A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 26 de 51

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A Rainha Descalça

Cápitulo 26

Milagros se deixou cair num a cadeira e apertou com as m ãos a barriga, com o se pretendesse im pedir que a criança que levava dentro de si a abandonasse antes do tem po. Calculava que lhe faltassem entre cinco e seis m eses para dá-la à luz; no entanto, a sucessão de bruscas e violentas contrações que ela havia tido quando se inteirara de que o avô havia sido detido em Madri a levaram a tem er por sua perda. Tal era a notícia que havia corrido de boca em boca pelo Beco de San Miguel até chegar à ferraria dos Garcías e dali às habitações superiores, onde se celebrou com vivas e abraços. A cigana respirou fundo. A dor dim inuiu, e o bater de seu coração foi voltando ao norm al.

– Morte ao Galeote! – ouviu de um a das peças contíguas.

Reconheceu a voz, aguda e esganiçada: a de um m enino, um dos sobrinhos de Pedro; não teria m ais de sete anos. Que podia ter contra seu avô aquele m oleque? Sentim entos contraditórios a atenazaram um a vez m ais desde que a ira pela m orte de seu pai dera lugar à dor profunda, solitária, atenazadora. O avô o m atara, sim , m as devia tam bém ele m orrer por isso?

“Um arrebatam ento, foi isso, um arrebatam ento”, dizia-se am iúde em pugna com seu penar.

Adm itia que ele m erecia um castigo, m as a ideia de vê-lo m orto se lhe tornava aterrorizante.

Prestou atenção às conversas da peça contígua, cheia com a chegada dos hom ens que trabalhavam na ferraria. Um com eta de confiança que fazia o traj eto de Madri a Sevilha, desses hom ens que transportavam volum es ou faziam com pras para outros, havia trazido a notícia: “Os fam iliares de Madri prenderam Melchor Vega”, anunciou o com eta. “Com o o senhor se deixou pegar, vovô?”, lam entou-se Milagros entre os gritos de alegria. “Por que o perm itiu?” Alguém com entou que os fam iliares queriam saber o que deviam fazer com ele: não podiam levá-lo num a galé, com outras pessoas, e a viagem até Sevilha com um hom em agrilhoado seria lenta e perigosa. “Que o m atem !” “Quanto antes!” “Que o castrem prim eiro!” “E que lhe arranquem os olhos”, interveio o garoto entre os gritos dos dem ais.

– A vingança é dos Carm onas. Que o tragam aqui, com o quer que sej a, dem orem quanto dem orarem . Tem de ser aqui, em Triana, diante de todos os presentes, que se execute a sentença.

A ordem de Rafael García pôs fim à discussão.

Por quê?, chorou em silêncio Milagros. Quem eram aqueles Garcías para decidir quanto à sorte de seu avô? Sentiu ferver o ódio por sua nova fam ília, ela podia quase tocá-lo; tudo estava im pregnado de rancor. Acariciou a barriga querendo notar seu filho; nem sequer aquele m enino, fruto do m atrim ônio entre um a Vega e um García, parecia atenuar esse ódio atávico entre as duas fam ílias. Sua m ãe a havia advertido: “Nunca esqueças que és um a Vega.” Havia-o discutido com a velha María, da qual nada sabia desde tanto tem po, m as que recordava cada vez m ais à m edida que avançava sua gravidez. As palavras de sua m ãe chegaram a perfurar sua consciência até diante do altar, m as ela buscou refúgio em Pedro. Ingênua. Aí, nos gritos de alegria pela desgraça de seu avô que se sucediam na peça contígua, estava a resposta! Não havia sabido de sua m ãe até que se dera a m orte de seu pai. Rey es, a Trianeira, gozara fazendo chegar a Málaga a notícia do casam ento de Milagros com um García e da m orte de José Carm ona pelas m ãos de Melchor. “Dizei à m inha filha que ela j á não pertence aos Vegas.” Milagros tinha gravado a ferro e fogo na m em ória o rosto de satisfação com que a Trianeira lhe transm itira a m ensagem de sua m ãe.

Não quis acreditar. Sabia que era verdade; tinha certeza de que aquela havia sido a resposta de sua m ãe, m as se negou a adm itir que a renegasse, que chegara a repudiá-la. Trabalhava toda noite, por tarefa. Cantava e dançava onde decidia o Conde: mesones, casas e palácios, saraus…

Milagros de Triana: assim a batizaram as pessoas. Ela roubou algum as das m oedas, seus próprio dinheiro, controlado pela Trianeira, que estava sem pre j unto a ela, avarenta, e em segredo convenceu um cigano dos Cam achos a que fosse a Málaga. “Há suficiente para ti, para subornar a quem tiver de subornar e para que m inha m ãe disponha de algum dinheiro”, disse-lhe.

– Sinto m uito. Não quer saber de ti – com unicou-lhe o cigano à sua volta. – Já não te tem por filha. Não quer o dinheiro – acrescentou ao m esm o tem po que lhe devolvia as m oedas destinadas a Ana.

– Que m ais? – perguntou Milagros com um fiapo de voz.

