A Rainha Descalça
Cápitulo 39
Uma semana antes
– Está bêbada! – Não consegue ficar de pé. – Que vergonha!
Os com entários das dam as que o acom panhavam num dos cam arotes laterais do Coliseo del Príncipe se j untaram às vaias e à gritaria que surgia do patio repleto de mosqueteros e da cazuela das m ulheres. A orquestra havia com eçado a tocar a tonadilha diversas vezes sem que Milagros conseguisse unir sua voz à m úsica. Nas duas prim eiras, a cigana gesticulou im petuosam ente para a cortina lateral atrás da qual ficavam os m úsicos e os culpou com desaj eitados trej eitos; nas dem ais, à m edida que as palavras se travavam num a boca pastosa, e pernas e braços se negavam a obedecer a suas ordens, a cólera de Milagros foi transform ando-se em desalento.
Frei Joaquín, com o estôm ago apertado e a garganta cerrada, procurou esconder das senhoras e de seus acom panhantes o trem or de suas m ãos e olhou para Milagros. Já não havia m úsica naquele tablado que, se ontem ficava pequeno ao ritm o de suas danças, de seus sorrisos e de suas insolências, agora parecia im enso com ela aj oelhada no centro, derrotada e cabisbaixa. Alguém atirou um a verdura podre contra seu braço direito. Os mosqueteros estavam preparados. Fazia alguns dias que em Madri corria o rum or sobre o estado da Descalça: suas últim as apresentações j á haviam beirado o escândalo. Alguns disseram que ela estava doente, m uitos outros reconheceram em sua voz gasta e seus m ovim entos desconexos os efeitos do álcool. Milagros nem sequer reagiu diante da verdura, nem quando um tom ate rebentou em sua cam isa e provocou um a gargalhada geral no teatro. Acim a do patio, apoiado na balaustrada do cam arote, Frei Joaquín desviou o olhar procurando a quem havia atirado o tom ate.
– Seu estúpido! – resm ungou.
– Dizia algo, reverendo?
O frade não deu atenção à pergunta da dam a que estava sentada a seu lado. Do patio j á se atiravam todos os tipos de verduras e legum es podres, e as pessoas arrancavam as fitas verdes que haviam adornado seus chapéus e vestidos com o m ostra de adm iração pela Descalça. O alcaide encarregado do teatro m andou dois aguazis retirar do palco um a Milagros resignada, subm issa diante do castigo. “Por que não se vai?”, perguntou-se o religioso.
– Vai-te, m enina! – explodiu Frei Joaquín.
– Menina? – estranhou a dam a.
– Senhora – respondeu sem m editar, com a atenção fixa no tablado –, todos nós som os crianças. Por acaso não assegurou Jesus Cristo que aquele que não fosse com o um a criança não entraria no reino dos céus?
A m ulher ia questionar as palavras do frade, m as o que fez foi abrir um belo leque de nácar com que com eçou a abanar-se. Enquanto isso, os dois aguazis arrastavam Milagros pelos cotovelos entre um a chuva de verduras. Assim que a cigana se perdeu atrás da cortina e os gritos que vinham do patio e da cazuela se transform aram em rum or de conversas indignadas, Celeste apareceu no tablado enquanto três hom ens continuavam a lim pá-lo. A vitória brilhava nos olhos da artista.
– O de Rafal – com entou um dos nobres que se achava em pé, ao fundo do cam arote, referindo-se ao corregedor de Madri – nunca deveria ter substituído a grande Celeste.
– E ainda m enos por um a cigana que se prostitui por dois reais! – exclam ou outro.
Frei Joaquín teve um sobressalto quando Celeste com eçou a cantar, e os dois nobres se som aram com afetação aos aplausos do público.
– Não sabia disso, reverendo? – A dam a do leque lhe falou com o rosto escondido atrás dele, ligeiram ente inclinada na cadeira: – Se Sua Paternidade nos honrasse m ais com sua presença nas tertúlias…
“Eu m e haveria inteirado”, term inou ele para consigo a frase que havia ficado suspensa no ar.
