A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 44 de 51

Páginas do PDF

A Rainha Descalça

Cápitulo 44

Após deixar a habitação das Platerías, Frei Joaquín puxou Milagros até um a m orada da rua del Pez, onde se am ontoavam os edifícios em que viviam m adrilenses tão altivos e orgulhosos com o os de Lavapiés, do Barquillo ou dos dem ais quartéis de Madri. O religioso, tem endo provocar rum ores desnecessários, nem sequer se atreveu a ir a um a pousada secreta, razão por que negociou e alugou um par de quartos descuidados da viúva de um soldado que se prestou a dorm ir j unto à lareira e que não fez perguntas. A cam inho, contou à cigana sua conversa com Blas.

– Pois vam os a Triana – saltou ela agarrando-o pela m anga para detê-lo enquanto subiam a rua Ancha de San Bernardo.

A m ultidão descia alegre, em sentido contrário, em busca da rua de Alcalá e da praça de touros.

– Pedro te m ataria – opôs-se o religioso enquanto exam inava edifícios e entradas de ruas.

– Minha filha está lá!

Frei Joaquín parou.

– E o que faríam os? – inquiriu –, entrar no beco de San Miguel e raptá-la? Crês que teríam os a m enor possibilidade? Pedro chegará antes que nós, e assim que o fizer espalhará todos os tipos de detrações contra ti; a ciganaria inteira te considerará um a… – O frade deixou a palavra suspensa no ar. – Nem sequer chegarias… chegaríam os a atravessar a ponte de barcos. Vam os –

acrescentou com ternura alguns instantes depois.

Frei Joaquín continuou andando, m as Milagros não o seguiu, o rio de gente pareceu engoli-la. Ao aperceber-se disso, o frade voltou até onde ela estava.

– Que im porta que m e m ate? – m urm urou ela entre soluços, as lágrim as correndo j á por suas faces. – Eu j á estava m orta antes de…

– Não digas isso. – Frei Joaquín fez m enção de pegá-la pelos om bros, m as se conteve. – Tem de haver outra solução, e a encontrarei. Eu te prom eto.

Outra solução? Milagros franziu os lábios enquanto se aferrava a essa prom essa. Anuiu e cam inhou a seu lado. Era verdade, reconheceu para si m esm a quando entravam na rua del Pez: Pedro a difam aria, e Bartola confirm aria, obediente, quantas inj úrias ocorressem ao m alnascido.

Um calafrio percorreu suas costas ao im aginar Rey es, a Trianeira, vilipendiando-a aos gritos. Os Garcías desfrutariam repudiando-a publicam ente; os Carm onas tam bém o fariam , ultraj ados em sua honra. Milagros havia transgredido a lei: não existiam prostitutas na raça cigana, e todos os ciganos ficariam contra ela. Com o ia aparecer no Beco de San Miguel nessas condições?

No entanto, passavam -se os dias e a prom essa de Frei Joaquín não se cum pria. “Dá-m e um tem po”, pediu-lhe um a m anhã quando ela insistiu. “O m arquês nos aj udará”, assegurou no dia seguinte sabendo que não seria capaz de ir à sua casa. “Escrevi um a carta ao prior de São Jacinto, ele saberá o que fazer”, m entiu pela terceira vez em que ela lhe recordou a prom essa.

Frei Joaquín tinha m edo de perdê-la, de que lhe fizessem m al, de que a m atassem ; m as, para não ter de enfrentar suas perguntas, ele a deixava sozinha num quartucho im undo com um catre desconj untado e um a cadeira quebrada por único m obiliário. “Não deves sair, as pessoas te conhecem , e os Garcías te estarão procurando por m andado de Pedro.” Com o eco de suas escusas, com o riso de sua m enina ressoando constantem ente nos ouvidos, Milagros se entregava ao pranto. Estava certa de que os Garcías a m altratariam . As im agens de sua m enina nas m ãos daqueles desalm ados tornaram -se dem asiadas para suas forças. Sóbria não poderia suportá-las…

Pediu vinho, m as a viúva se negou a dá-lo. Discutiu com a viúva em vão. “Vai-te em bora se quiseres”, disse-lhe. “Para onde?”, perguntou-se ela. Para onde podia ir?

Ele regressava sem pre com algo: um doce; pão branco; um a fita colorida. E conversava com ela, anim ava-a e tratava-a com carinho, em bora não fosse disso que ela necessitava. Onde estava a valentia dos ciganos? Frei Joaquín era incapaz de sustentar seu olhar em resposta ao dela com o faziam os de sua raça. Milagros percebia que ele a seguia com os olhos sem pre que estavam j untos, m as, assim que ela o encarava, o frade disfarçava. Parecia conform ar-se com sua sim ples presença, com cheirá-la, com roçá-la. Os pesadelos não abandonaram as noites da cigana: Pedro e o desfile de nobres que a violentavam se sucediam neles; contudo, com eçou a descartar a ideia de que Frei Joaquín pudesse chegar a agir com o eles.

Em duas sem anas ficaram sem dinheiro para pagar o abusivo aluguel com que a viúva garantia seu silêncio.

