A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 41 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 41

– Avisai a ronda.

– Que aconteceu? – Muitos dos vizinhos do im óvel se aglom eraram ao redor do frade. Dois deles portavam candeias. “Está ferido?”, repetia um a m ulher que não parava de tocá-lo. Frei Joaquín ofegava, congestionado, trêm ulo. Não conseguia ver Milagros no interior da habitação.

Sim , ela estava ali: havia deslizado ao longo da parede e perm anecia acocorada, nua. Conseguiu entrever a luz tênue, as pessoas apinhadas no patam ar. “Aquela canalha lhe fez algum m al?”, insistiu a m ulher. “Olhai”, ouviu ele então. Assaltou-o a angústia ao perceber que a m aioria dos presentes se virava e concentrava a atenção na cigana. Não deviam vê-la nua! Safou-se da im pertinente que apalpava seus braços e conseguiu abrir cam inho aos em purrões.

– O que é que os senhores estão olhando? – gritou antes de fechar a porta atrás de si.

Chegou a sentir o repentino silêncio e observou Milagros. Quis aproxim ar-se dela, m as em vez disso perm aneceu um instante j unto à porta. A cigana não reagia, com o se ninguém houvesse entrado.

– Milagros – sussurrou.

Ela continuou com o olhar perdido. Frei Joaquín se aproxim ou e se acocorou. Lutou por evitar que seus olhos se desviassem para os peitos da m oça ou para…

– Milagros – apressou-se a sussurrar de novo –, sou Joaquín, Frei Joaquín.

Ela ergueu um rosto inexpressivo, vazio.

– Virgem Santa, que fizeram contigo?

Desej ou abraçá-la. Não ousou. Alguém bateu à porta. Frei Joaquín esquadrinhou a peça. Com a m ão ergueu a cam isa rasgada da cigana, no chão. A saia… Bateram com m ais força.

– Abri para a j ustiça!

Não podia consentir que a vissem nua, em bora tam pouco se atrevesse a vesti-la, a tocar…

– Abri!

O religioso se pôs de pé e se despoj ou do hábito, que acom odou sobre os om bros da cigana.

– Levanta-te, eu te peço – sussurrou-lhe.

Abaixou-se e a segurou pelo cotovelo. A porta foi arrom bada pelo im petuoso golpe de om bro de um dos aguazis j usto quando Milagros obedecia com docilidade e se ficava de pé. Com m ãos trêm ulas, alheio às pessoas que entravam no côm odo, o frade fechou o colchete do hábito em cim a dos peitos de Milagros e se virou para deparar com um par de aguazis e com os vizinhos do andar, que observavam a cena, perplexos e desconcertados, apesar de o hábito, fechado, ir até o chão e im pedir que se entrevisse o corpo da m ulher. De repente Frei Joaquín com preendeu que não olhavam para ela, m as para ele. Despoj ado do hábito, um a velha cam isa e uns sim ples calções surrados constituíam toda a sua vestim enta.

– Por que esse escândalo todo? – inquiriu um dos aguazis depois de perscrutá-lo de alto a baixo.

O exam e a que se viu subm etido envergonhou o religioso.

– O único escândalo que m e consta – rebelou-se com o se com isso pudesse im por-se – é o que fizeram os senhores ao arrom bar a porta.

– Reverendo – replicou o outro –, o senhor está em roupas íntim as com … com a Descalça –

arrastou as palavras antes de continuar: – um a m ulher casada que veste seu hábito e que ao que parece…

O aguazil apontou então para as pernas de Milagros, ali onde o hábito se abria ligeiram ente e perm itia vislum brar a form a de suas coxas.

– Está nua. Não lhe parece escândalo suficiente?

Os m urm úrios dos vizinhos acom panharam a declaração. Frei Joaquín exigiu calm a com um m ovim ento das m ãos, com o se pudesse assim refrear as acusações dos que o observavam .

– Tudo tem explicação…

– É precisam ente isso o que lhe pedi no princípio.

– Está bem – cedeu ele –, m as é necessário que toda Madri fique sabendo?

– De volta todos para suas casas! – ordenou o aguazil após refletir por alguns instantes. – Já é tarde, e am anhã terão de trabalhar. Fora daqui! – term inou gritando diante de seu rem anchar.

