A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 16 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 16

Málaga era um a povoação de pouco m ais de trinta m il habitantes que fazia parte do reino de Granada e que havia sido fundada às m argens do Mediterrâneo pelos fenícios no século VIII antes de Cristo. Após a passagem de cartagineses, rom anos, visigodos e m uçulm anos, a Málaga do século XVIII, ocupada em derrubar os lenços de suas m agníficas m uralhas nasridas, apresentava um a tram a urbana em form a de cruz, com a Praça May or no centro e suas grandes e num erosas construções religiosas.

No entanto, a antiga cidade fenícia não estava preparada para acolher as ciganas detidas. A batida se havia produzido no final de j ulho, m as o segredo com que se havia levado a efeito im plicou que a ordem pela qual se escolhia essa cidade com o depósito das ciganas e seus filhos só tivesse chegado a suas autoridades em 7 de agosto, sem tem po para preparativo algum . E, para desespero do cabido m unicipal, caravanas de carros carregados de m ulheres estavam chegando à capital provenientes de Ronda, Antequera, Écij a, El Puerto de Santa María, Granada, Sevilha…

A Alcazava, o castelo escolhido pelo m arquês de la Ensenada com o prisão, era perigosa por achar-se instalado ali o paiol do exército, algo que o nobre não havia levado em conta. Assim , as prim eiras m ulheres foram encerradas no cárcere real, m as a constante afluência delas fez que logo estivesse repleto. Então o cabido requisitou algum as casas na rua Ancha de la Merced, que tam bém foram insuficientes. E, se as previsões de espaço haviam falhado, m ais ainda o fizeram as destinadas à m anutenção daquele ingente núm ero de pessoas. O cabido m unicipal enviou um a petição ao m arquês para que parasse a rem essa de ciganas ao m esm o tem po que lhe solicitava os fundos necessários para atender às que j á haviam chegado. O nobre determ inou que as novas partidas de ciganas fossem desviadas para Sevilha: “Em direitura e com segurança”, ordenou.

Ao final, no arrabalde da cidade, extram uros, as autoridades requisitaram as casas da rua del Arrebolado e fecharam suas saídas, form ando com isso um grande cárcere em que vieram a am ontoar-se, esfarrapadas, fam intas e enferm as, m ais de m il ciganas com seus filhos com m enos de sete anos. Ana Vega, no entanto, foi encerrada no cárcere real à espera de j ulgam ento com o instigadora da revolta no cam inho para a cidade.

E, se a situação em Málaga era desesperadora, outro tanto sucedia com o arsenal de La Carraca.

José Carm ona, j unto com seiscentos ciganos – quinhentos hom ens e cem crianças – de diversas procedências, chegou a Cádiz no final de agosto. Mas, à diferença de Málaga, onde o cabido m unicipal tinha possibilidade de requisitar casas para instalar as im previstas recém -chegadas, o arsenal de La Carraca não era m ais que um estaleiro m ilitar cercado e constantem ente vigiado para im pedir a fuga dos penados e dos escravos que cum priam trabalhos forçados. Com o sucedia em Cartagena, em La Carraca não cabiam os ciganos; no entanto, se no arsenal m urciano foi possível instalá-las em velhas, inúteis e insalubres galés varadas, no gaditano foram agrupadas em pátios e todo tipo de dependências. De pouco adiantaram os m em oriais enviados ao conselho pelo responsável pelo arsenal enfatizando a insuficiência das instalações e o risco de m otins, que se sucederiam diante da chegada daquele contingente de hom ens desesperados.

Na época da razão e da civilidade, a resposta das autoridades foi taxativa: ali onde haviam cabido tantos penados, bem se poderia aloj ar-se os ciganos. Ordenou-se ao responsável que despedisse os trabalhadores contratados e os substituísse por aquela m assa hum ana nociva e ociosa; dessa form a se obteriam os resultados perseguidos pela m onarquia bourbônica, cuj os ideais distavam m uito da piedosa resignação diante da pobreza, com a esm ola com o única solução, que até então a sociedade havia aceitado. O trabalho honrava. Em tem pos em que se estava superando o ancestral conceito de honra que havia im pedido aos espanhóis dedicar-se a trabalhos m ecânicos e portanto vis, ninguém podia ficar ocioso, e m enos ainda os ciganos, os quais deviam ser úteis à nação, assim com o os vadios e folgazães que eram detidos por todo o reino e destinados a trabalhos forçados.

Muito a contragosto, o responsável por La Carraca obedeceu: aum entou as tropas de vigilância, instalou cepos e forcas no arsenal com o elem ento de dissuasão para os ciganos, despediu os trabalhadores livres contratados e se em penhou em substituí-los pelos recém -chegados. Não obstante, atem orizado diante da possibilidade de rebeliões, negou-se a tirar-lhes as correntes.

