O Assassino Inglês

Daniel Silva · Capítulo 37 de 51

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O Assassino Inglês

Capítulo 38

— Seja o que for que decidir tocar, vai ser maravilhoso.

O olhar dela foi parar à pasta de manilha em cima da mesa de café.

— Por que fez isso?

— Fiz o quê?

— Por que escondeu as fotografias de mim quando entrei na sala? Por que não quer que eu o veja?

— Preocupe-se com O Trilo do Diabo e eu preocupo-me com o homem da pistola.

— Fale-me dele.

— Há coisas que não precisa de saber.

— Ele pode muito bem tentar matar-me já amanhã à noite. Tenho o direito de saber alguma coisa acerca dele.

Gabriel não podia rebater isso e por isso contou-lhe tudo aquilo que sabia.

— Ele anda mesmo por aí?

— Temos de partir do princípio que sim.

— Bastante interessante, não acha?

— O quê?

— Ele consegue mudar de voz e de aspecto a seu bel-prazer e desapareceu no deserto, no Iraque, por entre fogo e sangue. Parece-me ser o Diabo.

— Ele é um diabo.

— Então vou tocar-lhe a sonata dele. E depois pode mandá-lo para o inferno.

 

38

 

VENEZA

 

Ao final da tarde do dia seguinte, o Inglês caminhava ao longo de Calle della Passion, com o campanário gótico da igreja Frari a elevar-se à sua frente. Foi cortando por entre um emaranhado de turistas, mudando a posição da sua cabeça habilmente, de modo a evitar os chapéus-de-chuva deles, que se agitavam como alforrecas à deriva na maré. Na praça, havia um café. Pediu um café e espalhou os guias turísticos e os mapas em cima da pequena mesa. Se houvesse alguém a olhar para ele, partiriam do princípio de que era apenas mais um turista, o que para o Inglês servia às mil maravilhas.

Já andava a trabalhar desde o início da manhã. Pouco depois do pequeno-almoço, saíra do hotel, em Santa Croce, com os mapas e os guias turísticos na mão, e passara várias horas a deambular por San Marco e San Polo, a memorizar as suas ruas, pontes e praças — Como o tinha feito antes, numa vida anterior, na parte ocidental de Belfast. Tinha prestado especial atenção às ruas e canais à volta da igreja Frari e da Scuola Grande di San Rocco — fizera um jogo consigo mesmo, andando em círculos por San Polo até que, de forma intencional, acabava por se perder. A seguir, regressava até a igreja Frari, testando-se com o nome das ruas, à medida que ia avançando. No interior da scuola, passou uns quantos minutos na sala do rés-do-chão, fingindo que admirava os enormes Tintore os, mas na realidade estava mais interessado na comunicação entre a entrada principal e a escadaria. Depois, subiu e deixou-se ficar por uns momentos na sala de cima, a localizar a posição aproximada no chão onde se esperava encontrar sentado durante o recital. Rosse i tinha razão; mesmo do fundo da sala, um profissional não teria problemas em matar a violinista com a Tanfolglio.

No café, olhou para o relógio: passavam poucos minutos das cinco da tarde. O recital estava marcado para as oito e meia da noite. Tinha de tratar ainda de uma última coisa antes disso. Pagou a conta e atravessou a escuridão que aumentava, em direção ao Grande Canal. Pelo caminho, parou numa loja para homens e comprou um blusão novo, preto, de nylon e acolchoado, com uma gola de bombazina. Era um estilo que estava muito na moda em Veneza, naquela estação; ao longo do dia, tinha visto dúzias de blusões exatamente iguais. Atravessou o Grande Canal por traghe o e foi ter à loja do Signore Rosse i, em San Marco. O pequeno joalheiro estava atrás do balcão, a preparar-se para fechar tudo e dar o dia por encerrado. Uma vez mais, o Inglês seguiu-o até o escritório, subindo as escadas que rangiam.

— Preciso de um barco.

— Isso não vai ser problema. Para quando é que o quer?

— Imediatamente.

O joalheiro afagou a face.

— Conheço um rapaz. Chama-se Angelo. Tem um táxi-aquático. Muito cuidadoso, muito fiável.

— Não é do gênero de fazer perguntas desconfortáveis?

— De todo. Já fez trabalhos destes antes.

— E consegue contatá-lo em cima da hora?

— Acho que consigo, sim. O que precisa que eu combine?

— Queria que ele ficasse à espera no Rio di San Polo, junto ao Museu Goldoni.

— Estou vendo. Sem problema, embora haja um custo adicional para serviço noturno. É o costume em Veneza. Um momento, por favor. Deixe-me ver se consigo achá-lo.

