– Onde? – perguntou Melchor.
– Na tabacaria, naturalm ente. Ele tem que verificar a qualidade, pesar o rapé… Algum problem a? – acrescentou o escrivão diante da atitude reflexiva do cigano.
Faltavam sete horas.
– Nenhum – afirm ou este.
Junto ao Cascabelero e todos os hom ens de sua fam ília, o j ovem Martín incluído, Melchor deixou Madri pela porta de Toledo. Sorriu com Caridad na m ente ao chegar ao m atagal em que perm anecia escondido o pote. “Vês que ainda está aqui, negra?”, disse-se enquanto Zoilo e seus cunhados a desenterravam . Que fariam depois de fechar o negócio? Zoilo e seu pai haviam sido taxativos.
– Desde que puseste os pés na rua de la Com adre, tem por certo que os García j á sabem que estás em Madri.
– Há Garcías aqui?
– Há, sim . Um ram o deles, sobrinhos do Conde. Vieram de Triana.
– Deve ter sido…
– Mais ou m enos enquanto estavas nas galés. Tua tia Rosa os odiava. Nós com eçam os a odiá-
los, e eles nos odeiam a nós.
– Não gostaria de criar-vos problem as – disse Melchor.
– Melchor – o patriarca lhe falou com seriedade –, nós, os Costes, e os que estão conosco te defenderem os. Pretendes que o fantasm a de tua tia venha a apalear-m e de noite? Os Garcías pensarão duas vezes antes de m eter-se nesta confusão.
Defenderiam tam bém Caridad? Ao lhe falarem da sentença, haviam incluído a m ulher; no entanto, ninguém lhe perguntou por ela; não era cigana. Enquanto estivesse em Madri, teria de andar sem pre protegido pelos hom ens do Cascabelero, viver com eles, m as duvidava de que estivessem dispostos a arranj ar problem as por causa de um a negra.
Deram um tem po até o anoitecer para regressar com o pote. Deixariam Madri, decidiu Melchor durante a espera. Deixaria acertada a questão de Ana, e eles dois iriam contrabandear com tabaco, lado a lado, sem j untar-se a partida algum a. Jam ais havia desfrutado tanto passando tabaco com o o havia feito com a negra em Barrancos! O risco… o perigo adquiria outra dim ensão diante da sim ples possibilidade de que a detivessem a ela, e isso lhe insuflava vida.
Sim . Fariam isso. De vez em quando ele voltaria a Madri, sozinho, para verificar com o andavam as negociações para libertar sua filha.
Entraram na capital pelo vão de um a casa que fazia as vezes de cerca. Nem sequer pagaram .
– Outro picador de touros – explicou o Cascabelero.
Dirigiram -se à pracinha da Santa Cruz carregando o pote. Se alguém na escuridão das ruas de Madri teve a tentação de ficar com aquele tesouro, certam ente desistiu diante do cortej o que o acom panhava.
Já depois das onze da noite, Melchor e seus ciganos se achavam no andar superior da tabacaria, sérios e em silêncio, am eaçadores, tanto com o os dois acom panhantes que havia conseguido o dono da tabacaria. Este e sua esposa verificaram a qualidade e pesaram com satisfação as libras de rapé. Ram ón Álvarez anuiu e, em silêncio, entregou a Melchor um a bolsa com o dinheiro. O cigano esparram ou as m oedas sobre um a m esa e as contou. Depois tom ou algum as de ouro e as ofereceu ao escrivão.
– Quero a m inha filha, Ana, livre em um m ês – exigiu.
Carlos Puey o não se deixou am edrontar nem pegou o dinheiro.
– Melchor, m ilagres só ali em frente, atravessando a pracinha, na igrej a da Santa Cruz. –
Am bos enfrentaram seus olhares por um instante. – Farei tudo quanto estiver ao m eu alcance –
acrescentou o escrivão –, é o m áxim o que posso prom eter-te. Eu te disse isso diversas vezes.
O cigano hesitou. Virou-se para Zoilo e para o Cascabelero, que deram de om bros. Havia-o recom endado Eulogio, e ele lhe havia parecido um a pessoa capaz de m exer-se – a rápida venda do rapé era um a boa prova disso –, m as, chegado o m om ento da entrega de dinheiro, sua confiança fraquej ava. Pensou em Ana encarcerada em Málaga e no rechaço de sua am ada neta, Milagros, unida aos Garcías por m atrim ônio, e se disse que aquele dinheiro tinha pouca im portância. Muito podia conseguir se os seus necessitassem !
