A Rainha Descalça
Cápitulo 22
Podia desaparecer pura e sim plesm ente, com o fazia em Triana. Quem lhe havia pedido explicações algum a vez? Poderia fazê-lo nesse m esm o m om ento em que Nicolasa estava em Jabugo. Ela voltaria, encontraria o casebre vazio e com preenderia que as am eaças afinal se haviam cum prido. “Não m e disseste que nunca confiasse num cigano?”, “Mentes”, “Ficarás com igo”… Essas eram as réplicas da m ulher, em algum as ocasiões com o se quisesse tirar im portância às am eaças de Melchor, e em outras com o se buscasse em seus olhos suas verdadeiras intenções. Ele lhe havia dito que o deixasse m orrer. Ele lhe havia dito isso! Estava disposto a isso. Advertiu-a de que a abandonaria, e ela decidiu não lhe fazer caso: o transladou para o casebre, agonizante, isso lhe contou Nicolasa assim que recuperou a consciência após m uitos dias de febres e de roçar a m orte. Havia procurado, disse-lhe tam bém , um cirurgião, com o qual gastou todo o dinheiro do Gordo que restava a Melchor.
– Todo? – gritou Melchor do colchão em que se achava prostrado. A dor pela perda de sua bolsa foi superior à lacerante rasgadura que sentiu nas suturas da ferida.
– Os cirurgiães não querem tratar de ciganos – respondeu-lhe ela. – Afinal de contas, que te im porta? Se houvesses m orrido, tam pouco o terias. Fiz o que considerei oportuno.
– Mas haveria m orrido rico, m ulher – queixou-se ele.
– E?
– Quem sabe o que há após a m orte? Com certeza aos ciganos perm item vir pegar o que é nosso para pagar ao diabo.
Dois m eses depois, quando Nicolasa pôde carregá-lo desde o colchão até a cadeira posta na entrada do casebre para que recebesse o ar da serra e o cirurgião deixou de visitá-lo por considerá-lo curado, a m ulher confessou a Melchor que tam bém havia tido de entregar-lhe o cavalo do Gordo… e suas duas m oedas de ouro.
– Am eaçou denunciar tua presença ao aguazil.
Enfurecido, Melchor fez m enção de levantar-se da cadeira, m as nem sequer conseguiu m over as pernas e esteve a ponto de cair no chão. Os cães latiram antes que Nicolasa o repreendesse.
Voltar a andar com certa desenvoltura lhe custaria outros dois m eses.
– Espera que chegue a prim avera – recom endou-lhe ela diante de um a nova tentativa de partir. – Ainda estás m uito fraco, o inverno é duro, e a serra, perigosa. Os lobos estão fam intos.
Além disso, talvez haj am libertado os teus; dá-te um tem po.
Nicolasa lhe fora transm itindo as notícias que lhe davam em Jabugo acerca da sorte dos ciganos; m ochileiros e contrabandistas sabiam de coisas. Prim eiro se viu obrigada a confirm ar-lhe aquelas palavras do Gordo que por pouco não lhe haviam custado a vida: sim , todos os ciganos do reino haviam sido detidos ao m esm o tem po; Sevilha e com ela Triana não haviam sido exceção. Melchor não lhe perguntou por que não lhe havia dito isso então: j á sabia a resposta. Em novem bro, no entanto, Nicolasa, sim , correu para contar-lhe a boa-nova: estavam libertando-os!
– É verdade – reiterou. – As pessoas falam de partidas de ciganos de Cáceres, Truj illo, Safra ou Villanova de la Serena que voltaram a seus povoados e ao tabaco. Viram -nos e falaram com eles.
“Dá-te um tem po”, voltou a suplicar-lhe aquele dia.
Nicolasa só pedia tem po. “Para quê?”, perguntava-se a m ulher sem achar resposta. Melchor estava decidido; via-o em seus olhos, nos esforços que o preguiçoso cigano, que antes deixava transcorrer as horas sentado à porta do casebre, fazia para voltar a andar; na m elancolia que se podia tocar nele quando perdia a vista no horizonte. E ela? Só rezava pelo dia seguinte… rezava para que, ao regressar de onde quer que houvesse ido, o encontrasse ali. Em segredo, havia ordenado aos cães que ficassem com Melchor, m as os anim ais, sensíveis a seu desassossego, não lhe obedeciam e se colavam a suas pernas, com o que lhe prom etendo que eles nunca lhe falhariam . Para que queria aquele tem po, perguntava-se, se quando tinha um pressentim ento ruim vivia correndo da pocilga ou do saladeiro para verificar, escondida, que ele ainda não a havia abandonado? Mas o am ava; havia chorado por ele as lágrim as que havia negado a seus próprios filhos durante os eternos dias em que se vira obrigada a velar suas febres e delírios, havia-o alim entado com o a um passarinho, havia-lhe lavado o corpo e curado o ferim ento e as feridas, m il prom essas a Cristo e a todos os santos haviam partido de sua boca se lhe perm itissem viver! Tem po… teria dado um a m ão por só m ais um dia a seu lado!
– Está bem – cedeu Melchor após reconsiderar. Sentia que devia partir até com o risco do frio e da fraqueza. Seu instinto lhe dizia que esse era o m om ento, m as Nicolasa… o suj o rosto da m ulher o convenceu. – Partirei com a prim avera – afirm ou, certo de que j á não caberia discussão a respeito.
– Não m e estás enganando?
– Não queres entender, m ulher. Com o saberias que não volto a enganar-te se te asseguro que não?