Afinal não soube com o explicá-lo. Devia denunciar Pedro García? Não a havia ferido; ninguém o levaria em consideração. O cigano voltaria… Por outro lado, se acreditassem na denúncia, o que sucederia então com Milagros? Havia casos de testem unhas que eram encarceradas até que chegasse o j ulgam ento, e Milagros… j á havia tido bastantes problem as com a j ustiça. Que fazia ele, um frade, ali, na casa da Descalça?, perguntou-lhe de novo o aguazil sem deixar de olhar para Milagros, que continuava indiferente a tudo quanto sucedia, envolta no hábito. Frei Joaquín continuava pensando: queria ficar com Milagros, aj udá-la, defendê-la…

– Quem o atacou no patam ar? – quis saber o aguazil. – Os vizinhos diziam …

– Sua Excelência o m arquês de Caj a! – im provisou o religioso.

– O m arquês o atacou?

– Não, não, não. Quero dizer que o senhor m arquês lhes fornecerá quantas referências desej arem sobre m im ; disponho do benefício de sua capela particular… só… fui o tutor da senhora sua senhora, a m arquesa, e…

– E ela?

O aguazil apontou para Milagros.

– Conhecem sua história? – Frei Joaquín franziu os lábios ao voltar-se para a cigana. Não viu os aguazis, m as soube que am bos haviam assentido. – Necessita de aj uda. Eu m e encarregarei dela.

– Terem os de dar parte deste incidente à Sala de Alcaides, com preende?

– Falem prim eiro com Sua Excelência. Eu lhes peço.

Acordou-a o bulício da rua May or, estranho, diferente do da rua del Am or de Dios. A luz que entrava pela j anela feriu seus olhos. Onde estava? Um catre. Um côm odo estreito e alongado com … Tentou fixar a visão: um a im agem da Virgem presidindo à peça. Mexeu-se na cam a.

Gem eu ao sentir-se nua debaixo da m anta. Haviam -na forçado outra vez? Não, não podia ser.

Sua cabeça queria rebentar, m as pouco a pouco ela recordou vagam ente a ponta da navalha de Pedro percorrendo seu corpo, em seu pescoço, e o olhar assassino de seu esposo. E depois? Que havia sucedido depois?

– Já acordaste?

A im periosa voz da velha desconhecida não acom panhava seus m ovim entos, lentos, dolorosos.

Ela se aproxim ou com dificuldade e deixou cair um a roupa sobre a cam a; a sua, verificou Milagros.

– Vai dar m eio-dia, veste-te – ordenou-lhe.

– Dá-m e um pouco de vinho – pediu ela.

– Não podes beber.

– Por quê?

– Veste-te – repetiu, rude.

Milagros se sentiu incapaz de discutir. A velha andou cansada até a j anela e a abriu de par em par. Um a corrente de ar fresco penetrou j unto com a algazarra da azáfam a dos m ercadores e do transitar das carruagens. Depois se encam inhou para a porta.

– Onde estou?

– Na casa de Frei Joaquín – respondeu ela antes de sair. – Parece que te conhece.

Frei Joaquín! Era esse o elo que lhe faltava para encadear suas recordações: a pelej a, os gritos, o frade acocorado diante dela, os aguazis, as pessoas. Havia aparecido inesperadam ente e a salvara da m orte. Haviam transcorrido cinco anos desde a últim a vez que se viram . “Eu lhe disse que ele era boa pessoa, María”, m urm urou. Os tem pos felizes em Triana arranharam um sorriso em sua boca, m as de repente recordou que quando o frade irrom pera na casa ela estava nua.

Voltou-o a ver de cócoras diante dela, diante dela m esm a nua e bêbada. O ardor do estôm ago subiu até sua boca. Quanto m ais saberia ele de sua vida?

Tranquilizou-a saber por Francisca que Frei Joaquín havia saído cedo. “À casa do m arquês, seu protetor”, acrescentou a velha. Milagros queria vê-lo, m as ao m esm o tem po tem ia encontrar-se com ele.

– Por que não aproveitas agora? – interrom peu seus pensam entos a velha, após aproxim ar-lhe um a tigela de leite e um pedaço de pão duro; a cigana j á estava vestida.

– Aproveitar… para quê?

– Para ir em bora, para voltar para os teus. Eu diria ao frade que…

Milagros deixou de ouvi-la, sentia-se incapaz de explicar-lhe que não tinha ninguém com quem se socorrer nem lugar aonde ir. Pedro havia tentado m atá-la em sua própria casa; portanto, para ali não podia voltar. Frei Joaquín a havia salvado, e, em bora ainda não encontrasse explicação para sua presença, estava certa de que a aj udaria.