– Nunca cheguei a suspeitar de que necessitaria disso – desculpou-se o religioso, contrito, com o se houvesse falhado com ela.

– E agora? – perguntou ela.

– Procurarei…

– Está m entindo!

Frei Joaquín quis defender-se, m as a cigana não o perm itiu.

– Está m entindo, está m entindo e está m entindo – gritou com os punhos cerrados. – Não há nada, não é verdade? Nem m arquês, nem cartas ao prior, nem nada. – O silêncio lhe deu razão.

– Eu vou a Triana – decidiu então.

– Isso seria um a loucura.

A resolução de Milagros, a necessidade de abandonar os quartos antes que a viúva os expulsasse ou, pior ainda, os denunciasse por adultério, a falta de dinheiro e, acim a de tudo, a m era possibilidade de que a cigana o deixasse fizeram Frei Joaquín reagir.

– É a últim a vez que confio no senhor; não m e decepcione, padre – cedeu ela.

Não o fez. O fato é que durante aqueles dias não havia feito outra coisa que pensar em com o solucionar o problem a. Era um a ideia descabelada, m as ele não tinha alternativa: havia anos que estava sonhando com Milagros e acabava de renunciar a tudo por ela. Que atitude m ais descabelada que essa podia existir? Dirigiu-se a um a loj a de roupa e trocou o m elhor hábito dos dois de que dispunha por grosseiras roupas pretas de m ulher, incluídos um par de luvas e um a m antilha.

– Pretende que eu vista isto? – tentou opor-se Milagros.

– Não podes andar pelos cam inhos com o um a cigana sem papéis. A única coisa que pretendo é que não nos detenham durante nossa viagem … a Barrancos. – As roupas escorregaram das m ãos de Milagros e caíram no chão. – Sim – adiantou-se-lhe ele. – Tam pouco nos desviam os m uito. É som ente outro cam inho; m ais alguns dias. Recordas-te do que disse a velha curandeira?

Disse algo assim com o que, se há algum lugar em que se possa encontrar teu avô, esse é Barrancos. No dia em que falam os, tu m e contaste que não chegastes a ir após a detenção, e as coisas não m udaram m uito desde então. Talvez…

– Cuspi a seus pés – recordou então Milagros com o m ostra da ira com que o havia tratado. –

Eu disse-lhe…

– Que pode im portar o que tenhas feito ou dito? Ele sem pre te am ou, e tua filha leva nas veias sangue Vega. Se o encontrássem os, Melchor saberia o que fazer, com certeza. E, se ele j á não estiver ali, talvez encontrem os algum outro m em bro da fam ília que não tenha sido detido na grande batida. A m aioria deles se dedicava ao tabaco, e provavelm ente consigam os saber de algum .

Milagros j á não ouvia. Pensar em seu avô a enchia ao m esm o tem po de esperança e de tem or.

Não havia atendido a suas advertências; nem às de sua m ãe. Am bos sabiam o que sucederia se se entregasse a um García. A últim a coisa que soubera do avô era que o haviam detido em Madri e que ele conseguira fugir. Talvez… sim , talvez continuasse vivo. E, se alguém podia enfrentar Pedro, esse era Melchor Vega. No entanto…

A cigana se abaixou para recolher as roupas pretas do chão. Frei Joaquín parou de falar ao vê-

la. Milagros não queria pensar na possibilidade de que seu avô a houvesse repudiado e lhe negasse sua aj uda, m ovido pelo rancor.

– Ave María Puríssim a.

– Sem pecado concebida – disse Milagros, cabisbaixa, à j ovem criada que abriu a porta da casa. Sabia o que é que tinha de fazer depois, o m esm o que havia feito um a légua além , em Alcorcón: entrelaçar os dedos de suas m ãos enluvadas, m ostrando o rosário de Frei Joaquín que levava entre eles, e m ussitar o que recordava daquelas orações que Caridad lhe havia ensinado em Triana, para seu batism o, e que o frade lhe repetia m açantem ente durante o cam inho.

– Um a esm ola para o ingresso desta infeliz viúva no convento das dom inicanas de Lepe –

im plorou Frei Joaquín erguendo a voz em m eio à cantilena dela.

Através da m antilha negra que cobria sua cabeça e escondia seu rosto trigueiro, a cigana olhou de soslaio para a criada. Responderia igual a todas: negando-se a princípio para term inar abrindo desm esuradam ente os olhos no m om ento em que Frei Joaquín descobrisse o belíssim o rosto da Im aculada Conceição que ele carregava. Então titubearia, lhes diria que esperassem , fecharia a porta e correria em busca de sua patroa.

Assim havia sucedido em Alcorcón e tam bém em Madri, antes que tom assem a porta de Segóvia. Frei Joaquín decidiu aliviar sua pobreza j untando-se ao exército de peregrinos e

santeros [ 22 ] que esm olavam pelas ruas da Espanha, aqueles disfarçados com pelerine adornada com conchas, saial, bordão, cabaça e chapéu para supostas peregrinações a Jerusalém ou a um sem -fim de lugares estranhos; estes de frade, sacerdote ou m enorista reclam ando um óbolo para todos os tipos de obras pias. As pessoas contribuíam com suas esm olas aos prim eiros em troca de beij ar as relíquias ou os escapulários que seguravam com o autênticos da Terra Santa. Com os segundos, rezavam diante das im agens que eles levavam , acariciavam -nas, beij avam -nas e aproxim avam -nas das crianças, dos velhos e sobretudo dos doentes antes de deixar cair algum as m oedas no cepo ou na bolsa do santero.