– De acordo – cedeu.
A tensão desapareceu assim que o escrivão estendeu a m ão e Melchor deixou cair nela as m oedas. Depois, ali m esm o, entregou outras aos Costes, sem esquecer o j ovem Martín, que só se atreveu a pegá-las quando seu pai lhe fez um gesto afirm ativo.
– Será preciso com em orá-lo! – ergueu a voz Zoilo.
– Vinho e festa – acrescentou um de seus cunhados.
O dono da tabacaria pôs as m ãos na cabeça, e sua m ulher em palideceu.
– A ronda… os alcaides… – advertiu o prim eiro. – Se nos encontram com rapé… Silêncio, eu vos peço.
Mas os ciganos não se calaram .
– Melchor, aí em frente – interveio então o escrivão apontando para um lado – ficam o cárcere de Corte e a Sala de Alcaides. Ali há aguazis e é onde se reúnem as rondas. Excetuando o palácio do Buen Retiro, com o rei e seus guardas, estais escolhendo o lugar m enos indicado da cidade para arm ar bulha.
Melchor e o Cascabelero com preenderam e calaram com gestos de m ão os ciganos. Depois, em purrados pelo dono da tabacaria e sua esposa, deixaram o edifício sem poder reprim ir alguns com entários e risos baixos.
– Em alguns dias passarei por teu tabelionato para saber dos trâm ites da questão de m inha filha – advertiu Melchor ao escrivão, protegido este j unto ao dono da tabacaria atrás da porta do estabelecim ento.
– Não tenhas tanta pressa – respondeu aquele.
Melchor se preparava para replicar quando a porta se fechou e eles ficaram diante da m aj estosa construção – dois andares m ais o sótão e três grandes torres coroadas por capitéis –
destinada a ser cárcere de Corte e Sala de Alcaides, ali onde se adm inistrava j ustiça. Haviam -na evitado e circundado ao chegarem carregando o pote e agora perceberam que o escrivão tinha razão: por seus arredores se m oviam os aguazis que iam e vinham , com varas grossas nas m ãos e ataviados com traj es de golilha, com o os que se usavam em épocas anteriores, o pescoço ereto e aprisionado nas tiras de papelão forrado, e que haviam sido proibidos pelo rei ao com um das pessoas.
– Vam os divertir-nos com os j ovens – propôs o Cascabelero a Melchor.
O Galeote hesitou. Caridad o estaria esperando.
– Tens algo m elhor para fazer? – insistiu o outro.
– Vam os – cedeu Melchor, incapaz de dizer-lhe que o esperava um a negra, por bela que esta fosse. Afinal de contas, no dia seguinte deixariam Madri.
Postaram -se j unto a um a das paredes da igrej a da Santa Cruz, ali onde, acim a do nível da rua de Atocha, se erguia o átrio que dava acesso ao pórtico principal do tem plo e no qual dorm iam alguns pobres-diabos que não deviam ser de nenhum interesse para os aguazis. A um sinal de Zoilo, esgueiraram -se circundando o átrio e dirigiram -se rua Atocha abaixo. Sabiam que corriam um risco: nas ruas de Madri, depois da m eia-noite (hora que os sinos j á haviam anunciado fazia tem po), todo cidadão que fosse surpreendido arm ado, com o estavam eles, e sem candeia que ilum inasse seus passos, devia ser detido. No entanto, quando deixaram para trás o átrio do convento dos Trinitários Calçados e se achavam longe do cárcere e de seus m uitos funcionários, com eçaram a falar com indolência, certos de que nenhum a ronda ia atrever-se com seis ciganos.
Riram às gargalhadas ao atravessar a pracinha de Antón Martín, onde am iúde se postava um dos alcaides de guarda, e continuaram descendo despreocupadam ente a rua de Atocha sem fazer caso de hom ens e m ulheres bêbados, tropeçando em m endigos deitados no chão e chegando até a desafiar aqueles que eles reconheciam em buçados em suas capas longas, os rostos ocultos na noite sob chapéus de aba larga, postados à espera de algum incauto a quem assaltar.
