A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 14 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 14

Após o dia da grande batida, a desgraça com eçou a encarniçar-se sobre os ciganos, que ainda confiavam em superá-la, com o tantas outras vezes havia sucedido. Em 16 de agosto de 1749

de m anhã, cerca de trezentos ciganos de Sevilha foram conduzidos pelos soldados do cárcere real ao porto da cidade. Ali, acossados e insultados pelas pessoas, em barcaram em gabarras para ser transportados Guadalquivir abaixo ao arsenal de La Carraca, em Cádiz. Nesse m esm o dia de tarde, m ais de quinhentas m ulheres e seus filhos m enores partiram em galeras, carros e carrom atos guardados pelo exército com destino à alcáçova de Málaga, onde o m arquês de la Ensenada tinha previsto que fossem encarcerados.

O m esm o sucedia em toda a Espanha: por volta de doze m il ciganos, gente infam e e nociva no dizer das autoridades, haviam sido detidos na nefasta batida de fins de j ulho com um único obj etivo: a extinção de sua raça. Os hom ens e os m aiores de sete anos eram trasladados a La Carraca, se fossem sevilhanos; a Cartagena, no levante, ou ao Ferrol, no reino da Galiza; outros eram destinados às m inas de Alm adén para ser escravizados na extração do azougue com que se tratava a prata das Índias. Às m ulheres e seus pequenos trasladavam -nos a Málaga ou a Valência, aos castelos de Oliva e Gandía: elas eram consideradas até m ais perigosas que os hom ens: “Ter-se-á m uito particular cuidado”, dizia a ordem de j unho de 1749, “em assegurar e prender as m ulheres por ser m uito conveniente esta diligência para conseguir o fim a que se dirige esta providência tão im portante para a paz do reino.”

Toda essa gente era tão só um a parte da com unidade cigana espanhola, sendo além disso a que m ais esforços havia feito por assim ilar-se aos payos e assum ir sua cultura. Certam ente, originários da Índia, os ciganos haviam chegado à Europa no século XIV, uns através do Cáucaso e da Rússia, outros da Grécia, cruzando os Balcãs ou até percorrendo a costa m editerrânea africana. À Espanha chegaram em fins do século XIV em form a de grupos de nôm ades exóticos capitaneados pelos que se intitulavam condes ou duques do “pequeno Egito” e que asseguravam achar-se em peregrinação, para cuj os fins portavam cartas de apresentação do Papa e de diversos reis e nobres. De início foram bem recebidos, os senhores por cuj as terras transitavam os acolhiam e lhes garantiam sua segurança, m as essa situação durou pouco. Foram os Reis Católicos que ditaram a prim eira pragm ática contra os que então eram cham ados “egipcianos”: obrigavam -nos a sair do reino num prazo de sessenta dias, a não ser que tivessem ofício conhecido ou estivessem a serviço de senhores feudais. Os açoites, a am putação das orelhas, o desterro e a escravidão foram as penas determ inadas para os que desobedecessem à pragm ática real. Ao longo do século XVI tiveram de repetir-se as pragm áticas; os hábeis ciganos não cum priam as ordens reais, sua ânsia de liberdade e independência superava qualquer obstáculo. A teim osia daquelas pessoas em m anter sua atávica form a de vida levou os sucessivos m onarcas a ditar novas e num erosas leis através das quais pretendiam controlá-los: proibição de sua língua e vestuário, do nom adism o e até dos sim ples deslocam entos, do trato de anim ais, da ferraria e do com ércio… Todas essas leis e suas consequentes disposições, m uitas delas contraditórias entre si, beneficiaram os ciganos: os oficiais de j ustiça dos povoados e lugares por onde eles andavam ou residiam não sabiam qual aplicar ou se havia que aplicar algum a. Tam bém pretenderam assinalar-lhes lugares em que habitar, e assim o fizeram : os ciganos só podiam viver e recensear-se em determ inadas povoações do reino, e aí o erro do rei Fernando VI e do m arquês de la Ensenada: a grande batida de j ulho de 1749 se centrou nos ciganos que cum priam as pragm áticas, residiam nos lugares assinalados pelas autoridades e se achavam convenientem ente recenseados. Os nôm ades ou errantes, os que não estavam recenseados ou os que viviam em lugares não autorizados ficaram isentos da perseguição do exército.