Antes da chegada da prim avera, sem atrever-se a olhar pela j anela, Milagros escutava a gritaria que faziam no beco de San Miguel as centenas de ciganos que haviam com parecido a seu casam ento. Apesar das circunstâncias, o convite dos Garcías e dos Carm onas a seus fam iliares dispersos produziu a chegada m aciça de ciganos de todos os pontos da Andaluzia e de alguns outros m ais distantes; até da Catalunha se haviam deslocado vários deles! Milagros observou seu sim ples vestido: branco, com o o das noivas payas, adornado com algum as fitas coloridas e flores; depois da m issa o trocaria por outro, de cores verde e verm elha, com que lhe presenteara seu pai.
Um as lágrim as correram pelas faces da m oça. Seu pai se aproxim ou dela e a segurou pelos om bros.
– Estás preparada?
José Carm ona havia ratificado o com prom isso acertado por Inocencio; estava consciente de que sua liberdade se devia a esse casam ento e não descum priria a palavra dada pelo patriarca.
– Gostaria de que estivesse com igo – respondeu Milagros.
José apertou os om bros de sua filha, com o se não se atrevesse a aproxim ar-se dela e m anchar o vestido branco. Tal com o augurara a Trianeira, Ana não havia obtido a liberdade, e o cigano havia recebido a notícia com dissim ulado agrado. Ana Vega não haveria consentido naquela boda, e as discussões e os problem as se haveriam reproduzido. Com Ana em Málaga e na ausência de Melchor, José desfrutava de sua filha com o não recordava tê-lo feito em toda a sua vida. Exultante diante de seu com prom isso com Pedro García, Milagros havia com partilhado com o pai aquela felicidade; desde que havia regressado de La Carraca, José vivia extasiado com o carinho que a todo m om ento lhe m anifestava a filha. Para que queria ele que libertassem sua m ulher? No entanto, a fim de acalm ar Milagros, am bos foram reclam ar diante das autoridades, m as seus esforços foram vãos. Que im portava que essa tal de Ana Vega fosse casada e que houvesse testem unhas que afirm assem que havia vivido de acordo com as leis? Im possível!
Mentiam ! Havia sido condenada pela j ustiça m alaguenha, e desde então a lista de denúncias e castigos que ela acum ulava era interm inável.
– No dia anterior a que o corregedor de Málaga respondesse a nosso ofício – disse-lhes um funcionário enquanto tam borilava com um dedo sobre os papéis estendidos na escrivaninha –, tua esposa se lançou a dentadas contra um soldado e lhe arrancou m eia orelha. Com o queres que libertem sem elhante anim al? Cuidado com o que vais dizer, m oça! – adiantou-se o hom em à tentativa de replicar da parte de Milagros. – Tem cuidado, para que tu não acabes no cárcere da cidade e teu pai volte a La Carraca.
Milagros pediu ao pai que fossem a Málaga para tentar ver Ana.
– Estam os proibidos de viaj ar – opôs-se ele. – Dentro de poucos dias contrairás m atrim ônio: o que sucederia se te detivessem ?
Ela baixou os olhos.
– Mas…
– Estou tentando chegar a ela através de terceiros – m entiu José. – Todos nós estam os fazendo o possível, filha, não tenha dúvida.
José Carm ona foi dos últim os ciganos postos em liberdade. A partir do ano de 1750 se sucederam diante do Conselho as denúncias de pressões por parte dos ciganos para influir nos processos secretos, e as autoridades consideraram que todo aquele que antes do m ês de dezem bro não houvesse conseguido passar pelo exam e devia ser considerado culpado… de ser cigano.
Milhares deles, Ana Vega incluída, enfrentaram a partir de então a escravidão perpétua.
– Tua m ãe sem pre estará conosco – retom ou a conversa José no dia do casam ento, tentando parecer convincente. – Algum dia voltará. Com certeza!
Milagros franziu os lábios; queria crer em seu pai. Sua afirm ação ressoou estranha no interior da habitação dos Carm onas, livre do gritaria no m eio da qual até então estavam conversando.
Pai e filha se olharam : o silêncio reinava no beco.
– Já vêm aí – anunciou José.
Rey es e Bartola da parte dos García; Rosario e outra velha, cham ada Felisa, pelos Carm onas.
As quatro ciganas haviam cruzado solenem ente o beco para dirigir-se à casa do pai da noiva. As pessoas lhes davam passagem e se calavam à m edida que se aproxim avam do prédio. No m om ento em que suas figuras se perderam para além do pátio de entrada do cortiço, hom ens e m ulheres se aglom eraram em silêncio debaixo da j anela do dom icílio de Milagros.
– Eu te am o, m inha m enina – despediu-se José Carm ona ao ouvir os passos das ciganas j á na porta aberta da habitação. Não necessitou que as velhas o instassem . – Vam os, negra –
acrescentou para Caridad cam inhando j á escada abaixo.
Caridad dirigiu um sorriso forçado para Milagros – sabia o porquê da presença das velhas, a m oça lhe havia contado –, e seguiu os passos de José, que, após inteirar-se da aj uda que ela havia prestado à sua filha durante a detenção e posterior fuga, havia term inado por aceitá-la j unto à fam ília.
A Trianeira foi direto ao assunto.
– Estás pronta, Milagros? – inquiriu.
Não se atreveu a olhar as m ulheres nos olhos. Que diferente haveria sido se entre elas estivesse a velha María! Resm ungaria, reclam aria, m as por fim a trataria com um a ternura que não esperava dessas. Havia pedido a seu pai que a procurasse, que se interessasse por sua sorte.
