A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 18 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 18

Niebla, a vila que dava nom e ao condado pertencente então à casa de Medinasidonia, havia sido um im portante enclave m ilitar árabe e m edieval. Era rodeada de altas e fortes m uralhas e de torres defensivas, e contava com um im ponente castelo com sua torre de hom enagem . Em m eados do século XVIII, não obstante, havia perdido a im portância original e sua população se reduzia a pouco m ais de m il habitantes. No entanto, por tradição tinha três feiras anuais: a de São Miguel, a da Im aculada e a de Todos os Santos, as três dedicadas à com pra e venda de gado, sarj el e couro.

As feiras haviam seguido o m esm o cam inho que a vila, e ninguém hesitava em j á qualificá-las de “cativas”, desgraçadas, destinadas principalm ente ao fornecim ento de anim ais velhos para o consum o da próxim a cidade de Sevilha. Para ali se dirigia Santiago com seu grupo de ciganos.

Em prim eiro de novem bro, dia de Todos os Santos, Diego, Milagros, um garoto de uns oito anos, m agro e suj o m as de travessos olhos negros cham ado Manolillo, e outros m em bros da fam ília dos Fernández, carregados de cestas e panelas com o se pretendessem vendê-las, chegaram até as m uralhas da vila, em cuj os extram uros, num a esplanada, se realizava a feira. Centenas de cabeças de gado – vacas e bois, porcos, ovelhas e cavalos – eram postas à venda entre o bulício da gente. Escondidos nos cam inhos, ficavam o velho patriarca, Caridad, María, as crianças m enores e as velhas.

Manolillo chegou-se a Milagros quando veio a seu encontro o alcaide-m or acom panhado de um aguazil: os ciganos eram proibidos de ir às feiras, e m ais ainda se estas fossem de gado.

Enquanto Diego se queixava e gesticulava, suplicava e rogava em nom e de Deus Nosso Senhor, da Virgem Maria e de todos os santos, eles dois se separaram discretam ente do grupo para que nem alcaide nem aguazil pudessem reparar nos sacos que levavam e em cuj o interior, adorm ecidas, se m oviam quatro doninhas que com m uito esforço haviam conseguido capturar no traj eto. Por fim , Diego deixou cair um par de m oedas nas m ãos do regedor.

– Não quero altercações – advertiu o alcaide a todos após esconder o dinheiro.

Assim que se viram livres do assédio das autoridades de Niebla, Diego Fernández fez um gesto para os ciganos, que se dispersaram pelo âm bito da feira; depois piscou um olho para Milagros e Manolillo: “Vam os lá, rapazes”, anim ou-os.

Mais de trezentos cavalos se apinhavam em cercados precários construídos com m adeiros e canas. Milagros e Manolillo se dirigiram para eles aparentando um a serenidade que não sentiam , entre m ercadores, com pradores e um a m ultidão de curiosos. Alcançaram a extrem idade dos cercados, onde estes se j untavam com o exterior das m uralhas da vila, deram um a olhada ao redor e se infiltraram onde estavam os cavalos. Resguardados entre eles, Milagros entregou seu saco ao rapaz, tirou da saia um a garrafinha cheia de vinagre e a esvaziou no interior dos sacos. Depois os agitaram com força, e os anim ais, sem alim ento desde que os haviam caçado, com eçaram a gritar e exasperar-se. Buscaram refúgio j unto às m uralhas e os soltaram . As doninhas saltaram enlouquecidas, cegas, chocando-se com os cavalos, gritando e m ordendo-lhes as patas. Os cavalos, por sua vez, relincharam , em pinaram -se uns sobre outros, aprisionados com o estavam , escoicearam -se e m orderam -se entre si. O estouro não se fez esperar. As três centenas de anim ais rom peram com facilidade os frágeis cercados e galoparam freneticam ente pela feira.

No caos que os cavalos causaram , Diego e seus hom ens conseguiram ficar com quatro deles e os conduziram rapidam ente para onde os esperava o patriarca, nos arredores da vila; Milagros e Manolillo, que não podiam evitar o riso depois da tensão, j á estavam ali.

– Em m archa! – gritou Santiago, sabedor de que o alcaide não tardaria um segundo a culpá-

los.

Iniciaram a m archa levando seus caldeiros, cestas e louça, além de algum as roupas e m antas que as ciganas haviam conseguido furtar em m eio ao desconcerto. Um a delas m ostrava orgulhosa um par de sapatos com sola de couro e fivela de prata.

O patriarca ordenou que se dirigissem para Ay am onte.

– Ontem eu soube – explicou – que faleceu um fidalgo rico que dispôs em testam ento cerca de cinco m il reais para seu funeral: enterro e m issas por sua alm a, m ais de m il delas encom endou o santarrão!, luto e esm ola. Foram cham ados todos os padres e capelães da vila, bem com o os frades e m onj as de dois conventos, e seu bom dinheiro levarão os idiotas. Haverá m uita gente…

– E m uita esm ola! – ouviu-se entre as ciganas.

Cam inharam paralelam ente à estrada que levava a Ay am onte, em bora antes de chegar a San Juan del Porto tenham tido de tom á-lo para atravessar o rio Tinto de barco; o barqueiro nem sequer se atreveu a discutir o preço que Santiago lhe ofereceu para que os levasse à outra m argem . Nessa m esm a tarde conseguiram m albaratar dois dos cavalos a um dos clientes e ao proprietário de um mesón no cam inho; nenhum deles se interessou por sua procedência.

Tam bém arrancaram um as poucas m oedas dos poucos paroquianos que se haviam encontrado no mesón depois de Milagros cantar e dançar de form a insinuante, com o lhe havia ensinado Caridad, e inflam ar o desej o da assistência. Não foi o canto quebrado e fundo com que os ciganos reviviam suas dores e suas paixões nas noites ao redor do fogo do acam pam ento, m as até o velho patriarca se surpreendeu batendo palm as sorridente quando a m oça com eçou com alegres fandangos e sarabandas.

Apesar do frio, o rosto, os braços e o início dos peitos de Milagros apareciam perolados pelo suor. O estalaj adeiro a convidou a tom ar um copo de vinho quando a cigana, vigiada por Diego à sua passagem entre as m esas em que os clientes bebiam , se sentou, com um prolongado suspiro de cansaço, à m esa da qual Caridad e María haviam contem plado sua atuação.

– Bravo, m enina! – felicitou-a a curandeira.

– Bravo – som ou-se o estalaj adeiro ao m esm o tem po que lhe servia o vinho. – Depois da batida – prosseguiu, com os olhos distraídos no decote da m oça –, tem íam os não poder seguir desfrutando de vossas danças, m as após a libertação…

Ela saltou a cadeira, saltou o vinho e saltou até a m esa.

– Que libertação? – gritou a m oça, j á em pé diante do estalaj adeiro.

O hom em abriu as m ãos diante do círculo de ciganos em que de repente se viu im erso.