Que não gastasse m ais dinheiro para com unicar-se com ela; que o desse aos Garcías para que estes pudessem pagar aos que tinham de m atar seu avô.

– Disse que era irônico – acrescentou o Cam acho negando com a cabeça quase im perceptivelm ente – que um a Vega estivesse sustentando os Garcías. E que preferia estar em Málaga, presa, sofrendo j unto com as m ulheres e seus filhos pequenos que não haviam podido obter a liberdade por ser ciganas a voltar a Triana para encontrar um a traidora.

– Traidora eu! – saltou Milagros.

– Moça – o hom em adotou um sem blante sério: – os inim igos de alguém de tua fam ília, os inim igos de teu avô, de tua m ãe, são tam bém teus inim igos, todos os m em bros dessa fam ília o são. Essa é a lei dos ciganos. Traidora, sim , eu tam bém acho. E são m uitos os que opinam a m esm a coisa.

– Sou um a Carm ona! – tentou desculpar-se ela.

– Teu sangue é Vega, m oça. O de teu avô, o Galeote…

– Meu avô m atou m eu pai! – gritou Milagros.

O Cam acho deu um tapa no ar.

– Não deverias haver-te casado com o neto de quem era teu inim igo; teu pai não deveria tê-lo consentido, ainda que fosse tão som ente pelo sangue que corre por tuas veias. Ele sabia qual era o trato: sua liberdade por teu com prom isso com o García. Devia haver-se negado e haver-se sacrificado. Teu avô fez o que devia.

Não lhe restava nenhum dos seus: sua m ãe, o avô, seu pai, María… Cachita. Apurou o ouvido: ninguém na peça contígua falava de Cachita. Tam bém fora condenada, m as pouco parecia im portar-lhes um a negra. Teria gostado de com partilhar com ela a m aternidade. O avô dissera que ela não havia feito nada. Com certeza era verdade: Cachita era incapaz de fazer m al a alguém . Havia sido inj usta com ela. Quantas vezes se havia arrependido por haver-se deixado levar pela ira! E agora, ao inteirar-se de que seu avô estava sequestrado, não podia deixar de pensar na negra: se não a haviam detido j unto com ele… Onde estava Cachita? Sozinha?

Sozinha ou não, provavelm ente estaria m elhor que ela, quis convencer-se. Esta m esm a noite cantaria, dado que pouco podia dançar em seu estado. Fá-lo-ia num mesón próxim o de Cam as, havia-lhe dito a Trianeira com o de passagem , sem pedir-lhe sua opinião nem m uito m enos seu consentim ento. Iria rodeada de m em bros da fam ília García, sem Pedro, que nunca a acom panhava: “Tem o que eu term inaria por m atar algum desses fãs que babam ao ver-te dançar”, havia-se desculpado desde o princípio de seu casam ento. “Com os prim os estarás bem .” Mas o fato era que ele tam pouco a acom panhava quando não cantava ou dançava para os payos.

Pedro j á quase não trabalhava na ferraria; os ganhos de sua esposa, cuj a parte sua ele bem tratava de exigir de Rafael e Rey es, perm itiam -lhe não o fazer. Folgazava nos mesones e bares de Triana e Sevilha, e eram m uitas as noites que voltava de m adrugada. Quantas vezes ela havia tido de fechar os ouvidos às m urm urações de algum as harpias acerca das aventuras de seu esposo! Não queria acreditar nelas! Não eram sinceras! Era apenas invej a. Invej a! Que tinha Pedro, que tão som ente com roçá-la a fazia deixar de ser dona de si? O sim ples esboço de um sorriso naquele trigueiro e belo rosto de duras feições, um afago, um elogio: “Guapa!”, “Linda!”, “És a m ulher m ais bela de Triana!”, algum insignificante presente, e Milagros esquecia sua zanga e via m udado em desfrute o m au hum or que a angustiava pelo abandono a que seu m arido a m antinha subm etida. E ao fazer o am or… Deus! Sentia-se m orrer. Acreditava enlouquecer. Pedro a levava ao êxtase, um a, duas, três vezes. Com o não iam m urm urar as dem ais m ulheres quando seus arquej os inundavam a casa dos Garcías, o edifício, o Beco de San Miguel inteiro? Mas depois ele desaparecia de novo e Milagros continuava vivendo num trânsito interm inável, desesperançador, entre a solidão e a paixão desenfreada, entre a dúvida e a entrega cega.

Milagros não tinha ninguém com quem falar e em quem confiar. A Trianeira a controlava dia e noite, e, assim que a via conversar com alguém no beco, ia correndo m eter-se na conversa.

Am iúde passava diante de São Jacinto e contem plava com m elancolia a igrej a e o ir e vir dos frades. Com Frei Joaquín, sim , teria podido falar, contar sua vida, suas preocupações, e ele a teria escutado, não tinha a m enor dúvida. Mas tam bém ele havia desaparecido de sua vida.

