A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 49 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 49

Entre os aplausos e vivas da m ultidão que se esprem ia na ferraria, Ana abraçou a filha assim que conseguiram tirá-la do fosso. Ofuscada ainda com a pouca luz que penetrava, Milagros ouviu-a, sentiu-a, cheirou-a e abraçou-se a ela com força. Elas pediram -se m il vezes perdão, beij aram -se, acariciaram -se o rosto e secaram -se as lágrim as um a à outra, rindo e chorando ao m esm o tem po. Depois, por exigência de Melchor, desam arraram e subiram um a aturdida Caridad, que, assim que recuperou a visão, se dirigiu para um canto em m eio à curiosidade dos que não sabiam dela. Por últim o, o cigano que havia descido ao fosso aj udou Melchor a sair.

– Papai! – gritou Ana.

Melchor, com os m úsculos enrij ecidos, deixou-se abraçar quase sem corresponder às dem onstrações de carinho de sua filha e se livrou com prontidão de seus braços, com o se não quisesse que nenhum a outra em oção turbasse seu espírito. O gesto gelou o sangue de Ana.

– Pai? – perguntou separando-se dele.

Os aplausos e com entários das ciganas cessaram .

– E m inha navalha? – exigiu Melchor.

– Pai…

– Vovô… – aproxim ou-se Milagros.

– Rafael! – gritou Melchor afastando am bas as m ulheres.

O Galeote tentou andar, m as faltaram -lhe as pernas. Quando sua filha e sua neta tentaram aj udá-lo, ele se soltou de suas m ãos. Queria aguentar-se em pé por si só. Conseguiu-o e deu um passo à frente. O sangue correu de novo, e ele conseguiu dar o seguinte.

– Onde está teu neto? – uivou Melchor. – Vim para m atar esse cão sarnento!

Ana Xim énez, a prim eira diante do cigano, afastou-se; as dem ais a foram im itando e se abriu um corredor até o beco. Ana e Milagros hesitaram , m as não Caridad, que correu atrás de seu hom em .

– Cachita – conseguiu pedir-lhe Milagros, roçando um de seus braços com a m ão.

– Ele tem de fazê-lo – sentenciou Caridad sem parar.

Mãe e filha se apressaram atrás dela.

– Onde está teu neto? Eu te disse que vinha para m atá-lo – soltou Melchor a um Rafael García que não se havia m ovido da porta de sua casa.

Caridad cerrou punhos e dentes em apoio às palavras do cigano; Ana Vega, pelo contrário, só reparou na arrogância com que o Conde recebeu a am eaça. Sem o refulgir da folha de um a navalha na m ão, seu pai apareceu-se-lhe pequeno e indefenso. Os anos tam pouco haviam passado em vão para ele, lam entou. As duas m ulheres trocaram um olhar. Quanta resolução havia no sem blante da negra, pensou Ana, quão diferente da últim a vez que a vira, caída no chão, ingênua, coberta com seu sem piterno chapéu de palha enquanto ela, am arrada à corda com as dem ais detentas, lhe rogava que cuidasse de Milagros! Tam bém sua filha havia m udado. Virou-se para ela, onde…?

– Pensava que fugirias despercebido entre as m ulheres – ouviu-se nesse m om ento Rafael García replicar com sarcasm o, a voz potente.

Entre a resposta do Conde e a ausência de Milagros, Ana sentiu um a trem enda vertigem .

Onde…? Tem eu o pior.

– Pai! – gritou ao descobrir Milagros transpondo j á o um bral que dava para o pátio do cortiço dos Garcías, alguns passos além da porta da ferraria.

Ana se lançou em perseguição de sua filha antes que Melchor chegasse a com preender o que estava sucedendo. Algum as m ulheres a seguiram . Milagros havia alcançado a galeria do andar superior quando Ana chegou ao pátio.

– Milagros! – tentou detê-la.

Ela saltou os degraus que lhe faltavam .

– Onde está m inha m enina! – Em purrou as duas velhas Garcías e abriu cam inho pela galeria.

– María!

A cabeça de Bartola apareceu na porta de um a das habitações.

– Sua filha de puta! – gritou-lhe Milagros.

Da escada, Ana a viu, vestida de preto, correr e entrar naquela habitação.

– Rápido! – urgiu com as que a seguiam .

