A Rainha Descalça
Cápitulo 31
Fazia quase dois anos que Caridad estava presa, quando se produziu um m otim na Galera. A indisciplina de um par de velhas prostitutas reincidentes havia levado o alcaide a estabelecer um castigo tão exem plar com o hum ilhante para elas: raspar-lhes o cabelo e as sobrancelhas. A decisão indignou a todas as reclusas; podiam m altratá-las, m as raspá-las… Nunca! Muitas, aproveitando a agitação, insistiram num a velha reivindicação: que se lhes determ inasse um tem po de condenação, dado que viam transcorrer os anos sem saber quando term inaria. Os ânim os se exaltaram , e as m ulheres da Galera se rebelaram , quebraram tudo quanto estivesse ao seu alcance, arm aram -se de tábuas, das tesouras e dos dem ais obj etos pungentes que usavam para costurar, e assum iram o controle da prisão.
Quando se fecharam as portas da Galera e as reclusas se viram donas do edifício, um a ofegante e exaltada Caridad se encontrou com um a estaca nas m ãos. Em sua m em ória trem iam ainda as correrias e as gritarias de que havia participado. Havia sido… havia sido fantástico! Um tropel de m ulheres, que até então vivia sem vontade nem consciência próprias, com o as negradas de escravos, de repente, em lugar de subm eter-se às ordens do senhor, pelej avam todas a um a, foras de si. Caridad olhou ao redor e viu vacilação nos sem blantes de suas com panheiras.
Nenhum a sabia o que fazer a seguir. Algum a assinalou que deviam preparar um m em orial dirigido ao rei, um as o apoiaram e outras não; algum as propuseram que fugissem .
Enquanto discutiam , apareceu na rua um destacam ento m ilitar preparado para assaltar o cárcere. Com o todas, Caridad correu para as galerias superiores assim que retum bou o prim eiro golpe na porta que dava para a rua de Atocha. Muitas reclusas se encarapitaram nos telhados.
Logo depois, a porta foi arrancada de suas dobradiças e cerca de um a centena de soldados com as baionetas caladas espalhou-se pelo pátio central e pelo interior da Galera. No entanto, para surpresa das reclusas e irritação de autoridades e oficiais, os soldados agiram com benevolência.
Em um a das galerias superiores, entre os gritos dos oficiais que incitavam seus hom ens, Caridad se viu encurralada por dois deles. Pecou por ingenuidade e opôs sua estaca às baionetas. Um dos soldados se lim itou a m enear a cabeça, com o se lhe perdoasse. O outro lhe fez um quase im perceptível gesto com a ponta de sua baioneta, com o se quisesse dar-lhe a entender que podia escapar. Caridad brandiu a estaca e passou por entre eles, que se lim itaram a sim ular que tentavam agarrá-la. Algo sim ilar sucedia entre os dem ais soldados e o restante das reclusas, que corriam de um lado para o outro diante da passividade, quando não da cum plicidade, da tropa.
A situação se estendeu. O desespero apareceu nos rostos de uns oficiais que se esgoelavam exigindo obediência, m as com o obrigar uns soldados provenientes de m íseros povoados da Castilha profunda a que reprim issem as m ulheres? Muitos deles haviam sido condenados a servir no exército durante oito anos por faltas iguais às com etidas por aquelas desgraçadas contra as quais os haviam enviado, e as reclusas não deixavam de recordar-lhes isso durante o assédio. As autoridades decidiram fazer recuar aquele destacam ento, e as m ulheres aclam aram sua retirada. Os gritos com as reivindicações ressoaram durante toda a noite. A porta e os arredores da Galera ficaram fortem ente vigiados pela m esm a tropa que não havia agido contra elas m as que, sim , o fazia para afastar a m ultidão de curiosos que se aglom erava na rua de Atocha.
Ao am anhecer do dia seguinte, no entanto, os alcaides de corte se apresentaram na Galera à frente de um a m ilícia urbana com posta por cinquenta bons cidadãos, tem entes a Deus, fornidos, todos eles, com vergalhos, paus e barras de ferro nas m ãos. Estes entraram para esm agá-las sem contem plação, e elas correram espavoridas. Caridad, ainda arm ada com a estaca, viu que dois dos m ilicianos batiam em sua com panheira Herm inia com um a barra de ferro. À vista da sanha com que descarregavam sua ira, ferveu-lhe o sangue. Herm inia, encolhida no chão, protegendo o rosto, suplicava piedade. Caridad gritou algo. Que gritou? Nunca chegaria a recordá-lo. Mas se abalançou aos dois hom ens e golpeou um com a estaca. Entre a chuva de paus que se voltou contra ela, pôde ver que Herm inia, no chão, se agarrava à perna de um dos hom ens e cravava os dentes em sua coxa. A reação de sua am iga inflam ou seu ânim o, e ela continuou golpeando às cegas com a estaca. Só a intervenção de um dos alcaides a livrou de m orrer apaleada.
Um a a um a, as cento e cinquenta reclusas foram agrupadas no pátio do cárcere, um as m ancando, outras com dor nos rins, no peito ou nas costas, com o nariz quebrado e os lábios sangrando. A m aioria cabisbaixa, derrotada. Silenciosa.
Duas horas foram suficientes para que o alcaide voltasse a tom ar posse do cárcere de m ulheres de Madri. Sufocado o m otim , prom eteram às pressas exam inar caso por caso todas aquelas sentenças que não estabeleciam prazo de condenação; tam bém advertiram das duras penas que padeceriam as instigadoras da revolta.
Caridad, a negra da estaca que havia enfrentado os dois probos cidadãos, foi a prim eira a ser apontada. Cinquenta chicotadas, tal era o castigo que receberia no pátio da Galera, diante das dem ais, j unto a outras três reclusas delatadas com o incitadoras do m otim por um a vendedora am bulante traidora que foi recom pensada com a liberdade.
As chicotadas foram im isericordiosas, estalando nas costas das m ulheres depois de um assobio que cortava o ar. O verdugo seguiu as estritas instruções das autoridades; com o acabar de outro m odo com um m otim na Galera, quando se enviavam precisam ente para ali com o castigo as m ulheres que se am otinavam em outros cárceres?
A últim a lem brança de Caridad foram os gritos de suas com panheiras quando o alcaide pôs fim ao trem endo castigo e a arrastaram para fora do cárcere. “Aguenta, Cachita!” “Nós te esperam os de volta!” “Coragem , negra!” “Eu te guardarei um charuto!”
