A Rainha Descalça
Cápitulo 48
Depois de um a noite de dor, Ana chegou a crer que j á não lhe restavam lágrim as. Frei Joaquín foi inábil no consolo porque tam bém a ele custava reprim ir a em oção. O
tem perado sol de verão não conseguiu m elhorar seu ânim o. Os ciganos do beco passavam pelo seu lado sem olhá-los sequer, com o se os acontecim entos do dia anterior houvessem posto fim a qualquer disputa. Ana Vega via as costas dos que saíam do beco, à espera da chegada de Pascual Carm ona. Assim que chegasse o chefe dos Carm onas, cum prir-se-ia a sentença, haviam -lhe dito num a das ferrarias. Pascual constituía sua últim a esperança: não cederia no relativo à m orte de seu pai, ela o sabia. José havia odiado a Melchor, Pascual tam bém , m uitos dos Carm onas haviam feito seus os sentim entos de seu esposo, m as, ainda assim , Pascual era tio de Milagros, a única filha de seu irm ão assassinado, e Ana esperava que ainda restasse algo do carinho com que o cigano brincava com ela em m enina.
– Reze em silêncio, padre – instou com Frei Joaquín, enfastiada daquele constante m urm úrio que aum entava sua angústia e que se unia ao irritante m artelar dos ferreiros.
Tram ava abordar Pascual antes que ele entrasse no beco, suplicar-lhe e aj oelhar-se; hum ilhar-se, lançar-se a seus pés, prom eter-lhe o que ele quisesse em troca da vida de sua filha. Ignorava se o reconheceria depois de cinco anos. Guardava certa sem elhança com José, um pouco m ais alto, bastante m ais fornido… arisco, m al-encarado… m as era o chefe da fam ília e com o tal devia defender Milagros. Olhou para as pessoas que transitavam fora do beco, entre a Cava, as Mínim as e São Jacinto, e invej ou os risos e a aparente despreocupação com que alguns se preparavam para viver naquele m agnífico dia ensolarado, testem unha de seu infortúnio. Viu um par de ciganinhas assediar um payo m endigando um a m oeda e fechou a cara. O hom em se safou das pequenas grosseiram ente, e a m enor caiu no chão. Um a m ulher correu para aj udá-la enquanto outras increparam o payo, que apertou o passo. Ana Vega notou que aquelas lágrim as que ela acreditava esgotadas tornavam a seus olhos: suas am igas de cativeiro. A velha Luisa foi a prim eira a vê-la; as dem ais ainda insultavam o hom em . Luisa m ancou em sua direção, m arcando-se a dor em seu rosto ao sim ples m ovim ento. As outras não tardaram a j untar-se; no entanto, nenhum a delas se atreveu a adiantar-se à velha: sete m ulheres esfarrapadas que andavam para ela e que preenchiam sua turva visão, com o se nada m ais existisse.
– Por que choras, m enina? – perguntou Luisa a m odo de cum prim ento.
– Que… que fazeis aqui? – soluçou ela.
– Viem os aj udar-te.
Ana tentou sorrir. Não conseguiu. Quis perguntar com o se haviam inteirado, m as as palavras não lhe saíam . Respirou fundo e tentou acalm ar-se.
– Eles nos odeiam – respondeu. – Odeiam os Vegas, odeiam m eu pai, Milagros, a m im … a todas! Que podem os conseguir nós sozinhas?
– Nós? Sozinhas? – Luisa se virou e apontou para trás de si. – Tam bém vieram as Xim énez, de Carm ona; outras do Viso e duas da Cruz de Alcalá de Guadaira. Lem bras-te de Rosa Cruz?
Rosa apareceu por trás da últim a das Vegas e lhe lançou um beij o. Nesta ocasião, Ana abriu a boca num sorriso. Era o m esm o gesto que Rosa havia feito quando Ana ficava para trás, na noite, guardando-lhe as costas enquanto a outra fugia através de um buraco na cerca da Misericórdia. Isso j á fazia dois anos.
