O Assassino Inglês
Capítulo 41
O efeito desse toque foi tão poderoso que Peterson nem reparou que ela tinha posto seu isqueiro muito perto do rosto. Foi então que ela apertou a trava e uma nuvem de uma substância química com cheiro doce lhe encheu os pulmões. A cabeça saltou para trás com um esticão e ele ficou olhando pasmo para a mulher, os olhos muito arregalados, quase sem compreender o que se passava. Ela jogou o cigarro no chão e tirou uma pistola da mala.
A pistola não era necessária, já que a substância química surtira efeito.
As pernas de Peterson transformaram-se em água, o hall começou a girar e sentiu o chão subindo a toda velocidade para abraçá-lo. Receou bater com a cabeça, mas antes que as pernas fraquejassem por completo, apareceu um homem no hall e Peterson caiu em seus braços.
Peterson viu o rosto de seu salvador de relance, ao ser arrastado do hall e jogado na parte de trás de uma van. Era um rosto de um rabino, sério e estranhamente afável. Peterson tentou agradecer, mas quando abriu a boca perdeu os sentidos.
41
MALLES VENOSTA, ITÁLIA
Gerhardt Peterson sentiu-se como se estivesse saindo das profundezas de um lago nos Alpes. Foi subindo, por entre camadas de consciência e bolsas de água fria, até o rosto romper a superfície e os pulmões se encherem de ar.
Deu por si não no lago nos Alpes do seu sonho, mas numa cave fria com um chão de terracota e paredes ásperas estucadas e caiadas. Por cima da cabeça dele, havia uma pequena janela, enfiada numa alcova, ao nível do chão, e através dela entrava uma luz fraca cor de siena. Por um momento, tentou orientar-se em termos de tempo e espaço. Foi então que se lembrou da mulher de cabelos escuros junto ao elevador; da artimanha com o cigarro; a mão dela a tocar na sua, enquanto ela lhe atirava com um sedativo para a cara. De repente, sentiu-se envergonhado. Como podia ter sido tão fraco? Tão vulnerável? Que sinais teria dado para eles o tentarem apanhar com uma mulher?
A dor latejante na cabeça era uma sensação completamente nova, algo entre um traumatismo e uma ressaca brutal. A boca parecia estar cheia de areia e tinha uma sede imensa. Só tinha as cuecas vestidas, os tornozelos e os pulsos estavam amarrados com fita adesiva e as costas nuas apoiadas à parede. O aspecto frágil do seu próprio corpo assustou-o. As pernas pálidas e sem pêlos esticadas à sua frente, os dedos dos pés virados para dentro, como as pernas de um moribundo. Uma camada de gordura pendia-lhe sobre a cintura das cuecas. Sentia um frio terrível.
Tinham-no deixado ficar com o relógio mas o vidro estava quebrado e ele já não dava as horas. Estudou a luz que vinha da janela e concluiu que era hora do pôr do Sol. Calculou as horas, embora até mesmo esse simples problema lhe pusesse a cabeça a latejar. Tinham-no apanhado pouco antes da meia-noite. Calculou que fossem cinco ou seis da tarde do dia seguinte. Dezoito horas. Teria estado inconsciente durante dezoito horas? Isso explicaria a sede e a insuportável rigidez das costas e articulações.
Interrogou-se para onde o teriam levado. A qualidade do ar e da água já não era suíça. Por um momento, temeu que o tivessem levado para Israel. Não, em Israel, estaria numa verdadeira cela, não numa cave. Ainda estava perto da Suíça. Na França, talvez. Ou na Itália. Os judeus gostavam do sul da Europa. Misturavam-se bem.
Havia outro cheiro, que ele demorou alguns momentos para identificar: incenso e sândalo, um perfume de mulher. E depois lembrou-se: à porta do elevador, em Zurique; a mão da mulher que lhe aplicara o sedativo. Mas por que motivo teria o perfume dela nele? Olhou para baixo, para a pele que lhe cobria a caixa torácica, e viu quatro riscos vermelhos: arranhões. A roupa interior tinha nódoas e sentia uma viscosidade extrema na virilha. O que lhe teriam feito? Dezoito horas, drogas poderosas...
Peterson caiu para o lado e ficou com a cara encostada ao chão de terracota. Fez força para vomitar. Não saiu nada, mas as náuseas eram intensas. Sentia-se enojado com a sua própria fraqueza. Subitamente, sentiu-se como um homem rico que fica em apuros num bairro pobre. Todo o seu dinheiro, toda a sua cultura e superioridade — a sua índole suíça — não significavam nada agora. Estava fora da proteção do seu Reduto Alpino. Estava nas mãos de pessoas que jogavam segundo regras muito diferentes.
