O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 21 de 51

Páginas do PDF

O Assassino Inglês

Capítulo 22

Passados trinta segundos, as informações surgiram na tela do computador de Gerhardt Peterson, que pegou logo em seguida no telefone para pedir para se reunir urgentemente com Herr Gessler. Gerhardt Peterson não gostava de Emil Jacobi e Herr Gessler também não. A cruzada solitária de Jacobi contra a oligarquia financeira da Suíça tinha-se tornado cansativa e dispendiosa. Os dois homens concordaram que estava na hora de lidar com o professorzinho intrometido.

Na manhã seguinte, antes de sair do apartamento para ir trabalhar, Gerhardt Peterson fez um telefonema na privacidade do seu escritório. Não demorou mais do que dois minutos. O destino de Emil Jacobi, a consciência pesada da Suíça, tinha sido selado por via de uma transação financeira, a transferência de duzentos mil dólares para uma conta numerada em Genebra, controlada por Anton Orsati. Gerhardt Peterson considerou isso realmente apropriado.

22

COSTA DE PRATA, PORTUGAL

 

Na manhã seguinte, quando Gabriel chegou à casa de Anna Rolfe, ficou satisfeito por a ver a ser guardada por pelo menos quatro homens: um ao portão, o outro no ponto onde começavam as vinhas, um terceiro junto à fila das árvores e um quarto empoleirado no alto da colina. Shamron tinha enviado Rami, o seu guarda-costas taciturno, para supervisionar a missão. Cumprimentou Gabriel à entrada. Quando este lhe perguntou como estava a reagir Anna à equipe, Rami revirou os olhos — Vais ver não tarda nada.

Entrou na casa e seguiu o som do violino de Anna pelas escadas acima. A seguir, bateu à porta da sala de ensaios e entrou sem esperar por autorização. Ela rodou na cadeira, repreendeu-o por a interromper e depois começou a gritar com ele por lhe ter transformado a casa num campo armado. Enquanto as reprimendas dela iam subindo de intensidade, Gabriel olhou para baixo e tocou com os dedos nas ligaduras. Tinha começado a escorrer um fio de sangue. Anna também reparou nisso. Calou-se de imediato e levou-o até o quarto dela para lhe mudar os pensos. Ele não conseguiu evitar olhar para ela enquanto o assistia. A pele no início do pescoço estava úmida; as cordas do violino tinham-lhe deixado depressões minúsculas nas pontas dos dedos da mão esquerda. Não se lembrava de ela ser tão bonita.

— Belo trabalho — disse ele, examinando o que ela tinha feito.

— Entendo alguma coisa de curativos, Sr. Allon. Tem algo para dizer sobre o meu pai, não tem?

— A esta altura, mais perguntas que respostas. E, por favor, trate-me por Gabriel.

Ela sorriu.

— Tenho uma ideia, Gabriel.

Numa mochila de nylon, Anna embalou um almoço para comer em jeito de piquenique, com pão e queijo e galinha fria. Por último, juntou uma garrafa de vinho bem gelada, que embrulhou numa manta de lã antes de colocar na mochila. Rami entregou a Gabriel uma Bere a e um par de guarda-costas com ar de meninos. Nos trilhos à sombra da mata de pinheiros, com os paus-de-cabeleira providenciados por Rami sempre bem perto, Gabriel contou a Anna o que acontecera em Paris. Mas não lhe falou das conversas que tivera com Julian Isherwood e Emil Jacobi. Isso podia esperar.

As árvores terminaram e surgiram as ruínas, empoleiradas na superfície de uma encosta íngreme. Uma cabra selvagem pulou para cima de um penedo de granito, baliu-lhes e a seguir desapareceu no meio do tojo. Gabriel carregou a mochila aos ombros e seguiu Anna pelo trilho acima.

Observou os músculos das pernas dela a flectirem-se a cada passada e pensou em Leah. Uma caminhada num dia de Outono como este, vinte e cinco anos antes — só que nessa altura tinha sido numa encosta das Colinas de Golan* e as ruínas eram do tempo dos cruzados. Leah tinha pintado; Gabriel acabara de regressar da Europa e o seu desejo de criar tinha sido afugentado pelos fantasmas dos homens que matara. Tinha deixado Leah junto ao cavalete e subido até o topo da colina. Acima dele, encontravam-se as fortificações militares erigidas ao longo da fronteira com a Síria; abaixo, estendiam-se a Galileia Superior e as colinas onduladas do sul do Líbano. Perdido nos seus pensamentos, não tinha ouvido Leah a aproximar-se.