– Há um a de Salteras – prosseguiu Luisa – e outra de Cam as. Logo chegarão de Tom ares, de Dos Herm anas, de Écij a…
– Mas… – conseguiu dizer Ana Vega antes que a velha a interrom pesse.
– E virão de Osuna, de Antequera, de Ronda, do Puerto de Santa María, de Marchena… de todo o reino de Sevilha! “Nós” dizes? – Luisa calou-se para tom ar o ar que lhe faltava. Nenhum a do grupo que rodeava as duas ciganas interveio na conversa, algum as com os dentes trincados, outras j á com lágrim as nos olhos. – Muitas com partilharam o cárcere conosco… contigo, Ana Vega – continuou a velha. – Todas sabem o que fizeste. Eu te disse um dia: tua beleza está no orgulho de cigana que nunca perdeste. Nós te som os agradecidas; todas nós te devem os algo, e as que não, essas se acham em dívida contigo por causa de suas m ães, suas irm ãs, suas filhas ou suas am igas.
Se Melchor, Caridad, Milagros e Frei Joaquín haviam tardado cerca de um a sem ana a percorrer o cam inho de Barrancos a Triana, Martín Vega levou tão só três dias galopando desde a fronteira portuguesa até a cidade de Córdova. As pessoas enviadas por Méndez em sua busca o encontraram j á de regresso a Barrancos duas noites depois de Melchor e os dem ais partirem .
Ouviu as explicações do contrabandista, consciente de que o Galeote se encam inhava para um a m orte segura. Ninguém o defenderia, não havia Vegas em Triana, tam pouco em Sevilha. A grande m aioria dos Vegas da ciganaria do Horto da Cartuxa havia sido detida durante a grande batida e perm anecia presa nos arsenais, incapaz de dem onstrar que viveu conform e às leis do reino e sobretudo da Igrej a; os poucos que escaparam dos soldados do rei se achavam dispersos pelos cam inhos. Havia-os, sim , no entanto, em Córdova, um a das cidades com m ais ciganos.
Parentes distantes, m as com sangue Vega; Martín soube deles em razão da venda de um a boa partida de tabaco. Sabia m ontar a cavalo, aprendera-o quando aj udava seu irm ão Zoilo, e esteve a ponto de rebentar aquele que Méndez lhe proporcionou em busca de um a aj uda que os cordoveses lhe negaram .
– Quando chegássem os a Triana – desculpou o patriarca daquelas pessoas –, Melchor j á estaria m orto.
Soube que não devia insistir. Tal com o em Sevilha, em Múrcia, no Puerto de Santa María e em tantas outras, em Córdova os ciganos podiam residir; eles conheceram os arsenais; elas, os depósitos; todos, a separação de seus cônj uges, filhos e entes queridos. Alguns conseguiram retornar a suas casas, e os que o conseguiram eram proibidos de deixar a cidade. Com o iam deslocar-se até Triana para lutar com as fam ílias dali? Haveria sangue, feridos e talvez m ortos.
As autoridades ficariam sabendo. “Não nos peças esse sacrifício”, suplicavam os olhos do velho cigano.
– Sinto m uito, rapaz – lam entou-se o patriarca. – Aliás – acrescentou –, deve fazer três dias que um a de nossas m ulheres topou com um grupo de ciganas fam élicas que tentavam atravessar com discrição a ponte sobre o rio Guadaj oz.
– E?
– Contaram -lhe que haviam fugido da Misericórdia de Saragoça e que se dirigiam para Triana.
Ao ouvi-lo citar Saragoça, Martín se ergueu na cadeira em que havia desabado após a negativa. Seria possível?
– Eram Vegas. Todas elas – term inou o velho para confirm ar seu pressentim ento.
– Estava… Ana Vega estava entre elas?
O patriarca anuiu.
– Lem bro-m e m uito bem – asseverou um a m ulher que m andaram cham ar im ediatam ente –, Ana Vega. O nom e das dem ais eu não saberia dizer, m as o de Ana Vega, sim . Era ela que m andava: Ana para aqui, Ana para lá.
