O Assassino Inglês
Capítulo 8
— Melhor.
— Devias tentar descansar um bocado hoje à noite, em vez de ficares aquelas horas todas sentado com os velhos na aldeia.
— Por quê?
— Porque tenho mais um trabalho para você.
— Terminei agora um trabalho. Por que não o dás a um dos outros?
— É muito delicado. — Tens um dossiê?
Orsati terminou o almoço e foi dar umas braçadas na piscina, nadando preguiçosamente, enquanto o Inglês lia. Quando acabou, olhou para Orsati.
— O que este homem fez para merecer morrer?
— Ao que parece, roubou uma coisa muito valiosa.
O Inglês fechou o arquivo. Não tinha qualquer pejo em matar alguém que ganha a vida a roubar. Na opinião dele, um ladrão era a forma de vida mais baixa da terra.
— Então, por que precisa ser eu neste trabalho?
— Porque os contratantes gostariam de ver o alvo morto e o negócio dele destruído. Os homens que o treinaram em Hereford ensinaram a usar explosivos. Os meus homens se sentem mais confortáveis com armas mais convencionais.
— E onde vou arranjar uma bomba?
Orsati saiu da piscina e esfregou vigorosamente o espesso cabelo prateado com a toalha.
— Conhece Pascal Debré?
Infelizmente, o Inglês conhecia Pascal Debré. Era um incendiário que trabalhava para uma organização criminosa de Marselha. Teria de lidar com Debré com cuidado.
— Debré já está a sua espera. Vai lhe dar o que precisar para o trabalho.
— Quando parto?
8
COSTA DE PRATA, PORTUGAL
A julgar pelas aparências, a mulher que se instalara no edifício do velho mosteiro recuperado, na colina íngreme com vista para o mar, jurara levar uma existência isolada própria de uma asceta. Durante muito tempo, ninguém na aldeia soube sequer o nome dela. A Sra. Rosa, a intriguista local que trabalhava como caixa na mercearia, decidiu que ela era uma mulher desprezada e infligia a sua teoria duvidosa a quem quer que tivesse o infortúnio de passar pela registradora dela. Tinha sido Rosa a batizar a mulher de Nossa Senhora da Encosta. A alcunha colou-se a ela, mesmo depois de o seu nome verdadeiro ter sido conhecido.
Vinha todas as manhãs à aldeia fazer as compras, deslizando pela colina abaixo na sua motoreta de um vermelho-vivo, com o rabo-de-cavalo loiro a esvoaçar como uma bandeira. Quando o tempo estava úmido, trazia um anoraque cor de cogumelo com capuz. Havia uma grande especulação acerca do país de origem dela. O seu português limitado tinha um sotaque muito forte. Carlos, o homem que cuidava dos terrenos e da pequena vinha da casa, achava que ela tinha o sotaque de uma alemã e a alma negra de uma judia de Viena. Maria, a mulher devota que lhe limpava a casa, decidiu que ela era holandesa. José, do mercado do peixe, achava que era dinamarquesa. Mas Manuel, o dono do café na praça da aldeia e o seu presidente da Câmara não oficial, resolveu a questão, como fazia normalmente.
— A Nossa Senhora não é alemã, nem austríaca, nem holandesa, nem dinamarquesa.
A seguir, esfregou os dois primeiros dedos no polegar, o símbolo internacional do dinheiro.
— A Nossa Senhora da Encosta é suíça.
Os dias dela tinham um ritmo previsível. Depois da visita matinal à aldeia, podia ser vista a nadar na sua piscina azul-escura, com o cabelo escondido debaixo de uma touca preta. A seguir, passeava, normalmente por entre os afloramentos escarpados de rochas no cume da colina, ou subindo o trilho empoeirado até as ruínas mouras. Ao final da tarde, começava a tocar violino — excepcionalmente bem, segundo aqueles que a tinham ouvido — numa sala vazia no segundo andar da casa. Uma vez, Maria espreitou discretamente lá para dentro e deparou-se com Nossa Senhora num estado febril, o corpo a baloiçar-se e a lançar-se de um lado para o outro, o cabelo úmido, os olhos completamente cerrados.