Rosse i encontrou o nome do homem na sua agenda telefônica e teclou o número. Após curta conversa, o serviço estava confirmado. Angelo estaria no Museu Goldoni dali a quinze minutos e ficaria lá à espera.

— Talvez fosse mais fácil se me pagasse a mim — disse Rosse i. — Eu cuido dos interesses do rapaz.

Uma vez mais, a transação foi efetuada em dólares, depois de Rosse i ter calculado o valor no seu bloco de apontamentos. O Inglês saiu da loja e foi a pé até um restaurante, em Calle delia Verona, onde jantou simplesmente uma sopa de vegetais e fe ucine com natas e cogumelos. Não foi o barulho alegre do pequeno restaurante que lhe encheu os ouvidos durante o jantar, mas sim a recordação da conversa que tinha ouvido na fita que tirara a Emil Jacobi a conversa entre o professor suíço e Gabriel Allon acerca dos pecados de um homem chamado Augustus Rolfe. O pai da mulher que o tinham contratado para matar.

Passados uns instantes, enquanto pedia o seu café expresso, aproveitou também para pedir um bocado de papel ao empregado. Escreveu umas quantas palavras nele e, a seguir, enfiou-o dentro do bolso. Depois do jantar, foi a pé até o Grande Canal e apanhou um traghe o que o iria levar até San Rocco. A explosão dos relâmpagos destruiu a deliberada calma do hall de entrada do Hotel Baglioni. As luzes enfraqueceram, resistiram e voltaram a brilhar com a intensidade inicial. O Signore Brune i, o gerente, apertou as mãos e murmurou uma prece de agradecimento.

Gabriel percorreu o hall de entrada à frente de Anna, em direção à doca. Jonathan seguia-os logo atrás. Deborah vinha logo a seguir, com o Guarneri numa mão e o Stradivarius na outra. O Signore Brune i ergueu a mão, num gesto de despedida, e desejou-lhe a maior das sortes. O restante pessoal soltou um aplauso discreto. Anna sorriu e tapou a cabeça com o capuz.

Estavam três táxis-aquáticos à espera na doca, os motores em ponto-morto, as proas escuras e envernizadas a reluzirem à chuva e com as luzes. Jonathan foi o primeiro a sair do hotel, seguido por Gabriel. Ao olhar para a direita, viu Moshe e Yi hak parados em cima da ponte de trabalhadores à entrada do Grande Canal. Moshe estava a olhar na direção contrária, os olhos fixos no ajuntamento de pessoas na paragem de vapore o de San Marco.

Gabriel virou-se e fez sinal a Anna para que saísse. Entregou-a aos cuidados do condutor do segundo táxi-aquático e depois seguiu-a para o interior da cabina. Jonathan e Deborah embarcaram no primeiro táxi. Moshe e Yi hak permaneceram na ponte até os táxis passarem por baixo dela.

A seguir, desceram os degraus e embarcaram no último dos barcos.

Gabriel olhou de relance para o relógio: sete e meia.

O Grande Canal atravessa o coração de Veneza, serpenteando como o S ao contrário de uma criança, no leito de um rio antigo. Seguindo as instruções de Gabriel, os táxis mantiveram-se no centro dele, percorrendo a sua longa e suave extensão ao longo de San Marco.

Gabriel ficou com Anna dentro da cabina, com as cortinas fechadas e as luzes apagadas. A bordo do primeiro táxi, Jonathan colocou-se na proa, ao lado do condutor, com os olhos em movimento. No terceiro, Yi hak e Moshe fizeram a mesma coisa. Dez minutos mais tarde, estavam os três completamente encharcados, quando os táxis viraram para o Rio delia Frescada.

Essa era a parte da viagem que mais preocupava Gabriel. O canal estreito iria forçar os táxis a abrandarem muito e havia quatro pontes entre o Grande Canal e a San Rocco. Era o local perfeito para um assassinato.

Gabriel puxou do celular e teclou o número de Jonathan. Anna apertou-lhe a mão.

Zaccaria Cordoni estava a andar de um lado para o outro, na sala do rés-do-chão da Scuola Grande di San Rocco, com um terno preto, o lenço de seda vermelho-escuro que era a sua imagem de marca e um cigarro por acender entre os dedos. Fiona Richardson, a empresária de Anna, seguia a seu lado.

— Onde é que ela está? — perguntou Cordoni. — Vem a caminho.

— Tem certeza?

— Telefonou-me antes de sair do hotel.

— Ela não vai desistir, pois não, Fiona?