– Pessoalm ente – disse a m ulher –, não consigo a im aginar o que diria Nosso Senhor Jesus Cristo dessa m enina – estendeu depreciativam ente as duas últim as palavras e, aproxim ando sua cadeira da do frade e ao abrigo do leque, com o se com isso pretendesse desculpar seu atrevim ento, entrou a enum erar um a lista de am orios, m ultiplicada nos cochichos das tertúlias.
Entre os cantos de um a rutilante Celeste, os aplausos e gritos de um público sem pre volúvel, de novo rendido à prim eira-dam a, Frei Joaquín interrom peu a m ulher, a qual se voltou para o religioso e de form a inconsciente com eçou a abanar diante de seu rosto. Conhecia a sensibilidade do frade, todas as suas conhecidas o elogiavam por essa qualidade, m as nunca teria suspeitado de que a notícia das aventuras de um a sim ples cigana pudesse produzir-lhe essa palidez quase cadavérica que agora ele apresentava.
Frei Joaquín pensava em Milagros: bela, risonha, encantadora, esperta, alegre… lim pa…
virginal! As recordações haviam chegado atropeladam ente para cravar-se em seu estôm ago e paralisar o fluxo de seu sangue. Ela ocupara suas fantasias noturnas e o fizera conhecer essa culpa que tantas vezes tentara expiar com orações e disciplinas: seu rechaço, após o religioso propor-lhe que fugisse com ele, lançou-o aos cam inhos, duvidando de que existisse sacrifício capaz de purificá-lo aos olhos de Deus. Desde então, aquele rosto trigueiro o havia acom panhado aonde quer que ele fosse, descontroladam ente belo: anim ando-o, sorrindo-lhe nos m om entos adversos.
E agora em que canto haviam ficado aqueles alentos? Era um a bêbada. Isso ele m esm o havia visto. E um a prostituta, segundo asseguravam …
Até a tarde do desabar de Milagros no Coliseo del Príncipe, a im agem da cigana costum ava assaltar a m ente de Frei Joaquín nas noites, enquanto ele cam inhava com os sentidos alertas pelas perigosas ruas de Madri para sua casa. Quando isso sucedia, a lem brança de Milagros se agarrava à sua m em ória. Frei Joaquín habitava um apartam ento num a dim inuta quadra de som ente três edifícios, todos eles estreitos e tão longos que iam desde a fachada, que dava para as Platerías, na rua May or, até a pracinha de San Miguel atrás. Francisca, a velha criada que o atendia, levantava-se sonolenta para aj udá-lo apesar de saber a resposta que receberia: “Que Deus te pague, Francisca, m as podes retirar-te.” Contudo, a m ulher insistia noites seguidas, eternam ente agradecida por dispor de um teto sob o qual abrigar-se, de com ida e até do parco salário com o que o frade retribuía seus esforçados m as tam bém poucos serviços. Francisca nunca havia trabalhado de criada. Viúva, com três filhos ingratos que a haviam abandonado em sua senectude, havia dedicado sua vida e seus esforços a lavar roupa no Manzanares. “Lavava tanta roupa”, chegou a j actar-se diante de Frei Joaquín, “que necessitava de um m oço de corda para aj udar-m e a transportá-la para seus donos.” Mas, com o sucedia com todas aquelas m ulheres que dia após dia, ano após ano, iam a seus lugares no rio para lim par a suj eira dos outros, quer sob o frio invernal e com a água gelada, quer em plena canícula, seu corpo havia pagado um alto preço: m ãos inchadas e atrofiadas com o os m úsculos; ossos perm anentem ente doloridos. E Frei Joaquín corria para recolher do chão a concha que havia escorregado de suas desaj eitadas m ãos para evitar o m artírio que im plicava para a m ulher o abaixar-se. O religioso a havia resgatado das ruas quando a m oeda que lhe dera com o esm ola caiu dentre seus atrofiados dedos de lavadeira, tintinou num a pedra e rolou para longe. Os dois se olharam : a velha, incapaz de perseguir o dinheiro que lhe escapava; Frei Joaquín vislum brando a m orte j á instalada em seus olhos apagados.