E, no que dizia respeito a im agens sagradas, nenhum a com o a da Im aculada Conceição que Frei Joaquín descobria diante do estupor das criadas das casas ricas. Com o previa Milagros, em Móstoles, a pouco m ais de três léguas de Madri, sucedeu o m esm o que em Alcorcón. Pouco depois, abriu a porta a senhora da casa, que ficou cativada pela beleza e m agnificência da im agem da Virgem , e os convidou a entrar. Milagros fazia-o encolhida, com o lhe havia instruído Frei Joaquín, m urm urando orações e escondendo os pés descalços sob a longa saia negra que arrastava pelo chão.

Já no interior, a cigana procurava o canto m ais afastado do lugar, no qual a m odo de altar colocavam a Virgem enquanto Frei Joaquín a apresentava com o a sua própria irm ã, que acabava de enviuvar e havia feito prom essa de enclausurar-se num convento. Nem sequer a olhavam , atentos todos à Im aculada. “Pode-se tocar?”, perguntavam cautelosos. “E beij ar?”, acrescentavam em ocionados. Frei Joaquín dirigia as rezas antes de perm iti-lo.

E, em bora obtivessem dinheiro suficiente para seguir cam inho, com er e hospedar-se nos mesones ou naquelas m esm as casas se não as houvesse – Milagros sem pre separada dos dem ais, am parando-se num suposto voto de silêncio –, o avanço era lento, irritantem ente pausado.

Buscavam sem pre com quem viaj ar para evitar encontros desagradáveis, e às vezes tinham de esperar, com o quando nas casas as m ulheres se em penhavam em reclam ar a presença de esposos, filhos e às vezes até do pároco do povoado, com o qual Frei Joaquín conversava até convencê-lo da bondade de suas intenções. As m ostras de devoção e as rezas se eternizavam . No m om ento em que necessitavam de dinheiro, perdiam dias inteiros m ostrando a Virgem , com o lhes sucedeu em Alm araz, antes de atravessar o rio Tej o, onde lhes pagaram bem por perm itir que a im agem am parasse um doente em seu quarto.

– E se não se curasse? – perguntou Milagros a Frei Joaquín aproveitando que este lhe levou com ida ao côm odo que lhe haviam cedido para que observasse seu voluntário silêncio.

– Deixa que Nossa Senhora decida. Ela saberá.

Depois sorriu, e Milagros, surpresa, acreditou entrever um a ponta de m alícia no rosto de Frei Joaquín. O frade havia m udado… ou era ela quem o havia feito? Talvez os dois, disse-se.

Milagros não era capaz de suportar as noites; os pesadelos a despertavam bruscam ente, suando, aturdida, em busca de um ar que lhe faltava: hom ens forçando-a; o Coliseo del Príncipe inteiro rindo-se dela; a velha María… Por que sonhava com a curandeira tantos anos depois?

Mas, se aquilo sucedia durante a noite, a sim ples possibilidade de reencontrar-se com seu avô a anim ava a suportar durante o dia aquelas grossas roupas negras que lhe ardiam . O tédio das orações e das horas em que ficava sozinha em casas ou mesones, para que não se descobrisse o engano, convertia-se em fantasias ao pensar em Melchor, em sua m ãe, e em Cachita. Am iúde tinha de fazer esforço para não entrar a cantar aquelas orações que Caridad lhe havia ensinado em ritm o de fandango. Quanto tem po fazia que não cantava? “O m esm o tem po que não bebes”, havia-lhe respondido Frei Joaquín dando por encerrado o assunto um dia em que ela o com entou com ele. O sol e seus anelos conseguiam que todos aqueles m om entos am argos que a m artirizavam em sonhos ficassem para trás, com o que encerrados num a bolha, e abria-se diante dela a esperança de voltar a viver com sua gente. Isso era a única coisa que im portava realm ente: sua filha, seu avô. Os Vegas. No passado ela não havia chegado a com preendê-lo, em bora se consolasse com a desculpa da j uventude. Em alguns m om entos tam bém se recordava de seu pai.

Que lhe havia dito o Cam acho quando voltara de falar com sua m ãe no depósito de Málaga?

“Ele sabia qual era o trato: sua liberdade por teu com prom isso com o García. Devia haver-se negado e haver-se sacrificado. Teu avô fez o que devia fazer.” Quando rem em orava essas palavras do cigano, Milagros pugnava por afastar as recordações e voltar-se de novo para o avô. Só com sua aj uda poderia recuperar sua m enina e, com ela, a alegria de viver. Cada povoado que deixavam para trás a aproxim ava um pouco m ais dessa esperança.

Às vezes, depois de ouvi-lo m entir aos cândidos beatos que se aproxim avam da Virgem , Milagros tam bém pensava em Frei Joaquín, e ao fazê-lo a invadiam sensações contraditórias.