– Não o sabeis? – inquiriu. – Pois então… é que os estão pondo em liberdade.

– Nem o rei de Espanha pode conosco! – ouviu-se dentre os ciganos.

– Estás certo? – perguntou Santiago.

O estalaj adeiro hesitou. Milagros gesticulou freneticam ente diante dele.

– Estás certo? – repetiu.

– Certo, certo…? Isso é o que dizem – acrescentou dando de om bros.

– É verdade.

Os ciganos se voltaram para a m esa da qual havia partido a afirm ação.

– Eles os estão liberando.

– Com o sabes?

– Venho de Sevilha. E os vi. Cruzei com eles na ponte de barcos para Triana.

– Com o sabes que eram ciganos?

O sevilhano sorriu com ironia diante da pergunta.

– Vinham de Cádiz, de La Carraca; tinham um aspecto desastroso. Iam acom panhados por um escrivão que portava seu despacho de liberdade e vários oficiais de j ustiça que escoltavam o grupo…

– E as m ulheres de Málaga? – interrom peu-o Milagros.

– Das ciganas não sei nada, m as se libertam os hom ens…

Milagros se virou para Caridad.

– Voltam os para casa, Cachita – sussurrou com a voz em bargada –, voltam os para casa.

Nos arsenais os ciganos não eram rentáveis. Não trabalhavam , queixavam -se os responsáveis pelos arsenais. Tanto em Cartagena com o em Cádiz, arguiam , havia-se prescindido do pessoal experto para substituí-lo por aquela m ão de obra ignorante e resistente ao esforço que nem sequer com pensava a com ida que recebia. Os ciganos, insistiam , eram problem áticos e perigosos: pelej avam , discutiam e tram avam fugas. Eles careciam de tropas suficientes para fazer-lhes frente e tem iam que o desespero de hom ens encarcerados para o resto da vida, afastados de suas m ulheres e filhos, os levasse a um m otim que não pudessem sufocar. As ciganas, tão ou m ais problem áticas que seus hom ens, nem sequer trabalhavam , e seus gastos de m anutenção consum iam os parcos recursos dos m unicípios em que se achavam detidas.

Os m em oriais dos responsáveis de arsenais e cárceres não tardaram a chegar às m ãos do m arquês de la Ensenada.

Mas não foram só esses funcionários os que se queixaram ao poderoso m inistro de Fernando VI. Os próprios ciganos tam bém o fizeram e de seus lugares de detenção enviaram queixas e súplicas ao conselho. A eles se som aram alguns nobres que os protegiam , religiosos e até cabidos m unicipais inteiros que viam que alguns trabalhos necessários para sua com unidade ficavam órfãos de trabalhadores: ferreiros, forneiros ou sim ples agricultores. Até a cidade de Málaga, que não era dos lugares legalm ente habilitados para acolher ciganos, decidiu apoiar as súplicas dos ciganos ferreiros residentes nela para ser excluídos da detenção.

As súplicas e petições se acum ularam nos escritórios do conselho real. Em pouco m enos de dois m eses se haviam tornado m anifestos a ineficácia, o perigo e o elevadíssim o custo da grande batida. Além disso, haviam detido os ciganos assim ilados, os que viviam segundo as leis do reino, enquanto outros tantos, os indesej áveis, acam pavam em liberdade pelas terras da Espanha. Assim , j á no final de setem bro de 1749, o m arquês de la Ensenada retificava e culpava os subordinados que haviam executado a batida: o rei nunca havia pretendido fazer m al aos ciganos que viviam conform e às leis.

Em outubro, o conselho estabeleceu as ordens necessárias para proceder à liberdade dos inj ustam ente detidos: os corregedores de cada lugar deviam tram itar expedientes secretos sobre a vida e os costum es de cada um dos ciganos detidos, indicando se se aj ustavam às leis e pragm áticas do reino; aos expedientes devia unir-se um inform e do pároco correspondente, tam bém secreto, no qual acim a de tudo se devia fazer constar se o cigano se havia casado pela Igrej a.

Os que cum prissem todos aqueles requisitos seriam postos em liberdade, seriam devolvidos a seus lugares de origem , e os bens que lhes haviam sido em bargados lhes seriam restituídos, com a expressa proibição de abandonar seus povoados sem licença por escrito, e nunca para ir a feiras ou m ercados.

Os que não passassem pela etapa das inform ações secretas continuariam em prisão ou seriam destinados a trabalhar em obras públicas ou de interesse para o rei; aqueles que fugissem seriam im ediatam ente enforcados.

Tam bém se deram ordens concretas para os ciganos que não houvessem chegado a ser detidos na grande batida: concedia-se-lhes um prazo de trinta dias para apresentar-se, caso contrário seriam tidos por “rebeldes, bandidos, inim igos da paz pública e ladrões fam osos”. A todos se im punha pena de m orte.

A ciganaria estava arrasada. De noite, Milagros, a velha María e Caridad pararam no início da rua que percorria o m uro do horto dos cartuxos com o qual eram gem inadas as choças.

Nenhum a delas falou. A esperança e expectativa que haviam form ado durante os dias de cam inho, anim ando-se entre si, prom etendo-se um a volta à norm alidade, desvaneceram -se à sim ples visão da ciganaria. Após a batida e o em bargo de bens, os saqueadores se haviam apressado a fazer sua até a m iséria. Faltavam tetos, até os de capim , e algum as paredes haviam desabado por causa da pilhagem dos restos que os soldados não haviam levado: ferros em butidos, os poucos m arcos de m adeira, guarda-com idas, cham inés… Ainda assim , observaram que havia barracas habitadas.

– Não há crianças – advertiu a velha. Milagros e Caridad perm aneceram em silêncio. – Não são ciganos, m as delinquentes e ram eiras.

Com o se quisesse dar-lhe razão, de um a das choças próxim as surgiu um casal: ele, um velho m ulato; ela, que havia saído para despedir-se dele, um a m ulher esfarrapada e desgrenhada com os peitos caídos à m ostra.

Os dois grupos trocaram olhares.

– Vam os em bora – urgiu às outras duas a curandeira –, isto é perigoso.

Perseguidas por um a enfiada de obscenidades que saíam da boca do m ulato e pelas gargalhadas da ram eira, apressaram -se em direção a Triana.