– Tenho de encontrar m inha filha.

Com essas palavras, titubeantes, recebeu a cigana ao frade. Esperava-o em pé, de costas para a j anela que dava para as Platerías. Ouviu que se abria a porta da peça e que Frei Joaquín cochichava com Francisca. Olhou suas roupas e se em penhou em alisar a saia com a m ão. Ouviu-o andar pelo corredor. Alisou tam bém o cabelo, áspero, feridor.

Ele sorriu da porta do quarto. Nem ele nem ela se m overam .

– Com o se cham a tua m enina? – perguntou.

Milagros fechou os olhos com força. Sentiu um forte nó na garganta. Ia chorar. Não podia.

Não queria.

– María – conseguiu articular.

– Bonito nom e. – Frei Joaquín acom panhou a afirm ação com um a sincera e carinhosa expressão do rosto. – Nós a encontrarem os.

A cigana desabou diante da sim ples prom essa. Quanto tem po fazia que ninguém lhe m ostrava afeto? Lascívia, cobiça; todos desej avam seu corpo, seus cantos, suas danças, seu dinheiro.

Quanto tem po fazia que não lhe proporcionavam consolo? Buscou apoio no m arco da j anela.

Frei Joaquín deu um passo para ela, m as se deteve. A suas costas apareceu Francisca, que se lhe adiantou sem sequer olhar para ele e se aproxim ou de Milagros.

– Que pensa fazer com ela, padre? – inquiriu com desgosto ao m esm o tem po que acom panhava a cigana até a cam a.

Frei Joaquín reprim iu o im pulso de aj udar a velha e contem plou com o a outra conseguia recostar Milagros com dificuldade.

– Está bem ? – perguntou por sua vez.

– Estaria m elhor fora desta casa – replicou a outra.

Milagros dorm itou o que restava do dia. Em bora seu corpo necessitasse disso, os sonhos a atorm entavam e não a deixavam descansar. Pedro, navalha na m ão. Sua m enina, María. Seu corpo nas m ãos dos nobres, ultraj ado. Os mosqueteros do Príncipe vaiando-a… No entanto, quando abria os olhos e reconhecia o lugar onde se encontrava, tranquilizava-se e seus sentidos ficavam aletargados até ela entrar de novo em sonolência. Francisca a velou.

– Podes descansar um tem po se o desej ares – ofereceu o frade à velha ao fim de algum as horas.

– E deixá-lo a sós com esta m ulher?

De seu quarto, Milagros ouvia as vozes de Frei Joaquín e Francisca, que discutiam .

– Por quê? – repetia ele pela terceira vez.

Não o havia visto ao longo de toda a m anhã. “Está lá fora”, lim itou-se a responder-lhe Francisca antes de ir à m issa e deixá-la sozinha. Milagros ouvira regressar a am bos, m as, quando ia sair ao corredor, as vozes a haviam detido. Sabia que ela era a causa da discussão e não queria presenciá-la.

– Porque é cigana – explodiu ao fim a velha lavadeira diante da insistência do religioso –, porque é um a m ulher casada e porque é um a puta!

Milagros cravou as unhas nas m ãos e fechou os olhos com força.

Ela o havia dito. Se Frei Joaquín não se havia inteirado disso antes, a partir desse m om ento j á o sabia.

– É um a pecadora que necessita de nossa aj uda – ouviu-o responder.

“Frei Joaquín j á sabe!”, pensou Milagros. Não o havia negado, suas palavras não haviam denotado surpresa algum a: “pecadora”, havia-se lim itado a dizer.

– Eu te tratei bem – acrescentava Frei Joaquín. – É assim que m e agradeces, abandonando-m e quando m ais necessito de ti?

– O senhor não necessita de m im , padre.

– Mas ela… Milagros… E tu? Para onde irás?

– O padre de São Miguel m e prom eteu… – confessou a velha depois de alguns segundos de silêncio. – É pecado viver sob o m esm o teto com partilhado por um a prostituta e por um religioso – pretendeu desculpar-se.

A paróquia de São Miguel era aonde ia Francisca todo dia à m issa. A velha lhe pediu com um gesto cansado que a deixasse sair, e Frei Joaquín se afastou.