– Onde podem estar agora? – inquiriu Martín.
– Estavam exaustas e até levavam um a velha, não sei se enferm a, eu j uraria que sim .
Discutiram sobre descansar um tem po aqui, m as Ana Vega disse que não deviam deter-se nas grandes cidades, que o fariam em Carm ona, com as Xim énez. Talvez j á tenham chegado. Nós lhes dem os de com er, e elas prosseguiram .
Martín não tardou a galopar de novo, desta vez em direção a Carm ona. Se efetivam ente parassem ali, não lhe seria difícil encontrá-las. As Xim énez eram bastante conhecidas entre os ciganos de toda a Andaluzia porque sua fam ília era um a das poucas, talvez a últim a, que ainda se regia pelo m atriarcado. Ana Xim énez, em sua condição de m atriarca, tal com o sua m ãe, exigia que suas filhas e as filhas destas dessem continuidade à linha m aterna quanto a seus sobrenom es: os filhos hom ens que dera à luz se cham avam com o seu esposo; as m ulheres levavam com orgulho o sobrenom e de suas antecessoras.
Encontrou-as e foi incapaz de reconhecer em algum a daquelas m ulheres descarnadas a filha cuj as virtudes Melchor tanto louvava. “Ana seguiu para Triana”, esclareceram -no. As duas velhas, Ana Xim énez e Luisa Vega, foram as prim eiras a pressentir problem as diante do sem blante com que o j ovem recebeu a notícia. “Melchor Vega… velho louco!”, soltou para Xim énez depois de ouvir as atropeladas explicações de Martín. “Cigano!”, resm ungou todavia Luisa com orgulho. Martín não pôde esclarecer as num erosas dúvidas que todas elas lhe apresentaram . “Caridad diz…” “Advertiu Caridad…” “Quem é essa Caridad?!”, saltou de novo a Xim énez. “Ela assegura que m atarão a todos: a Melchor, a Milagros e a ela”, lim itou-se a responder aquele.
– A única que vinha para m orrer em Triana era eu. – Com essas palavras, Luisa rom peu o silêncio que se fez após a afirm ação do cigano. – Vós m e obrigastes a vir – recrim inou as dem ais.
– Dissestes-m e que encontraríam os os nossos; prom etestes-m e que eu poderia m orrer em m inha terra. Arrastastes-m e por m eia Espanha ao longo de léguas e léguas de suplício para m inhas pernas. Por que vos calais agora?
– Que queres que façam os? – respondeu um a das Vega. – Vês que os de Córdova não estão dispostos…
– Hom ens! – interrom peu-a Luisa, seus olhos brilhantes com o não o haviam estado desde anos atrás. – Por acaso necessitam os deles para sobreviver em Málaga ou em Saragoça?
– Mas a lei cigana… – com eçou a opor outra delas.
– Que lei? – gritou Luisa. – A lei cigana é a dos cam inhos, a da natureza e da terra, a da liberdade, e não a de uns ciganos que perm itiram que os de sua raça fossem encarcerados por toda a vida enquanto eles viviam com o covardes j unto aos payos. Covardes! – repetiu a velha. –
Não m erecem cham ar-se ciganos. Nós sofrem os hum ilhações enquanto eles obedeciam aos payos. Eles esqueceram a verdadeira lei, a da raça. Nós suportam os espancam entos e insultos, e padecem os fom e e doenças que arruinaram nosso corpo. Separaram -nos de nossas fam ílias, e nunca deixam os de lutar. Vencem os o rei e seu m inistro. Por acaso não cam inham os livres?
Lutem os tam bém contra aqueles que se cham am ciganos sem sê-lo!
– Ana aj udou um a de m inhas filhas – m urm urou então a Xim énez.
