A Rainha Descalça
Cápitulo 20
– És um a Vega – sussurrou o Conde para não acordar os outros da fam ília que dorm iam com eles. Rafael García e sua esposa perm aneciam com os olhos abertos na escuridão, deitados e com pletam ente vestidos sobre um m onte de palha e ram os secos que fazia as vezes de colchão.
Rey es se encolheu sob um a m anta gasta. Era velha e sentia frio. As fráguas sem pre haviam m antido aquecidos os andares superiores, m as Rafael ainda não havia chegado a um acordo definitivo com os ferreiros payos e eles seguiam trabalhando com forj as portáteis e buracos no chão.
– Poderíam os ganhar m uito dinheiro – insistiu a Trianeira.
– É a neta do Galeote! – voltou a opor-se Rafael, que desta vez ergueu a voz.
Barulhos de corpos rem exendo-se e um a que outra palavra ininteligível expressa no m eio do sono responderam a seu grito. Rey es esperou até que o rum or das respirações se aquietasse.
– Faz m eses que não se sabe nada de Melchor. O Galeote deve estar m orto, alguém haverá dado cabo dele…
– Filho da puta – interrom peu-a seu esposo, de novo com um sussurro. – Deveria tê-lo feito eu m esm o há m uito tem po. Ainda assim , a m oça continua sendo sua neta, um a Vega.
– A m oça é um a m ina de ouro, Rafael. – Rey es deixou transcorrer alguns instantes e resfolegou para o teto descascado da habitação; suas palavras seguintes lhe im plicavam um trem endo esforço: – É a m elhor cantora que j á ouvi – conseguiu reconhecer.
O sucesso de Milagros havia corrido de boca em boca, e, com o m uitos outros ciganos, Rey es, m ovida pela curiosidade, havia ido escutá-la na pousada. Fê-lo da m esm a porta, oculta atrás do cada noite m ais num eroso público. E, apesar de não a ver, escutou-a. Por Deus, se a escutou!
– Certo, canta bem , e daí? – inquiriu o Conde com o se quisesse dar a conversa por term inada. – Continua sendo um a Vega e nos odeia tanto com o seu avô e sua m ãe. Assim , que fique m uda!
– Casem o-la com Pedro – insistiu ela, reiterando a proposta que havia originado a discussão.
– Estás louca – repetiu por sua vez Rafael.
– Não. Essa garota está apaixonada por nosso Pedro. Sem pre esteve. Eu a vi espiá-lo e ir atrás dele. Derrete-se quando o tem pela frente. Dê-m e atenção. Sei do que falo. O que ignoro é se Pedro estaria disposto a…
– Pedro fará o que lhe disserm os!
Depois daquela exibição de autoridade, o Conde perm aneceu em silêncio. Rey es sorriu de novo para o teto descascado. Com o era fácil dirigir um hom em por m ais poderoso que fosse…
Bastava aguilhoar seu orgulho.
– Se se casar com Pedro, terá de obedecer-te a ti – disse Rey es então.
Rafael o sabia, m as gostou de ouvi-lo: ele m andando num a Vega!
No entanto, Rey es havia percebido um a m udança de atitude, longe da ira que lhe enchia a boca assim que m encionava os Vegas. Rafael j á acariciava o dinheiro. “E com o o aj eitaríam os?”, podia perguntar agora. Ou talvez: “María, a curandeira, essa se oporá.” “Irá ao conselho de anciãos se necessário.” Qualquer dessas questões podia ser a seguinte.
A velha. Sucedeu ser a velha.
– Um a velha carrancuda? – lim itou-se a dizer Rey es. – Na verdade, a m enina é um a Carm ona.
Sem seus pais presentes, será Inocencio, com o patriarca dos Carm onas, quem decidirá. Não se atreveria se estivessem aqui o Galeote ou a m ãe, m as sem eles…
– E a negra? – surpreendeu-a perguntando o Conde. – Está sem pre acom panhada dessa negra.
Rey es conteve um a gargalhada.
– Não é m ais que um a escrava estúpida. Dá-lhe um charuto e ela fará o que quiseres.
– Ainda assim , não m e cheira bem essa negra – grunhiu seu esposo.
Um a tarde, no beco, Pedro García saiu da ferraria de sua fam ília à passagem de Milagros e lhe sorriu. Muitos eram os que lhe sorriam ou buscavam conversa com ela desde que cantava na pousada, m as Pedro não. Tam bém suas am igas haviam ido até ela para tentar baj ulá-la com m im os e fazer parte do grupo. “Algum a delas fez algo por ti quando o conselho te proibiu de viver no beco?”, cortou o assunto a velha María.
Naquela tarde, diante de um encontro que a velha adivinhou forçado, franziu o cenho com o havia feito ao ouvir a ideia de Milagros de am pliar as danças da pousada com algum a de suas am igas. Puxou a m oça, que não se m exeu, em basbacada, a dois passos do j ovem García. Viu-a balbuciar e acalorar-se com o… com o um a ridícula e tím ida m enina envergonhada.
– Com o estás?… – pretendeu interessar-se o cigano antes que María bufasse para ele.
– Até agora, bem ! – cortou a velha. – Não pensas em ir-te? Não tens nada para fazer?