— A Nossa Senhora toca como se estivesse possuída por demônios — contou Maria a Carlos. — E sem pauta. Ela toca de memória.
Apenas uma vez, durante a noite de Santo Antônio, participou na vida social da aldeia. Pouco depois de anoitecer, enquanto os homens acendiam as grelhas a carvão e tiravam as rolhas ao vinho, deambulou pela colina abaixo, num vestido branco sem mangas e de sandálias. Pela primeira vez, não estava sozinha. Ao todo, eram catorze: uma cantora de ópera italiana, uma modelo francesa, um ator de cinema britânico, um pintor alemão — juntamente com as mulheres, namoradas, amantes e companheiras. A cantora de ópera e o ator de cinema fizeram um concurso para ver quem conseguia consumir o maior número de sardinhas grelhadas, a comida tradicional das festas. A cantora de ópera despachou com facilidade o ator, que se tentou então consolar atirando-se de forma desajeitada à modelo. A mulher dele esbofeteou-o com toda a força no centro da praça. Os aldeões portugueses, que nunca tinham visto uma mulher a esbofetear um homem, aplaudiram loucamente e a dança recomeçou. Mais tarde, concordaram todos que o bando de ciganos da casa na encosta tinha feito daquela festa a mais divertida de que havia memória.
Apenas Nossa Senhora parecia não se ter divertido. Para Carlos, ela parecia uma ilha de melancolia num mar de louca devassidão.
Debicou a comida; bebeu o vinho como se fosse uma coisa que esperavam que ela fizesse. Quando o belo pintor alemão se prostrou ao seu lado e a inundou de atenção, Nossa Senhora mostrou-se educada mas claramente indiferente. O pintor acabou por desistir e foi à procura de outra presa.
À meia-noite, exatamente quando a festa atingiu o ponto mais frenético, Nossa Senhora escapuliu-se e seguiu sozinha pelo trilho em direção à sua casa na encosta.
Vinte minutos depois, Carlos viu uma luz cintilar brevemente na sala no segundo andar. Era a sala onde Nossa Senhora tocava violino.
Com pouco mais para fazer naquele Verão, os habitantes da aldeia decidiram-se a descobrir finalmente o nome e a ocupação da misteriosa mulher da encosta. Carlos e Maria, as duas pessoas mais próximas dela, foram interrogados cuidadosamente mas não foram capazes de oferecer grande ajuda. Uma vez por mês, recebiam um cheque, enviado por correio registrado, de uma empresa de Londres chamada European Artistic Management. Devido às barreiras da língua e da classe social, a comunicação que tinham com a mulher era limitada aos cumprimentos mais simples. Mas foram capazes de fornecer um pedaço de informação crucial: Nossa Senhora tinha por hábito ausentar-se repentinamente e sem explicações. Rosa, a mulher da mercearia, conseguiu ver muito nisso. Chegou à conclusão de que Nossa Senhora era uma espiã e que a European Artistic Management não passava de uma fachada. O que mais poderia explicar a natureza sigilosa dela? Os desaparecimentos repentinos e os regressos ainda mais súbitos?
Mas, uma vez mais, foi Manuel quem resolveu a questão. Um final de tarde, quando o debate se encontrava ao rubro no café dele, esticou-se por baixo do balcão e exibiu um CD com gravações de várias sonatas em violino de Brahms. Na capa havia uma fotografia de Nossa Senhora.
— Ela se chama Anna Rolfe — proclamou Manuel triunfante. — A Nossa Senhora da Encosta é uma mulher muito famosa.
E também era uma mulher atreita a acidentes. Houve uma tarde em que perdeu o controle da motoreta e Carlos foi encontrá-la na beira da estrada, com um par de costelas quebradas. Passado um mês, escorregou na borda da piscina e partiu a cabeça. Apenas duas semanas mais tarde, perdeu o equilíbrio no alto das escadas e caiu aos trambolhões no patamar, acabando em cima da pá do lixo de Maria.