– Essa é a única lei – sentenciou Luisa, ao m esm o tem po que verificava que com eçavam a ilum inar-se os rostos de suas parentes. – Tam bém aj udou a Coxa. Recordais-vos da Coxa? A de Écij a, aqui perto. Escapou de Saragoça um ano antes que nós. E as duas do Puerto de Santa María? As do prim eiro indulto…
A velha Luisa continuou citando todas aquelas que as haviam precedido em conseguir a liberdade. Foi todavia a Xim énez quem tom ou a decisão.
– Martín – dirigiu-se ao j ovem , calando o discurso da outra. – Galoparás até Écij a. Agora m esm o. Ali procurarás a Coxa e lhe dirás que Ana Vega necessita dela, que todas necessitam os dela, que ela se dirij a sem dem ora para Triana, para o Beco de San Miguel. Pede-lhe que m ande recado às dem ais ciganas que ela conheça dos povoados próxim os, que cada um a delas faça correr a m ensagem .
Marchena; Antequera; Ronda; o Puerto de Santa María… Martín recebeu instruções sim ilares para cada um daqueles lugares.
Era a terceira ocasião em que as pessoas do Beco de San Miguel se viam surpreendidas por um a chegada im prevista: prim eiro foi o Galeote com seu grupo; depois Ana Vega, e agora cerca de um a quinzena de ciganas encabeçadas por Luisa Vega, com o espírito e as forças renascidos, e Ana Xim énez, a m atriarca de Carm ona, que tentava cam inhar erguida apoiando-se num belo bastão dourado de duas pontas que cintilava ao sol.
– Que vam os fazer? – perguntou num sussurro Ana Vega, enquanto seguia andando j unto às duas velhas.
– Não se deve – respondeu no m esm o tom a Xim énez – deixar os hom ens tom ar a iniciativa; eles crescem ...
– Não seria prudente esperar que sej am os m ais num erosas? Ontem …
– Ontem j á não existe – replicou Luisa. – Se esperássem os, seria Rafael García quem teria a oportunidade de decidir. Poderíam os chegar tarde.
Enquanto falavam , as que as seguiam dirigiam o olhar para as pessoas do beco. Muitas se conheciam . Algum as eram até parentes, fruto de casam entos entre fam ílias. Houve alguns sorrisos, alguns cum prim entos, esgares de incredulidade ao longe por parte dos hom ens, porque as m ulheres, as ciganas não hesitavam em aproxim ar-se e perguntar o que elas faziam ali, o que pretendiam . Frei Joaquín as seguia alguns passos atrás, rezando para que aquele variegado grupo conseguisse o que parecia im possível.
Chegaram até a porta da casa dos Garcías e, aos gritos, instaram ao Conde que saísse para recebê-las.
– Rafael García – encarou-o a Xim énez quando por fim o Conde apareceu no beco, ladeado pelos chefes de algum as fam ílias –, viem os libertar o Galeote e sua neta.
Ana trem eu. A liberdade de seu pai era algo com que ela nem sequer havia sonhado. Não acreditava possível que a condenação pudesse anular-se, m as, ao virar o rosto e verificar a seriedade que os sem blantes de Luisa e Ana Xim énez refletiam , com eçou a acalentar esperanças.
– Quem sois vós para vir aqui, a Triana, para libertar alguém ?
A voz potente do Conde interrom peu os m urm úrios com que a m aioria dos ciganos do beco recebeu a exigência da Xim énez.
Luisa se adiantou à resposta de sua com panheira. Forçou a voz, que surgiu rouca, quebrada:
– Som os as que padeceram por ser ciganas enquanto tu e os teus vivíeis aqui, em Triana, subm etidos aos payos. Rafael García: não te vi em Saragoça pelej ando por teu povo, esse m esm o povo que dizes representar com o chefe do conselho. Esse ouro que exibes – a cigana assinalou com desprezo o grande anel que se destacava, brilhante, num dos dedos do patriarca –, não deverias tê-lo em pregado para com prar a liberdade de algum cigano?
Luisa calou-se por alguns instantes e cravou o olhar nos chefes que acom panhavam o Conde; um deles não foi capaz de corresponder. Depois ela lhes deu as costas, se virou e apontou com o dedo para os hom ens do beco.