O j ovem não fez caso da presença e dos gritos da velha. Abriu o sorriso e m ostrou uns perfeitos dentes brancos que se destacaram no escuro de sua tez. Depois, com o se se visse forçado a ir contra a sua vontade, entrefechou os olhos e cerrou os lábios no que poderia ser o esboço de um beij o.
– Voltarem os a ver-nos – despediu-se.
– Não te aproxim es dela – advertiu-o María quando o j ovem j á lhes dava as costas.
“Não é para ti”, esteve a ponto de acrescentar, m as o trem endo palpitar do coração de Milagros que ela chegou a sentir no braço pelo qual a segurava turbou-a e a im pediu de fazê-lo.
– Vam os – obrigou-a a velha voltando a puxá-la. – Vam os, negra! – gritou para Caridad.
O esforço que teve de fazer María para seguir cam inho contrastou com o esgar de satisfação da Trianeira, que, escondida atrás de um a pequena j anela do andar superior da ferraria, anuiu satisfeita ao m esm o tem po que as via atravessar o beco e dirigir-se para a construção onde viviam os Carm onas: a curandeira m aldizendo de form a ostentosa, Milagros com o se flutuasse sobre o chão, e a negra… a negra atrás delas, com o um a som bra.
Iam ver Inocencio. Se se necessitava de dinheiro para libertar os pais de Milagros, elas o tinham , e acreditavam que teriam m ais, apesar dos subornos que se viam obrigadas a pagar aos aguazis para que lhes perm itissem seguir cantando na pousada e não rebuscassem nos arquivos se haviam sido detidas na batida e libertadas de Málaga. María apalpou a bolsa com as m oedas; só haviam tido de ceder em um aspecto.
– A negra deve parar de dançar – advertiu-a um a noite Bienvenido, contente tam bém com os ganhos.
A velha resm ungou.
– Vão fechar-m e a pousada – insistiu Bienvenido. – Podem os subornar os funcionários para que perm itam a um a m oça cantar, até dançar, m as j á foram vários os frades e sacerdotes que denunciaram , horrorizados, a im pudicícia das danças de Caridad, e com eles, María, nada podem os fazer. Eu m e com prom eti com o aguazil a que a negra não volte a dançar. Ele não m e dará outra oportunidade.
E não a haveriam dado, reconheceu para si a velha. Desde que Sevilha perdera o m onopólio do com ércio com as Índias em benefício de Cádiz, a riqueza havia m inguado, os com erciantes se haviam em pobrecido, e se aprofundaram as diferenças entre os que viviam na m ais absoluta m iséria, a grande m aioria, e um a m inoria de funcionários corruptos, nobres soberbos, proprietários de grandes extensões de terras, e m ilhares de eclesiásticos, regulares ou seculares.
Para eles era um m om ento propício para levar ao povo a doutrina cristã da resignação com serm ões, m issas, rosários e procissões. Nunca tinha havido tantos serm ões públicos am eaçando com todo tipo de penas a vida licenciosa dos fiéis. E o que não sucedia em Madri, na corte, com seus dois teatros de com édias e suas com panhias fixas de com ediantes, a da Cruz e a do Príncipe, havia-o conseguido o arcebispo de Sevilha para o território de sua arquidiocese: a proibição do teatro, da ópera e das com édias.
“Enquanto em Sevilha não se representem com édias, suas gentes se acharão livres da peste”, havia profetizado j á em fins do século anterior um ardoroso padre j esuíta. E a cidade que havia sido berço da arte dram ática, a que havia erguido o prim eiro teatro coberto da Espanha, via que os m oradores tinham de esconder-se e ir em buçados para desfrutar do cante de um a virtuosa m oça cigana. No entanto, as danças de Caridad, com seus peitos balançando-se e seu baixo-ventre e suas cadeiras golpeando o ar eram um a provocação carnal m erecedora da condenação eterna.
– Tu não dançarás m ais – indicou María a Caridad quando j á as pessoas requeriam sua presença.
María escrutou o rosto da negra em busca de algum a reação. Não a soube encontrar; talvez a notícia a alegrasse. No m eio da gritaria, dos bochichos das pessoas e do evidente agrado de um aguazil escondido entre elas, Caridad pareceu receber suas palavras com absoluta indiferença.
Quanto a Milagros… ainda a via em basbacada, com um sorriso estúpido nos lábios. O fato era que Pedro García, viu-se obrigada a reconhecer María, podia deslum brar qualquer m oça: cigano altivo e orgulhoso, de tez curtida, cabelo longo e preto e olhos da m esm a cor e intenso olhar, guapo e forte por m ais que a fom e se em penhasse em m ostrar seus efeitos em seu corpo de dezessete anos.
– És um a Vega! – María parou na porta da casa de Inocencio; o reproche surgiu de sua boca ao sim ples pensam ento da m enina e daquele… aquele sem -vergonha beij ando-se ou tocando-se ou… – E ele, um García! – gritou então. – Esquece-te desse rapaz!
O j ovem Pedro García perm anecia plantado no interior da ferraria, as pernas abertas e as m ãos na cintura diante de seu avô e de seu pai, Elías, os três afastados dos dem ais m em bros da fam ília García que pelej avam com as forj as portáteis.
– Não terei problem as com essa m enina – alardeou sorridente o j ovem .