Nos prim eiros dias em Madri, quando haviam com eçado com aquilo da Virgem para conseguir dinheiro com que saldar a vultosa conta da viúva, a cigana se exasperava diante de seus titubeios.

Mentalm ente lhe pedia firm eza e convicção, m as ainda ficava m ais nervosa ao vislum brar, através das rendas da m antilha, seus constantes olhares de soslaio para certificar-se de seu com portam ento. “Preocupe-se consigo, frade. Com o acha que alguém vai reconhecer-m e dentro destas roupas que pendem de m eus om bros e de m eus quadris?” À m edida que Frei Joaquín desem penhava com m ais segurança seu papel de santero, m udou de atitude para com Milagros, com o se encontrasse forças em sua própria segurança. Não parecia tão perturbado por sua presença e às vezes até correspondia ao olhar da cigana. Então ela, ainda que fosse tão só por alguns instantes, se sentia m enina, com o em Triana.

– Já não o atraio vestida de preto? – perguntou-lhe descaradam ente um dia.

– Que…? – Frei Joaquín enrubesceu até as orelhas. – Que queres dizer?

– Isso m esm o, se j á não lhe agrado com estes… estes trapos que m e obriga a vestir.

– Deve de ser a Im aculada, que pretende evitar as tentações – troçou ele apontando para a im agem .

Ela ia replicar, m as se calou, e ele acreditou entender por que não chegou a fazê-lo: assom ava a ela a m ulher m altratada, hum ilhada pelos hom ens.

– Não queria dizer… – com eçou a desculpar-se Milagros antes que ele a interrom pesse.

– Tens razão: não gosto de ti com essas roupas de castelhana viúva. Mas gosto, sim –

apressou-se a acrescentar diante de sua expressão triste –, que voltes a brincar ou a preocupar-te com teu aspecto.

Milagros m udou de novo seu rosto. Um a som bra de tristeza turvou seu olhar.

– Frei Joaquín, nós, as m ulheres, viem os a este m undo para parir com dor, para trabalhar e para sofrer a perversão dos hom ens. Fora daqui – urgiu com ele diante de sua m enção de replicar. – Eles… os senhores se rebelam , lutam e pelej am diante da infâm ia. Às vezes ganham e se convertem no m acho vitorioso; outras m uitas vezes perdem e então se encarniçam com os fracos para enganar-se e viver com a vingança com o único obj etivo. Nós tem os de calar e obedecer, sem pre foi assim . Term inei por aprendê-lo, e isso m e custou a j uventude. Nem sequer m e vej o capaz de lutar por m inha filha sem a aj uda de um hom em . Sim , eu lhe agradeço –

acrescentou antes que ele interviesse –, m as é a verdade. Nós só podem os lutar para esquecer nossas dores e sofrim entos, para vencê-los, m as nunca para vingá-los. Aferram o-nos à esperança, por pequena que esta sej a, e enquanto isso, de vez em quando, só de vez em quando, tentam os voltar a sentir-nos m ulheres.

– Não sei o que…

– Não diga nada.

Frei Joaquín deu de om bros ao m esm o tem po que m eneava a cabeça, as m ãos estendidas.

– Alguém que diz a um a m ulher que ela não lhe agrada – ergueu a voz Milagros –, por m ais de preto que estej a vestida, por m ais velha e feia que possa ser, não tem direito de dizer nada.

E lhe deu as costas tentando que o requebro com que o fez chegasse a revelar-se sob sua inform e roupagem .

A proxim idade, o obj etivo com um , a constante ansiedade diante do perigo de que alguém descobrisse que a respeitável e piedosa viúva que se escondia debaixo daquele disfarce não era m ais que um a j ovem cigana – a Descalça do Coliseo del Príncipe de Madri, ainda por cim a –, e que o frade m entia ao esm olar para seu ingresso num convento, os uniam cada dia um pouco m ais. Milagros não fazia nada para evitar o roçar; sentia necessidade desse contato hum ano, respeitoso e cândido. Eles riam , eram sinceros um com o outro, exam inavam -se um ao outro; ela com o não o havia feito nunca até então, observando o hom em que se escondia sob o hábito: j ovem e bem -apessoado, em bora não parecesse forte. Salvo por aquela calva redonda que se exibia na coroa, podia dizer-se que era atraente. Quem sabe o cabelo não lhe voltava a crescer?

… Sem dúvida lhe faltavam ciganaria, decisão, soberba, m as em contrapartida lhe sobravam entrega, doçura e carinho.

– Aqui não creio que obtenham os esm olas – lam entou-se em voz baixa Frei Joaquín num entardecer, ao chegarem a um m iserável grupo de barracões até os quais os havia conduzido um casal de agricultores que retornavam de seu trabalho, a única com panhia que encontraram no cam inho.

– Talvez não as obtenham os pela Virgem , m as com certeza que encontraríam os alguém que pagasse para ouvir sua sorte – apostou ela.

– Sandices – soltou o frade, espantando o ar com as m ãos.

