A Rainha Descalça

Ildefonso Falcones · Capítulo 29 de 51

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A Rainha Descalça

IV - Paixão contida

IV

PAIXÃO CONTIDA

Cápitulo 29

Sevilha, 1752

Milagros não havia voltado ao palácio dos condes de Fuenteviej a desde o dia em que o fizera a fim de solicitar aj uda para libertar seus pais. Haviam transcorrido quase três anos, e aquela m oça a quem o m al-encarado secretário de Sua Excelência não havia perm itido superar o lúgubre corredor que levava às cozinhas se m ovia agora com desenvoltura em um de seus luxuosos salões. Entre aquelas m ulheres nobres e ricas que se sangravam com assiduidade com o único obj etivo de dar palidez a suas faces e andavam vestidas com saias estufadas m ediante crinolinas, m ulheres de cintura e tronco espartilhados, penteados altos, com plicados e profusam ente ornam entados, que am eaçavam vencer as arm ações de aram e sobre as quais descansavam e desabar sobre suas cabeças, sem pre enj oiadas e enfitadas, a cigana se sabia observada e desej ada pelos hom ens convidados à festa realizada pelo conde. O secretário, ao recebê-la nessa noite de fins de fevereiro j unto com um dos porteiros, havia desviado um olhar lascivo para seus peitos.

– E tu – quis vingar-se a cigana ao m esm o tem po que se perguntava se ele reconhecia nela a m enina de que escarnecera anos antes –, por que estás babando desse j eito?

O hom em reagiu e ergueu a cabeça aturdido.

– O m el não é feito para a boca do asno – cuspiu-lhe Milagros.

Alguns ciganos que a acom panhavam m ostraram surpresa. O porteiro conteve um a gargalhada. O secretário se preparava para replicar quando Milagros cravou os olhos nele e o desafiou em silêncio: “Queres ofender-m e e arriscar-te a que eu vá em bora? Em que posição ficariam então teus senhores diante de seus convidados?”. O secretário cedeu, não sem antes dirigir um esgar de desprezo ao grupo de ciganos.

É claro que não a havia reconhecido! Três anos e a m aternidade de um a filha linda haviam configurado o esplendoroso corpo de um a m ulher de dezessete, j ovem m as pleno. Trigueira, de belas feições pronunciadas e longo cabelo castanho caindo revolto por suas costas, toda ela em anava orgulho. Milagros não necessitava de cintas nem de roupas elegantes para luzir seus encantos: um a sim ples cam isa verde e um a longa saia floreada que caía até quase cobrir seus pés descalços insinuavam a voluptuosidade de pernas, om bros, cadeiras, estôm ago… e peitos firm es e túrgidos. O tilintar de seus m uitos avelórios seguiu os passos de porteiro e secretário até o grande salão onde, depois do j antar, os condes e seus ilustres convidados os esperavam conversando, bebendo licores e cheirando rapé. Depois de cum prim entar os anfitriões e a quantos curiosos desej assem aproxim ar-se para conhecer a fam osa Milagros de Triana, enquanto os ciganos se acom odavam e afinavam suas guitarras, ela peram bulou daqui para lá, entre as pessoas, contem plando-se nos im ensos espelhos ou tam borilando com indolência sobre algum a estatuinha, exibindo-se à luz do im ponente lustre de cristal que pendia do teto diante de hom ens e m ulheres, luzindo daquela sensualidade que explodiria em breve.

O rasgar j á com passado de várias guitarras reclam ou sua presença onde estavam seus acom panhantes, num canto do salão expressam ente aberto para acolher o grupo de quatro hom ens e outras tantas m ulheres. A Trianeira perm anecia vigilante, com suas m uitas carnes aposentadas num a poltrona de m adeira trabalhada em dourados e estofada com seda verm elha, com o se se tratasse de um trono e que, encantada com ela desde o m om ento em que a vira, ela a poder de trej eitos havia obrigado dois criados a deslocar da outra extrem idade do salão.

Rey es e Milagros trocaram olhares frios e duros; no entanto, qualquer sensação perturbadora desapareceu do espírito da j ovem assim que com eçou sua prim eira canção. Aquele era seu universo, um m undo em que nada nem ninguém tinham a m enor im portância. A m úsica, o cante e a dança a enfeitiçavam e a levavam ao êxtase. Cantou. Dançou. Brilhou. Em basbacou a assistência: hom ens e m ulheres que à m edida que transcorria a noite foram perdendo seus rígidos portes e seus aristocráticos ares para j untar-se à anim ação, aos gritos e às palm as dos ciganos.

Nos breves descansos, os ciganos da fam ília dos Garcías deixavam as guitarras e iam a rodeá-

la enquanto ela coqueteava, faceira, com os hom ens que se aproxim avam . Pedro não estava, ele nunca estava. E Milagros escrutava no rosto dos hom ens, no desej o que podia chegar a cheirar, qual deles estava disposto a prem iá-la em troca de um a piscadela m aliciosa, um gesto atrevido, um sorriso ou um a atenção superior à que dava aos dem ais. Algum as m oedas, um a pequena j oia ou qualquer acessório que levassem : um botão de prata, talvez um a tabaqueira ricam ente lavrada. Aqueles nobres civilizados e cultos satisfaziam sua vaidade cobiçando-a sem nenhum a vergonha diante de suas m ulheres, que, um tanto afastadas, com o se se tratasse de outro espetáculo, cochichavam e riam dos ím probos esforços de seus m aridos por elevar-se sobre os dem ais e obter a presa.

