As Fábulas de Esopo Ilustradas
Fábula LXVII
O Veado e o Caçador
Estando um Veado a beber numa ribeira, viu nela re letidos os seus cornos e armação e as pernas delgadas; as pernas mal pareceram-lhe, e
icou pesaroso de as ter, mas por outro lado icou tão satisfeito com a
formosura dos cornos, que se fez soberbo de contente. Ainda não tinha saı́do da água, quando se apercebeu de um Caçador. Foi obrigado a valer-se dos pés, que pouco antes desprezara e que agora o punham a salvo. Mas entrando por um arvoredo denso, embaraçavam-se-lhe os cornos nos ramos das árvores, com o que se atrapalhou e foi apanhado. Vendo-se preso e ferido, disse então:
— Que grande parvo fui; desprezei o que me era útil, fazendo muito caso do que me causou a morte.
A cegueira deste Veado sofrem-na todos os que têm bem-aventurança em haver coisas, que depois de alcançadas, ainda que no princı́pio nos alegrem, são depois causa da nossa destruição.
Portanto aprendamos a pedir a Deus que nos dê coisas com que o sirvamos e nos salvemos; porque ele sabe o que para cada um é bom, e nós não sabemos nada.