Milagros agarrou um a delas de súbito, instintivam ente, tal que tantas outras vezes havia feito em Triana diante de hom ens ou de m ulheres reticentes a soltar algum as m oedas.

– Vossa Em inência Reverendíssim a – brincou – desej a saber o que lhe deparam as linhas de sua m ão? Vej o…

Frei Joaquín tentou afastá-la, m as ela não o perm itiu, e ele acabou cedendo. Milagros se encontrou com a m ão do frade entre as suas, exam inando j á com o indicador enluvado um a das linhas de sua palm a. Ao ritm o em que deslizava o dedo, um a espécie de perturbadora com ichão assaltou seu ventre.

– Ora… – pigarreou e m exeu-se inquieta.

Tentou j ustificar seu nervosism o com as incôm odas roupas que vestia. Tirou a luva e afastou a m antilha do rosto com um tapa. Encontrou a m ão do frade ainda estendida diante dela.

Voltou a tom á-la e sentiu seu calor. Observou a pele branca, quase delicada, de um hom em que nunca havia trabalhado o ferro.

– Vej o…

Pela prim eira vez na vida, Milagros careceu do desem baraço necessário para cravar os olhos naquele a quem pretendia ler a sorte.

Aproxim avam -se do rio Múrtiga, com Encinasola a suas costas e Barrancos erguendo-se acim a de suas cabeças. Milagros arrancou a m antilha e a atirou longe; depois fez o m esm o com as luvas e levantou o rosto para o céu radioso de fins de m aio com o se pretendesse agarrar toda a luz que durante quase um m ês e m eio de cam inho lhe havia sido negada.

Frei Joaquín a contem plou em basbacado. Agora ela forçava os colchetes de seu jubón preto para que os raios de sol acariciassem a nascente de seus peitos. A longa peregrinação, extenuante em outras circunstâncias, havia conseguido em Milagros os efeitos contrários: o cansaço cham ou o esquecim ento; a constante preocupação com serem descobertos elim inou qualquer outra inquietude, e a expectativa do reencontro suavizou uns traços antes contraídos e em perm anente tensão. A cigana se soube observada. Lançou um grito espontâneo que rom peu o silêncio, sacudiu a cabeça e se voltou para o frade. “Que sucederá se não encontrarm os Melchor?”, perguntou-se então Frei Joaquín, tem eroso diante do sorriso aberto com que o prem iava Milagros. Ela lutava para desfazer o coque e liberar uns cabelos que se negavam a cair soltos. O

m ero pensam ento de não encontrar Melchor fez que Frei Joaquín deixasse a im agem da Im aculada no chão para dedicar-se a recolher a m antilha e as luvas.

– Que está fazendo agora? – queixou-se Milagros.

– Poderíam os necessitar delas – respondeu ele com a m antilha na m ão; as luvas continuavam perdidas no m eio do m atagal.

Tardou a encontrar a segunda. Quando se ergueu com ela, Milagros havia desaparecido.

Onde…? Percorreu a área com o olhar. Em vão, não a encontrou. Circundou um a extensão de altas ervas, o que lhe perm itiu chegar ao leito do Múrtiga. Respirou. Ali estava ela, arrem angada e aj oelhada, introduzindo vezes seguidas a cabeça na água, esfregando os cabelos com frenesi.

Viu-a levantar-se, m olhada, com a abundante cabeleira castanha caindo-lhe pelas costas, cintilando ao sol em contraste com sua tez escura. Frei Joaquín estrem eceu ao contem plar sua beleza.

As pessoas de Barrancos receberam sua entrada no povoado com curiosidade e receio: um frade carregando um vulto e um a bela cigana altiva, atenta a tudo. Frei Joaquín hesitou.

Milagros não: encarou o prim eiro hom em com que cruzou.

– Procuram os aquele que vende tabaco para contrabandear na Espanha – incom odou um hom em j á de m uitos anos.

Este balbuciou algum as palavras no falar local, sem conseguir afastar o olhar daquele rosto que o interrogava com o se ele fosse culpado de algum delito.

Frei Joaquín percebeu a trem enda ansiedade de Milagros e decidiu intervir.

– A paz sej a contigo – cum prim entou com tranquilidade. – Tu nos entendes?

– Eu, sim – ouviu-se atrás do prim eiro.

“É m uito perigoso”, repetiu Frei Joaquín um a dezena de vezes enquanto se aproxim avam do conj unto de edifícios que lhes haviam indicado e que com punham o estabelecim ento de Méndez.

O lugar era um ninho de contrabandistas. Milagros cam inhava resoluta, de cabeça erguida.

– Pelo m enos volta a cobrir-te o rosto – pediu-lhe ele, apertando o passo para oferecer-lhe a m antilha.

Nem sequer obteve resposta. Um sem -fim de possibilidades, todas aterradoras, girava pela cabeça do frade. Melchor podia não encontrar-se ali, podia até ser inim igo do tal Méndez.

Tem ia por ele, m as sobretudo por Milagros. Eram poucos os que perm aneciam alheios à presença da cigana; paravam , olhavam -na, alguns até a galanteavam naquele idiom a estranho dos barranquenhos.

