A Rainha Descalça
Cápitulo 42
Com o vinha sucedendo-lhe ao longo daquele dia, Melchor esqueceu, um a vez m ais, suas próprias preocupações e prendeu a respiração tal com o fez a m aioria dos m ilhares de pessoas que assistiam à tourada, com o fez Martín, tenso, em pé j unto a ele, ao ver com o o cavalo de Zoilo, seu irm ão m ais velho, era volteado no ar por um touro que, depois de cravar os chifres na barriga do anim al, o ergueu acim a de sua rij a fronte com o se se tratasse de um a m arionete. O cavalo ficou estendido na praça, m ovendo agonizantem ente as patas num a im ensa poça de sangue, tal com o perm aneciam outros dois a que j á causara a m orte aquele décim o nono touro do dia, e o picador, que saíra voando de sua m ontaria, converteu-se em alguns segundos no novo obj etivo de um anim al em bravecido, agressivo, encolerizado. Zoilo tentou levantar-se, caiu, e engatinhou apressadam ente até alcançar a longa vara de deter que ele havia perdido. Os vivas explodiram de novo no redondel quando, de pé, o cigano enfrentou o touro no m om ento em que este investia contra ele. Conseguiu cravar a vara num de seus flancos. Insuficiente para detê-lo, bastante para esquivá-lo. Contudo, o anim al se refez, e se preparava para chifrar Zoilo, j á indefeso, quando
dois toureiros a pé entraram na arena para o quite e com as muletas[ 19 ] desviaram sua atenção, conseguindo que se encarniçasse contra um a das capas e se esquecesse do cigano.
Martín respirou, j á tranquilo. Melchor tam bém , e m isturados am bos com o público m adrilense daquele dia de prim avera de 1754, aplaudiram e deram vivas a Zoilo, que saudava vitorioso a m ultidão antes de m ontar outro cavalo que seu pai, o Cascabelero, se apressara a introduzir na praça. Melchor bateu nas costas de Martín.
– É um Vega – disse-lhe.
O j ovem anuiu e sorriu, não sem certo ar de cansaço. Com eçava a escurecer, e eles tinham passado o dia todo assistindo à tourada. Dezenove touros que, com exceção de um , haviam sido picados seis, sete e até dez vezes. Onze cavalos haviam m orrido nesse dia j unto com alguns cães dos vários que lançaram contra aquele que, por m anso, foi condenado a m orrer a dentadas.
As pessoas sim ples de Madri estavam em festa: com aquela tourada se inaugurava a praça fixa, m odernam ente construída, que substituía a velha de m adeira. Fosse na arquibancada, fosse no lado de fora da praça de touros, no cam po que se abria j unto à porta de Alcalá, nesse dia foi m arcado encontro dos manolos e chisperos da Vila e Corte, eles e elas, alegres todos, galantem ente vestidos. Os Bourbons franceses não gostavam do sangrento espetáculo, tão distante da elegância e do preciosism o da corte versalhesa. Felipe V o proibira durante cerca de vinte e cinco anos, m as seu sucessor, Fernando VI, voltou a perm itir tal entretenim ento a seus súditos, talvez com o obj etivo de distraí-los, com o sucedia com o teatro; talvez pela renda para a beneficência que se obtinha com as touradas, ou talvez por am bas as razões ao m esm o tem po.
No entanto, num a época em que im peravam a razão e a civilidade, a grande m aioria dos nobres, dos hom ens de influência e dos intelectuais se opunha às touradas e clam ava por sua proibição.
No ano de 1754, quando Martín e Melchor assistiram à tourada, j á não havia nobres altivos que enfrentassem o touro num a questão de honra e prestígio, com criados atentos a atendê-los a todo m om ento. O povo havia feito a sua festa, os cavaleiros foram substituídos por picadores que só pretendiam deter vezes seguidas a investida do anim al, em lugar de m atá-lo, com o faziam os
nobres, e os m oços e criados se viram convertidos em toureiros a pé que alanceavam , lidiavam [
20 ] e term inavam com a vida do anim al a golpes de espada.
Superada a situação que havia posto em risco a vida de Zoilo, Melchor tornou a ensim esm ar-se em suas preocupações. Estava havia m ais de três anos contrabandeando em Barrancos, onde se reencontrara com um Martín que em poucos m eses havia conseguido fazer-se útil para Méndez, tal com o lhe aconselhara o Galeote quando o j ovem tivera de fugir de Madri. Com Martín trabalhou ao longo da fronteira de Portugal, em Gibraltar e onde quer que houvesse a m enor possibilidade de conseguir algum dinheiro. O tabaco era a m ercadoria por excelência, m as a necessidade de obter ganhos os levou a dedicar-se a todos os tipos de produtos, desde pedraria, tecidos, ferram entas e vinhos que de m ão em m ão introduziam na Espanha, até porcos e cavalos que eles furtavam e com os quais faziam a viagem de volta a Portugal. Jam ais em sua vida Melchor chegara a trabalhar com tanto afinco; nunca, apesar do dinheiro que tintinava em sua bolsa, havia levado um a vida tão austera com o a que decidira suportar para obter a liberdade de sua filha. Martín apoiou a obstinação de Melchor com o o haveria feito um neto, e fez seus os ódios e as esperanças do cigano, em bora seguisse tendo dúvida quanto a com o poderia Ana aj eitar a situação de Milagros e do García. Um a só vez se atreveu a insinuá-lo a Melchor.
