As Fábulas de Esopo Ilustradas
Fábula XVII
O Lobo e o Grou
Estava um Lobo a comer carne quando se lhe atravessou um osso na garganta, que o sufocava. Estando nesta a lição, pediu ao Grou que lhe valesse e que com o seu pescoço comprido lhe tirasse o osso da garganta e que seria recompensado. O Grou assim fez e tirou-lhe o osso. Estando livre o Lobo, pediu-lhe então o Grou uma parte do muito que antes lhe oferecera. Porém o Lobo respondeu-lhe:
— O ingrato! Não te agradeci já o bastante por te ter deixado meter a cabeça dentro na minha boca, onde facilmente poderia apertar os dentes e matar-te? Não me peças paga, pois tu é que me deves favor, e bem ingrato és em não reconheceres tão grande benefı́cio.
Calou-se o Grou, e icou muito arrependido do que izera, dizendo:
— Nunca mais por gente ruim meterei a cabeça e a vida em semelhante perigo.
Benefı́cios feitos a gente perdida são benefı́cios perdidos, e podem contar-se por malefı́cios quando puramente não se fazem por amor de Deus, que todos os bens tem o cuidado de pagar. A homem desagradecido, quanto fazeis por ele tudo perdeis, e às vezes com palavras vos carrega, mostrando que sois vós o devedor, como este nosso Lobo fazia.