As Fábulas de Esopo Ilustradas
Fábula XVI
Juno e o Pavão
O Pavão foi ter com Juno muito queixoso, dizendo por que razão o Rouxinol havia de cantar melhor que ele e ter-lhe muitas outras vantagens. Disse Juno que não se agastasse; que por isso tinha ele as penas formosas, cheias de olhos, que pareciam estrelas.
— Isso não vale nada — replicou o Pavão —, antes queria saber cantar.
Juno respondeu:
— Não podes ter tudo. O Rouxinol tem voz, a Aguia, força, o Gavião, ligeireza, tu contenta-te com tua formosura.
Prova-se nesta Fábula o que ica dito no princı́pio da vida de Esopo; que não há ninguém completamente desamparado de natureza e sem graça particular; que Deus, autor da mesma natureza, criou os homens e repartiu por eles os seus dotes.
De uns faz valentes e de outros ligeiros; um é bom pintor, outro músico hábil, outro tem o seu dote no entendimento.
Ensina por isso esta Fábula que ninguém se ensoberbeça da graça particular de que é dotado, nem tenha inveja das boas obras do próximo, antes com tudo e por tudo dê louvores a seu Deus e Criador.