– Porque é sua m ãe! – resm ungou o outro, cortando a discussão.
A m esm a obstinação que havia m ostrado poucos m eses depois de sua chegada a Barrancos, quando num a saída pela serra de Aracena eles toparam com um grupo de ciganos que falava dos de Triana. Melchor escondeu sua identidade e se apresentou com o natural de Truj illo, m as, à m edida que transcorria a conversa, Martín percebeu a dúvida no sem blante do Galeote: queria saber, m as não se atrevia a perguntar.
– Milagros Carm ona? – respondeu um deles ao rapaz. – Sim . Com o não ia conhecê-la? Todo m undo a conhece em Sevilha. Canta e dança com o um a deusa, em bora agora tenha acabado de parir um a m enina e j á não…
Um a filha! Sangue Vega, o m esm o sangue de Melchor Vega, unido ao dos Garcías. Isso era a últim a coisa que Melchor desej ava ouvir. Nunca m ais perguntaram .
No rigor dos cam inhos e das serras, Martín foi convertendo-se num hom em forte e bem -apessoado, cigano onde os houvesse; um Vega que bebia do espírito do Galeote e que escutava com respeito, fascinado, tudo quanto o outro lhe contava e ensinava. Só um a reserva parecia interpor-se à confiança e fraternidade com que percorriam perm anentem ente escondidos aquelas terras inóspitas: aquela que am iúde turbava os sonhos de Melchor. “Canta, negra”, ouvia-o sussurrar o j ovem de noite enquanto se revirava inquieto, deitados am bos sobre um as sim ples m antas dispostas na terra, a céu aberto. A negra que ele havia ido buscar na pousada secreta, dizia-se Martín, a que haviam condenado em Triana, aquela de que ele lhe havia pedido que não falasse. Não perguntou. Talvez algum dia ele lhe contasse.
Cada ano eles haviam regressado furtivam ente a Madri com o dinheiro ganho. Melchor corria para entregá-lo ao escrivão enquanto Martín esperava seu retorno nas cercanias de Madri: não desej ava correr o risco de topar com algum de seus fam iliares ou com outros ciganos que pudessem reconhecê-lo. Discutira com seu pai e com seus dem ais parentes quando lhes falara da libertação de Melchor. Apesar das advertências que o Galeote lhe havia feito no m om ento de sua despedida, o rapaz não conseguira evitar espraiar-se sobre sua façanha, com vaidade j uvenil, orgulhoso, diante de um a audiência cuj o sem blante fora m udando da surpresa para a indignação.
“Todos saberão que foste tu!”, exclam ara sua irm ã. “Eu te disse que as dem ais fam ílias haviam decidido não intervir!”, acrescentara seu pai. “Tu nos trouxeste a ruína”, apostilou Zoilo.
Gritaram . Insultaram -no, e term inaram por repudiá-lo. “Vai-te em bora desta casa!”, ordenou-lhe o Cascabelero, “talvez assim consigam os desculpar-nos.”
– Levam anos para conceder indultos! – tentou tranquilizá-lo Martín, ao reunir-se para além do rio Manzanares com um Melchor desesperançado após sua segunda reunião com o escrivão. –
Sabe-se de pessoas que passam anos suplicando: indultos, trabalhos, m ercês… Todo um exército de postulantes se m ove por Madri, m as o rei é lento. São m uitos os ciganos que rogam por seus fam iliares. Não se preocupe, tio, nós o conseguirem os.
Melchor conhecia a apatia da adm inistração real. Por m ais de um ano e m eio ele havia perm anecido no cárcere até que decidissem a que galé levá-lo e chegassem os docum entos para seu translado. Tam bém sabia que as solicitações de graça se perpetuavam até que, transcorridos os anos, se resolviam em um sentido ou outro. Não. Não era isso o que o preocupava, m as sim a possibilidade de que o escrivão estivesse enganando-o. A dúvida e o receio o corroíam cada dia que renunciava a um mesón ou a um a boa cam a: o escrivão ficava com aquele dinheiro que tanto lhe custava poupar?
Mas nunca teria podido im aginar que as coisas fossem term inar com o term inaram . Havia sonhado com as palavras: “Tua filha está livre” – em bora talvez algum dia o escrivão lhe m ostrasse um papel que ele não poderia ler onde se dissesse que o rei não concedia o indulto. Às vezes se via esfaqueando-o, arrancando-lhe os olhos, um a vez posta a nu sua perfídia. Mas a notícia da m orte do escrivão o encheu de desconcerto. Morto. Sim plesm ente m orto. Jam ais havia chegado a considerar essa possibilidade. “Um as febres, se bem entendi”, havia dito a m ulher que ocupava agora o que havia sido seu tabelionato. “Que sei eu dos papéis ou do oficial que trabalhava com ele? Quando m e alugaram a casa, ela j á estava vazia.” Melchor gaguej ou.