*Território sírio conquistado por Israel em 1967.

— Eles vão continuar a vir, Gabriel. Podes ficar aí sentado a olhar para eles para o resto da sua vida que vão continuar a vir à mesma.

E sem olhar para ela, Gabriel respondera:

Se eu dantes vivesse ali, na Galileia Superior, e agora vivesse ali em cima, num acampamento no Líbano, eu também viria.

O som de Anna a desdobrar a manta para o piquenique acabou com as recordações de Gabriel. Ela estendeu a manta por cima de um pedaço de erva à luz do sol, como Leah fizera naquele dia, enquanto Gabriel cumpria o ritual de tirar a rolha à garrafa de vinho. Os vigias de Rami ocuparam as suas posições: um no alto das ruínas, o outro no trilho em baixo. Enquanto arrancava a carne dos ossos da galinha, Gabriel mostrou-lhe a fotografia do homem que tinha deixado a pasta de diplomata na galeria.

— Alguma vez o viu? Ela abanou a cabeça. Gabriel guardou a foto.

— Preciso saber mais acerca do seu pai.

— O quê, por exemplo?

— Qualquer coisa que me possa ajudar a descobrir quem o matou e lhe roubou a coleção.

— O meu pai era um banqueiro suíço, Gabriel. Conheço-o enquanto homem, mas não sei quase nada acerca do trabalho dele.

— Então fale-me dele.

— Por onde é que devo começar?

— E que tal pela idade? A Anna tem trinta e oito anos?

— Trinta e sete.

— O seu pai tinha oitenta e nove anos. É uma diferença de idades bem grande. — Isso é fácil de explicar. Ele foi casado com outra pessoa antes da minha mãe. Ela morreu de tuberculose durante a guerra. Ele e a minha mãe conheceram-se dez anos depois. Ela era uma pianista bem dotada. Podia ter feito carreira a tocar, mas o meu pai nem quis ouvir falar nisso. Na opinião dele, os músicos estavam um degrau acima dos exibicionistas. Às vezes, pergunto-me o que os terá juntado em primeiro lugar.

— Havia crianças do primeiro casamento? Anna abanou a cabeça.

— E o suicídio da sua mãe?

— Fui eu que encontrei o corpo dela.

Hesitou por um instante e depois afirmou:

— Uma pessoa nunca se esquece de uma coisa dessas. Mais tarde, o meu pai disse-nos que ela tinha tido um passado de depressões. Eu amava muito a minha mãe, Gabriel. Éramos extremamente chegadas. A minha mãe não sofria de depressão. Não estava a tomar medicação nenhuma, não estava a ser vista por nenhum psiquiatra. Era uma pessoa de humores, era temperamental, mas não era o tipo de mulher que se suicida sem nenhuma razão. Alguma coisa, ou alguém, fez com que ela se suicidasse. Só o meu pai sabia o que era e manteve-nos isso em segredo.

— Ela deixou alguma nota de suicídio?

— De acordo com a investigação, não havia nenhuma nota. Mas eu vi o meu pai a tirar do corpo dela qualquer coisa que se parecia muitíssimo com uma nota. Nunca me mostrou e, pelos vistos, também nunca a mostrou à polícia.

— E a morte do seu irmão?

— Aconteceu um ano depois. O meu pai queria que ele fosse trabalhar para o banco e continuasse a tradição da família, mas o Max queria ser corredor de bicicleta. E foi exatamente isso que ele fez... e muito bem, na verdade. Era um dos melhores corredores da Suíça e um dos profissionais de maior prestígio na Europa. Morreu num acidente na Volta à Suíça. O meu pai ficou destroçado, mas, ao mesmo tempo, acho que sentiu, de certo modo, uma certa justificação. Porque era como se o Max tivesse sido castigado por se atrever a ir contra os desejos dele.

— E a Anna?

— Eu fiquei sozinha com ele. As duas pessoas de quem eu mais gostava no mundo tinham morrido e fiquei presa a um homem que detestava. Dediquei-me ao violino ainda com maior fervor. A combinação pareceu funcionar para os dois. Desde que eu estivesse a tocar, o meu pai não tinha de me prestar nenhuma atenção. Estava livre para fazer aquilo de que mais gostava.

