A Rainha Descalça
II - Canto de sangue
II
CANTO DE SANG UE
Cápitulo 11
Sevilha,
30 de julho de 1749
Assolada pelo insuportável calor estival, a vida cidadã transcorria com languidez. Aqueles que podiam fazê-lo haviam trasladado j á m óveis, roupas e utensílios dos andares altos de suas casas para o térreo, onde tentavam lutar contra os calores e o suão; os dem ais, a m aioria da população, iam para qualquer das duas m argens do Guadalquivir, a sevilhana e a trianeira, onde ao m enos podia encontrar-se um vislum bre de vida nas pessoas que se banhavam no rio, em busca de um pouco de frescor, sob o olhar atento dos vigilantes destinados àquele lugar pelo cabido m unicipal para evitar as frequentes m ortes por afogam ento. Assim ia transcorrendo o dia quando um rum or com eçou a correr entre os cidadãos: o exército estava tom ando a cidade. Não se tratava dos hom ens dos aguazis m unicipais ou do assistente de Sevilha, m as do exército! De repente, soldados arm ados se postaram nas treze portas e nos dois postigos das m uralhas da capital e m andaram as pessoas que se achavam fora dos m uros entrar nela. Banhistas, m ercadores, m arinheiros e trabalhadores do porto, com erciantes, m ulheres e crianças… A m ultidão se apressou a obedecer às ordens dos m ilitares.
– Vam os fechar as portas da cidade! – gritavam cabos e sargentos à frente de destacam entos arm ados.
Mas, para além daquela advertência, nenhum a autoridade deu m aiores explicações; os soldados em purravam com seus fuzis os sevilhanos que se am ontoavam nas portas e perguntavam o que estava sucedendo. A agitação alcançou o ápice quando alguém gritou que toda a cidade estava rodeada pelo exército. Muitos voltaram o olhar para Triana e com provaram que assim era: no arrabalde, na outra m argem do rio, viam -se correr suas pessoas m isturadas entre os brancos uniform es dos soldados, e a ponte de barcos se havia convertido num fervedouro de cavalgaduras que se apressavam em um a ou outra direção estim uladas pelos m ilitares.
– Que é que está acontecendo?
– Há guerra?
– Estão atacando-nos?
Mas em lugar de respostas as pessoas recebiam em purrões e golpes. Porque os soldados tam pouco conheciam as razões; só haviam recebido a ordem de obrigar a entrar os vizinhos e fechar as portas da cidade. Unicam ente duas deviam ficar abertas: a do Areal e a da Carne.
– A casa! – gritavam os oficiais. – Ide para vossas casas!
A m esm a ordem iam gritando pelas ruas as diferentes patrulhas que circulavam pelo interior de Sevilha e Triana; um a ordem que nesse 30 de j ulho de 1749 se gritou por toda a Espanha num a m inuciosa e secreta operação m ilitar idealizada pelo bispo de Oviedo e presidente do Conselho de Castilha, don Gaspar Vázquez Tablada, e pelo m arquês de la Ensenada, os quais poucos anos antes haviam endurecido as penas para os ciganos aprisionados fora de seus lugares de origem : a m orte. Em virtude daquela nova pragm ática de 1749, as tropas reais tom aram nesse m esm o dia todas as cidades do reino em que se tinha notícia de que viviam ciganos.
Ao fim de algum as horas, as portas de Sevilha se haviam fechado, e as do Areal e da Carne se achavam fortem ente guardadas; Triana havia sido cercada pelo exército, os bons cidadãos correram para refugiar-se em suas casas, e os destacam entos se postaram estrategicam ente em determ inadas ruas. Foi então que os soldados receberam por fim instruções diretas da parte de seus superiores: deter todos os ciganos, pessoas infam es e nocivas, sem consideração de sexo ou idade, e confiscar todos os seus bens.