Don Ignacio, o m arquês de Caj a, j á não podia fazer nada. “Vão fechar-se para o senhor todas as portas de Madri”, havia-o advertido quando ele insistira em continuar com Milagros. Por sorte, o nobre conseguira solucionar a denúncia.

– Posso interm ediar diante dos m inistros de Sua Maj estade e diante da Sala de Alcaides –

havia-lhe dito –, m as não posso calar os rum ores que os vizinhos e os aguazis espalharam …

– Não há nada de pecam inoso em m eu proceder – defendeu-se ele.

– Não serei eu quem o vai j ulgar. Eu o tenho em apreço, m as a im aginação das pessoas é tão vasta com o sua m aledicência. A insídia o im pedirá de ter acesso a todas aquelas pessoas que até agora o beneficiavam com sua am izade ou sim plesm ente com sua com panhia. Ninguém quererá ver-se relacionado com a Descalça.

Quanta razão tinha ele! Mas não eram unicam ente os nobres. Nem sequer Francisca, aquela lavadeira que ele havia salvado de um a m orte certa nas ruas de Madri, aceitava a situação. “Está arruinando a sua vida, padre”, avisou-o don Ignacio.

Fez-se silêncio na casa quando Frei Joaquín fechou a porta. Olhou para o quarto que dava para as Platerías, onde se encontrava Milagros. Tinha certeza de que não havia nada de pecam inoso em seu agir? Acabava de renunciar à capelania do m arquês por causa dessa m ulher.

Todo o benefício de um a Igrej a perdido por causa de um a cigana… De repente, a traição de Francisca havia convertido as advertências do m arquês num a dolorosa realidade, e assaltaram -no as dúvidas.

Milagros ouviu o frade dirigir-se para o quarto que dava para a pracinha de São Miguel, no extrem o oposto do estreito côm odo. A cigana acreditou perceber as sensações que invadiam o religioso na lentidão de seus passos. Frei Joaquín conhecia sua vida; ela havia estado toda a m anhã a fazer conj ecturas acerca do repentino e inesperado aparecim ento do frade e não encontrava explicação… Acreditou ouvir um suspiro. Saiu do quarto; seus pés descalços abafaram o som enquanto ela percorria o corredor. Encontrou-o sentado, cabisbaixo, as m ãos entrelaçadas na altura do peito. Ele percebeu sua presença e virou o rosto.

– Não é verdade – asseverou Milagros. – Não sou nenhum a puta.

O religioso sorriu com tristeza e a convidou a sentar-se.

– Jam ais m e entreguei voluntariam ente a um hom em que não fosse m eu esposo… – com eçou a explicar a cigana.

Nem sequer alm oçaram ; a fom e desapareceu ao com passo das confissões de Milagros.

Beberam água enquanto falavam . Ele observou seu prim eiro gole com certo receio; ela se surpreendeu saboreando um a bebida que não lhe arranhava a garganta nem lhe secava a boca.

“Cachita”, sussurrou com nostalgia Frei Joaquín diante do relato da m orte de seu pai. “Não chore!”, chegou a recrim iná-lo a cigana com a voz m eio tolhida ao contar-lhe sobre sua prim eira violação. A escuridão surpreendeu aos dois sentados, um a em frente ao outro: ele tentando encontrar naquele sem blante m arcado pelos sofrim entos um rastro da m alícia da m oça que lhe m ostrava a língua ou lhe piscava em Triana; ela espraiando-se, revoluteando diante de si um as m ãos de dedos descarnados, perm itindo-se chorar sem tem or algum enquanto vom itava seu desconsolo. Quando ficavam em silêncio, Milagros não abaixava o olhar; Frei Joaquín, perturbado por sua presença e por sua beleza, term inava desviando o seu.

– E o senhor? – surpreendeu-o ela rom pendo um daqueles m om entos. – O que o trouxe até aqui?

Frei Joaquín lhe contou, m as calou o m odo com o tentou livrar-se da lem brança dela flagelando-se durante as m issões, na escuridão das igrej as de povoados perdidos da Andaluzia, ou com o pouco a pouco term inou refugiando-se em seu sorriso, ou o afã com que, j á em Madri, ia ao Coliseo del Príncipe para ouvi-la e vê-la atuar. Por que ocultava seus sentim entos?, chegou a recrim inar-se. Tanto tem po sonhando com esse m om ento… E se ela o rechaçasse de novo?

