A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 5 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 5

Tiveram de transcorrer cinco m eses para que Caridad retornasse à igrej a de Nossa Senhora dos Anj os e se encontrasse de novo com o irm ão m ais velho da Confraria dos Negritos. Foi na véspera da festa da padroeira, prim eiro de agosto de 1748. Ao entardecer desse dia, entre um num eroso grupo de ciganas escandalosas, Milagros e sua m ãe entre elas, crianças agitadas e até alguns hom ens com guitarra, Caridad cruzou a ponte de barcos para dirigir-se ao bairro de San Roque.

Ainda conservava seu velho chapéu de palha com que, apesar dos num erosos buracos e rasgões, tentava proteger-se do abrasador sol andaluz. No entanto, fazia tem po que j á não vestia seu desbotado traj e de flanela cinza. O avô a havia presenteado com um a cam isa verm elha e um a am pla saia m ais verm elha ainda, cor de sangue aceso, am bas as peças de percal, que ela cuidava com esm ero e exibia com orgulho. As ciganas não sabiam coser; com pravam suas belas roupas, em bora nenhum a das m ulheres tivesse descartado que aquelas fossem fruto de um descuido durante algum a das andanças do avô.

Ana e Milagros não puderam dissim ular sua adm iração diante da m udança experim entada por Caridad. De pé diante de todos eles, tím ida e envergonhada, m as com os olhinhos pardos brilhantes ao reflexo verm elho de suas novas roupas, o sorriso que se desenhava naquele rosto arredondado e de lábios carnosos era todo gratidão. Contudo, não foi o sorriso de Caridad o que causou adm iração nas ciganas; foi a sensualidade que em anava dela; as curvas de um corpo bem -form ado; os grandes peitos que levantavam a cam isa para deixar à m ostra um a fina linha de carne de cor negra com o o ébano entre saia e cam isa…

– Pai! – recrim inou-o Ana ao aperceber-se de que precisam ente Melchor perm anecia enlevado naquela linha.

– Que…? – revirou-se este.

– Maravilhosa! – entrou na discussão Milagros aplaudindo com entusiasm o.

– Toda Sevilha estará hoj e reunida na esplanada dos Anj os – havia explicado Milagros a Caridad nesse m esm o dia. – Haverá m uitas oportunidades para vender tabaco ou ler a sorte; as pessoas se divertem m uito nessa festa, e quando estiverem entretidas… ganharem os um bom dinheiro.

– Por quê? – perguntou Caridad.

– Cachita – respondeu a m oça utilizando o apelido com que Caridad lhe havia dito que a cham avam em Cuba –, hoj e se correm gansos! Já o verás – interrom peu o gesto da outra para pedir explicações.

Enquanto se dirigia à igrej a, rodeada de ciganas, dentre as quais se destacava por sua altura, acentuada pelo velho chapéu que resistia a ser j ogado fora, Caridad observou Milagros, que ia algo m ais adiantada, com as j ovens. “Deve de ser um a boa festa essa corrida de gansos”, pensou então, pois a m oça ria e brincava com suas am igas com o se houvesse deixado para trás a tristeza que a tom ava desde que, fazia pouco m ais ou m enos um m ês, José Carm ona havia anunciado o com prom isso de sua filha com Alej andro Vargas para casar-se ao fim de um ano. Melchor, que desej ava que a neta se unisse a alguém dos Vegas, desapareceu então durante m ais de dez dias, dos quais regressou em estado tão deplorável que Ana se preocupou e m andou recado à velha María para que viesse atendê-lo. Ainda assim , nem a própria Ana apoiou Melchor naquele problem a: devia ser o pai da m enina quem decidisse.

À m edida que circundavam as m uralhas da cidade e superavam as diversas portas, m ultidões de buliçosos sevilhanos iam j untando-se ao grupo de ciganos. Já nas cercanias do descam pado, entre o Arroio do Tagarete e a igrej a dos Negritos, o avanço se atenuava. À espera de que se iniciasse a festa, as pessoas, em grupos, conversavam e riam . Aqui e ali, em rodas cercadas de espectadores, havia hom ens e m ulheres cantando e dançando. Um dos ciganos, sem deixar de andar, com eçou com sua guitarra. Várias m ulheres deram uns alegres passos de dança entre os assobios e aplausos dos m ais próxim os, e os ciganos continuaram andando e tocando com o se estivessem de ronda. Caridad olhava para um lado e para outro: aguadeiros e vinhateiros; vendedores de sorvete, rosquilhas, bolinhos de chuva e todo tipo de doces; com erciantes das m ercadorias m ais peregrinas, alguns anunciando seus produtos aos gritos, outros fazendo-o sub-repticiam ente, atentos aos oficiais de j ustiça e soldados que passeavam ; equilibristas que andavam e saltavam em corda bam ba; saltim bancos; dom adores de cães que divertiam as pessoas; frades e padres, centenas deles…