Anteriorm ente se haviam enviado os pertinentes ofícios secretos aos corregedores de todas as povoações do reino em que havia fam ílias ciganas recenseadas, razão por que o assistente de Sevilha, na qualidade de corregedor da cidade, j á havia assinalado aos com andos m ilitares as casas e os lugares onde devia proceder-se à detenção.
Com o sucedeu em toda a Espanha, os ciganos assistiram à infam e m edida estupefatos: em Sevilha foram detidos sem que apresentassem oposição, tal com o ocorreu em Triana com os ferreiros do beco de San Miguel e com os que viviam na Cava ou em seus arredores. Melhor sorte tiveram , no entanto, os da ciganaria do horto da Cartuxa: por estarem em cam po aberto, m uitos deles puderam fugir deixando para trás seus parcos pertences. Contudo, dois faleceram sob os disparos dos soldados quando fugiam , outro ficou ferido num a perna e outro ainda se afogou no rio diante da im potência de sua m ulher, do choro de seus filhos pequenos e do desprezo da tropa.
Cerca de cento e trinta fam ílias ciganas foram presas em Sevilha na ação m ilitar m aciça de j ulho de 1749.
No interior da choça, Caridad ouviu os gritos dos oficiais do exército que se elevavam sobre o tum ulto.
– Prendei-os a todos!
– Que não escape nenhum !
Deixou de trabalhar o tabaco que lhe seguia entregando Frei Joaquín. Assustada com o alvoroço da correria de ciganos e soldados, com os gritos de crianças e m ulheres e com um que outro disparo, levantou-se da m esa e apressou-se para a entrada j usto quando Antonio e sua esposa corriam m ancando na direção contrária, aj udando-se entre si.
– Que…? – tentou perguntar-lhes.
– Afasta-te! – em purrou-a o velho.
Ficou ali parada, absorta, observando os soldados cair sobre as m ulheres ou am eaçar com o fuzil os hom ens. Muitos conseguiam escapar e ultrapassavam com arroj o a linha envolvente com que os m ilitares haviam tentado tom ar a ciganaria. Procurou Milagros com o olhar, sem achá-la, e viu que o tio Tom ás distraía um grupo de soldados para que um de seus filhos fugisse com a fam ília às costas. O próprio tio Tom ás foi violentam ente dom inado, m as seu filho se perdeu entre os hortos. Não havia nem sinal de Milagros. Alguns ciganos escapavam saltando por cim a dos telhados das choças para cair atrás do m uro do Horto da Cartuxa e em preender um a frenética corrida para a liberdade. Antonio e a esposa voltaram a em purrá-la ao deixar a choça.
Caridad os seguiu com o olhar: a velha ia perdendo o tabaco e os charutos que havia furtado do interior. Observou-os correr com dificuldade para… os soldados! Um deles soltou um a gargalhada ao vê-los aproxim ar-se, velhos e aos trancos e barrancos, m as m udou o sem blante quando Antonio m ostrou um a grande navalha na m ão. Um golpe com a culatra do fuzil no estôm ago do velho bastou para que este soltasse a arm a e caísse no chão. O soldado e dois com panheiros riram assim que deram por term inada a luta, j usto antes que a cigana deixasse cair sua bolsa e os surpreendesse abalançando-se com assom brosa força e agilidade, nascida do ódio e da ira, com as m ãos em form a de garras com o única arm a, àquele que havia atingido seu m arido. Os hom ens tardaram a reagir. Caridad viu aparecer uns filetes de sangue no rosto do soldado. Custou-lhes dom inar a velha.
– Que fazes tu aqui?
Atenta com o estava em Antonio e sua esposa, Caridad não se havia apercebido de que a operação quase havia term inado e de que o restante dos soldados entrava j á nas choças. Os ciganos detidos perm aneciam agrupados na rua e cercados. Ela baixou o olhar diante do soldado que se havia dirigido a ela.