Ela m esm a continuava perguntando a quantos ciganos novos apareciam por Triana para o caso de ela haver decidido ir para algum outro lugar. Ninguém sabia de nada; ninguém lhe deu razão.
– Estás pronta? – repetiu a Trianeira interrom pendo seus pensam entos.
– Sim – hesitou. Estava pronta?
– Deita-te no colchão e levanta a saia – ouviu que lhe ordenavam .
Havia-lhe doído o m anuseio daquele velhaco j ovem de Cam as, quando o canalha introduzira um de seus dedos repugnantes no interior de seu corpo. Havia-se sentido m aculada… e culpada!
E nesse m om ento o tem or voltou a assaltá-la.
– Milagros – Rosario Carm ona lhe falou com doçura –, há m uita gente esperando no beco.
Não os im pacientem os e façam os crer que… Deita-te, por favor.
E se o de Cam as lhe houvesse roubado a virgindade? Não se casaria com Pedro, não haveria casam ento.
Deitou-se no colchão e, com as pálpebras trem endo pela força com que as m antinha fechadas, levantou saia e anágua e descobriu o púbis. Notou que alguém se aj oelhava a seu lado. Não se atreveu a olhar.
Transcorreram os segundos e ninguém fazia nada. Que…?
– Abre as pernas – interrom peu seus pensam entos a Trianeira. – Com o pretendes…?
– Rey es! – repreendeu Rosario à m ulher por seu tom . – Menina, abre as pernas, por favor.
Milagros se lim itou a entreabri-las com tim idez. A Trianeira ergueu a cabeça e negou em direção a Rosario Carm ona; “Que faço agora?”, perguntou-lhe com gesto im pertinente. Alguns dias antes, Rosario havia tentado falar com Milagros. “Já sei o que é”, respondeu ela evitando a conversa. Todas as ciganas o sabiam ! Além disso, a velha María lhe havia dito em que consistia, m as nunca a preparara para isso nem entrara em detalhes, e agora, deitada no colchão, nua da cintura para baixo, m ostrava im pudicam ente sua intim idade a quatro m ulheres que naquele m om ento lhe apareciam com o um as desconhecidas. Nem sequer sua m ãe a havia visto assim !
– Menina… – quis pedir-lhe Rosario.
Mas a Trianeira interrom peu suas palavras agarrando as pernas de Milagros e abrindo-as quanto pôde.
– Agora dobra os j oelhos – ordenou-lhe acom panhando suas palavras com o decidido m ovim ento das m ãos.
– Não m ordas o lábio, m oça! – advertiu outra das m ulheres.
Milagros obedeceu e deixou de fazê-lo j usto no m om ento em que os dedos da Trianeira envoltos num lenço apalparam sua vulva até encontrar o orifício de entrada da vagina, onde os enfiou com tal vigor que lhe pareceu que lhe tinham dado um a punhalada: arqueou-se, com os punhos cerrados dos costados e as lágrim as m isturando-se ao suor frio que encharcava seu rosto.
Ao sentir os dedos arranhar sua vagina, reprim iu um uivo de dor. No entanto, abriu desm edidam ente a boca quando a Trianeira futucou seu interior.
– Não grites! – exigiu-lhe Rosario.
– Aguenta! – exigiu-lhe outra.
Um a aguilhoada. Os dedos abandonavam seu interior.
Milagros deixou cair pesadam ente as costas sobre o colchão. As cabeças das quatro ciganas se abaixaram para o lenço enquanto Milagros enchia os pulm ões de um ar que lhe faltava desde o prim eiro m om ento. Manteve os olhos fechados e gem eu enquanto punha a cabeça de lado sobre o colchão.
– Muito bem , Milagros! – ouviu Rosario dizer.
– Bravo, m oça! – felicitaram -na as dem ais.
E enquanto Rosario lhe recom punha saia e anágua, Rey es García se dirigiu à j anela e em atitude triunfante m ostrou o lenço m anchado de sangue aos ciganos que esperavam lá em baixo.
Os vivas não se fizeram esperar.
Milagros os havia m antido escondidos e os entregou a ela de m odo im previsto antes de sair para a igrej a, depois de a Trianeira e as outras três ciganas perm itirem que seu pai e Caridad entrassem de novo na habitação; um colar de coral, um a pulseirinha de ouro e um a m antilha de cetim preto estam pado com flores coloridas que havia conseguido em prestados para o casam ento. A cigana alargou a boca num sorriso após entrar na igrej a de Santa Ana e reparar em Caridad, situada na prim eira fila, ao lado de seu pai, tentando perm anecer tão erguida com o os ciganos que a rodeavam e ataviada com seu vestido verm elho, a m antilha sobre os om bros e as j oias no pescoço e no pulso. Não reparou na m oça, porém , o sorriso forçado com que Caridad respondeu ao seu: pressentia que após o casam ento sua am izade decairia.
– Continuam os a ser am igas depois do casam ento? – havia ousado perguntar Caridad com voz trêm ula, depois de um longo circunlóquio repleto de pigarreadas e hesitações, alguns dias antes do casam ento.
– É claro que sim ! – afirm ou Milagros. – Pedro será m eu m arido, m eu hom em , m as tu sem pre serás m inha m elhor am iga. Com o poderia esquecer o que passam os j untas?
Caridad conteve um suspiro.
– Morarás com igo – havia assegurado Milagros depois.
A torrente de gratidão e carinho que destilaram os olhinhos de sua am iga a im pediu de reconhecer que nem sequer havia apresentado aquela possibilidade a Pedro.