Depois de ordenar-lhe que se retirasse, o frade com parava os lentos m ovim entos que levariam Francisca até seu colchão, aos pés da m aravilhosa im agem da Im aculada Conceição, com a vitalidade e a alegria com que nessa m esm a tarde, talvez na anterior ou na outra, Milagros havia obsequiado seu público. Ele se sentava num dos cam arotes, com o quase diariam ente faziam as m ulheres nobres e ricas com seus cortej os e acom panhantes. Prodigiosa! Maravilhosa!
Encantadora! Tais tinham sido os elogios que ressoavam em seus ouvidos quando pisara pela prim eira vez o Coliseo del Príncipe, recém -chegado a Madri, vindo de Toledo. A Descalça. E
naquele prim eiro dia ele saltou na cadeira.
– Está acontecendo algo, padre? – perguntaram -lhe.
Algo? Era Milagros! Frei Joaquín se achava quase de pé. Balbuciou algo ininteligível.
– O senhor está passando m al?
“Que faço em pé?”, perguntou-se. Desculpou-se com sua pupila, voltou a sentar-se e ouviu, arrebatado, os cantos de Milagros enquanto, discretam ente, pugnava por reter as lágrim as que se acum ulavam em seus olhos.
Desde a sua chegada a Madri, o Coliseo del Príncipe e as apresentações de Milagros se converteram em lugar de peregrinação para Frei Joaquín. Se em algum a das tardes de espetáculo, Dorotea, a j ovem toledana a que por im posição de seu pai havia acom panhado à Vila e Corte após seu casam ento com o m arquês viúvo de Caj a, decidia não com parecer, o frade se desculpava com os m arqueses e pagava de seu bolso um a entrada para o patio ou ia para a tertulia com os dem ais religiosos. Na prim eira vez se sentiu perdido diante das oito portas que levavam às diferentes partes, independentes um as das outras – o patio, a tertulia, os cam arotes, a destinada exclusivam ente às m ulheres que iam para a cazuela –, m as em pouco tem po havia conquistado o apreço dos bilheteiros e dos vendedores que na parte traseira do patio ofereciam doces e bebidas com m el e especiarias, debaixo da cazuela das m ulheres. O frade suportava as apresentações inteiras e em m uitas ocasiões, diante de um a obra ruim e ainda m ais m al interpretada, esforçava-se por não se j untar ao m ar de pessoas que desprezavam o últim o ato da peça e abandonavam o Coliseo após a apresentação da Descalça. Não desej ava ser reputado com o m ais um dos que só iam ao teatro pelos sainetes ou pelos entrem eses. Ao final, elogiava o autor e os atores, em bora só tivesse em m ente a voz da cigana, suas danças com edidas que não queriam m as consentiam , sim , em provocar o desej o e as fantasias do público com sua voluptuosidade. Ele trem ia à lem brança de suas m aliciosas insolências na direção do patio, dos mosqueteros entre os quais ele se escondia. E ele se encolhia diante do olhar que Milagros passeava por todos eles, tem endo que o reconhecesse.
– Que dizeis vós ao corregedor inj usto? – perguntava a cigana interrom pendo a canção em que um pobre cam ponês era encarcerado pelo corregedor real.
Os apupos e assobios, braços para o alto, perm itiam que o religioso se erguesse de novo no m eio da confusão.
– Mais alto, m ais! Não vos ouço! – gritava Milagros, estim ulando-os com as m ãos j usto antes de entrar a cantar de novo com petindo com a gritaria.