Um relógio de bolso. Tal foi o troféu que conquistou essa noite e que rapidam ente passou para as m ãos da Trianeira, que o sopesou e o escondeu entre suas roupas. Milagros perm itiu que o vencedor a tom asse pela m ão e roçasse os lábios em seu dorso. De soslaio, verificou que um a m ulher com um grande laço dourado no decote, com binando com um a m ultidão de outros laços pequenos que adornavam seu coque, recebia felicitações de algum as com panheiras enquanto gesticulava com displicência, tirando qualquer im portância à j oia de que acabava de desprender-se seu hom em . “Eles se divertem com isso”, pensou Milagros: nobres endinheirados, civilizados e corteses unidos entre si não só por inclinação sentim ental, m as tam bém por conveniência m aterial.

Os ciganos continuaram a tocar suas guitarras, entrechocando castanholas e palm as, e Milagros cantou e dançou para os nobres. Fá-lo-iam até que don Alfonso e seus ilustres convidados se cansassem , ainda que à vista dos caldos, bolos, doces e chocolate que durante toda a noite os criados foram servindo, Milagros tivesse sabido que seria eterna. Assim foi; o sarau se estendeu até o am anhecer, m uito depois de que a cigana, extenuada, se houvesse visto obrigada a ceder lugar às que a acom panhavam , que pugnaram sem sucesso por em ulá-la.

A Trianeira, que dorm itava em seu trono, levantou-se pela prim eira vez na noite quando don Alfonso pôs fim à festa. A velha cigana despertou de form a instintiva no m om ento em que o conde dirigiu um gesto quase im perceptível para seu m ordom o. O conde tinha de pagar-lhes, em bora só ele decidisse o valor. Muitos convidados j á se haviam retirado. Entre os que perm aneciam , alguns haviam perdido o porte senhoril por causa do licor. Don Alfonso, com a bolsa do dinheiro na m ão, não parecia contar-se entre estes últim os, nem o hom em com o qual se aproxim ou do grupo de ciganos.

– Um a grata noitada – felicitou-os o conde estendendo a bolsa.

Rey es arrancou-a de sua m ão.

– Um a noite interessante – acrescentou seu acom panhante.

Sem prestar atenção à Trianeira, don Alfonso se dirigiu então a Milagros.

– Creio j á haver-te apresentado don Antonio Heredia, m arquês de Rafal, de visita a Sevilha.

A cigana observou o hom em : velho, peruca branca em poada, rosto sério, casaca preta aberta,

j usta e bordada na barra das m angas, chupa, [ 10 ] gravata de renda, calção, m eias brancas e sapatos baixos com fivela de prata. Milagros não reparara nele, não fora um dos que a haviam assediado.

– Don Antonio é o corregedor de Madri – acrescentou o conde após conceder à cigana aqueles instantes.

Milagros recebeu as palavras com um a levíssim a inclinação de cabeça.

– Com o corregedor – explicou então don Antonio –, tam bém sou j uiz protetor e privativo dos teatros côm icos de Madri.

Diante do olhar de expectativa do corregedor, Milagros se perguntou se devia m ostrar-se im pressionada com aquela revelação. Arqueou as sobrancelhas em sinal de incom preensão.

– Im pressionaram -m e tua voz e… – o corregedor girou dois dedos no ar – tua form a de dançar. Desej o que vás a Madri para cantar e dançar no Coliseo del Príncipe. Farás parte da com panhia…

– Eu… – interrom peu-o a cigana.

Desta vez foi o conde quem arqueou as sobrancelhas. O corregedor ergueu a cabeça. Milagros calou-se, sem saber o que dizer. Ir para Madri? Voltou-se para os ciganos, a suas costas, com o se esperasse aj uda de sua parte.

– Mulher – a voz do conde soou áspera em seus ouvidos –, don Antonio te acaba de fazer um a oferta generosa. Não pretenderás desagradar ao corregedor de Sua Maj estade, não é m esm o?

– Eu… – voltou a titubear Milagros, perdido qualquer sinal da altivez com que se havia m ovido ao longo da noite.

Rey es adiantou-se um passo.

– Desculpem -na Vossas Excelências. Só está constrangida… e confusa. Com preendam Vossas Mercês que ela não estej a acostum ada a tão grande honra. Cantará em Madri, naturalm ente –

term inou afirm ando.

Milagros não podia afastar o olhar do rosto do corregedor, que foi tem perando a rigidez de suas feições à m edida que ouvia as palavras da Trianeira.

– Excelente decisão – chegou a ver que pronunciavam seus lábios.

– Meu secretário e o de don Antonio se ocuparão de aj eitar tudo – interveio então o conde. –

Am anhã… – interrom peu suas palavras, sorriu e olhou para um dos grandes j anelões pelos quais j á se penetravam os prim eiros raios de luz. – Bem , j á é hoj e – corrigiu-se. – Antes do anoitecer ide ter com eles.