Já longe da Cartuxa, as três cruzaram o arrabalde a passo lento. A angústia que as havia acom panhado até a igrej a de Nossa Senhora da Ó por terem visto convertidas as que haviam sido suas casas, por hum ildes que fossem , em refúgio de proscritos com eçou a m udar-se em consternação: os Vegas não o haveriam perm itido. Se estivessem em liberdade, teriam expulsado dali todos aqueles m olam bentos. A velha María afirm ou seu pessim ism o; Milagros, que não se atreveu a expressar em voz alta o que am bas tem iam , aferrou-se à possibilidade de que sua fam ília a esperasse no beco; seu pai era um Carm ona e não vivia na ciganaria, m as se não haviam libertado os Vegas…

Aquela fria noite de novem bro, m ais fria que qualquer das anteriores no sentir das três m ulheres, havia-lhes caído em cim a. O Beco de San Miguel as recebeu com inóspito silêncio; só o tênue resplendor de algum as velas atrás das j anelas, aqui e ali, anunciava a presença de m oradores. A velha María m eneou a cabeça. Milagros saiu do grupo e correu para sua casa. O

poço do pátio do cortiço, sem pre oculto entre ferros retorcidos e oxidados, recebeu-se agora com o um farol erguido e solitário. A m oça não pôde deixar de olhá-lo antes de lançar-se escada acim a.

Pouco depois, Caridad e María a encontraram prostrada no chão: não havia ousado dar nem um passo para o interior do quarto, com o se o espaço totalm ente vazio a houvesse golpeado e derrubado ali m esm o. Trem ia ao ritm o dos soluços e tapava o rosto com as m ãos com força, aterrorizada por ver-se de novo de frente com a realidade.

Caridad se abaixou a seu lado e lhe sussurrou ao ouvido:

– Fique tranquila, tudo se arrum ará. Verás com o logo eles estão em casa.

O m artelar sobre as bigornas as despertou com o dia j á am anhecido. Depois de María ter conseguido tranquilizar Milagros e tê-la im pedido de ir a outras m oradas, que podiam estar ocupadas por m alfeitores, haviam dorm itado as três j untas, com Milagros chorando de quando em quando, cobertas com um a m anta e com o tecido da barraca que lhes dera Santiago para o cam inho. A luz do sol as feriu ao m ostrar a habitação sem rastro de m óveis; tão só pedaços de pratos quebrados no chão coberto de pó atestavam que ali havia vivido um a fam ília. Ainda deitadas, as três pararam para ouvir o bater dos m artelos: nada tinha que ver com o frenesi das ferrarias a que estavam acostum adas; estes eram parcos e lentos, cansados poderia dizer-se.

Apesar de seus dedos atrofiados, a velha María as surpreendeu com um a forte palm ada.

– Tem os m uito que fazer! – exclam ou tom ando a iniciativa e levantando-se.

Caridad a im itou. Ao contrário, Milagros puxou o tecido da barraca e cobriu a cabeça.

– Não m e está ouvindo, m enina? – disse a velha. – Se trabalham o ferro, é porque são ciganos. Nenhum payo se atreveria a fazê-lo aqui, no beco. Levanta-te.

María indicou a Caridad, com o olhar, que descobrisse a m oça. Tardou alguns instantes a obedecer, m as finalm ente retirou tecido e m anta para descobrir um a Milagros encolhida em posição fetal.

– Teus pais podem estar em outra casa – continuou a curandeira sem excessiva convicção. –

Agora devem sobrar casas, e aqui… – virou-se e abarcou com a m ão o interior do côm odo – não haveriam disposto nem de um a m aldita cadeira.

Milagros se ergueu com os olhos inj etados e o rosto congestionado.

– E, se não é assim – prosseguiu María –, devem os inteirar-nos do que está acontecendo e de com o podem os aj udá-los.

O m artelar provinha da ferraria dos Carm onas, em que entraram através do m esm o pátio do cortiço. No interior era evidente o efeito do em bargo de bens decretado pelo rei na época da batida: as ferram entas, as bigornas e as fráguas, as caldeiras, os pilões para o tem peram ento…

tudo havia desaparecido. Dois j ovens aj oelhados, que não se aperceberam da entrada das m ulheres, trabalhavam na frágua, e o faziam , observou Milagros, com um a forj a portátil com o a levada por Dom ingo, o cigano do Puerto de Santa María com que haviam topado no Andévalo: um a bigorna dim inuta sobre a qual um deles golpeava um a ferradura, e um fole de pele de carneiro com que o outro ventilava o carvão incandescente que resplandecia num sim ples buraco aberto no chão de terra.

A m oça os conhecia, a velha tam bém . Caridad j á os tinha visto. Eram Carm onas. Prim os de Milagros. Doroteo e Ángel, assim se cham avam , conquanto estivessem m udados: trabalhando o ferro com o torso nu, m arcavam -se-lhes as costelas, e seus pôm ulos se destacavam em rostos consum idos. Não foi necessário que fizessem notar sua presença. Doroteo, o que m artelava sobre a bigorna, errou o golpe, lançou um a m aldição, levantou-se de um salto e deixou cair o m artelo.

– É im possível trabalhar com esta…!

Calou-se ao vê-las. Ángel virou o rosto para onde olhava seu prim o. María ia dizer algo, m as adiantou-se a ela Milagros.

– Que sabeis de m eus pais?

Ángel deixou o fole e levantou-se tam bém .

– O tio não saiu – respondeu –, continua detido em La Carraca.

– Com o ele está? Tu o viste?

O j ovem não quis responder.

– E m inha m ãe? – perguntou Milagros com um fio de voz.

– Não a vim os. Não está por aqui.

– Mas, se não libertaram o tio, tam pouco haverão libertado a ela – acrescentou o outro.

Milagros sentiu-se desfalecer. Em palideceu e trem eram -lhe as pernas.

– Aj uda-a – ordenou María a Caridad. – E vossos pais – acrescentou após verificar que Caridad sustentava Milagros antes que esta desabasse –, estão livres? Onde estão? – perguntou ao ver que assentiam .

– Os m ais velhos – respondeu Doroteo – estão negociando com o assistente de Sevilha para que nos devolvam o que nos roubaram . Só pudem os conseguir esta… – o j ovem olhou indignado para a pequena bigorna – inútil forj a portátil. O rei ordenou que nos devolvessem os bens, m as os que os com praram não querem fazê-lo se não lhes devolverem o dinheiro que pagaram por eles. Nós não tem os dinheiro, e nem o rei nem o assistente querem dá-lo.

– E as m ulheres?

– Todos aqueles que não estão no cabido se foram ao am anhecer a Sevilha, para pedir esm ola, trabalho, ou para conseguir com ida. Não tem os nada. Dos Carm onas, só estam os nós aqui. Isto –

voltou a assinalar a bigorna com desânim o – só dá trabalho para dois. Em outras fráguas tam bém conseguiram velhas forj as com o as dos ferreiros am bulantes, m as nos faltam ferro e carvão… e saber m anej á-las.

Nesse m om ento, com o se o outro o houvesse recordado, Ángel se aj oelhou de novo e ventilou o carvão, que lançou um a fum aceira em seu rosto. Depois pegou a ferradura em que estava trabalhando Doroteo, j á fria, e voltou a introduzi-la entre as brasas.

– Por que não os libertaram ?

A pergunta brotou da boca de Milagros, que, ainda pálida, se soltou dos braços de Caridad e se adiantou titubeante para seu prim o. Doroteo não ficou de m elindres.