“Sevilha é o reino que conta com m ais religiosos”, havia Caridad ouvido dizer em m ais de um a ocasião, e alguns participavam da festa bebendo, dançando ou cantando sem o m enor decoro; outros, em contrapartida, se dedicavam a dar serm ão a pessoas que não lhes faziam o m enor caso. Isto sim , quase todos iam aspirando seu pó de tabaco, com o se este fosse o cam inho para a salvação eterna. Caridad tam bém observou alguns j anotas que peram bulavam entre as pessoas: j ovens am aneirados que se vestiam à m oda francesa da corte, tapando delicadam ente a boca e o nariz com seu lenço bordado enquanto sorviam tabaco.

Um par daqueles afrancesados presum idos se deu conta da curiosidade de Caridad por suas pessoas, m as se lim itaram a com entá-lo entre si com o se não fosse m ais que um incôm odo.

Caridad desviou o olhar no m esm o instante, turbada. Quando voltou a olhar, deu-se conta de que os ciganos se haviam dispersado no m eio da m ultidão. Moveu a cabeça de um lado para o outro, procurando-os.

– Aqui. Estou aqui – ouviu que lhe dizia Milagros a suas costas. Caridad se voltou para ela. –

Desfruta de tua festa, Cachita.

– Que…?

– Os da confraria – interrom peu-o a m oça –, aqueles que te trataram com soberba. Hoj e verás onde fica essa altivez.

– Mas…

– Vem , segue-m e – indicou-lhe tentando abrir cam inho entre as pessoas m ais apinhadas, aquelas que se haviam instalado diante da igrej a. – Senhores! – gritou Milagros. – Excelências!

Aqui há um a negra que vem à sua festa.

As pessoas viravam a cabeça e abriam passagem para as duas m ulheres. Quando chegaram às prim eiras filas, Caridad se surpreendeu com a quantidade de negros que se encontravam ali.

– Tenho algo que fazer – despediu-se Milagros. – Escuta, Cachita – acrescentou baixando a voz: – Tu não és com o eles, tu estás com igo, com m eu avô, com os ciganos.

Antes que ela tivesse oportunidade de dizer qualquer coisa, a m oça desapareceu entre a m ultidão e Caridad se encontrou, desta vez sim , sozinha na prim eira linha de um a m ultidão que se apinhava diante da fachada traseira da paróquia de San Roque. Entre ela e os estrados que se haviam erguido atrás do tem plo, abria-se um a am pla faixa de terreno livre. Que era aquela festa? Por que lhe havia sussurrado Milagros que ela não era com o os dem ais? As pessoas com eçavam a im pacientar-se, e alguns gritos de instância se ouviram dentre a m ultidão. Caridad dirigiu a atenção para os estrados: nobres e autoridades sevilhanos luxuosam ente vestidos, m em bros do cabido da catedral, adornados com suas m elhores galas, conversavam e riam em pé, alheios ao descontentam ento dos cidadãos.

Transcorreu um bom tem po, e as queixas dos sevilhanos dim inuíram até que se ouviu um repique de tam bor atrás da paróquia de San Roque, onde ficava a igrej a dos Negritos. Os que estavam distraídos com danças e diversões se apinharam atrás dos que j á esperavam , enquanto os soldados e oficiais de j ustiça se em pregavam a fundo para que a m ultidão não transpusesse as instáveis cercas de m adeira.

Quando um par de cavaleiros, ao som de pífanos e tam bores e entre o aplauso do público, dobrava a esquina de San Roque, Caridad notou que as pessoas tentavam chegar à prim eira fila.

Mais cinco pares de cavaleiros seguiram o prim eiro, cada um com posto por um cavaleiro negro que ocupava a direita, o lugar de preferência, incom odam ente vestido com luxo, com m angas brancas e esplendorosos penachos no chapéu. Os cavalos m ontados pelos negros tam bém iam aj aezados com fasto: boa sela, guizos e fitas coloridas em crinas e caudas. Ao contrário, os cavaleiros que acom panhavam os negros desfilavam com vestiduras vulgares: balonas caídas e chapéus ordinários. Seus cavalos trotavam sem adorno algum .