E vencia. Sua voz se alçava potente acim a do alvoroço, e Frei Joaquín se sentia desfalecer ao m esm o tem po que sentia um nó na garganta. Em um a tarde de teatro, talvez após um excesso de vinho no alm oço com os m arqueses, o frade se aproxim ou um pouco m ais do tablado e se m anteve firm e quando Milagros buscou a cum plicidade do patio. Trem iam -lhe os j oelhos, e ele não teve tem po de virar o rosto quando a cigana passeou o olhar pelos mosqueteros que lhe gritavam vivas, j usto onde ele se encontrava. Talvez desej asse que ela o descobrisse. Ela não se apercebeu de sua presença, e Frei Joaquín se surpreendeu a si m esm o tranquilizando-se ao soltar o ar que havia retido nos pulm ões. Não sabia por que o havia feito, m as nesse dia a sentiu perto, acreditou até ter-lhe sentido o cheiro.
Depois dessa ida ao teatro, antes do j antar e da tertúlia a que fora acom panhando a Dorotea, Frei Joaquín se encerrou na sala dos relógios da casa do m arquês oprim ido por sentim entos contraditórios. Recrim inou-se que aquela peça da casa, na qual o m arquês m ostrava seu poder e sobretudo seu bom gosto, no dizer de todos quantos contem plavam sua coleção, e na qual ele costum ava buscar refúgio, o apaziguasse em m aior m edida que a oração ou a leitura de livros sagrados. Parou diante de um relógio de caixa tão alta com o ele, em m adeira de ébano adornada com bronzes e dourados cinzelados. O inglês John Ellicott o havia feito; assinava em seu quadrante, no qual se viam um calendário lunar e um globo celeste.
Milagros estava feliz, teve de reconhecer ao ritm o do segundeiro. Ela havia vencido! “Para que introm eter-m e em sua vida?”, perguntou-se depois, diante de um elaborado relógio de m esa com figurinhas bucólicas de Droz; obra de um reloj oeiro suíço, com o lhe havia explicado o m arquês. Com o conseguiam fazer tais m aravilhas? Expunha-se na sala m ais de um a dúzia.
Relógios com m úsica. Milagros gostaria deles? Alguns tinham até um a dúzia de pequenos sinos… Com o soaria sua voz de cigana j unto a eles? Relógios de pêndulo, im ensos, com um m ecanism o de órgãos ou de m oto-perpétuo; havia um que até realizava operações aritm éticas.
Autôm atos que tocavam flauta: encantava-o ouvir a flauta do pastor ou os latidos do cão…
Milagros j á o havia rechaçado um a vez. Que lhe dissera então? “Sinto m uito… Nunca teria podido ser.” Sim , foram essas suas palavras antes de fugir para o Andévalo. “Por que te em penhas, seu frade idiota?”, disse-se a si m esm o. Se naquele m om ento de desespero, quando se dera a grande batida, assustada por ter de fugir de Triana, com seus pais presos e seu avô desaparecido, Milagros não havia sido capaz de encontrar em seu interior um a ponta de carinho por ele, que podia esperar agora, quando ela triunfava na cena e era adorada por toda Madri?
Contudo, nunca deixou de ir ao teatro, nem sequer quando, m eses depois de sua chegada, teve de abandonar a casa do m arquês e de quem havia sido sua pupila para m udar-se para a estreita e alongada habitação da rua May or que com partilhava com Francisca. Durante esse tem po, pouco a pouco, Dorotea fora introduzindo-se nos sedutores costum es da Vila e Corte, tão diferentes dos toledanos, e com eçou a prescindir de quem até então havia sido seu professor, confidente e am igo. Don Ignacio, o m arquês, pai de três filhos nascidos de seu m atrim ônio anterior, era um hom em tão rico com o despreocupado.
– Dói-m e dizê-lo, don Ignacio – foi sincero com ele Frei Joaquín, os dois sentados na sala dos relógios, um a m anhã, tom ando café e com endo doces –, m as considero m eu dever adverti-lo de que sua esposa está tom ando cam inhos preocupantes.
– A coisa é m otivo para escândalo? – saltou exasperado o outro, com tal ím peto que esteve a ponto de derram ar o café sobre seu colete.