— Ela vem aí.

— Porque se ela me fizer isso e desistir, vou fazer com que nunca mais atue em Itália.

— Ela vai estar cá, Zaccaria.

Foi nesse exato momento que Anna entrou na sala, rodeada pela equipe de Gabriel.

— Anna! Minha querida! — exclamou Cordoni, respirando de alívio. — Está absolutamente encantadora esta noite. Há mais alguma coisa que possamos fazer por si para tornar esta noite num êxito retumbante? — Gostava de ver a sala de cima antes de o público chegar. Cordoni estendeu a mão galantemente.

— Por aqui.

Anna já tinha atuado por duas vezes na San Rocco mas, para se manter fiel ao ritual anterior à sua atuação, passeou-se lentamente pela sala de espetáculos para se certificar de que tudo estava de acordo com o seu gosto — a colocação do palco e do piano, a disposição dos lugares, a iluminação.

Gabriel fez o mesmo, mas por uma razão bem diferente.

Quando a inspeção chegou ao fim, Cordoni fê-la passar por uma porta atrás do palco e entrar numa grande galeria com um soalho de madeira escura e tapeçarias nas paredes. Ligado a ela, ficava uma pequena sala privada que iria servir de camarim a Anna. Um segurança da Scuola estava de guarda à porta.

Tinha um blazer vermelho-borgonha.

— Mandei imprimir dois programas para a atuação desta noite — referiu Cordoni cuidadosamente. — Um com O Trilo do Diabo e outro sem ele.

As portas vão abrir daqui a cinco minutos.

Anna olhou para Gabriel e depois para Fiona Richardson.

— Não me parece que uma noite em Veneza ficasse completa sem Tartini. Distribua o programa com O Trilo do Diabo.

— Tem certeza, Anna? — perguntou Fiona.

— Absoluta.

— Como queira — respondeu Zaccaria Cordoni.

Depois de Cordoni e Fiona Richardson terem saído, Anna tirou o casaco e abriu o estojo do Guarneri. Quando Gabriel se sentou, Anna olhou para ele, pondo as mãos nas ancas.

— O que pensa que está a fazer?

— Vou ficar aqui com você.

— Não vai, não. Preciso ficar sozinha antes de uma atuação. Não o posso ter aqui a distrair-me.

— Lamento, mas esta noite vai ter de abrir uma exceção.

— Diga-me uma coisa, Gabriel. Se estivesse a restaurar um daqueles Tintore o ali fora, gostava de me ter a observá-lo por cima do ombro?

— Estou a ver onde quer chegar. — Ótimo... agora saia daqui.

Anna recebera um dom: a capacidade para bloquear toda e qualquer distração; a força para criar uma bolha impenetrável de silêncio à sua volta, para se fechar dentro de um casulo. Tinha descoberto esse dom na manhã do suicídio da mãe. Uma simples escala Sol menor em duas oitavas, o padrão ascendente e o descendente era o suficiente para a fazer atravessar um portal místico até um outro tempo e lugar. Infelizmente, a capacidade para criar esse lugar de silêncio perfeitamente ordenado não se estendia além do violino e Deus sabe que praticamente tudo o resto na vida dela tinha sido um caos.

Conhecera músicos que tinham acabado por começar a detestar os seus instrumentos. Anna nunca tinha feito isso. O seu violino era a âncora que a impedia de ser arrastada de encontro às rochas uma corda salva-vidas que a puxava em direção à segurança sempre que corria o risco de se afogar. Quando tinha o violino nas mãos, só aconteciam coisas boas. Era quando ela o largava que as coisas ficavam fora de controle.

Mas não aparecia automaticamente, esta redoma mística. Tinha de ser invocada. Pendurou o casaco nas costas de uma cadeira barroca e apagou o cigarro, esmagando-o. Tirou o relógio e largou-o dentro da mala. Nesta altura, não precisava do tempo — iria criar o seu próprio momento no tempo, um momento que iria existir apenas uma vez e que nunca iria ser duplicado.

Tinha decidido utilizar o Guarneri nessa noite. Parecia mais do que adequado, já que o instrumento tinha sido provavelmente montado duzentos anos antes numa oficina não muito longe de onde estava sentada nesse momento. Abriu o estojo e passou o indicador pelo instrumento: cabeça, braço, cavalete e corpo. Era uma Sra., este violino de Anna. Nobre e graciosa, sem defeitos nem falhas e. nenhuma cicatriz.