Quando entraram em tropel na habitação, as m ulheres depararam com a m enina, que chorava e forcej ava, nos braços de um a j ovem e bela cigana. Milagros, diante delas, ofegante por causa da corrida e com os braços estendidos para sua filha, havia ficado im óvel diante do frio olhar de Bartola e de Rey es, a Trianeira, com o se tem esse que dar m ais um passo pudesse pôr em perigo a pequena María.

– É m inha filha – sussurrou Milagros.

– Dá-a a ela! – ordenou Ana à j ovem .

– Não o fará sem o consentim ento de seu pai – opôs-se a Trianeira.

– Rey es – resm ungou Ana Vega –, diz-lhe que entregue a m enina à sua m ãe.

– A um a puta? Não penso…

A Trianeira não pôde continuar. Milagros se abalançou a ela rugindo com o um anim al.

Em purrou-a com as duas m ãos, e am bas caíram no chão, onde com eçou a bater nela. Ana Vega não perdeu um instante: adiantou-se até a j ovem e lhe arrebatou María sem resistência. O choro da pequena e os gritos de Milagros inundaram o côm odo e chegaram ao beco. Ana apertou María contra si e contem plou a surra com que Milagros pretendia vingar em Rey es anos de suplício. Não fez nada para detê-la. Quando as pessoas se am ontoavam na porta e Ana percebeu a presença de alguns hom ens, aproxim ou-se de Milagros e acocorou-se.

– Pega tua filha – disse-lhe.

Saíram da habitação j usto no m om ento em que Rafael García entrava na galeria. Cruzaram com ele. Milagros tentava em vão acalm ar sua pequena. Trem iam -lhe as m ãos e faltava-lhe ar, m as seu olhar era tão brilhante, tão vitorioso, que o Conde se alarm ou, esquivou-se delas, preocupado, e apertou o passo em direção à sua casa.

– Mostra-a a teu avô. Põe a m enina em seus braços. Corre, filha. Talvez assim possam os evitar a tragédia. Quando eu o fiz, m uitos anos atrás, consegui-o.

Enquanto Ana tentava im pedir que Melchor enfrentasse a m orte com Pedro García, no interior da peça, a Trianeira, sentada no chão, m achucada, sentenciava para o cigano.

– Vai buscar Pedro – gaguej ou para seu esposo. Da j anela, havia escutado o desafio lançado por Melchor. – Que pelej e com o Galeote. Esse velho será fácil para ele. Diz-lhe que o m ate, que lhe arranque os olhos diante de sua fam ília, que lhe rasgue as entranhas e as traga para m im !

Lá em baixo, no beco, Melchor não quis tocar na m enina.

– O García te m atará, pai. Já és… és m uito m ais velho que ele.

Milagros voltou a aproxim á-la dele. Caridad observava tudo a certa distância, parada, em silêncio. O cigano nem sequer estendeu a m ão.

– Pedro é m au, vovô – apontou com os braços estendidos, m ostrando-lhe a m enina, que ainda soluçava.

Melchor fez um esgar antes de replicar.

– Esse filho da puta ainda tem de conhecer o diabo.

– Ele o m atará.

– Nesse caso, vou esperá-lo no inferno.

– Todos nós, pai, estam os sãos – interveio Ana. – Conseguim os reunir-nos. Aproveitem os.

Vam o-nos daqui. Vivam os…

– Diz-lhe que não o faça, Cachita – rogou Milagros.

Ana se j untou à súplica com o olhar. Até a Xim énez e algum as outras que estavam atentas à conversa se viraram para Caridad, que não obstante perm aneceu em silêncio até que Melchor cravou seus olhos nela.

– Tu m e ensinaste a viver, cigano. Se não enfrentasses Pedro, sentirias o m esm o ao ouvir-m e cantar?

O silêncio foi suficiente resposta.

– Acaba com esse m alnascido, portanto. Não tem as – disse com um triste esboço de sorriso –; com o te disse, eu te acom panharei ao inferno e seguirei cantando para ti.

Ana baixou a cabeça, vencida, e Milagros estreitou a pequena contra o peito.

– Galeote!

O grito do Conde, plantado à porta do cortiço, calou conversas e paralisou as pessoas.

– Tom a! – Lançou um a navalha aos pés de Melchor. – Assim que ele chegar, terás oportunidade de pelej ar com m eu neto.