– Pedro, não se trata de m ais um am orico – advertiu-o o Conde, preocupado com a recordação das confusões de seu neto, todas com m ulheres payas, por sorte, nas quais havia tido de ir em sua aj uda. Em algum as ocasiões bastara am eaçar pais ou esposos enganados, em outras tivera de desem bolsar algum dinheiro que depois, diante dos dem ais m em bros da fam ília, havia sim ulado recuperar com um a sobrecarga de trabalho; gostava do j ovem , era seu preferido. – Tu te casarás com a m oça – sentenciou. – Deves cum prir a lei cigana com ela: não a tocarás enquanto não se consum arem as bodas.
O j ovem cigano respondeu com um trej eito zom beteiro. Avô e pai endureceram as feições ao m esm o tem po, gesto m ais que suficiente para que o outro entendesse a im portância do que se estava fazendo.
– Poderás… deverás falar com ela, e até dar-lhe algum presente, m as nada m ais. É proibido que saiam j untos do beco sem a com panhia de m em bros adultos das fam ílias; não quero queixas da velha ou dos Carm onas. Eu te prom eto que não terás de suportar um noivado longo.
Entendeste?
– Entendi – confirm ou o j ovem com seriedade.
– Bom cigano – felicitou-o seu avô dando-lhe um a palm adinha no rosto.
O Conde se preparava para virar-se quando percebeu a expressão de seu neto, que o interrogava com as sobrancelhas ostensivam ente erguidas sobre os olhos.
– Quê? – perguntou por sua vez.
– E enquanto isso? – inquiriu Pedro balançando a cabeça de um lado para o outro. – Esta noite m e espera a esposa de um carpinteiro sevilhano…
Pai e avô soltaram um a sonora gargalhada.
– Diverte-te quanto quiseres! – anim ou-o o Conde entre risos. – Fornique com ela tam bém por m im . Tua avó j á não…
– Pai! – recrim inou-o Elías.
– Quer vir com igo, vovô? – propôs o neto. – Eu lhe asseguro que essa m ulher dá conta dos dois.
– Não digas necedades! – interveio de novo o pai do j ovem .
– O senhor não a viu! – insistiu Pedro enquanto o Conde sorria. – Tem um a bunda e um par de tetas…
– Eu queria dizer…
O avô deu um golpe no ar com a m ão.
– Sabem os o que querias dizer – interrom peu ao filho. – Em todo caso, tu, Pedro, tem cuidado de não aborrecer a m enina Vega; por pouco que se pareça com seu avô, há de ser orgulhosa – acrescentou m udando o sem blante à recordação do Galeote. – A m oça não deve saber de tuas aventuras. – Rafael García aproveitou o m om ento de seriedade para advertir o neto: – Pedro: tua avó, eu, teu pai, nossa fam ília tem os m uito interesse nesse casam ento. Não nos falhes.
– Velha!
Eram m uitos os que a cham avam “velha”, m as María sabia reconhecer quando o utilizavam com o um apelido carinhoso e quando o faziam com espírito de ofendê-la. Naquela ocasião não teve dúvida algum a de que se tratava da segunda m aneira. Não fez caso ao grito que havia surgido da ferraria e continuou atravessando o pátio do cortiço, sozinha. Milagros se havia negado a acom panhá-la às com pras e, para seu desespero, ficara no andar superior cochichando com Caridad… Sobre Pedro García, sem dúvida.
Fazia dias que o j ovem a assediava e, sem dissim ulação algum a, nem para María nem para quem quer que o presenciasse, fazia encontrar-se no Beco de San Miguel. Só Milagros parecia não se dar conta, e vezes e m ais vezes se derretia diante dele, até que María espantava o cigano.
Depois vinham as discussões, que a curandeira cortava m encionando as palavras da m ãe de Milagros: “Nunca esqueças que és um a Vega.” Referia-se ao ódio entre as duas fam ílias. Mas o que ela não podia im pedir era que Milagros cochichasse com Caridad, sem pre atenta a suas palavras, im passível com seu charuto na boca, e isso a irritava a tal ponto que ela havia pensado em não com prar m ais tabaco para a negra.
– Velha! – voltou a ouvir, desta vez j á do m esm o pátio.
Virou-se e distinguiu Inocencio na porta da ferraria que se com unicava internam ente com o pátio, onde j á voltavam a acum ular-se alguns ferros-velhos enferruj ados que os ciganos, no entanto, eram incapazes de trabalhar com os m eios de que dispunham .
– Tem cuidado com a língua, Inocencio! – revoltou-se ela.
– Eu nada disse que possa m olestá-la – replicou o patriarca dos Carm onas enquanto se aproxim ava.
– Mas o vais fazer, ou m e engano?
– Isso dependerá de com o o tom ares.
Inocencio havia chegado até ela. Tam bém era velho, com o todos os patriarcas. Talvez não tanto com o o Conde e m uito m enos que María, m as o era: um cigano velho, acostum ado a m andar e a que lhe obedecessem .
– Diz o que tens para dizer – estim ulou-o ela.
– Deixa de interpor-te entre Milagros e o j ovem García.
A velha hesitou. Nunca haveria esperado tal advertência.
– Farei o que tenha por conveniente – conseguiu dizer. – Ela é um a Vega. Está sob m eus…
– É um a Carm ona.
