O Assassino Inglês
Capítulo 35
CÓRSEGA
A notícia do estado de espírito sombrio do Inglês espalhou-se rapidamente à volta do pequeno vale. No dia do mercado, deslocava-se em silêncio pela praça da aldeia, escolhendo sem qualquer prazer as suas azeitonas e os seus queijos. À noite, sentava-se com os mais velhos, mas evitava conversar e recusava-se a ser convencido a participar num jogo de malha, mesmo quando a sua honra era posta em questão. O Inglês andava tão preocupado que parecia nem reparar nos rapazes com os seus skates.
Sua direção tinha piorado incrivelmente. Era visto rompendo pela estrada do vale em seu jipe já bem estragado, em velocidades absurdas. Uma vez, foi obrigado a dar uma guinada para se desviar do desgraçado do bode de Don Casablanca e acabou numa vala na beira da estrada. Nessa hora, Anton Orsati interveio. Falou-lhe de uma rixa infame que ocorrera entre dois clãs rivais, devido à morte acidental de um cão de caça. Morreram quatro pessoas antes de a paz ter sido finalmente restabelecida — duas nas mãos dos taddunaghiu dos Orsati. Acontecera há cem anos, mas Orsati realçou que as lições daí retiradas ainda eram relevantes atualmente. O uso engenhoso que fez da história da Córsega funcionou na perfeição, como ele sabia que aconteceria. Na manhã seguinte, o Inglês presenteou Casablanca com um grande presunto e pediu desculpas por ter assustado o bode. Depois disso, a sua condução passou a ser visivelmente mais lenta.
Ainda assim, havia claramente qualquer coisa errada. Alguns dos homens da praça estavam tão preocupados que fizeram uma visita à siffiadora.
— Ele já não vem aqui há algum tempo. Mas quando acabar por aparecer, podem ter certeza de que não vou revelar os segredos dele, seus imbecis. Esta casa é como um confessionário. Ponham-se a andar, já!
E expulsou-os dali para fora com o pau da vassoura.
Don Orsati era o único que sabia a origem do estado de espírito negro do Inglês. Tinha sido a missão de Lyon; o professor suíço chamado Emil Jacobi. Qualquer coisa em relação a esse assassinato deixara um rasgão na consciência do Inglês. Don Orsati ofereceu-se para lhe arranjar uma garota — uma italiana encantadora que conhecera em San Remo — mas o Inglês recusou.
Três dias depois de o Inglês regressar de Lyon, Don Orsati convidou-o para jantar. Comeram num restaurante próximo da praça e, a seguir, passearam de braço dado pelas ruas estreitas da aldeia escura. Por duas vezes, apareceram moradores vindos das trevas, e, por duas vezes, viraram costas rapidamente e seguiram na direção contrária. Todos sabiam que, quando Don Orsati estava a falar em privado com o Inglês, o melhor era afastarem-se. Foi nessa hora que Don Orsati lhe falou da missão de Veneza.
— Se quiseres que envie um dos outros rapazes...
— Não — respondeu o Inglês depressa. — Eu faço isso.
— Tem certeza?
— Sim.
— Estava com esperanças de que dissesses isso. Nenhum dos outros é realmente capaz de um trabalho destes. Além disso, acho que vais gostar da missão. A nossa atividade tem uma longa tradição em Veneza. Tenho certeza de que vai achar o ambiente bem inspirador.
— Tenho certeza de que tens razão.
— Tenho um amigo lá chamado Rosse i. Vai dar-te a ajuda toda de que precisares. — Tens os dossiês?
Só um homem tão poderoso como Anton Orsati poderia deixar os dossiês relativos a duas pessoas que planeava assassinar no banco da frente de um carro, mas era assim a natureza da vida naquela aldeia da Córsega. O Inglês leu-os na praça, à luz de um poste. Quando abriu o segundo arquivo, uma expressão de reconhecimento passou-lhe pelo olhar e até Orsati foi capaz de a detectar. — Há alguma coisa de errado?
— Eu conheço este homem... de uma outra vida.
— E isso é um problema? " Ele fechou o arquivo.
— De maneira nenhuma.
O Inglês ficou acordado até tarde, a ouvir a fita de áudio que tirara do apartamento do professor, em Lyon. Depois, leu o monte de recortes de notícias e obituários que tinha juntado ao percorrer uma série de sites de jornais na Internet, seguido dos dossiês que Anton Orsati lhe acabara de entregar. Dormiu umas quantas horas; depois, na manhã seguinte, ainda antes do nascer do Sol, guardou um pequeno saco de viagem na bagageira e foi de jipe até a aldeia. Estacionou numa rua estreita perto da igreja e seguiu a pé até a casa onde a signadora vivia. Quando ele bateu à porta delicadamente, ela abriu as persianas da janela do segundo andar e espreitou para baixo, como uma gárgula. — Desconfiei que eras tu. O siroco está soprando. Traz com ele poeira e espíritos malignos.