– Eu te am o, Cachita – sussurrou em vez disso.
No entanto, o fato era que as duas foram distanciando-se. Milagros não havia voltado a cantar na paróquia nem na pousada depois dos vilancicos de Natal. De vez em quando Rafael García conseguia para ela saraus particulares em casas de nobres e personalidades sevilhanos, dos quais obtinham m aiores ganhos que as m íseras m oedas com que lhes prem iavam os clientes de Bienvenido. Caridad havia sido excluída daquelas festas por ordem da Trianeira. Com esse dinheiro e algum m ais que os pais dos noivos teriam de pedir em prestados, poderiam pagar a pom pa de um casam ento que ia prolongar-se por três dias; não havia fam ília cigana na Espanha que não se arruinasse na hora de celebrar um enlace m atrim onial.
Na fugaz troca de olhares, Milagros foi incapaz de reconhecer a im postura no sorriso de sua am iga: sua atenção se concentrava em Pedro García, o j ovem cigano que, vestido com j aquetinha roxa, calção branco, m eias verm elhas, sapatos de ponta quadrada com fivelas de prata e m onteira na m ão, parecia estim ulá-la com sua m agnífica presença a pôr-se à sua altura, diante do altar. Estaria ela tão bela e elegante?, duvidou a m oça.
Pedro estendeu a m ão e, com seu sim ples roçar, a apreensão quanto a seu aspecto se desvaneceu entre um m ilhão de alfinetadas, com o se as fagulhas da m aior frágua trianeira houvessem explodido a seu redor. O cigano apertou sua m ão no m om ento em que se voltaram para o pároco, e Milagros fechou seus sentidos a tudo o que não fosse o contato de suas m ãos, a seu arom a, a sua estrem ecedora proxim idade; não havia conseguido perceber tudo isso na voragem da cerim ônia cigana que acabavam de realizar, e na qual o avô de Pedro havia partido um pão em dois pedaços para que, um a vez salgados, os trocassem entre si para considerar-se casados conform e à sua lei. Ali, na igrej a, com o respeitoso silêncio do lugar contrastando com os gritos e as felicitações que ainda ressoavam em seus ouvidos, Milagros perm aneceu alheia a serm ões e orações, e a m issa transcorreu para ela entre sentim entos contraditórios. Diante do altar, pronta para contrair m atrim ônio com um García, sua m ãe, o avô e a velha María arrem eteram contra sua alm a; nenhum deles haveria consentido naquele enlace. “Nunca esqueças que és um a Vega”, ressoou em sua m em ória. A cada assalto de dúvida que assom ava à sua m ente, Milagros se refugiava em Pedro: apertava sua m ão, e ele respondia; um futuro feliz se abria diante deles, ela o pressentia, e o olhava para desfazer-se do rosto contrariado do avô, que guapo era! “Eu lhe disse, m ãe, am o a ele, por que m e recrim ina? Eu a adverti.” “Eu o am o, am o, am o.”
O repicar dos sinos ao term inar a celebração pôs fim à sua luta interna. Contem plou a aliança que portava no dedo; Pedro a havia introduzido nele, sorrindo-lhe, acariciando-a com o olhar, prom etendo-lhe felicidade com sua presença. Seu hom em ! Da igrej a foi levada quase no alto até o beco. Não teve oportunidade de trocar de roupa com o tinha previsto. Assim que chegou, as m ulheres a receberam com cestas repletas de doces que os ciganos term inaram atirando-se entre si. Dançou com seu j á esposo no pátio dos Garcías, sobre um leito de doces de gem a de ovo que pisotearam até convertê-los num a m assa que se colava a seus pés e salpicava seu corpo. Pedro a beij ou com paixão, e ela estrem eceu de prazer; voltou a beij á-la, e Milagros acreditou derreter-se. Depois, no m esm o lugar, sobre os doces de gem a, dançou com os dem ais m em bros das duas fam ílias e, sem tem po para pensar, viu-se obrigada a ir para o beco, abarrotado de ciganos que bebiam , com iam , cantavam e dançavam . Ali, com o se o m undo fosse acabar-se, num ritm o frenético, passou de m ão em m ão até o anoitecer; nem sequer voltou a ver Caridad, nem pôde voltar a dançar com Pedro para derreter-se em outro daqueles m aravilhosos beij os.
A grande afluência de convidados fazia com que todas as casas do beco estivessem transbordantes. Para os noivos, no entanto, haviam reservado um quarto na habitação do Conde.
Os com entários obscenos dos j ovens que os seguiram até a porta m esm a, assim que Pedro a segurou pela m ão e a puxou interrom pendo publicam ente m ais um a de suas danças diante de um rosto desconhecido, tornaram -se ininteligíveis para Milagros, esgotada, perdida j á a cabeça pelo vinho, pelos gritos e pelas m il voltas a que se havia visto subm etida durante todo o dia.
Tentou sentar-se em algum lugar assim que os dois ficaram sozinhos; tem ia desabar, m as seu j ovem esposo não o ia perm itir.
– Despe-te – urgiu ele ao m esm o tem po que tirava a cam isa.
Milagros o olhou sem vê-lo, por entre um a nuvem espessa, a cabeça a girar.
Pedro com eçou a tirar os calções.
– Anda!
Milagros chegou a ouvir que a urgia entre o atroador rugido daqueles m esm os j ovens que os haviam acom panhado e que agora estavam debaixo da j anela.
O m em bro de Pedro, grande e ereto, a fez reagir, e ela retrocedeu um passo.
– Não tenhas m edo – disse-lhe ele.
