A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 40 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 40

Bastava um par de troncos para esquentar a pequena casa de um só andar, sala de j antar j unto à lareira e ao quarto, nas cercanias de Torrej ón de Ardoz. No silêncio da noite, o cheiro de lenha queim ada se m esclava ao do tabaco que Caridad exalava em grandes volutas. Sozinha, sentada à m esa, deixou repousar o charuto num pires de barro cozido para fazer funcionar, um a vez m ais, o m ecanism o do brinquedo que representava a plantação de tabaco. A repetitiva m usiquinha m etálica que tão bem conhecia inundou a peça assim que Caridad soltou a chavezinha que havia girado até o ponto m áxim o. Pegou o charuto, puxou forte e lançou um a lenta baforada de fum aça sobre as figurinhas que giravam em torno do baobá, a árvore sagrada, e das plantas de tabaco. Na outra extrem idade do m undo, para além do oceano, m uitos negros estariam nesse m esm o m om ento cortando e carregando tabaco. Os j esuítas da Casa-Grande de Torrej ón lhe haviam assegurado que as horas corriam ao contrário, que, quando aqui era noite, ali era dia, m as, por m ais que tentassem explicar-lhe a razão, ela não chegara a com preendê-la.

Seus pensam entos voaram para os escravos com que havia com partilhado sofrim entos: para María… María era a terceira daquela fila de figuras de lata que giravam e giravam ; havia acreditado encontrar certa sem elhança com ela, em bora j á pouco conseguisse recordar as feições de sua am iga. Term inou identificando o pequeno Marcelo com o rapaz que dava voltas sem cessar carregando um saco de tabaco. Quando Marcelo passava ao lado do capataz que levantava e baixava o braço com o látego, Caridad fechava os olhos. “Que haverá sido de m eu m enino?”, soluçou.

– Todos os negros gostam dele, ele sem pre ri – havia com entado com o padre Luis, um dos j esuítas da Casa-Grande, num dia em que lhe levara um a partida de bom tabaco.

– Caridad, por pouco que se pareça contigo, não tenho dúvida algum a – afirm ou o outro.

O padre Luis lhe prom eteu que procuraria ter notícias de Marcelo, “desde que continues a trazer-m e tabaco”, acrescentou ao m esm o tem po que lhe dava um a piscadela.

A Com panhia de Jesus, com o outras ordens religiosas, era proprietária daqueles engenhos de açúcar em que os negros eram explorados. Sentiu-se contrariada ao ouvir o j esuíta recitar com orgulho alguns de seus nom es: San Ignacio de Río Branco, San Juan Bautista de Poveda, Nuestra Señora de Aránzazu y Barrutia… Por que alguém que j ulgava que a escravidão era boa ia preocupar-se com a sorte de um crioulinho?

– Está acontecendo algo, Cachita? – perguntou o padre Luis diante da repentina m udança de expressão no sem blante de Caridad.

– Estava lem brando-m e de m eu m enino – m entiu ela.

Mas de fato se lem brava dele, com o de tantos outros, com o de Melchor e de Milagros, enquanto contem plava o brinquedo m ecânico naquela pequena casinha que, por interm édio do padre Valerio, tinha alugado dos j esuítas. O silêncio e a solidão das longas noites castelhanas a entristeciam . Por isso, apesar de seu preço elevado, decidiu com prar o artefato que havia visto na grutinha da Puerta del Sol e que a aproxim ava dos seus, dos negros e dos que não o eram .

Afinal de contas, para que queria ela o dinheiro?

Não havia transcorrido um ano desde que Caridad chegara a Torrej ón de Ardoz quando Herm inia fugiu com seu prim o Antón. Fê-lo um a noite, sem sequer despedir-se dela.

Instintivam ente, Caridad protegeu seus sentim entos. Outra pessoa que desaparecia de sua vida!