– Prim a, teus pais não estavam casados conform e os ritos da Igrej a, tu o sabes. Esse é um requisito im prescindível para que os soltem . Ao que parece, tua m ãe nunca o perm itiu… – ela o soltou sem esconder certo rancor. – Não sei de nenhum Vega dos da ciganaria que tenham libertado. Além do casam ento, pedem testem unhas que declarem que não viviam com o ciganos…

– Não renegues nossa raça, rapaz – advertiu-o então a curandeira.

Doroteo não se atreveu a responder; em vez disso, estendeu as m ãos antes que o silêncio se fizesse entre todos eles.

– Doroteo – interveio Ángel rom pendo esse silêncio –, assim nos acabará o carvão.

O cigano agitou um a m ão num gesto que m esclava os desej os de trabalhar com a im potência diante da situação; deu-lhes as costas, procurou o m artelo e fez m enção de aj oelhar-se j unto à bigorna.

– Sabes algo do avô Vega, de Melchor? – perguntou-lhe a velha.

– Não – respondeu o cigano. – Sinto m uito – acrescentou diante daquelas m ulheres paradas diante dele e ansiosas por ouvir algum a boa notícia.

Saíram ao beco pela porta da frágua. Tal com o lhes havia anunciado Doroteo, ressoavam m arteladas inconstantes e abafadas em outras ferrarias; quanto ao m ais, o lugar estava deserto.

– Vam os ver Frei Joaquín – propôs Milagros.

– Menina!

– Por que não? – insistiu a m oça encam inhando-se para a saída do beco. – Já haverá esquecido aquele disparate. – Parou; a velha se negava a segui-la. – María, ele é um bom hom em . E nos aj udará. Já o fez então…

Buscou a aj uda de Caridad, m as esta estava absorta em seus pensam entos.

– Não perdem os nada tentando – acrescentou Milagros.

Tranquilizou-as que as pessoas não estranhassem sua presença; sabiam que os ciganos haviam regressado. Em São Jacinto, no entanto, as esperanças de Milagros e Caridad voltaram a ver-se frustradas. Frei Joaquín, anunciou-lhes o porteiro, j á não estava em Triana. Pouca inform ação m ais parecia estar disposto a dar-lhes o frade, m as a insistência de Milagros, que chegou até a puxar seu hábito, levou o frade a contar algo m ais, ainda que com receio, antes para livrar-se delas.

– Foi-se de Triana – disse-lhes. – De repente ficou louco – confessou com um tapa no ar.

Pensou alguns instantes e decidiu estender-se: – Eu j á o previa, sim – afirm ou em voz alta, com m anifesta presunção. – Eu o disse ao prior em várias ocasiões: este j ovem nos trará problem as. O

tabaco, suas am izades, suas idas e vindas, sua insolência e esses serm ões tão… tão irreverentes!

Tão m odernos! Queria largar o hábito. O prior o convenceu a não o fazer. Não sei que estranha predileção tinha o prior por esse rapaz. – Então baixou a voz. – Diz-se que conhecia bastante bem a m ãe do irm ão Joaquín; alguns afirm am que dem asiado bem ... Frei Joaquín argum entou que j á nada o prendia aqui, em Triana! E sua com unidade? E sua devoção? E Deus? Respondia que nada o prendia aqui… – repetiu com um bufar. O frade interrom peu seu discurso, fechou os olhos e balançou a cabeça, aturdido, aborrecido consigo m esm o ao dar-se conta de que estava dando explicações a duas ciganas e um a m ulher negra que estavam atentas a ele, atônitas.

– Para onde foi? – inquiriu Milagros.

O frade não quis dizê-lo. Negou-se a continuar falando com elas.

Retornaram cabisbaixas ao beco. Caridad atrás, com o olhar no chão.

– Quer dizer então que haveria esquecido seu disparate, não? – ironizou María durante o traj eto.

– Talvez não se trate… – com eçou a retrucar Milagros.

– Não sej as ingênua, m enina.

Continuaram andando em silêncio. Afora as duas m oedas que lhes havia entregado Santiago, não tinham dinheiro. Tam pouco tinham com ida. Não tinham parentes! Não havia nenhum Vega em Triana, havia dito Doroteo. A velha curandeira não pôde reprim ir um suspiro.

– Com prarem os algo de com er e irem os recolher ervas – anunciou então.

– E onde as prepararás? – perguntou com sarcasm o Milagros. – Em tua…?

– Cala-te j á! – interrom peu-a a velha. – Não tens direito. Todas nós estam os passando por um m au m om ento. Quando alguém enferm ar, correrão para encontrar onde eu possa prepará-las.

Milagros se encolheu diante do reproche. Cam inhavam j unto à Cava, onde seguia am ontoando-se o lixo. María olhava de soslaio para a m oça e, assim que ouviu seu prim eiro soluço, fez um gesto para Caridad para que a consolasse, m as Milagros apertou o passo e as deixou para trás, com o se fugisse.

Caridad não se apercebeu do gesto da velha María. Seus pensam entos se m antinham em Melchor. “Eu o encontrarei em Triana”, havia-se repetido vezes sem conta durante o cam inho de volta. Im aginou o reencontro, voltar a cantar para ele, sua presença… seu contato. Se estava detido, com o tantas vezes haviam suposto ao longo de sua fuga, j á o haveriam libertado com o aos dem ais, e, se não o houvessem detido, com o não iria para Triana assim que soubesse da libertação dos seus? Mas não estava ali, e os j ovens Carm onas asseguravam que nenhum Vega havia abandonado o arsenal. Mil vezes ao longo dessa m esm a m anhã se lhe havia em brulhado o estôm ago diante da visão dos rostos abatidos e dos troncos esquálidos dos prim os de Milagros.

Se tais eram as consequências em hom ens j ovens, com o estaria Melchor? Notou que se lhe um edeciam os olhos.

– Vai com ela – pediu-lhe a curandeira apontando para Milagros.

Caridad tentava esconder o rosto.

– Tu tam bém ? – perguntou María com desespero.

Caridad inspirou pelo nariz; tentava conter as lágrim as.

– Tu por que choras, negra?

Caridad não respondeu.

– Se fosse por Milagros, j á estarias com ela. Duvido que o Carm ona te haj a tratado bem um a só vez, e quanto a Ana Vega… – María calou-se de repente, retesou o velho pescoço e olhou-a com assom bro: – Melchor?

Caridad não conseguiu conter-se m ais e explodiu em lágrim as.

– Melchor! – exclam ou incrédula a velha María ao m esm o tem po que negava com a cabeça. –

Negra! – cham ou sua atenção por fim . Caridad fez um esforço para olhá-la. – Melchor é um cigano velho, um Vega. Voltarás a vê-lo. – Caridad esboçou um sorriso. – Mas agora é ela que necessita de ti – insistiu a curandeira voltando a apontar para Milagros, que se afastava.