– Não, não. Bem … não sei. Suponho que não, m as nas tertúlias… ela sem pre está cochichando e rindo com um ou outro. Sei que a desej am , eu o ouvi; é j ovem , bela, culta. Doña Dorotea não é com o as dem ais m ulheres…
– Por que não?
Desta vez foi o frade quem se sobressaltou.
– Adm ite o cortej o?
O m arquês suspirou.
– E quem não, pater? Nós, os hom ens de nossa posição, não podem os opor-nos a isso por m ais que nos incom ode. Seria… seria incivilizado, descortês.
– Mas…
O m arquês ergueu com elegância um a das m ãos pedindo-lhe silêncio.
– Sei que não é a doutrina da Igrej a, pater, m as nestes tem pos o m atrim ônio j á não é a instituição sagrada de nossos ancestrais. O m atrim ônio, pelo m enos o dos afortunados com o nós, fundam enta-se na cortesia, no respeito, na educação, na sensibilidade… Não são m ais que uniões de inclinação não só sentim ental, m as tam bém por interesse m aterial.
– Antes tam pouco abundavam os m atrim ônios por am or – tentou refutar o frade.
– É verdade – apressou-se a reconhecer o outro. – Mas j á não podem os falar dessas m ulheres atem orizadas e encerradas em casa de seus esposos. Hoj e em dia até as m ulheres necessitadas, por m ais hum ildes que sej am , querem m ostrar-se aos hom ens; talvez não tenham a sensibilidade e a cultura das dam as, m as isso não as im pede de exibir-se em ruas, teatros e festas. Reconheçam os que tam pouco têm tantas necessidades sentim entais, a precariedade de sua vida o im pede, m as não há m ãe que além de educar sua filha na virtude cristã não se preocupe tam bém com ensiná-
la a dançar e cantar, além da arte dessa linguagem corporal e silenciosa que tão bem sabe deslum brar os hom ens com esse sim m as não, quando não m as sim .
Frei Joaquín pigarreou, pronto para responder, m as o m arquês continuou falando.
– Pense em doña Dorotea. O senhor lhe ensinou latim em casa de seu pai; ela sabe ler e o faz.
É culta, delicada, sensível, sabe com o agradar a um hom em . – Don Ignacio pegou um pedaço de pão de ló e o m ordeu. – O que o senhor acha que m ais com praz m inha esposa no j ogo do cortej o? – perguntou depois. O frade m eneou a cabeça. – Eu lhe direi: é a prim eira vez em sua vida que tem a oportunidade de escolher. O m atrim ônio lhe foi im posto, com o tudo desde que nasceu, m as agora ela escolherá diante de seu cortej o e algum tem po depois o deixará por outro, e flertará com um terceiro para encium ar o prim eiro, ou o segundo…
– E se…? – Frei Joaquín hesitou. – E se chegar ao adultério? – Arrependeu-se da pergunta de im ediato.
– Doña Dorotea é íntegra e honesta – apressou-se o m arquês a acrescentar golpeando o ar com o se houvesse dito um a sandice –; no entanto, a carne é fraca, e a das m ulheres… m ais ainda. Contudo, o nobre não revelou a cólera que teria cabido esperar de alguém de quem se acabava de pôr em dúvida a virtude da esposa. Don Ignacio bebeu café e durante alguns instantes perdeu o olhar naqueles relógios que tanto adm irava. Term inou seu exam e com um esgar.
– Diz-se que é “am or branco”, pater, e a m aioria dos cortej os o é. Não creia que não se fala disso entre m uitos de nós, m as quem sabe o que sucede no interior da alcova de um a m ulher?
Publicam ente só se trata de um galanteio, sim ples faceirice. E isso é o que im porta: o que veem os outros.
