A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 35 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 35

Areclusão das ciganas com seus pequenos na Real Casa da Misericórdia de Saragoça converteu a instituição beneficente num correcional, por m ais que a j unta que a regia se negasse a adm iti-lo. Os castigos se generalizaram : açoites, cepo, grilhões e isolam entos a pão e água.

Suspenderam -se as saídas dos internos de confiança; im pediu-se a transferência dos doentes para o hospital e instalou-se um a precária enferm aria; as ciganas foram separadas das crianças e das m oças que podiam trabalhar, e im pediu-se-lhes o m enor contato com os dem ais reclusos; até se suspenderam as m issas e serm ões porque não havia sacerdote que ousasse pôr-se diante de centenas de m ulheres sem inuas. Os soldados vigiavam para im pedir a fuga das ciganas, m as, apesar disso, estas conseguiam o que não conseguiam seus esposos e filhos nos arsenais e furavam o tapum e de adobe que tentava proteger o lugar. Depois corriam por Saragoça até que eram detidas ou conseguiam enganar soldados e aguazis e lançavam -se aos cam inhos.

Certa feita chegaram a fugir um as cinquenta delas. O regedor, encolerizado, ordenou que todas as ciganas fossem aloj adas nos porões das galerias, que não tinham j anelas para o exterior.

Não havia dinheiro para instalar grades; não havia dinheiro, por m ais que o houvesse prom etido Ensenada, para alim entar a todo aquele exército de esfarrapadas; não havia dinheiro para proporcionar-lhes cam as, que elas chegavam a com partilhar de três em três, nem roupa, nem cobertores, nem sequer pratos ou tigelas para com er.

E a situação explodiu. As ciganas se queixaram da execrável ração que lhes davam e das condições dos porões em que se am ontoavam : úm idos e sem ventilação, lúgubres, m alsãos.

Ninguém prestou atenção a suas reclam ações, e elas responderam com tudo quanto se achava ao redor: destroçaram os catres e os lançaram j unto com seus colchões aos dois poços negros da Misericórdia. A insalubridade que se seguiu à obstrução dos poços originou um a epidem ia de sarna que atacou duram ente as m ulheres. A coceira, que as im pedia até de dorm ir e que com eçou entre os dedos, nos cotovelos, nas nádegas e sobretudo nos m am ilos, veio a converter-se em crostas de sangue ressecado devido às coçaduras, crostas debaixo das quais se escondiam m ilhares de ácaros e seus ovos e que havia que arrancar para poder tratá-las com um unguento à base de enxofre com que o m édico tentou com bater a enferm idade; tam bém tentou sangrá-las, m as elas se opuseram . Meses depois, a sarna reapareceu. Algum as velhas faleceram .

Ana Vega não foi das que fugiram daquele cárcere. Todo dia, de m anhã e de noite, tentava vislum brar Salvador quando, com outros ciganinhos e crianças das ruas, o levavam para trabalhar nas propriedades da Misericórdia. Saíam de Saragoça para cultivar grãos ou para cuidar dos olivais e colher azeitonas para fazer azeite. Apesar de o contato estar proibido, Ana e outras ciganas se aproxim avam quanto podiam da fila de crianças que m archavam para os cam pos. Castigaram -nas. Algum as deixaram de fazê-lo, m as ela continuou. Castigaram as crianças; advertiram -nas de que o fariam , e lhes disseram : “Ontem ficaram a pão e água por vossa própria culpa.” Em bora então as dem ais tivessem desistido, Ana não se deixou convencer: algo a im peliu a esquivar-se do porteiro e aproxim ar-se outra vez. Salvador a prem iou alargando a boca num esplêndido sorriso, orgulhoso.

Um a m anhã o porteiro que acom panhava as crianças não fez seus costum eiros trej eitos para que Ana se afastasse da passagem dos m eninos. Ela o estranhou, e m ais ainda quando ouviu risos na fila. Procurou a Salvador. Um dos m eninos o assinalou escondido entre outros que riam e que se afastaram para perm itir-lhe a visão: Salvador portava um “colarinho” de m adeira a m odo de golilha que envolvia todo o seu pescoço e que o obrigava a andar erguido, com o queixo grotescam ente alçado. O m enino evitou cruzar o olhar com ela. Ana conseguiu ver os dentes crispados do pequeno entre uns lábios que trem iam e se contraíam ao ritm o das troças dos outros.

– Podes tirá-lo – conseguiu dizer ao porteiro com voz trêm ula; as lágrim as que não haviam brotado com açoites e m il outros castigos corriam por suas faces.

O porteiro, barrigudo e m al-encarado, cham ado Frías, dirigiu-se a ela.

– Deixarás de aproxim ar-te?

Ana anuiu.

– Prom etes?

Anuiu de novo.

– Quero ouvir-te dizer que sim .

– Sim – cedeu ela. – Eu prom eto.