– Alegra-te e agradece, pecadora. Nosso Senhor Jesus Cristo e a Santíssim a Virgem de Atocha não desej am tua m orte.
Ouviu essas palavras sem entender que se referiam a ela. Caridad, depois de perm anecer vários dias inconsciente, acabava de abrir os olhos. Deitada de bruços num catre, com o queixo apoiado no travesseiro, sua visão foi aclarando-se até chegar a perceber a presença de um sacerdote à sua cabeceira, sentado num a cadeira e com um livro de orações nas m ãos.
– Rezem os – chegou a ouvir que lhe ordenava o capelão de agonizantes antes de lançar-se a um a litania.
A única coisa que brotou dos lábios de Caridad foi um longo e surdo queixum e: a sim ples respiração do religioso em suas costas esfoladas lhe causou tanta dor com o as lategadas. Sem ousar m exer a cabeça, girou os olhos: estava num a grande sala abobadada com cam as alinhadas; o ar viciado, difícil de respirar; os lam entos das enferm as entrem esclando-se com a cantilena em latim do sacerdote. Ela se achava no Hospital da Paixão, parede com parede com a Galera, para o qual as presas costuravam a roupa branca.
– Por ora… tua alm a não m e requer – com unicou-lhe o capelão quando term inou suas orações. – Reza para que eu não tenha de voltar a velar tua agonia. Um a de tuas com panheiras j á passou desta para a m elhor. Que Deus se apiede dela.
Assim que o capelão de agonizantes se plantou no m eio da sala passeando o olhar em busca de algum a outra m oribunda, apareceu outro sacerdote, este em penhado em confessá-la. Caridad nem sequer podia falar.
– Água – conseguiu articular diante da insistência do religioso.
– Mulher – replicou o confessor –, a saúde de tua alm a está acim a da de teu corpo. Essa é nossa m issão e o obj etivo deste hospital: o cuidado das alm as. Não deves perder um instante em alcançar a paz com Deus. Depois beberás água.
Confissões, com unhões, m issas diárias pelas alm as nas m esm as salas; leituras das sagradas escrituras; serm ões e m ais serm ões para conseguir a salvação das enferm as e seu arrependim ento, todos em tom enérgico, alçando-se acim a das tosses, dos gritos de dor, dos lam entos das m ulheres… e de suas m ortes. Assim transcorreu o m ês em que Caridad perm aneceu no hospital.
Depois de o capelão de agonizantes perder um a vida e de o confessor ficar com prazido com sua balbuciante e rouca confissão, um dos cirurgiães se esforçou por costurar suas feridas, rem endando com inabilidade aquela m assa sanguinolenta em que se haviam convertido suas costas. Caridad uivou de dor até desm aiar. De vez em quando, o m édico e seus enferm eiros, sem pre sob o atento controle de um sacerdote, aplicavam -lhe nas costas um unguento que conseguia que suas costas ardessem com o se a houvessem tornado a açoitar com um ferro em brasa. Mais am iúde, no entanto, aparecia o sangrador, um dos vários enferm eiros que iam de cam a em cam a por am bos os hospitais – o Geral e o da Paixão – roubando o sangue dos doentes.
Aquele lhe furava a veia com um a cânula enquanto ela, im potente, o via escapar de seu corpo e gotej ar num a bacia. Assistiu ao falecim ento da segunda das presas castigadas, a duas cam as da sua. Debilitada, pálida e m acilenta, m orreu entre rezas e santos óleos depois de um dos enferm eiros fazer-lhe duas sangrias: um a no braço esquerdo e outra no direito. “Para igualar o sangue”, Caridad ouviu-o dizer em tom j actancioso. A terceira presa decidiu fugir aproveitando o alvoroço em torno de um grupo de m ulheres nobres e endinheiradas que todo dom ingo, vestidas com grosseiras roupas de lã para a ocasião, iam à Paixão para aj udar as enferm as em sua higiene e levar-lhes doces e chocolate. Com o rabo do olho, Caridad a viu levantar-se e escapar, cam baleante, enquanto ela, prostrada na cam a, assentia sem parar, prom etendo corrigir sua conduta, diante daquela grande dam a, tão hum ildem ente vestida quão caro era o perfum e que exalava, que lhe recrim inava as faltas com o se se tratasse de um a m enina, para depois prem iar sua contrição com alguns doces ou com uns goles das xícaras de chocolate que elas levavam . Ao m enos, o chocolate era delicioso.
Da fugitiva, Sebastiana j ulgava recordar que se cham ava, ela não soube m ais, nem sequer na Galera quando os m édicos decidiram devolvê-la para lá. Interessou-se por ela, m as ninguém lhe deu nenhum a notícia. “Sorte, Sebastiana!”, repetiu para si, com o na noite daquele dom ingo em que a irm ã que exercia a função de zeladora se apercebeu da ausência e deu o alarm e. Invej ava-a.
À m edida que m elhorava, chegou até a considerar a possibilidade de fugir ela tam bém , m as não sabia para onde ir, o que fazer… Correram -lhe as lágrim as ao reencontrar-se com Frasquita e com o restante das reclusas, que a receberam com ternura, com padecendo-se de quem havia sofrido na carne um castigo que cabia a todas igualm ente. Procurou Herm inia com o olhar e a reconheceu um tanto afastada, escondida entre as dem ais. Caridad esboçou um sorriso. Muitas das reclusas voltaram a cabeça para a pequena loura e abriram um corredor entre si. Após alguns instantes de silêncio, algum as as anim aram ; outras, as que se encontravam atrás de Herm inia, a em purraram com ternura; todas aplaudiram no m om ento em que elas se encontraram frente a frente. A loura ia abraçá-la, m as Caridad o im pediu, não haveria conseguido suportar que lhe tocasse as costas; em vez disso, beij aram -se entre as lágrim as e a em oção de m uitas delas.
“Que iria fazer eu fora daqui?”, perguntou-se naquele m om ento Caridad. A Galera continuava a ser a sua casa, e as reclusas a sua fam ília. Até o porteiro e o sem pre m al-encarado alcaide a trataram com certa bondade recordando o rastro de sangue que ela deixara ao ser levada para o hospital. Caridad não havia instigado o m otim nem participado dele m ais que as outras, am bos o sabiam . Aquela condescendência se traduziu na dispensa dos trabalhos m ais duros e em certa tolerância quando as reclusas pagaram com seu próprio dinheiro certa quantidade de óleo e de ervas de alecrim para preparar um unguento com que aliviar as disform es e ainda assoladas costas de Caridad.