Os aristocratas não lhes deram m ais tem po. Despediram -se, e, um com a m ão apoiada no om bro do outro, conversando, dirigiram seus passos para a grande porta dupla que fechava a peça. A gargalhada do conde antes de transpô-la despertou Milagros da com oção: só restavam eles no salão, afora o m ordom o que os vigiava e um par de criados que, assim que o eco das gargalhadas se perdeu nos corredores do grande palácio, se separaram das paredes j unto às quais perm aneciam hieráticos. Um suspirou, o outro desentorpeceu seus m úsculos. A luz do sol e a das velas ainda acesas no grande lustre de cristal revelaram um a peça que exigia ser devolvida ao esplendor com que os havia recebido; os m óveis estavam em desordem ; havia copos aqui e ali, xícaras m anchadas de chocolate, bandej as, pires com restos de com ida e até leques e algum as peças de roupa esquecidas pelas senhoras.

– Madri? – conseguiu perguntar-se então Milagros.

– Madri! – A voz da Trianeira reverberou contra o alto teto do salão. – Ou por acaso pretendias desagradar ao corregedor e inim izar-nos de novo com as autoridades do reino?

Milagros franziu o cenho para a Trianeira. Sim , iria para Madri, convenceu-se então. “Para qualquer lugar longe de ti e dos teus”, pensou.

Prepararam -se para viaj ar a Madri num a longa diligência das que sem analm ente faziam o traj eto que unia Sevilha à Vila e Corte, um a carruagem de quatro rodas coberta com um toldo de pano e puxada por seis m ulas. A diligência era feita para transportar quinze viaj antes com sua respectiva bagagem , os quais naquela m anhã de m arço de 1752 se haviam reunido ao redor dela.

Nesta ocasião, os ciganos iam sair de Triana com todas as devidas perm issões e passaportes, assinados e carim bados por quantas autoridades eram precisas, e sob a salvaguarda do m esm o corregedor de Madri, com o afirm ava a carta que seu secretário lhes havia expedido, não sem antes m ostrar sua estranheza pela cigana velha que os Garcías pretendiam incluir na com itiva.

“Que outra pessoa cuidará da m enina enquanto ela canta para Sua Excelência?”, arguiu Rafael, o patriarca. O secretário m eneou a cabeça, m as o fato era que pouco lhe im portava o núm ero de ciganos que se deslocassem para Madri, de m odo que assentiu. Em contrapartida, não se calou diante da referência feita a seu senhor.

– Não te enganes – avisou. – A m ulher não cantará para o senhor corregedor; ela o fará no Coliseo del Príncipe para todos os que forem assistir às com édias.

– Mas algum dia irá Sua Excelência, não? – Rafael García piscou um olho para o funcionário pretendendo fazê-lo partícipe da fascinação que Rey es, sua m ulher, havia exagerado ao contar a cena do palácio dos condes.

O secretário suspirou.

– E até o rei – ironizou. – Sua Maj estade tam bém .

Rafael García m udou o sem blante e reprim iu um a réplica.

– Quanto lhe pagará o senhor corregedor? – perguntou em vez disso.

O secretário sorriu de través, incom odado por ter de tratar com ciganos.

– Eu o ignoro, m as do que, sim , estou certo é que não ocupará o lugar de prim eira-dam a.

Suponho que um a quantia de sete ou oito reais por dia sem direito a partido.

– Sete reais! – protestou o Conde. Só o relógio que havia conseguido Milagros na noite anterior valia cem vezes m ais!

O outro abriu o sorriso.

– É isso o que há. As novas não recebem a partido – silabou diante do esgar de ignorância do cigano: – um salário que recebem trabalhem ou não. Receberá exclusivam ente por dia de trabalho, a quantia… Sim , sete ou oito reais.

Rafael García não pôde evitar um gesto de decepção. Seu filho e dois outros ciganos que o acom panhavam tam bém m ostraram seu descontentam ento.

– Nesse caso… – O cigano hesitou, m as term inou expressando sua am eaça: – Por esse salário, Milagros não irá para Madri.

– Escuta – anunciou o outro com seriedade –, não seria a prim eira artista a term inar no cárcere por negar-se a acatar as ordens do corregedor e da j unta que rege os teatros da corte.

Madri não se m ede em reais, cigano. Madri é… – O hom em fez revolutear as m ãos no ar. – São m uitos os artistas de com panhias am bulantes ou de teatros m enores de todo o reino que perdem dinheiro ao serem cham ados a Madri. Tu escolhes: Madri ou o cárcere.

Rafael García escolheu, e um m ês depois seu neto Pedro contem plava fum ando Milagros carregando os poucos pertences da fam ília na diligência, enquanto Bartola, sua am a, segurava nos braços a filha dos dois.

Entre um volum e e outro, Milagros olhava para a pequena. Era igual à sua m ãe, diziam uns, enquanto outros afirm avam que havia saído ao pai, e alguns outros buscavam sem elhanças com os Garcías. Ninguém m encionou os Vegas. Enxugou o suor da testa com um a das m angas. Não se atreveu a batizar a m enina com o nom e de Ana. Muitos eram os ciganos que traziam notícias das detidas em Málaga, nenhum a para ela. Nunca chegou a pedir-lhes que falassem com Ana Vega. Não suportaria outra resposta com o a que recebera quando enviara o Cam acho! Talvez algum dia… Enquanto isso, nada sabia de sua m ãe, e isso a atorm entava. No entanto, batizou sua filha, sim , com o nom e de María, em secreta hom enagem à velha curandeira que havia sido substituída por Bartola, que ia acom panhar o casal em sua viagem à corte.