Livre pois do estorvo daquele frade que havia levado de Toledo a m odo de tutor, a m arquesinha aprendeu o uso do leque para com unicar num idiom a secreto por todos conhecido aqueles sinais que desej ava transm itir aos j anotas: tocá-lo, abri-lo, abanar-se com força ou languidam ente, deixá-lo cair no chão, fechá-lo com violência… Cada ação significava um a coisa ou outra. Pouco tardou tam bém a chegar a utilizar as pintas no rosto para exteriorizar seu estado: se estava na têm pora esquerda, ela m ostrava que j á tinha cortej o; se na direita, que estava cansada de seu cortej o e podia aceitar outros; j unto aos olhos, aos lábios ou ao nariz, distintas form as, todas, de m ostrar o estado de espírito da senhora.
A distância entre Frei Joaquín e aquela j ovem toledana a que havia ensinado latim e a entender os clássicos fora tornando-se cada vez m aior à m edida que Dorotea se introduzia no j ogo do cortej o. Nas m anhãs, nem sequer seu m arido podia entrar na alcova de sua esposa. “A senhora m arquesa está com o cabeleireiro”, respondia sua donzela a m odo de carcereira, diante da porta do quarto fechada a chave. Frei Joaquín via entrar em sua casa o galanteador da vez, j ovem , barbeado e em poado, cheirando a lavanda, j asm im ou violeta, às vezes com peruca, outras com o cabelo m oldado com sebo e banha por um cabeleireiro, m as sem pre disposto com m il adornos: gravatinha, relógio, óculos, bastão, espadim na cinta, rendas, pontas e até laços em traj es de seda coloridos com abotoaduras douradas. O m arquês, tam bém o percebia o frade, fazia de tudo para não cruzar com o galanteador enquanto este, com fingida dignidade, cheirava rapé à espera de que o m ordom o fosse avisado para acom panhá-lo até a alcova. “Que estarão fazendo ali dentro?”, perguntava-se Frei Joaquín. Dorotea estaria ainda na cam a, com roupa de dorm ir. De que falariam durante as horas que tardava a m arquesa a sair de seu quarto? Para que se havia esforçado ele em ensinar à sua pupila as m ais m odernas doutrinas acerca da condição fem inina? Todos aqueles j anotas afetados que perseguiam as dam as eram tão j actanciosos com o incultos, algo que ele havia com provado nas tertúlias, atônito diante das estupidezes que chegava a ouvir.
– Senhora – exibia-se um deles –, Horácio era dem asiado sentencioso.
– Sem Hom ero, que haveria sido Virgílio? – dizia outro um pouco adiante.
Nom es e citações decorados para assom brar seus ouvintes: Periandro, Anárcase, Teofrasto, Epicuro, Aristipo ouviam -se aqui e ali nos luxuosos salões das senhoras. E Dorotea sorria boquiaberta! Todos eles desprezavam com soberba a m ais leve das críticas e zom bavam daquelas que se lhes apresentavam com o opiniões abalizadas, até que através desses ardis alguns chegavam a alcançar a condição de sábios aos olhos de um a audiência fem inina entregue a suas fanfarronadas.
Ignorância. Hipocrisia. Frivolidade. Vaidade. Frei Joaquín explodiu ao ouvir um j anota que pugnava por conseguir o favor de Dorotea pedir-lhe que lhe fizesse chegar um j arro que contivesse a água com que se havia lavado para utilizá-la com o m edicam ento com um a criada doente. O sangue abandonou o rosto do frade para concentrar-se em seu estôm ago, toda ela, em aluvião, deixando-o lívido, ao presenciar com o a j ovem com que declinara o latim e desfrutara lendo o Padre Feij oo atendia exultante ao ridículo pedido, apoiada por algum as das senhoras que aplaudiram a iniciativa e outras que lhe pediram encarecidam ente, pelo bem daquela infeliz criada enferm a, que consentisse na cura.
Frei Joaquín conhecia as m odernas e controversas teorias sobre os tratam entos à base de água.
Os “m édicos da água”, cham avam a seus defensores. Nem sequer Feij oo havia sido capaz de pô-
las em dúvida, m as daí a dar de beber a um a enferm a a água suj a de um a dam a, por m ais m arquesa, j ovem e bela que fosse, havia um abism o.
– Não posso continuar m orando em sua casa.