– Voltarei a vê-lo? É verdade? – conseguiu balbuciar Caridad.

– Com respeito a outros ciganos eu não ousaria predizê-lo, m as com respeito a Melchor, sim : voltarás a vê-lo.

Caridad fechou os olhos, a com placência assaltava j á suas feições.

– Corre para Milagros! – instou a velha.

Caridad, com o num sobressalto, adiantou-se pressurosa, alcançou a am iga e envolveu seus om bros com o braço.

Ninguém consolou Frei Joaquín naquela desagradável m anhã enquanto se afastava de Triana pouco antes que Milagros e suas acom panhantes regressassem à ciganaria. Levava em sua bolsa o docum ento de m issionário expedido pelo arcebispo de Sevilha; Frei Pedro de Salce, o fam oso pregador, cam inhava a seu lado cantando litanias à Virgem , com o fazia sem pre quando saía em m issão. Acom panhavam -no em suas rezas dois irm ãos leigos que puxavam azêm olas carregadas de casulas, cruzes, livros, grandes tochas e dem ais obj etos necessários para a evangelização.

Alguns dos cam inhantes com que cruzavam caíam de j oelhos à sua passagem e faziam o sinal da cruz enquanto Frei Pedro os bendizia sem parar; outros acom panhavam o andar dos religiosos e rezavam com eles.

– Aflito? – perguntou-lhe o pregador entre um cântico e outro, consciente da dor do outro.

– Im ensam ente satisfeito com a oportunidade de servir a Deus que Vossa Reverência m e concedeu – m entiu Frei Joaquín.

O frade, satisfeito, ergueu a voz para entoar o cântico seguinte enquanto a m ente de Frei Joaquín se voltava, um a vez m ais, com o vinha fazendo-o desde o dia posterior à grande batida, para Milagros. Teria de havê-la acom panhado! Milagros ia enfrentar o Andévalo até chegar a Barrancos. Onde estaria agora? Trem ia ao pensar no destino que a m oça podia haver sofrido nas m ãos dos soldados ou dos bandoleiros que povoavam aquelas terras sem lei. A bílis regurgitou em sua boca diante da sim ples im agem de Milagros nas m ãos de um a quadrilha de desalm ados.

Mil perguntas pungentes e inquietantes com o essas o haviam perseguido desde o m esm o m om ento em que as costas de Milagros se perderam para além de onde alcançava sua visão. Quis correr atrás dela. Hesitou. Não se decidiu. Perdeu a oportunidade. E de volta a São Jacinto se engolfou na m elancolia; vivia distraído, intranquilo, desconsolado. Milagros não desaparecia de sua m ente, e, por fim , decidiu dirigir-se ao prior para renunciar aos votos.

– Naturalm ente tem sentido que continues na ordem ! – contradisse-o este depois de Frei Joaquín confessar suas culpas e suas dúvidas. – Isso vai passar. Não és o prim eiro. Grandes hom ens da Igrej a com eteram m aiores erros que o teu. Não tiveste contato carnal com ela. O

tem po e São Dom ingos te aj udarão, Joaquín.

Contudo, o prior de São Jacinto encontrou um a solução para aquele espírito que vagava pelo convento e que, perdido seu vigor, dava aulas de gram ática para os m eninos sem convicção algum a. Frei Joaquín necessitava de um revulsivo, pensou o prior. A solução apareceu quando soube da m orte do com panheiro de don Pedro de Salce, o m ais célebre dos m issionários que andavam pelas terras do reino de Sevilha pregando o Evangelho e a doutrina cristã. O prior se m oveu no arcebispado para que Frei Joaquín, tam bém ilustre por seus serm ões, fosse designado para ser seu novo com panheiro. Não lhe custou consegui-lo; tam pouco lhe custou convencer o frade de que aceitasse a designação.

Frei Pedro de Salce e Frei Joaquín se dirigiam para Osuna. Antes de escolher um povoado, o experiente sacerdote estudava aqueles lugares que não haviam sido evangelizados durante os últim os anos; Osuna e suas proxim idades reuniam essas características. Tardaram três dias a chegar, e fizeram -no quando j á havia anoitecido. As silhuetas das casas, no m ais absoluto dos silêncios, desenhavam -se à luz da lua. Frei Joaquín estava cansado, e don Pedro parou. O j ovem se preparava para perguntar-lhe onde dorm iriam quando viu que os irm ãos que puxavam as m ulas se haviam posto a rem exer nos alforj es.

– Que…? – estranhou Frei Joaquín.

– Tu segue-m e – interrom peu-o o m issionário ao m esm o tem po que se cobria com um a casula e urgia-lhe que fizesse o m esm o.

Arm aram um a grande cruz que levavam desm ontada e que Frei Pedro ordenou a Frei Joaquín que portasse. Os leigos acenderam duas tochas de esparto e alcatrão que arderam com um a fum aça m ais negra que a noite, e desse m odo, arm ado o sacerdote de um sino na m ão direita, se encam inharam para o povoado.

– Levantai-vos, pecadores!

O grito de Frei Pedro rom peu o sossego à altura da prim eira porta. Frei Joaquín ficou pasm ado diante da dureza de um a voz que durante três dias de cam inho, quase sem cessar, havia estado sussurrando salm os, cânticos, orações e rosários.

Não parecia que fossem descansar. Frei Joaquín se resignou enquanto o pregador lhe instava que levantasse a cruz.

– Eleva-a, m ostra-a a todos – acrescentou fazendo soar o sino. – Nem o adúltero nem o j ovem que tem pecados graves hão de entrar no reino dos céus! – gritou depois. – Levantai-vos! Segui-m e à igrej a! Vinde ouvir a palavra do Senhor!

Invocações e convocações aos gritos; am eaças de fogo eterno e todo tipo de m ales para os que não os seguissem ; o tangido do sino nas m ãos de don Pedro; as pessoas que saíam de suas casas ou apareciam nas sacadas, aturdidas, surpresas; o sino da igrej a, que o pároco se apressou a fazer tanger assim que ouviu a cham ada à m issão; aqueles que j á se haviam j untado à procissão, descalços, m alvestidos ou cobertos com m antas enquanto os frades, a cruz no alto entre os archotes dos irm ãos leigos, percorriam as ruas de um a Osuna m ergulhada no caos m ais absoluto.

– Moradores de Osuna: Eu os cham ei, vo-lo diz o crucificado – gritava Frei Pedro apontando para a cruz –, e não m e atendestes; desprezastes m eus conselhos e am eaças, m as eu tam bém m e rirei de vós quando a m orte vos alcançar!

E as pessoas se aj oelhavam para fazer o sinal da cruz repetidam ente e suplicar perdão tam bém aos gritos. Frei Pedro os reuniu a todos na igrej a, e ali, após um a fervorosa pregação e a reza de ave-m arias, anunciou o início de um a m issão que se prolongaria por dezesseis dias. Nem o pároco nem o cabido podiam opor-se, pois eles levavam autorização do arcebispo. O sacerdote ordenou que antes de iniciar-se a m issão se tangesse a sino da igrej a durante m eia hora e que as autoridades em prazassem os habitantes dos povoados dos arredores para que deixassem suas terras, ofícios e labores e, guiados por seus párocos, atendessem ao cham ado do Senhor.