Naquele 16 de agosto de 1749, Ana Vega segurava com força a m ão de um garoto de não m ais de seis anos que se havia perdido na confusão. Ao entardecer, depois de que os hom ens partiram em gabarras para La Carraca, os soldados se haviam apresentado com cerca de um a trintena de carros às portas do cortiço em que estavam havia m eio m ês encerradas. De acordo com as pragm áticas que obrigavam os povoados e as cidades do reino a prover o exército de carros e bagagens para o transporte das tropas e seus apetrechos, os transportadores e arrieiros de Sevilha haviam posto à disposição do exército várias galeras, oito delas grandes, de quatro rodas, algum as cobertas com toldo e puxadas por seis m ulas; o restante se com punha de carros e carrom atos de duas rodas puxados por duas ou quatro m ulas. Um a m ultidão de curiosos se aglom erava na área. Os m ilitares tentaram que as ciganas e seus filhos saíssem com ordem da cobertera, m as logo se com plicaram as coisas.

– Para onde nos estão levando? – enfrentou um a delas os soldados.

– Que vão fazer conosco? – inquiriram outras.

– E nossos hom ens?

– Meus filhos estão com fom e!

Os soldados não respondiam . De fora da cobertera, um a sim ples coberta sobre pilares aberta dos lados, as pessoas as insultavam . Ana se viu esprem ida: as m ulheres se j untavam um as contra outras.

– Não nos tirareis daqui!

– Justiça! Não com etem os delito algum !

– E nossos hom ens? Que fizestes com eles?

– E nossos filhos?

No exterior dim inuíram os gritos. Os soldados se consultavam entre si com o olhar, os cabos aos sargentos e estes ao capitão.

– Para os carros! – ordenou o últim o. – Subi-as aos carros!

O garoto de seis anos apareceu agarrado à coxa de Ana quando os m ilitares partiram a pancadas e golpes de culatra contra as m ulheres. O caos foi total. Ana aj udou um a velha prostrada no chão a levantar-se.

– De quem é este m enino? – repetia aos gritos.

Observou que um grupo de soldados em purrava para fora do cortiço Rosario, María, Dolores e outras das am igas de Milagros; elas tentavam tapar com os braços aqueles j ovens corpos que os farrapos que lhes restavam após m eio m ês de encarceram ento num cortiço não chegavam a cobrir: am ontoadas, sem água, dorm indo sobre m il cam adas form adas pelos restos dos excrem entos secos do gado. Um soldado agarrou a cam isa de Rosario e puxou-a com força para o exterior. A cam isa se rasgou e ficou nas m ãos do m ilitar, que olhou a peça de roupa com incredulidade e depois explodiu em gargalhadas enquanto as pessoas assobiavam e aplaudiam a fugaz vista dos túrgidos peitos da m oça.

Ana, cega de ira, ia lançar-se sobre o soldado, m as só conseguiu arrastar pelo chão o garoto agarrado à sua coxa; havia-o esquecido. O soldado reparou nela e fez-lhe um autoritário gesto para que saísse do cortiço. Já restavam poucas m ulheres em seu interior. A cigana obedeceu. Os carros, dispostos num a longa fileira e guardados pelo exército para im pedir que as pessoas se abalançassem a eles, estavam j á para transbordar. Os coloridos traj es das ciganas se viam desluzidos até sob o brilhante sol sevilhano de agosto; todas elas haviam sido despoj adas das j oias e avelórios com que se adornavam ; até as fitas de seus vestidos haviam desaparecido. Choros, queixas, gritos e súplicas surgiam da boca das m ulheres e de seus filhos pequenos. A Ana fraquej aram -lhe as pernas; que m ísero futuro os esperava?

– De quem é este…? – com eçou a gritar. Mas calou-se e apertou a m ão do m enino; era um em penho inútil.

– Sobe no carro! – gritaram -lhe enquanto a em purravam com um a espingarda cruzada sobre suas costas.

Subir no carro? Virou-se lentam ente e topou com um j ovenzinho im berbe com a peruca branca torta. Escrutou-o de alto a baixo.

– Tabaco! – gritou-lhe de im ediato. – Vendo-te tabaco a bom preço! – acrescentou sim ulando rebuscar no interior de sua saia. – Do m elhor!

O rapaz gaguej ou algo e negou ingenuam ente com a cabeça.

– Tabaco! – uivou então Ana em direção às pessoas, aparentando que fum ava um charuto.

A suas costas, as ciganas que estavam no carro calaram seus soluços.

Depois ela sorriu, com o se o sangue voltasse a correr por suas veias, quando um a das do carro se j untou à sua pantom im a.

– A sorte! Leio as linhas das m ãos! Queres que as leia para ti, rapagão?

De carro em carro, as ciganas com eçaram a reagir.

– Um a esm ola!

– Cestas! Queres um a cesta, m arquesa? – perguntou um a cigana a um a im ensa m atrona que presenciava a situação em basbacada, tanto com o o hom em m irrado que a acom panhava. – Nela poderás levar teu esposo!

As pessoas riram .

