O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 19 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 19

Desde então, o Inglês nunca mais fora capaz de confiar numa mulher. Anton Orsati compreendia isso. Uma vez por semana, trazia uma garota para a casa do Inglês — nada de garotas da Córsega, apenas garotas francesas, que eram trazidas especialmente de avião com a tarefa de satisfazer as necessidades específicas do Inglês. E ficava à espera, com os velhos paesanu mais à frente na estrada do vale, até que o Inglês terminasse. Para este, ir para a cama com as garotas de Orsati era um cato tão frio e impessoal como um assassinato, mas fazia-o porque não confiava em si mesmo o suficiente para escolher uma amante, nem estava ainda preparado para viver como um monge eremita.

A missão de Paris intrometeu-se nos seus pensamentos. Havia uma coisa que o estava a incomodar — o homem que entrara na galeria mesmo antes de a bomba explodir.

O Inglês era produto de uma unidade de elite e, por isso, capaz de perceber essa mesma influência nos outros: o andar leve; a combinação subtil de confiança absoluta e vigilância constante. O homem fora um soldado em tempos — ou talvez uma coisa mais complexa.

Mas havia outra coisa. O Inglês tinha a sensação arreliadora de já ter visto o homem em algum lugar. E por isso ficou ali deitado, durante as horas que se seguiram, a passar em revista os inúmeros rostos armazenados na sua memória, à procura dele.

19

LONDRES

 

O atentado à bomba na Galeria Müller fizera mais do que criar um problema de segurança a Gabriel em Paris. Eliminara-lhe a única pista óbvia que tinha para o caso. Agora, tinha de recomeçar tudo do início e era por isso que, ao final da manhã seguinte, estava a atravessar Mason's Yard, a caminho da galeria de Julian Isherwood, por entre uma chuva miudinha.

Na parede de tijolo ao lado da porta, havia um painel e no painel havia dois botões, cada um com o seu respectivo nome: LOCUS TRAVEL e ISHERWOOD FINE ARTS. Gabriel carregou no segundo e esperou. Quando ouviu o apito elétrico, empurrou a porta, abrindo-a, e subiu as escadas: a mesma passadeira castanha e gasta, a mesma nódoa, que parecia uma mancha de um teste Rorschach, no terceiro degrau, onde um ressacado Isherwood entornara café na manhã a seguir à embriagada festarola de aniversário de Oliver Dimbleby no Mirabelle. No último patamar, havia duas portas, uma que dava para a galeria e outra que dava para uma pequena agência de viagens, com uma mulher vulgar sentada a uma mesa de diretora de escola, rodeada de cartazes que prometiam divertimento sem limites em locais exóticos. Olhou de relance para Gabriel, sorriu de uma forma triste e regressou ao bordado que a ocupava.

Apesar de Julian Isherwood se prender de modo pouco inteligente aos quadros que tinha em inventário, não fazia o mesmo em relação às garotas que lhe atendiam os telefones e lhe cuidavam dos arquivos assustadores. Contratava-as e fazia-as irem-se embora com a regularidade das estações do ano. Por isso, Gabriel ficou surpreendido por ver Irina, uma autêntica mulher leopardo de cabelos pretos que Isherwood contratara há seis meses, ainda no seu posto, à mesa na sala de espera. A porta que separava a sala de espera do escritório de Isherwood estava ligeiramente entreaberta. Ele estava a atender um cliente. Gabriel conseguiu ver um quadro apoiado no pedestal preto coberto de feltro. Pela aparência, de um Velho Mestre italiano; ninguém que Gabriel fosse capaz de reconhecer. Isherwood andava, lentamente, de um lado para o outro do tapete, por trás do quadro, com a mão no queixo e os olhos no chão, como um advogado à espera de uma resposta por parte de uma testemunha hostil.

— Ele gostava que o Sr. esperasse lá em cima, na sala de exposições — ronronou a garota. — Parto do princípio de que sabe o caminho.