Tratava-se, com o naquela m esm a noite explicou Frei Pedro a Frei Joaquín, de surpreender os habitantes de noite e atem orizá-los para que fossem à m issão. Os rum ores, que ele m esm o ou outros com o ele haviam espalhado do púlpito ao longo dos anos, corriam entre as pessoas hum ildes e analfabetas: um sapateiro que m orreu por não seguir os m issionários; um a m ulher que perdeu o filho; outro cuj a colheita se m alogrou enquanto aquele que havia atendido ao cham ado e a deixara nas m ãos de Deus viu à sua volta com o prosperava.

– São pecadores! É preciso feri-los – instruía-o o sacerdote depois de ouvir os civilizados serm ões de Frei Joaquín. – O m edo do pecado e do inferno tem de assentar-se em suas alm as.

E Frei Pedro o conseguia, com o o conseguia! Aquelas pobres alm as abandonavam seus afazeres por m ais de duas sem anas para ir cada dia à m issa para ouvir suas pregações. E os dos povoados dos arredores percorriam léguas de distância e entravam no povoado escolhido em procissão e rezando o rosário atrás de seus respectivos párocos.

Durante essas sem anas se realizavam m issas diárias, serm ões nas igrej as, nas ruas e nas praças, e procissões gerais, com cânticos e rezas a que afluíam m ilhares de pessoas e que culm inavam com a procissão de penitência, perfeitam ente organizada: prim eiro as crianças de todos os povoados com seus professores, levando a um Menino Jesus num andor e seguidos dos hom ens sem traj e especial para a procissão. Atrás deles os penitentes com túnicas brancas, roxas ou negras, um sim ples lençol cobrindo a quem não dispunha de túnica, com cruzes às costas, coroas de espinhos na cabeça e cordas no pescoço; seguiam -nos os que envolviam seus corpos em sarças, se deslocavam de j oelhos ou até arrastando-se no chão; depois os crucificados, com os braços em cruz am arrados a paus; os da “disciplina seca”, entre os quais se encontravam até crianças de dez anos que castigavam suas costas com cordas de cinco línguas, e entre estes, e adiante do clero, as autoridades, as m ulheres e o coro que encerravam a procissão, os disciplinantes de sangue, aqueles que arrancavam a pele a lategadas.

Anteriorm ente a essa excelsa m anifestação pública de contrição, os m issionários haviam ido preparando os fiéis. No m eio do tem po da m issão, e com o sentim ento de culpa das pessoas exacerbado pelas pregações, o sino da igrej a cham ava à disciplina nas noites, e os hom ens acorriam ao tem plo. Um a vez que se achavam todos em seu interior, fechavam -se as portas e Frei Pedro subia ao púlpito.

– Não é suficiente que vossos corações se arrependam ! – advertia aos gritos durante o serm ão.

– É necessário que vossos sentidos tam bém sofram , porque, se deixais o corpo sem castigo, as tentações, as paixões e os m aus hábitos os levarão de novo ao pecado.

Quando o sacerdote finalizava sua arenga, fazia soar um a sineta para indicar que se iam a apagar as velas e archotes que ilum inavam a igrej a, m om ento em que Frei Joaquín, com o as centenas de hom ens que se aglom eravam no tem plo, se despia. “Nós, os religiosos, devem os dar o exem plo”, exortava-o Frei Pedro. Já na escuridão, a sineta repicava três vezes e o som dos golpes das correias e dos látegos sobre a carne se m esclava ao Miserere entoado pelo coro em sinistra cerim ônia.

Na escuridão, trem endam ente turbado pelo som das lategadas e dos lam entos dos reunidos, pelo Miserere incitando-os ao arrependim ento, pela potente voz de Frei Pedro cham ando-os a expiar seus pecados por cim a de todos aqueles sons, Frei Joaquín trincava os dentes e castigava a carne com dureza diante do rosto de um a Milagros que lhe aparecia lum inoso, fantasm agórico.

Mas, quanto m ais se flagelava, m ais lhe sorria a m oça, e lhe piscava ou troçava dele m ostrando-lhe a língua com m alícia.

Depois de deixar São Jacinto sem que o porteiro quisesse dizer-lhes onde estava Frei Joaquín, María não conseguiu reter Milagros m ais que duas horas recolhendo ervas. Novem bro não era boa época, em bora encontrassem alecrim e bagas secas de sabugueiro; em todo caso, pensou a curandeira, nada bom lhes proporcionaria a m ãe terra com um a delas ressum ando ódio, m aldizendo e chorando, pois a m oça saltava da dor e do pranto para os insultos à Igrej a, a Jesus Cristo, à Virgem e a todos os santos, ao rei, aos payos e ao m undo inteiro. A velha sabia que não era essa a disposição com que se devia aproxim ar-se da natureza. As doenças eram originadas pelos dem ônios ou pelos deuses, razão por que não havia que contrariar os espíritos da terra que lhes proporcionavam os rem édios contra a vontade daqueles seres superiores.

Não conseguiu que Milagros m udasse de atitude. Nas duas prim eiras vezes em que lhe cham ou a atenção, a m oça nem sequer lhe respondeu.

– Que m e im portam os espíritos e suas m alditas ervas! – esbravej ou a m oça na terceira vez que a velha a repreendeu. – Pedi que libertem m eus pais!

Caridad benzeu-se várias vezes diante daquela afronta à natureza; María decidiu que regressassem a Triana.

Já no arrabalde, no entanto, perguntou-se se não teria sido preferível perm anecer nos cam pos, m esm o com risco de ofender os espíritos.

– Se sei de tua m ãe? – repetiu Anunciación, um a Carm ona com que toparam no pátio do cortiço, j unto ao poço.

Antes de responder, a cigana interrogou María com o olhar. A velha anuiu: o que quer que significasse aquele olhar, um dia ou outro a m oça se inteiraria.

– Detiveram -na e encarceraram -na por sedição ao chegar a Málaga. A nós outras nos prenderam no arrabalde, num bairro fechado e vigiado. – Anunciación calou-se alguns instantes, baixou o olhar até o chão, suspirou com o para tom ar força e voltou a levantar o olhar para enfrentar-se a Milagros. – Eu a vi um m ês antes de m e libertarem : haviam -na açoitado…. não m uito! – acrescentou rapidam ente diante da expressão aterrorizada de Milagros –, vinte ou vinte e cinco lategadas se não m e engano. Haviam -lhe... raspado o cabelo. Levaram -na j unto conosco e a puseram no cepo durante quatro dias.

Milagros fechou os olhos com força na tentativa de espantar a im agem de sua m ãe no cepo.

