A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 13 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 13

Estavam havia quatro dias a cam inho, racionando a água e o porco salgado que lhes havia fornecido Frei Joaquín antes de sua partida, e até a velha María duvidou de se o religioso podia ter razão com seus deuses e diabos quando, depois que decidiram fugir para Portugal, traçaram seu itinerário j unto a um Frei Joaquín abatido que, não obstante, se em penhou em aj udá-las com o se com isso purgasse o erro com etido.

– Há duas rotas principais que deveis evitar – aconselhou-as: – a de Ay am onte, para o sul, e a de Mérida, para o norte. Essas são as m ais transitadas. Existe um a terceira, que nas proxim idades de Trigueros se bifurca da de Ay am onte para dirigir-se a Lisboa por Pay m ogo, j á perto da fronteira. Deveis buscar esta, a que cruza o Andévalo, sem pre para poente; circundai a serra em direção a Valverde Del Cam ino e depois para poente. Ali tereis m enos possibilidades de ter um m au encontro com os oficiais de j ustiça ou os soldados.

– Por quê? – interessou-se Milagros.

– Vós m esm as o verificareis. Dizem que, quando Deus criava a Terra, se cansou após o esforço que teve de fazer nas m aravilhosas costas do m ar bético e decidiu descansar, m as para não interrom per a criação perm itiu que o diabo continuasse sua obra. Daí nasceram as terras do Andévalo.

E o verificaram .

– Em boa hora se cansou o Deus de teu frade, m enina!... – Queixou-se pela enésim a vez a velha María, arrastando, com o as outras duas, os pés descalços por veredas secas e áridas sob o sol de agosto.

Evitavam os cam inhos e as povoações e cam inhavam sem um a árvore a cuj a som bra proteger-se, dado que ali onde se elevavam os azinhais ou sobreirais se am ontoavam rebanhos de ovelhas ou cabras, ou piaras de porcos guardadas por pastores com que não desej avam encontrar-se.

– Tinha de caber-nos um Deus folgazão!... – resm ungou a velha.

Mas, com exceção daqueles pastos, a m aioria dos cam pos que não estavam próxim os dos povoados era baldia; grandes extensões de terra sem proveito. Para além de Sevilha, eram raras as ocasiões em que ao longo desses dias haviam vislum brado algum lavrador, cuj a atitude de longe havia sido sem pre a de apoiar-se sobre sua enxada para, com a m ão a m odo de viseira, perguntar-se quem eram aqueles cam inhantes que evitavam aproxim ar-se.

Viaj avam ao am anhecer e ao entardecer, quando o sufocante calor parecia am ainar. Quatro ou cinco horas de cam inho por etapa, com as quais nem de longe poderiam fazer as quatro ou cinco léguas correspondentes, m as isso elas tam pouco sabiam . Andando por aqueles cam pos erm os, em solidão e sem referências, com eçava a assaltá-las certa sensação de desalento: ignoravam onde se encontravam e quanto lhes restava de viagem ; só sabiam – havia-o dito Frei Joaquín – que deviam cruzar o Andévalo para poente até topar com o rio Guadiana, cuj o curso delim itava em grande parte a fronteira com Portugal.

Cam inhavam em fila; Milagros encabeçava a m archa.

– Ocupa-te de vigiar María – havia ordenado a Caridad, apontando para trás com um dos polegares, num m om ento em que esta tentou acom panhá-la.