Herm inia foi quem se ofereceu para m assagear sua am iga depois de as zeladoras apagarem as poucas e fum egantes velas de sebo que pugnavam por ilum inar a galeria das m ulheres.
Não lhe doeram as cicatrizes que atravessavam suas costas, doeram -lhe as m ãos de sua am iga deslizando com suavidade por suas costas: a doçura com que o fazia lhe trazia à m em ória sensações que ela j á acreditava esquecidas. “Cigano!”, pensava noite após noite, “que haverá sido de ti?”
– Não é necessário que continues – com unicou-lhe um a noite Caridad. – As feridas estão cicatrizadas; o óleo e as ervas custam dinheiro, e j á não sinto m elhora.
– Mas… – obj etou Herm inia.
– Eu te peço.
Um dia Herm inia foi posta em liberdade. Alguém que disse ser seu prim o foi buscá-la assim que ela term inou de cum prir sua pena. Caridad sabia quem era aquele prim o, o m esm o que lhe havia proporcionado as réstias de alho pelas quais a haviam detido e condenado. Ela tam bém havia cum prido os dois anos de condenação, m as não tinha prim os que pudessem tirá-la dali. Algum as irm andades que se ocupavam da sorte daquelas desgraçadas se interessaram em em pregá-la com o criada, m as Caridad se m antinha num silêncio pertinaz, cabisbaixa, quando lhe perguntavam por suas habilidades dom ésticas, perguntando-se que sentido tinha sair dali para cair nas m ãos de algum outro branco que a m altratasse. “Não passa de um a negra néscia”, term inavam dizendo os que se haviam oferecido para aj udá-la.
Herm inia tam bém a havia abandonado.
– Dança para nós, Cachita – rogou-lhe Frasquita um a noite, preocupada com o estado de abatim ento em que havia caído sua com panheira fazia j á dois m eses.
Caridad se negou, m as Frasquita insistia, acom panhada por m uitas outras. Sentada em seu colchão, ela continuou a m enear a cabeça. Frasquita a sacudiu pelo om bro; ela se afastou. Outra lhe revolveu o cabelo. “Canta”, pediu-lhe. Um a terceira lhe beliscou do lado. “Dança!” Caridad tentou afastar com desaj eitados tapas as m ulheres que a rodeavam , m as duas reclusas se abalançaram a ela e com eçaram a fazer-lhe cosquinhas.
– Fá-lo, por favor – insistiu Frasquita, contem plando com o rolavam de rir as outras três em cim a do colchão.
Enquanto não conseguiram que Caridad deixasse de pelej ar e se j untasse a seus risos, ofegante e com os andraj os com que vestia revoltos, as duas m ulheres não cessaram em seu em penho.
– Por favor – repetiu então Frasquita.
Desde aquele dia, Caridad decidiu buscar a seus deuses através de danças frenéticas e voluptuosas que am edrontavam até as reclusas m ais experientes. A quem m ais podia encom endar-se? Às vezes acreditava que efetivam ente seus deuses a m ontavam , e então caía no chão, transtornada, esperneando e gritando. O porteiro a advertiu um a, duas, três vezes. O cepo, tal foi o castigo que afinal se viu obrigado a im por-lhe o alcaide diante das algazarras que ela organizava. No entanto, ela reincidia.
“E a negrinha o fez”, cantou então Caridad com voz m onótona, aj oelhada, o pescoço e as pulsos presos entre os m adeiros do cepo instalado no pátio da prisão na últim a das vezes em que havia sido castigada pelo alcaide, rem em orando a noite em que cedera aos rogos de Frasquita e das dem ais. Com o o faziam os escravos na veiga, cantava suas penas quando a castigavam no cepo. “A negrinha dançou para suas am igas.” Im óvel no pátio naquelas noites interm ináveis, seus lam entos rom piam o silêncio e penetravam nas galerias superiores, em balando o sono de suas com panheiras.
– Cala-te, negra – gritou o porteiro lá da entrada –, ou term inarei por açoitar-te!
– E chegou o porteiro – continuou ela num sussurro –, é m au o porteiro! E agarrou a negrinha pelo braço…
O am anhecer a surpreendeu derrotada, a cabeça pendendo dos m adeiros em incôm odo cochilo. Doíam -lhe as costas. Doíam -lhe os j oelhos, esfolados, e o pescoço, e os pulsos… Doíalhe cada segundo que transcorria daquela m alfadada vida que a aproxim ava da felicidade para depois negá-la! Aletargada, acreditava ouvir os prim eiros m ovim entos na Galera: o cam inhar das reclusas dirigindo-se para a m issa, o café da m anhã. Quando as dem ais subiram à galeria para trabalhar, Frasquita lhe levou água e um pedaço de pão que ela esm igalhou para introduzir-lhe com carinho, pacientem ente, na boca. “Não deverias desafiar o porteiro”, aconselhou-a.
Caridad havia voltado a elevar a voz de noite; e o fez à recordação de Melchor, de Milagros, de Herm inia. Caridad não respondeu; m astigava com inapetência.
– Não voltes a dançar – continuou a outra com seus conselhos. – Queres água?
Caridad anuiu.
Frasquita buscou a m elhor m aneira de aproxim ar-lhe a concha dos lábios, em bora tenha derram ado a m aior parte no chão.
– Não o faças, sej a quem for que te peça. Entendes? Sinto m uito haver sido eu…
– Que é o que sentes, Frasquita?
A m ulher se virou. Caridad tentou levantar a cabeça. O porteiro e o alcaide se achavam atrás de Frasquita.
– Nada – respondeu a reclusa.
– Esse é o problem a de todas vós: nunca vos arrependeis de nada do que fizestes – replicou o alcaide grosseiram ente. – Afasta-te – acrescentou ao m esm o tem po que fazia um a indicação para o porteiro.
O hom em se aproxim ou de um a das extrem idades do cepo e m exeu na velha fechadura que m antinha firm es os m adeiros. Frasquita o observou estranhando; a Caridad ainda restavam dois dias de castigo. Um repentino suor esfriou seu corpo enquanto o porteiro alçava sobre seus gonzos o m adeiro superior e a libertava. E se houvesse decidido açoitá-la por cantar durante a noite? Caridad não o resistiria.