“Em que apuros m eteste Milagros?”, lam entou-se ele j usto ao transpor os portões do estabelecim ento de Méndez. Vários m ochileiros peram bulavam no grande pátio de terra que se abria diante do quartel do contrabandista; um deles assobiou ao ver Milagros. Duas m ulheres de aspecto turvo assom adas a um a das j anelas do quarto sobre a estrebaria torceram a cara diante da chegada do frade, e um bando de crianças sem inuas que corriam entre as m ulas sonolentas am arradas a postes deixou de fazê-lo para aproxim ar-se deles.

– Quem sois? – perguntou um m enino.

– Tendes doces? – inquiriu outro.

Chegavam j á à casa principal. Nenhum dos hom ens que os contem plavam fez m enção de m over-se. Milagros ia livrar-se do assédio das crianças quando Frei Joaquín interveio de novo.

– Não – adiantou-se ao gesto brusco dela –, não tem os doces, m as tenho isto – acrescentou m ostrando-lhes um real de a dos.

As crianças se aglom eraram ao redor do frade com os olhos brilhantes à vista da m oeda de cobre.

– Vo-la darei se avisardes o senhor Méndez de que ele tem visita.

– E quem pergunta por ele?

As crianças calaram -se; alguns dos m ochileiros se ergueram , e as prostitutas da j anela se assom aram ainda m ais.

– A neta de Melchor Vega, o Galeote – respondeu então Milagros.

Méndez, o contrabandista, apareceu na porta da casa principal; exam inou a cigana de alto a baixo, pôs a cabeça de lado, voltou a perscrutá-la, deixou transcorrer alguns segundos e sorriu.

Com um resfolego, Frei Joaquín soltou o ar que havia prendido nos pulm ões.

– Milagros, não? – perguntava nesse m om ento o contrabandista. – Teu avô m e falou m uito de ti. Sê bem -vinda.

Um m enino reclam ou a atenção de Frei Joaquín puxando a m anga de seu hábito.

– Por essa m oeda eu os levo até o Galeote – propôs-lhe.

Milagros teve um sobressalto e se abalançou ao garoto.

– Ele está aqui? – gritou. – Onde? Sabes onde…? – De repente desconfiou. E se o garoto os estivesse enganando por causa de um real? Voltou-se para o contrabandista e o interrogou com uns olhos capazes de transpassar a construção inteira.

– Chegou faz duas sem anas – confirm ou Méndez.

Com o contrabandista ainda diante dela, Milagros balbuciou algo que tanto podia ser um agradecim ento com o um a despedida, pegou a extrem idade da longa saia preta deixando à m ostra suas panturrilhas e, com a peça de roupa levantada, preparou-se para seguir as crianças, que j á os esperavam entre risos e gritos j unto aos portões de entrada no estabelecim ento do contrabandista.

– Vam os! – urgiu um m enino.

– Vam os, Frei Joaquín – apressou-o a cigana, j á alguns passos afastada dele.

O religioso, sim , despediu-se.

– Não posso correr carregando a Virgem – queixou-se depois.

Mas Milagros não o ouviu. Um a m enina a segurava pela m ão e a puxava para o cam inho.

Frei Joaquín os seguiu com lentidão, exagerando o peso de um a im agem que ele havia carregado sem problem a algum por m eia Espanha. Melchor estava em Barrancos, graças a Deus.

Nunca chegara a crer seriam ente que o encontrassem . “Eu m ataria por ela. O senhor é payo… e além disso frade. A segunda coisa poderia ter conserto, a prim eira não.” A advertência que um dia lhe fizera o cigano à m argem do Guadalquivir, diante da possibilidade de um a relação com sua neta, agarrou-se-lhe ao estôm ago assim que Méndez confirm ou sua presença. O Galeote faria qualquer coisa por ela! Por acaso j á não havia m atado o pai de Milagros por consentir em seu casam ento com um García?

– Que estais fazendo?

Dois m eninos pugnavam por livrá-lo do peso da im agem da Im aculada.

– Dê-a a eles! – ordenou-lhe Milagros diante dele. – Assim não chegarem os nunca!

Não a entregou; não estava convicto de querer encontrar-se diante de Melchor Vega.

– Fora daqui. Ide em bora! – gritou para os dois garotos que, apesar de tudo, seguiam acom panhando-o e tentavam aj udá-lo a levar o vulto com um as m ãos que eram m ais um estorvo que qualquer outra coisa.

Milagros o esperou, segurando a barra da saia, im paciente. A m enina que a acom panhava ficou a seu lado, com as m ãos na cintura, im itando o gesto da cigana.

– Que lhe está acontecendo? – inquiriu estranhando a cigana.

“É que vou perder-te, é isso o que está acontecendo. Não te dás conta?”, quis dizer-lhe ele.

– Não im portam alguns m inutos depois de tudo o que percorrem os – respondeu em vez disso, com m aior brusquidão do que teria desej ado.

Ela interpretou m al sua atitude e fechou a cara. Olhou para as crianças, que seguiam correndo alegres à frente, contra o sol. Assaltaram -na as dúvidas.

– O senhor acha…? – Deixou cair os braços. Caiu a saia. – O senhor disse que m eu avô m e perdoaria.