Doze pessoas m ais subiram à diligência após eles: vários portadores carregados de volum es; um j anota afrancesado que olhava com asco tudo quanto o rodeava; um a m oça tím ida que ia servir na capital; um hom em que dizia ser com erciante de tecidos, dois frades e um casal.

Nenhum dos ciganos viaj ara j am ais de diligência, e salvo os portadores, que iam e vinham de cidade em cidade, era evidente que tam pouco o haviam feito os dem ais passageiros. Tal era a aversão às viagens na época. A diligência estava lotada, e todos eles tentaram acom odar-se num espaço sem bancos, entre a m ultidão de variadas m ercadorias e utensílios que levavam consigo, num chão que não era de tábua com o o dos carros que Milagros conhecia, m as consistia num a estrutura de resistentes cordas em form a de rede em cim a das quais se am ontoaram desordenadam ente pessoas e bagagens. Tinham de viaj ar deitados, com o verificou a j ovem que se contava entre os portadores. Entre em purrões, as duas ciganas estenderam os colchões que levavam j unto a um a das laterais do carro e se sentaram neles com as costas apoiadas no precário apoio de um as esteiras de esparto usadas ao m odo de parapeitos.

Desse m odo, acom panhados por um carro que transportava azeite e de um arrieiro à frente de um a récua de seis anim ais carregados de m ercadorias, enfrentaram o longo cam inho.

Milagros respirou fundo no m om ento em que o condutor arreou as m ulas para que puxassem a pesada diligência e iniciassem a m archa. Depois se deixou em balar pelo chocalhar dos j aezes que adornavam as cavalgaduras e o bater m etálico das panelas e frigideiras que pendiam do exterior da diligência. Cada um dos tintinares daqueles “guizos” a afastava um passo m ais de Triana, do Conde, da Trianeira, dos Garcías e das desgraças que haviam assolado sua vida. De vez em quando, o estalar do chicote obtinha dos anim ais um em puxo que se prolongava por alguns instantes, até que eles retom avam seu cam inhar apático. Madri, evocou um a vez m ais a cigana.

Chegou a odiar a vila quando se inteirou do sequestro do avô, m as ao fim de um m ês chegou outro portador com a notícia de que ele havia fugido, e ela, ao ritm o dos j uram entos e im precações dos m em bros de sua nova fam ília, reconciliou-se com aquela cidade. Cantar e dançar num teatro de Madri, j unto a artistas e m úsicos profissionais, seria a m esm a coisa que cantar e dançar nos mesones ou nos saraus sevilhanos? Essa incerteza era a única coisa que a inquietava. Recordava o suplício que lhe im plicara cantar vilancicos na paróquia de Santa Ana, com o m estre de capela adm oestando-a sem trégua e os m úsicos desprezando-a, e tem ia que lhe sucedesse o m esm o. Era tão som ente um a cigana, e os payos… os payos sem pre se com portavam igual com os ciganos. Contudo, Milagros estava disposta a sofrer aquele escárnio, cem com o ele se preciso fosse, para afastar Pedro de sua fam ília de Triana, de sua vida indolente e de suas noites perdidas em … Melhor não saber. Fechou os olhos com força e apertou a filha contra o peito. Em Madri, Pedro só teria a ela. Ele m udaria. Que im portava o dinheiro que tanto im portava aos Garcías? Sem ele não haveria vinho, nem mesones, nem bares, nem … m ulheres.

Pedro se havia oposto energicam ente a m udar-se para Madri, m as nem com seu neto favorito o Conde transigiu. Suspensas as libertações de ciganos pouco depois da de José Carm ona, m uitos eram os que esperavam que algum dia o rei repensasse a situação. E eles se estavam esforçando para consegui-lo. “É o corregedor de Madri!”, havia gritado o Conde para seu neto.

– Escuta, Pedro – prosseguiu com outro tom de voz –, todos nós estam os aproxim ando-nos dos payos. Dentro de pouco tem po, alguns m eses no m áxim o, apresentarem os ao arcebispo de Sevilha as regras do que será a irm andade dos ciganos; escolhem os com o sede o convento do Espírito Santo, aqui, em Triana. Estam os trabalhando nisso. Os ciganos com um a irm andade religiosa! – acrescentou com o se estivesse apresentando um a loucura. – Quem podia im aginar? Já não só som os os Garcías, m as todas as fam ílias da cidade, unidas. Pretendes indispor-te…

indispor-nos a todos com um a personalidade tão próxim a do rei com o o corregedor de Madri?

Vai para lá. Não será por toda a vida.

Tanta era a proxim idade dos ciganos com aquela Igrej a capaz de encarcerar ou libertar as pessoas que até os frades que iam fazer confissões gerais em Triana haviam chegado a destacar, acim a da dos dem ais cidadãos, a piedade e espírito religioso com que aqueles haviam ido fazê-lo.

– Nega-te! – incitou-o um dia Milagros diante das constantes queixas de seu esposo. – Vam o-nos, fuj am os de Triana. Eu m e casei contigo contra a vontade de parte de m inha fam ília, rebela-te tu tam bém . Quem é teu avô para decidir o que devem os ou não devem os fazer?

Tal com o ela supunha, Pedro não ousou desobedecer a seu avô, e a partir daquele dia não se produziram m ais discussões, em bora Milagros se tenha guardado m uito de m ostrar sua alegria.