Carlos concluiu que, por alguma razão, à Nossa Senhora lhe faltava pura e simplesmente a capacidade para tomar conta de si própria. Não era uma mulher imprudente, apenas descuidada, e parecia não aprender nada com os erros anteriores.
— Seria muito mau para a reputação da aldeia se acontecesse alguma coisa a uma mulher tão famosa — concluiu Manuel, num tom grave. — Ela precisa que a protejam de si própria.
E por isso, silenciosa e cuidadosamente, Carlos começou a vigiá-la. De manhã, quando ela nadava na piscina, descobria trabalho para fazer perto dela para poder monitorizar os seus movimentos de um lado para o outro. Executava inspeções clandestinas regulares à motoreta dela para ter certeza de que estava a funcionar bem. Nos lugarejos minúsculos ao longo do cume da colina, criou uma rede de observadores, de maneira a que, sempre que Nossa Senhora saísse para fazer as suas expedições à tarde, ela estivesse sob vigilância constante.
As diligências dele tiveram os seus frutos. Foi Carlos quem descobriu que Nossa Senhora estava a fazer uma caminhada no cume da colina na tarde em que um vento poderoso irrompeu vindo do mar. Encontrou-a por entre os destroços de um desabamento de rochas, com a mão presa por um pedregulho de cinquenta quilos, e transportou-a, desmaiada, até a aldeia. Se não fosse Carlos, disseram os médicos em Lisboa, Anna Rolfe teria perdido sem dúvida a famosa mão esquerda. A sua reabilitação foi longa e dolorosa — para todo mundo. Durante várias semanas, o seu braço esquerdo esteve imobilizado por um gesso pesado em fibra de vidro. Por ela já não poder conduzir a motoreta, Carlos foi forçado a servir-lhe de motorista. Todas as manhãs, entravam no Land Rover branco dela e desciam a colina, aos solavancos, até a aldeia. Nossa Senhora permanecia em silêncio durante essas viagens, a olhar fixamente pela janela, com a mão ligada no colo. Uma vez, Carlos tentou animá-la com Mozart. Ela tirou o CD e atirou-o para o meio das árvores lá fora. Carlos nunca mais cometeu o erro de lhe tentar pôr música a tocar.
As ligaduras foram ficando progressivamente mais pequenas, até deixar, por fim, de precisar delas. O forte inchaço foi diminuindo e a mão regressou à forma normal. Só ficaram as cicatrizes. Nossa Senhora fazia os possíveis por escondê-las. Usava blusas de mangas compridas com punhos de renda. Quando dava voltas pela aldeia, a fazer as compras, tapava a mão por baixo do braço direito. O seu estado de espírito ficou ainda mais negro quando tentou voltar a tocar violino. Todas as tardes, durante cinco dias consecutivos, dirigiu-se para a sala de ensaios no segundo andar da casa. Todos os dias, tentava qualquer coisa básica — uma escala menor em duas oitavas, um arpejo — , mas até mesmo isso era demasiado para a sua mão estropiada. Pouco tempo depois, ouvia-se um grito de angústia, seguido de berros em alemão. Ao quinto dia, enquanto estava na vinha, Carlos viu Nossa Senhora a erguer o inestimável violino Guarnerí sobre a cabeça e a preparar-se para o atirar ao chão. Em vez disso, baixou-o até o peito e abraçou-o, a chorar. Nesse final de tarde, no café, Carlos contou a Manuel a cena que observara. Manuel foi buscar o telefone e pediu à operadora o número da empresa de Londres chamada European Artistic Management.
Quarenta e oito horas depois, chegou uma pequena delegação. Havia uma inglesa chamada Fiona, um americano chamado Gregory e um alemão inflexível chamado Herr Lang. Todas as manhãs, Gregory obrigava Nossa Senhora a executar várias horas de exercícios severos, de modo a recuperar a força e a mobilidade na mão. À tarde, Herr Lang ficava a vigiá-la na sala de ensaios, ensinando-a a voltar a tocar o instrumento. Lentamente, a sua perícia foi regressando, embora até mesmo Carlos, apenas o homem que cuidava da vinha, conseguisse perceber que ela já não era a mesma intérprete que tinha sido antes do acidente. Por volta de outubro, a delegação já tinha partido e Nossa Senhora estava outra vez sozinha. Os seus dias assumiram o ritmo previsível que tinham tido antes do acidente, ainda que ela tivesse agora mais cuidado ao andar na motoneta vermelha e nunca saísse para o cume da colina sem verificar primeiro a previsão do tempo.