– Não… – com eçou a dizer.
– Silêncio! – ordenou o alcaide.
Caridad se levantou lentam ente, entorpecida, apoiando-se nos m adeiros que a haviam m antido presa.
– Mas… – insistiu Frasquita.
– Vai trabalhar.
Nesta ocasião foi o porteiro que a interrom peu, batendo-lhe nas pernas com a vara, que havia voltado para suas m ãos assim que term inara com o cepo.
– Não a açoite Vossa Mercê – suplicou Frasquita pondo-se de j oelhos diante do alcaide. – Eu sou a culpada por suas danças. Eu sou a culpada.
O alcaide, hierático, m anteve o olhar um bom tem po sobre a m ulher, depois o desviou para o porteiro.
– Nesse caso – ordenou a este –, que sej a ela quem cum pra os dois dias de cepo que faltavam para a negra.
– Não é verdade – conseguiu dizer Caridad. – Não foi ela…
O alcaide bateu no ar com a m ão e, enquanto Caridad continuava a gaguej ar, presenciou com o o porteiro indicava com a vara à sua am iga que se aj oelhasse e encaixasse o pescoço e os pulsos nos buracos do m adeiro inferior. Os gonzos voltaram a ranger, e o m adeiro superior caiu sobre Frasquita.
– E tu – anunciou então o alcaide dirigindo-se a Caridad –, recolhe tuas coisas e vai-te.
Ganhaste a liberdade.
Frasquita arranhou o pescoço ao virar o rosto instintivam ente para sua am iga. Caridad teve um sobressalto.
– Por quê? – perguntou ingenuam ente, com um fiapo de voz.
O alcaide e o porteiro soltaram um a risada.
– Porque assim ordenou a Sala de Alcaides, negra – respondeu o prim eiro em tom zom beteiro. – Suas Excelências se apiedaram de nós e nos livram de tuas danças e cantos de negros.
Não lhe perm itiram que se despedisse de Frasquita. O porteiro voltou a utilizar sua vara para im pedi-lo.
– Sorte, Cachita – ouviu não obstante que lhe gritava aquela lá do cepo. – Nós nos reverem os.
– Nós nos reverem os – respondeu Caridad atravessando o pátio a cam inho da escada.
Virou o rosto, m as o porteiro, a suas costas, tapou-lhe a visão. Talvez não a houvesse ouvido, duvidou Caridad.
– Nós nos reverem os, Frasquita! – repetiu.
A vara que bateu em um de seus flancos a im pediu de continuar olhando para trás. Subiu a escada com o estôm ago encolhido e com lágrim as nos olhos, porque sabia que aquele era um desej o que dificilm ente se veria cum prido. Depois de m ais de dois anos naquele cárcere, que sabia ela na verdade de Frasquita? Com o poderiam encontrar-se de novo?
– Quem …? – pigarreou. – Quem se encarregou de m im ? – perguntou ao porteiro antes de transpor a porta de acesso à galeria.
– E que sei eu? – respondeu este. – Um hom em quase tão m oreno com o tu. A m im não m e interessa quem é. Traz o ofício da Sala de Alcaides; isso é a única coisa que tenho de saber.
Quase tão m oreno com o ela? Um único nom e lhe veio à cabeça: Melchor. Só conhecia o cigano, pensou Caridad ao m esm o tem po que obedecia à vara e entrava na sala. A atenção das reclusas, que deixaram de costurar surpresas ao vê-la livre do cepo, distraiu seus pensam entos.
Não soube com o responder; franziu os lábios, com o se se sentisse culpada, e percorreu a galeria com o olhar. Muitas outras que não se haviam dado conta da situação abandonaram tam bém seu trabalho. Algum as se levantaram apesar das ordens das zeladoras.
– Não te entretenhas – urgiu com ela o porteiro. – Tenho m uito que fazer. Recolhe tuas coisas.
– Tu te vais?
Foi Jacinta quem fez a pergunta. Caridad anuiu com um triste sorriso. A m oça não havia querido ceder às pretensões de don Bernabé e procurar um perdão que agora, debilitada, provavelm ente não conseguiria.
– Livre, livre?
Caridad anuiu de novo. Tinha a todas diante de si, am ontoadas a um a distância que pareciam não se atrever a superar.
– Tuas coisas – insistiu o porteiro.
Caridad não lhe fez caso. Tinha os olhos fixos naquelas m ulheres que a haviam acom panhado durante m ais de dois anos: algum as velhas e desdentadas, outras j ovens, defendendo sua louçania com ingenuidade, todas suj as e esfarrapadas.
– Negra… – quis adverti-la o hom em .
– É verdade que estou livre? – inquiriu ela.
– Por acaso j á não te disse que estás?
Caridad deixou para trás o porteiro, sua vara e suas exigências, e cruzou aquele par de passos que sim bolizavam o abism o que se abria entre a liberdade e os que, em sua m aioria inj ustam ente, continuariam subm etendo-se à vara que naquele m om ento se ergueu am eaçadora atrás dela. Caridad o percebeu nos sem blantes atem orizados de suas com panheiras.
– Cachita está livre – ouviu-se dentre as reclusas um a voz escondida. – Ele nos castigará a todas? Tal com o num m otim ?
Caridad soube que a vara se rendia quando a que estava diante dela abriu os braços. Com a garganta presa e as lágrim as brotando de seus olhos, lançou-se para eles. Rodearam -na.
Palm earam suas costas, j á curadas. Abraçaram -na e apertaram -na. Felicitaram -na. Beij aram -na.
Desej aram -lhe sorte. Caridad não quis irritar um porteiro que estava contendo sua fúria, razão por que pegou um a m anta desfiada e os restos ainda m ais deteriorados de sua roupa de escrava, que ela ainda conservava e que fora conseguindo substituir por outras, e desceu a escada da galeria em m eio aos ensurdecedores aplausos e vivas das que ficavam para trás.