No final da rua, passaram pelo Hospital Geral e se internaram no prado de Atocha. Naquele lugar, a cerca que rodeava Madri não term inava com os últim os prédios da cidade, m as se abria por trás de hortos e olivais para vir a rodear o lugar real do Buen Retiro com suas m uitas construções e j ardins anexos. Não tardaram a ouvir a m úsica e o alvoroço: os vizinhos de Lavapiés e do Rastro se j untavam nos descam pados para beber, dançar e divertir-se.
Levavam dinheiro. A preocupação com Caridad desapareceu em Melchor ao ritm o da festa, do vinho, da aguardente ou até do chocolate, de Caracas, ouviu Melchor o Cascabelero exigir, o m elhor, com açúcar, canela e um as gotas de água de flor de laranj eira. Com eram os doces que
os vendedores am bulantes anunciavam : rosquilhas, “tontas” ou “listas”, [ 5 ] segundo as adoçassem ou não com um banho de açúcar, clara de ovo e suco de lim ão; bartolillos ao crem e e os deliciosos barquilhos que os vendedores apregoavam . À vista de um as bolsas que pareciam não m inguar por m ais m oedas que saíssem de seu interior, j untaram -se a eles outros ciganos e algum as m ulheres com que os hom ens não foram além do flerte, j á que o patriarca estava sem pre atento à honra de suas filhas.
– Vai tu – anim aram no entanto os dem ais ao j ovem Martín –, tens dinheiro e és solteiro.
Desfruta dessas payas!
Mas o cigano se desculpou e perm aneceu j unto a Melchor, o Galeote que havia sobrevivido à tortura e que contrabandeava tabaco, capaz de m atar seu próprio genro pela honra dos Vegas.
Martín o escutava com atenção, rindo de suas brincadeiras, sentindo-se orgulhoso quando se dirigia a ele. Ao longo da noite, Melchor e Martín falaram dos Vegas, da honra, do orgulho, da liberdade, da ciganaria e de que com o teria agradado ao cigano de Triana que sua neta escolhesse alguém com o ele em lugar de um García. “Devia estar perturbada”, alegava Melchor.
“Certam ente”, assentia o rapaz. Fandangos e seguidilhas os acom panharam até o am anhecer j unto a todo tipo de pessoas. Os ciganos, ataviados com suas roupas coloridas, m isturaram -se a
“m anolos” e “m anolas”, eles com sua j aquetinha e seu colete coloridos, faixa de seda, calção apertado, m eia branca, sapato com grande fivela quase na ponta, capa franj ada e m onteira,
sem pre arm ados com um a boa navalha e um perene charuto na boca; as m ulheres: jubón, [
6 ] brial e vasquinha, cheia de babados, touca ou m antilha e sapato de seda.
Melchor sentiu falta do sentim ento cigano, m ais que seus acom panhantes; o feitiço daquelas vozes quebradas que surgiam espontâneas do canto m ais inesperado da ciganaria do Horto da Cartuxa. No entanto, a alegria e a anim ação continuaram ressoando em seus ouvidos quando a m úsica cessou e a luz do dia veio encontrá-los num prado em que j á só peram bulavam os retardatários.
– Estais com fom e? – perguntou então Zoilo.
Saciaram o apetite no mesón de San Blas, na m esm a rua de Atocha, entre carroceiros, arrieiros e com etas de Múrcia e da Mancha, que eram os que paravam naquele lugar. Tal com o haviam feito durante a festa da noite anterior, alardearam -se de sua bolsa e m ataram o tem po com pão com m anteiga em fatias previam ente torradas, m olhadas em água, fritas com a m anteiga e polvilhadas de açúcar e canela. Depois prosseguiram com frango guisado em m olho feito com seu próprio fígado am assado até ficar pronto o prato principal: um a bela cabeça de cordeiro partida ao m eio, tem perada com salsinha, alhos socados, sal, pim enta e fatias de toucinho por baixo das cartilagens, am arrada de novo para ser assada envolta em folhas de papel pardo. Deram cabo dos m iolos, da língua, dos olhos e das carnes aderidas, algum as tenras, outras gelatinosas, tudo isso regado a vinho de Valdepeñas, forte e encorpado, sem aguar, com o correspondia àquele mesón repleto de hom ens suj os e barulhentos que os olhavam de soslaio com a invej a patente no rosto e nos trej eitos.
– Um a rodada para todos os presentes! – gritou Melchor, saciado, calibrado pelo vinho.