Voltou-se para o trabalho do tabaco, e ao retornar para casa os gritos de Rosario e a perm anente ira que ressum ava a am a pela traição de seu esposo a m antinham em constante tensão, sem pre atenta ao que pudesse suceder. Durante alguns dias, os tios de Herm inia não souberam o que fazer com Caridad, que ainda vivia naquele galpão anexo à casa. Foi o fiscal do Conselho de Guerra, o pai de Cristóbal, quem decidiu por eles. Sabedor pelas autoridades do povo do sucedido com Rosario, o hom em apareceu sem aviso, acom panhado de um m édico, um secretário e um par de criados. Sem dar m uita im portância ao pequeno Cristóbal, envolto com o um casulo em seus panos brancos, exigiu a presença de todos quantos ali m oravam e, nesse m esm o lugar, sem deixar de lançar insolentes olhares para Caridad, o m édico subm eteu a am a a um exam e exaustivo. Exam inou seu corpo, seus quadris, suas pernas e seus grandes peitos, que sopesou com a anuência dela. Depois se concentrou em seus m am ilos.

– Com que tratas deles? – inquiriu.

– Com cera virgem , óleo de am êndoa doce e gordura de baleia – respondeu com seriedade Rosario, ao m esm o tem po que lhe passava um frasco com o unguento, que o m édico cheirou e apalpou. – Depois os lavo com sabão – explicou a am a.

O m ais im portante, não obstante, era o leite. O galeno, com o se se tratasse de um a com plexa operação, tirou de sua m aleta um a garrafa de vidro de gargalo alongado cuj o fundo esquentou ao fogo. Pegou a garrafa com um pano, introduziu o m am ilo na boca do gargalo e pressionou contra o peito para que não entrasse ar. À m edida que o frasco esfriava, o leite de Rosario foi vertendo-se em seu interior.

Com o fiscal a seu lado, o m édico observou-o contra a luz, rem oveu-o, cheirou-o e provou-o.

– Não cheira – com entou enquanto o outro aprovava com a cabeça –, é m anteiguento e doce; branco-azulado e não m uito espesso.

“Aproxim a-te. Vem aqui”, ordenou depois ao filho m ais velho de Rosario, que não se adiantou até receber um em purrão da parte de seu avô. O m édico pôs a cabeça do m enino para trás, abriu um de seus olhos e verteu algum as gotas de leite nele. “Tam pouco irrita”, sentenciou ao fim de alguns m inutos.

Aconselhado por seu m édico, o fiscal perm itiu que Rosario continuasse am am entando Cristóbal.

– Sua Excelência não consente que seu filho conviva com um a negra – acrescentou grosseiram ente, no entanto, o secretário quando os dem ais j á se encam inhavam para a porta.

Don Valerio foi depressa em sua aj uda e lhe proporcionou a casinha: não ia perm itir que Caridad tivesse o m enor problem a. Graças a um a dedicação e a um trabalho que não parecia cansá-la em absoluto, havia conseguido excelentes resultados. O pároco confiou nela, deixou fazer livrem ente o que era preciso, e Caridad m odificou todo o sistem a que até então Marcial e Ferm ín haviam utilizado. Escolheu as sem entes e plantou as m udas. Ao longo do m ês que levavam para crescer, ela preparou e arou o terreno conscientem ente para transplantar as m udas que considerou m elhores. Dia após dia vigiou o crescim ento do tabacal; utilizou um a enxada curta para lim par o terreno; podou os botões e arrancou as vergônteas, parasitas das plantas, para que as folhas crescessem m ais e m elhor, e até se viu carregando baldes de água quando j ulgava que o cultivo necessitava disso. Colheu folha por folha, com o se fazia em Cuba; apalpava-as, cheirava-as e não cessava de cantar. Urgiu com o velho Ferm ín para que lhe conseguisse bons cujes e, j unto ao sacristão, vedou as frestas entre as m adeiras do sótão para que não se infiltrasse entre elas o cheiro de incenso da igrej a. Cuidou pacientem ente da secagem , da cura e da ferm entação do tabaco, e com este ainda j ovem , à diferença de com o trabalhavam em Cuba, no m esm o sótão, fez com ele uns charutos que, em bora não a satisfizessem , nada tinham que ver em aspecto e qualidade com o que lhe dera Herm inia após libertá-la da Galera.

Don Valerio elogiou seu trabalho e se m ostrou generoso. De repente Caridad se viu com dinheiro e vivendo num a casa sem ninguém que lhe desse ordens. “És livre, negra”, dizia-se am iúde em voz alta. “Para quê?”, vinha a responder-se ela m esm a de im ediato. Onde estavam os seus? E Melchor? Que havia sido do hom em que lhe revelara que, para além de ser escrava, ela podia ser um a m ulher? Am iúde o chorava de noite.