– Veio até este ponto m inha vida – sentenciou pondo fim a suas dúvidas. – E ontem renunciei ao benefício da capela do m arquês – acrescentou a m odo de epílogo.

Milagros ergueu o pescoço ao ouvir a notícia. Deixou transcorrer um segundo, dois…

– Renunciou… por m im ? – perguntou por fim .

Ele fechou os olhos e se perm itiu o esboço de um sorriso.

– Por m im – afirm ou rotundam ente.

Am bos coincidiram em que Blas, o aguazil, era a pessoa que acom panhava Pedro quando este tentara m atar Milagros. Frei Joaquín lhe falou da cigana que havia visto sair do edifício carregando o colchão e um as trouxas. “Bartola”, esclareceu Milagros. “Abandonava a habitação”, sustentou o religioso. Tam bém lhe falou do aguazil cuj as palavras o haviam posto de sobreaviso quanto ao que ia acontecer lá em cim a.

– Blas. Com certeza que era ele – disse Milagros, em bora nem sequer se recordasse de sua presença. – Está sem pre com Pedro. Se alguém sabe do paradeiro de m eu espo… daquele canalha

– corrigiu-se –, esse é Blas. Ele tem de saber onde está m inha m enina.

Na m anhã seguinte, cedo, depois de com prar pão branco recém -saído do forno, algum as verduras e legum es e carneiro na praça May or, e de pagar a um asturiano da Puerta del Sol para que o acom panhasse de volta a casa com um cântaro de água dos grandes, Frei Joaquín por fim se preparou para ir em busca do aguazil. Milagros estava na porta. “Vá j á o senhor!”, ordenou-lhe ela para pôr fim às advertências do religioso: “Não saias; não abras para ninguém ; não respondas…”

“Vá de um a vez!”, gritou a cigana esperando ouvir seus passos afastar-se.

Frei Joaquín se apressou escada abaixo com o um m enino surpreendido num a travessura. O

bulício da rua May or e o im perativo de encontrar o aguazil, de aj udar a Milagros, de propiciar que não se apagasse aquele brilho que apareceu em seus olhos enquanto ele lhe prom etia solenem ente que encontrariam María, levaram -no a deixar de lado toda incerteza. Não sucedeu o m esm o com a cigana, que não parava de cam inhar pela casa desde o quarto que dava para a pracinha de São Miguel, no qual havia dorm ido Frei Joaquín, até o das Platerías, no qual se havia deitado ela.

Durante a noite não havia conseguido pegar no sono. E ele? Dorm ia?, havia-se perguntado sem parar na cam a. Às vezes lhe parecera que sim . Devia ser a prim eira vez em sua vida que passava a noite sem a com panhia de algum dos seus, e isso a intranquilizava. Afinal de contas, o frade era um hom em . Trem eu diante da sim ples possibilidade de que Frei Joaquín… Encolhida na cam a, deixou transcorrer as horas, atenta a qualquer m ovim ento que se produzisse no corredor, enquanto os rostos dos nobres que a haviam violado desfilavam diante dela. Nada sucedeu.

“É claro que não!”, disse-se ela de m anhã, após a partida de Frei Joaquín; a luz apagando receios e pesadelos. “Frei Joaquín é um bom hom em . Não é verdade?”, perguntou à Virgem da Im aculada Conceição que presidia seu côm odo; deslizou um dedo pelo m anto azul e dourado da im agem . A Virgem a aj udaria.

María era a única coisa que im portava agora. Mas que sucederia após recuperar a m enina?

Frei Joaquín j á lhe havia feito um a proposta anos antes, de m odo que não podia estar certa de suas pretensões. Milagros hesitou. Sentia por ele um profundo apreço, m as…

– Por que m e olhas? – Dirigiu de novo à im agem . – Que queres que eu faça? É tudo o que tenho; a única pessoa disposta a aj udar-m e; o único que m e… – Voltou a cabeça para o colchão.

Um m anto, um lenço, o lençol… Puxou-o e tapou com ele a im agem . – Quando recuperar María, decidirei o que fazer com relação a Frei Joaquín – afirm ou em direção ao vulto que perm anecia diante dela.

“Vês ali, m enina?” As palavras de Santiago Fernández quando cam inhavam pelo Andévalo ressoaram então em seus ouvidos, com o se o tivesse ao lado, com o se diante dela se abrissem aquelas im ensas extensões áridas, o velho patriarca apontando para o horizonte. “Esse é nosso rum o. Até quando? Que im porta! A única coisa que im porta é este instante.”