Gabriel entrou no elevador minúsculo e subiu. A sala de exposições era um lugar de sombras, silencioso a não ser pela chuva que tamborilava na claraboia. Telas grandes com obras de Velhos Mestres estavam penduradas em cada uma das paredes: uma Vênus de Luini, uma natividade de dei Vaga, um baptismo de Cristo de Bordone, uma paisagem luminosa de Claude. Gabriel deixou as luzes apagadas e afundou-se pesadamente no divã coberto de veludo. Adorava esta sala. Sempre fora um santuário; uma ilha de paz. Uma vez, fizera amor com a mulher nesta sala. Anos mais tarde, planejara a morte do homem que lhe tinha tirado.

A porta do elevador abriu e Isherwood entrou na sala.

— Meu Deus, Gabriel, estás com um aspecto horrível.

— Isso é para ser um elogio?

— Mas que raio é que se passa? Por que é que não estás em Zurique?

— O dono do quadro que me mandaste limpar era um homem chamado Augustus Rolfe. Já ouviste falar dele?

— Oh, Deus do Céu... aquele que foi assassinado na semana passada?

Gabriel fechou os olhos e acenou com a cabeça.

— Descobri o corpo dele.

Isherwood reparou nas ataduras.

— O que aconteceu às tuas mãos?

— Ouviste falar na explosão de ontem na galeria de Paris?

— Claro, não se fala noutra coisa. Por certo que não estiveste envolvido nisso?

— Não, aconteceu simplesmente estar no lugar errado na hora errada. Vou contar-te tudo, Julian, mas primeiro preciso da sua ajuda.

— Que tipo de ajuda? — perguntou Isherwood com cautela.

— Nada como nos velhos tempos. Só preciso que me expliques por que teria um velho banqueiro suíço uma coleção de impressionistas franceses e pintura moderna escondida do mundo numa caixa-forte subterrânea.

Isherwood carregou no botão do intercomunicador.

— Irina, seja uma querida e traga-nos uma cafeteira de café para a sala de exposições, sim? E também uns quantos biscoitos daqueles. Dos que têm as nozes.

E não me passe nenhuma chamada, por favor. Porte-se bem.

Gabriel tinha um conhecimento básico da violação dos tesouros artísticos europeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Adolf Hitler tinha sonhado construir um gigantesco Führermuseum na sua terra natal, Linz, e enchê-lo com a melhor coleção do mundo de Velhos Mestres e de arte da Europa do Norte. Em 1938, iniciou uma operação secreta com o nome de código de Sonderauftrag Linz — Operação Especial Linz —, para adquirir arte para o Führermuseum por quaisquer meios necessários. Ao longo dos últimos meses de paz, os seus agentes foram fazendo, em segredo, o circuito dos museus, galerias e coleções privadas da Europa, selecionando obras para o futuro museu. Quando a guerra rebentou, os ladrões de arte de Hitler foram seguindo com grande vigor as pisadas da Wehrmacht. Centenas de milhares de quadros, esculturas e objetos de arte desapareceram rapidamente, muitos deles propriedade de judeus. Milhares de obras, num total avaliado aproximadamente em 30 biliões de dólares, continuavam desaparecidas. Gabriel sabia que Julian Isherwood podia pô-lo a par dos pormenores que faltavam. Ele era um negociante de arte acima da média que tivera a sua quota-parte de triunfos, mas no que dizia respeito à pilhagem nazista da Europa, era uma espécie de perito. Tinha escrito dúzias de artigos para jornais e publicações do meio e, cinco anos antes, coescrevera um livro bem aceite sobre o assunto. Apesar dos apelos do editor, tinha-se recusado terminantemente a revelar a sua motivação para se dedicar a esse tópico. Gabriel fazia parte do punhado de pessoas que sabia porquê: Julian Isherwood tinha vivido e sobrevivido a isso.