Melchor se abaixou para pegar sua navalha.

– Lim pa-a bem – acrescentou o Conde ao ver que o outro a esfregava em sua j aqueta verm elha –, porque, se Pedro não acabar contigo, o farei eu.

– Não! – opôs-se Ana Xim énez. – Rafael García, Melchor Vega, com esta pelej a m ortal term inará tudo. Se vencer Pedro, ninguém deverá incom odar as Vegas…

– E a m enina?

– Para que queres sangue Vega em tua casa?

O Conde pensou por alguns instantes e acabou anuindo.

– A m enina ficará com sua m ãe. Ninguém buscará nova vingança nelas! Nem sequer teu neto, de acordo?

O patriarca voltou a anuir.

– Juras? Tu o j uras? – insistiu a cigana diante do sim ples m ovim ento de cabeça com que o outro quis selar o com prom isso.

– Eu j uro.

– Se pelo contrário for Melchor… – Ela m esm a hesitou diante de suas próprias palavras, e não conseguiu evitar um rápido olhar de lástim a para o Galeote, com o o que lhe dirigiram m uitos dos ali presentes. – Se Melchor derrotar Pedro, a sentença será considerada cum prida.

– A vingança cabe aos Carm onas – arguiu então o Conde –, e Pascual não está aqui para j urá-

lo.

Ana Xim énez anuiu, pensativa.

– Não podem os ficar todas aqui esperando que ele volte. Reúne o conselho de anciãos – disse então –, que venham todos os da fam ília Carm ona.

Nessa m esm a tarde, a m atriarca representou os interesses dos Vegas num conselho convocado com urgência. Com pareceram os chefes das fam ílias, os Carm onas, m uitos dos do beco e algum as das ciganas vindas de fora. Outras se perderam por Triana, e a m aioria ficou com Ana e Milagros, chorando o cadáver de Luisa, do qual até esse m om ento se havia encarregado Frei Joaquín, e que acom odaram no pátio de outro cortiço.

Era um pátio alongado que se abria entre as duas fileiras de casinhas de um só andar e do qual não tardou a elevar-se o constante planger das ciganas, acom panhado de gestos de dor, alguns com edidos, a m aioria exagerada. Misturada entre as m ulheres, esgotada pelo longo calvário sofrido desde que Pedro a roubara dela em Madri, Milagros se sentou num poial de pedra gem inado à parede de um a das casas, e ali procurou refúgio na filha que ela acabava de recuperar, e a quem em balava com o olhar perdido em seu rosto. Ao sentir que María adorm ecia em seus braços, relaxada, tranquila, entregue, esqueceu todas as penúrias. Não quis pensar em nada m ais até que entre as longas saias das m ulheres reconheceu as abarcas e o hábito de Frei Joaquín, parado j unto a ela. Ergueu o rosto.

– Obrigado – sussurrou.

Ele ia dizer algo, m as a cigana voltou a subm ergir nas doces feições de sua m enina.

Apesar da tristeza pela m orte de Luisa, Ana Vega não se deixou levar pelo funesto am biente que se vivia no pátio. Frei Joaquín lhe havia contado a relação entre seu pai e a negra, m as ela não chegara a acreditar nele enquanto não percebeu os laços que efetivam ente os uniam .

Encontrou Caridad, sozinha, a poucos passos de onde se achava Melchor.

– Não quero que Pedro o m ate – disse-lhe a cigana depois de pôr-se a seu lado.

– Eu tam pouco – respondeu a outra.

Am bas olhavam para Melchor, erguido num canto, parado, expectante.

– Mas ele o fará – afirm ou Ana.

Caridad guardou silêncio.

– Tens consciência disso, não é verdade?

– Que escolhes, sua vida ou sua hom bridade? – perguntou-lhe Caridad.

– Se o que ele perde é a vida – replicou Ana –, de nada nos servirá sua hom bridade, nem a m im … nem a ti.

A cigana esperava que Caridad reagisse diante do reconhecim ento que acabava de fazer de sua relação, m as não o fez. Seguia contem plando Melchor com o que enfeitiçada.

– Sabes que isso não é verdade – replicou. – Eu o senti trem er quando Milagros explicava com o havia sido prostituída por seu esposo. Tem i que rebentasse. Desde então j á não é o m esm o.