Antes que aqueles hom ens pudessem agradecer a generosidade, um grito retum bou no local:
– Não querem os beber teu vinho!
Melchor e o Cascabelero, sentados de costas, perceberam a tensão no rosto de Zoilo e de seus dois cunhados, estes diante da porta. Martín, j unto a Melchor, foi o único do grupo que virou o rosto.
– Não acreditava que fossem tão rápidos – com entou o patriarca com Melchor.
A m aioria dos clientes, fascinados diante da briga que se avizinhava, arrincoou-se no lado oposto àquele onde se achavam os ciganos e abriu espaço para os recém -chegados. Poucos foram os que abandonaram o local. O Cascabelero e Melchor m antinham o olhar para a frente.
– Quanto antes, m elhor – disse este ao m esm o tem po que continha um suspiro por não se haver retirado antes. Se o tivesse feito, estaria com Caridad, a salvo. Ou não? Talvez não, quem podia saber? Estalou a língua. – O que está feito, feito está – m urm urou para si.
– Que dizes?
– Que estão a nos esperar – respondeu o Galeote pondo-se em pé, a m ão j á no cabo da navalha.
O Cascabelero o im itou, os dem ais tam bém . Os Garcías deviam ser oito, talvez m ais, não se podia saber com certeza ao vê-los aglom erados na porta.
– Estúpidos! – cuspiu Melchor assim que cruzou o olhar com o que parecia o chefe do grupo.
– O vinho pago por um Vega só irá m olhar os túm ulos dos Garcías, ali onde todos vós deveríeis estar.
– Manuel – ouviu-se da boca do Cascabelero, j á rodeado por sua gente –, vais com eter o m aior erro de tua vida.
– A lei cigana… – tentou replicar este.
– Para j á de falar! – interrom peu-o Melchor. – Vem atacar-m e se tens colhões.
Um dos ali presentes apoiou a bravata.
O estalar das navalhas abrindo-se ao m esm o tem po irrom peu no interior do mesón; as lâm inas brilharam ainda na penum bra.
– Por que…? – com eçou a perguntar o Cascabelero a Melchor.
– Aqui não têm espaço suficiente – respondeu o outro. – Estarem os m ais ou m enos igualados.
Fora nos m assacrariam .
Tinha razão. Por m ais que os Garcías afastassem m esas e cadeiras à sua passagem , seu grupo não pôde chegar a abrir-se diante dos Vegas. Seis contra seis, sete no m áxim o. “O restante virá depois”, pensou Melchor ao lançar a prim eira navalhada, que cortou com assom brosa facilidade o antebraço do García que ele tinha diante de si. Os dem ais seguiam m edindo-se, sem chegar a entrar em luta. Então ele se deu conta de outra circunstância ainda m ais im portante: eles não sabiam pelej ar. Aqueles ciganos não haviam percorrido serras e cam pos; viviam em Madri, acom odados, e suas pendências não eram contra contrabandistas ou delinquentes que lutavam com sanha, desprezando até sua própria vida. Lançou outra navalhada, o braço estendido, e o García ferido retrocedeu até em purrar o parente que tinha atrás de si.
Contudo, um suor frio ensopou as costas de Melchor naquele preciso instante. Martín!
Perm anecia a seu lado, com o sem pre, e, enquanto o restante continuava sem decidir-se, entreviu que o j ovem se lançava transtornado, cego, sobre outro dos Garcías. A navalha! Ele não dom inava…! Ouviu o uivo aterrorizado que surgiu de boca do Cascabelero quando o golpe do adversário feriu o pulso de seu filho m ais novo e o desarm ou.
– Parados! – gritou Melchor j usto no m om ento em que o García se dispunha a atacar o pescoço do rapaz.
A navalha se deteve. O m undo inteiro pareceu deter-se para Melchor. Deixou cair sua arm a e esboçou um sorriso triste em direção ao rosto atem orizado do j ovem cigano Vega.
– Aqui m e tendes, seus cães m alnascidos – rendeu-se então, abrindo os braços.
Não o olhou, não quis hum ilhá-lo, m as soube que o Cascabelero m antinha a vista no chão, talvez em sua própria navalha. Aproxim ou-se dos Garcías, e antes que estes se atirassem sobre ele, teve oportunidade de revolver o cabelo de Martín.