– E o fará – assegurou Frei Joaquín para não lhe propor que fugissem j untos de novo, que regressassem aos cam inhos para percorrê-los m ostrando a im agem da Virgem .

O desânim o foi traído, no entanto, pela voz do frade. Milagros o percebeu e fez seus passos aj ustarem -se aos dele.

– Tam bém é um a García – m urm urou ela.

– Quê?

– A m enina. Minha m enina. María. Tam bém é um a García. O ódio do avô por eles é superior… a tudo! Inclusive ao carinho que pôde ter-m e um dia – acrescentou com um fiapo de voz.

Frei Joaquín suspirou, consciente das contradições que açoitavam sua própria alm a. Ela estava contente, cheia de expectativas, enquanto ele desabava aterrorizado diante da ideia de perdê-la, m as se a visse sofrer, então… então desej ava aj udá-la, dar-lhe ânim o para que fosse ter com seu avô.

– Já se passou m uito tem po – disse sem convicção.

– E se não m e perdoar o fato de ter-m e casado com Pedro García? Meu avô…

– Ele te perdoará.

– Minha m ãe m e repudiou por fazê-lo. Minha m ãe!

Chegaram ao pé de um cerro, fora do povoado. O m ais velho dos m eninos os esperava ali, enquanto as dem ais crianças j á corriam trilha acim a.

Um a solitária casinha no alto do cerro, aos quatro ventos, dom inava as terras; nessa direção apontavam várias crianças.

– É ali? – inquiriu Frei Joaquín, aproveitando essa pausa para depositar a im agem no chão.

– É, sim .

– Que faz Melchor ali em cim a, sozinho? – perguntou-se, estranhando-o.

– Não está sozinho – saltou o garoto. – Mora com a negra.

Milagros quis dizer algo, m as não lhe surgiram as palavras. Trem eu e procurou apoio no frade.

– Caridad – sussurrou este.

– Sim – afirm ou o m enino –, Caridad. Eles estão sem pre aí. Não os estão vendo?

Frei Joaquín aguçou a vista até vislum brar duas figuras sentadas diante da casa, à beira de um barranco.

Milagros, com os olhos úm idos e os sentidos extraviados, não conseguiu ver nada.

– Desde que chegaram – continuou explicando o rapazinho – só saíram duas noites para contrabandear. Nas duas vezes voltaram com doces! Caridad gosta m uito de doces… e os dividiu conosco. E para Gregoria, a m enina… – o garoto esquadrinhou a trilha de subida –, aquela, não a veem ?, a prim eira, a pequeninha que m ais corre, pois então para Gregoria eles trouxeram um par de abarcas porque não estava podendo andar, estava com um as feridas enorm es na sola dos pés. Vej am com o corre agora! – Frei Joaquín contem plou a pequena Gregoria saltando. – Mas o resto do tem po eles ficam ali sentados, abraçados, fum ando e olhando os cam pos. Muitas vezes subim os às escondidas, m as sem pre term inam por flagrar-nos. Gregoria não consegue ficar quieta!

– Abraçados?

A pergunta surgiu da boca de Milagros, que tentava enxugar os olhos para focá-los no alto do cerro.

– Abraçados, sim . Sem pre! Encostam -se m uito um no outro, e então o Galeote diz a Caridad:

“Canta, negra!”

Canta, negra! Milagros com eçava a vislum brar o cum e. Cachita! Aquela am iga em quem ela batera, a quem ela insultara, a quem dissera que não queria voltar a vê-la por toda a vida.

– Gregoria j á chegou lá em cim a! – exclam ou o m enino. – Vam os!

Tanto Frei Joaquín com o Milagros se ergueram . As duas figuras que perm aneciam sentadas se puseram de pé à chegada da pequena. Gregoria apontava para o sopé do cerro. Milagros sentiu o olhar de Melchor sobre si, com o se, apesar da distância, ela se achasse tão som ente a um passo dele.

– Vam os! – insistiu o garoto.

Frei Joaquín se abaixou para pegar a im agem da Virgem .

– Não posso – gem eu então a cigana.

Caridad segurou a m ão de Melchor e apertou em busca do tato daquela palm a dura e áspera, curtida por dez anos aos rem os de um a galé e que tanto a tranquilizava. Eram as m esm as palm as que haviam percorrido um a infinidade de vezes seu corpo desde que Melchor aparecera em Torrej ón; as m esm as que ela havia banhado de lágrim as enquanto as beij ava; as que ele havia levado a suas faces à espera de um a resposta quando só alguns dias depois don Valerio lhe proibira que convivesse em pecado m ortal com um cigano. “Aquilo dos trapeiros não funcionará”, advertiu-a Melchor, “vão pegar-nos; term inarão por prender-nos. Vam os em bora para longe daqui. Para Barrancos.” O sorriso com que Caridad concordara selara o com prom isso entre aquele cigano de brilho no olhar e rosto sulcado de rugas e a antiga escrava negra.

Barrancos, onde havia nascido seu am or, onde se sentira m ulher pela prim eira vez, onde a j ustiça não chegava. Pagaram bem , viaj aram rápido num a diligência com destino a Estrem adura, com a urgência de deixar para trás tem pos e lugares que só os haviam m altratado.