Depois de saudar as autoridades, os pares de cavaleiros com eçaram a galopar em círculo ao redor do descam pado. Caridad reconheceu o irm ão m ais velho da confraria no terceiro par; fazia grandes esforços por m anter-se sobre a m ontaria, com o os outros de sua raça. As pessoas riam e apontavam para eles. Hom ens e m ulheres escarneciam deles aos gritos, enquanto os negros se bam boleavam perigosam ente, conquanto tentassem m anter a seriedade e a com postura.

A m úsica seguia soando. Em dado m om ento, o cavaleiro que acom panhava o irm ão m ais velho da confraria, um hom em com um a cuidada barba grisalha que m ontava com porte e desenvoltura, deu a m ão ao negro para im pedir que caísse.

– Deixa-o cair! – gritou um a m ulher.

– Negro, vais deixar os dentes na terra! – acrescentou outro.

– E até teu rabo negro! – uivou um terceiro, originando um a gargalhada geral.

“Que significa essa fuzarca?”, perguntou-se Caridad.

– São cavaleiros maestrantes. – A resposta lhe chegou de trás.

Caridad se voltou e topou com um risonho Frei Joaquín. Havia-se dirigido para ela ao reconhecer entre a m ultidão o verm elho de sua vestim enta. A m ulher escondeu o olhar.

– Caridad – recrim inou-a o j ovem frade: – eu te disse em m uitas ocasiões que todos nós som os filhos de Deus, não tens por que baixar os olhos, não tens por que hum ilhar-te diante de ninguém …

Nesse m om ento Caridad ergueu a cabeça e com um gesto apontou para os negros que continuavam galopando entre as pilhérias e zom barias das pessoas. Frei Joaquín a entendeu.

– Talvez eles – respondeu erguendo as sobrancelhas – pretendam ser o que não são. A Real Orden de Caballería de la Maestranza de Sevilha apadrinha a Confraria dos Negritos; todo ano o faz. Em dias com o este, negros e nobres, a classe m ais alta e a m ais hum ilde da cidade, trocam de posição. Mas em qualquer caso a confraria obtém algum dinheiro com os gansos que a maestranza lhe dá.

– Que gansos? – perguntou Caridad.

– Aqueles – assinalou-lhe o frade.

Os seis pares j á haviam deixado de exibir-se e se haviam reunido diante das autoridades. Um pouco m ais longe, num extrem o do descam pado, para onde assinalava Frei Joaquín, uns hom ens se afanavam para estender um a corda sobre duas longas estacas cravadas nos lim ites do descam pado. No m eio da corda, de cabeça para baixo, agitava-se com violência um corpulento ganso am arrado a ela pelas patas. Quando os hom ens term inaram de pendurar o ganso, o assistente de Sevilha, refestelado num a poltrona sobre o estrado, ordenou ao prim eiro negro que galopasse para o anim al.

Caridad e Frei Joaquín, entre a ensurdecedora gritaria da m ultidão, contem plaram o desaj eitado galope do negro que, ao passar sob o ganso, tentou agarrar o serpenteante pescoço do anim al com a m ão direita sem consegui-lo. Seguiu-o o cavaleiro maestrante que fazia par com ele. O nobre esporeou o cavalo, que saiu a todo o galope com seu cavaleiro uivando em pé nos estribos. Ao passar sob o ganso, o cavaleiro maestrante conseguiu agarrá-lo pelo pescoço e arrancou-lhe a cabeça. Os sevilhanos aplaudiram entusiasm ados e gritaram vivas enquanto o corpo do ganso estrem ecia pendente na corda. Poucos puderam percebê-lo, m as o assistente e alguns outros nobres que se sentavam no estrado fizeram um gesto de reprim enda aos dem ais m aestrantes: dispunham tão som ente de seis gansos e havia que divertir o povo.

Com essas instruções, a corrida de gansos se estendeu no entardecer para deleite dos cidadãos.

Nenhum negro conseguiu decapitar o anim al. Um deles conseguiu agarrá-lo pelo pescoço, m as não com a suficiente velocidade, e o ganso se defendeu e lhe bicou a cabeça, o que originou as m ais ignom iniosas troças por parte do público. Os seis negros caíram em algum m om ento, enquanto galopavam sobre uns cavalos cada vez m ais excitados, ou ao soltar um a das m ãos e pôr-se de lado sobre os estribos para agarrar o ganso. Por seu lado, os gansos foram m orrendo à m edida que o assistente fazia um sinal para os maestrantes.