Os pouco m ais de m il habitantes de Torrej ón de Ardoz contavam com dois hospitais com um par de cam as cada um deles para abrigo de peregrinos, doentes e desam parados; tam bém tinham igrej a, açougue e um a peixaria que, adem ais, vendia azeite, bem com o m ercearia, taberna e três mesones. Não existiam outros tipos de com ércio, nem sequer dispunham de forno de pão. Os que, com o Caridad, não o am assavam em casa o adquiriam dos vendedores que o levavam diariam ente dos povoados próxim os. Naquele am biente fechado, Caridad teve de arranj ar-se. A proteção de don Valerio e a sim patia dos j esuítas lhe garantiam liberdade de m ovim entos, m as a m aioria das m ulheres a receava, e as que não topavam com um a m ulher de poucas palavras que não procurava a com panhia de ninguém e que, por m ais que houvesse m udado, ainda tinha o instinto de cravar o olhar no chão quando um branco desconhecido se dirigia a ela. Quanto aos hom ens… ela tinha consciência da lascívia com que m uitos daqueles toscos agricultores contem plavam seu cam inhar. Um m undo novo se abriu para ela, e foi o velho Ferm ín quem a acom panhou em seu cam inho: ensinou-a a com prar e a utilizar aquelas m oedas cuj o valor ela desconhecia.

– Herm inia m e disse que custava m uito dinheiro – disse Caridad no dia em que, sabendo que o sacristão ia a Madri e, para consternação do hom em , lhe entregou tudo quanto tinha com a incum bência de que com prasse o brinquedo m ecânico.

Ferm ín tam bém a ensinou a cozinhar olla podrida, na qual Caridad, cantarolando com alegria, term inava vertendo indiscrim inadam ente todos os ingredientes de que dispunha e que, j unto com o pão e algum as frutas, passou a converter-se em sua dieta habitual. Contudo, o que m ais a com prazia eram as am êndoas confeitadas elaboradas pelas m onj as do convento de São Diego de Alcalá de Henares e que só podiam com prar-se através do torno. Don Valerio e até don Luis ou qualquer outro dos j esuítas costum avam presenteá-la com aqueles saborosos doces quando iam fazer qualquer coisa no povoado vizinho, e nessas ocasiões, term inado o trabalho, ela se sentava de noite à porta de sua casa com os extensos trigais, a lua e o silêncio com o única com panhia, e se deleitava saboreando-os. Eram m om entos de calm a em que a solidão em que ela vivia deixava de torturá-la, e Melchor, Milagros, a velha María, Herm inia e seu pequeno Marcelo se desvaneciam quando sentia o prazer da calda de açúcar na boca e ao debater-se na luta constante que m antinha consigo m esm a por guardar algum as das am êndoas confeitadas para o dia seguinte. Nunca o conseguia.

Em um a dessas noites em que Caridad se encontrava distraída com o um a m enina, a voz de um hom em a sobressaltou.

– Que estás com endo, negra?

Caridad escondeu o pacote de am êndoas confeitadas atrás de si. Apesar do silêncio que reinava, não os havia ouvido chegar: dois hom ens, suj os, esfarrapados. “Mendigos”, disse-se.

– Que escondeste? – inquiriu o outro.

Ferm ín a havia advertido. Don Valerio e don Luis tam bém . “Um a m ulher com o tu, sozinha…

Tranca a porta de tua casa.” Os m endigos se aproxim avam . Caridad se levantou. Era m ais alta que eles. E devia ser m ais forte, pensou diante daqueles corpos em aciados pela fom e e pela m iséria, m as eram dois, e, se estivessem arm ados, pouco poderia fazer ela.

– Que quereis? – O tom enérgico de sua voz a surpreendeu.

Aos outros tam bém . Eles pararam . Não em punhavam nenhum a arm a, talvez não tivessem nenhum a, em bora Caridad tivesse visto que portavam toscos bastões. Doeu-lhe soltar o pacote de am êndoas confeitadas, m as o fez; depois pegou a cadeira e a interpôs em seu cam inho, um tanto erguida, am eaçadora. Os m endigos se entreolharam .

– Só queríam os algo de com er.

A m udança de atitude infundiu valentia em Caridad. A fom e era um a sensação que ela conhecia bem .

– Jogai fora esses paus. Para longe – exigiu quando os outros se preparavam para obedecê-la.