Milagros não percebeu ternura algum a em sua voz. Viu-o aproxim ar-se dela e lutar para tirar-lhe o vestido. Seu pênis a roçou vezes seguidas enquanto ele forcej ava com suas roupas.
Então voltou a ver-se nua, com o de m anhã com a Trianeira, m as agora de corpo inteiro. Ele lhe apertou os peitos e m ordiscou os m am ilos. Correu as m ãos por suas nádegas e sua entreperna.
Ofegava. Puxou alguns restos ressecados de gem a de ovo açucarada aderidos à sua pele enquanto brincava com os dedos entre os lábios de sua vulva procurando… Um calafrio percorreu o corpo de Milagros quando ele alcançou o clitóris. Que era aquilo? Sentiu que sua vulva se lubrificava e que sua respiração se acelerava. O cansaço que a m antinha distante se desvaneceu, e ela se atreveu a pôr os braços por sobre os om bros do esposo.
– Não estou com m edo – sussurrou-lhe.
Sem separar seus corpos, cam balearam e riram até chegar a deitar-se num a cam a com pés que Rafael e Inocencio haviam pedido em prestada para a ocasião. Milagros abriu as pernas, com o quando com Rey es, e Pedro penetrou-a. A dor que sentiu a m oça se perdeu em suas entrecortadas declarações de am or.
– Eu te am o… Pedro. Quanto… quanto sonhei com este m om ento!
Ele não respondeu às prom essas que surgiram de boca de Milagros. Apoiado na cam a sobre as m ãos, com o tronco erguido sobre ela, olhava-a com o rosto congestionado enquanto procurava o m áxim o contato com seu púbis, em purrando com firm eza, agarrando-a para fundir-se com ela. A dor foi desaparecendo em Milagros j unto com suas palavras. Um prazer até então ignorado, im possível de im aginar, com eçou a fluir de seu baixo-ventre para instalar-se no m ais secreto dos cantos de seu corpo. Pedro continuava em purrando, e Milagros estrem ecia diante de um prazer que lhe pareceu aterrador… por interm inável. Arquej ou e suou. Sentiu os m am ilos eretos, com o se pretendessem rebentar e não o conseguissem . Apertou-se contra ele e cravou-lhe as unhas nos braços tentando livrar-se de sensações que am eaçavam enlouquecê-la. Que fim podia ter aquele prazer que reclam ava satisfação, que exigia alcançar um zênite desconhecido para ela? De repente Pedro explodiu em seu interior com um uivo que se prolongou durante sua últim a estocada, e a incontrolável ansiedade de Milagros term inou desvanecendo-se, decepcionada no m eio da gritaria que não havia cessado e que então voltou a encher o quarto para recordar-lhe que tudo havia term inado. Pedro se deixou cair sobre ela e encheu seu pescoço de beij os.
– Gostou? – perguntou encostando os lábios em sua orelha.
Gostara? Desej ava m ais, ou não? Que é que tinha de esperar?
– Foi m aravilhoso – respondeu num sussurro.
Subitam ente, Pedro levantou-se, vestiu os calções e com o tronco nu apareceu na j anela, de onde cum prim entou os ciganos que esperavam lá em baixo. Na segunda vez no m esm o dia que alguém alardeava em público através da j anela por sua causa, lam entou-se Milagros ao ouvir os vivas que recrudesceram . Depois, ele se aproxim ou da cam a e lhe acariciou o rosto com o dorso da m ão.
– A cigana m ais bela do m undo – elogiou-a. – Dorm e e descansa, m inha linda, ainda tens pela frente dois dias de festa.
Term inou de vestir-se e desceu para o beco.
– Vem esquentar-m e, negra – ordenou-lhe José Carm ona.
Caridad parou de torcer o charuto. Trabalhava para José quase desde o m esm o dia em que, após a festa de casam ento, o Conde se havia negado rotundam ente a que continuasse ao lado de Milagros e m orasse com os Garcías. Então José Carm ona a acolheu em sua casa, com ovido pelo pranto de sua filha, em bora Caridad chegasse a duvidar de se as lágrim as de sua am iga eram por ela ou pela bofetada com que a Trianeira havia calado as queixas e lam entos de Milagros na que seria sua nova casa. Depois, o cigano lhe conseguiu folhas de tabaco para que ela as torcesse e assim engordasse um pouco sua paupérrim a bolsa. Daí a que a cham asse a seu leito para esquentá-lo não transcorreu sequer um a sem ana.
– Não m e ouviste, negra?
Os hábeis dedos de Caridad se crisparam sobre a folha que form ava a capa do charuto. As capas eram as m elhores, nas quais o com prador fixava a atenção. Nunca teria feito algo sim ilar: estragar aquela boa folha de tabaco que tão cuidadosam ente havia escolhido para cobrir o torcido, m as, com o se seus dedos tivessem vida própria, observou atônita com o se rasgava à m edida que suas unhas se cravavam nela.
Levantou-se da m esa em que trabalhava e se dirigiu para o colchão onde se encontrava José Carm ona. Sabia que o cigano a m anusearia por um tem po, a penetraria pela frente ou por trás, se queixaria de sua indiferença um a vez m ais, “O m elhor seria fornicar com um a m ula”, dissera-lhe na últim a vez, e term inaria roncando abraçado a ela.
Despoj ou-se de seu cam isão de escrava com os dentes trincados e os olhos um edecidos e deitou-se ao lado do cigano. José enfiou a cabeça entre seus peitos e lhe m ordiscou os m am ilos.