Milagros não teve oportunidade de arrepender-se do tom utilizado nem de aperceber-se da decepção que sua am iga foi incapaz de ocultar. Seus pensam entos a levavam a seus pais, separados entre si, separados dela… tem ia im aginar sequer onde se encontrariam e o que estariam fazendo. E chorava. Entrevia os cam inhos com os olhos tom ados de lágrim as e não desej ava que ninguém a incom odasse em sua dor. Trabalhos forçados para os hom ens, havia dito Frei Joaquín. Ignorava o que se fazia no arsenal de La Carraca de Cádiz. A que estariam forçando seu pai? Recordou a últim a vez que ele a havia perdoado, com o tantas outras ao longo de sua vida! “Enquanto não conseguires que todos os ciganos deste horto se rendam a teu encanto”, havia-lhe exigido. E ela havia dançado buscando sua aprovação, m ovendo o corpo ao ritm o do orgulho de pai, cuj os olhos brilhavam . E sua m ãe? Dava-se-lhe um nó na garganta, e as pernas pareciam negar-se a seguir em frente à sua sim ples lem brança, com o se ao fugir dela estivesse traindo-a. Mil vezes pensou em voltar, entregar-se, procurá-la e lançar-se a seus braços… m as não ousava.

Quando o sol apertava ou a noite caía, buscavam algum lugar onde refugiar-se. Com iam porco salgado, bebiam uns goles de água quente e fum avam os charutos que Caridad ainda conservava em sua trouxa. Depois, entregue ao calor, a m oça soluçava em silêncio; as outras respeitavam sua aflição.

– Parece que Frei Joaquín tinha razão: esta terra só pode ter sido obra do diabo – com entou com fastio ao final daquela j ornada enquanto assinalava um a figueira solitária que se desenhava contra o ocaso.

De trás, a velha grunhiu.

– Menina, o diabo nos enganou: estava reencarnado no frade que conseguiu lançar-nos a estes cam inhos. Que apodreça esse m aldito padre em seu inferno!

A m oça não respondeu; havia avivado a m archa. Caridad, atrás dela, hesitou e se virou para a curandeira: coxeava encurvada, resm ungando a cada passo. Esperou-a.

A velha María, esgotada pelo esforço, tardou a chegar ao ponto onde ela estava, onde se deteve com um queixum e exagerado e pôs a cabeça de lado. Olhou para cim a, para o surrado chapéu de palha com que Caridad se cobria.

– Negra, com essa j uba que tens na cabeça, não sei para que queres um chapéu.

Caridad se descobriu e m anteve o chapéu diante de seu vestido cinza de pano tosco, j unto à sua trouxa.

– Com o és negra! – exclam ou a curandeira. – Tam bém a ti te envia o diabo?

– Não! – apressou-se a negar ela com o susto no sem blante.

A velha se perm itiu um esgar triste diante de tal dem onstração de candidez.

– Com certeza que não – tentou tranquilizá-la. – Aj uda-m e.

María ia dar-lhe o braço, m as Caridad voltou a aprum ar-se e, antes que a outra pudesse queixar-se, ergueu-a, segurou-a nos braços com o se fosse um a m enina pequena e retom ou a m archa atrás de um a Milagros que se havia distanciado sensivelm ente delas.

– Por acaso o diabo a levaria nos braços? – perguntou-lhe Caridad com um sorriso.

A velha María anuiu satisfeita.

– Não é um a liteira ao estilo das grandes senhoras sevilhanas – com entou a velha um a vez reposta do ataque de Caridad; havia posto o braço atrás de sua nuca e até j á se havia acom odado

–, m as serve. Obrigada, negra, e, com o diria esse frade que nos enganou, Deus te pague.

A cigana continuou falando e queixando-se do estado de seus pés, de sua velhice, do frade e do diabo, dos payos e daquela terra áspera e inculta até que Caridad se deteve de repente a vários passos da figueira. María notou a tensão nos braços de Caridad.

– Que…?

Calou ao olhar para a árvore: contra a luz averm elhada que j á rasava os cam pos, a figura de Milagros aparecia delineada, e, diante de outra m ais alta que ela, a de um hom em , sem dúvida, que a agarrava e a sacudia.

– Deixa-m e no chão, negra, devagar – sussurrou-lhe enquanto procurava no bolso de seu avental a navalha das plantas. – Algum a vez j á lutaste? – acrescentou j á em pé e com a navalha na m ão.

– Não – respondeu Caridad. Havia lutado? À sua m ente voltaram as ocasiões em que se havia visto obrigada a defender dos dem ais escravos sua fuma ou a ração de funche com bacalhau que lhes forneciam diariam ente: sim ples brigas entre fam intos desgraçados. – Não – reiterou –, nunca o fiz.