— Em 1940, Londres e Nova Iorque não interessavam — Começou Isherwood. — Paris era o centro do mundo da arte e o centro da cena artística de Paris era a Rue de la Boétie, no oitavo arrondissement. O famoso Paul Rosenberg tinha a galeria dele no número vinte e três, com a mulher, a bailarina russa Olga Koklova. Do outro lado da rua, ficava a galeria de Étienne Bignou. Georges Wildenstein tinha a galeria dele no número cinquenta e sete. Paul Guillaume e o Josse Hessel também lá estavam. — E o seu pai?

A Isakowi Fine Arts ficava ao lado da galeria do Paul Rosenberg. Vivíamos num apartamento por cima das salas de exposições principais. Para mim, o Picasso era o Tio Pablo. Eu passava horas no apartamento dele. Às vezes, deixava-me vê-lo a pintar. A Olga costumava dar-me chocolate e bolo até eu ficar enjoado. Era uma existência encantada.

— E quando os alemães vieram?

— Bom, entrou tudo em derrocada, não foi? A invasão dos Países Baixos começou no dia dez de maio. A catorze de Junho, já os alemães tinham entrado em Paris. Havia suásticas penduradas na Torre Eiffel e o Estado-maior alemão tinha-se instalado no Hotel Crillon. — Quando é que começaram os saques?

— Dois dias depois da marcha de vitória do Hitler por Paris, ele ordenou que todas as obras de arte propriedade de judeus fossem transferidas para mãos alemãs, para suposta custódia. Na realidade, tinha começado a pilhagem da França.

— Se me lembro corretamente, o Hitler montou uma organização para supervisionar o saque da França.

— Havia várias, mas a mais importante era uma unidade chamada ERR: a Einsatstab Reichsleiter Rosenberg. Era um empreendimento formidável. Tinha o seu próprio serviço secreto para caçar obras de arte, uma força de assalto para incursões e ataques e um grupo de historiadores de arte e avaliadores. Meu Deus, até tinha os seus próprios carpinteiros para encaixotar as obras saqueadas, antes de serem enviadas para a Alemanha.

— A Rue de Ia Boétie deve ter sido o primeiro lugar onde pararam.

— A ERR ia atrás dos negociantes e dos colecionadores. As coleções dos Rothschild foram capturadas juntamente com as casas. Tal como as coleções do magnata banqueiro judeu David David-Weill e do Jacques Stern. Todas as galerias da Rue de Ia Boétie que eram dos judeus foram assaltadas e as coleções capturadas, incluindo o inventário da Isakowi Fine Arts.

— E o seu pai conseguiu proteger algumas das obras dele?

— A maioria dos negociantes, incluindo o meu pai, tentou proteger as suas peças mais importantes. Esconderam-nas em casas senhoriais remotas, em caixas-fortes de bancos, ou enviaram-nas para fora do país. Mas as obras que ficaram por proteger foram apanhadas rapidamente pelos alemães. Antes da invasão, durante a drôle de guerre, o meu pai arrendou uma casa em Bordéus e. transferiu para lá as peças mais importantes dele. Fugimos para lá quando os alemães se começaram a aproximar de Paris. Quando a França foi dividida em Zona Ocupada e em Zona Não Ocupada, acabamos por ficar no lado de Vichy. Mas no Outono de 1940, uma força de assalto da ERR, com uma escolta policial francesa, arrombou-nos a porta da casa e capturou os quadros do meu pai.

— Como é que os alemães descobriram a coleção dele?

— Ele tinha cometido o erro de contar a um negociante francês aquilo que planeava fazer com os quadros. O francês passou a informação à ERR, a troco de um suborno equivalente a cinco por cento do valor da coleção do meu pai. C'est la vie.

