O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 25 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 26

A Anna vai voltar para Portugal.

— Não vou, não. Ou fazemos isto juntos, ou não o fazemos e pronto.

Pôs o carro em primeira.

— Para onde é que vamos?

26

LYON

 

Alguns homens podem ter pruridos em instalar em casa um sistema de gravação cativado por voz. O professor Emil Jacobi não era um deles. A sua vida era o seu trabalho e tinha pouquíssimo tempo para mais alguma coisa; com certeza que nada que ficasse gravado numa fita de áudio lhe poderia causar algum embaraço.

Recebia um fluxo regular de visitas no apartamento da Rue Lanterne: pessoas com memórias desagradáveis do passado; histórias que tinham ouvido acerca da guerra. Ainda na semana anterior, uma Sra. idosa lhe tinha falado de um trem que parara às portas da aldeia dela, em 1944. Ela e um grupo de amigos estavam a brincar no prado junto à linha férrea quando ouviram gemidos e arranhadelas a virem dos vagões de carga. Quando se aproximaram, viram que havia pessoas no trem: pessoas de ar miserável e desgraçado, a implorarem comida e água. Nesse momento, a Sra. idosa percebeu que essas pessoas eram judeus — e que o país dela tinha permitido aos nazistas utilizar os seus caminhos-de-ferro para enviar carga humana para os campos da morte no Leste. Se Jacobi tivesse tentado documentar a história dela tirando apontamentos, não teria conseguido apanhar tudo. Se lhe tivesse posto um gravador à frente, talvez ela se tivesse sentido constrangida. A experiência de Jacobi dizia-lhe que a maior parte dos idosos ficava nervosa ao pé de gravadores e de câmeras de vídeo. E por isso, tinham-se sentado no conforto apinhado do apartamento dele, como velhos amigos, e a Sra. contara a sua história sem a distração de um bloco de notas ou de um gravador visível. O sistema secreto de Tacobi tinha apanhado tudo o que ela dissera.

Nesta hora, o professor estava ouvindo uma fita. Como de costume, o volume bem alto. Tinha percebido que isso o ajudava a concentrar-se, já que servia para ocultar o barulho da rua e dos estudantes que viviam no apartamento do lado. A voz que saía do gravador não era a da Sra. idosa. Era a voz de um homem: o homem que aparecera na véspera. Gabriel Allon. Uma história espantosa, a de Augustus Rolfe e da sua coleção de quadros desaparecida. Jacobi prometera ao israelense que não falaria a ninguém da conversa que tinham tido, mas quando a história fosse conhecida, como Jacobi sabia que acabaria por acontecer, estaria em ótima posição para escrever sobre ela. Significaria mais um olho negro para os inimigos mortais de Jacobi, a oligarquia financeira de Zurique. A popularidade dele no próprio país desceria ainda mais fundo. Isso deixava-o satisfeito. Limpar esgotos era um trabalho sujo.