– Pois j á é hora de o fazeres – soltou a outra entregando-lhe a arm a. – Eu não tenho força nem idade para essas coisas. Crava-o num olho se necessário, m as que não toque na m enina.

De repente Caridad se encontrou com a arm a na m ão.

– Apressa-te, negra do dem ônio! – gritou a velha fazendo trej eitos na direção do hom em , que j á havia trazido para si a m oça.

Caridad hesitou. Cravá-lo num olho? Nunca antes… m as Milagros necessitava dela! Ia dar um passo quando o grito de María fez que a m oça se apercebesse de sua presença. Então se libertou do hom em , ergueu o braço e as cum prim entou agitando-o no ar.

– Espera! – retificou a curandeira diante da tranquilidade que reconheceu no gesto da m oça.

– Talvez não sej a hoj e o dia em que tenhas de… dem onstrar tua coragem – arrastou as últim as palavras.

Era cigano e cham ava-se Dom ingo Peña, ferreiro am bulante do Puerto de Santa María, um a das povoações em que haviam sido detidos m ais ciganos, e estava havia duas sem anas ferrando cavalgaduras e consertando arreios de lavoura no Andévalo.

– Excetuando as grandes povoações, que são poucas – explicou o cigano, todos sentados sob as grandes folhas da figueira –, nos dem ais lugares os ferreiros chegaram a desaparecer, ainda que sej am im prescindíveis para os trabalhos do cam po – acrescentou ao m esm o tem po que assinalava suas ferram entas: um a bigorna dim inuta, um velho fole de pele de carneiro, um a tenaz, um par de m artelos e algum as ferraduras velhas.

A curandeira ainda o olhava com certo receio.

– Que te fazia esse hom em ? – havia recrim inado em sussurros a Milagros assim que se aproxim ara.

– Abraçava-m e! – defendeu-se a m oça. – Está há m uito tem po no Andévalo e não sabia nada da detenção dos nossos. Chorava pela sorte de sua m ulher e de seus filhos.

– Ainda assim , não te deixes abraçar. Não é necessário. Que chorem em outro om bro.

Milagros aceitou a briga e anuiu, cabisbaixa.

Sob a figueira, Dom ingo as interrogou acerca da detenção dos ciganos. Em bora falassem em caló, o j argão dos ciganos que Caridad havia com eçado a com preender na ciganaria, foram os gestos de desespero e o sem blante de angústia que se refletiu no rosto daquele hom em tão m agro com o m usculoso, de fortes braços de forj ador com longas veias que se inchavam pela tensão do m om ento, que cham aram sua atenção. Dom ingo havia deixado para trás três filhos hom ens com m ais de sete anos, idade em que, segundo acabavam de contar as m ulheres, seriam separados de sua m ãe e destinados a trabalhos forçados. Juan – enunciou com um fio de voz, María e Milagros deixando-o falar, encolhidas –, o m ais novo deles, um garoto vivaz. Gostava de golpear sobre a bigorna os restos dos ferros e às vezes até cantarolava algo parecido a um m artinete ao ritm o m arcado pela ferram enta. Francisco, de dez, introvertido m as inteligente, cauto, sem pre atento a tudo; e o m ais velho, Am brosio, com tão só um ano m ais que seu irm ão.

Quebrou-se-lhe a voz. O garoto havia caído de um penhasco, razão por que tinha as pernas disform es. Tam bém a Am brosio o haveriam separado de sua m ãe para enviá-lo a trabalhos forçados nos arsenais? Nem a velha nem a m oça se atreveram a responder, m as Dom ingo insistiu, perdido, e repetiu a pergunta: Teriam sido capazes de fazê-lo? E, quando o silêncio voltou a responder-lhe, pôs as m ãos ao rosto e explodiu em pranto. Chorou diante das m ulheres sem tentar esconder sua debilidade. E uivou para o céu j á estrelado com uns gritos de dor que fenderam o ar quente que os rodeava.