– O sangue dos Vegas tem de continuar vivendo em ti, não nos velhos com o eu – sentenciou antes que o tirassem do mesón entre insultos, pontapés e em purrões.
Não ousou pigarrear para não ser descoberta por m ais que sentisse o fedor de m orto colado à sua boca ressecada. A noite prim averil lhe havia caído em cim a, e ela estava com sede, com m uita sede, um a ânsia que no entanto desaparecia assim que a m ais suave das brisas acariciava seu corpo e eriçava seu pelo; ela então trem ia sentindo-se assediada pelos fantasm as que, estava convencida, surgiam dos m uitos túm ulos daquele cem itério. E, enquanto os hom ens situados atrás da lápide contra a qual Caridad se protegia faziam suas apostas e bolos em sussurros que a ela pareciam uivos, os calafrios pelo contato com os m ortos-vivos se sucediam sem parar.
Haviam entrado no cem itério j usto quando ela se preparava para deixá-lo para correr em busca de um a fonte em que saciar a sede. Cinco, seis, sete hom ens, não chegou a contá-los, aos quais o próprio sacristão deu passagem ; depois, ao longo da noite, ouviu que alguns abandonavam o cem itério, provavelm ente lim pos de seu dinheiro, e que outros se j untavam ao grupo. Um sim ples candeeiro sobre um a cruz funerária ilum inava a lápide sobre a que estavam j á havia um as duas horas j ogando cartas. O sacristão vigiava a passagem da ronda pela rua. Duas vezes os advertiu da proxim idade dos aguazis, e, na repentina e m ais absoluta escuridão, Caridad prendeu a respiração, com o todos eles, até que o perigo passasse e se retom asse o j ogo proibido.
Foi naquelas duas ocasiões, a tênue ilum inação do candeeiro atalhada entre pressas e tem ores, que Caridad sentiu com m ais ím peto a presença dos espíritos. Rezou. Rezou a Oxum e à Virgem da Caridad do Cobre, porque os m ortos não só descansavam em seus túm ulos, m as estavam m isturados na terra sobre a qual ela se sentava, a m esm a terra com que havia brincado para passar o tem po, aquela sobre a qual lhe havia caído o resto da fogaça que ela havia lim pado distraidam ente antes de continuar m ordiscando-a. Ouvira-o da boca dos j ogadores furtivos:
– Este cheiro é insuportável – sussurrou um deles.
– Precisam ente por isso estam os aqui – obteve com o resposta. – Este é o pior de Madri.
Pouca gente se aproxim a.
– Mas tanto… – quis insistir o prim eiro.
– Podes ir para outro cem itério se quiseres – replicou um a voz diferente, calm a. – O de São Sebastião é o m elhor para burlar a proibição de j ogar. Aqui não cabem os m ortos, e cada prim avera se faz um a lim pa, a últim a foi há poucos dias: retiram os cadáveres que estão enterrados há dois anos e os transladam para a vala com um , m uitos dos restos se m isturam com a terra e ninguém dá a m enor im portância. Por isso cheira assim : a m orto, cacete! Jogas ou não j ogas?
E Caridad não podia fazer nada para livrar-se de todos esses m ortos que a rodeavam , do fedor que lhe arranhava a garganta e a m ergulhava em escuros presságios. Melchor! Que haveria sido dele? Por que a havia abandonado na pousada? Algo grave devia ter-lhe sucedido, ou não?
Podia… haveria sido capaz o cigano de…? Não. Com certeza que não. O últim o beij o que lhe dera antes de despedir-se e os m om entos felizes de Barrancos chegavam em tropel à sua m ente para afugentar essa possibilidade. E enquanto isso, tal com o fizera em Triana, em silêncio, com a m ão apertada sobre a pedra com que ele lhe havia presenteado, tentava concentrar-se e localizar seus deuses: “Eleggua, vem a m im , diz-m e se Melchor ainda vive, se está sadio.” Mas todos os seus esforços eram vãos, e ela sentia que os fantasm as a apalpavam … De repente deu um salto.
Levantou-se do chão com o se um a grande besta a houvesse lançado para o céu. Tem eu que fossem os m ortos que viessem buscá-la. Esfregou com força o cabelo, o rosto, o pescoço… Um viscoso líquido quente ensopava sua cabeça.
– Virgem santíssim a! – ressoou no cem itério. – Que é isto!