Foi então que, no Dia de Todos-os-Santos, ela desapareceu. Carlos reparou no fato de ela, ao entrar no Range Rover e seguir para Lisboa, levar apenas um saco preto de couro para transportar roupa e não o violino. No dia seguinte, foi ao café e contou o que tinha visto a Manuel. Manuel mostrou-lhe uma notícia do International Herald-Tribune. O responsável pela vinha não sabia ler inglês, por isso Manuel encarregou-se da tradução.
— A morte de um pai é uma coisa terrível — afirmou Carlos — , mas homicídio... isto é muito pior.
— É verdade — respondeu Manuel, dobrando o jornal — , mas devias ouvir o que aconteceu à mãe daquela pobre mulher.
Carlos estava a trabalhar na vinha, a preparar as videiras para o começo do Inverno, quando Nossa Senhora regressou de Zurique. Ela parou por breves instantes na estrada, para soltar o cabelo e deixá-lo cair ao sabor do vento do mar, desaparecendo a seguir em direção à casa. Passado um momento, Carlos viu-a passar com grande rapidez pela janela da sala de ensaios. Não havia luzes acesas. Nossa Senhora ensaiava sempre no escuro.
Quando ela começou a tocar, Carlos baixou a cabeça e retomou o trabalho, as tesouras para a poda a ecoarem ritmadamente, ao mesmo tempo que o bater das ondas na praia em baixo. Era uma composição que ela tocara várias vezes — uma sonata mística e perturbante, supostamente inspirada pelo Diabo em pessoa — mas que desde o acidente lhe escapava. Carlos preparou-se para a explosão inevitável mas, passados cinco minutos, as suas tesouras ficaram mudas e ele olhou pela encosta em socalcos acima, em direção à casa. Naquela noite, ela tocava com tanta perícia que parecia haver dois violinistas lá e não apenas um.
O ar tinha ficado mais frio e uma fina neblina marítima subia sorrateiramente pela encosta da colina. Carlos deitou fogo ao seu monte de lixo e agachou-se junto às chamas. Ela estava a aproximar-se de uma parte difícil da composição, uma sucessão traiçoeira de notas descendentes — um trecho diabólico, pensou ele, sorrindo. Mais uma vez, preparou-se, mas nessa noite só a música explodiu, uma descida extenuante que terminou no encerramento tranquilo do movimento inicial.
Parou por alguns segundos e a seguir começou o segundo movimento. Carlos virou-se e olhou para a encosta. A luz cor de laranja do pôr do Sol banhava a casa. Maria, a empregada doméstica, estava na varanda a varrer. Carlos tirou o chapéu e segurou-o ao alto, à espera que Maria o visse — gritar ou qualquer espécie de barulho eram proibidos enquanto Nossa Senhora ensaiava. Passado um momento, Maria levantou a cabeça e a vassoura dela parou a meio caminho. Carlos esticou as mãos. O que achas, Maria? Vai ficar tudo bem desta vez? A empregada apertou as mãos e olhou para o céu, em admiração.
Obrigado, Deus.
Realmente, pensou Carlos, observando o fumo do fogo a dançar ao sabor do vento do final de tarde. Obrigado, Deus. Esta noite, as coisas estão bem. O tempo está ótimo, as videiras estão prontas para o Inverno e a Nossa Senhora da Encosta está a tocar outra vez a sonata dela.