Frei Joaquín estava fazia quase um ano em m issão, percorrendo a Andaluzia j unto com Frei Pedro, surpreendendo as pessoas hum ildes de noite, am eaçando-as de todos os m ales im agináveis, obrigando os hom ens a castigar seus corpos nas igrej as enquanto as m ulheres deviam fazê-lo na intim idade de seus lares com urtigas escondidas entre as roupas, absinto na boca, pedras nos sapatos e sogas ásperas, cordas nodosas ou aram es cingidos com força e cortando seus ventres, seus peitos ou suas extrem idades.

Milagros não desaparecia de sua m ente.

A confissão geral, fim últim o das m issões, term inou quebrando a vontade e o espírito do frade. A patente expedida pelo arcebispo de Sevilha o facultava para perdoar todos os pecados, incluídos aqueles que por sua extrem a gravidade ficavam reservados ao exclusivo critério dos grandes da Igrej a. Ouviu centenas, m ilhares de confissões através das quais as pessoas pretendiam obter a absolvição geral de pecados que j am ais haviam contado a seus párocos habituais, j á que estes não podiam perdoar-lhes. Mas, pobres e hum ildes com o eram , tam pouco podiam confessar-se com bispos e prelados, aos quais não tinham acesso, pecados com o incesto e sodom ia. “Com um m enino?”, chegou a gritar Frei Joaquín num a ocasião, despertando a curiosidade dos que aguardavam . “De que idade?”, acrescentou baixando a voz. Depois lam entou tê-lo perguntado. Com o podia perdoar-lhe depois de ouvir a idade? Mas o hom em perm aneceu em silêncio à espera da absolvição. “Tu te arrependes?”, inquiriu sem convicção.

Assassinatos, raptos e sequestros, bigam ia, um a enfiada de m aldades que estavam transtornando seus princípios e o iam aproxim ando, passo a passo, m issão a m issão, do conceito que de todos eles tinha Frei Pedro: pecadores irrem íveis que só reagiam diante do m edo do diabo e do fogo do inferno. Que restava das virtudes cristãs, da alegria e da esperança?

– Dem oraste a dar-te conta de que não é este o cam inho ao qual Nosso Senhor te cham ou –

disse-lhe Frei Pedro quando lhe com unicou sua intenção de abandonar as m issões. – És um a boa pessoa, Joaquín, e depois deste tem po te aprecio, m as tuas pregações e serm ões não cham am à contrição e ao arrependim ento das pessoas.

Frei Joaquín não desej ava regressar a Triana. A expectativa com que o fez transcorridos alguns m eses desde a sua prim eira saída – a libertação dos ciganos assim ilados na boca das pessoas – desfez-se assim que ele se inteirou do casam ento de Milagros. Encerrou-se em sua cela, j ej uou e castigou o corpo tanto com o nas m issões. Irado, decepcionado, frustradas suas fantasias, chegou a entender os arrebatam entos com que os penitentes tentavam desculpar seus graves pecados no m om ento da confissão: ciúm e, ira, despeito, ódio. Não voltou; preferia seguir sonhando com a m enina que zom bava dele pondo-lhe a língua para fora a enfrentar o m artírio de cruzar algum dia com a cigana e seu esposo pelas ruas do arrabalde sevilhano. Os dias de descanso seguintes passou-os com Frei Pedro, longe de sua terra, enquanto o pregador especulava com palavras que seu aj udante se negava a desvelar.

– Chegaram -m e notícias de um nobre de Toledo, próxim o ao arcebispo, que tem necessidade de um professor de latim e preceptor para suas filhas – propôs-lhe quando Frei Joaquín reconheceu que não sabia o que fazer a partir de então.

Frei Pedro se ocupou de tudo: seu prestígio lhe abria quantas portas desej asse. Pôs-se em contato com o nobre, proporcionou a Joaquín docum entação, tanto dos oficiais de j ustiça seculares com o da Igrej a, um a m ula e dinheiro suficiente para a viagem , e na m anhã em que ia partir apareceu para despedir-se dele com um volum e debaixo do braço.

– Conserva-a para que guie tua vida, aplaque tuas dúvidas e serene teu espírito – desej ou-lhe oferecendo-lhe o volum e.

Frei Joaquín sabia de que se tratava. Ainda assim , afastou o pano que cobria sua parte superior. A cabeça coroada de um a Im aculada apareceu em suas m ãos.

– Mas isto…

– A Virgem desej a acom panhar-te – interrom peu-o o sacerdote.

Frei Joaquín contem plou a escultura e o perfeito rosto rosado que o olhava com doçura: um a valiosa im agem de tam anho considerável, trabalhada com m estria, com um a coroa de ouro e brilhantes. Muitos eram os presentes e dinheiro com que os fiéis agradeciam aos m issionários a absolvição de seus pecados. Frei Pedro, sóbrio em seus costum es, rej eitava todos aqueles que não fossem im prescindíveis para sua subsistência, m as sua integridade cam baleou diante da im agem que um rico dono de terras pôs em suas m ãos. “Afinal de contas, onde m elhor estará Nossa Senhora que intercedendo pelas m issões?”, disse-se para j ustificar a quebra de sua austeridade.

Ao entregá-la a Frei Joaquín, parecia que ele m esm o se libertava de um a carga.