— E que era?

— Ganhar dinheiro, claro. Achava que a fortuna dele o absolvia dos pecados. Era mesmo um imbecil. Desde o começo da minha carreira que as pessoas achavam que eu tocava com muita paixão.

Mas não perceberam que essa paixão era alimentada pelo ódio e a dor.

Gabriel abordou o assunto seguinte com cautela:

— O que sabe sobre as atividades do seu pai durante a guerra?

— Atividades? Isso é uma palavra interessante. O que está a tentar insinuar com isso?

— Eu não estava a querer dizer nada. Só que preciso saber se havia alguma coisa no passado do seu pai que pudesse ter levado ao homicídio dele. — O meu pai era banqueiro na Suíça durante a Segunda Guerra Mundial. — A voz dela ficara subitamente fria. — Isso não faz dele automaticamente um monstro. Mas para ser completamente honesta, não sei quase nada sobre as atividades do meu pai durante a guerra. Não era coisa que ele alguma vez discutisse conosco.

Gabriel pensou nas informações que Emil Jacobi lhe dera em Lyon: as viagens frequentes à Alemanha nazista; os rumores da ligação de Rolfe a membros importantes da hierarquia nazista. Teria conseguido realmente Rolfe manter todas essas coisas em segredo em relação à filha? Gabriel resolveu forçar um pouquinho mais o assunto com delicadeza.

— Mas tem as suas suspeitas, não tem, Anna? Nunca me teria levado com você para Zurique se não tivesse suspeitas acerca do passado do seu pai.

— Eu só sei uma coisa, Gabriel: a minha mãe cavou a própria sepultura, enfiou-se lá dentro e deu um tiro na cabeça. Aquilo que ela fez foi uma coisa odiosa e vingativa. E fez isso por uma razão.

— Ele estava a morrer?

A brusquidão desta última pergunta pareceu apanhá-la de surpresa, pois olhou para cima de repente, como se tivesse sido espetada por um objeto pontiagudo.

— O meu pai?

Gabriel acenou com a cabeça.

— Por acaso, Gabriel, sim, o meu pai estava a morrer.

Depois de a comida terminar, Gabriel serviu o que sobrava do vinho e perguntou a Anna sobre as proveniências dos quadros.

— Estão trancadas à chave na mesa do escritório do meu pai.

— Tinha medo que fosse dizer isso.

— Por que as quer ver?

— Quero olhar para a cadeia de transmissão de cada um dos trabalhos. A proveniência pode dizer-nos alguma coisa sobre quem os levou e o porquê de o seu pai ter sido morto.

— Ou pode não lhe dizer absolutamente nada. E lembre-se de uma coisa: o meu pai adquiriu aqueles quadros todos legalmente. Pertenciam-lhe, à parte qualquer peculiaridade que possa descobrir em relação à proveniência deles.

— Continuava a gostar de a poder ver.

— Vou mostrar-lhe onde é que elas estão.

— Não, vai dizer-me onde é que elas estão e eu vou buscá-las e trazê-las para aqui. Agora, já não pode ir para Zurique.

— Porque não?

— Porque não é seguro. O que me leva ao tema seguinte.

— E qual é?

— O seu recital em Veneza. — Não o vou cancelar.

— Neste momento, estar a atuar em público não é seguro.

— Não tenho outra escolha. Se não cumprir este compromisso, a minha carreira acaba.

— As pessoas que mataram o seu pai já tornaram muitíssimo claro que farão qualquer coisa para evitar que descubramos a identidade delas. E isso também incluiria matá-la a si.

— Então tem simplesmente de se assegurar de que eles não o conseguem fazer, mas vou tocar na próxima semana e não há nada que possa fazer para me impedir.

Colunas de nuvens de um cinzento metálico tinham surgido por cima do mar e começado a avançar em direção ao interior. Levantou-se um vento frio, que gemia nas ruínas.

Anna começou a tremer com o frio abrupto e cruzou os braços por baixo dos seios, com os olhos postos no tempo que se aproximava. Gabriel guardou os restos do almoço e, na escuridão crescente, desceram a colina devagar, seguidos pelos dois vigias silenciosos. Quando chegaram à mata dos pinheiros, começou a chover com grande intensidade.

Tarde de mais! — gritou Anna, sobrepondo-se ao barulho da chuva. — Fomos apanhados.