Quatro horas depois, Anna Rolfe baixou o violino e colocou-o no estojo. Imediatamente, foi assaltada pela combinação única de exaustão e agitação que sentia no final de cada ensaio. Entrou no quarto e deitou-se em cima do edredom fresco, com os braços bem abertos, a ouvir o som da própria respiração e o vento noturno a sussurrar no beiral. Sentiu mais alguma coisa além da fadiga e da agitação; uma coisa que já não sentia há muito, muito tempo. Supôs que fosse satisfação. A sonata de Tartini sempre fora a composição pela qual era conhecida, mas desde o acidente que as complexas intersecções das cordas e as exigentes paragens duplas eram demasiado para a mão dela. Esta noite, tocara-a excepcionalmente bem pela primeira vez desde a recuperação. Sempre achara que o seu estado de espírito se refletia na forma como tocava. Fúria, tristeza, ansiedade — todas essas emoções eram reveladas quando encostava um arco às cordas de um violino. Perguntou-se a si mesma porque teriam as emoções despoletadas pela morte do pai permitido que ela voltasse a tocar a sonata de Tartini.
De repente, sentiu necessidade de atividade. Sentou-se reta, tirou a t-sbirt úmida e vestiu uma camiseta. Durante vários minutos, perambulou sem destino pelas divisões da casa, acendendo um aqui aqui e fechando uma persiana ali. Sentia o frio dos soalhos macios de terracota sob pés descalços. Como ela adorava este lugar, com as suas paredes caiadas e a mobília confortável tapada com lona. Era tão diferente da casa em Zúrichberg onde tinha crescido. As divisões eram grandes e abertas, em vez de pequenas e escuras, o mobiliário despretensioso e simples. Era uma casa honesta, uma casa sem segredos. Era a casa dela.
Na cozinha, serviu-se de um copo cheio de vinho tinto. Tinha sido comprado a um negociante de vinhos da zona; na verdade, algumas das suas próprias videiras tinham sido utilizadas na mistura. Passado um momento, o vinho acalmou-lhe o espírito. Era um segredinho sujo do mundo da música clássica: a bebida. Trabalhara com orquestras que tinham regressado dos intervalos para almoço tão impregnadas de álcool que era um milagre conseguirem sequer tocar. Espreitou para dentro do frigorífico. Praticamente não comera em Zurique e estava faminta. Salteou cogumelos e tomates em azeite e ervas aromáticas frescas da zona, depois adicionou três ovos batidos e juntou ainda queijo ralado. Após o pesadelo de Zurique, esta simples tarefa doméstica fê-la sentir um prazer desmedido. Quando o omelete ficou pronta, sentou-se num banco alto, junto ao balcão da cozinha, e comeu-o com o que restava do vinho a acompanhar. Foi então que reparou na luz a piscar no atendedor de chamadas. Tinha quatro mensagens. Há já muito tempo que tinha desligado o som do telefone, para evitar que a perturbassem enquanto ensaiava. Enfiou uma garfada de omeleta na boca e carregou no botão PLAY do atendedor.
A primeira mensagem era do advogado do pai em Zurique. Segundo parecia, tinha mais documentos para ela assinar.
— Seria conveniente enviá-los para a casa por serviço expresso durante a noite?
Sim, seria, pensou ela. Telefonar-lhe-ia de manhã.
A segunda chamada era de Marco. Há muito tempo, tinham estado noivos. Tal como Anna, Marco era um solista talentoso, mas era pouco conhecido fora de Itália. Nunca conseguira ultrapassar o fato de Anna ser uma estrela e ele não e tinha-a castigado dormindo com metade das mulheres de Roma. Depois de Marco, ela jurara nunca mais se apaixonar por um músico.
Soube do seu pai pelos jornais, querida Anna. Lamento imenso, meu amor. O que eu posso fazer? Precisas de alguma coisa de mim? vou apanhar o próximo avião. Não, não vais, pensou ela. Telefonaria a Marco de manhã, depois de terminar os assuntos com o advogado. Com um pouco de sorte, apanharia o atendedor e seria poupada à humilhação de ter de ouvir a voz dele em tempo real.
A terceira mensagem era de Fiona Richardson. Fiona era a única pessoa no mundo em quem Anna confiava totalmente. De cada vez que tropeçara, Fiona tinha estado lá para a pôr outra vez de pé.