– Eu m e entregarei – com unicou-lhes Dom ingo ao am anhecer do dia seguinte. Não se via capaz de percorrer os povoados para continuar ferrando em troca de um a m ísera m oeda, sabendo que naquele m esm o instante seus pequenos estariam sofrendo. Ele os procuraria e se entregaria.

Caridad intuiu no tom de voz e na atitude do cigano a im portância do que estava dizendo.

– Eu não sei se devo fazê-lo – reconheceu Milagros.

À velha María não surpreendeu a confissão: ela o pressentia. Quatro dias chorando sem cessar a detenção de seus pais era dem asiado para a m oça. Ouvira-a nas noites, quando cria que as dem ais dorm iam ; havia percebido seus soluços reprim idos nas longas horas do dia em que se refugiavam do calor, e havia observado, enquanto andava atrás ela, com o trem iam seus om bros e estrem ecia seu corpo. E não se tratava do desespero ou da im placável dor originados pela m orte de um ente querido, dizia-se a velha; o sofrim ento pela separação podia ter rem édio: entregar-se.

– Não faço m ais que pensar… – com eçou a acrescentar Milagros antes que o ferreiro a interrom pesse.

– Não o faças, m enina – exortou-a o cigano. – Eu não desej aria que m eus filhos se entregassem . Certam ente teus pais tam pouco o desej am . Conserva tua liberdade e vive; é o m elhor que podes fazer por eles.

– Viver? – Milagros abriu a m ão para abarcar os cam pos áridos que j á am eaçavam queim ar-lhes os pés m ais um dia.

– Deixai o Andévalo e descei para costa, para terra plana…

– Vão prender-nos! – opôs-se a m oça.

– Que poderíam os fazer ali? – interveio a velha com interesse.

– Ali encontrareis ciganos. É possível que o rei tenha detido os que viviam em povoados ou cidades, m as há m uitos m ais, os que percorrem os cam inhos; com esses não haverão topado.

Tam bém há m uitos outros estabelecidos em povoados em que não era perm itida a residência de ciganos, todos eles haverão abandonado esses lugares. Estão em terra plana, eu sei. Trata-se de um a zona m ais rica que o Andévalo.

– Nós nos dirigim os a Barrancos.

O cigano arqueou as sobrancelhas para Milagros.

– Para onde?

– Crem os que encontrarem os ali m eu avô.

María escutava só parcialm ente. Havia ciganos em terra plana, e Dom ingo sabia onde. Era o que estivera desej ando ao longo desses dias de cam inho: encontrar-se com sua gente. Apesar da decisão tom ada em Triana, a velha receava ir a Barrancos. Havia tido quatro longos dias para m editar nisso: Melchor podia não aparecer ou tardar a fazê-lo, o que as deixava igualm ente sozinhas diante dos perigos que as espreitavam .

– Só creem ? Não estais certas? – surpreendeu-se o hom em . Depois olhou para Milagros de alto a baixo, m eneou a cabeça e se virou para a velha. – É um povoado de contrabandistas.

Barrancos… fica entre barrancos, totalm ente ilhado. Vós vos dais conta de onde vos vais m eter?

– Acom panhou sua pergunta com um expressivo gesto em direção a Milagros e a Caridad, que se m antinha à m argem . – Um a cigana bela, desej ável, j ovem … virgem , e um a negra exuberante.

Não durareis dois dias, que digo?, nem duas horas.

Durante alguns instantes os quatro ouviram o que parecia o crepitar da terra seca a seu redor.

– Tens razão – afirm ou a velha por fim .

– Que quer dizer? – saltou a m oça prevendo as intenções de María. – O avô…

– Teu avô é cigano – interrom peu-a a outra. – Melchor procurará os seus. Se fizerm os correr a notícia entre nossa gente, um dia ou outro o encontrarem os ou o fará ele, m as não devem os ir a esse povoado, m enina.