Levaram onze interm ináveis dias para chegar a Madri. Jornadas ao longo das quais se lhes foram unindo outros m eios de transportes e viaj antes com idêntico destino, enquanto outros desciam em algum a encruzilhada. Os cam inhos eram ruins e perigosos, razão por que as pessoas se procuravam um as às outras. Além disso, os carreteiros e arrieiros gozavam de certos privilégios que incom odavam os m oradores: podiam deixar suas cavalgaduras pastar, ou fazer lenha em terras com unais, e sem pre era preferível defender unidos esses direitos. Entorpecida, tentando constantem ente calar o choro queixoso de um a m enina de um ano e m eio incapaz de suportar o tédio e a m onotonia, Milagros se anim ou ao pressentir a proxim idade da cidade grande. Até as m ulas apertaram o passo cansado à m edida que o estrépito se fez cada vez m ais perceptível. Fazia pouco que o sol havia superado o am anhecer, e a diligência onde viaj avam se viu m etida entre as centenas de carros e os m ilhares de bestas de carga que diariam ente entravam na cidade para abastecer a Vila e Corte. Um a m ultidão de lavradores, agricultores, hortelãos, com erciantes e transportadores, com seus carros, pequenos ou grandes, a pé, carregados ou puxando m ulas e bois, tinha de ir pessoalm ente a Madri para vender seus produtos e m ercadorias. A fim de im pedir o açam barcam ento e os aum entos de preço, o rei havia proibido que tratantes ou interm ediários da corte adquirissem com estíveis para revenda nas proxim idades de Madri ou nos cam inhos que levavam à cidade; só podiam fazê-lo a partir do m eio-dia, nas praças e m ercados, depois que os cidadãos houvessem tido oportunidade de adquiri-los nas barracas e loj as com seus preços de origem .

Através de um a fresta do toldo que tapava a lateral da diligência, Milagros contem plou a azáfam a de pessoas e anim ais. Encolheu-se diante da gritaria e da desordem . Que os esperava num a cidade que dia após dia requeria todo aquele exército de provedores?

Entraram em Madri pela porta de Toledo, e na rua de m esm o nom e, num a das m uitas hospedarias estabelecidas nela, a da Ferradura, puseram fim a um a viagem que se lhes havia feito interm inável. Haviam -lhes dito que, assim que chegassem , fossem ao Coliseo del Príncipe para receber instruções. Milagros e a velha Bartola brigaram com os dem ais viaj antes para descarregar os colchões e dem ais utensílios enquanto Pedro se inform ava com o condutor e os portadores.

O sol de um dia fresco m as radiante ilum inou a variegada m ultidão que entrava na cidade e a que se j untaram eles. Pedro à frente, livre de bagagem , e as duas m ulheres arrastando os volum es e carregando a pequena María. Poucos foram os que prestaram atenção ao grupo de ciganos enquanto estes percorriam a rua de Toledo em direção à praça de la Cebada, num dos bairros m ais povoados e hum ildes de Madri. Os cidadãos peram bulavam entre as hospedarias, bares, colchoarias, espartarias, ferrarias e barbearias que ladeavam a rua de Toledo.

Milagros e Bartola se revezavam para levar María. Nisto estavam , passando a m enina dos braços de um a para os da outra, quando Pedro, que havia girado a cabeça diante de seu atraso, se precipitou para elas a tem po de im pedir que a pequena agarrasse um a das cam isas que pendiam da porta de um a m ísera loj inha que expunha roupas usadas.

– Quereis que a m enina adoeça? – recrim inou as duas. – Que m au agouro! – anunciou depois com o olhar fixo no rosto em aciado do proprietário da loj a.

Porque na rua de Toledo se abriam loj as de roupa tocadas por com erciantes cuj os rostos chupados m ostravam o destino que esperava aos m uitos que, levados pela necessidade, se viam obrigados a adquirir a baixo preço as roupas dos falecidos nos hospitais. Se os ciganos queim avam as roupas de seus m ortos após o enterro, os payos as com pravam sem im portar-se com que em suas costuras estivesse a sem ente de todo tipo de m ales e doenças, e as saias, os calções e as cam isas retornavam vezes e m ais vezes às loj as de roupa à espera de um novo desgraçado a quem contagiar num vicioso círculo de m orte.

Milagros deu colo à sua m enina até acom odá-la contra seu quadril; com preendia o que havia originado a reação de Pedro e anuiu antes de continuar andando. Assim chegaram até a Praça de la Cebada, um grande espaço irregular em que, além de se executarem os réus condenados a m orrer enforcados, vendiam -se grãos, toucinho e legum es. Muitos dos lavradores que subiam j unto com eles pela rua de Toledo se desviaram para a praça. Ao redor das barracas do m ercado, peram bulavam centenas de pessoas. Outros cam poneses continuaram em direção à Praça May or.

Pedro, no entanto, guiou-os para a direita, para um a ruela que m argeava a igrej a e o cem itério de San Millán; continuaram por ela até a praça de Antón Martín. Ali, enquanto as m ulheres e as crianças se refrescavam na fonte que lançava água pela boca dos golfinhos, voltou a perguntar pelo Coliseo del Príncipe. Sem sucesso. Dois hom ens evitaram o cigano e apertaram o passo. Pedro crispou a m andíbula e acariciou o cabo de sua navalha.

– Que procuras? – ouviu-se quando se preparava para interrogar um terceiro.

Milagros observou um aguazil de preto que, vara na m ão, se dirigia para seu esposo. Os dois hom ens falaram . Alguns viandantes pararam para assistir à cena. Pedro lhe m ostrou os docum entos. O aguazil os leu e perguntou pela artista a que se referiam os papéis.