Já chegaste a casa, Anna? Como foi o funeral? Um horror completo, com certeza. São sempre. Tenho andado a pensar em Veneza. Talvez fosse melhor adiarmos. Zaccaria vai compreender, e os teus fãs também. Ninguém pode esperar que uma pessoa volte a tocar tão cedo depois de uma coisa destas. Precisas de tempo para fazer o luto,
Anna... mesmo que despregasses tanto aquele velho sacana. Liga-me. Ela não ia adiar o recital de Veneza. Estava surpreendida por Fiona o ter sequer sugerido. Já tinha cancelado duas atuações. Tinham surgido ecos de descontentamento na imprensa e entre os maestros de orquestra e promotores de concertos. Se cancelasse uma terceira, os custos poderiam ser irreparáveis. Telefonaria a Fiona de manhã para lhe dizer que iria a Veneza dali a duas semanas.
A última mensagem: outra vez Fiona.
Mais uma coisa, Anna. Um Sr. muito simpático da embaixada de Israel passou pelo escritório há dois dias. Disse que queria entrar em contato com você. Disse que tinha informações sobre a morte do seu pai. Parecia completamente inofensivo. Talvez te interesse ouvir o que ele tem para dizer. Deixou um número. Tem uma caneta?
Fiona ditou o número.
Carlos tinha colocado uns troncos de madeira de oliveira na lareira. Anna acendeu as brasas e esticou-se no sofá, a observar as chamas a espalharem-se pela madeira. À luz da lareira, examinou a mão. As sombras tremeluzentes faziam as cicatrizes moverem-se.
Sempre partira do princípio de que a morte do pai lhe traria um qualquer tipo de paz interior — closure (encerramento), como os americanos gostavam tanto de dizer. Para Anna, ficar órfã parecia-lhe mais tolerável do que a alienação do afastamento. Esta noite, talvez pudesse ter conseguido encontrar a paz se a morte do pai tivesse sido a normal num velho. Em vez disso, tinha morrido baleado em casa.
Fechou os olhos e viu o funeral dele. Tinha decorrido na velha igreja Fraumünster, nas margens do rio Limmat. Os presentes pareciam espectadores numa reunião de acionistas. Parecia que estava ali todo o mundo financeiro de Zurique: as jovens estrelas e os peritos financeiros dos grandes bancos e casas comerciais, ao lado dos últimos contemporâneos do pai — a velha guarda da oligarquia financeira de Zurique. Alguns deles tinham lá estado vinte e cinco anos antes, no funeral da mãe.
Ao escutar os elogios que lhe eram prestados, Anna deu por si a odiar o pai por ter sido assassinado. Era como se ele tivesse conspirado para cometer um último cato que tornasse ainda mais dolorosa a vida dela. A imprensa tinha desenterrado notícias acerca das tragédias da família Rolfe: o suicídio da mãe, a morte do irmão na Volta à Suíça em Bicicleta, as lesões na mão dela. Uma Família Amaldiçoada era o cabeçalho do Nené Ziiricher Zeitung.
Anna Rolfe não acreditava em maldições. As coisas aconteciam por uma razão. Magoara a mão porque tinha sido tola o suficiente para ficar no cume da colina quando o céu enegreceu com nuvens de tempestade. O irmão morrera porque tinha escolhido de propósito uma profissão perigosa para contrariar o pai. E a mãe... Anna não sabia exatamente por que razão se tinha suicidado a mãe. Só o pai sabia a resposta a essa questão. Anna tinha a certeza de uma coisa. Ela suicidara-se por uma razão. Não era o resultado de uma maldição de família. Nem o assassinato do pai.
Mas por que razão tinha sido assassinado? Na véspera do funeral, ela tinha suportado um longo interrogatório da polícia de Zurique e de um agente dos serviços de segurança suíços chamado Gerhardt Peterson. O seu pai tinha inimigos, miss Rolfe? Tem conhecimento de alguém que pudesse querer fazer mal ao seu pai? Se tem alguma informação que nos possa auxiliar na nossa investigação, por favor diga-nos de imediato, menina
Rolfe. Ela sabia realmente coisas, mas não era o tipo de coisas que uma pessoa fosse dizer à polícia suíça. Arma Rolfe tinha achado sempre que eles faziam parte do problema.