“Que deixe de esconder-se com o um a m ulher assustada.” Meses antes da grande batida m ilitar, o escárnio atorm entou os passos de Melchor depois de m artirizar-se entoando sua queixa de galé diante da capela aberta da Virgem do Bom Ar em Triana. Com a silenciosa condenação do tio Basilio pela m orte de seu neto Dionisio e sobretudo com o esgar de desprezo de sua filha, Ana, m arcados a fogo e sangue em sua consciência, o cigano se encam inhou para a fronteira de Portugal; ali toparia com o Gordo quando o contrabandista nem sequer pudesse suspeitar e então… Melchor cuspiu. Então se veria quem era um a m ulher assustada! Ele o m ataria com o ao cão que era e lhe cortaria a cabeça… os testículos ou talvez um a m ão, qualquer coisa que pudesse oferecer publicam ente ao tio Basilio em desagravo.

A cam inho, evitou estalagens e povoados, salvo um em que parou o estritam ente necessário para com prar algo de com ida e tabaco, m aldizendo sua sorte por ter de pagá-lo, num a pequena loj a a que o rei obrigava a vendê-lo por um a décim a parte de seu preço, com o sucedia em todas aquelas povoações em que não era rentável instalar um a tabacaria. Dorm iu ao relento nas três noites que transcorreram até chegar à capital das terras de Aracena, encravada entre as faldas da Sierra Negra. Melchor conhecia a vila: eram m uitas as ocasiões em que havia estado nela. A um as quatro léguas se achava Jabugo, lugar de carga do tabaco de contrabando, e a sete a fronteira de Portugal, com as povoações de Barrancos e Serpa, centros do com ércio ilícito.

Aracena, subm etida ao senhorio do conde de Altam ira, contava com seis m il habitantes divididos ao longo de um a vintena de ruas espalhadas sob os restos de um im ponente castelo que dom inava a cidade; quatro praças, a paróquia da Assunção, inacabada apesar dos esforços do povo, algum as erm idas e quatro conventos, dois de religiosos e dois de m onj as.

O cigano sentiu o frio da serra; a tem peratura da prim avera não era a m esm a ali que em Triana, e ele andava sem sua j aquetinha azul, que havia acom panhado os pertences do j ovem Dionisio na fogueira de seu m alfadado funeral. Todo sábado havia m ercado, principalm ente de grãos, que os estrem enhos aproveitavam para vender num lugar onde o cultivo de cereais era quase inexistente. Encontraria um a chupa ou algum a j aquetinha, ainda que dificilm ente com o a que havia sacrificado pelo rapaz… ou por si m esm o? “É quinta-feira”, respondeu-lhe um habitante. Esperaria o sábado. Não tinha intenção de perm anecer na vila; ela se achava algo afastada da rota do tabaco. Dirigiu seus passos a um pequeno mesón que conhecia e cuj o dono ele tinha por discreto. Tam pouco desej ava que sua presença por ali fosse conhecida e pudesse chegar aos ouvidos do Gordo ou de seus hom ens.

– Melchor – cum prim entou-o o dono sem deixar de lado seus afazeres.

– Que Melchor? – inquiriu este. O estalaj adeiro se lim itou a entrefechar os olhos um instante.

– Eu não vi ninguém que se cham e Melchor, e tu?

– Tam pouco.

– Isso está bem . Tens livre o quarto de trás?

– Sim .

– Pois então leva-m e com ida e bebida.

O cigano lhe entregou um a m oeda, suficiente para cobrir os gastos e o silêncio, e se encerrou no dim inuto quarto que o estalaj adeiro oferecia a seus poucos hóspedes. Fum ou, com eu e bebeu.

Voltou a fum ar e bebeu até que suas recordações e suas culpas se transform aram em m anchas desfocadas e desconexas. Tentou dorm ir, m as não conseguiu. Bebeu m ais.