A exclam ação surgiu do hom em que trepado no túm ulo atrás de cuj a lápide se escondia Caridad e que, de resto, nem sequer ousou m exer-se, surpreso, aterrorizado, incapaz de reconhecer na escuridão o que era aquela m ancha negra que se m ovia com frenesi. O j ato de urina que conseguiu o que não haviam conseguido os espíritos, que Caridad revelasse seu esconderij o, dim inuiu paulatinam ente até converter-se num fiozinho.
Caridad tardou tanto a reagir com o o hom em a adaptar sua visão à escuridão. Quando am bos o conseguiram , encontraram -se frente a frente: ela cheirando o braço ao com preender o que havia sucedido; ele com o pênis, agora encolhido, ainda na m ão.
– É um a negra! – ouviu-se então de um dos j ogadores que haviam acorrido com o escarcéu.
– Mas que negra – acrescentou outro.
Um sorriso apareceu no rosto de Caridad, que m ostrou seus dentes brancos na noite. Apesar do asco que sentia, esses eram hum anos, não fantasm as.
Ali parada diante os hom ens, o candeeiro nas m ãos de um deles ilum inando-a, os com entários se sucederam :
– E o que fazia aí escondida?
– Agora entendo m eu azar.
– Tem um as boas tetas a diaba!
– O que tens não é azar. Nem sequer consegues aguentar as cartas na m ão.
– Falando de m ãos, vais ficar a noite com elas abanando?
– Que fazem os com a negra?
– Nós?
– Que vá lavar-se. Está encharcada de urina!
– Às negras pouco im porta.
– Senhores, as cartas nos esperam .
Um m urm úrio de aprovação se ergueu dentre os hom ens, e, sem dar m aior im portância à presença de Caridad, deram -lhe as costas para voltar a reunir-se em torno do túm ulo sobre o qual j ogavam .
– Um pouco m ais abaixo, seguindo pela rua de Atocha, na pracinha de Antón Martín, encontrarás um a fonte. Ali poderás lavar-te – disse o hom em que havia urinado sobre ela e que acabava de esconder o m em bro dentro do calção.
Caridad virou o rosto à m enção da fonte: a trem enda sensação de sede que a havia vindo inquietando e a secura de sua boca apareceram de novo, j unto à im periosa necessidade de lavar-se. O j ogador se preparava para voltar para seus com panheiros quando Caridad o interrom peu.
– Onde? – perguntou.
– Na pracinha de… – com eçou a repetir antes de com preender que Caridad não conhecia Madri. – Escuta: sais do cem itério e dobras a esquina para a esquerda… – Ela anuiu. – Pois bem .
É esta rua estreita aqui de trás. – Apontou para a parede de nichos que fechava o cem itério. – A del Viento. Continuas andando e circundas a igrej a, sem pre para a esquerda, e chegarás a um a rua m aior, e essa é a de Atocha. Desces por ela e encontrarás a fonte. Não há erro. Está m uito perto.
O hom em não esperou resposta e tam bém lhe deu as costas.
– Ah! – exclam ou não obstante, virando a cabeça –, e sinto m uito. Não sabia que estavas escondida aí.
A sede estim ulou Caridad.
– Adeus, negra – ouviu que lhe diziam os j ogadores quando se esgueirava a passos largos do cem itério, diante do olhar estranhado do sacristão que vigiava.
– Lim pa-te bem .
– Não digas a ninguém que nos viste.
– Sorte!
“Duas vezes à esquerda”, repetiu-se Caridad ao circundar o cam panário e a igrej a de São Sebastião. “E agora descer pela rua grande.” Superou um a nova entrada de rua e à luz dos candeeiros de dois edifícios vislum brou a pracinha e, em seu centro, a fonte: um alto m onum ento coroado por um anj o, estátuas de crianças abaixo e a água brotando da boca de grandes peixes.