Vive para vingá-la…

– Vingança! – interrom peu-a Ana. – Estive cinco anos encarcerada, sofrendo, para escapar da m inha terra, com os m eus, e voltar. Sei que é duro o que sucedeu com Milagros, m as não faz nem um dia que eu dava por m ortos os dois… os três – corrigiu-se. – Agora tem os a oportunidade de iniciar…

– Quê? – interrom peu-a por sua vez Caridad, nesta ocasião j á de frente para ela. – Cinco anos encarcerada? Que é isso? Fui escrava por toda a vida, e, m esm o quando alcancei a liberdade, continuei a sê-lo aqui m esm o, em Triana, e tam bém em Madri. Sabes de um a coisa, Ana Vega?

Prefiro um instante de vida j unto a este Melchor… Olha-o! Isso é o que aprendi com ele, convosco! E gosto disso. Prefiro este instante, este segundo de ciganaria, a passar o restante de m eus dias com um hom em insatisfeito.

Ana não encontrou palavras com que responder. Notou que a figura de seu pai, im passível, se borrava à m edida que as lágrim as assom avam a seus olhos, e se foi. Quis ir em busca de Milagros, viu-a voltada para sua m enina e com o frade rondando-a, m as as outras Vegas a abordaram assim que a viram m isturar-se com as pessoas. Acom panharam -na até Luisa, ali onde se aglom eravam as novas ciganas que seguiam chegando ao Beco vindo de diferentes povoados de Sevilha. Conhecia algum as, de Málaga, de Saragoça; outras eram parentes ou am igas, tal com o se apresentaram . Tentou sorrir-lhes, consciente de que iam apoiá-la. Muitas até haveriam discutido com seus hom ens para fazê-lo. Arriscavam -se a ser presas viaj ando a Triana sem passaporte, e o faziam por ela. Ciganas! Olhou para o cadáver de Luisa, esquálido, encolhido. Quão grande havia sido ela, porém ! “Nunca poderão tirar-nos o orgulho”, havia-lhes dito na Misericórdia para anim á-las. “Essa é a tua beleza”, afagou-a depois. E nessa m esm a noite, quebrando sua prom essa, ela havia corrido para ver Salvador regressar dos cam pos. Encolheu-se-lhe o estôm ago à sua lem brança. Depois o haviam destinado aos arsenais, talvez por causa de sua obstinação, m as Salvador, com o os dem ais rapazinhos, abandonara a Misericórdia erguido, altivo.

– Sentes-te m al? – A pergunta partiu de um a das Vegas.

– Não… Não. Tenho… tenho algo que fazer.

Deixou-as a todas e correu para onde estava Melchor.

“Mate-o, pai. Acabe com ele. Faça-o por Milagros, por todas nós.” Nos ouvidos de Caridad ainda ressoavam as palavras de alento que Ana havia dirigido a Melchor pouco antes. Nesse m om ento todos abandonavam o pátio e iam para o beco. Ela não necessitava dizer-lhe nada. Teve a sensação de que Ana chegava a suplantá-la quando regressou ao canto em que estava Melchor para pedir-lhe perdão, e chorar insultando-se, ao m esm o tem po que o anim ava com toda a ênfase que pôde antes de abraçar-se a ele. No entanto, durante aquele abraço, o cigano se voltou para Caridad e lhe sorriu, e com esse sorriso ela soube que seguia sendo sua negra.

Caridad perm itiu que fosse Ana quem acom panhasse Melchor. Ela cam inhava atrás, com Martín, que havia aparecido no beco m ontado num cavalo diferente – “O outro não aguentou”, confessou o j ovem –, com um a velha cigana dos Heredias, de Villafranca, na garupa. Isso havia sido pouco antes de Ana Xim énez chegar ao pátio para com unicar que o conselho havia tom ado um a decisão: com a pelej a tudo term inaria. Não haveria m ais vinganças, e Milagros ficaria em liberdade com sua filha. Os Garcías haviam aceitado, os Carm onas, ainda que não estivesse presente Pascual, tam bém . Não lhes disse que não havia sido difícil obter esse com prom isso porque ninguém apostava em Melchor. “Um a form a com o outra qualquer de executar a sentença”, ouviu a m atriarca que um dos Carm onas afirm ava antes de os dem ais concordarem com prazidos.