A hum ilhação veio a converter-se na pior das penas que as cultivadas autoridades da época im puseram aos m enores. Sucedeu que as m oças ciganas que haviam sido destinadas às oficinas de costura da Misericórdia se negaram a trabalhar por não receber a com ida que lhes correspondia.

A decisão do regedor foi tirar-lhes as roupas e o calçado que lhes haviam proporcionado e enviá-

las com as dem ais. Dezenas de j ovens ciganas se encontraram de repente com pletam ente nuas em pátios e galerias, envergonhadas, tentando ocultar o corpo, o púbis e os peitos, nascentes em um as, túrgidos em outras, aos olhares de suas m ães e dos dem ais internos. Em alguns dias a m edida foi anulada pela j unta de governo, m as o m al estava feito.

Ana Vega, com o m uitas outras, padeceu durante esses dias não só a desonra das m oças, m as a sua própria. Aqueles j ovens corpos, o pudor com que defendiam sua honra a levaram a reparar em si m esm a.

– O que nos fizeram ? – lam entou-se diante de seus peitos flácidos e ressecados, a pele da barriga, do pescoço e dos braços pendendo-lhe, m arcada pelos vergões dos açoites e pelas sequelas da sarna.

“Ainda sou j ovem ”, ela se disse. Não fazia quatro anos seu andar despertava o interesse dos hom ens e suas danças levantavam paixões entre eles. Em vão, tentou reviver as chispas de vaidade que acom panhavam aquelas olhares im pertinentes à sua passagem , ou os estím ulos, as palm as e os gritos do público diante de um voluptuoso requebro; a respiração acelerada de algum hom em quando dançavam j untos e ela lhe roçava seus peitos. Olhou para as m ãos esfoladas. Não dispunha de espelho.

– Com o é m eu rosto? – perguntou repentinam ente inquieta, no porão onde se am ontoavam , sem dirigir-se a ninguém em particular.

Tardaram a responder-lhe.

– Olha para m im e o saberás.

A resposta veio de um a cigana de Ronda. Ana se recordava dela em Málaga: um a m ulher bela de cabelo preto-azulado e olhos da m esm a cor, rasgados, brilhantes, inquisidores. Não quis verse refletida na rondenha, em suas rugas, em seus dentes pretos e em seus pôm ulos salientes, nas olheiras roxas que agora circundavam uns olhos apagados.

– Cães! – m aldisse.

Muitas das ciganas que se achavam j unto a ela se olharam , reconhecendo-se um as nas outras, com partilhando em silêncio a dor pela beleza e pela j uventude que lhes haviam arrebatado.

– Agora olha para m im , Ana Vega!

Tratava-se de um a velha consum ida, quase careca, desdentada. Cham ava-se Luisa e pertencia à fam ília Vega, com o quase um a vintena das que haviam sido detidas na ciganaria do horto da Cartuxa. Ana a olhou. “Esse é o m eu destino?”, pensou. Era isso o que pretendia dizer-lhe a velha Luisa? Obrigou-se a sorrir-lhe.

– Olha-m e bem – insistiu a outra, não obstante. – Que vês?

Ana abriu as m ãos num gesto de incom preensão, sem saber o que responder-lhe.

– Orgulho? – perguntou-se a velha a m odo de resposta.

– Para que nos serve?

Ana acom panhou sua pergunta com um gesto displicente.

– Para que sej as a m ulher m ais bela da Espanha. Sim – afirm ou Luisa diante da indolência com que a outra recebeu o elogio. – O rei e Ensenada podem separar-nos de nossos hom ens para que deixem os de ter filhos. Isso é o que dizem pretender, não? Acabar com a nossa raça. Podem tam bém espancar-nos e m atar-nos de fom e; podem até roubar-nos a form osura, m as nunca poderão tirar-nos o orgulho.

As ciganas haviam deixado de com padecer-se e escutavam erguidas a velha.

– Não desanim es, Ana Vega. Tu nos defendeste. Lutaste pelas dem ais, e te rasgaram a pele por fazê-lo. Essa é a tua beleza! Não queiras ter nenhum a outra, m enina. Algum dia se esquecerão de nós, os ciganos, com o sem pre sucedeu. Eu não o verei.

A velha calou-se por um instante, e ninguém se atreveu a rom per seu silêncio.

– Quando chegar esse dia, não devem ter conseguido dobrar-nos, entendeis vós todas? –

acrescentou com um a voz rouca, passeando um triste olhar pelo porão. – Fazei-o por m im , pelas que ficarem os para trás.

Nessa m esm a noite, Ana correu para ver as crianças que voltavam de trabalhar os cam pos.

– Tu m e prom eteste… – com eçou a queixar-se o porteiro.

– Frías, nunca te fies na palavra de um a cigana – interrom peu-o ela, j á procurando a Salvador entre os dem ais com o olhar.