– Tam pouco vi nenhum de vós! – reprochou-os aos gritos. – Ainda há m uitos dos nossos detidos!
Alguns baixaram os olhos à m edida que Luisa, a Xim énez e as dem ais ciganas pousavam seus olhares de desprezo nas pessoas do beco.
– Que íam os fazer? – ouviu dentre elas.
Luisa esperou que os m urm úrios de assentim ento cessassem , arqueou as sobrancelhas e virou o rosto para o canto de que havia vindo a pergunta. Durante alguns instantes o silêncio invadiu a rua. Depois, a velha exortou com gestos as ciganas que as seguiam a que abrissem espaço no beco, segurou o braço de Ana Vega e se plantou com ela no centro.
– Isto! – gritou rasgando a surrada cam isa da cigana.
Ana ficou nua do tronco para cim a. Seus peitos pendiam flácidos por cim a de um as costelas que bradavam a fom e padecida.
– Ergue-te, cigana! – resm ungou a velha.
A pele do ventre nem sequer chegou a estender-se quando Ana Vega obedeceu e desafiou com orgulho o beco inteiro.
– Isto! – repetiu Luisa, segurando Ana e obrigando-a a girar para m ostrar os protuberantes lanhos j á ressecados que se entrecruzavam até chegar a cobrir quase todas as suas costas. –
Pelej ar! – cuspiu Luisa aos gritos. – Isso é o que deveríeis haver feito: pelej ar, seus covardes!
A tosse da velha se ouviu com nitidez no reverente silêncio com que o beco acolheu suas acusações. Ana acreditou ver sangue em seu escarro. Luisa tentou respirar; não conseguia. A outra a pegou nos braços antes que caísse, e as dem ais as rodearam im ediatam ente.
– Lutai – conseguiu articular Luisa. – Tu conseguiste, Ana Vega. Morrerei em m inha terra.
Consiga-o agora com os teus. Triana é nossa, dos ciganos. Não consintais na m orte de Melchor.
Tossiu de novo, e a sangue assom ou à sua boca.
– Está m orrendo – afirm ou um a das Vegas.
Ana buscou aj uda com o olhar.
– Frei Joaquín! – cham ou aos gritos. – Cuide dela – acrescentou depois de este aproxim ar-se e acocorar-se, perturbado, tentando im pedir que seu olhar se concentrasse nos peitos nus de Ana.
– Mas… eu…
– Ainda não é a tua hora – tentou Ana anim ar a velha, sem dar atenção às escusas de Frei Joaquín. – Cuide dela. Trate-a – exigiu-lhe pondo-a em suas m ãos. – Faça algo. Leve-a para um hospital. O senhor não é frade?
– Frade eu sou, m as Nosso Senhor não m e concedeu a virtude de ressuscitar os m ortos.
O corpo de Luisa, m enor e m ais indefeso que nunca, pendia inerte dos braços do frade. Ana se preparava para despedir-se dela quando três palavras a detiveram .
– Não a decepciones.
Aquela voz… Procurou entre as ciganas. A Coxa! Não estava entre as que haviam chegado com as Vegas. A Coxa anuiu para confirm ar o que passava pela m ente de Ana. “Atendi a teu cham ado”, disseram -lhe seus olhos, “e vieram outras com igo.”
– Não nos decepciones, Ana Vega – proferiu depois, ao m esm o tem po que com a cabeça fazia um gesto para a entrada do beco.
Ana, e m uitas outras com ela, seguiu a indicação: duas outras ciganas apareciam naquele preciso instante. Um torvelinho de sentim entos confundiu Ana Vega. Continuava nua, m ostrando suas cicatrizes e seu m ísero corpo sob um sol radiante em penhado em destacá-la dentre todas; desej ava chorar a m orte de Luisa, aproxim ar-se dela antes que seu cadáver esfriasse, e abraçá-la pela últim a vez. Quanto haviam padecido j untas! E, enquanto isso, a sorte de seu pai e de sua filha continuava nas m ãos de seus acérrim os inim igos, ao m esm o tem po que ciganas de todos os lugares deixavam os seus para correr em sua aj uda.