María, no entanto, sim , a vira: as costas sangrando, aj oelhada no chão, com os pulsos e a garganta presos entre dois grandes m adeiros com buracos, a cabeça raspada e as m ãos pendendo por um dos lados.

Um lam ento agônico atroou na construção. Milagros levou am bas as m ãos ao cabelo e, enquanto gritava, arrancou duas bastas m echas. Quando ia repeti-lo, com o se pretendesse acom panhar a m ãe naquela vergonha, a cigana Carm ona se aproxim ou dela e a im pediu de continuar.

– Tua m ãe é forte – disse-lhe. – Ninguém escarneceu dela no cepo. Ninguém lhe cuspiu nem bateu. Todas… – em bargou-se-lhe a voz –, todas nós a respeitam os. – Milagros abriu os olhos. A cigana soltou as m ãos da m oça e levou um dedo a seu rosto para recolher um a lágrim a que corria pela face. – Ana não chorou apesar de m uitas de nós o term os feito em sua com panhia.

Sem pre se m anteve firm e, com os dentes trincados sem pre que esteve presa no cepo. Nunca se ouviu um lam ento de sua boca!

Milagros inspirou pelo nariz.

Anunciación calou o fato de que am iúde a am ordaçavam .

– Quantas vezes a castigaram ? – interveio María, estranhando.

– Bastantes – reconheceu Anunciación. Então apertou os lábios com o num m eio sorriso e deu um ligeiro golpe no ar com a cabeça. – Não seria estranho que agora m esm o voltasse a estar no cepo. – Até Caridad se ergueu ao ouvir aquelas palavras. – Sim , ela enfrenta os soldados se eles se excedem com algum a m ulher. Exige m elhor e m ais com ida, e que o m édico vá tratar das enferm as, e roupas que não tínham os e… tudo! Não tem m edo de ninguém , nada a am edronta.

Por isso não é de estranhar que a castiguem com o cepo.

– Não vos deu nenhum recado para a m enina? – inquiriu María após um breve silêncio.

– Sei que falou com Rosario antes que nos libertassem .

María anuiu com a recordação de Rosario na m ente: a esposa de Inocencio, o patriarca dos Carm onas.

– Onde está Rosario?

– Em Sevilha. Não tardará a regressar.

“Nunca te esqueças de que és um a Vega.” Tal foi a sucinta m ensagem que lhe transm itiu Rosario Carm ona na entrada do cortiço que dava para o pátio do Conde, Rafael García. Quase todos os ciganos libertos j á haviam voltado ao Beco de San Miguel, e o Conde havia convocado um conselho de anciãos.

– Isso é tudo? – estranhou Milagros.

– Sim – respondeu a velha Carm ona. – Pensa nisso, m oça – acrescentou antes de dar-lhe as costas.

Enquanto as pessoas chegavam ao pátio e passavam a seu lado, em purrando-a até, Milagros perm aneceu parada. Tentava entender as palavras de sua m ãe. Que devia pensar? Já sabia que era um a Vega! “Eu te am o”, haver-lhe-ia dito ela, é a prim eira coisa que lhe haveria feito chegar.

Teria gostado…

– Isso encerra tudo – ouviu dizer a María, que a pegou pelo braço e a puxou para afastá-la da entrada.

– Quê?

– Que essas palavras encerram tudo quanto poderia querer dizer-te tua m ãe: és um a Vega. És cigana, de um a fam ília que se orgulha de sê-lo, e deves ser forte e valente com o ela. Deves viver com o tal, com o cigana e com os ciganos. Deves lutar por tua liberdade. Deves respeitar os velhos e cum prir sua lei. E…

– Ela não m e am a? – interrom peu-a Milagros. – Ela não disse que m e am a nem que sente saudade de m im … nem que gostaria de estar com igo.

– Por acaso é preciso que te diga isso, m enina? Duvidas disso?

Milagros virou o rosto para a velha María. Caridad escutava a conversa diante das outras duas, agora encostadas na parede da casa do Conde enquanto continuava o desfile de hom ens e m ulheres.

– Por que não? Eu sei que sou um a Vega, porventura é preciso que m e lem bre isso?

– Sim , m enina, m as isso, ou sej a, que és um a Vega, tu poderias chegar a esquecer algum dia.

Ao contrário, o am or de tua m ãe te acom panhará até o túm ulo, queiras ou não. – A m oça franziu o cenho, pensativa. María deixou transcorrer alguns segundos e depois disse: – Vam os para dentro ou ficarem os sem lugar.

Juntaram -se aos ciganos que j á se acum ulavam diante da porta e entravam pouco a pouco, esprem idos.

– Tu não – advertiu a velha a Caridad. – Espera-nos em casa.

O pátio estava cheio; as escadas de acesso aos andares altos estavam cheias; os corredores que davam para o pátio estavam cheios. Só o círculo central, ali onde estavam sentados os velhos presididos pelo Conde, aparecia um pouco desim pedido. Três cadeiras vazias inform avam sobre os que ainda perm aneciam nos arsenais. Quando j á não cabia ninguém m ais, com alguns até aboletados em grades e j anelas, Rafael García deu início ao conselho.

– Calculam os… – ergueu um a m ão e esperou que se fizesse silêncio –, calculam os – repetiu então – que cerca de m etade dos ciganos detidos foi posta em liberdade.

Um m urm úrio de desaprovação recebeu suas palavras. O Conde voltou a esperar, passeou o olhar entre os assistentes e topou com a velha María e Milagros, que haviam conseguido infiltrar-se até as prim eiras filas. Apontou para a m oça; o dedo em que antes se destacava um im ponente anel de ouro aparecia nu após o em bargo de bens.

– Que fazes tu aqui? – Sua voz calou os com entários que ainda podiam ouvir-se.

Muitos se voltaram para as m ulheres; outros, de trás, perguntaram o que estava sucedendo, e alguns se debruçaram sobre as grades dos corredores para ver m elhor.

– Não podes ficar no beco – acrescentou.

Milagros se sentiu apequenar e se encostou ainda m ais à velha.

– Rafael – interveio María –, guarda teu rancor. Não crês que a situação o m erece? Os pais da m oça ainda estão presos e…

– E continuarão presos! – interrom peu-a o Conde. – Por sua culpa fom os detidos e nos encontram os nesta situação, sem bens, sem ferram entas, sem com ida nem dinheiro, sem … sem sequer roupa. – O Conde m ostrou sua cam isa esfarrapada puxando-a com am bas as m ãos. Os m urm úrios voltaram a elevar-se. – E tudo pelo em penho dos Vegas e de outros com o eles de não se aproxim ar dos payos nem acatar suas leis.

– A única lei que devem os acatar é a cigana, a nossa! – gritou a curandeira calando os dem ais.