– Os m esm os Carm onas que a defenderam no conselho de anciãos? – riu com sarcasm o. – Vós a expulsastes do beco e a entregastes a m im . Até seu pai consentiu. A m oça está sob m inha proteção.
– E por que vive no beco, então? – replicou Inocencio. – O castigo foi anulado, tu o sabes.
Os Vargas lhe perdoaram . É um a Carm ona e depende de m im , com o todos.
“Talvez tenha razão”, refletiu María; não pôde evitar um estrem ecim ento ao pensá-lo.
– Por que não reclam aste antes tua autoridade? Vai fazer um m ês que estam os…
– A m oça se sente Vega – reconheceu Inocencio. – Não m e interessa seu dinheiro nem , m uito m enos, ter um conflito com os Vegas, ainda que agora…
– Melchor voltará – tentou am edrontá-lo ela.
– Não desej o nenhum m al a esse velho louco.
Parecia sincero.
– Então, por que agora? Por que queres estim ular sua relação com Pedro García? Não poderias encontrar outro hom em para Milagros? Alguém que não fosse um García, alguém que não fosse esse libertino; todo o m undo conhece suas aventuras. Encontrarias m uitos pretendentes para a m oça, e as nossas fam ílias todas estariam de acordo.
– Não posso.
María lhe pediu explicações estendendo diante de si um a de suas m ãos atrofiadas.
– Vós m e pedistes a libertação de Ana e José, e para isso necessito da aj uda de Rafael García.
A m ão da velha, à altura de seus peitos secos, com eçou a crispar-se. Inocencio o percebeu.
– Sim – afirm ou então. – O Conde im pôs com o condição o casam ento da m oça com seu neto.
María fechou a m ão com força e a agitou desesperada. Seus dedos contraídos em form a de gancho não lhe perm itiram convertê-la no punho com que haveria desej ado bater no próprio Inocencio. Era com o se através daqueles dedos tortos lhe escapassem as palavras.
– Por que é necessária a intervenção de Rafael? – inquiriu apesar de saber a resposta.
– É o único que pode conseguir que os párocos de Santa Ana aportem um a certidão de casam ento para os pais da m oça. Sem esse papel não há liberdade. Sem pre fui eu quem tratou com eles em nom e do conselho de anciãos; a m im nem sequer m e receberiam . E esta é sua única condição: Milagros e Pedro devem contrair m atrim ônio.
– Ana Vega nunca consentirá em recuperar a liberdade em troca dessa união.
– Ana Vega se dobrará ao que ordenar seu esposo – disse term inantem ente Inocencio –, e os Carm onas nada têm contra os Garcías.
– Enquanto a m ãe não voltar, não consentirei nessa relação – rebelou-se a curandeira.
À luz da m anhã que entrava no pátio para infiltrar-se por entre a ferrugem retorcida, os dois se desafiaram com o olhar. Inocencio m eneou a cabeça.
– Escuta, velha: tu careces de autoridade. Farás o que eu te disse; caso contrário, nós te desterrarem os de Triana e m e encarregarei da m oça ainda que sej a à força. Ela desej a o regresso de seus pais… e entendo que tam pouco vê com m aus olhos um a relação com o neto de Rafael.
Que m ais podes pretender? José Carm ona pertence à m inha fam ília: é filho de m eu prim o, e farei tudo o que estiver ao m eu alcance para libertá-lo, com o a todos os que faltam . Não vou perm itir que por tua teim osia o Conde volte atrás. Está proporcionando a liberdade de um a Vega! A filha do Galeote, seu inim igo acérrim o! Queres que fale com Milagros? – María chegou a retroceder um passo, com o se Inocencio a houvesse em purrado com tal am eaça; seus pés descalços se arranharam num dos ferros. – Queres que lhe diga que estás pondo em perigo a liberdade de seus pais?
A velha sentiu um a repentina tonteira. Sua boca se encheu de saliva, e a cor ocre da ferrugem , que afogava o fulgor dos raios do sol, dançou confusa diante dela de todos os cantos do pátio.
Inocencio fez m enção de aj udá-la, m as ela o repeliu com um desaj eitado tapa. Que sucederia se ele efetivam ente falasse com Milagros? A m enina estava cativada pelo j ovem García. Ela perderia. Sentiu-se desfalecer. A figura de Inocencio se borrou diante dela. Então apertou com força o pé sobre o ferro que havia pisado, até sentir cravar-se-lhe um a de suas arestas e com eçar a correr o sangue pela sola calej ada. A dor real, física, reanim ou-a para arrostar o Carm ona, que contem plava em silêncio com o ao redor do pé da velha se form ava um a pequena poça escura que encharcava a terra.
Os dois com preenderam o que significava o dano que a velha se infligia e cuj os sinais de dor ela tentava reprim ir no rosto: ela se rendia.
– Guarda teu sangue… María. Já és velha para desprezá-lo – recom endou-lhe o patriarca dos Carm onas antes de dar-lhe as costas e regressar à ferraria.
Horas depois, a velha se separou de Milagros assim que Pedro García foi ao seu encontro. Fê-lo em silêncio e coxeando, com o pé enfaixado, tentando não obstante m anter erguida a cabeça.
