A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 25 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 25

Prostituição!

Tal foi a acusação que fez um dos aguazis ao porteiro da Galera depois que este lhes deu acesso ao cárcere de m ulheres de Madri, na m esm a rua de Atocha, pouco além da praça onde a haviam detido. Caridad, cabisbaixa, não chegou a ver o im ediato trej eito com que o porteiro recebeu os aguazis após dar-lhe um a rápida olhada.

– Não cabem m ais – aduziu aquele.

– É claro que cabe – opôs-se um dos aguazis.

– Ontem libertastes duas m ulheres – recordou-lhe o outro.

– Mas…

– Onde está o alcaide? – interrom peu as queixas do porteiro o aguazil do bastão.

– Onde há de estar? Tu o sabes perfeitam ente: dorm indo.

– Vai buscá-lo – ordenou.

– Não m e sacaneies, Pablo!

– Nesse caso, ficas com ela.

– As peças estão cheias – insistiu o porteiro, j á sem m uita convicção; era a m esm a cantilena de toda noite. – Não tem os nem para dar-lhes de com er…

– Ficas com ela – interrom peu-o o tal Pablo com sim ilar tom de voz ao utilizado pelo outro.

O porteiro deixou escapar um prolongado suspiro.

– É negra! – brincou o segundo aguazil. – Quantas com o esta tens aí dentro?

Os três hom ens se encam inharam para um quartucho à esquerda da entrada, onde a fum aça negra e espessa desprendida por um a vela de sebo nublava a luz destinada a ilum inar um a escrivaninha decrépita. Caridad cam inhou entre eles.

– Negras, negras, negras com o esta… – respondeu o porteiro ao m esm o tem po que dava a volta à escrivaninha para sentar-se –, nenhum a. O que tem os, no m áxim o, são duas m ulatas.

Com o se cham a ela? – acrescentou depois de m olhar a pena no tinteiro.

– Não quis dizer-nos. Com o te cham as?

– Caridad – respondeu ela.

– Pois então sabe falar.

– Caridad, que m ais? – perguntou o porteiro.

Ela só se cham ava Caridad. Não havia m ais. Não respondeu.

– Não tens sobrenom e? És escrava?

– Sou livre.

– Nesse caso tens de ter um sobrenom e.

Fidalgo, recordou ela então que havia lido o alcaide da porta de Mar de Cádiz em seus papéis; o sobrenom e de don José.

– Fidalgo. Esse é o sobrenom e que m e deram na em barcação, quando m orreu m eu senhor.

– Em barcação? Eras escrava? Se agora dizes que és livre, deves ter a escritura de m anum issão.

– O porteiro a olhou de alto a baixo: ainda m olhada, descalça, com o cam isão cinza por única roupa. Resfolegou. – Tens a escritura?

– Está em m inha trouxa, com m inhas coisas, no quarto…

Em udeceu.

– Que quarto?

Caridad se lim itou a gesticular com as m ãos ao recordar a advertência de Melchor. “Não digas nada a ninguém ”, advertira-a.

– Que levas na m ão? – surpreendeu-a o porteiro, estranhando o fato de que a m antivesse perm anente e ferream ente fechada. Ela baixou o olhar. – Que levas aí?

Caridad não respondeu, o queixo trêm ulo, os dentes trincados. O bastão bateu em suas costas.

– Mostra-nos – ordenou-lhe o aguazil.

Sentia que aquela pedra era a últim a coisa que a ligava a Melchor, aos dias que haviam vivido em Barrancos e durante o cam inho a Madri. A trouxa, seu vestido verm elho, seus docum entos e aquele dinheiro que Melchor havia dividido com ela pelo contrabando em Barrancos e que ela havia guardado zelosam ente; tudo quanto tinha havia ficado na pousada. O bastão bateu com m ais força em seus rins. Abriu a m ão e m ostrou a safira falsa.

– Onde a conseguiste? – saltou o porteiro inclinando-se por cim a da m esa para pegá-la.

– Que im porta tudo isso agora? – interveio o aguazil. – É tarde e tem os de continuar a ronda.

Não vam os ficar a noite toda aqui. Lim ita-te a consignar nom e, sobrenom es, data e hora em que ela entra, bens que lhe encontres e m otivo da detenção. Não interessa m ais nada.