– Depois os negritos os venderão e a confraria ficará com o dinheiro – explicou-lhe Frei Joaquín.

Caridad estava absorta no espetáculo, invadiam -na sensações contraditórias diante da gritaria das pessoas e da visão daqueles desaj eitados negros pretendendo decapitar os gansos. Não havia encontrado o sentim ento da raça nos olhos do irm ão m ais velho, a solidariedade, nem sequer a com preensão, quando não com paixão, que nenhum negro de Cuba escondia diante de um irm ão de sangue.

Com o desfile final, após a m orte do últim o dos gansos, as pessoas com eçaram a dispersar-se e os nobres e religiosos que presidiam a festa se levantaram de suas poltronas. “Tu não és com o eles”, havia-lhe dito Milagros. “Tu estás com os ciganos”, havia acrescentado com esse orgulho que sem pre aparecia nos lábios de todos eles ao referir-se à sua raça. Estava com os ciganos?

Estava com Milagros. A am izade e a confiança que lhe m ostrava a m oça se selaram assim que esta lhe com unicou que podia ficar com Melchor e vieram a consolidar-se no m om ento em que seu pai tornou público o com prom isso m atrim onial com Alej andro. A partir de então Milagros tentou com partir com Caridad a dor que sentia, com o se ela, que havia sido escrava, pudesse entendê-la m elhor que ninguém . Mas o que sabia Caridad de am ores frustrados? José Carm ona, o pai de Milagros, olhava-a de longe, com o se se tratasse de um obj eto incôm odo, e Ana, a m ãe, com eçou a suportá-la com o se se tratasse de um capricho fugaz de sua filha. Quanto a Melchor… quem podia saber o que pensava ou sentia o cigano? Ele tanto a presenteava com um a saia e um a cam isa de cor verm elha com o passava a seu lado sem olhá-la sequer, ou não lhe falava durante dias. De início, por instância de sua neta, Melchor perm itiu que Caridad continuasse ocupando o canto do patiozinho de ventilação, e com o tem po ela se converteu na única pessoa que tinha livre acesso ao santuário do avô.

Num a tarde de m aio, quando a prim avera havia florescido em toda Triana, o cigano se encontrava perto do poço, no pátio de entrada, oculto entre ferros velhos e retorcidos, fum ando um charuto e deixando passar o tem po, perdido naqueles insondáveis m undos em que se refugiava. Caridad passou j unto a ele a cam inho da porta de saída. O arom a do tabaco deteve seus passos. Quanto tem po fazia que não fum ava? Aspirou com força a fum aça que envolvia o cigano num a vã tentativa de que chegasse a seus pulm ões e a seu cérebro. Anelava voltar a sentir a sensação de alívio que lhe dava o tabaco! Fechou os olhos, ergueu levem ente a cabeça, com o se pretendesse seguir a traj etória ascendente da fum aça, e aspirou um a vez m ais. Nesse m om ento Melchor despertou de sua letargia.

– Tom a, negra – surpreendeu-a oferecendo-lhe o charuto.

Caridad não hesitou: pegou o charuto, levou-o à boca e puxou dele com fruição. Em alguns instantes sentiu um leve form igam ento em pernas e braços e um a relaxante tonteira; seus olhinhos pardos faiscaram . Ia devolver o charuto ao cigano, m as este lhe indicou que continuasse fum ando com um displicente gesto de m ão.

– De tua terra – com entou enquanto a via fum ar. – Bom tabaco!

Caridad j á voava; sua m ente totalm ente relaxada, perdida.

– Não é havano – ouviu-se afirm ar a si m esm a.

Melchor franziu o cenho. Com o que não era de Cuba? Ele o pagava com o a um puro havano!

Aquele dia foi o prim eiro em que Caridad entrou no quarto do cigano.

As pessoas se negavam a abandonar o bairro de San Roque e o descam pado onde se sucedia a festa. Aqui e ali soavam as guitarras, as castanholas, as pandeiretas e os cantes; hom ens e m ulheres, sem distinção de sexo ou de idade, dançavam com alegria em grupos ao redor de fogueiras.

– Onde está Milagros? – perguntou o frade a Caridad enquanto os dois peram bulavam entre a m ultidão.

– Não sei.

– Não te disse onde…?