Milagros se surpreendeu diante da inesperada liberdade que lhe oferecia quem até então havia lutado tenazm ente por im pedir-lhe a relação com o j ovem . E além disso… não estava dizendo im propérios entre dentes! O sorriso e o quente olhar com que Pedro a convidou a aproxim ar-se e conversar com ele a levaram a esquecer-se por com pleto da velha e até a fazer um im perioso gesto com a m ão para Caridad para que tam bém ela se afastasse. De am bos os lados do beco, a Trianeira em um , Inocencio no outro, os dois à vista, com o testem unhas que quisessem verificar o cum prim ento de um pacto, trocaram olhares de assentim ento diante da retirada de María.
De noite, a própria velha se viu forçada a reconhecer que a voz com que Milagros inebriou as pessoas que a escutavam na pousada se ergueu m atizada por um sentim ento que até então nunca havia existido. Ferm ín, à guitarra, virou o rosto para ela e lhe perguntou com o olhar o que havia sucedido; tam bém o fizeram Roque e Sagrario. María não respondeu a nenhum deles. Não havia explicado o porquê de sua m udança a Milagros, não queria fazê-lo, e a m oça tam pouco havia perguntado, talvez tem erosa de que, se o fizesse, se rom pesse o encanto.
Nessa m esm a noite o Conde voltou a falar com a esposa, am bos deitados no colchão de palha e galhos. Havia conseguido a certidão de casam ento e o com prom isso dos padres de testificar no processo secreto a favor de José Carm ona e da m ulher Vega; tam bém contava com o apoio do aguazil de Triana. Rey es o felicitou.
– Não te arrependerás – acrescentou.
– É o que espero – disse ele. – Custou m uito dinheiro. Mais do que Inocencio m e proporcionou. Tive de assinar docum entos pelos quais m e obrigo a pagar essa dívida.
– Recuperarás esse dinheiro com sobra.
– Tam bém tive de prom eter aos padres que o Carm ona e a Vega se casarão pela Igrej a assim que estiverem livres, que a m oça se batizará e que cantará vilancicos na paróquia de Santa Ana neste Natal. Haviam ouvido falar dela.
– Ela o fará.
– Querem verificar se efetivam ente nós, os ciganos, nos aproxim am os da Igrej a, certificar-se de que nosso em penho sej a público, de que todo o m undo o vej a e se dê conta. Obrigaram -m e a confessar-m e! Não sei…
– Não era isso o que se acordou no últim o conselho? Não lhes falaste de criar um a confraria?
– Riram -se. Mas creio que no fundo lhes agradou. – O Conde guardou alguns instantes de silêncio. – E se a Vega se negar a contrair m atrim ônio pela Igrej a?
– Não sej as ingênuo, Rafael! A Ana Vega, nunca a porão em liberdade. Desde que está em Málaga arrasta m ais condenações que um m alfeitor. Está detida entre as ciganas sim plesm ente por não estar no cárcere. Não a libertarão.
– Então… não poderá casar-se.
– Melhor para ti. Ana Vega nunca o teria feito.
Rey es girou até dar-lhe as costas, dando por encerrada a conversa, m as Rafael insistiu.
– Eu m e com prom eti. Se não se casar…
– E o que podes fazer se não a libertam ? Tu j á tens a escusa, e então Pedro j á estará casado com a m oça – interrom peu-o ela. – Se tanto desej am os padres que a Vega se case, que falem com o rei para que a indulte.
Em m eados de dezem bro, quando tiveram a confirm ação de que o processo secreto j á fora encerrado e rem etido a La Carraca e a Málaga, as fam ílias García e Carm ona se reuniram no pátio do cortiço da noiva, livre de ferros retorcidos e oxidados, com o m erecia a ocasião; Inocencio havia ordenado levá-los para a ferraria. Dias antes, havia tornado a abordar a María.
– Dizes-lhe tu ou digo-lhe eu? – perguntou-lhe.
– Tu és o patriarca – soltou a velha sem pensar. Contudo, antes que Inocencio lhe tom asse a palavra, retificou-se: – Eu o farei.
A habitação continuava tão vazia com o quando tinham regressado a Triana; a m aior variação desde então consistia num m onte de carvão sob o nicho em que se achavam o fornilho para cozinhar, um velho caldeiro e um a concha, três vasilhas descascadas de louça de Triana, todos diferentes, e alguns alim entos colocados num guarda-com ida que não haviam podido rapinar os soldados.
– Espera-nos lá em baixo – ordenou María a Caridad.
Assim que Milagros ouviu a velha despedir Caridad com aquelas poucas palavras pronunciadas severam ente, dirigiu-se à j anela que abria para o beco e se debruçou no parapeito.