Ouviu passos nas escadas. Entrou um homem, pequeno e escuro, com uma ligeireza que sugeria uma força escondida. Pareceu aborrecido por Peterson ter recuperado os sentidos. Tinha um balde prateado na mão. Agarrou nele com as duas mãos, levantou-o e atirou água gelada para cima de Peterson. A dor foi tão intensa que Peterson gritou involuntariamente. O homenzinho ajoelhou-se ao lado dele e espetou-lhe uma agulha hipodérmica na coxa, tão fundo que pareceu chegar ao osso, e, uma vez mais, Peterson deslizou tranquilamente para dentro do seu lago.
Quando era pequeno, Gerhardt Peterson tinha ouvido uma história sobre uns judeus que tinham vindo ter à aldeia da sua família durante a guerra. Agora, no seu coma induzido pelas drogas, voltava a sonhar com os judeus. Segundo a história, uma família de judeus, dois adultos e três crianças, entrara na Suíça vinda da França não ocupada. Um agricultor teve pena deles e ofereceu-lhes guarida num anexo minúsculo que tinha na sua propriedade. Um agente da polícia desse cantão soube que havia judeus escondidos na aldeia mas concordou em guardar segredo da sua presença. Mas houve alguém da aldeia que contatou a polícia federal, que, no dia seguinte, apareceu de surpresa na quinta e prendeu os judeus. O governo tinha como política expulsar os imigrantes ilegais e fazê-los regressar ao país através do qual tinham atravessado a fronteira suíça sem autorização. Aqueles judeus tinham entrado na Suíça pela região sul e não ocupada da França, mas foram levados até a fronteira com a França ocupada, diretamente para os braços de uma patrulha alemã que os esperava. Os judeus foram presos, postos num trem a caminho de Auschwi e gaseados.
De início, Gerhardt Peterson recusara-se a acreditar nessa história. Na escola, tinham-lhe ensinado que a Suíça, um país neutral durante a guerra, abrira as fronteiras aos refugiados e aos soldados feridos — que fora a Irmã da Caridade da Europa, um seio maternal no coração de um continente em tumulto. Foi até o pai e perguntou se a história dos judeus era ou não verdadeira. Primeiro, o pai recusou-se a falar nisso. Mas quando o jovem Gerhardt insistiu, o pai cedeu. Sim, respondeu, a história era verdadeira.
— E por que ninguém fala nela?
— Por que haveríamos de falar? Faz parte do passado. Não podemos fazer nada para alterar.
— Mas eles foram mortos. Morreram por causa de uma pessoa desta aldeia.
— Eles estavam aqui ilegalmente. Vieram para aqui sem autorização. E, além disso, Gerhardt, nós não os matamos. Os nazistas é que os mataram. E não nós!
— Mas, pai...
— Já chega, Gerhardt! Perguntou se era verdade e eu respondi. Está proibido de falar nisso outra vez.
— Por que, pai?
O pai não respondeu. Mas Gerhardt Peterson já sabia a resposta. Estava proibido de falar outra vez no assunto porque na Suíça não se fala das coisas desagradáveis do passado.
Peterson acordou com mais um balde de água fria em cima. Abriu os olhos e uma luz branca fortíssima cegou-o de imediato. Piscando os olhos, viu dois vultos parados à frente dele, o homenzinho do balde, parecido com um duende, e a alminha de aspecto mais afável que o tinha enfiado na van, em Zurique, depois de ter sido drogado pela mulher. — Acorda!
O duende atirou mais água gelada para cima de Peterson. O pescoço teve um espasmo violento e ele bateu com a cabeça com força na parede. Ficou estendido no chão, encharcado e a tremer.
O duende subiu as escadas pesadamente. O mais amável dos dois pôs-se de cócoras e olhou para ele com um ar triste. Peterson, quase a perder a consciência outra vez, confundia a realidade com os seus sonhos. Para Peterson, o homenzinho era o judeu da aldeia dele, cuja família tinha sido expulsa da França.
— Lamento — gemeu Peterson, o maxilar a tremer-lhe com o frio.
— Sim, eu sei — respondeu o homem. — Eu sei que lamenta.
Peterson começou a tossir, uma tosse horrível que lhe encheu a boca de expectoração e fluidos.
— Agora vai ver o grande chefe, Gerhardt. Isto só vai doer um pouquinho, mas vai limpar sua cabeça.
Mais uma injeção; dessa vez, no braço e dada com uma precisão clínica.