Não era Melchor. Por um m om ento havia chegado a im aginar… m as não conhecia o hom em que, papéis na m ão, visivelm ente incom odado, esperava j unto ao cubículo do porteiro localizado para além das portas de entrada da Galé. Era m ais baixo que ela, m agro, m usculoso, preto o cabelo que se entrevia sob a m onteira de que não se havia descoberto. Preta se via tam bém sua barba descuidada, num sem blante austero e de pele trigueira, curtida pelo sol. Vestia-se com o um agricultor: sandálias rústicas de couro am arradas aos tornozelos, calções pardos de flanela sem m eias e um a cam isa sim ples que talvez algum dia houvesse sido branca. O hom em a exam inou de alto a baixo sem dissim ulação algum a.
– Aqui a tens – anunciou o porteiro.
O outro anuiu.
– Vam os, então – ordenou im perioso.
Caridad hesitou. Por que tinha que confiar sua pessoa àquele estranho? Preparava-se para perguntar, m as os raios do sol que ilum inaram a lúgubre peça carcerária à m edida que o porteiro lhes abria a saída confundiram sua visão e até sua vontade. Inconscientem ente seguiu o agricultor e transpôs o um bral para deixar para trás m ais de dois anos de sua vida. Parou assim que pôs o pé na rua de Atocha e fechou os olhos ofuscada por um sol de j ulho que ela percebeu diferente daquele que se infiltrava pelas altas j anelas das galerias ou no pátio do cárcere: este era m ais lim po, vital, tangível até. Respirou fundo; fê-lo de form a espontânea, um a, duas, três vezes. Depois abriu os olhos e descobriu o sorriso da m iúda Herm inia parada do outro lado da rua, com o se tivesse m edo de aproxim ar-se da Galera. Correu para ela sem pensá-lo. Muitos se queixaram à sua passagem . Caridad não os ouvira. Abraçou a am iga, com a respiração acelerada, m il perguntas engasgadas em sua garganta, enquanto as lágrim as de um a e de outra se m esclavam em suas faces.
– Tu…! Aqui? Herm inia… Por que…?
Não pôde continuar. Sentiu-se desfalecer. A longa noite no cepo, a despedida de Frasquita e das dem ais reclusas, os abraços, os aplausos, os choros, a liberdade… Herm inia agarrou Caridad j usto quando lhe faltavam os j oelhos.
– Vem , Cachita. Vam os – disse-lhe enquanto a segurava pela cintura e a acom panhava até um carro de m ão de duas rodas carregado de m elões. – Segura-te aqui – acrescentou levando a m ão de sua am iga a um dos tabuões das laterais do carro.
– Já estam os prontos? – perguntou não sem certa acritude o agricultor.
– Sim , sim – respondeu Herm inia. Depois se voltou para Caridad, agarrada ao tabuão. –
Agora tenho de aj udar Marcial a em purrar o carro. Tu não te soltes. Irem os à Praça May or para vender os m elões e…
– Já estam os bem atrasados, Herm inia – urgiu com ela o outro.
– Não te soltes – repetiu esta, j á correndo para um a das varas do carro para em purrá-lo j unto com Marcial pela íngrem e ladeira da rua de Atocha.
Agarrada à m adeira, Caridad se deixou arrastar. O bulício da m ultidão e os carros que iam e vinham eram com o um zum bido em seus ouvidos. Entreviu lugares pelos quais havia passado: hospitais e igrej as, a fonte dos delfins coroada por um anj o onde a haviam detido, o im enso edifício do cárcere. Mais de dois anos em Madri, e era o único lugar que conhecia da cidade: a rua de Atocha. Da fonte do anj inho para a Galera, da Galera para a Sala de Alcaides e de volta ao cárcere de m ulheres.
Nunca havia estado na Praça May or de Madri, da qual tanto havia ouvido pela boca das dem ais reclusas. Despertou de sua confusão num lugar que lhe pareceu im enso, com caixotes e barracas para o m ercado dispostos em seu centro, rodeados por seus quatro lados pelos edifícios m ais altos que j á havia visto: de seis andares e terraço, estreitos todos eles, de tij olo verm elho, grades trabalhadas em suas sacadas, pretos e dourados em suas fachadas. Seduziram -na a harm onia e a uniform idade das construções, só rom pidas por dois suntuosos edifícios de frontispícios defrontados, em bora soubesse que o interior de todas aquelas casas desm erecia sua m aj estade. Havia ouvido que se tratava de habitações pequenas, estreitas e lúgubres, destinadas a alugar ou habitadas pelos com erciantes que com andavam os negócios dos pórticos da praça: o portal de panos, o de cânham os e o de sedas, fios e quinquilharia, o qual abarcava dois frontispícios inteiros e pelo qual entraram nela.
– Estás m elhor? – inquiriu Herm inia quando Marcial as deixou sozinhas e se internou entre os caixotes para vender os m elões.
– Estou, sim – respondeu Caridad.
As pessoas não cessavam de passar j unto a elas. O sol de j ulho com eçava a queim ar, e elas se refugiaram nas som bras dos pórticos.
– Por que…?
– Porque eu te prezo, Cachita – adiantou-se a outra. – Com o ia deixar-te ali dentro?
“Eu te prezo.” Caridad sentiu um calafrio; todos aqueles que diziam havê-la prezado ou am ado tinham ido desaparecendo de sua vida.
– Custou-m e m uito – interrom peu Herm inia seus pensam entos – encontrar um cidadão sério e solvente que quisesse prestar-se a responder por ti diante da Sala de Alcaides. Fum am os? –
Sorriu e rebuscou num a bolsa que levava até tirar um charuto.
Pediu fogo a um hom em que passava por ali. Fez-se silêncio entre as duas enquanto aquele acendia a isca e a aproxim ava da ponta do charuto. Herm inia puxou com força, e o charuto se acendeu.
– Tom a – ofereceu à am iga.
Caridad pegou o charuto, fino e m altorcido, extrem am ente escuro e sem arom a. Puxou: tabaco forte e am argo, de lenta e difícil com bustão. Tossiu.
– Era m elhor o da Galera! – queixou-se. – Nem sequer ali dentro se fum a tabaco tão ruim com o este.
Sorriu um a. Fê-lo tam bém a outra. Não se atreveram a fundir-se num abraço à vista das pessoas, m as em um só segundo se disseram m il coisas em silêncio.
– Pois é a este charuto asqueroso que deves tua liberdade – disse Herm inia rom pendo o encantam ento.