Doeram -lhe suas dentadas, e, no entanto, ela nada fez para im pedi-las; m erecia aquele castigo, repetia-se noite após noite. Caridad havia m udado. O que até aquele m om ento de sua vida não lhe havia produzido nenhum a sensação – passar de m ão em m ão com o o anim al que lhe haviam ensinado a ser na veiga tabaqueira – agora a enoj ava e lhe repugnava. Melchor! Ela o estava traindo. José Carm ona percorreu seu corpo com as m ãos. Caridad não pôde im pedir-se de encolher-se, tensa. O cigano sequer se apercebeu. Que haveria sido de Melchor? Muitos o davam por m orto, Milagros entre eles. Os rum ores sobre um a pelej a entre contrabandistas em que ao que parecia ele se havia envolvido haviam chegado até Triana, m as ninguém estava em condições de afirm ar nada com certeza. Todos falavam do que lhes haviam contado outros que por sua vez haviam recebido a notícia de terceiros. No entanto, ela sabia que não, que Melchor não estava m orto. José não lhe perm itia cantar, dizia que lhe cansavam os cantos de negros, em bora tenha desistido de im pedi-la de cantarolar baixo aqueles ritm os que, j unto ao arom a do tabaco, a transportavam a suas origens. E Caridad cantarolava enquanto trabalhava im aginando que o hom em que perm anecia deitado atrás dela era Melchor. Nas noites fechadas, quando José dorm ia profundam ente, buscava seus deuses: Oxum , Oiá… Eleggua!, o que dispõe das vidas dos hom ens a seu bel-prazer, o que lhe havia perm itido viver quando Melchor a encontrara debaixo de um a árvore. Então fum ava e cantava até inebriar seus sentidos e prepará-los para receber a presença do m aior dos deuses. Melchor estava vivo. Eleggua o confirm ou.
José Carm ona serpenteou em cim a do corpo de Caridad tentando introduzir-se nela. Ela não queria abrir as pernas.
– Mexe-te, m aldita negra! – exigiu-lhe m ais um a noite o cigano.
E ela o fez, com a culpa assaltando o últim o canto de sua consciência, m as o que podia fazer?
Perderia Milagros. José a expulsaria de casa. Rafael García a expulsaria do beco sem contem plação. Era ali, com os seus, com os ciganos, j unto à sua neta, que devia esperar a Melchor. Fechou os olhos rendida ao reencontro com aquela sensação tão nova e desconhecida para ela diante de um hom em que a penetrava: repugnância.
– Negra!
Caridad entreabriu os olhos. A incipiente luz do am anhecer ainda deixava na som bra a m aior parte da casa. Custou-lhe entender. José roncava abraçado a ela. Tentou espreguiçar sua visão.
Um a m ancha am arela, borrada, achava-se em pé j unto a ela.
– Que fazes aí?
Caridad se levantou de um salto ao reconhecer a voz.
– E m inha filha? Onde está Ana?
Melchor! Caridad se encontrou sentada no colchão diante dele, com os peitos à m ostra.
Puxou a m anta para tapá-los; um a onda de calor sufocante subiu a seu rosto. José resm ungou dorm indo.
O cigano não foi capaz de im pedir que seu olhar se centrasse naqueles peitos negros e nas grandes aréolas que rodeavam seus m am ilos. Ele os havia desej ado… e agora…
– Por que estás deitada com esse… esse…? – Não lhe surgiram as palavras; em seu lugar apontou para José com a m ão trêm ula.
Caridad se m anteve em silêncio, o olhar escondido.
– Desperta esse canalha – ordenou-lhe então.
A m ulher sacudiu José, que tardou a com preender.
– Melchor – cum prim entou com voz pastosa ao m esm o tem po que se levantava desgrenhado e tentava recom por sua cam isa –, j á era hora de voltares. Sem pre tivestes o dom de desaparecer nos m om entos…
– E m inha filha? – interrom peu-o o avô, com o rosto congestionado. – Que faz a negra em tua cam a? E m inha neta?
O Carm ona levou a m ão ao queixo e o esfregou antes de responder.
– Milagros está bem . Ana continua presa em Málaga.
José deu as costas a seu sogro e se dirigiu ao guarda-com ida para servir-se de um copo de água de um a j arra que Caridad m antinha sem pre cheia.
– Não há m aneira de a soltarem – acrescentou j á de frente, após tom ar um gole –, parece que o sangue Vega sem pre origina problem as. A negra? – acrescentou com um gesto de desprezo para Caridad. – Ela esquenta m inhas noites, pouco m ais se pode esperar dela.
Caridad se surpreendeu escrutando a Melchor: as rugas que sulcavam seu rosto pareciam haver-se m ultiplicado, m as, apesar da casaca am arela que pendia de seus om bros com o um saco, não havia perdido seu porte de cigano nem aquele olhar capaz de atravessar as pedras. Melchor percebeu o interesse de Caridad e virou o rosto para ela, que não aguentou seu olhar e ergueu ainda m ais a m anta com que cobria seus peitos; ela lhe havia falhado, seus olhos eram de censura.
– Ela canta bem – disse então Melchor com um a trem enda ponta de tristeza que arrepiou Caridad.
– Cantar dizes? – riu José.
– Que sabes tu?! – m urm urou Melchor arrastando as palavras, o olhar ainda em Caridad.
Chegou a desej á-la, m as havia renunciado a seu corpo para continuar escutando aqueles cantos que ressum avam dor, e agora a encontrava nas m ãos do Carm ona. Meneou a cabeça. – Que fizeste pela liberdade de m inha filha? – saltou de repente, com voz cansada.