Com o olhar fixo na pedra azul que o porteiro deixou sobre a escrivaninha, Caridad ouviu o arranhar da pena ao deslizar pelo papel.

– E qual é o m otivo da detenção? – perguntou por fim o hom em .

– Prostituição! – ressoou na peça.

O cárcere real de la Galera para m ulheres desonestas e escandalosas se achava num edifício retangular de dois andares com um pátio central. A seu lado, na m esm a quadra, erguia-se o Hospital da Paixão, tam bém exclusivo para m ulheres, que por sua vez, m ediante um arco que passava por cim a da rua del Niño Perdido, se unia ao Hospital Geral, últim a das construções de Madri que dava para a porta de Atocha.

Um a vez que os aguazis assinaram no livro de registros e se foram para continuar sua ronda, Caridad seguiu os passos do porteiro até o piso superior. O hom em havia pegado um bastão e a vela da escrivaninha, com a qual tentou ilum inar um a sala alongada, um a galeria com j anelas para o pátio interno e para a rua cheia de m ulheres dorm indo, algum as em catres, a m aioria no chão. Caridad ouviu o porteiro reclam ar de um a zeladora que devia estar controlando as reclusas. Ela estava dorm indo. “Com o sem pre”, pareceu conform ar-se o hom em . Com o se não desej asse dar m ais um passo, ilum inou com a vela à sua direita, o canto que dava para a porta, onde duas m ulheres se encolhiam um a j unto à outra. Utilizou o bastão para acordá-las. As duas resm ungaram .

– Abri um espaço! – ordenou.

A que estava m ais perto da parede em purrou a outra diante do bater em suas costas com que o porteiro as instava a obedecer e que cessou assim que se abriu um pequeno vão entre a m ulher e a parede.

– Acom oda-te aí – indicou a Caridad com o bastão.

Antes que ela chegasse a abaixar-se, o hom em j á havia desaparecido e, com ele, a luz da lanterna fum egante, que pouco a pouco foi substituída pelo vislum bre da lua e pelas m il som bras que ele conform ava.

Caridad se deitou no chão, aprisionada entre a parede e a outra m ulher. Pugnou por m over o braço para pô-lo debaixo da cabeça, ao m odo de travesseiro. A acusação de prostitução veio à sua m ente assim que ela conseguiu acom odar-se. Ela não era nenhum a prostituta. Estava cansada.

Sentiu-se reconfortada pelo contato com a m ulher em que se encostava. Seus tem ores aum entaram : m edo do que ia suceder-lhe, m edo por Melchor, que regressaria à pousada e não a encontraria ali. Ouviu os barulhos da noite. Tosses e roncos. Suspiros e palavras reveladas em sonhos. Com o no barracão, na veiga, quando dorm ia com os dem ais escravos. Os m esm os sons.

Só lhe faltava Marcelo… Acariciou o cabelo tal com o fazia com o de seu filho e fechou os olhos.

Certam ente alguém estaria cuidando dele. E, apesar de tudo, esgotada, caiu no sono.

Obrigaram -nas a pôr-se de pé às cinco da m adrugada, quando um a ponta de claridade com eçava a infiltrar-se pelas j anelas. Várias zeladoras escolhidas entre reclusas de confiança percorreram as diversas galerias do segundo andar e despertaram aos gritos as dem ais. Caridad tardou alguns instantes a com preender onde estava e o porquê das trinta ou quarenta m ulheres que diante dela, em pé no canto j unto à porta, bostej avam , se espreguiçavam ou increpavam as zeladoras.

– Nova, hem ?

As palavras vieram da m ulher que havia dorm ido a seu lado: beirava os quarenta anos e era seca, de traços forj ados pela m iséria e desgrenhada com o a com panheira para a qual se virou para apontar para Caridad. Não houve m ais palavras nem apresentações; em vez disso, o cochicho foi subindo de tom , confundido aqui e ali com algum grito ou discussão. Caridad observou as m ulheres: m uitas delas se haviam posto em fila para urinar no interior de um penico. Um a após outra, ela as viu levantar as saias sem recato algum e acocorar-se sobre o urinol, as dem ais urgindo com a da vez e que se atrasava por estar fazendo m ais que as outras.

Depois pegavam o urinol, trepavam num caixote para alcançar a alta j anela e despej avam a urina através dela antes de repô-lo em seu lugar para a seguinte.