Os ciganos debateram consigo m esm os: sentiam que assim devia ser, que sem pre havia sido assim . Isso era o que todos eles desej avam ! No entanto…

– Deixa-a. – Foi Rosario quem falou dirigindo-se a seu esposo, o patriarca dos Carm onas sentado à esquerda do Conde. – Essa lei de que fala María Vega é a que levou a m ãe da m oça a defender-nos em Málaga. E continuará fazendo-o, eu sei. – Depois Rosario procurou entre os presentes Josefa Vargas, a m ãe de Alej andro, o j ovem que havia perdido a vida pelo capricho de Milagros. – Que dizes tu? – perguntou-lhe após encontrá-la entre os presentes.

A m ulher falou lentam ente, com o se ao m esm o tem po que o fazia revivesse a cena.

– Ana Vega brigou com um soldado que se atreveu a tocar m inha filha. – Milagros sentiu que se lhe arrepiavam os pelos e que lhe apertava a garganta. – Isso lhe custou um espancam ento.

Não consigo saber quem tem razão sobre a lei que devem os seguir, se os Garcías ou os Vegas, m as deixai em paz sua filha.

– Assim sej a – acrescentou então o patriarca dos Vargas, o bisavô de Alej andro.

Aquelas palavras significavam o perdão de Milagros; nada podia fazer Rafael García. Perto dele, a Trianeira, sua esposa, repreendeu-o com o olhar. “Eu te havia advertido”, parecia dizer-lhe. O Conde hesitou por alguns instantes, m as retom ou o fio da reunião.

– Eu, sim , sei que leis devem os seguir. A cigana, naturalm ente, a nossa. Ninguém porá em dúvida o sangue dos Garcías! – exclam ou arrostando a María. – Mas tam bém devem os cum prir a dos payos. Nada im pede que o façam os. Sobretudo, devem os aproxim ar-nos de sua Igrej a, ainda que sej a enganando-os. Pensam os nisso – acrescentou apontando para os dem ais patriarcas

–, e decidim os que devem os criar um a confraria…

– Um a confraria? – esbravej ou um a voz indignada.

– Foram os padres que nos detiveram ! – gritou outro. – São eles que nos libertam ou nos m antêm encarcerados.

María negava com a cabeça.

– Sim – afirm ou o Conde com o se respondesse a ela diretam ente. – Um a confraria de penitentes. A confraria dos ciganos. Igual às dos payos, com o a do Cristo do Grande Poder, a das Cinco Chagas de Cristo ou a do Santíssim o Cristo das Três Quedas; com o qualquer das m uitas confrarias que saem em procissão na Sem ana Santa. Não será fácil, m as tem os de consegui-lo. E tudo isso – apontava para María, que continuava negando – sem deixar de cum prir nossas leis nem renunciar a nossas próprias crenças, entendes, velha?

– Com que dinheiro vam os fazer tudo isso? – perguntou um cigano.

– As confrarias são m uito caras – advertiu outro. – É preciso conseguir um a Igrej a que nos aceite, com prar as im agens, cuidar delas, m anter velas e lâm padas, pagar aos padres… Um a procissão pode chegar a custar dois m il reais!

– Esse é outro assunto – respondeu o Conde. – Não estam os falando de fundá-la j á. Isso nos tom ará tem po, anos provavelm ente, além do que, tal com o estão as coisas, hoj e não no-la autorizariam . E é verdade, não tem os dinheiro. Não nos vão devolver os bens que nos sequestraram .

O Conde aproveitou o discurso para deixar cair a notícia. Aquele era o verdadeiro m otivo do conselho: os ciganos queriam ficar a par das diligências com o assistente de Sevilha. Neste m om ento se ergueu um a gritaria da assistência.

Rafael García e os dem ais patriarcas esperaram que as pessoas se acalm assem .

– Recuperem o-los nós! – ouviu-se ao final.

– Não. – Foi Inocencio, o chefe dos Carm onas, quem se opôs. – Um de nós esfaqueou um padeiro de Santo Dom ingo porque ele não lhe devolvia duas m ulas. Encarceraram -no.

– Não conseguiríam os nada – lam entou-se o patriarca dos Vargas.

Rafael García voltou a tom ar a palavra.

– Am eaçaram -nos de voltar a encerrar-nos em La Carraca se reclam ássem os nossos bens.

– Mas o rei disse…!

– É verdade. O rei disse que no-los devolvessem . E? Pensas em ir reclam á-los a ele?

Os ciganos voltaram a discutir entre si.

– Essa é a lei que pretendes que acatem os, Rafael García? – foi a voz de María a que se ergueu, outra vez, dentre as discussões.

O Conde aguardou com os olhos cravados na curandeira.

– Sim , velha – lançou-lhe por fim com ira. Milagros chegou a encolher-se de tem or. – Essa m esm a. A m esm a que vêm aplicando-nos a vida toda. Que tanto estranhas? Os payos sem pre fizeram o que quiseram . Quem quiser pode ir ao Real Tribunal para reclam ar seus bens. Eu não o farei. Já ouviste o que ocorre em Málaga com as m ulheres. Em La Carraca nos tratavam pior que aos escravos m ouros. Não, não os reclam arei; prefiro trabalhar para os ferreiros de Sevilha.

Eles necessitam de nós. Vão proporcionar-nos tudo quanto necessitem os. Meus netos não apodrecerão nesse arsenal trabalhando a vida toda, com o cães, para o rei e sua m aldita arm ada.

Milagros seguiu a m ão de Rafael García que, para acom panhar suas palavras, apontou para sua fam ília. Pedro! Pedro García! Não se havia apercebido de sua presença no m eio de tanta gente. Tal com o seus prim os Carm onas, estava m acilento e consum ido, e no entanto… todo ele seguia irradiando força e orgulho.

A m oça não chegou a assistir ao restante do conselho. Vender-se aos ferreiros sevilhanos?

Sangrá-los-iam . E que outra possibilidade tinham ? Milagros não podia desviar a atenção de Pedro García. Rafael, seu avô, surpreendeu a todos anunciando que estava negociando com os payos para que sua fam ília com eçasse a trabalhar sem m ais dem ora. Ao final, o j ovem se sentiu observado. Com o não ia perceber aquele olhar que parecia querer tocá-lo? Virou-se para Milagros. “Que sucederá com os que ainda estão presos?”, perguntou alguém . Os velhos m ostraram seu pessim ism o e baixaram a cabeça, negaram ou apertaram os lábios com o se fossem incapazes de responder. “Insistirem os em sua liberdade”, prom eteu o Conde sem convicção.

Pedro García se m antinha hierático do outro lado do pátio, diante de Milagros, que notou um a sutil fraqueza nas pernas, com o um a com ichão. “Com o vam os insistir em sua libertação se nem sequer som os capazes de reclam ar o que nos pertence?”, clam ou um a cigana gorda. Quando os ciganos voltaram a envolver-se em discussões, a m oça acreditou observar que Pedro entrecerrava os olhos alguns instantes antes de deixar de olhá-la. Significava algo? Havia reparado nela?