– Agora podeis aproxim ar-vos – acrescentou sem soltar a cadeira.

– Não pretendem os fazer-te m al, negra, só…

Caridad os contem plou e se sentiu forte. Ela estava bem -alim entada e estava havia m uito tem po trabalhando no cam po, esforçando-se, arando, carregando plantas e m ais plantas. Soltou a cadeira e se abaixou para recolher as am êndoas confeitadas.

– Sei que não m e fareis m al – asseverou então dando-lhes as costas –, m as não porque não queirais, que isso eu não sei, m as porque não podeis – acrescentou para apagar o sorriso com que topou ao defrontar-se de novo com eles.

Servando e Lucio, assim se cham avam os m endigos a que Caridad alim entou com os restos da olla podrida.

Na noite seguinte trancou a porta; eles a esm urraram e suplicaram , e ao final ela lhes abriu.

No dia seguinte nem sequer esperaram que ela term inasse seu trabalho no sótão da sacristia: peram bulavam ao redor da casa quando ela chegou.

– Fora daqui! – gritou-lhes de longe.

– Caridad…

– Por Deus…

– Fora!

– Pela últim a vez…

Já se achava j unto deles. Ia am eaçá-los de avisar o aguazil, era o que lhe havia aconselhado Ferm ín ao saber de quem se tratava, m as reparou num a pequena brasa na m ão de Servando.

– Que é isso? – inquiriu apontando para ela.

– Isto? – perguntou por sua vez o outro m ostrando um cigarro.

Caridad o pediu. Servando lhe entregou um pequeno e fino rolo de tabaco picado enrolado em papel grosso e grosseiro que Caridad exam inou com curiosidade. Conhecia as tusas, cigarros com o aqueles enrolados em palha de m ilho seco. Ninguém queria fum á-las.

– É barato – interveio Lucio. – É o que fum am os nós, os que não podem com prar charutos com o os que tu fum as.

– Onde os vendem ? – perguntou ela.

– Em nenhum lugar. É proibido. Cada um faz o seu.

Caridad fum ou do cigarro. Quente. Tossiu. Repugnante. Em todo caso… pensou, dispunha de abundantes restos que quando tinha tem po picava e enrolava em charutos que j á nem don Valerio aceitava. Essa noite, Servando e Lucio voltaram a com er olla podrida. Repetiram e repetiram . Proveram -na de papel, qualquer que fosse, que Caridad cortava em pequenos retângulos e preenchia com o tabaco picado. Os prim eiros cigarros ela fiou-lhes. Pagaram -lhe ao voltar para buscar m ais. Em pouco tem po, Caridad teve de com eçar a selecionar as piores folhas de tabaco, que antes haveria destinado à feitura de charutos, para picá-las e envolvê-las nos retângulos de papel. Continuou com os charutos que correspondiam a don Valerio e com os dos j esuítas, escolhendo as folhas de m elhor qualidade; respeitou tam bém sua própria fuma, naturalm ente, m as o restante dedicou-o aos cigarros.

Chegou o dia em que Ferm ín teve de ir até Madri para trocar-lhe dois saquinhos por rebentar de reais de prata e m aravedis por uns m aravilhosos dobrões de ouro. O sacristão não aprovava as atividades de Caridad e a preveniu.

– Não sei a razão pela qual ganhei carinho por ti – reconheceu, no entanto, depois de repreendê-la e de entregar-lhe os dobrões de ouro.

– Porque és com o aquela velha de que te falei quando nos conhecem os: resm ungão, m as boa pessoa.

– Esta boa pessoa não poderá fazer nada por ti se te prenderem …

– Ferm ín – interrom peu-o ela estendendo a últim a vogal –, tam bém m e podiam prender quando eu fazia charutos só para don Valerio, m as então não m e advertiste de nada.

O velho sacristão escondeu o olhar.

– Não gosto desses dois com que trabalhas – disse por fim . – Não confio neles.

Desta vez foi Caridad que guardou silêncio por alguns instantes. Depois sorriu, e, sem saber por quê, o rosto de Melchor voltou à sua m em ória. Que haveria respondido o cigano?

Nessa noite de prim avera, enquanto contem plava os giros daquele brinquedo m ecânico, Caridad recordou a resposta que então dera ao sacristão.

“Até hoj e não falharam com igo. Am anhã… verem os.”