– Água vai! – ouviu gritar algum a das m ulheres ao lançar a urina na rua.

– Vam os ver se acertas na careca do alcaide!

Algum as gargalhadas receberam o dito.

Caridad sentiu necessidade de urinar e entrou na fila.

– Ontem não tínham os nenhum a negra, não?

O com entário proveio de um a gorda que havia entrado na frente dela.

– Eu não m e lem bro de nenhum a – ouviu-se do m eio da fila.

– Pois esta não dá para esquecer – riu a gorda de trás.

Caridad se sentiu observada por m uitas m ulheres. Tentou sorrir, m as nenhum a lhe fez caso. A reclusa que utilizava o urinol antes dela a olhou com descaram ento durante todo o tem po que levou para urinar.

– Todo teu – disse-lhe após levantar-se. Não esvaziou o urinol.

Caridad hesitou.

– Negra – interveio a gorda que estava atrás dela –, Frasquita é um a m ij ona. Vam os ver se com o teu m ij o o urinol vai transbordar, te m olhas a boceta e a suj as toda. Porque depois será preciso lim pá-la!

Caridad lançou a urina de Frasquita pela j anela, urinou e repetiu a operação. Afastou-se da fila. Ninguém lhe havia indicado o que devia fazer em seguida, de m odo que observou que m uitas das reclusas desciam a escada e voltou a j untar-se ao grupo. A suas costas, os gritos das zeladoras instavam às que ficavam em cim a.

Missa. Assistiu à m issa num a pequena capela, no andar inferior, lotada por cerca de cento e quarenta reclusas em pé, às quais o sacerdote não deixou de recrim inar o desrespeitoso com portam ento durante a cerim ônia, suas conversas e até um a que outra sonora gargalhada.

Depois rezaram a estação ao Santíssim o, um a oração que Caridad desconhecia. Saíram da capela e voltaram a form ar um a longa fila na entrada de outra peça, na qual havia um lar para cozinhar e onde lhes entregaram um pedaço de pan sentado, cozinhado havia dias, duro. Tam bém podiam beber com um a concha de um balde de água. Enquanto avançava na fila, Caridad viu que o porteiro da noite anterior apontava para ela ao m esm o tem po que falava com duas zeladoras que assentiam a suas palavras sem deixar de olhá-la. Deu cabo do pão antes até de voltar à galeria do andar superior.

– Sabes costurar, negra? – perguntou-lhe ali um a das zeladoras.

– Não – respondeu ela.

E, enquanto as dem ais reclusas se dedicavam a costurar a roupa branca do Hospital da Paixão e o Geral, lençóis, fronhas e cam isas, Caridad foi encarregada de esfregar e lim par. Ao m eio-dia a cham aram para com er: um pouco de carne e outro pedaço de pan sentado. Volta ao trabalho até as seis da tarde, hora em que j antaram um as poucas verduras, rezaram o rosário e o salve e se retiraram para dorm ir. Ela voltou ao m esm o canto da noite anterior.

No dia seguinte, antes do alm oço, a zeladora de sua galeria a levou até onde ficava o porteiro. Ali a esperava um aguazil que sem dizer palavra algum a a conduziu rua de Atocha acim a. Caridad parou na rua; o sol, no alto, ofuscou-a. O aguazil a em purrou, m as a ela pouco lhe im portou. Pela prim eira vez desde que havia chegado, reparou nessa cidade que tão im portante era segundo Melchor; nas dem ais ocasiões havia transitado por ela de noite ou com o ladra perseguida pelo talhador. Franziu os lábios com tristeza à recordação: havia conseguido escapar dele para acabar encarcerada com o prostituta. Era isso o que havia anotado o porteiro nos papéis.

– Cuidado, negra!

O grito proveio do aguazil. Caridad se deteve antes de chocar-se com um a carroça de duas rodas, desconj untada, carregando areia e puxada por um a m ula que subia na m esm a direção que ela. Passeou o olhar pela rua, e assaltou-lhe a angústia: a m ultidão ia e vinha. As casas, a m aioria com loj as no térreo, estendiam -se em am bos os lados de um a das ruas m ais largas de Madri.