– Rafael García, entrega-nos o Galeote e sua neta!
A rotunda ordem da Xim énez devolveu Ana à realidade, e ela se apressou a pôr-se ao lado da velha m atriarca. As dem ais m ulheres, todas a um a, voltaram a apinhar-se ao redor. Atrás ficou Frei Joaquín, que m antinha nos braços o cadáver de Luisa Vega.
Rafael García hesitou.
– Não penso… – conseguiu dizer.
Um a enfiada de im propérios se elevou das ciganas: “Seu cão!” “Solta-os!” “Payo!” “Seu safado!” “Onde os m anténs?” Alguém do beco revelou o esconderij o num sussurro. “Num a fossa da ferraria dos Garcías!”, repetiu-se a voz aos gritos.
O grupo de ciganas avançou para a ferraria, localizada diante delas, em purrando a Ana e à Xim énez. A m atriarca ergueu seu bastão quando quase ia topar com os hom ens. Os em purrões cessaram para perm itir-lhe falar.
– Rafael, tens a oportunidade de…
– A vingança é de Pascual Carm ona – interrom peu-a o Conde. – Não devo…
– A vingança é nossa! – ouviu-se de trás –, das m ulheres que sofreram .
– Das ciganas!
– Afasta-te, seu filho da puta.
Ana Vega cuspiu as palavras a só um passo do velho, que buscou aj uda nos outros chefes, m as estes se afastaram dele. Rafael García ergueu o olhar para a j anela, em busca do apoio de Rey es, sua esposa, e lançou um suspiro de decepção ao verificar que ninguém respondia. Nem sequer a Trianeira se atrevia a enfrentar as dem ais.
– Ides perm itir que se oponham a um a sentença do conselho e que um assassino fuj a? – gritou nervoso para os dem ais ciganos do beco, a m aioria deles aglom erada aos lados e atrás das m ulheres.
– Vais m atar tam bém a elas, a todas? – replicou alguém .
– A ti não te im porta vingar o Carm ona! – gritou um a m ulher. – Só queres m atar o Galeote!
O Conde ia responder, m as, antes que pudesse fazê-lo, deparou com a ponta do bastão da Xim énez em seu peito.
– Afasta-te – resm ungou a m atriarca.
Rafael García resistiu.
– Não as deixeis passar – ordenou então à sua gente.
Os Garcías, os únicos que se interpunham na entrada da ferraria, seguraram com força e elevaram a m eia altura os m artelos e as ferram entas que até então haviam m antido indolentes em suas m ãos.
A am eaça produziu um silêncio expectante. Ana Vega ia abalançar-se ao Conde quando um a velha dos Cam acho se adiantou até eles por um dos lados.
– Ana Vega j á pagou o suficiente pelo que seu pai fez e pelo que sua filha possa haver feito.
Todos nós o verificam os! Até Luisa m orreu pela liberdade que os Vegas exigem . Rafael: m anda a tua gente apartar-se.
A velha procurou e obteve um sinal de aprovação da parte do chefe de sua fam ília antes de continuar.
– Se não o fizeres, nós, os Cam achos, as defenderem os contra os teus.
Um calafrio percorreu as costas de Ana Vega. A fam ília Cam acho, do m esm o beco, defendia-a e com isso defendia o perdão para seu pai! Quis agradecê-lo à velha, m as, antes que pudesse aproxim ar-se dela, outras duas m ulheres, estas dos Flores, se j untaram à prim eira. E outra, e m ais um a. Todas de diferentes fam ílias, diante dos olhares entre resignados e aprovadores de seus hom ens. Ana sorriu. Alguém lhe pôs um grande lenço am arelo de longas franj as sobre os om bros j usto antes que ela se encam inhasse para o interior da ferraria. Ninguém ousou im pedir-lhe a entrada.