Don Ignacio curvou os lábios em algo parecido com um sorriso. “Triste, m elancólico?”, perguntou-se Frei Joaquín.
– Eu com preendo – disse aquele, dando por subentendida a causa que levava o religioso a tal decisão. – Foi um verdadeiro prazer tê-lo aqui e haver conversado com o senhor.
– Foi realm ente generoso, don Ignacio. Quanto à sua capela…
– Continue com ela – interrom peu-o o m arquês. – Eu teria de procurar outro sacerdote, e isso seria um incôm odo – acrescentou fechando a cara. – Além disso, se o senhor se fosse, não poderia contem plar os relógios, e o senhor sabe que isso satisfaz a m inha vaidade.
O m arquês sorriu num a atitude que o frade entendeu franca.
– Eu o considero um a boa pessoa, pater. Estou convencido de que a senhora m arquesa não fará nenhum a obj eção.
Dorotea não o fez. De fato, a despedida se deu de form a fria e apressada – esperavam -na suas am igas, desculpou-se ela deixando-o com a palavra na boca –, razão por que Frei Joaquín continuou atendendo à capela particular da casa do m arquês, generosam ente beneficiada por este com dinheiro suficiente em troca de algum as m issas pelas alm as dos antepassados do nobre às quais só com pareciam dois ou três criados.
Onde estava Milagros? Em um a só tarde, Frei Joaquín viu desm oronar todos os seus princípios.
Apesar de seus desej os, havia conseguido m anter-se à m argem : idolatrar Milagros. No entanto, após ser testem unha de sua queda, assaltaram -no as dúvidas quanto ao que devia fazer. Era casada, com o seu esposo podia perm itir…? Havia-se prostituído verdadeiram ente? O esgar com que o m arquês de Caj a recebeu a pergunta quando o frade se decidiu a fazê-la o confirm ou.
– Não é possível! – escapou-lhe.
– É, sim , padre. Mas não com igo – acrescentou o nobre com prontidão diante da expressão do frade. – Qual a razão de seu interesse? – inquiriu quando Frei Joaquín lhe perguntou se sabia onde a Descalça m orava.
O frade apertou os lábios e não respondeu.
– Está bem – cedeu don Ignacio diante de seu silêncio.
O m arquês m andou seu secretário interessar-se pela situação e em alguns dias m andou cham ar o frade. Contou-lhe sobre a sentença da Sala de Alcaides.
– Sem dúvida é a m ais oportuna – acrescentou com o que de passagem . – Hoj e m esm o a puseram em liberdade.
Depois lhe deu um endereço, na rua del Am or de Dios.
Ali se postou o frade. Só queria vê-la e aj udá-la se fosse preciso. Afastou da m ente a preocupação acerca de que faria quando isso sucedesse… se sucedesse. Não queria acalentar ilusões com o no dia em que correra atrás dela em Triana. O problem a com que topou foi que havia três edifícios assinalados com o núm ero quatro na rua del Am or de Dios.
– Não se pode saber – respondeu-lhe um m orador a quem perguntou. – Vej a, padre, o problem a é que aquele a quem ocorreu num erar os edifícios o fez considerando as quadras de casas, razão pela qual efetivam ente m uitos núm eros se repetem . Sucede isso em toda Madri. Se em lugar de o fazerem por quadras o houvessem feito por ruas, linearm ente, com o em outras cidades, não teríam os esse problem a.
– Sabe… sabe em qual deles vive a Descalça?
– Não m e dirá que um religioso com o o senhor…? – reprochou-lhe o hom em .
– Não m e j ulgue m al – defendeu-se Frei Joaquín –, eu lhe peço.
– Era ali que paravam as liteiras para levá-la ao teatro – grunhiu o hom em apontando para um edifício.