Deixaram para trás o Hospital Geral e o da Paixão, o cárcere de la Galera e o convento dos Clérigos Agonizantes diante dele. Atrás dos passos do aguazil, ela desviou o olhar para os estabelecim entos: um a loj a de velas, um a sapataria, carpintarias, um loj a de refrescos, tabernas e até um a livraria, tam bém um a casa de beatas e o Orfanato dos Desam parados. As pessoas entravam e saíam carregando cestas ou potes de água; conversavam , riam ou discutiam num universo que lhe escapava. Logo depois, entreviu diante dela a fonte coroada pelo anj o a que se havia lançado sedenta antes de ser detida. A partir dali m udava o aspecto da rua: entre as casas se erguiam im ponentes construções. Caridad não pôde deixar de contem plá-las à sua direita e à sua esquerda: o Hospital de Convalescentes pouco antes de chegar à praça; o de Nossa Senhora do Am or de Deus, destinado ao tratam ento de doenças venéreas, ou o de Nossa Senhora de Montserrat, que acolhia os naturais da Coroa de Aragão e que a apequenou com sua fachada extrem adam ente decorada; o Colégio de Loreto à direita, j á depois da praça. Depois o Hospital de Antón Martín e a igrej a de São Sebastião, com o cem itério traseiro em que se havia escondido. Ali quase chegou a parar à vista do átrio da igrej a: na plataform a elevada sobre a rua que dava acesso ao tem plo se am ontoava um sem -fim de j anotas que conversavam . Em Sevilha ela os havia visto, m as não tantos e num m esm o lugar… Surpreenderam -na os traj es coloridos, as perucas brancas, sua m aneira de m over-se, rir, gesticular enquanto conversavam uns com os outros.

– Anda, negra – ouviu que urgia com ela o aguazil, que lhe havia perm itido recrear-se por alguns instantes na contem plação do espetáculo.

Ao átrio se sucederam o Convento da Trindade e o de Santo Tom ás, na quadra seguinte. A igrej a da Santa Cruz…

– Já chegam os.

– Aonde? – perguntou ela sem pensar.

– Ao cárcere de Corte.

Caridad se virou para a esquerda: a im ponente construção de tij olo verm elho se erguia num a praça triangular, a da Provincia, com um a fonte no centro. Atravessaram a praça esquivando-se das pessoas e das carruagens que a enchiam e chegaram até ele.

– Mudam -m e de cárcere? – perguntou então Caridad.

– Aqui te j ulgarão – explicou o aguazil.

O sossego repentino que assaltou Caridad ao transpor o frontão clássico que cobria as três portas do edifício – depois do alarido feito pela m ultidão na praça – desvaneceu-se assim que se encontrou aos pés da escadaria que dividia o edifício em dois: porteiros de m aça, aguazis, escrivães, advogados, procuradores e fiscais; detidos e réus, fam iliares deles; com erciantes e até nobres. Todos iam e vinham , com pressa, crispados, falando aos gritos, carregando papéis ou arrastando os presos. Caridad se encolheu; m uitos a olhavam , outros a afastavam de sua passagem sem contem plação. Ela seguiu o aguazil até um a antessala em que esperaram em pé. O

aguazil falou com um dos porteiros de m aça e apontou para Caridad; o hom em a observou, depois verificou em seus papéis e anuiu.

Toda m anhã, cedo, os diversos aguazis prestavam conta aos alcaides dos distritos em que se dividia Madri, e a cuj as ordens se subm etiam , do resultado de suas rondas noturnas, dos detidos e de qualquer incidente que houvesse acontecido. Toda m anhã, os alcaides de distrito de Madri, reunidos na Sala de Alcaides, preparavam um inform e para o Conselho em que faziam constar todos esses incidentes: as m ortes, incluídas as naturais ou acidentais; os feridos que se haviam internado nos hospitais; os acontecim entos que se tinham dado nas com édias ou nos passeios; os resultados da inspeção do alcaide da repesagem , fazendo especial m enção ao estado de abastecim ento e preço dos alim entos que se vendiam na Praça May or, na Carnicería e nos dem ais lugares públicos. Toda m anhã, depois de assistir à m issa na capela, os alcaides, divididos em duas salas, j ulgavam os delinquentes e viam os pleitos civis.

Caridad foi levada à segunda sala.