Não queria ouvir suas conversas. Estava consciente de que estavam fazia dias evitando falar do assunto, m as ela estava vivendo os m elhores de sua vida: Inocencio lhe havia assegurado a liberdade de seus pais, ela cantava e era adm irada quase tanto por sua voz com o pela relação que m antinha com Pedro García. As dem ais ciganas, suas am igas, invej avam -na! Inclinou o busto para fora da j anela, com o se quisesse fugir das queixas da velha. Que saberia ela do am or? Que saberia do encanto que se criava entre Pedro e ela quando se encontravam ? Conversavam e riam por qualquer coisa: das roupas das pessoas, de um sim ples ferro retorcido, do pequeno que tropeçava… Riam e riam . E se olhavam com ternura. E às vezes se roçavam . E quando sucedia isso era com o a queim adura de um a fagulha ao saltar da frágua: um a alfinetada. A Milagros nunca haviam alcançado as chispas da frágua, m as Pedro lhe disse que era essa a sensação que ele m esm o havia sentido um dia em que se aproxim aram um do outro m ais que o conveniente. Ele se afastou sim ulando em baraço, Milagros teria desej ado que esse instante se prolongasse por toda a vida. Os dois se voltaram para o beco para ver se alguém os havia visto. “Sim , com o um a fagulha!”, confirm ou ela, com as pernas ainda trêm ulas. Devia ser isso, sem dúvida. Que sabia a velha das fagulhas que se cravavam com o alfinetes? Não! Não queria ouvir os serm ões de María.
No entanto, a velha falou.
– Dentro de alguns dias… – Milagros ia tapar os ouvidos –, Inocencio te prom eterá em casam ento ao neto do Conde.
Não chegou a tapá-los. Havia ouvido bem ? Virou-se de um salto. María esqueceu seu discurso diante da expressão de alegria da m oça.
– Que disse? – perguntou ela quase gritando. O tom agudo com o o fez invadiu a velha curandeira.
– O que ouviste.
– Repita-o.
Não queria fazê-lo.
– Tu te casarás com ele – cedeu por fim .
Milagros soltou outro gritinho agudo e pôs as m ãos no rosto; afastou-as de im ediato para m ostrá-las à velha, com o que a convidando a com partilhar sua alegria. Diante da passividade da curandeira, deixou de lado a tentativa. Chorou e se m oveu de um lado para outro com os punhos cerrados. Girou e voltou a gritar entre soluços. Foi para a j anela e ergueu o olhar ao céu.
Depois se voltou para María, um pouco m ais tranquila, m as com lágrim as correndo pelas faces.
– Podes opor-te – ousou a dizer a curandeira.
– Ah!
– Eu te aj udaria, eu te apoiaria.
– A senhora não entende, María: eu o am o.
– Tu és um a…
– Eu o am o! Eu o am o, am o, am o.
– És um a Vega.
A m oça se plantou firm e diante dela.
– Já vêm de m uitos anos essas querelas. Eu não tenho nada que ver…
– É a tua fam ília! Se teu avô te ouvisse…
– E onde está m eu avô? – O grito chegou a ouvir-se até no beco. – Onde está? Nunca está quando se necessita dele.
– Não…
– E os Vegas, onde estão esses Vegas com que a senhora enche a boca? – interrom peu-a Milagros, irada, cuspindo as palavras. – Não resta nem um , nem um ! Todos estão detidos, e os que não, com o aqueles que encontram os com os Fernández, preferem seguir com outra fam ília a voltar a Triana. De que Vega m e falas, María?
A velha não soube responder.
– Esse j ovem não te convém , m enina – optou por dizer, sabendo da inutilidade de sua advertência. Mas tinha de fazê-la, ao preço até da reação da m oça.
– Por quê? Porque é um García que não tem culpa do que fez seu avô? Porque a senhora o decidiu? Ou talvez o tenha decidido m eu avô, estej a onde estiver?
“Porque é um velhaco hipócrita e um m ulherengo que só quer teu dinheiro e que te transform ará num a infeliz.” A resposta girou pela cabeça da velha. A j ovem não acreditaria nela.
“E, além disso, um García, sim , neto do hom em que levou teu avô às galés; neto do hom em que levou à m orte tua avó e à m iséria tua m ãe.”
– Não queres entender – lam entou em vez disso.
María deixou a m oça com a réplica na boca. Deu m eia-volta e saiu da habitação.
Agora Milagros, no pátio lim po de ferros do cortiço, enquanto os Carm onas e os Garcías se felicitavam e bebiam o vinho que haviam com prado com o dinheiro de sua últim a noite na pousada, sentia saudade da velha. Não havia tornado a vê-la desde então. Cinco dias em que se havia cansado de perguntar por ela. Até ousara aparecer na ciganaria acom panhada de Caridad, sem resultado; depois haviam percorrido as ruas de Sevilha, tam bém infrutiferam ente. A não ser pela presença de Pedro, que estivera alguns m inutos com ela para depois dedicar-se a beber, conversar e rir com os dem ais ciganos, e pela de Caridad, Milagros se sentia estranha entre aquelas pessoas. Com eçavam a ver-se de novo traj es coloridos e adornos no cabelo, fitas coloridas e flores; os ciganos podiam passar fom e, m as não iam vestir-se com o os payos. Ela os conhecia a todos, é verdade, m as… com o seria a vida com eles? Com o seria seu dia a dia um a vez atravessado o beco, na construção que habitavam os Garcías? Observou a Trianeira, tão gorda com o ufana, passeando com o se fosse um a verdadeira condessa entre as pessoas, e seu estôm ago encolheu-se. Quis ir em busca do apoio de Pedro quando os dois patriarcas, Rafael e Inocencio, pediram silêncio. E, enquanto as pessoas se aglom eravam ao redor, o prim eiro cham ou para seu lado seu filho Elias e seu neto Pedro, e o Carm ona a ela.