Caridad olhou para o charuto. Um a pequena plantação de tabaco clandestina, disso se tratava, explicou-lhe Herm inia. O sacerdote de Torrej ón de Ardoz m antinha algum as plantas em terras próprias da paróquia. Até então, com a aj uda de Marcial, que tinha arrendadas à paróquia as videiras atrás das quais se escondia o tabacal, o sacerdote as havia explorado por m eio do sacristão, m as o hom em j á era velho dem ais para continuar com isso. “Tenho um a am iga…”, aproveitara Herm inia a casualidade ao inteirar-se da situação. Custara-lhe convencer Marcial e don Valerio, o pároco, m as pouco a pouco os receios de am bos se atenuaram com a falta de alternativa. A quem podiam contratar para um a atividade tão severam ente castigada pelas leis?
Aceitaram , e don Valerio utilizou velhos contatos na Sala de Alcaides para que atendessem a Marcial e lhe dessem a custódia da reclusa. Não houve problem a: Caridad havia cum prido seus dois anos de reclusão, e o agricultor assegurava m eios de vida para ela e boa conduta da parte dela. Um dia os avisaram de que j á dispunham dos docum entos.
Marcial regressou aos pórticos com o carro ainda carregado de m elões.
– Chegam os tarde! – queixou-se em tom severo, culpando a Herm inia.
O atraso originado pelas tram itações na Sala de Alcaides e na Galera o havia im pedido de vender sua m ercadoria.
– Nenhum a das barracas quer m elões a esta hora da m anhã. – Depois exam inou Caridad tal com o havia feito no cárcere e m eneou a cabeça. – Não m e havias advertido de que era tão negra
– recrim inou a Herm inia.
– De noite não se nota tanto – soltou Caridad.
Herm inia explodiu num a gargalhada. O agricultor arqueou as sobrancelhas.
– Não pretendo passar as noites contigo.
– Não sabes o que estás perdendo – interveio Herm inia ao m esm o tem po que piscava para sua am iga.
Não. Marcial não era seu esposo, nem seu am ante, nem sequer parente, satisfez Herm inia a curiosidade de Caridad enquanto cam inhavam atrás do agricultor com seu carro de m ão carregado de m elões. Era só um vizinho. A casa dos tios de Herm inia, onde ela m orava e onde tam bém o faria a negra, era gem inada com a de Marcial, e, apesar de o assunto do tabaco ter de ser um segredo, m eio povo o sabia. Havia prom etido a seus tios um pequeno pagam ento em troca de acolher Caridad.
– Mas não tenho dinheiro – queixou-se ela.
– Não im porta. Tu o conseguirás com o tabaco. Com certeza! Vão dar-te um a parte do produzido. O pároco j á decidirá o que te corresponde tendo em vista os resultados – explicou Herm inia. – Em bora tua parte sem pre sej a sobre o m anufaturado… Porque sabes trabalhar a folha e os charutos, não? Foi o que m e disseste.
– É a única coisa que sei fazer – respondeu ela quando entravam num a praça irregular em que se acum ulava tanta ou m ais gente que na May or –, em bora agora tam bém m e tenham ensinado a costurar.
– A Puerta del Sol – explicou-lhe Herm inia ao notar que a outra dim inuía o passo.
– Esperai aqui – gritou Marcial para as duas m ulheres.
Herm inia se afastou em silêncio do cam inho do carro de m ão; sabia o que ia fazer o agricultor, que dobrou num a das ruelas que desem bocavam na praça. Em Madri havia dez postos autorizados pela Sala de Alcaides para a venda de m elões, e era ali que eles se deviam vender sob controle das autoridades, que fiscalizavam sua qualidade, seu peso e seu preço, m as tam bém existiam num erosas vendedoras que, sem posto fixo nem autorização, arriscando-se a ser detidas e a acabar na Galera, com pravam e revendiam frutas e verduras contra a lei. As vendedoras de m elão se espalhavam pelos arredores da Puerta del Sol, e Marcial, resm ungando, foi atrás delas.
“Esta é a fam osa Puerta del Sol?”, perguntou-se Caridad. Tam bém havia ouvido falar desse lugar na Galera: m entideiro em que as pessoas conversavam até chegar a convencer-se da certeza dos boatos que elas m esm as concebiam ; lugar de reunião de ociosos e folgazães, de pedreiros sem trabalho ou de m úsicos soberbos e im pertinentes à espera de que algum m adrilense – com posses ou sem elas, m as decidido a em ular os que as tinham – os contratasse para alegrar algum a das tertúlias que costum avam realizar de tarde em suas casas.
Am bas as m ulheres ficaram paradas j unto ao convento conhecido pelas pessoas com o de São Felipe, o Real, no com eço da praça. Devido ao desnível da rua May or, o átrio da igrej a, um terreno grande que desde sem pre havia sido centro de reunião e espairecim ento dos m adrilenses, elevava-se acim a das cabeças de Herm inia e Caridad. Nenhum a delas, no entanto, prestou atenção aos risos e com entários que surgiam do m entideiro.
– Queres entrar? – convidou Herm inia.
Caridad perm anecia absorta na fileira de grutas que se abriam sob a escadaria de São Felipe.
Tam bém existiam grutinhas sob o átrio da igrej a do Carm o e em alguns outros lugares daquela Madri construídos sobre cerros, m as as m ais conhecidas eram as da Puerta del Sol. Em algum as se vendia roupa usada, m as a m aioria era destinada à venda de brinquedos, artigos que os com erciantes expunham ao público am ontoados j unto às portas ou pendendo de seus dintéis num a atraente e colorida feira capaz de atrair a atenção de todos quantos passavam .
– Podem os?
Herm inia sorriu diante da ingenuidade que se refletiu no rosto redondo de Caridad.
– Naturalm ente que podem os… desde que não quebres nada. Marcial ainda dem orará um tem po.
Entraram num a das grutas, estreita e alongada, lôbrega, escura, sem outra luz natural que a que se infiltrava pela porta. Os brinquedos apareciam esparram ados até no chão: coches, caleças, cavalos, bonecas, apitos, caixinhas de m úsica, espadas e fuzis, tam bores… As duas se assustaram com o m eninas quando um a cobra saltou do interior de um a caixa para picar o dedo da m ulher que a estava apalpando. A velha gorda que m antinha o negócio soltou um a gargalhada enquanto voltava a em purrar a cobra para o interior. A m ulher se refez da surpresa e perguntou quanto custava, j á disposta a com prá-la. Enquanto as duas negociavam o preço, Caridad e Herm inia se distraíram entre as quatro ou cinco pessoas que se am ontoavam lá dentro, algum as brigando com as crianças que as acom panhavam e que queriam a loj a inteira.