Depois de presenciar j unto ao aguazil com o entravam os delinquentes na sala para sair poucos m inutos depois, alguns com pungidos, outros irados, chegou sua vez. Afundou o olhar no tablado de m adeira escura assim que vislum brou seu interior: hom ens vestidos de preto com barrete e peruca, todos num nível superior, sentados atrás de im ponentes m esas das quais se sentiu escrutada. No entanto, não lhe deram a m enor im portância. Um a prostituta. Um tem a m enor daqueles que j ulgavam e sentenciavam de im ediato, sem m aiores trâm ites, fulm inando o réu.

– Don Alej andro – disse um dos hom ens que se sentavam diante dela –, advogado de pobres.

Don Alej andro te defenderá.

Desconcertada, Caridad ergueu o olhar e, no que se lhe afigurou com o um a distância insuperável naquela grande sala, acom odado num estrado que se elevava acim a de todos os dem ais, viu um hom em que apontava para a sua direita. Seguiu a direção de seu dedo para topar com outro hom em que nem sequer lhe devolveu o olhar, absorto que estava na leitura de uns papéis. “Caridad Fidalgo…” Antes até que ela tivesse tido tem po de voltar a esconder o olhar, o escrivão dera início à leitura da denúncia feita pelo aguazil que a havia detido. Depois, o fiscal a interrogou:

– Caridad Fidalgo, que fazias a altas horas da noite, sozinha, nas ruas de Madri?

Ela hesitou.

– Responde! – gritou o alcaide.

– Eu… Estava com sede – m urm urou.

– Estava com sede! – ressoou na sala. – E pretendias saciar a sede com dois hom ens? Essa é a sede que tinhas?

– Não.

– Detiveram -na quase nua j unto a dois hom ens que te beij avam e m anuseavam ! É verdade isso?

– Sim – titubeou ela.

– Por acaso te forçavam ?

– Sim . Eu não queria…

– E isto? O que é isto? – uivou o fiscal.

Caridad levantou o olhar do chão e o dirigiu para o fiscal. Em sua m ão brilhava a safira falsa.

Transcorreram alguns segundos antes que ela tentasse responder.

– Isso… não… É um presente.

O fiscal soltou um a gargalhada.

– Um presente? – perguntou com cinism o. – Queres que creiam os que alguém presenteia com pedras, por falsas que sej am , um a m ulher com o tu? – Ergueu a m ão e m ostrou a safira aos m em bros do tribunal.

Caridad se encolheu diante de todos eles, descalça, suj a, com seu cam isão de escrava por única roupa.

– Não é por acaso m ais certo – cuspiu o fiscal – que esta pedra era o pagam ento por entregar teu corpo a esses dois hom ens?

– Não.

– Então?

Ela não queria falar de Melchor. Aqueles hom ens que m andavam em Madri não deviam saber dele… se é que ainda vivia. Calou-se e baixou o olhar. Tam pouco chegou a ver o fiscal dar de om bros e abrir as m ãos em direção aos alcaides que presidiam a sala: pouco m ais há para j ulgar, transm itiu-lhes com aquele gesto.

– Em que trabalhas? – perguntou um dos alcaides. – De que vives? – insistiu sem dar-lhe tem po de responder.

Caridad perm aneceu em silêncio.

– És livre? – inquiriram .

Diziam que ela afirm ava que era livre.

– Onde estão teus docum entos?

As perguntas se sucederam , pungentes, aos gritos. Ela não respondeu a nenhum a delas, cabisbaixa. Por que Melchor a havia deixado sozinha? Fazia tem po que as lágrim as j á corriam por suas faces.

– Só com parável ao m ais nefando dos pecados! – ouviu o fiscal gritar para pôr fim a um breve discurso iniciado assim que deixaram de interrogá-la.

– Senhor defensor de pobres, tem algo para alegar? – perguntou um dos alcaides.

Pela prim eira vez desde que se havia iniciado o j ulgam ento, o advogado de pobres ergueu o olhar dos papéis em que estava concentrado.

– A m ulher se nega a falar diante desta ilustre sala – arguiu com m onotonia. – Que argum ento eu poderia sustentar em sua defesa?

Bastou um a troca de olhares entre os alcaides.

– Caridad Fidalgo – sentenciou o presidente: – nós te condenam os a dois anos de reclusão no cárcere real de la Galera desta Vila e Corte. Que Deus se apiede de ti, te protej a e te guie pelo reto cam inho. Levem -na!