Melchor, parado, expectante, com o olhar e os dem ais sentidos postos no sopé do cerro, respondeu e apertou-lhe a m ão por sua vez. Nesta ocasião o contato do cigano não a tranquilizou: Caridad se soube partícipe do torvelinho de inquietudes que assolavam o cigano, porque ela tam bém as sofria. Milagros! Depois de tantos anos… Sem soltar a m ão, desviou o olhar daquela figura vestida de preto para o universo que se abria a seus pés: cam pos, rios, veigas, terras incultas e bosques; todos, e cada um deles, haviam absorvido suas canções quando os dois sentados, o olhar no horizonte, naquela nova vida que a fortuna os brindava, com prazia a Melchor e erguia a voz, um a voz que am iúde ela deixava suspensa no ar para perseguir sua reverberação pelas sendas que haviam percorrido j untos, carregados de tabaco e de um am or que acelerava seus passos, seus m ovim entos, seus sorrisos. Haviam voltado a sair de noite com as m ochilas cheias de tabaco. Não necessitavam do dinheiro; tinham m ais que o suficiente. Só pretendiam voltar a pisar aqueles cam inhos, cruzar o rio de novo, correr a esconder-se ao rangido de um ram o, dorm ir ao relento… fazer o am or sob as estrelas. Viviam fundidos um no outro sem m ais que fazer que se olhar enquanto fum avam . Noites de carícias, de sorrisos, de conversas e de longos silêncios. Consolavam -se das m ás recordações, prom etiam -se com um sim ples roçar que j am ais nada nem ninguém voltariam a separá-los.

– Por que ela não sobe? – ouviu da boca do cigano.

Caridad sentiu um calafrio: a brisa que vinha dos cam pos golpeava seu rosto e a advertia de que a chegada de Milagros transtornaria sua felicidade. Desej ou que não o fizesse, que retrocedesse… Voltou a fixar o olhar no sopé do cerro j usto quando a cigana iniciava a subida.

Melchor apertou com m aior força sua m ão e se m anteve assim enquanto os outros se aproxim avam .

– Frei Joaquín? – disse em tom de estranheza o cigano. – É Frei Joaquín?

Caridad não respondeu, em bora tam bém tivesse reconhecido o frade. Até as crianças se calaram e se puseram a um lado, sérias, graves, diante da chegada de Milagros. Os soluços contidos da cigana abafaram qualquer outro som . Caridad sentiu o trem or na m ão de Melchor, em todo ele. Milagros parou a alguns passos de distância, com Frei Joaquín atrás dela, e levantou o olhar para seu avô; depois o pousou em Caridad e de novo o levou para Melchor. A situação se prolongou. Caridad deixou de sentir os trem ores do Galeote. Era ela agora quem trem ia diante das lágrim as da cigana, diante da tem pestade de recordações que chegaram em tropel à sua m ente. Ouviu aquelas prim eiras palavras de um a j ovem cigana, ela prostrada no patiozinho de ventilação do cortiço do Beco de San Miguel depois de Melchor a encontrar febril debaixo de um a laranj eira; a ponte de barcos e a igrej a dos Negritos; a ciganaria do Horto da Cartuxa; os charutos e seu vestido verm elho; a velha María; a detenção; a fuga pelo Andévalo…

Desprezou seus m edos e soltou a m ão de Melchor. Adiantou-se um passo, curto, indeciso. Os olhos de Milagros suplicaram o seguinte, e Caridad correu para lançar-se em seus braços.

– Vai até ele – disse-lhe depois do prim eiro abraço.

Milagros desviou o olhar para Melchor, hierático no alto.

– Ele te am a – acrescentou Caridad diante da hesitação que percebeu na j ovem –, m as, por m ais que o esconda ou o negue, sei que tem e que não lhe tenhas perdoado aquilo… aquilo com teu pai. Esquecei o que sucedeu – insistiu em purrando-a com suavidade pelas costas.

Milagros deixou para trás Caridad e Frei Joaquín. Suas próprias lágrim as a im pediram de aperceber-se dos olhos úm idos de Melchor. Quantas vezes tentara convencer-se de que aquilo que acontecera com seu pai havia sido fruto de um arrebatam ento? Queria perdoar-lhe, m as não podia estar certa de que ele houvesse esquecido o que considerara a traição m áxim a do sangue Vega: seu casam ento com Pedro, m ais um elo na cadeia de ódios que opunham as duas fam ílias.

Com o ia Melchor esquecer os Garcías? Fazia só alguns anos que os Garcías haviam tentado m atá-lo…

– Maldita sej a a Virgem do Bom Ar!

A cigana se deteve diante da im precação de seu avô. Olhou horrorizada para Melchor e depois olhou para trás e para os lados. Que pretendia…?

– Que fazes fantasiada de corvo?

Ela olhou para as roupas negras com o se fosse a prim eira vez que as visse. Ao levantar o olhar, deparou com o sorriso de Melchor.

22 Santero: aqui, pessoa que pede esm olas carregando um a im agem de santo. [N. do T.]