– A única coisa que im porta é o agora – soltou para a Virgem .

A Frei Joaquín custou encontrar o aguazil. “Faz ronda em Lavapiés”, havia-lhe assegurado Milagros, m as naquele dia se inaugurava a nova praça de touros de Madri, construída para além da porta de Alcalá, e as pessoas se haviam lançado à rua diante da que se presum ia um a grande corrida. O religioso andou pelas ruas de Magdalena, da Hoz, de Ave María e de outras tantas até que, de volta à praça de Lavapiés, distinguiu um par de aguazis vestidos com seus traj es pretos, golilhas e varas. Blas o reconheceu, e, antes que o frade chegasse até eles, desculpou-se com seu com panheiro, afastou-se dele e foi a seu encontro.

– Felicito Vossa Paternidade – exclam ou, estando j á um diante do outro. – O senhor fez o que eu não m e atrevi a fazer.

Frei Joaquín hesitou.

– Reconhece-o?

– Pensei m uito nisso, sim .

Eram suas palavras fruto do tem or de um a possível denúncia ou nasciam da sinceridade? O

aguazil im aginou o que passava pela cabeça do frade.

– Am iúde com etem os erros – tentou convencê-lo.

– Cham as erro ao assassinato de um a m ulher?

– Assassinato? – Blas fingiu contrariedade. – Eu deixei os ciganos num a discussão entre m arido e m ulher…

– Mas advertiste a cigana da rua de que tivesse cuidado, de que ele tam bém m ataria a ela –

interrom peu-o o outro.

– Um a form a de falar, um a form a de falar. Pretendia m atá-la m esm o?

Frei Joaquín m eneou a cabeça.

– Que sabes de Pedro García? – perguntou, e de im ediato calou com um gesto da m ão as evasivas do aguazil. – Necessitam os encontrá-lo! – acrescentou com firm eza. – Um a m ãe tem direito a recuperar sua filha.

Blas resfolegou, franziu os lábios e olhou para o ponto no chão onde apoiava a vara; recordava a tristeza da m enina.

– Foi-se de Madri – decidiu confessar. – Ontem m esm o tom aram um a diligência com destino a Sevilha.

– Tens certeza? A m enina estava com ele?

– Estava, sim . A m enina estava com ele. – Blas defrontou seu olhar com o do frade antes de prosseguir: – Esse cigano é m á pessoa, padre. Já nada podia obter em Madri, e, depois que o senhor interviesse, iam chover-lhe problem as. Ele se refugiará em Triana, com os seus, m as m atará a Descalça se ousar aproxim ar-se, eu asseguro; nunca perm itirá que ela revele aos dem ais o que sucedeu todos estes anos e lhe com plique a vida. – Fez um a pausa e depois acrescentou com seriedade: – Padre, não tenha dúvida de que, antes de tom ar essa diligência com destino à sua terra, Pedro García pagou a algum de seus parentes para m atar a Descalça. Eu o conheço, sei com o ele é e com o age. Com certeza, padre, com certeza. E eles o farão. Ela é um a Vega que j á não interessa a ninguém . Eles a m atarão… e ao senhor com ela.

Triana e m orte. Com o estôm ago encolhido e o coração acelerado, Frei Joaquín se apressou a regressar. Era de dom ínio público que ele havia abrigado Milagros: Francisca, o padre de São Miguel, os aguazis, todos o sabiam ; o m arquês o havia advertido. Que faria quem quisesse saber do paradeiro da cigana? Com eçaria por ir aos m oradores do lugar, e a partir daí qualquer pessoa podia inteirar-se de onde ela estava m orando. E se nesse preciso m om ento alguém estivesse irrom pendo em sua casa? Desesperado, desatou a correr. Nem sequer fechou a porta atrás de si quando correu para o quarto de Milagros cham ando-a aos gritos. Ela o recebeu de pé, a preocupação refletida em seu rosto diante do escarcéu.

– Que…? – quis perguntar a cigana.

– Rápido! Tem os… – Frei Joaquín calou-se ao ver a im agem da Im aculada Conceição coberta com o lençol. – E isso? – inquiriu apontando para ela.

– Estivem os falando e não chegam os a um acordo.

O frade abriu as m ãos em sinal de incom preensão. Depois m eneou a cabeça.

– Tem os de fugir daqui! – urgiu.