— E qual deles eu sou?
— Consigo ver o occhju daqui de cima. Espera aí, meu filho. Não demoro nada. O Inglês fumou um cigarro enquanto esperava que a velha se vestisse e descesse. Apareceu à porta com um vestido todo preto, de viúva, e puxou-o para dentro pelo pulso, como se temesse que andassem por ali animais selvagens. Sentaram-se à mesa de madeira tosca, à frente um do outro. Ele acabou de fumar o cigarro enquanto a velha tratava do azeite e da água.
— Três gotas, embora tenha a certeza de que já sei a resposta.
O inglês molhou o dedo no azeite e deixou que caíssem três gotas dentro da água. Quando o azeite se despedaçou, a velha deu início à sua costumeira rotina de bênçãos e preces. Quando ele repetiu o teste, o azeite juntou-se numa só bola, ficando a boiar à superfície da água. Isso deixou a velha satisfeita.
— Mas que belo truque que tens para aí — disse o Inglês.
— Não é um truque. Mais do que qualquer outra pessoa, devias saber isso.
— Não quis ser desrespeitoso.
— Eu sei. Apesar de não seres corso de nascimento, tens a alma de um corso. És um verdadeiro crente. Queres beber alguma coisa antes de ires? Um bocado de vinho, talvez? — São seis da manhã.
A velha inclinou a cabeça, como que a querer dizer: E então?
— Devias estar em casa, na cama — disse ela. E a seguir, acrescentou: — Com uma mulher. Não com aquelas putas que o Don Orsati te traz. Uma verdadeira mulher, que te dê filhos e trate da roupa.
— As mulheres do Don Orsati são as únicas capazes de me quererem.
— Achas que uma mulher decente não te iria querer por seres um taddunaghiu?
O Inglês cruzou os braços. — Vou contar-te uma história.
Ele abriu a boca para protestar, mas, antes de poder sequer emitir algum som, já a velha se tinha levantado e estava a arrastar os pés a caminho da cozinha, para ir buscar o vinho. A garrafa era verde-escura e não tinha rótulo. A mão dela tremia enquanto servia dois copos.
— O meu marido tinha muito jeito de mãos — disse a signadora.
— Era sapateiro e pedreiro. De vez em quando, costumava trabalhar para o Don Tomasi no vale a seguir a este. Já ouviste falar do clã dos Tomasi? O Inglês fez que sim com a cabeça e deu um gole no vinho. Ainda eram sobejamente conhecidos pelos distúrbios que provocavam.
— O Don Tomasi contratou o meu marido para ele lhe construir um muro novo à volta do jardim. Era uma coisa bela, garanto-te, mas o Don Tomasi disse que era um trabalho defeituoso e recusou-se a pagá-lo. Discutiram com grande violência e o Don ordenou a um par dos seus pistoleiros que expulsassem o meu marido dali. Ainda lá está, aliás. — O muro à volta do jardim? — Exatamente!
A velha bebeu um pouco de vinho e preparou-se para contar o resto da história. — O meu marido era um bom trabalhador, mas era um homem gentil. Um agnello.
Conheces este termo?
— Um cordeiro.
A signadora acenou com a cabeça.
— Não era o tipo de homem que usasse os punhos ou uma faca para lutar. A notícia do tratamento que tinha recebido às mãos do Don Tomasi espalhou-se pela aldeia toda. O meu marido transformou-se numa fonte de gozo. Duas noites depois do incidente, foi levado a entrar numa luta na praça. Foi esfaqueado no abdômen e morreu.
Qualquer coisa brilhou no fundo dos olhos da velha. Raiva. Ódio. — Era evidente que era necessária uma vingança com derramamento de sangue — prosseguiu calmamente. — Mas de quem? Do imbecil que tinha assassinado o meu marido na praça? Não era esse o verdadeiro responsável pela morte dele. Quem tinha sangue nas mãos era o Don Tomasi. Mas como é que eu haveria de conseguir matar o Don Tomasi?
Ele vivia numa grande casa, no alto de uma colina, rodeado de cães ferozes e homens armados. Não havia hipótese de eu o conseguir matar! Então fui ter com o pai do Anton Orsati e contratei um taddunaghiu para fazer o serviço por mim. Custou-me todo o dinheiro que eu tinha, mas valeu bem a pena. O taddunaghiu infiltrou-se no reduto do Don Tomasi e cortou-lhe o pescoço enquanto ele dormia — matou-o como o porco que ele era. Estava feita justiça.