As Fábulas de Esopo Ilustradas
Fábula XXVIII
A Raposa e o Corvo
Um Corvo apanhou um queijo, e, fugindo com ele, pousou em cima de uma árvore. Uma Raposa, ao vê-lo, desejou comer-lhe o queijo. Pôs-se então ao pé da árvore e começou a dizer ao Corvo:
— Vê-se bem que és formoso e gentil, e poucos pássaros haverá que te ganhem. Es bem-disposto e muito galante; se por acaso soubesses cantar, nenhuma ave se compararia contigo.
Envaidecido com estes elogios,e desejando fazer boa igura, o Corvo levantou o pescoço para cantar; porém, abrindo o bico, caiu-lhe o queijo. A Raposa apanhou-o e foi-se embora, icando o Corvo faminto e ciente da sua própria ignorância.
Os que se deixam convencer com palavras lisonjeiras, como eram as desta Raposa, não é de admirar que cometam os maiores desatinos, como o Corvo fez. Quem, sem ter qualidades, vê louvar-se, entenda que não são louvores, senão laços que lhe armam para o enganarem; porque palavras dóceis são sempre suspeitosas, e quanto melhor se aceitam, mais prejudiciais são. São engodo que o caçador faz para nos apanhar e por meio desse ardil vem a alcançar de nós o que desejava.