Pouco a pouco, m ulheres e crianças m udaram seu pranto em algaravia. Ana piscou o olho para o j ovem soldado.

– Fum arem os outro dia – disse-lhe antes de virar-se e levantar o pequeno para pô-lo no últim o dos carros. Depois, quando o capitão ordenou o início da m archa, ela subiu tam bém .

Junto a Ana, no carro, Basilia Monge oferecia im aginários bolinhos de chuva às pessoas.

– Trazei-m e a frigideira e a m assa – gritava aos soldados a cavalo que encerravam a m archa –, que a banha para fritá-los j á a tirarei da tripa de vosso sargento.

Ana Vega não deu im portância às risadas dos soldados e à indignação do sargento e se acocorou à altura do m enino que tinha vindo arrastando.

– Com o te cham as, pequeno? – perguntou-lhe enquanto tentava lim par-lhe com seus próprios dedos m olhados de saliva os fios de suj eira que percorriam seu rosto devido a lágrim as a que nem sequer havia tido oportunidade de prestar atenção.

A caravana de crianças e ciganas tardou cerca de um a sem ana a chegar a Málaga. O acidentado cam inho que ia para o sul as expôs à m á vontade das autoridades e dos vizinhos de El Arahal, de La Puebla de Cazalla, de Osuna, de Alora, de Cártam a, antes de chegar à fam osa cidade às m argens do Mediterrâneo. O rei havia determ inado que os gastos com a com ida e o transporte dos ciganos se cobrissem com o produto da venda de seus pertences, m as não dera tem po de oferecê-las alm oeda, e os corregedores e alcaides dos povoados se negaram a proporcionar, na conta de um rei que dificilm ente lhes devolveria esse dinheiro, m ais que o im prescindível para que aquelas m ulheres não falecessem em suas j urisdições e lhes originassem problem as; a fom e, pois, foi afetando as ciganas, que tiveram de presenciar, indefesas, os soldados roubando suas rações e além disso reservavam o pouco que lhes restava para alim entar seus filhos.

Na prim eira noite, Ana percorreu a fila de carros em busca da m ãe de Francisco – assim se cham ava o m enino –, com que topou fazendo o m esm o traj eto que ela, m as em sentido inverso e perguntando carro por carro por seu pequeno. Era um a cigana de Sevilha que por um instante esqueceu o desespero de sua situação e recebeu seu filho de braços estendidos. Sem deixar de abraçá-lo, olhou para Ana.

– Obrigada…

– Ana – apresentou-se ela. – Ana Vega.

– Manuela Sánchez – disse a outra.

– É um bom garoto – com entou Ana desalinhando o suj o cabelo de Francisco –, e canta m uito bem .

Ana o havia entretido com canções ao longo da interm inável e incôm oda j ornada no carro.

– Sim , com o seu pai.

O sorriso de Manuela desapareceu. Ana a im aginou evocando seu hom em . E José? Voltou a sentir o desassossego que a havia perseguido durante os dias de prisão na cobertera do pastor, envolta nas constantes queixas e lam entos das ciganas pela separação de seus esposos. Ela… As lágrim as não brotavam de seus olhos quando pensava em José. Que havia sido de sua vida? Onde havia ficado o am or que um dia acreditou sentir por seu esposo? Só Milagros os unia. Apertou os lábios. Pelo m enos a m oça estava livre. Aquele era seu único consolo, pouco im portava o restante se sua m enina continuava livre. Ergueu-se. Tinham de lutar! O rei lhe havia roubado seu pai durante sua infância; a condenação às galés havia levado sua m ãe à m orte, e agora outro rei lhe roubava… sua própria liberdade. Não estava disposta a subm eter-se, a rogar e a suplicar, a arrastar-se diante dos payos e diante de sacerdotes e frades com o havia feito j unto com sua m ãe quando era som ente um a m enina! Não! Não o faria. O tem po… ou a m orte resolveria a situação.

– Mostra-nos com o cantas, Francisco – pediu-lhe então para surpresa de Manuela.

Ana com eçou a bater palm as com suavidade, os dedos estendidos e crispados.

– Canta, filho – j untou-se com doçura a m ãe.

O m enino se sentiu observado e, com os olhos cravados no chão e os dedos dos pés descalços brincando com a areia, com eçou a cantarolar as m esm as canções com que haviam lutado contra o tédio da viagem . Ana bateu palm as com m ais força.

– Anda, Francisco! – anim ou-o a m ãe com a voz tom ada e lágrim as nos olhos.

As ciganas se foram aproxim ando, m as ninguém se atreveu a interrom per o pequeno, nem sequer a estim ulá-lo. Não soavam guitarras nem castanholas, não dispunham de um a m ísera pandeireta, só se ouviam as palm as de Ana e o m urm úrio entre dentes do pequeno, que no entanto hesitou ao levantar o olhar e deparar com o rosto de sua m ãe coberto de lágrim as.