– Que fazes tu aqui, negra? – repetiu este diante do silêncio de Caridad. – És cigana? – Depois a olhou de alto a baixo. – Não. Com o hás de ser cigana? Ei! – gritou a um cabo que passeava pela rua –, que fazem os com esta?
O cabo se aproxim ou e lhe fez as m esm as perguntas. Caridad continuou sem responder e sem olhá-los.
– Por que estás na ciganaria? Por acaso és escrava de algum deles? – Ele m esm o descartou a ideia negando repetidam ente com a cabeça. – Fugiste de teus senhores, não? Sim , é isso o que deve…
– Sou livre – conseguiu dizer Caridad com um fio de voz.
– É verdade? Dem onstra.
Caridad entrou na choça e voltou com sua trouxa, na qual rebuscou até encontrar os docum entos que o escrivão d’ A Rainha lhe havia entregado.
– Certo. – Após exam iná-los e tocá-los, com o se pudesse reconhecer pelo tato o que era incapaz de ler, o cabo os deu por bons. – Que levas aí?
Caridad lhe entregou a trouxa, m as, tal com o havia sucedido na porta de Mar de Cádiz, o m ilitar deixou de procurar assim que sua m ão topou com o velho, áspero e gasto cobertor com que se protegia do frio no inverno e lim itou-se a sopesar e sacudir a trouxa para ver se algo em seu interior tilintava, m as pouco podiam pesar ou tilintar o cobertor, as roupas verm elhas, alguns charutos que lhe havia entregado Frei Joaquín em pagam ento por seu trabalho e o chapéu de palha que pendia am arrado a ela.
– Vai-te daqui! – gritou-lhe então. – Já tem os bastantes problem as com toda esta escória.
Caridad obedeceu e em preendeu cam inho para Triana. No entanto, dim inuiu o passo na rua ao passar j unto aos ciganos detidos. Estaria Milagros entre eles? Os soldados os desarm avam e lhes tiravam suas j oias e avelórios ao m esm o tem po que um novo exército, este de escrivães, tentava tom ar nota de seus nom es e dos bens que lhes pertenciam .
– De quem é esta m ula? – perguntou aos gritos um soldado com a corda de um a m agra azêm ola na m ão.
– Minha! – gritou um dos ciganos.
– Cala-te, m entiroso! – saltou um a m ulher. – Essa é de um lavrador de Cam as!
Alguns ciganos riram .
“Com o podem rir?”, assom brou-se Caridad enquanto continuava procurando Milagros entre eles. Viu o tio Tom ás, e Basilio, e Mateo… a m aioria dos Vegas velhos. Tam bém viu Antonio e a esposa, abraçados. Mas não encontrava Milagros.
– Muito bem – plantou-se o soldado da m ula –, de quem é?
– Dele – respondeu alguém apontando para o prim eiro cigano.
– Do de Cam as – disse outro.
– Minha – ouviu-se dentre o grupo.
– Não. É m inha – riu um terceiro.
– A tua é a outra.
– Não, essa, sim , é a do de Cam as.
– Tinha duas m ulas o de Cam as?
– Do rei! – interveio um j ovem . – Do rei – repetiu diante da exasperação do soldado. – É a que lhe guardam os para que a m onte quando vem visitar Triana!
Os ciganos explodiram de novo em gargalhadas. Caridad alargou os lábios num sorriso, m as seus olhos seguiam expressando a preocupação que sentia por Milagros.
– Não a prenderam – gritou-lhe o tio Tom ás im aginando que era o que a preocupava. – Não está aqui, negra.
– Que é o que não está? – surpreendeu-os rispidam ente o m esm o cabo que havia interrogado Caridad e que se havia aproxim ado diante do vozerio.
Caridad titubeou e baixou o olhar.
– A m ula do rei, capitão – respondeu-lhe então Tom ás com fingida seriedade. – Não perm ita Vossa Excelência que o enganem : em verdade a do rei é a m ula que o de Cam as tem .