O am anhecer que se infiltrou pela única j anelinha do quarto o pegou hum ilhado e transido de frio, sentado no chão, as costas contra a parede, aos pés do catre. Pegou o frasco de vinho, a seu lado: vazio. Tentou gritar para pedir m ais vinho, m as só lhe saiu um ronco surdo que lhe arranhou a garganta. Tentou engolir saliva; estava com a boca ressecada, razão por que se levantou com o pôde e saiu ao mesón, ainda fechado ao público, onde pegou outro frasco de vinho e regressou ao quartucho. Em pé, suportou um a sucessão de ânsias de vôm ito que lhe sobrevieram após o prim eiro gole, ávido e longo. E, enquanto seu estôm ago se entregava ao castigo, deixou que as costas deslizassem pela parede até cair no m esm o lugar em que havia despertado. O sábado, depois de ele haver deixado transcorrer as horas bebendo e fum ando, fugindo de si m esm o, sem provar a com ida que lhe levava o estalaj adeiro, pegou-o com um a única obsessão na m ente, j á m ergulhada até a vingança no vinho áspero da serra: com prar a m elhor j aquetinha que pudesse encontrar no m ercado de Aracena.

A Praça Alta estava tom ada pelos estrem enhos de além das serras que ofereciam o trigo, a cevada e o centeio que não se cultivavam ali. Junto a eles, pessoas vindas dos povoados próxim os anunciavam suas m ercadorias. A algaravia o aturdiu. Melchor, suj o e com os olhos inj etados, cam inhava j unto à casa do cabido m unicipal e deu-se conta de que carecia de docum entação que lhe perm itisse achar-se naquele ou em qualquer outro povoado; não havia tido a precaução de pegar algum a das cédulas de que dispunha. Então forçou a vista, ressecados os olhos, para olhar defronte do cabido, do outro lado da praça, para a paróquia da Assunção, que continuava com o sem pre, inacabada, e com o com eço dos pilares e com as paredes ainda desigualm ente erguidas rangia à intem périe e a diferentes alturas, com o dentes serrados que rodeavam as duas naves e m eia que, sim , se haviam term inado e que se utilizavam para o culto. Assim estava fazia m ais de cem anos. Com o iam detê-lo num povoado que não era capaz de term inar sua igrej a principal?

Com a m ão sobre os olhos para proteger-se do sol, olhou ao redor, para as diferentes barracas em que se m ercadej ava e para as pessoas que se m oviam entre elas. A brisa era fresca. Distinguiu a barraca de um vendedor de roupas usadas e se encam inhou para ela: peças escuras e m il vezes rem endadas próprias de pastores e cabreiros. Rem exeu entre elas sem m uita convicção; qualquer de cor azul, verm elha ou am arela, com filigranas douradas ou prateadas, se haveria destacado.

– Que procuras? – perguntou-lhe o vendedor, que j á havia percebido que Melchor era cigano, com o delatavam os brincos nas orelhas e as calças debruadas de ouro.

Melchor ergueu para o vendedor seu rosto trigueiro e sulcado de rugas.

– Um a boa j aquetinha verm elha ou azul, algo que parece que não tens.

– Nesse caso, afasta-te da barraca – instou o vendedor com um gesto depreciativo de m ão.

Melchor suspirou. O desprezo o despertou da ressaca de dois dias de consum o descontrolado de vinho áspero e forte.

– Deverias ter o que desej o.

Disse-o em tom baixo e grave, defrontando seus olhos ciganos aos do hom em , que cedeu prim eiro e os baixou; podia gritar ou cham ar o aguazil, m as quem lhe assegurava que não houvesse m ais ciganos e que estes não buscassem vingança depois? Sem pre andavam em grupo!

– Eu… não… – gaguej ou.

– E que é que tanto desej as para am eaçar a este bom hom em ?

A pergunta foi feita às costas de Melchor. Voz de m ulher. O cigano perm aneceu parado, tentando encontrar na expressão do vendedor algum indício que lhe revelasse o que é que podia achar-se atrás dele. Era m uita a gente que percorria entre os estreitos corredores que deixavam as barracas. Um a só m ulher? Várias pessoas? O alguazil? O vendedor não pareceu tranquilizar-se; provavelm ente um a só m ulher, atrevida porém , pensou Melchor antes de virar-se e responder:

– Respeito. Isso é o que desej o.