As m edidas não produziram resultado algum . O arsenal de La Carraca, o m ais antigo dos estaleiros espanhóis, ficava nos estreitos canais navegáveis que se adentravam em terra a partir da baía de Cádiz; era um terreno pantanoso, produto da sedim entação ao redor de um a velha carraca afundada na área. O próprio m arquês de la Ensenada havia decidido am pliar aqueles estaleiros com a incorporação da ilha de León, tam bém sobre leito de lodo.

José Carm ona, com o os dem ais ciganos, foi forçado a trabalhar afundado em lam a até o quadril para preparar as fundações dos diques e aj udar as grandes m áquinas a fincar os longos e fortes m adeiros de carvalho naquele fundo instável. Acorrentados, os ciganos tentavam com grande esforço m over-se no lodaçal, m as as correntes tornavam ainda m ais difícil o que j á por si parecia im possível. Tratava-se de extrair a m áxim a quantidade de lodo do local previam ente delim itado por estacas, para fincá-las e aj ustar sobre elas um a estrutura de m adeiras que constituiria a base da construção. Sob os gritos e golpes dos capatazes, com a lam a na altura do estôm ago, José, com o m uitos outros, esforçava-se denodadam ente para deslocar-se com um a cesta repleta de barro. Poderiam haver sim ulado aquele esforço e rem anchar no m eio do lodo, m as todos queriam afastar-se da perigosa m aça da m áquina que vezes seguidas era erguida para cair pesadam ente sobre a cabeça da estaca. Já haviam presenciado um acidente: o chão instável havia feito que a estaca se entortasse ao receber o im pacto da grande m aça de ferro, e dois operários que estavam j unto dela haviam ficado gravem ente feridos.

Em outras ocasiões, José foi em pregado nas gruas destinadas ao em barque ou desem barque da artilharia pesada das naus. Quatro hom ens se ocupavam de fazer girar a roda com alavancas que puxava a corda que percorria o braço de m adeira da grua. Podiam pesar até cinco m il e novecentas libras os canhões do calibre vinte e quatro! Os guardas o açoitavam à m enor indecisão, enquanto o canhão era trasladado no ar da em barcação para o cais.

E, quando não trabalhava no lodo ou com as gruas, tinha de fazê-lo nas bom bas de achique ou nas enxárcias das em barcações, sem pre acorrentado – o responsável pelo arsenal m antinha agrilhoados até os ciganos que se internavam na enferm aria –, para depois passar as noites deitado ao relento, buscando abrigo entre as arm ações apodrecidas que se am ontoavam diante de um dos arm azéns do arsenal. Ali José caía esgotado, m as lhe custava pegar no sono, com o à m aioria dos que o acom panhavam nas arm ações. Na esplanada que se abria diante do arm azém , vários cepos aprisionavam os corpos de alguns ciganos que se haviam am otinado. E com o iam poder descansar com irm ãos de raça obrigados a olhá-los com a cabeça presa no cepo?

– Quase todos são da ciganaria – ouviu José um a noite um dos ferreiros do Beco de San Miguel acusar –, eles e sua rebeldia são a causa de todos estarm os aqui.

A censura não conseguiu adesões.

– Gostaria de ter sua valentia – lam entou-se outro após alguns instantes de silêncio em que m uitos deles trocaram olhares com os castigados.

Valentia? José reprim iu um a réplica. É claro que haviam sido eles! E aqueles outros que vagavam pelos cam inhos e que se haviam livrado da detenção. Os Vegas. Haviam sido pessoas com o os Vegas, Melchor, e até Ana, os responsáveis por seus tornozelos estarem agora m esm o sangrando sob os grilhões. José Carm ona tentou aj eitar os ferros para que roçassem o m enos possível suas pernas feridas. “Malditos todos eles!”, cuspiu ante um a pontada de dor.

O responsável pelo arsenal não cedeu na questão das correntes, m as, para seu desespero, os ciganos não se rendiam , nem hom ens nem crianças, porque, tendo-se destinado os pequenos a aprender os ofícios próprios do conserto das em barcações, carpinteiros e calafates se negaram rotundam ente a adm itir em suas confrarias crianças ciganas.

Enquanto isso, os m otins e as revoltas se sucediam no arsenal. Todas foram reprim idas com crueldade. Nenhum a tentativa de fuga prosperou, e os ciganos continuaram a ser forçados ao trabalho, m ais até que os escravos m ouros com que com partilhavam cárcere, m as não sacrifício, porque os escravos com unicavam a Argel as condições de trabalho a que os subm etiam os espanhóis e as autoridades berberes agiam com reciprocidade: tão m al com o eram tratados os m ouros nos arsenais, eram -no os espanhóis cativos na Berbéria. E a diplom acia bourbônica se em penhava em encontrar esse ponto interm ediário que pudesse satisfazer os interesses de am bas as partes.

À diferença dos escravos m ouros, os ciganos não tinham a quem recorrer. Só sua solidariedade os defendia. Esfarrapados, quase nus, fam intos e acorrentados, feridos, doentes m uitos, superaram o prim eiro im pacto da detenção até que renasceu seu caráter altivo e orgulhoso: eles não trabalhavam para o rei nem para os payos, e não havia látego no m undo que pudesse obrigá-los a nada.