– Minha esposa: Milagros de Triana – respondeu com secura o cigano ao m esm o tem po que apontava para ela.

Junto à fonte, Milagros se viu escrutada de alto a baixo por aguazil e curiosos. Hesitou.

Sentiu-se ridícula com o colchão enrolado debaixo do braço, m as ergueu o queixo e se aprum ou diante de todos eles.

– Cigana orgulhosa! – urgiu com ela aos gritos o aguazil. – Verem os se és capaz de ser tão altiva

no tablado, quando os mosquetero [ 11 ] te apuparem . Em Madri nos restam m ulheres belas e nos faltam boas artistas.

As pessoas riram , e Pedro fez m enção de revoltar-se contra elas. O aguazil o deteve erguendo a vara à altura de seu peito.

– Não sej as tão suscetível, cigano – advertiu-o arrastando as palavras. – Dentro de poucos dias, quando se abrir a tem porada de com édias, Madri toda e seus arredores censurarão… ou elogiarão tua esposa. Só dependerá dela. Não há m eio-term o. Acom panhai-m e – ofereceu-se no m om ento em que Pedro depôs sua atitude –, o Príncipe está m uito perto. Está dentro de m inha ronda.

Da m esm a praça subiram um trecho para circundar o Colégio de Loreto e introduzir-se num a ruela situada à sua direita. Milagros se esforçou por m anter o m esm o porte altivo com que seu esposo desfilou diante da roda de m adrilenses que haviam presenciado a cena, m as, carregando María de um lado e o colchão do outro, seguida por Bartola resfolegando e resm ungando em sua nuca com os outros dois colchões e o restante dos volum es, os poucos passos que o aguazil e Pedro estavam diante dela lhe pareceram um a distância invencível. “Nós te irem os ver, cigana!”, ouviu Milagros, e se virou para um hom em baixo e gordo coberto com um grande chapéu preto que lhe dava aspecto de seta. “Não nos faças gastar nossos dinheiro debalde”, ouviu de outro.

“Onde ficam agora o luxo e a pom pa do palácio dos condes de Fuenteviej a?”, lam entou-se, incom odada diante das risadas e dos com entários que se sucediam à sua passagem .

Mais um a quadra e plantaram -se na entrada da rua del Príncipe; um pouco adiante, da esquina da rua del Prado o aguazil apontou para a sua direita, para um edifício de linhas retas e sóbria fachada de pedra cuj o telhado de duas águas sobressaía m uito acim a dos confinantes.

– Aí o tendes – indicou com orgulho –, o Coliseo del Príncipe.

Milagros tentou fazer um a ideia das dim ensões do teatro, m as a estreiteza da rua para que se voltava im pediu-o. Virou o rosto para a esquerda, para um m uro corrido e sem j anelas que se estendia ao longo da rua del Prado.

– O horto do convento de Santa Ana – explicou o aguazil ao aperceber-se de para onde dirigia o olhar a j ovem cigana. Depois apontou na direção da parte alta da m esm a rua. – Ali, no átrio que dá acesso ao convento, há um nicho com a im agem da m ãe da Virgem , a qual m uitos dos de vossa raça vêm venerar. Deverias encom endar-te a ela antes de entrar – term inou rindo.

Milagros deixou María no chão de terra. Santa Ana! Em sua paróquia trianeira, ela havia cantado vilancicos para os payos depois de haver sido hum ilhada pelo m estre de capela e pelos m úsicos. Quão longe lhe pareciam aqueles dias! No entanto, agora reaparecia a m esm a santa j unto ao teatro onde teria de voltar a cantar diante dos payos. Não podia ser sim ples casualidade, devia ter algum significado…

– Vam os! – A ordem do aguazil a afastou de seus pensam entos. Os ciganos se preparavam para dirigir-se ao teatro quando o aguazil os deteve com um m ovim ento de sua vara e explicou:

– Por ali entra o público. Os artistas entram por um a porta traseira, na rua del Lobo.

Circundaram a quarta até dar com a porta. O aguazil falou com um porteiro que vigiava a entrada e que lhe deu passagem im ediatam ente.

– Pensas em entrar com um colchão debaixo do braço? – zom bou o hom em após convidar Milagros a segui-lo. – Vós, os dem ais, não podeis entrar! – advertiu em seguida a Pedro e a Bartola.

Pedro o conseguiu, arguindo que era seu esposo. “Quem vai a im pedir que a acom panhe?”, disse com arrogância. O colchão ficou do lado de fora, com Bartola, María e os dem ais volum es.

Assim que se fechou a porta a suas costas, encontraram -se num a am pla peça a que se abria um a série de côm odos.

– Os cam arins – com entou o aguazil.

Milagros não os olhou; tam pouco olhou as várias liteiras dispostas j unto a um a das paredes e que haviam atraído o interesse de seu esposo. A atenção da cigana perm anecia fixa na face posterior do cenário: um a im ensa e sim ples tela branca que, entre tram oias, ocupava quase toda a frente do lugar reservado aos espectadores. À contraluz vislum brou som bras de pessoas: algum as se m oviam e gesticulavam , outras perm aneciam paradas. Não conseguiu entender o que diziam . Declam avam ? Ouviu-se um grito autoritário, e fez-se o silêncio, ao qual se seguiu um a nova ordem . A figura de um a m ulher que fazia trej eitos. Um a som bra que se aproxim ava da m ulher. Discutiam . A voz da m ulher, teim osa, im pertinente, alçava-se acim a da outra até conseguir abafá-la. O hom em ficava só. Milagros chegou a perceber os braços caídos aos lados.