Era baixa e forte. O rosto curtido pelo sol e o cabelo grisalho sobressaindo sob um lenço.

Melchor lhe deu pouco m ais ou m enos cinquenta anos, os m esm os que parecia ter sua roupa surrada. De seu braço direito pendia um cesto com grãos com prados no m ercado.

– Não exageres! – exclam ou a m ulher. – Os cig… os hom ens – corrigiu-se – são cada vez m ais suscetíveis. Certam ente Casim iro não quis ofender-te. São tem pos difíceis. Não é verdade, Casi?

– Assim é – respondeu o vendedor.

Mas Melchor não lhe fez caso. A desenvoltura da m ulher lhe agradou. E tinha uns peitos generosos, pensou ao m esm o tem po que os olhava sem recato.

– E és tu que falas de respeito? – recrim inou-o ela diante de sua desvergonha. No entanto, o sorriso que se esboçou nos lábios não acom panhava suas palavras.

– Onde há m ais respeito do que adm irar o que Deus nos oferece?

– Deus? – replicou a m ulher baixando os olhos para seus peitos. – Isto só ofereço eu, Deus não tem nada que ver. São m eus e faço o que quiser com eles.

Melchor soltou um a gargalhada. O vendedor via passar as pessoas sem que ninguém se aproxim asse da barraca diante da qual se encontrava o par. Abriu as m ãos em gesto de instância para a m ulher, m as ela perm anecia atenta ao cigano, que esfregou o queixo e depois replicou:

– Mau negócio então. Os padres dizem que Deus é extrem am ente generoso.

Agora foi ela quem riu.

– Que pretendes? Som os som ente duas pessoas… solitárias? – Melchor anuiu; a m ulher pensou um instante e torceu a cara antes de exam inar o cigano de alto a baixo. – Tu e eu? Até Deus se assustaria.

– Nicolasa, eu te peço – gem eu o vendedor instando-a a deixar a barraca.

Melchor ergueu o braço ordenando-lhe que se calasse.

– Nicolasa – repetiu com o se se propusesse a recordar esse nom e. – Pois, se Deus é assustadiço, que sej a o diabo quem nos acom panhe.

– Cala-te! – clam ou ela olhando para um e outro lado para ver se alguém havia chegado a ouvir a proposta. Casim iro aproveitou para suplicar-lhe um a vez m ais que se fossem . – Com o te ocorre encom endar-te ao diabo? – sussurrou após anuir ao rogo do vendedor e puxar o cigano para longe da barraca, enquanto aquele voltava a anunciar suas roupas aos gritos, com o se pretendesse recuperar o tem po perdido.

– Mulher, para ficar contigo, eu desceria ao inferno para tom ar um vinho com o próprio Lúcifer.

Nicolasa parou subitam ente, entre as pessoas, com expressão confusa.

– Galantearam -m e m uitas vezes…

– Não m e resta dúvida – interrom peu-a Melchor.

– Quando j ovem m e propuseram o céu e as estrelas… – continuou ela –, depois só m e deram um par de porcos, vários filhos que m e abandonaram e um esposo que decidiu m orrer –

queixou-se –, m as nunca ninguém havia prom etido descer ao inferno por m im .

– Nós, os ciganos, conhecem o-lo bem .

Nicolasa o olhou com picardia.

– Delgado com o um pau – escarneceu –, tens algo m ais que braços e pernas?

Melchor inclinou a cabeça para o lado. Ela o im itou.

– Leva em conta que o diabo m e expulsou do inferno quando viu o que não são braços nem pernas. – Ela o em purrou com um a risada. – É verdade! Ouviste falar do rabo de Lúcifer? Pois não é nada com parado…

– Seu farsante! Isso será preciso ver! – exclam ou a m ulher pendurando-se em seu braço. Cápitulo 14