Com essa pergunta Caridad soube que j á não era obj eto de atenção por parte de Melchor e ergueu o olhar para contem plar os dois ciganos à luz do am anhecer: o avô descarnado em sua casaca am arela; o ferreiro, de peito, pescoço e braços fortes, plantado com soberba diante do velho.
– Por m inha esposa… – corrigiu-o José arrastando as palavras – fiz tudo quanto se pode fazer.
A culpa é tua, velho: o estigm a de teu sangue a levou à perdição, com o a todos os Vegas. Só o indulto do rei a tiraria do cárcere.
– Que fazes então aqui, desfrutando de m inha negra, em lugar de estar na corte procurando esse indulto?
José se lim itou a negar com a cabeça e a franzir os lábios, com o se aquilo fosse im possível.
– Onde está m inha neta? – inquiriu então o avô.
Caridad trem eu.
– Vive com seu esposo – respondeu José –, com o é seu dever.
Melchor esperou explicações que não chegaram .
– Que esposo? – term inou perguntando.
O outro se ergueu am eaçador.
– Não o sabes?
– Cam inhei dia e noite para chegar até aqui. Não, não sei.
– Pedro García, o neto do Conde.
Melchor tentou falar, m as suas palavras se converteram num balbucio ininteligível.
– Esquece-te de Milagros. Não é problem a teu – alfinetou-o José.
Melchor boqueou em busca de ar. Caridad o viu levar um a m ão ao flanco e dobrar-se com um ricto de dor.
– Estás velho, Galeote…
Melchor não ouviu o restante das palavras de seu genro. “Estás velho, Galeote”, as m esm as palavras que lhe havia cuspido o Gordo no cam inho de Barrancos. Caridad entregue ao Carm ona, sua filha detida em Málaga, e Milagros, sua m enina, o que m ais am ava nesse m undo cão, vivendo com Rafael García, obedecendo a Rafael García, fornicando com o neto de Rafael García! A ferida que ele j ulgava curada pugnava agora por rebentar seu estôm ago. Havia renunciado a vingar-se de Rafael García por Milagros, a criança que Basilio pusera em seus braços a seu regresso das galés. De que havia adiantado? Seu sangue, o sangue dos Vegas, precisam ente o daquela m enina, se m isturaria ao dos que o haviam traído e lhe haviam roubado dez anos de sua vida. Contorceu-se de dor. Queria m orrer. Sua m enina! Cam baleou. Procurou algum lugar em que encontrar apoio. Caridad se levantou de um salto para aj udá-lo. José deu um passo para ele. Nenhum dos dois chegou. Antes que o conseguissem , a dor m udada em cólera, alheado, cego de ira, tirou a navalha de sua faixa e enquanto a abria se abalançou a seu genro.
– Traidor, filho da puta! – uivou ao m esm o tem po que afundava a arm a no peito do Carm ona, em seu coração.
Só chegou a com preender em toda a sua m agnitude o que havia feito ao topar com os surpresos olhos de José Carm ona, que j á pressentiam sua m orte. Ele acabava de assassinar o pai de sua neta!
Caridad, nua, ficou parada a m eio cam inho e presenciou as convulsões que anunciaram a m orte do cigano, estendido no chão, com um a grande poça de sangue form ando-se ao redor.
Melchor tentou erguer-se, m as não conseguiu por com pleto, e levou a m ão ensanguentada que segurava a navalha à ferida que lhe havia infligido o Gordo.
– Traidor – repetiu então m ais para Caridad que para o cadáver do Carm ona. – Era um cão traidor – quis desculpar-se diante da atem orizada expressão da m ulher. Pensou por um instante.
Percorreu o quarto com o olhar. – Veste-te e vai buscar m inha neta – urgiu com ela. – Diz-lhe que seu pai a m anda cham ar. Não lhe fales de m im ; ninguém deve saber que estou aqui.
Caridad obedeceu. Enquanto atravessava o beco e voltava com Milagros, preocupada esta pelo pertinaz silêncio com que a m ulher negra recebia suas perguntas, Melchor arrastou com grande dificuldade o cadáver de José até escondê-lo no côm odo contíguo. Qual seria a reação de Milagros? Era seu pai, e ela o am ava, m as o Carm ona o havia m erecido… Não teve tem po de lim par o rastro de sangue que cruzava o quarto, nem a grande m ancha que brilhava úm ida no centro, nem a lâm ina de sua navalha, nem sua casaca am arela; Milagros só viu a ele e se lançou a seus braços.
– Vovô! – gritou. Depois as palavras ficaram travadas em sua boca, m isturadas a soluços de alegria.
Melchor hesitou, m as por fim a abraçou tam bém e a em balou.
– Milagros – sussurrava vezes seguidas.
Caridad, atrás deles, não pôde evitar seguir com o olhar o rastro de sangue até o outro côm odo, antes de voltar a centrá-la em neta e avô, e voltar outra vez à m ancha de sangue do centro do quarto.
– Vam os em bora, m enina – soltou de repente Melchor.
– Mas se acaba de chegar!... – respondeu Milagros separando-se dele com um am plo sorriso na boca, seus braços ainda agarrando-o, com a intenção de contem plá-lo por inteiro.
– Não… – retificou Melchor. – Quero dizer que vam os em bora daqui… de Triana.
Milagros viu a casaca m anchada de seu avô. Fechou a cara e verificou suas próprias roupas, im pregnadas de sangue.
– Que…?
A m oça olhou para além de Melchor.