– Com o teu pai, filho, canta com o ele – conseguiu pedir-lhe esta.

E Francisco com eçou a cantar a palo seco, com tim bre infantil, agudo, alongando as vogais até que tinha de tom ar ar, tal com o fazia seu pai, tal com o quando cantava com ele. Mas ali ninguém sorria, ninguém anim ava, ninguém dançava; o pequeno se encontrou rodeado de m ulheres cabisbaixas e chorosas que, à tênue luz do ocaso, agarravam seus filhos com o se tem essem que tam bém os levassem . Quando um a dessas ciganas caiu prostrada de j oelhos com as m ãos cobrindo o rosto, a voz de Francisco se foi desvanecendo pouco a pouco até extinguir-se do todo, m om ento em que se lançou aos braços da m ãe.

– Muito bem – prem iou-o esta apertando-o contra si.

Ana continuava a bater palm as.

– Bravo – aclam ou alguém num sussurro cansado dentre o grupo de ciganas.

Quase nenhum a se m exeu. O pouco que havia cantado Francisco as havia levado de volta a suas casas, com seus esposos, avós, pais, tios, prim os e filhos; m uitas haviam acreditado ouvir os risos daqueles filhos de m ais de sete anos que haviam partido com os hom ens.

Ana bateu palm as m ais forte.

– Cantai! – anim ou-as. – Cantai e dançai para os soldados do rei da Espanha!

– Cigana, por acaso pretendes zom bar de nós?

A pergunta surpreendeu a Ana, que se virou e, à luz das fogueiras, viu o rosto de um soldado aparecer por cim a do carro.

– Não… – havia com eçado a responder quando um a forte pedrada acertou de cheio a testa do soldado.

Ana voltou a virar o rosto e, na sem iescuridão, algo afastada, conseguiu vislum brar a Trianeira, que a m ortificou com seu cínico sorriso antes de atirar um a segunda pedra. Não teve tem po de reagir.

– Estão atacando-nos! – ouviu-se dos soldados.

A própria Ana teve de abaixar-se para evitar a chuva de pedras que se produziu de im ediato, entre insultos e gritos.

Os soldados de guarda soaram o alarm e.

Manuela, agachada ao lado de Ana, gritava com o um a possessa, e até o pequeno Francisco j ogava pedras… Ana buscou a proteção do carro quando os soldados a cavalo se introduziram entre eles e em purraram as m ulheres, dispersando um as, lançando ao chão e pisoteando as outras. Os disparos para o alto do restante dos m ilitares que as rodeavam conseguiram que a m aioria se am edrontasse. Apenas transcorreram alguns m inutos; a fum aceira dos tiros de espingarda ainda flutuava no ar quando a revolta j á estava controlada.

Ana ouviu com o coração apertado os queixum es de dor e os soluços, e entreviu as som bras de crianças e m ulheres tentando levantar-se do chão ou m ancando de um lado para outro em busca de seus fam iliares. Tão só algum insulto isolado, do qual agora os soldados se riam , vinha recordar a razão daquele castigo. Era um a loucura desafiar o exército! Virou o rosto em busca da Trianeira e a viu escapulir com inusitada agilidade. Fugia. Por que…?

A resposta chegou de trás: uns fortes braços a agarraram .

– Foi esta quem com eçou, capitão – ouviu um soldado dizer enquanto a sacudia até apresentá-la ao oficial que se havia aproxim ado sobre um cavalo que ainda bufava, nervoso por causa da carga. – Ouvi que zom bava de nós e estim ulava as dem ais a dançar para o rei. Então nos apedrej aram .

– Não…

– Cala-te, cigana! – A ordem do capitão se confundiu com o golpe na cabeça com que o soldado que a agarrava tentou im pedir suas escusas. – Acorrentai-a e levai-a para o prim eiro carro.

– Malnascido! – resm ungou ela ao m esm o tem po que cuspia aos pés do cavalo.

O soldado a golpeou de novo. Ana se virou e se lançou sobre ele a dentadas. Acudiram outros em aj uda do prim eiro, que fazia o que podia para afastá-la. Todos j untos conseguiram im obilizá-

la: agarraram -na por braços e pernas enquanto ela uivava e os insultava entre cusparadas. Foram necessários quatro hom ens, as roupas da cigana destruídas pelo forcej ar, pernas e peitos à m ostra, para arrastá-la até o prim eiro dos carros.

Nele fez o restante da viagem até Málaga, a pão e água, quase nua, com grilhões em pulsos e tornozelos e um a terceira corrente que unia uns e outros.