Diziam que os Garcías estavam procurando Pedro em Sevilha. Caridad rezou para a Virgem do Cobre, para a Candelária, e ali m esm o, do tabaco que lhe havia proporcionado Martín, lançou um as folhinhas no chão rogando a seus orixás que Pedro houvesse caído bêbado ao Guadalquivir, o houvessem detido os aguazis, ou o houvesse esfaqueado um esposo chifrudo.

Mas nada disso sucedeu, e ela soube de sua chegada quando os m urm úrios no beco aum entaram . Melchor não se fez esperar, nem Ana. Milagros se negou a ir.

– Morrerá por m inha culpa – tentou desculpar-se diante de sua m ãe.

– Sim , filha, sim . Morrerá pelos seus, com o um bom cigano, com o o Vega que é – opôs-se a outra, obrigando-a a levantar-se e acom panhá-los.

– Não se preocupe, padre, que Luisa não escapará – soltou um a cigana diante da hesitação m ostrada pelo sem blante de Frei Joaquín ao aperceber-se de que todos abandonavam pátio, cadáver e velório.

Ouviram -se alguns risos que não conseguiram rom per a tensão, m áxim e quando, antes que desaparecesse, a sucessão de estalidos do m ecanism o da navalha de Melchor ao abrir-se pareceu elevar-se acim a de qualquer som . Caridad respirou fundo. O cigano nem sequer esperou que as pessoas ocupassem algum lugar. Caridad o viu em punhar sua navalha e cruzar o beco em direção ao cortiço dos Garcías. Hom ens e m ulheres se foram afastando à sua passagem .

– Onde estás, seu filho da puta!

Caridad deu-se conta de que Melchor não o conhecia. Provavelm ente não lhe havia visto o rosto na noite em que ele saltara ao fosso, pensou, j á que ela tam pouco havia chegado a fazê-lo.

E, quando viviam em Triana, para que Melchor ia reparar num j ovem da fam ília dos Garcías?

“Ali”, esteve tentada a assinalá-lo ela.

Não foi necessário: Pedro García se separou dos seus e cam inhou para Melchor. Os ciganos form aram um círculo. Muitos ainda falavam , m as se foram calando diante dos dois hom ens que j á se testavam com as navalhas, os braços estendidos: um em m angas de cam isa, j ovem , alto, forte, ágil; o outro… o outro, velho, m agro e consum ido, de rosto descarnado e ainda vestido com sua j aqueta verm elha debruada de ouro. Muitos se perguntaram por que não a tirava. A peça de roupa parecia im pedi-lo de m over-se com desenvoltura.

Caridad sabia que não era a j aqueta. A ferida da pelej a com o Gordo lhe queim ava, e seus m ovim entos acusavam a dor. Ela cuidara dele com ternura, em Torrej ón, em Barrancos; ele respondia a suas atenções com am uo, m as ao final riam . Desviou o olhar para Ana e Milagros, na prim eira fila as duas, um a encolhida, pronta para desabar diante da desigualdade entre os contendores; a outra chorando, apertando contra o pescoço o rosto da m enina, im pedindo-a de ver a cena que se desenrolava diante delas.

Pedro e Melchor continuavam girando em círculo, insultando-se com o olhar. Caridad se sentiu orgulhosa daquele hom em , seu hom em , disposto a m orrer pelos seus. Um calafrio de orgulho percorreu suas costas. Tal com o lhe havia sucedido à sua chegada ao Beco de San Miguel, quando os haviam detido, ela sentiu em si m esm a o poder irradiado por Melchor, esse poder que a havia atraído desde a prim eira vez que o vira.

– Pelej a, cigano! – gritou então. – O diabo nos espera!

Com o se os dem ais que presenciavam a pelej a houvessem estado esperando esse prim eiro grito, o beco inteiro explodiu em estím ulos ou insultos.

Pedro atacou, esporeado pelas pessoas. Melchor conseguiu esquivar-se. Voltaram a desafiar-se.

– Seu idiota, fanfarrão – soltou o García.