Frei Joaquín interrom peu-se. Caridad j á não estava a seu lado. Virou-se e viu-a um par de passos atrás, im óvel diante de um a barraca de doces. Aproxim ou-se sem poder evitar sentir-se confuso: aquela m ulher negra, vestida de verm elho e com a cam isa cingida ao corpo, era obj eto de olhares libidinosos e com entários de quantos a rodeavam , e no entanto aos olhos do frade apareceu com o um a m enina grande a que davam água na boca o arom a e a visão dos doces: rosquilhas, bolinhos de chuva, tortas de aceite, pestiños, poleas…

– Dê-m e uns polvorones – ordenou o religioso ao doceiro após dar um a rápida olhada na confeitaria exposta na barraca. – Já verás, Caridad, estão deliciosos.

Frei Joaquín pagou e continuaram andando sem rum o, em silêncio. O frade via de soslaio com o Caridad saboreava os doces ovalados de am êndoa, m anteiga, açúcar e canela, tem eroso de interrom per o prazer que se revelava nela. “Tê-los-á provado algum a vez?”, perguntou-se.

Provavelm ente não, concluiu diante das sensações que m ostrava a m ulher. Era… pensou, com o quando Melchor havia aparecido no convento puxando Caridad, naquela ocasião com a perm issão do irm ão porteiro, que lhes havia perm itido entrar atem orizado diante da ira que ressum ava dos olhos do cigano. “Enganaram -nos!”, gritou assim que viu a Frei Joaquín. “O tabaco não é puro havano!” O religioso tentou acalm ar o cigano e levou Caridad para o porão que os frades utilizavam com o despensa e adega. Atrás de uns m adeiros, escondia um par de sacos de folha de tabaco – um deles propriedade de Melchor em pagam ento por seus trabalhos –, da incursão que acabavam de fazer a Barrancos, atravessada j á a fronteira com Portugal.

Melchor cortou com violência as cordas que atavam um dos fardos e, sem deixar de protestar, indicou a Caridad que se aproxim asse para exam inar o tabaco. Frei Joaquín recordava esse m om ento: instintivam ente, Caridad fechou os olhos e um edeceu os lábios, com o se se preparasse para saborear um delicado m anj ar. No interior do saco de couro, o tabaco estava atado em tercios, m as j á à prim eira olhada Caridad com provou que o fardo de folhas não era feito com yaguas, as lâm inas flexíveis da palm a-real cubana. Indicou ao cigano que cortasse as cordas que apertavam o tercio e pegou com delicadeza um a das folhas; aos dois hom ens surpreenderam então seus longos e hábeis dedos. Caridad exam inou a folha de tabaco com detença; ergueu-a à luz da candeia que Frei Joaquín segurava para observar os pigm entos escuros, claros ou verm elhos, m aduros, ligeiros ou secos que a coloriam ; acariciou-a e apalpou-a com delicadeza para verificar sua textura e sua um idade; m ordiscou a folha e cheirou-a, tentando averiguar, através de seu ponto, do arom a e do sabor da nicotina, os anos que havia desde a sua colheita. Melchor urgia a Caridad com gestos cada vez m ais alterados, m as o frade ficou cativado com o ritual realizado pela m ulher, com as sensações refletidas por seu rosto e com as pausas que ela efetuava depois de cheirar ou tocar a folha, segura de que o transcurso dos segundos lhe ofereceria a solução.

Esse m esm o ritual era o que agora, cam inhando perto do Tagarete, às furtadelas, via Caridad realizar enquanto com ia os polvorones: deixava de m astigar, entrefechava os olhos e perm itia que passasse o tem po, contraindo os lábios, salivando antes de m ordiscar outro deles.

Não era tabaco havano, nem puro nem m isturado, recordou que havia sentenciado aquele dia Caridad. De onde era? Não podia sabê-lo, respondeu ao cigano com um a tranquilidade inusual, com o se o contato com as folhas de tabaco lhe houvesse oferecido segurança; ela só conhecia o de Cuba. Tratava-se de um tabaco j ovem , afirm ou, com m uito pouca ferm entação, talvez…

talvez seis m eses, no m áxim o um ano. E excessivam ente louro, com pouco sol.

Frei Joaquín observou com o Caridad levava um novo polvorón à boca, com delicadeza, com o se fosse um a folha de tabaco…

– Cachita!

A voz de Milagros os surpreendeu a am bos. Nem sequer haviam conseguido descobrir de onde vinha a voz quando esta lhes urgiu:

– Tu és cubana! Entendes de tabaco…

– Milagros – m ussitou o frade tentando reconhecê-la entre as pessoas, na escuridão.

– Diz-lhes que estes charutos são puros havanos! – exortou-o a ciganinha. – Vem !