A m ulher desapareceu de seu cam po de visão, m as não seus gritos, que ganhavam força à m edida que se aproxim avam dela pela lateral da cortina.

– Quem haverá pensado que é esse brutam ontes?! – O grito precedeu o intem pestivo aparecim ento de um a m ulher de m eia-idade, loura, bem -vestida, tão exuberante com o acalorada. – Dizer-m e a m im , a m im , com o devo cantar m eu papel! A m im , a grande Celeste!

A cam inho do cam arim , a m ulher passou j unto a Milagros sem sequer olhá-la.

– Nem dois dias aguentará esta com édia em cartaz! – prosseguiu Celeste, indignada, m as sua exasperação se desvaneceu com o por m ilagre ao topar ela com Pedro García alguns passos adiante.

O aguazil, a seu lado, descobriu-se com deferência.

– E tu quem és? – interrogou a m ulher ao cigano, plantando-se com as m ãos na cintura diante dele.

Milagros não chegou a observar o sorriso com que seu esposo recebeu aquele repentino interesse: a suas costas, do m esm o lugar pelo qual havia aparecido a m ulher, m ais de um a vintena de pessoas se apressavam atrás dela. “Celeste”, clam ava um hom em , “não te aborreças.”

“Celeste…” Tam pouco elas se preocuparam com sua presença; passaram a seu lado, à direita e à esquerda, até vir a rodear a Celeste, a Pedro e até ao aguazil. Enquanto isso, o olhar cigano de Pedro, com os olhos levem ente entrefechados, havia conseguido fazer a m ulher titubear.

– Não… – tentou opor-se esta aos rogos dos que haviam chegado; sua vontade capturada no belo rosto do cigano.

– Celeste, por favor, reconsidere – ouviu-se. – O prim eiro galã…

À sim ples m enção do prim eiro galã, a m ulher reagiu.

– Nem falar! – uivou afastando os dem ais de seu lado. – Onde estão m eus liteireiros? Que venham m eus liteireiros! – Olhou ao redor até localizar dois hom ens desalinhados que atenderam logo a seu cham ado. Depois fez m enção de dirigir-se a um a das liteiras, m as antes se aproxim ou de Pedro. – Nós nos voltarem os a ver? – inquiriu num doce sussurro, os lábios roçando a orelha do cigano.

– Com a m esm a certeza com que m e cham o Pedro – assegurou aquele em idêntico tom .

Celeste sorriu com um a ponta de m alícia, virou-se e introduziu-se na caixa da liteira deixando atrás de si o arom a de seu perfum e. Os liteireiros pegaram as duas varas, ergueram a cadeira e transpuseram a porta que dava para a rua del Lobo entre m urm úrios.

– É m ulher dem ais para ti – advertiu-o o aguazil quando a porta voltou a fechar-se e os m urm úrios se m udaram em discussões. – Meia Madri a cortej a, e a outra m etade gostaria de ter a coragem necessária para fazê-lo.

– Sendo assim – exibiu-se Pedro com o olhar ainda posto na porta –, m eia Madri term inará por invej ar-m e, e a outra m etade, por aclam ar-m e. – Depois se voltou para o aguazil, que estava pondo o chapéu e o perfurou com o olhar. – O senhor em que m etade se encontra?

O hom em não soube que responder. Pedro pressentiu um acesso de autoridade e se adiantou.

– Ao redor desse tipo de m ulheres sem pre revoluteiam m uitas outras. Entende-m e? Se o senhor está com igo… – o cigano deixou transcorrer alguns instantes –, tam bém poderá ser invej ado.

– Quem será invej ado?

Os dois se voltaram . Milagros havia conseguido abrir cam inho entre as pessoas e se achava j unto a eles.

– Eu – respondeu Pedro –, por possuir a m ulher m ais bela do reino.

O cigano pôs o braço por cim a dos om bros de sua esposa e a trouxe para si. Sua atenção, no entanto, perm anecia fixa no aguazil: necessitava de alguém que o introduzisse na capital, e quem m elhor que um representante do rei? Por fim , o hom em anuiu.

– Vam os atrás do diretor da com panhia – disse de im ediato, com o se aquele m ovim ento de sua cabeça não houvesse sido exclusivam ente dirigido ao cigano. – Onde está don José? –

perguntou a um artista a quem pegou pelo braço sem consideração.

– Para que quer saber? – soltou este após safar-se com violência da m ão que o atenazava.

O aguazil hesitou diante da resoluta atitude do artista.

– Chegou um a nova – explicou apontando para Milagros.

Os que estavam ao redor se viraram com o que im pulsionados por um a m ola. A notícia correu entre os dem ais.

– Ei!… – tentou cham ar a atenção de seus com panheiros o artista.

– Onde está o diretor? – insistiu o aguazil.

– Chorando – ironizou o hom em . – Deve estar chorando suas penas no tablado. Não há m aneira de Nicolás e Celeste se porem de acordo na hora de dirigir os ensaios.

– Se o prim eiro-galã a tratasse com m ais respeito, o diretor não teria de que lam entar-se.