Gabriel sabia o que tinha acontecido a seguir e não fazia tenção de deixar que Isherwood o contasse de novo. Pouco depois de os alemães terem entrado na Zona Não Ocupada, perto do final de

1942, as SS e os seus aliados no governo de Vichy começaram a reunir os judeus para serem internados e deportados para os campos da morte. O pai de Isherwood contratou um par de contrabandistas bascos para fazer Julian, ainda criança, atravessar os Pirenéus até o santuário que era a Espanha. A mãe e o pai ficaram para trás, na França. Em 1943, foram presos e enviados para Sobibor, onde foram imediatamente assassinados. Isherwood estremeceu com violência.

Temo que esteja a sentir uma bebida a aproximar-se. Levanta-te, Gabriel. Um bocado de ar fresco vai fazer-nos bem aos dois.

Viraram a esquina, entraram num bar em Jermyn Street e sentaram-se ao lado de um aquecedor a gás a silvar. Isherwood pediu um copo de Médoc. Tinha os olhos postos nas chamas mas a cabeça continuava na França do período da guerra. Como uma criança a entrar sorrateiramente no quarto dos pais, Gabriel intrometeu-se com delicadeza nas memórias dele.

— O que acontecia aos quadros depois de serem confiscados?

— A ERR requisitou à força o Musée deu de Paume e utilizou-o como armazém e local de triagem. Um grande grupo de pessoas trabalhava dia e noite para catalogar e avaliar a quantidade enorme de arte que estava a cair em mãos alemãs. As obras que eram consideradas apropriadas para a coleção privada do Führer, para o projeto Linz ou para outros museus alemães — principalmente, Velhos Mestres e obras da Europa do Norte — eram encaixotadas e enviadas para a Pátria.

— E o resto? Os impressionistas e as pinturas modernas?

— Os nazistas consideravam tudo isso corrompido, mas não estavam dispostos a deixá-lo fugir sem extrair primeiro alguma coisa em troca. A maior parte das obras do século XIX e do século XX foi vendida para angariar dinheiro ou colocada de parte para ser utilizada em trocas.

— Que tipo de trocas?

— Pensa no Hermann Göring, por exemplo. Era dono de um grande pavilhão de caça, a sul de Berlim, à qual deu o nome de Carinhall, em homenagem à mulher, que tinha morrido, uma aristocrata sueca chamada Carin von Fock. O pavilhão continha uma das maiores coleções privadas da Europa e Göring utilizou o poder extraordinário que tinha para a aumentar substancialmente durante a guerra. Tratava as coleções do Jeu de Paume como se fossem o patio de recreio privado dele.

Isherwood bebeu o copo até o fim e pediu outro.

— Göring era um sacana ganancioso, sozinho, sacou mais de seiscentos quadros do Jeu de Paume, mas deu-se a um grande trabalho para fazer com que parecesse que as aquisições dele eram, pelo menos no papel, compras legais em vez de roubos descarados. Se o Göring queria uma obra, mandava-a avaliar especialmente, a um preço ridiculamente baixo, por um fonctionnaire escolhido a dedo. A seguir, ficava de imediato com ela e prometia enviar o dinheiro para uma conta especial da ERR. Na realidade, não pagava nada pelos quadros que levava de Paris.

— E eles acabavam em Carinhall?

— Alguns, mas não todos. Göring partilhava o mesmo desprezo de Hitler pelas pinturas modernas e impressionistas, mas sabia que elas podiam ser vendidas ou trocadas por peças mais ao gosto dele. Um dos negócios foi levado a cabo pelos agentes de Göring em Itália. Em troca de sete obras de Velhos Mestres italianos e de mais uma série de outros objetos de arte, Göring entregou nove quadros tirados do Jeu de Paume. Van Gogh, Degas, Cézanne, Renoir e Monet, só para nomear uns quantos todos roubados de coleções e galerias de judeus. Göring efetuou várias outras trocas semelhantes, envolvendo negociantes na Suíça.

— Fala-me da ligação com a Suíça.