– Ride! – gritou o cabo dirigindo-se a todos os detidos. – Aproveitai para rir agora, porque ali para onde vais deixareis de fazê-lo. Eu vo-lo j uro! – Depois se voltou para Caridad: – E tu: não te havia dito que…?
– General – interrom peram -no lá do grupo –, ao lugar a que nos vai m andar poderem os levar a m ula do rei?
O cabo corou, e, entre os risos e as chacotas, Tom ás instou com gestos a Caridad para que fugisse.
Triana tam bém estava tom ada pelo exército real. Grande parte da tropa se achava no beco de San Miguel e na Cava Nueva, lugares em que vivia a m aioria dos ciganos, m as nem por isso deixava de haver patrulhas que continuavam percorrendo as ruas para o caso de algum haver escapado ou haver-se ocultado na casa de algum payo. O rei havia previsto duras penas para os que os aj udassem , e as denúncias anônim as, fundadas ou não, com eçaram a produzir-se com o fruto de velhas rixas entre vizinhos.
A Caridad só lhe ocorreu um lugar aonde ir, e para ali encam inhou seus passos: o convento de pregadores de São Jacinto. Mas as igrej as e os conventos tam bém eram obj eto de vigilância da parte dos soldados. Verificou-o ao entrar em Triana pela rua Castilla e passar diante da igrej a de Nossa Senhora do Ó. Caridad sem pre olhava com atenção aquela sóbria igrej a: não sabia de nenhum orixá encarnado na Virgem do Ó, m as Frei Joaquín lhe havia transm itido o afeto que ele m esm o sentia por aquele tem plo: “Sua construção se realizou exclusivam ente com as esm olas recolhidas pela Irm andade”, com entou com ela um dia. “Por isso é tão querida em Triana.” Caridad esquivou-se da patrulha de soldados postada diante da fachada principal da igrej a, e ouviu um oficial discutir acaloradam ente com um sacerdote. O m esm o sucedia na paróquia de Santa Ana, e em Sancti Espiritus, nos Rem édios, na Vitória, nas Mínim as, nos Mártires ou em São Jacinto. O rei havia conseguido um a bula papal pela qual se perm itia a retirada dos ciganos refugiados em lugar sagrado, razão por que todos aqueles que haviam fugido e buscado a salvação no asilo eclesiástico estavam sendo retirados, não sem árduas discussões com os sacerdotes que defendiam os privilégios daquela atávica instituição de que tanto uso faziam os ciganos.
São Jacinto estava em pior situação que a igrej a do Ó. Dada a proxim idade do beco de San Miguel e da Cava Nueva, eram vários os ciganos que haviam buscado asilo naquele tem plo ante a entrada das tropas. Quase a totalidade dos vinte e oito frades pregadores que com punham a com unidade aglom erava-se j unto a seu prior, em penhado em im pedir o acesso ao tem plo em construção de um tenente que não fazia m ais que m ostrar-lhe a ordem do rei. Frei Joaquín não tardou a aperceber-se da presença de Caridad, j á que seu velho chapéu de palha se destacava entre a m ultidão que esperava para ver com o se resolvia a disputa. O j ovem religioso deixou seus irm ãos e correu para ela.
– Que aconteceu na ciganaria? – inquiriu antes até de chegar até ela; tinha as feições contraídas pela preocupação.
– Chegaram os soldados… Disparavam . Prenderam os ciganos…
– E Milagros?
O grito cham ou a atenção das pessoas. Frei Joaquín pegou Caridad pelo braço, e eles afastaram -se alguns passos.
– E Milagros? – repetiu.
– Não sei onde está.
– Que queres dizer? Estão detendo todos os ciganos. Detiveram -na?
– Não. Detida, não. Tom ás m e disse…
O suspiro de alívio que saiu de boca do religioso interrom peu suas palavras.