Idiota, fanfarrão… As palavras de Pedro García reviveram com o um clarão na m ente de Milagros, e à sua m ente voltou o rosto da velha María. Pedro o havia confessado em Madri, m as ela, bêbada, havia sido incapaz de recordá-lo. “Idiota, fanfarrão”, era isso o que ela havia dito aquela noite. Pedro havia m atado a velha curandeira! Sentiu-se fraca, por sorte alguém conseguiu pegar de seus braços a pequena antes que caísse no chão.

– Cuidado, Melchor! – advertiu-o Caridad quando Pedro García se abalançou a ele aproveitando que desviava a atenção para sua neta.

Esquivou-se um a vez m ais.

– Contigo term inam os Vegas – resm ungou o García –, só tens m ulheres por descendência.

Melchor não respondeu.

– Putas e ram eiras todas elas – chegaram a ouvir os m ais próxim os da boca de Pedro.

Melchor engoliu sua ira, Caridad o percebeu, depois o viu desafiar o inim igo com a m ão livre. “Vem ”, dizia-lhe com ela. Pedro aceitou o convite. As pessoas explodiram em m urm úrios quando a navalha do García talhou o antebraço do Galeote. Em um só instante o sangue tingiu de escuro a m anga de Melchor, que respondeu ao ferim ento com um par de acom etidas infrutíferas. Pedro sorria. Atacou de novo. Outra navalhada, esta na altura do pulso com que Melchor tentou proteger-se. Foi-se fazendo silêncio entre os presentes, com o se previssem o desenlace. Melchor arrem eteu, desaj eitadam ente. A navalha de Pedro alcançou seu pescoço, perto da nuca.

Caridad olhou para Ana, aj oelhada, a cabeça erguida com dificuldade, as m ãos enlaçadas entre as pernas. Atrás dela se ocultava Milagros. Virou o olhar j usto para sentir, quase em sua própria carne, a navalhada que Melchor recebeu no flanco. Sentiu a lâm ina da navalha atravessar o cigano com o se estivessem ferindo a ela m esm a. Para além das arm as, viu sorrir a Rey es, e a seu esposo, e aos Garcías e aos Carm onas. Melchor arrastava um a perna, arquej ava… e sangrava profusam ente. Caridad com preendeu que seu hom em ia m orrer. Pedro brincava com seu rival, adiando sua m orte, hum ilhando-o ao se esquivar com desenvoltura, às gargalhadas, de suas débeis acom etidas. O diabo, pensou Caridad, com o se baixava ao inferno? Voltou-se para Martín, parado a seu lado, e tentou pegar o cabo da navalha que sobressaía da faixa do j ovem cigano.

– Não – im pediu ele.

Forcej aram .

– Ele vai m atá-lo! – gem eu Caridad.

Martín não cedeu. Caridad desistiu por fim e se preparava para lançar-se em socorro de Melchor com as m ãos nuas quando Martín a agarrou. Voltaram a forcej ar, e ele a abraçou tão forte com o pôde.

– Ele o m atará – soluçou ela.

– Não – afirm ou o outro a seu ouvido. Caridad quis olhá-lo no rosto, m as o outro não reduziu a pressão e continuou falando: – Ele não luta assim . Eu sei. Ele m e ensinou a pelej ar, Caridad; eu o conheço. Está deixando-se furar!

Transcorreu um segundo. Ela deixou de trem er.

O cigano soltou Caridad, que voltou o olhar para a pelej a no m om ento em que Pedro, exultante, seguro de si m esm o, olhava para seus avós com o se lhes quisesse brindar o fim de seu inim igo, decidido a dar o golpe definitivo. A Trianeira tardou a com preender e tentou reagir ao ver seu neto atacar o Galeote com indolência, m ovido pela vaidade. A advertência calou-se-lhe na garganta quando Melchor esquivou-se da navalhada dirigida ao centro de seu coração e, com um vigor nascido da ira, do ódio e da própria dor até, afundou sua navalha até o cabo no pescoço de Pedro García, que se deteve subitam ente, com um ricto de surpresa, antes que Melchor rem exesse com sanha no interior, para finalm ente extrair a navalha entre um j orro de sangue.

No silêncio m ais absoluto, o cigano cuspiu sobre o corpo estendido de que o sangue continuava m anando aos borbotões. Quis desviar o olhar para os Garcías, m as não conseguiu.

Tentou erguer-se. Tam pouco o conseguiu. Só conseguiu cravar os olhos em Caridad antes de desabar e de esta correr em sua aj uda.