— A neutralidade deixava os negociantes e colecionadores da Suíça numa posição única para tirar proveito da violação de Paris. Os suíços tinham autorização para viajar por grande parte da Europa e o franco suíço era a única moeda do mundo universalmente aceite. E não te esqueças de que lugares como Zurique transbordavam com os lucros da colaboração com o Hitler. Paris era o lugar para comprar arte pilhada, mas Zurique, Lucerna e Genebra eram os lugares para a descarregar. — Ou esconder?

— Mas é claro. As leis do segredo bancário faziam da Suíça um local de depósito natural para a arte pilhada. Tal como as leis que incidiam sobre a recepção de objetos roubados. — Explica-me as leis.

— Eram geniais e totalmente suíças, em termos de subtileza. Por exemplo, se uma pessoa se apodera de boa-fé de um objeto e esse objeto se vem a revelar roubado, passados cinco anos, é dela por direito.

— Mas que conveniente.

— Espera, há mais. Se um negociante de arte der por si na posse de uma obra roubada, é da responsabilidade do verdadeiro proprietário reembolsar o negociante, de modo a poder recuperar o seu próprio quadro.

— Então quer dizer que os negociantes e os colecionadores suíços podiam receber obras roubadas sem qualquer receio da lei ou de virem a perder dinheiro?

— Exatamente.

— E o que aconteceu a seguir à guerra?

— Os Aliados enviaram um perito em arte, chamado Douglas Cooper, para a Suíça, para tentar descobrir a verdade. Cooper chegou à conclusão de que centenas, se não mesmo milhares, de obras roubadas tinham entrado na Suíça durante a guerra. Estava convencido de que muitas delas estavam escondidas em caixas-fortes de bancos e depósitos de alfândega. Paul Rosenberg foi até a Suíça para dar ele mesmo uma vista de olhos. Numa galeria de Zurique, tentaram vender-lhe um Matisse que tinha sido pilhado da sua própria coleção. — Extraordinário! — exclamou Gabriel. — E o que o governo suíço fez, tendo em conta estas informações?

— Prometeu aos Aliados que iria colaborar através de um inquérito minucioso. Prometeu congelar todo o patrimônio alemão que tinha entrado no país durante a guerra e efetuar ao mesmo tempo um recenseamento dele. Não implementou nenhuma dessas medidas. Douglas Cooper sugeriu que se suspendessem as licenças de quaisquer negociantes que comerciassem arte pilhada. O governo suíço recusou fazê-lo. E, a seguir, a Federação Suíça dos Negociantes de Arte disse aos seus membros para não colaborarem. Em resumo, o governo suíço fez o que faz sempre. Protegeu os seus negócios e os seus cidadãos do olhar dos estrangeiros.

— E os negociantes como o Paul Rosenberg não tentaram recuperar os quadros deles nos tribunais?

— Alguns tentaram, mas estava tudo feito contra eles. Os suíços faziam com que fosse, para um estrangeiro, muito demorado e caro tentar recuperar bens de um cidadão suíço. Os suíços normalmente protegiam-se defendendo que estavam de boa-fé. E lembra-te de que a maior parte das obras de arte em questão foi roubada pelos nazistas em 1940. Chegados a 1945, segundo a regra dos cinco anos do direito suíço, o dono legítimo já não podia exigir nada, em termos legais.

Escusado será dizer que a maioria dos queixosos saiu de mãos a abanar.

— Achas que ainda lá está alguma coisa?

— Na minha opinião, Gabriel, a maior parte ainda lá está. Pelo pouco que me contaste, é provável que alguns desses quadros pudessem estar nas mãos do Augustus Rolfe.

— Agora já não.

Isherwood terminou o que restava do vinho e o seu olhar tornou a desviar-se para o aquecedor.

Acho que é a sua vez de te pores a falar, Gabriel. Conta-me tudo. E desta vez sem mentiras. Já estou demasiado velho para que me mintam.