– A grande Celeste? – no rosto do artista apareceu um esgar de escárnio. – Excelsa, soberba, m agnífica! Se as obras dependessem dos caprichos dessa m ulher, ou dos da segunda-dam a inclusive, nenhum de vós desfrutaríeis das com édias.

O aguazil optou por não discutir, golpeou o ar com a m ão e se encam inhou para o palco.

Chegaram a ele por um a das laterais do cenário j unto aos dem ais m em bros da com panhia. Ainda abraçada por seu esposo, que a apertava com o se quisesse protegê-la dos olhares e dos cochichos que se sucediam à sua passagem , Milagros se deteve assim que pisou as tábuas. Pedro a instou a seguir os passos do aguazil. Ela se negou e se safou do braço do cigano com um m ovim ento do om bro. Depois, sozinha, adiantou-se até quase a borda do palco, onde se elevava acim a do patio.

Sentiu um calafrio. Com o se aquele estrem ecim ento houvesse circulado livrem ente, alguns dos artistas se calaram e observaram a cigana em pé diante do coliseu vazio, descalça, suas hum ildes roupas suj as e am arrotadas pela longa viagem , o cabelo em aranhado colado a suas costas.

Conheciam m uito bem seus sentim entos: paixão, anelo, ansiedade, pânico… E Milagros, com a

garganta travada, sentia todos onde quer que pousasse o olhar: nos bancos da luneta [ 12 ] a seus

pés, o patio por trás, a cazuela para as m ulheres ou as galerias baixas; na tertulia [ 13 ] superior, esconderij o de padres e intelectuais, nas dezenas de lâm padas apagadas, nas m agníficas colunas, nos com partim entos laterais e nos cam arotes fronteiros que se elevavam sobre ela em três ordens, de m adeira dourada e ricam ente trabalhada, arredondados e salientes… Am eaçadores!

– Duas m il pessoas!

Milagros se virou para um hom em calvo, seco e de barba, que era quem havia falado.

– Don José Parra, o diretor da com panhia – apresentou-o o aguazil.

Don José a cum prim entou com um im perceptível m ovim ento de cabeça.

– Duas m il – repetiu então na direção de Milagros. – Esse é o núm ero de pessoas que estarão atentas a ti quando subires ao tablado. Tu ousarás? Estás preparada?

Milagros apertou os lábios e refletiu por alguns instantes antes de responder. Contudo, foi Pedro quem o fez:

– Se ela respondesse que não ousa, o senhor nos daria perm issão para regressar a Triana?

O diretor sorriu com paciência antes de estender os braços; em um a das m ãos levava os papéis de Milagros enrolados em form a de tubo.

– E contrariar a j unta? Se estais aqui, é porque j á sabeis que isso não é possível. São m uitos os atores de fora que não desej am vir para Madri porque perdem dinheiro. Não é assim ? –

perguntou dirigindo-se a Milagros, que anuiu. – O corregedor m e anunciou tua chegada e parecia entusiasm ado. Que é que tanto im pressionou a Sua Excelência, Milagros?

– Cantei e dancei para ele.

– Fá-lo para nós.

– Agora? – obj etou sem pensar.

– Não te parecem os um auditório adequado?

Com a m ão em que segurava os papéis, don José apontou para as pessoas que se achavam no palco. Deviam ser cerca de um a trintena; m em bros da com panhia: dam as e galãs, os suplentes

de todos eles, o guarda-roupa, o “barbas”, [ 14 ] os extras e os “graciosos”, o ponto, os cobradores e o m aestro. A eles havia que som ar os m úsicos da orquestra, os que não eram considerados parte das com panhias, o operador das tram oias e o pessoal do teatro que se havia apressado a espiar no palco ao aviso de que havia chegado a nova artista.

– Minha esposa está cansada – interveio Pedro García.

Milagros não prestou atenção à desculpa: seu olhar perm anecia cravado em don José, que tam pouco fez caso do cigano e que se m anteve sorridente, provocativo.

Ela enfrentou o desafio. Esticou o braço direito e com a m ão aberta, os dedos rígidos, a palo seco, com eçou com um fandango ao estilo dos que se cantavam nos cam pos do reino de Granada quando chegava o tem po de recolher a azeitona verde. O som de sua voz no teatro vazio a surpreendeu, e ela tardou alguns segundos a m ais a im prim ir a suas m ãos e a suas cadeiras o ritm o alegre daquelas coplas. O diretor abriu o sorriso, m uitos outros sentiram ouriçar-se-lhes o pelo. Um dos m úsicos fez m enção de correr para pegar sua guitarra, m as don José o deteve erguendo o tubo form ado pelos docum entos de Milagros e, volteando-os no ar, indicou à cigana que se virasse, que cantasse para o patio deserto.

10 Chupa: espécie de cam isa que se usava debaixo da casaca, com faldinhas pendentes da cintura para baixo e m angas apertadas.

Era traj e afrancesado. [N. do T.]

11 Mosquetero: espectador que assistia em pé, na parte posterior ou pátio dos cercados de com édias, às apresentações. [N. do T.]

12 Luneta: lugar do teatro antigo em que ficavam as lunetas ou assentos com espaldar e braços, postos em fila diante do palco. [N.

do T.]

13 Tertulia: corredor na parte m ais alta dos antigos teatros espanhóis. [N. do T.]

14 Barbas: aqui, ator que faz papel de velho. [N. do T.]