Frei Joaquín não se atreveu a subir. Tam pouco perguntou a um par de vizinhos que entraram e saíram do im óvel. “Em realidade, o que pretendo?”, perguntou-se. Passeando de alto a baixo pela rua vezes seguidas, pegou-o o anoitecer. A noite era tem perada, m as, ainda assim , ele fechou o colarinho de seu hábito e se abrigou num portal fronteiro. Talvez no dia seguinte pudesse vê-la… e estava nessa dúvida quando viu dois hom ens dirigirem -se para o edifício. Um era um aguazil, com sua vara batendo no chão; o outro, Pedro García. Não lhe foi difícil reconhecê-lo. Mais de um a vez o havia assinalado a ele algum a piedosa paroquiana em Triana por causa daquelas aventuras que depois o Conde, seu avô, tinha de correr para consertar. “O
esposo de Milagros”, lam entou-se. Pouco podia fazer se ele estava ali. Com o havia consentido que sua m ulher se prostituísse? Era isso o que lhe diria se fosse ao seu encontro? Am bos os hom ens entraram no edifício, e ele ficou à espera, sem saber bem por quê. Algum tem po depois, saiu um a velha carregando um colchão e duas trouxas.
Cigana tam bém , pôde ver-lhe o rosto ao luar: sua tez a denunciava. Parecia que se preparavam para ir em bora, para deixar a casa. Frei Joaquín estava nervoso. Suavam -lhe as m ãos. Que estava acontecendo ali em cim a? Logo depois viu sair do im óvel o aguazil.
– Afasta-te desse anim al, ou ele te m atará a ti tam bém ! – ouviu-o advertir à velha cigana.
“Ele te m atará a ti tam bém ?”
De repente, Frei Joaquín se encontrou no centro da rua.
– Ele a m atará? – balbuciou diante do aguazil.
– O que o senhor faz aqui, padre? Não é hora…
Mas o frade j á havia desatado a correr escada acim a. “Ele a m atará”, ressoava freneticam ente em seus ouvidos.
– Para! – arquej ou após encontrar-se na única porta aberta e ver Pedro disposto a degolar um a m ulher.
O cigano virou o rosto e reconheceu, surpreso, Frei Joaquín.
– Triana está m uito longe, padre – cuspiu, soltando Milagros e pondo-se diante dele com a navalha na m ão.
A visão do corpo nu de Milagros distraiu por um instante Frei Joaquín.
O cigano se aproxim ava dele.
– Gostas de m inha esposa? – perguntou com cinism o. – Desfruta dela porque será a últim a coisa que verás antes de m orrer.
Frei Joaquín reagiu m as não soube o que fazer contra aquele hom em forte e arm ado que destilava ira por todos os poros. Em um só segundo se lhe encolheram os testículos e um suor frio lhe ensopou as costas.
– Socorro! – conseguiu gritar então enquanto recuava para o patam ar.
– Cala-te!
– Socorro!
O cigano lançou um a prim eira navalhada. Frei Joaquín cam baleou ao esquivá-la. Pedro atacou de novo, m as Frei Joaquín conseguiu atenazar seu pulso. Não resistiria m uito, com preendeu porém .
– Socorro! – Utilizou a outra m ão para aj udar a prim eira. – Socorro! A ronda! Cham ai a ronda!
Pedro García o chutava e batia com a m ão livre, m as Frei Joaquín só estava atento àquela em que segurava a navalha, próxim a, roçando j á seu rosto. Continuou gritando, alheio à surra que estava recebendo.
– Que é que está acontecendo? – ouviu-se na escada.
– Avisai a ronda! – exclam ou um a m ulher.
Aos gritos de Frei Joaquín na noite se j untaram os dos próprios vizinhos do edifício e até os dos fronteiros, hom ens e m ulheres assom ados às sacadas.
Ouviram -se passos na escada e m ais gritos.
– Ali!
– Socorro! – O auxílio que previa próxim o deu forças a Frei Joaquín para continuar gritando.
Alguém chegou ao patam ar.
Pedro García soube que estava perdido. Soltou a navalha, e o frade cedeu num pulso que se via incapaz de suportar por m ais tem po, m om ento em que o cigano aproveitou para em purrá-lo e lançar-se escada abaixo, em purrando as pessoas que a estavam subindo.