Foi Frei Joaquín quem prim eiro vislum brou as fitas coloridas do cabelo da cigana e os lenços de seus pulsos a revolutear no ar, ao ritm o de seus trej eitos no m eio de um grupo de hom ens.

– Com o se atrevem os senhores a dizer que não são havanos? – queixava-se Milagros aos gritos. – Cachita, vem ! Aproxim a-te! – Frei Joaquín e Caridad o fizeram . – Pretendem aproveitar-se de um a m enina! Querem roubar-m e! Diz-lhes que são havanos! – exigiu-lhe ao m esm o tem po que lhe entregava um dos charutos que a m esm a Caridad havia elaborado com aquele tabaco louro que o religioso escondia no convento. – Diz isso a eles! Ela entende de tabaco! Diz-lhes que é havano!

Caridad hesitou. Milagros sabia que não era havano! Com o ia ela…?

– Naturalm ente que é havano, senhores – saiu em sua aj uda Frei Joaquín. Ninguém chegou a perceber, na escuridão só rom pida pelo tênue resplendor de um a fogueira próxim a, o sorriso de cum plicidade que trocaram o religioso e a cigana. – Eu m esm o lhe com prei um par deles esta m anhã…

– Frei Joaquín – sussurrou um dos reunidos ao reconhecer o célebre pregador de São Jacinto.

Os cinco hom ens que rodeavam Milagros se voltaram então para o religioso.

– Se Frei Joaquín afirm a que são havanos… – com eçou a dizer outro deles.

– É claro que são havanos! – interrom peu-o Milagros.

Nesse m om ento, a trem eluzente luz da fogueira relam pagueou nas feições do últim o dos hom ens que havia falado. E Caridad trem eu. E o charuto questionado escorregou de suas m ãos e caiu no chão.

– Cachita! – recrim inou-a Milagros ao m esm o tem po que fazia m enção de abaixar-se para recolhê-lo. No entanto, deteve-se: Caridad continuava trem endo, com o olhar baixo e a respiração ofegante. – Que…? – com eçou a perguntar a cigana girando a cabeça para o hom em . Mesm o à luz m ortiça, Milagros conseguiu ver que o hom em franzia o cenho e se punha tenso, m as depois desviou o olhar para o frade e se conteve.

– Vam os em bora! – ordenou a seus com panheiros.

– Mas… – queixou-se um deles.

– Vam os em bora!

– Cachita. – Milagros a rodeou com os braços enquanto o grupo de hom ens lhes davam as costas e se perdiam na m ultidão. – Que é que está acontecendo contigo?

Caridad apontou para as costas do hom em . Era o oleiro de Triana.

– O que acontece com esse hom em ? – perguntou Frei Joaquín.

Caridad se libertou com delicadeza do abraço da m oça e, j á com as lágrim as correndo por seu rosto, abaixou-se para pegar o charuto que havia ficado no chão. Por que sem pre tinha de chorar ali, perto do Tagarete, em San Roque?

A cigana e o religioso se olharam perplexos enquanto Caridad lim pava a terra que havia aderido ao charuto. Quando perceberam que a m ulher, entre soluços, lim pava j á um a areia só existente em sua im aginação, o frade instou a Milagros com um gesto.

– Que sucede com esse hom em ? – inquiriu a m oça com ternura.

Caridad continuou acariciando o charuto com seus longos dedos especialistas. Com o ia contar-lhe? Que pensaria dela a cigana? Milagros lhe havia falado de hom ens em num erosas ocasiões. Aos quatorze anos, a m oça não havia conhecido varão nem o conheceria enquanto não contraísse m atrim ônio. “Nós, as ciganas, som os castas e depois fiéis”, havia afirm ado. “Não há em todo o reino um a cigana entregue à prostituição!”, orgulhou-se m ais tarde.

– Conta-m e, Caridad – insistiu Milagros.

E se a abandonasse? Sua am izade era a única coisa que tinha na vida e…

– Conta-m e! – ordenou-lhe a m oça diante do sobressalto de Frei Joaquín.

Mas nesta ocasião Caridad não obedeceu; perm aneceu com o olhar fixo no charuto que ainda m antinha nas m ãos.

– Fez-te m al esse hom em ? – inquiriu com ternura Frei Joaquín.

Havia-lhe feito m al? Term inou assentindo.

E daquela m aneira, pergunta a pergunta, Frei Joaquín e Milagros se inteiraram da história da chegada de Caridad a Triana.