– Inocencio – anunciou Elias García em voz alta e tom form al –, em tua condição de chefe da fam ília Carm ona, quero pedir-te em casam ento para m eu filho Pedro, aqui presente, a Milagros Carm ona, filha de José Carm ona. Meu pai, Rafael García, chefe de nossa fam ília, com prom eteu-se em seu nom e e no m eu o pagam ento de um bom dinheiro para obter a liberdade dos pais de Milagros, com cuj o desem bolso consideram os cum pridos a lei cigana e o preço da m oça.
Antes que Inocencio respondesse, Milagros trocou um nervoso olhar com Pedro. Ele lhe sorriu e a anim ou. Sua serenidade conseguiu tranquilizá-la.
– Elías, Rafael – ouviu Inocencio responder –, nós, os Carm onas, consideram os suficiente preço o pagam ento para obter a liberdade de um de nossos fam iliares e sua esposa. Eu vos entrego a Milagros Carm ona. Pedro García – acrescentou Inocencio dirigindo-se ao j ovem –, eu te concedo a m oça m ais bela de Triana, a m elhor cantora que até hoj e nosso povo deu. Um a m ulher que te proporcionará filhos, te será fiel e te seguirá aonde quer que vás. O casam ento se celebrará assim que entrar o ano-novo. Sej a feliz com ela.
Depois, Inocencio e Rafael García avançaram e selaram o pacto publicam ente, cara a cara, m ediante um vigoroso e longo aperto de m ãos. Nesse m om ento, Milagros sentiu a força daquela aliança com o se cada um dos patriarcas estivesse apertando seu próprio corpo. E se María tivesse razão?, assaltou-a a dúvida. “Recorda sem pre que és um a Vega”; as palavras que havia querido transm itir-lhe sua m ãe cruzaram por sua cabeça com o um relâm pago. Mas não teve tem po de pensar nisso.
– Que ninguém ouse rom per este com prom isso! – ouviu Rafael García exclam ar.
– Maldito sej a o que se atrever! – aderiu Inocencio. – Que não m orra nem no céu nem na Terra!
E, com aquele j uram ento cigano recebido com aplausos, Milagros soube que seu destino acabava de ser decidido.
Foi a prim eira festa que se realizou desde que se havia iniciado a libertação dos ciganos de arsenais e cárceres. Os ciganos do Beco de San Miguel levaram a pouca com ida e bebida que tinham . Apareceram duas guitarras e algum as castanholas e pandeiretas, todas quebradas e deterioradas. Apesar disso, hom ens e m ulheres buscaram ânim o e arranharam os instrum entos até obter deles a m úsica que, fazia tem po, teriam podido vir a criar. Milagros cantou e dançou, estim ulada por todos, alegre por causa do vinho, aturdida diante da sucessão de conselhos e felicitações que não parava de receber; fê-lo com outras ciganas e várias vezes com Pedro, que, em lugar de m over-se em seu ritm o, a acom panhou com m ovim entos curtos e secos, soberbos e altivos, com o se em lugar de dançar para os ciganos que batiam palm as estivesse gritando a todos que aquela m ulher ia ser sua, só sua.
Ao anoitecer, a Trianeira com eçou a palo seco com um a debla que alongou e alongou com sua voz quebrada até conseguir que as lágrim as aparecessem nos rostos das ciganas e que os hom ens buscassem escondê-los para levar um furtivo braço aos olhos. Milagros não ficou alheia àqueles sentim entos de dor que afloravam em todos eles e trem eu com o os dem ais. Várias vezes acreditou notar que a avó de Pedro a desafiava. “Até agora teu sucesso não é m ais que fruto das alegres e tolas m úsicas que cantas num a m ísera pousada”, parecia cuspir-lhe. Onde está dor do povo cigano?, desafiava-a a velha, e o cante fundo e profundo, aquele que os ciganos guardam os para nós m esm os?
Milagros aceitou o desafio.
O longo queixum e que brotou dela calou os aplausos em que explodiram os ciganos assim que a voz da Trianeira deixou de espreitar suas penas, com o se com seu repentino silêncio lhes houvesse facilitado o consolo. Milagros cantou sem sequer plantar-se no centro do círculo, com Caridad e outras ciganas a seus lados. Ela não se sentia livre! Ao contrário, a voz da velha Rey es havia conseguido transportá-la a um entardecer na ribeira do rio, diante da igrej a da Virgem do Bom Ar, a capela aberta dos m areantes de Sevilha, e a seu avô prostrado de j oelhos. “Onde está o senhor, vovô?”, pensou enquanto a voz se rom pia em sua garganta e surgia dela atorm entada, com o um lam ento dilacerado. “Canta até que a boca te saiba a sangue”, dissera-lhe María. E a velha? E seus pais? Milagros acreditou saborear aquele sangue j usto quando a Trianeira baixava a cabeça, vencida. Não chegou a vê-la, m as o soube, porque os ciganos guardaram um prolongado silêncio quando term inou, à espera de que a reverberação de seu últim o suspiro desaparecesse do beco. Depois a aclam aram tal com o podiam fazer os sevilhanos na pousada.
– Vou em bora – Pedro García aproveitou o estrépito para anunciá-lo à parte a seu avô.
– Aonde vais, Pedro?