Caridad não pensou em outra coisa além de lavar-se e saciar a sede. Não se fixou num par de em buçados que se escondiam do resplendor das tochas de duas grandes construções. Eles, no entanto, não tiraram o olho de cim a dela quando ela entrou no tanque da fonte para aproxim ar os lábios do cano que surgia da boca de um dos delfins. Bebeu, bebeu copiosam ente enquanto os dois hom ens se aproxim avam dela. Depois, j á m olhados as pernas e o que estava de baixo de seu cam isão de escrava, aj oelhou-se, pôs a cabeça sob o j orro e deixou que a água fresca corresse por sua nuca e seu cabelo, por seus om bros e por seus peitos, sentindo que se purificava, que se livrava da suj eira e de todos os espíritos que a haviam assediado no cem itério. Oxum ! O orixá do rio, o que reina sobre as águas; eram m uitas as vezes que lhe havia prestado tributo em Cuba, lá na veiga. Levantou-se, ergueu a vista para o céu, acim a do anj o que coroava a fonte.
– Onde estás agora, m inha deusa? – suplicou em voz alta –, por que não vens até m im ? Por que não m e possuis?
– Se não o fizer ela, eu adorarei fazê-lo.
Caridad se virou surpresa. Os dois hom ens, ao pé da fonte, abriram sobrem aneira os olhos num olhar libidinoso diante do corpo que se lhes m ostrava sob o ensopado cam isão cinzento que aderia a seus voluptuosos seios, a seu estôm ago e a suas largas cadeiras.
– Posso dar-te roupa seca – ofereceu o outro.
– Mas prim eiro terás de tirar essa – riu o prim eiro em tom descarado.
Caridad fechou os olhos, desesperada. Fugia de um talhador que havia querido forçá-la e agora…
– Vem aqui – incitaram -na.
– Aproxim a-te.
Não se m exeu.
– Deixai-m e tranquila.
Seu pedido ficou entre o rogo e a advertência. Escrutou o lugar para além deles: solitário, escuro.
Os dois hom ens se consultaram com o olhar e concordaram com um sorriso, com o se se propusessem um j ogo vulgar.
– Não tenhas m edo – disse um .
O outro agitou a m ão, cham ando-a a aproxim ar-se.
– Vem com igo, negrinha.
Caridad retrocedeu para o centro da fonte até que suas costas deram contra o m onum ento.
– Não sej as néscia, vais ter um bom m om ento conosco.
Um saltou para cim a do tanque.
Caridad olhou para am bos os lados: não podia escapar, estava presa entre dois dos grandes golfinhos de que surgia a água.
– Para onde irias? – perguntou o outro hom em ao dar-se conta de suas intenções, ao m esm o tem po que tam bém saltava para o tanque, pelo lado oposto, fechando-lhe qualquer possibilidade de fugir. – Certam ente não tens para onde ir.
Caridad se apertou ainda m ais contra o m onum ento e notou a pedra arranhando suas costas j usto antes que os dois ao m esm o tem po saltassem sobre ela. Tentou defender-se a pontapés e socos, com a j oia falsa de Melchor presa em seu punho. Não conseguiu. Gritou. Agarraram -na, e ela sentiu noj o ao ouvi-los rir às gargalhadas, com o se não bastasse forçá-la e tivessem de hum ilhá-la ainda m ais com suas zom barias. Manusearam -na e puxaram seu cam isão, pelej ando para despi-la: um tentava rasgar a peça de roupa, o outro pretendia tirá-la pela cabeça. Notou que lhe cravavam as unhas na entreperna e lhe apertavam os peitos enquanto continuavam rindo e cuspindo safadezas…
– Alto lá! Quem está aí?
De repente se sentiu sozinha; o cam isão sobre o rosto a im pedia de ver. O violento chapinhar dos hom ens correndo lhe indicou que fugiam . Quando tirou o cam isão dos olhos, viu-se diante de dois hom ens vestidos de preto ilum inados pela candeia que trazia um deles. O outro levava um bastão na m ão. Am bos exibiam rígidos papelões que pretendiam ser brancos no pescoço.
– Tapa-te – ordenou-lhe o da candeia. – Quem és? – inquiriu enquanto ela se esforçava por cobrir um de seus peitos à m ostra. – Que estavas fazendo com esses hom ens?
Caridad baixou o olhar à água. O tom autoritário do branco a levou a reagir com o fazia na veiga. Não respondeu.
– Onde vives? Em que trabalhas?
– Acom panha-nos – decidiu o outro com voz cansada diante do infrutífero interrogatório, ao m esm o tem po que tam borilava com a vara no tanque.
Dirigiram -se rua de Atocha abaixo.
5 Listas: espertas. [N. do T.]
6 Jubón: tipo fem inino de gibão, antiga veste m asculina. [N. do T.]