– Vam os em bora, m enina. Irem os para Madri, para suplicar a liberdade de…
– E esse sangue? – interrom peu-o ela.
Separou-se do avô e evitou que este pudesse retê-la. Descobriu o rastro. Caridad a viu trem er prim eiro e depois pôr as m ãos na cabeça. Nenhum dos dois a seguiu ao côm odo contíguo, de onde não tardou a chegar-lhes um grito que se m isturou ao m artelar dos ferreiros, que j á haviam iniciado sua j ornada. Caridad, com o se o dilacerante grito de sua am iga a em purrasse, retrocedeu até dar com as costas na parede. Melchor pôs um a das m ãos no rosto e fechou os olhos.
– O que o senhor fez? – A acusação surgiu quebrada da garganta de Milagros; a m oça buscava apoio no lintel do vão entre os côm odos. – Por que…?
– Ele nos traiu! – reagiu Melchor erguendo a voz.
– Assassino. – Milagros destilava ira. – Assassino – repetiu arrastando as letras.
– Traiu os Vegas casando-te…
– Não foi ele!
Melchor ergueu o pescoço e entrefechou os olhos para a neta.
– Não, não foi ele, vovô. Foi Inocencio. E o fez para libertar m am ãe do cárcere de Málaga.
– Eu… não sabia… sinto m uito… – conseguiu dizer Melchor, sobressaltado diante da dor de sua neta. Contudo, retificou im ediatam ente: – Tua m ãe nunca haveria aceitado esse arranj o –
afirm ou. – Um García! Tu te casaste com um García! Ela haveria escolhido o cárcere. Teu pai deveria ter feito o m esm o!
– Fam ílias e querelas! – soluçou Milagros, com o que alheia às palavras de seu avô. – Era m eu pai. Não era um Vega nem um García, nem sequer um Carm ona… era m eu pai, não entende?
Meu pai!
– Vem com igo. Abandona os…
– Era tudo o que eu tinha – lam entou-se.
– Tens a m im , m enina, e conseguirem os a liberdade de tua…
Milagros cuspiu nos pés de seu avô antes que ele term inasse a frase.
O desprezo daquela cusparada da parte da pessoa a quem m ais am ava no m undo se refletiu em form a de um trem or em suas feições e nas pálpebras que cobriam seus olhos. Melchor calou-se até quando a viu gritar e abalançar-se a Caridad.
– E tu?
Caridad não podia afastar-se; tam pouco teria dado um passo, paralisada com o estava.
Milagros gritava diante dela.
– Que fizeste tu? Que fizeste tu? – exigia-lhe vezes seguidas.
– A negra não fez nada – interveio Melchor em sua defesa.
– É isso! – gritou Milagros. – Olha-m e! – exigiu-lhe. E, com o Caridad não levantava os olhos, esbofeteou-a. – Puta negra de m erda! É isso: nunca fazes nada. Nunca fizeste nada!
Perm itiste que ele o assassinasse!
Milagros com eçou a bater-lhe nos peitos com os dois punhos, de alto a baixo. Caridad não se defendeu. Caridad não falou. Caridad não foi capaz de olhar para Milagros.
– Nunca fazes nada! – uivava a m oça a cada golpe. E cada um deles arrancava lágrim as dos olhos de Caridad. – Tu o m ataste!
Pela prim eira vez na vida Caridad sentiu a dor em toda a sua intensidade e se deu conta de que, à diferença do que sucedia quando o capataz ou o senhor a m altratavam , aquelas feridas não sarariam j am ais.
Um a batia e gritava; a outra chorava.
– Assassina – soluçou Milagros deixando cair os braços do lado, incapaz de bater nem m ais um a só vez.
Durante alguns instantes só se ouviu o m artelar que vinha das forj as. Milagros desabou no chão, aos pés de Caridad, que não se atreveu a m over-se; Melchor tam pouco.
– Negra – ouviu que lhe dizia este –, pega tuas coisas. Nós nos vam os.
Caridad olhou para a cigana, esperando, desej ando que Milagros dissesse um a palavra…
– Vai-te – cuspiu ela, no entanto. – Não quero ver-te nunca m ais na vida.
– Pega tuas coisas – insistiu o cigano.
Caridad foi em busca da trouxa, do traj e verm elho e do chapéu de palha. Enquanto ela recolhia seus parcos pertences, Melchor, sem atrever-se a olhar para a neta, m ediu o alcance de seus atos: se os pegassem no Beco de San Miguel ou em Triana, m atá-los-iam . E, ainda que fugissem , o conselho de anciãos estabeleceria pena de m orte contra ele e com certeza contra a negra, e o dariam a conhecer a todas as fam ílias do reino. Estava nas m ãos de Milagros que pudessem escapar vivos de Triana.
Caridad voltou com suas coisas e olhou pela últim a vez para quem havia sido a única am iga de sua vida. Titubeou ao passar a seu lado, encolhida, chorando, m aldizendo entre gem idos. Ela não podia haver detido Melchor. Recordava-se de haver corrido para ele, e no m om ento seguinte j á havia visto o corpo gravem ente ferido de José.
Milagros lhe havia dito que não queria vê-la nunca m ais. Tentou dizer-lhe que ela não tivera nenhum a culpa, m as nesse m om ento Melchor a em purrou para fora da habitação.
– Sinto m uito por ti, m enina. Confio em que algum dia se aplaque tua dor – disse à neta antes de ir-se.
Depois am bos deixaram o edifício, apressados. Necessitavam de tem po para fugir. Se Milagros desse o alarm a, não chegariam à saída do beco.