O j ovem lhe piscou um olho.
– Hoj e não é dia… – quis opor-se aquele.
– Diga o senhor que m e pediu que lhe fizesse algo.
– Não, Pedro, hoj e não pode ser.
– Por causa de um a Vega? – j ogou-lhe em rosto o j ovem . Rafael García teve um sobressalto ao m esm o tem po que seu neto abrandava as feições e sorria antes de continuar: – O senhor era igual a m im , estou enganado? Som os iguais. – Pedro lhe passou um braço pelos om bros e o apertou contra si. – O senhor vai im pedir que eu desfrute para guardar as form alidades diante de um a Vega?
– Vai e diverte-te – cedeu o patriarca im ediatam ente.
– À igrej a. Diga que fui rezar o rosário – escarneceu o j ovem , a cam inho j á da saída do beco.
Quando Pedro se encontrava perto da praça del Salvador, depois de cruzar a ponte de barcos e internar-se em Sevilha, seu avô não teve outra saída senão aproxim ar-se de Milagros: a m oça j á estava havia bastante tem po procurando com o olhar seu prom etido.
– Ele foi falar com o pároco de Santa Ana sobre teu batism o – tranquilizou-a.
Nem sequer Milagros ia crer que Pedro se houvesse unido a algum a das m ais de cem procissões que percorriam as ruas de Sevilha cantando ave-m arias ou rezando o rosário!
Milagros sabia da necessidade de seu batism o; havia com entado com ela Inocencio quando lhe anunciou tam bém que no Natal ela cantaria vilancicos na paróquia. Tratava-se de um a condição para a libertação de seus pais. E, j usto no m om ento em que Pedro atravessava a praça del Salvador e chegava à rua de la Carpintería, ela aceitou a escusa do Conde e voltou a j untar-se à festa.
Oculto na esquina da praça del Salvador, Pedro escrutou a rua onde viviam os carpinteiros, alguns deles reconvertidos em fabricantes de guitarras, antes de lançar-se a cruzá-la para chegar até a casa onde o esperava a exuberante m as insatisfeita esposa do artesão. Um m inúsculo retalho de tecido de cor am arela com o que deixado ao acaso atrás da grade de um a das j anelas da oficina lhe indicava quando estava só. Seu coração batia acelerado e não só por causa do desej o: o risco de que o m arido aparecesse, geralm ente bêbado, com o j á lhe havia sucedido num a ocasião em que tivera de esconder-se até que sua esposa conseguira fazê-lo dorm ir, aum entava o prazer que am bos obtinham . Perm itiu-se um sorriso na escuridão à lem brança disso: “Agora ele vai chegar”, gritava nervosa a m ulher enquanto Pedro a penetrava freneticam ente, ela com as pernas levantadas, abraçada a seu quadril com as coxas, “vai abrir a porta, e vam os ouvir seus passos”, ria entre arquej os, “nos pegará e…” Suas palavras se abafaram num longo gem ido ao chegar ao orgasm o. Nessa noite o carpinteiro não chegou a aparecer, recordou o j ovem com outro sorriso quando a som bra à que prestava atenção se perdeu para além da rua de la Cuna, e a de la Carpintería ficou solitária. Então, tom ou-a pressuroso.
Deixou a casa ao fim de um a hora e andou pela rua distraído, com o tato, o sabor, o cheiro e os gem idos da m ulher ainda agarrados a suas sensações, até chegar à altura de um retábulo dedicado à Virgem dos Desam parados pintado na m esm a rua.
– Cão asqueroso!
O insulto o surpreendeu. Não a havia visto: um a som bra encolhida j unto ao retábulo. A velha María continuou falando:
– Nem sequer no dia em que te com prom eteste com a m enina és capaz de reprim ir tua… tua luxúria.
Pedro García olhava fixam ente a velha curandeira, arrogante, pretendendo um respeito que…
Estava sozinha num a rua perdida de Sevilha, em plena noite! Que respeito podia esperar por m ais cigana velha que fosse?
– Juro pelo sangue dos Vegas que Milagros não se casará contigo! – am eaçou María. – Eu lhe contarei…
O cigano deixou de ouvir. Trem eu ao sim ples pensam ento de seu avô e de seu pai encolerizados se a m oça se negasse a contrair m atrim ônio. Não pensou. Agarrou a curandeira pelo pescoço, e sua voz m udou-se num balbucio ininteligível.
– Velha im becil – disse entre dentes.
Apertou com um a só m ão. María boqueou e cravou os dedos atrofiados, ao m odo de ganchos, nos braços de seu agressor. Pedro García não fez nada para livrar-se deles. Quão fácil era, descobriu enquanto transcorriam os segundos e os olhos da velha am eaçavam saltar das órbitas. Apertou m ais, até sentir que rangia algo no interior do pescoço da velha. Foi sim ples, rápido, silencioso, trem endam ente silencioso. Soltou-a, e María desabou, pequena e enrugada com o era.
A irm andade que cuidava do culto ao retábulo se ocuparia do cadáver, pensou antes de deixá-
la ali estirada, e avisariam às autoridades, que a exibiriam , ou talvez não, em algum lugar de Sevilha para ver se alguém a reclam ava. O m ais provável é que a enterrassem num a vala com um às custas das dádivas dos piedosos fiéis.