– Bendita sej as, Senhora! – exclam ou depois o frade erguendo os olhos para o céu.
– Que posso fazer, Frei Joaquín? Por que estão prendendo os ciganos? E Milagros, onde estará?
– Cachita, onde quer que estej a, estará m elhor que aqui. Tem certeza. Quanto a por que os detêm …
Os aplausos e vivas das pessoas interrom peram a conversa e os obrigaram a voltar-se para São Jacinto. O prior havia cedido, e três ciganos, várias crianças e um a cigana com um a de peito nos braços abandonavam a igrej a guardados pelos m ilitares.
– Prendem -nos por serem diferentes – sentenciou o frade quando os retirados j á se perdiam em direção à Cava. – Eu te posso assegurar que não são piores que m uitos dos que eles cham am payos.
Frei Joaquín não teve m aiores problem as para conseguir que um a devota fam ília de cam aroneiros da rua Ancha acolhesse Caridad durante alguns dias; algum as m oedas do pecúlio pessoal do religioso aj udaram na decisão. Caridad se instalou no alpendre que servia a um dim inuto horto localizado na parte traseira da casa do pescador. Sentada entre alguns velhos aparelhos para o cultivo das hortaliças e diverso m aterial de pesca am ontoado ali, ela pouco tinha para fazer além de fum ar e preocupar-se com Milagros. A hospitalidade daqueles “bons cristãos”, com o os apelidou Frei Joaquín, desapareceu assim que o fez o religioso.
No dia seguinte ao da detenção, toda Triana afluiu para presenciar a saída dos ciganos pela ponte de barcos. Misturada na m ultidão, Caridad viu Rafael García, o Conde, arrastar os pés com o olhar baixo, encabeçando um a longa fileira de hom ens e crianças m aiores de sete anos que cam inhavam atrás dele, todos am arrados a um a grossa corda. Seu destino: o cárcere real de Sevilha. Muitos dos cidadãos os insultavam ou lhes cuspiam . “Hereges!”, “Ladrões!”, gritavam à sua passagem , enquanto lhes lançavam o lixo e restos que se am ontoavam nas ruas. Caridad não conseguiu notar em nenhum deles a ironia que a surpreendera no dia anterior no horto. Agora todos j á sabiam quais eram as ordens reais: do cárcere os trasladariam para La Carraca, o arsenal m ilitar de Cádiz, onde seriam subm etidos a trabalhos forçados pelo resto da vida.
Além de im pedi-los de acolher-se a lugar sagrado e de confiscar-lhes os bens para vendê-los em leilão público e pagar os gastos da batida m ilitar, os soldados tam bém haviam despoj ado das cédulas de castelhanos velhos ou das provisões de vizinhança os que dispunham delas. Só com esses docum entos oficiais os ciganos podiam dem onstrar que não eram vagabundos ou crim inosos; despoj á-los deles – conquanto m uitos fossem falsos – significava que dali em diante nem sequer poderiam com provar sua identidade e seu estado. Da noite para o dia, a m aioria dos ciganos ferreiros do beco de San Miguel e m uitos outros que estavam havia anos trabalhando e convivendo com os payos, se havia convertido em delinquente.
No m eio da corda, Caridad reconheceu Pedro García, o am or im possível de Milagros. Que diria a m oça se o visse naquela situação? Os olhos de Milagros brilhavam na noite ao recordar dele, e ainda m ais porque o fantasm a de Alej andro j á havia deixado de atorm entá-la. Caridad tam bém viu José Carm ona, abatido, escondendo o rosto dos insultos.
Após os hom ens, apareceram as m ulheres, as m eninas e os varões m enores de sete anos, todos am arrados a cordas e vigiados pelos soldados quase m ais estritam ente que os hom ens. Caridad reconheceu Ana, a m ãe de Milagros, e tantas outras que conhecia do beco, algum as com seus pequenos nos braços. Sentiu um calafrio à passagem das ciganas: elas não haviam perdido seu orgulho. Não se calavam e devolviam cusparadas e insultos apesar de tam bém saberem o que as esperava: a reclusão por tem po indeterm inado num cárcere de m ulheres.