Lá fora, estava outra vez a chover. No caminho de volta para a galeria, foram-se os dois abrigando debaixo do guarda-chuva de Isherwood, como quem vai num cortejo a chorar a morte de alguém. Gabriel tinha contado a Isherwood tudo, a começar pela descoberta do corpo de Rolfe e a terminar na explosão na galeria de Werner Müller, em Paris. Isherwood bebera mais dois copos de Médoc e os efeitos faziam sentir-se no modo descuidado como caminhava.

— Shamron — disse Isherwood, em voz baixa — , devia ter logo percebido que esse sacana tinha alguma coisa a ver com isto. Pensava que desta vez o tinham posto finalmente a pastar para sempre.

— Eles descobrem sempre uma razão para o fazer regressar ao cativo.

Dizem que ela é uma autêntica diva, a Anna Rolfe.

Tem os seus momentos.

— Se posso dar um conselhinho, caro rapaz, parta sempre do princípio de que ela sabe mais do pai e da coleção dele do que está dizendo. As filhas têm tendência a ser muito protetoras em relação aos pais, mesmo quando acham que os pais são uns sacanas completos.

— Vou tentar não me esquecer disso.

— Também pode ter sido apenas um roubo de arte comum.

— Deixaram um Rafael pendurado na parede da sala de estar e explodiram a galeria de arte que pertencia ao homem que supervisionava a coleção. Não me parece que haja algo comum no que aconteceu.

— Bem visto — reconheceu Isherwood. — De fato, dá a ideia de que as únicas coisas em que pode confiar, em todo este caso desgraçado, são os próprios quadros.

— Tenho imensa pena de ter de ser eu a dar-te esta notícia, Julian, mas a verdade é que os quadros não podem falar. Além disso, a coleção desapareceu. — Os quadros não podem falar, mas a proveniência deles pode. É evidente que o Augustus Rolfe levava a coleção dele muito a sério. Mesmo que tenha adquirido os quadros em circunstâncias menos do que perfeitas, terá sempre insistido em saber a proveniência de cada um deles. A proveniência, afinal de contas, é tudo.

— E se eu conseguir saber a proveniência?

— Então eu vou ser capaz de te dizer se ele era um colecionador legítimo ou se o sacana do velho estava sentado em cima de uma caixa-forte cheia de arte pilhada.

Gabriel planejara deixá-lo quando chegassem a Duke Street, mas Isherwood pegou nele pelo cotovelo e puxou-o para dentro da passagem que ia dar a Mason's Yard. — Vem comigo. Preciso te mostrar mais uma coisa.

Ao entrarem na galeria, Irina reconheceu os sinais reveladores de um almoço embriagado. Passou a Isherwood um monte de mensagens de telefone e foi fazer café. Já no seu gabinete, Isherwood abriu o cofre pessoal e tirou de lá dois artigos: um desenho de um rapaz e uma fotocópia de um documento antigo com várias páginas. Levantou o desenho para Gabriel o poder ver. — Parece-te familiar? — Não posso dizer que sim.

— O modelo sou eu. O artista é o Pablo Picasso. Trouxe-o comigo quando fugi da França. — E o documento?

— Também o trouxe. O meu pai deu-mo imediatamente antes de eu partir com os bascos. É uma lista pormenorizada de todos os quadros da coleção privada dele e do inventário profissional, escrito pela sua própria mão. Isto é uma cópia, é claro. O original já está num estado terrível.

Entregou a lista a Gabriel.

— Não sei até onde é que pensas levar esta coisa, mas se por acaso te cruzares com algum destes quadros, avisas-me, não avisas, minha flor?

Gabriel enfiou a lista no bolso do peito do casaco. — Para onde é que vais agora? — perguntou Isherwood.

— Não sei bem.

— Há um homem em Lyon com quem devias falar. Ele ajudou-me com umas quantas coisas quando eu estava a fazer pesquisa para o livro. Se o Augustus Rolfe tiver alguma porcaria debaixo das unhas, este homem saberá disso. Isherwood folheou o Rolodex e deu os números de telefone a Gabriel.