“Tratante?”, estranhou a outra. “Que tratante?” Ali não havia ninguém . Seu esposo era confeiteiro. Melchor insistiu até pecar por ingenuidade:
– E agora o que faço?
A m ulher o olhou com incredulidade, depois deu de om bros e fechou a porta.
O cigano perguntou a vizinhos do im óvel. Ninguém lhe deu nenhum a pista.
– Era um hom em nada transparente – tentou espraiar-se um a velha. – Pouco claro. Não era de confiar. Em um a ocasião eu m esm a…
Melchor a deixou com a palavra na boca. A prim eira coisa que fez foi dirigir-se a um mesón e pedir vinho. Tal com o quando dera fim à busca de Caridad, lam entou-se com o copo nas m ãos. Madri não lhe trazia sorte. Então j á fazia m ais de três anos, havia fugido em busca de dinheiro, e agora?
– Gostarias de ir à tourada? – havia perguntado a Martín, para sua surpresa, quando se inteirou de que no dia seguinte se realizaria um a na praça nova. – Talvez teu irm ão atue.
O j ovem pensou no assunto. Quanto tem po fazia que não via nenhum dos seus? Na praça estaria m isturado à m ultidão; não o reconheceriam , de m odo que aceitou o convite. Retornaram com o pôr do sol a suas costas. Melchor tentou pôr o braço nos om bros de Martín, m as este j á o superava em altura. Contem plou o j ovem : forte, rij o… Talvez j á fosse o único apoio que lhe restava.
Nem sequer procuraram lugar onde hospedar-se. Estenderam um j antar de fatias de pão, torradas m olhadas em água, fritadas em banha de porco e polvilhadas de açúcar e canela; frango
guisado em m olho feito com seus próprios m iúdos am assados; mantecados [ 21 ] e rosquilhas de sobrem esa, vinho aos m ontes, e, saciados, dorm iram ao relento as poucas horas que restavam da noite.
Term inou a tourada, e as pessoas se lançaram à diversão no cam po que rodeava a praça de touros. Aos m ilhares, vestidos à espanhola, cantaram e dançaram com o espanhóis, gritaram e riram , apostaram e brincaram ; beberam e brigaram , uns a pauladas, outros a pedradas. Na confusão e na balbúrdia, Melchor continuou gastando seu dinheiro. “Não há nada que fazer”, havia com entado com Martín durante a tourada. Depois o explicou. Não. Não conhecia o tratante, respondeu ao rapaz. Nunca havia sabido quem era… se é que existia.
– E se nos reconhecerem ? – inquiriu Martín enquanto Melchor alardeava seu dinheiro e pedia m ais vinho. – Pode ser que estej am andando por aqui… os Garcías.
Melchor se virou lentam ente e respondeu com um a calm a que pareceu calar a gritaria.
– Rapaz: j á estou há tem po suficiente contigo e te asseguro que nessa ocasião não teria de ir em tua aj uda. Que venham todos os Garcías de Madri e de Triana j untos. Tu e eu darem os conta deles.
Martín sentiu um calafrio. Melchor anuiu após suas palavras. Depois se virou e exigiu seu vinho aos gritos.
– E tabaco! – exigiu tam bém . – Tens bom tabaco?
O hom em , atrás do balcão em que vendia, m eneou a cabeça ao m esm o tem po que rebuscava sob o m esm o balcão.
– Só tenho isto. – Mostrou alguns cigarros de papel na palm a da m ão.
Melchor soltou um a gargalhada.
– Eu te pedi tabaco, o que é isso?
O outro replicou com um gesto de indiferença.
– Cigarros – respondeu.
– Agora os vendem j á liados?
– Sim . A m aioria da gente não tem dinheiro para com prar um pedaço de corda do Brasil e raspá-la cada vez que quer fazer um cigarro. Assim , j á preparados, com pram só o que querem fum ar.
– Mas então não podem verificar o tabaco que fum am – reparou Melchor.
– Sim , assim é – conveio o outro. – Mas são de boa qualidade. Dizem que são feitos por um a negra cubana que entende de tabaco.
Um trem or sacudiu o cigano.
– São cham ados “os cigarros da negra”.
A m úsica cessou nos ouvidos de Melchor, e as pessoas pareceram desvanecer-se. Ele pressentia… Pegou com extrem a delicadeza um dos cigarros e o cheirou.
– Negra – sussurrou.
19 Muleta: vara ao longo da qual pende um pano ou capa, com um ente verm elha, de que se serve o toureiro para enganar ou distrair o touro. [N. do T.]
20 Lidiar: aqui, lutar com o touro incitando-o e esquivando-se de suas investidas até m atá-lo. [N. do T.]
21 Mantecado: doce feito com banha de porco. [N. do T.]