Tirou o violino do estojo e encostou-o ao pescoço, para que o botão pressionasse o ponto familiar poucos centímetros acima do ombro. O vestido dela não tinha alças; não gostava que houvesse nada entre o seu corpo e o instrumento. De início, o toque do violino na pele era frio, mas o calor do corpo dela espalhou-se rapidamente pela madeira. Colocou o arco na corda da nota Sol e tocou. O violino respondeu com um tom denso e ressonante. O tom dela. O tom de Anna Rolfe. A porta para o seu lugar místico estava agora aberta. Permitiu-se olhar uma única vez para a mão. As cicatrizes eram tão feias. Desejou que houvesse alguma coisa que pudesse fazer para as esconder. Logo a seguir, afastou esse pensamento da mente. Não era a mão que tocava o violino; era a cabeça que tocava. Os dedos obedeceriam ao cérebro.

Apagou as luzes, fechou os olhos e depois encostou o arco às cordas e tocou lentamente, extraindo sons do violino. Não executou nenhuma escala, não realizou nenhum exercício, não tocou nenhum excerto das composições que apresentaria nessa noite. Nessa altura, já não havia nada que pudesse fazer para se preparar ainda mais. As composições estavam tão embutidas nas suas células que tocá-las-ia não de cor mas por instinto. Agora, limitava-se a retirar sons do violino e permitia que estes lhe fluíssem pelo corpo. És só tu e eu, violino, pensou. Só tu e eu.

Conseguiu ouvir o murmúrio de uma conversa do outro lado da porta fechada. Desligou um interruptor dentro da cabeça e isso desapareceu. Através das paredes, o barulho baixo da sala de cima a começar a encher-se de espectadores ia-se infiltrando.

Ela desligou o interruptor e também isso desapareceu.

És só tu e eu, violino. Só tu e eu...

Pensou no homem nas fotografias de Gabriel, o assassino conhecido como o Inglês. Já tinha passado muito tempo desde a última vez em que fora capaz de confiar num homem. Calculou que a traição do pai — as mentiras que ele lhe contara acerca das razões para o suicídio da mãe — a tinha feito desconfiar de todos os homens. Mas, naquela noite, iria colocar a vida nas mãos de Gabriel Allon. O pai tinha posto em marcha um plano para tentar expiar os pecados terríveis que cometera. Fora assassinado antes de poder terminar o que tinha começado. Gabriel teria de terminar isso por ele. E Anna ajudá-lo-ia da única maneira que sabia — tocando o seu violino. Maravilhosamente.

A redoma começou a fechar-se à volta dela, a envolvê-la. Não havia nenhum assassino, nenhuma fotografia do pai com Adolf Hitler, nenhum Gabriel Allon.

Só ela e o seu violino.

Ouviu baterem levemente à porta. Instantaneamente, o arco de Anna parou. — Cinco minutos, miss Rolfe.

— Obrigado.

O arco deslizou pelas cordas uma vez mais. Os sons fluíram-lhe pelo corpo. O violino transformou-se em fogo ao tocar-lhe na pele. A redoma fechou-se à sua volta. Ela estava perdida. Passado pouco tempo, a porta estava aberta e ela ia a flutuar em direção à sala de cima. Ao entrar na sala, partiu do princípio de que houvesse aplausos — algo que sabia apenas devido à experiência e não graças a qualquer informação que estivesse a receber através dos seus sentidos. Não conseguia ver a assistência, nem a conseguia ouvir. Baixou a cabeça e esperou um instante antes de levantar o violino por cima do ombro e o encostar ao pescoço. A seguir, encostou o arco às cordas, hesitou e começou a tocar.

Gabriel fixou o seu posto de vigia por baixo da Tentação de Cristo de Tintore o. Lentamente, vasculhou a sala com os olhos. Pessoa após pessoa, rosto após rosto, passou a sala em revista, à procura do homem na fotografia.

Se o assassino estava ali, Gabriel não o via.

Verificou a disposição da equipe. Yi hak estava do outro lado da sala, diretamente à frente de Gabriel. A uma pequena distância, no alto da escadaria, encontrava-se Moshe. Shimon e liana percorriam os fundos da sala e a pouca distância de Gabriel, à sua direita, estava Jonathan, de braços cruzados, queixo no peito e olhar sombrio e atento.

Por um momento, permitiu-se olhar para Anna. Estava a tocar O Trilo do Diabo sem acompanhamento, como tinha sido a intenção de Tartini. O primeiro movimento foi estonteante — os trechos de uma melodia simples, a flutuar distantes, as sugestões de ornamentação barroca; a intromissão repetida da desconcertante paragem dupla em Mi bemol e Sol. O acorde do Diabo.