– Olha isto, Cachita. – Herm inia apontou para um a boneca loura. – Cachita? – insistiu diante de sua falta de resposta.
Voltou-se para Caridad e a encontrou enfeitiçada diante de um brinquedo m ecânico que descansava em cim a de um a prateleira: sobre um a pequena plataform a pintada de verde e ocre, várias figurinhas de hom ens, m ulheres e crianças pretos, alguns carregados de sacos de tabaco, outros com paus longos dos quais pendiam as folhas do tabaco, e um capataz branco com um látego na m ão que encerrava a com posição, dispunham -se ao redor do que representava um baobá e várias plantas de tabaco.
– Gosta? – inquiriu Herm inia.
Caridad não respondeu.
– Espera, j á vais ver um a coisa.
Herm inia girou repetidam ente um a dim inuta chave que sobressaía da base do brinquedo, soltou-a ao chegar ao m áxim o, e com eçou a soar um a m usiquinha m etálica ao m esm o tem po que a negrada girava ao redor do baobá e das plantas de tabaco, e o capataz branco levantava e baixava o braço com que segurava o látego.
Caridad não disse nada; um a de suas m ãos estava estendida, com o se hesitasse em tocar ou não aquele brinquedo. Herm inia não se apercebeu do estado quase de transe em que se achava sua am iga.
– Vou perguntar o preço – disse ao contrário, exultante, anim ada, dirigindo-se à velha que as vigiava do balcão agora que a m ulher da caixa e a da cobra j á haviam saído da gruta. – Nem que poupássem os todo o dinheiro ganho em vários anos! – lam entou-se de volta. – Vem ver a boneca!
Marcial teve de percorrer várias grutinhas antes de encontrá-las. Seu rosto, contraído, foi suficiente para que Herm inia puxasse Caridad. Sabia o que havia sucedido: as vendedoras am bulantes lhe haviam com prado os m elões por m enos da m etade do que ele haveria podido conseguir. Seguiram o carro de m ão vazio através da praça da Puerta del Sol, lentam ente, por m ais m aldições que Marcial lançasse à m ultidão para que lhes abrisse passagem .
Caridad viu aos aguadeiros, asturianos todos eles, reunidos ao redor da fonte a que cham avam Mariblanca, com seus cântaros preparados para transportar a água aonde quer que necessitassem dela. Jacinta era asturiana e lhe havia falado deles. Seria um daqueles hom ens o parente que a havia trazido a Madri e a quem não quisera decepcionar quando de sua prim eira gravidez?
Observou-os; gente brava e dura, havia-lhe assegurado a outra, a m aioria dedicada a trabalhos tão severos com o os de aguador, descarregador de carvão ou m oço de corda. Às sextas-feiras, de um púlpito instalado na praça, entre a igrej a do Bom Sucesso e a Mariblanca, padres e frades lhes davam um serm ão. Pelo visto necessitavam disso: as brigas entre os aguadeiros e os m oradores que pretendiam abastecer-se nas fontes eram constantes, tanto com o as que eles m esm os m antinham entre si quando algum tentava carregar em sua vez m ais de um a “viagem ”: um cântaro grande, dos m edianos ou quatro pequenos; aquilo era o m áxim o que era perm itido carregar por vez. Tam bém lhe havia contado Jacinta, não sem certa nostalgia, que os asturianos se reuniam no prado do Corregedor para dançar a “dança prim a” de sua terra. Iam todos e dançavam unidos, m as sem pre term inavam brigando a pauladas ou pedradas, reunidos em grupos correspondentes a seus povoados de origem .
Com o na Praça May or, ao redor da fonte da Mariblanca, se postavam barracas e caixotes para a venda de carnes e frutas, m as ao contrário da uniform idade e grande altura dos edifícios da praça, a Puerta del Sol tinha tão som ente algum as poucas construções im portantes: o convento de São Felipe, o Real, e um a grande casa que ocupava toda um a quadra com um a torre de esquina que testem unhava a nobreza de seu proprietário, o senhor da vila de Hum era, em sua entrada pela rua May or; a igrej a e o Hospital do Bom Sucesso, defrontado com a torre na outra extrem idade; em um dos frontispícios estava a inclusa para as crianças abandonadas, e um pouco adiante, do outro lado da rua do hospital, o convento da Vitória, cuj o átrio tam bém servia de ponto de encontro para os j anotas afrancesados. O restante das construções era tão som ente de casas baixas, a m aioria de um só andar, estreitas, velhas e am ontoadas, em cuj as fachadas se arej avam as roupas, postas para secar, e a intim idade de seus m oradores. O lixo se acum ulava nos portões, e os excrem entos que não haviam sido lançados despreocupadam ente pelas j anelas perm aneciam diante de suas portas, nos urinóis, à espera de que passasse o carro dos dej etos… se chegasse a fazê-lo.
Entre as pessoas e um bulício que se lhe afigurava estranho depois de dois anos de reclusão, Caridad teve de ter cuidado para não perder o passo com que Marcial puxava o carro de m ão.
Passaram pela Puerta del Sol e se adentraram na rua de Alcalá, com seu tráfego de coches e outros carros para cim a e para baixo da rua, cruzando-se, parando para que seus ilustres ocupantes conversassem por alguns instantes, se cum prim entassem ou sim plesm ente exibissem sua riqueza. Caridad tentou im aginar o que a esperava. Torrej ón de quê? Não recordava o nom e do povoado m encionado por Herm inia; esquecera-o assim que a outra lhe falara do tabaco, algum as plantas tão som ente, um sacerdote e um sacristão j á velho. “Mau tabaco”, acrescentou para si. A pressa, os coches, as ordens e insultos que proferiam os cocheiros e os criados de libré que os acom panhavam a pé obrigaram Caridad a esquecer-se de suas coitas e até a im pediram de prestar atenção aos ostentosos edifícios erguidos por todos os tipos de ricos e de ordens religiosas na m ais nobre das vias de Madri, que term inava em sua porta oriental, a de Alcalá. Por seu único arco, ladeado por duas torrezinhas, Caridad deixou a cidade tão som ente poucos m eses depois de Milagros haver entrado nela.