– Bruxas! – Caridad ouviu gritar.
Im ediatam ente, a corda se torceu e várias ciganas se abalançaram àquelas que as haviam insultado e que, presas de pânico, tentaram retroceder entre as pessoas que se esprem iam a suas costas; os soldados tiveram de esforçar-se para im pedi-lo.
Na confusão, Ana viu Caridad. Haviam -lhes chegado rum ores de disparos, m ortes e luta na ciganaria.
– E m inha m enina? – gritou.
Caridad estava atenta aos golpes dados pelos soldados.
– Negra! – agora Caridad a ouviu. – E Milagros?
Caridad se preparava para responder quando de repente se deu conta de que m uitos dos que a rodeavam estavam atentos a ela, com o se a recrim inassem por falar com as ciganas. Hesitou.
Não podia enfrentar as pessoas… m as Milagros… e Ana era sua m ãe! Quando levantou a cabeça, a corda j á se havia posto em m archa e ela só conseguiu ver as costas de Ana.
Por trás das pessoas que se aglom eravam em am bos os lados da rua, Caridad seguiu a corda a que iam am arradas as m ulheres. Adiantou-se a Ana e postou-se na Praça do Altozano, na prim eira fila, diante do castelo da Inquisição, onde era im possível que a cigana não se apercebesse de sua presença. Mas, quando a viu aproxim ar-se e os gritos e insultos da m ultidão aum entaram ao redor, o m edo voltou a apoderar-se dela.
Ana a viu. E a viu baixar a cabeça à passagem da corda.
– Aj udai-m e – instou então às m ulheres que a acom panhavam . – Tenho de chegar até aquela negra, até a negra de m eu pai, ali, à esquerda, não a vedes?
– A do tabaco? – perguntaram -lhe de m ais adiante na corda.
– Sim , essa m esm a. Tenho de saber de m inha filha.
– Poderás fum ar um charuto com ela – asseguraram -lhe de trás.
Assim foi. Quando Ana passava diante de Caridad, as ciganas se lançaram à esquerda e pegaram os soldados desprevenidos. A corda voltou a curvar-se, e algum as caíram no chão levando consigo até alguns m ilitares da frente. Ana as im itou e se lançou ao chão.
– Caridad! – gritou com voz firm e, caída a seus pés.
Ela reagiu ao tom im perioso.
– Aproxim a-te!
Ela o fez e se acocorou a seu lado.
– E Milagros? E m inha m enina?
Os soldados com eçavam a pôr ordem , uns levantando as caídas, outros interpondo-se entre as que perm aneciam em pé, m as as ciganas, atentas a Ana, resistiam e insultavam as pessoas, abalançando-se a elas vezes seguidas.
– Que sabes dela? – insistiu Ana. – Prenderam -na?
– Não – afirm ou Caridad.
– Está livre?
– Sim .
Ana fechou os olhos por um segundo.
– Encontra-a! Cuida dela! – rogou-lhe depois. – É só um a m enina. Procurai o avô e a proteção dos ciganos… se restarem . Diz-lhe que a am o e a am arei sem pre.
De repente, Caridad foi afastada violentam ente para trás pelo pontapé que um dos soldados lhe deu num om bro. Ana se deixou levantar e fez um gesto quase im perceptível para as dem ais m ulheres. A luta cessou, salvo da parte de um a m enina, que continuou dando pontapés num soldado.
Antes de voltar à sua posição na corda, Ana virou-se: Caridad havia caído no chão e tentava recuperar seu chapéu entre as pernas das pessoas. Havia pedido àquela m ulher que cuidasse de sua filha?, perguntou-se ao m esm o tem po que sentia um suor frio encharcar todo o seu corpo.