As Fábulas de Esopo Ilustradas
Fábula LXX
O Lobo e o Burro doente
Estando o Burro maldisposto, foi o Lobo visitá-lo, fazendo-se muito seu amigo. Tomou-lhe o pulso, passou-lhe a mão pelo rosto e disse que queria curá-lo. O Burro estava quieto, bem desejoso de se ver a cem léguas do Lobo, o qual lhe apalpava os membros todos. Perguntou onde lhe doı́a, e apertava-o e arrepelava-o tanto, que disse o Burro:
— Onde quer que me pões a mão, logo aı́ me dói; mas rogo-te que te vás embora e que não me cures, que quanto tu te fores, icarei logo bom.
Nunca são os maus tão peçonhentos como quando encobrem a peçonha debaixo de mostras de amor. Porque a inal o Lobo é sempre mau; mas quando afaga é pior; e mostras de piedade no homem cruel são laços que arma para destruir o Burro que se ia nele.