Quatro léguas pelo cam inho real os separavam de Torrej ón de Ardoz. Percorreram -nas em igual núm ero de horas, abrasados por um sol estival que se encarniçou sobre eles enquanto atravessavam extensos trigais. “Aqui cultivam tabaco?”, perguntou-se Caridad recordando a fértil veiga cubana. Teve oportunidade de recordar seu velho chapéu de palha: não havia necessitado dele na Galera, m as naquele cam inho, sob o sol ardente, sentiu falta dele. Devia ter ficado abandonado no quarto da pousada secreta, j unto com seu vestido verm elho, os docum entos e o dinheiro. “Curiosa liberdade”, disse-se. Em dois anos não havia sentido falta de seu vestido verm elho, nem sequer quando tinha de pagar algum dinheiro por um a das cam isas surradas e am arrotadas de que as provia a demandadera, e no entanto havia inspirado tão som ente alguns m om entos de liberdade e j á as recordações abriam cam inho em sua m em ória.
Atrás de um irritado e silencioso Marcial, que as puxava sem com paixão depois de haver culpado aos gritos Herm inia pela perda sofrida na venda de seus m elões, as duas m ulheres tiveram tem po suficiente para explicar-se um a à outra o que se havia passado com elas.
– Com o estão tuas costas? – interessou-se Herm inia j usto quando atravessavam um a ponte. –
O rio Jaram a – anunciou m ovendo o queixo para o leito quase seco.
Caridad ia responder acerca do estado de suas costas, m as a outra não lhe deu oportunidade.
– Terem os de conseguir-te sapatos – disse apontando para seus pés descalços.
– Não sei andar de sapato – replicou ela.
Deixaram para trás a ponte de Viveros. Faltava um a légua para chegarem a Torrej ón de Ardoz, e Caridad j á sabia de toda a fam ília com que ia m orar: os tios de Herm inia, Germ án e Margarita. Ele era agricultor, com o a quase totalidade dos habitantes do povoado, e sua esposa o aj udava quando podia.
– Meu tio é um bom hom em – m urm urou Herm inia –, com o m eu pai, em bora ele fosse um pouco teim oso. Acolheu-m e quando eu era m enina, quando m inha m ãe não pôde ocupar-se de seus filhos e nos distribuiu por aí.
Caridad conhecia a história, sabia tam bém que Herm inia não havia voltado a ter notícias de sua m ãe, com o ela. Recordou-se de que naquela noite as duas haviam chorado.
– A tia Margarita j á é velha – explicou-lhe –; quando não está doente por um a coisa, está doente por outra. Mas te tratará bem .
Havia ainda Antón e Rosario. Caridad percebeu certo nervosism o em sua am iga quando se espraiou em elogios para seu prim o Antón, que lavrava com seu pai as terras que tinham em arrendam ento, em bora am iúde tam bém aj udasse na feitura de telhas ou acarreasse palha até Madri.
– Se teus parentes são agricultores – interrom peu-lhe o discurso Caridad –, por que não se ocupam eles do tabaco?
– Não se atrevem – respondeu.
Andaram alguns passos em silêncio.
– Porque tu sabes que o negócio do tabaco é perigoso, não? – perguntou Herm inia.
– Sei, sim .
Caridad o sabia. Havia conversado com um a reclusa condenada por traficar com ele.
– Com Rosario é preciso ter cuidado – advertiu Herm inia algum tem po depois. – É convencida, rancorosa e m andona.
A esposa de seu prim o não aj udava no cam po. Tinha quatro filhos cuj os nom es Caridad nem sequer tentou guardar, e fazia anos que vinha obtendo um bom dinheiro tirando-lhes o leite que lhes correspondia para vendê-lo aos filhos dos m adrilenses endinheirados. Com o lhe contou Herm inia, fazia cerca de seis m eses que m orava com eles o filho de um fiscal do Conselho de Guerra a quem seus pais haviam levado recém -nascido a Torrej ón para que Rosario o am am entasse.
– E tu? – perguntou Caridad.
– Eu o quê?
– Que fazes ali, na casa de teus tios?
Herm inia suspirou. Marcial escapou alguns passos quando Caridad parou; não lhe havia contado a razão pela qual continuava na casa de seus tios.
– Eu aj udo – lim itou-se a responder.
Caridad entrefechou os olhos com a silhueta de sua am iga recortada contra o cam po enquanto aquele sol tão diferente do da Galera acariciava sua figura.
– Nunca te casaste?
Herm inia a im peliu a seguir em frente.
– Falta pouco para… – tentou safar-se.
– Por quê? – insistiu Caridad interrom pendo-a.
– Um bebê – confessou por fim Herm inia. – Há m uitos anos, antes do cárcere. Ninguém em Torrej ón se casará com igo. E em Madri… em Madri os hom ens têm m edo de contrair m atrim ônio.
– Não m e contaste nada disso.
Herm inia evitou olhá-la, e continuaram a andar em silêncio. Caridad sabia que os hom ens não queriam casar-se. Muitas das reclusas da Galera se queixavam da m esm a coisa, de que naquela Madri da civilidade e do luxo desenfreado os hom ens tinham m edo de casar-se. O
núm ero de casam entos caía ano após ano, e com ele um a natalidade que se substituía por pessoas vindas de todos os cantos da Espanha. A razão não era outra que a im possibilidade de fazer frente aos gastos suntuários, principalm ente roupas, a que as m ulheres se lançavam em veem ente com petição assim que se casavam , tanto as nobres com o as hum ildes, cada um a em sua m edida.
Muitos hom ens se haviam arruinado; outros trabalhavam sem descanso para agradar a suas esposas.
Torrej ón de Ardoz era um povoado de pouco m ais de m il habitantes que se achava j unto à estrada real que levava a Saragoça. Passaram diante do Hospital de Santa María, da entrada, e esquivaram -se de dois m endigos que os assediaram . Outra quadra, e tom aram a rua de Enm edio até chegar à Praça May or. Na rua del Hospital, entre a igrej a de São João e o Hospital de São Sebastião, pararam diante de um as casas baixas de adobe, com hortos traseiros que j á confinavam com as eiras. Ainda brilhava o sol.
Marcial soltou um grunhido ao m odo de despedida, entregou a Caridad os papéis que asseguravam sua liberdade, encostou o carro de m ão na fachada de um a das casas e entrou nela.
Caridad seguiu os passos de Herm inia para a que confinava com aquela.
– Ave Maria Puríssim a – cum prim entou esta em voz alta após transpor o um bral.